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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DAS GRANDES PROPRIEDADES RURAIS DA ANTIGUIDADE AO BRASIL E SUA INFLUÊNCIA NA ESTRUTURAÇÃO DAS CIDADES






1 INTRODUÇÃO



A terra, enquanto espaço produtivo e simbólico, constituiu elemento central na organização das sociedades humanas. Desde a Antiguidade clássica até o Brasil, as grandes propriedades rurais moldaram estruturas econômicas e sociais. No caso brasileiro, sua consolidação esteve associada às contribuições indígenas e africanas, frequentemente invisibilizadas pela historiografia tradicional¹.



2 DESENVOLVIMENTO


2.1 Estruturas agrárias na Antiguidade


Na Grécia Antiga, a produção agrícola sustentava a pólis². Pequenas e médias propriedades garantiam a autonomia alimentar das cidades-estado.

Posteriormente, na Roma Antiga, consolidaram-se os latifundia³, grandes propriedades voltadas à produção comercial. Essas unidades abasteciam a cidade de Roma e dependiam amplamente do trabalho escravo⁴.



2.2 A reorganização fundiária medieval


Com a fragmentação do Império Romano, a terra tornou-se o principal elemento de poder político e econômico. O sistema feudal estruturou-se em torno dos feudos⁵, compostos por terras do senhor e parcelas cultivadas por servos.

Ao redor dessas unidades produtivas surgiram vilas e burgos⁶, embriões do renascimento urbano europeu.



2.3 A formação das fazendas no Brasil e a contribuição indígena


Quando os portugueses chegaram ao território americano, encontraram sociedades indígenas com sistemas agrícolas consolidados⁷. Técnicas como o cultivo da mandioca e o uso da coivara⁸ foram incorporadas à economia colonial.

Os povos originários também desempenharam papel fundamental na abertura de caminhos, na orientação geográfica e na adaptação da produção agrícola ao clima tropical.



2.4 A matriz africana na consolidação das fazendas


A economia açucareira, mineradora e cafeeira estruturou-se com base no trabalho de africanos escravizados⁹. Contudo, esses grupos trouxeram conhecimentos agrícolas, metalúrgicos e culturais que marcaram profundamente a formação da sociedade brasileira¹⁰.

As fazendas tornaram-se espaços de resistência cultural¹¹, onde práticas religiosas, musicais e alimentares africanas foram preservadas e transformadas.



2.5 A transição rural-urbana no Brasil


No século XIX, com a expansão cafeeira em regiões como São Paulo e Minas Gerais, consolidou-se o capital agrícola que financiaria ferrovias e núcleos urbanos¹².

A cidade brasileira formou-se como espaço multicultural, resultado da interação entre matrizes europeias, indígenas e africanas.



2.6 Povos do Nordeste e do Vale do São Francisco: territorialidade, fazendas e formação urbana


No Nordeste colonial, especialmente na região do Vale do Rio São Francisco, a formação das fazendas esteve diretamente relacionada aos processos de ocupação territorial, expansão pecuária e reorganização dos povos indígenas locais.


O Vale do São Francisco constituiu eixo estratégico de interiorização da colonização portuguesa, articulando o litoral açucareiro com o sertão pecuarista. A pecuária expandiu-se ao longo do rio como atividade complementar ao açúcar, fornecendo carne, couro e animais de tração para os engenhos.


Nesse contexto, a formação de fazendas no interior nordestino não ocorreu em território vazio, mas sobre espaços tradicionalmente ocupados por diversos povos indígenas¹³. Entre esses povos destacam-se os grupos Kariri, que habitavam extensas áreas do sertão e do baixo São Francisco.


2.6.1 A Fazenda Urubumirim e a formação de Porto Real do Colégio


Segundo MATA (1989; 2014), a colonização da região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, está vinculada à formação da Fazenda Urubumirim, datada de 1675. Essa fazenda tornou-se núcleo estruturante da ocupação territorial na área, integrando-se ao movimento de expansão agropecuária no baixo São Francisco.


A implantação da fazenda articulava:


Exploração pecuária;


Controle territorial;


Catequese e política indigenista colonial;


Consolidação de estruturas administrativas.


A região também foi marcada pela presença de missões religiosas, que atuaram na reorganização dos povos indígenas locais sob o modelo colonial¹⁴. A dinâmica entre fazenda, missão e aldeamento configurou uma nova organização territorial.


Contudo, conforme demonstra MATA (2014), o processo não significou desaparecimento cultural, mas transformação e resistência. O povo Kariri-Xocó manteve estratégias de afirmação identitária e continuidade territorial mesmo diante da integração forçada ao sistema colonial.



2.6.2 Estrutura social e econômica no Vale do São Francisco


As fazendas do Vale do São Francisco apresentavam características específicas:


Predominância da pecuária extensiva;


Uso de mão de obra indígena e posteriormente africana;


Formação de redes comerciais fluviais;


Surgimento de núcleos populacionais ao redor das propriedades.


O rio São Francisco funcionava como via de circulação econômica e cultural¹⁵, conectando diferentes regiões do Nordeste. Ao redor das fazendas surgiam capelas, armazéns e povoados que, gradualmente, evoluíam para vilas e municípios.


A formação de Porto Real do Colégio insere-se nesse contexto histórico, em que a fazenda não era apenas unidade produtiva, mas núcleo de reorganização territorial e social.



3 CONCLUSÃO



A evolução das grandes propriedades rurais demonstra continuidade estrutural desde a Antiguidade até o Brasil. Entretanto, no contexto brasileiro, a formação das cidades foi resultado de um processo multicultural e assimétrico.


Reconhecer as contribuições indígenas e africanas permite compreender a urbanização brasileira não apenas como fenômeno econômico, mas como construção histórica marcada por resistência, adaptação e síntese cultural.


A análise histórica evidencia que as grandes propriedades rurais exerceram papel central na formação das cidades desde a Antiguidade. No entanto, no Brasil — e particularmente no Nordeste e no Vale do São Francisco — esse processo esteve profundamente vinculado à territorialidade indígena e à presença africana.


A Fazenda Urubumirim, fundada em 1675, representa exemplo concreto da transformação do espaço indígena em unidade produtiva colonial, ao mesmo tempo em que revela processos de resistência e continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.


Dessa forma, compreender a formação urbana de Porto Real do Colégio e de outras localidades nordestinas implica reconhecer a fazenda como espaço de disputa, adaptação e permanência histórica.



NOTAS DE RODAPÉ



¹ A historiografia tradicional priorizou a perspectiva europeia, reduzindo o protagonismo indígena e africano.

² Pólis: cidade-estado grega caracterizada por autonomia política e econômica.

³ Latifundia: grandes propriedades rurais romanas destinadas à produção comercial em larga escala.

⁴ O trabalho escravo em Roma era resultado, sobretudo, das guerras de expansão territorial.

⁵ Feudo: unidade territorial da sociedade medieval baseada na posse senhorial da terra.

⁶ Burgos: núcleos urbanos que surgiram próximos a castelos ou rotas comerciais medievais.

⁷ Antes da colonização, povos indígenas já praticavam agricultura diversificada e manejo ambiental sustentável.

⁸ Coivara: técnica agrícola indígena baseada na queima controlada da vegetação para fertilização do solo.

⁹ O tráfico atlântico trouxe milhões de africanos para o Brasil entre os séculos XVI e XIX.

¹⁰ Muitos saberes agrícolas africanos foram fundamentais para o sucesso da produção açucareira e cafeeira.

¹¹ Resistência cultural refere-se à preservação de práticas religiosas, linguísticas e comunitárias mesmo sob regime de opressão.

¹² A expansão ferroviária brasileira esteve diretamente ligada à economia cafeeira do século XIX.

¹³ O sertão nordestino era habitado por diversos grupos indígenas antes da expansão colonial portuguesa.

¹⁴ As missões religiosas tinham como objetivo catequizar e integrar os povos indígenas ao sistema colonial.

¹⁵ O Rio São Francisco foi importante eixo econômico, cultural e estratégico na interiorização do Brasil colonial.




REFERÊNCIAS




FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FINLEY, Moses I. A economia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1990.


FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.


MATA, Vera Lúcia Calheiros da. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. 2014. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DOS IMPÉRIOS COLONIZADORES E OS IMPACTOS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL






Introdução


A história da colonização constitui um dos fenômenos estruturantes da formação política, econômica e cultural do mundo antigo e moderno. Desde as primeiras expansões marítimas no Mediterrâneo até a colonização europeia da América, diferentes civilizações desenvolveram modelos próprios de ocupação territorial além de seus núcleos originários. Este estudo analisa, em perspectiva cronológica, os principais povos colonizadores da Antiguidade — fenícios, gregos e romanos — a ocupação da Península Ibérica e, posteriormente, a expansão ultramarina portuguesa, culminando na colonização do Brasil, com destaque para a Capitania de Pernambuco (Nova Lusitânia) e seus impactos estruturais.


Desenvolvimento Cronológico


1. As Primeiras Experiências Colonizadoras na Antiguidade


Os habitantes da região da Fenícia, a partir do século XII a.C., foram pioneiros na colonização marítima comercial. Estabeleceram entrepostos ao longo do Mediterrâneo, destacando-se a fundação de Cartago por volta de 814 a.C. Seu modelo consistia em colônias autônomas voltadas ao comércio.

Entre os séculos VIII e VI a.C., a Grécia Antiga expandiu-se pelo Mediterrâneo e Mar Negro. Fundou colônias como Massália (c. 600 a.C.), no sul da atual França. Diferentemente dos fenícios, as colônias gregas tornavam-se cidades independentes, mas preservavam vínculos culturais com a pólis de origem.

O Império Romano, a partir do século III a.C., consolidou um modelo distinto: a colonização militar e administrativa. Suas colônias serviam para fixar veteranos de guerra e assegurar domínio territorial nas regiões conquistadas.

O Egito Antigo, por sua vez, expandiu-se por conquistas militares na Núbia e no Levante, mas não desenvolveu um sistema amplo de colonização marítima.


2. A Península Ibérica: Espaço de Colonização e Conquista


A Península Ibérica tornou-se palco de sucessivas ocupações:

Século XI a.C.: presença fenícia, com fundação de Gadir (atual Cádiz).

Séculos VI–III a.C.: domínio cartaginês.

218 a.C.: início da conquista romana durante a Segunda Guerra Púnica.

711 d.C.: invasão islâmica e formação de Al-Andalus.

Esse processo moldou profundamente a cultura ibérica, cuja herança seria transportada posteriormente para a América.


3. A Expansão Ultramarina Portuguesa


A expansão portuguesa iniciou-se em 1415 com a conquista de Ceuta, marco da expansão atlântica. Ao longo do século XV, Portugal estabeleceu colônias e entrepostos na África, Ásia e ilhas atlânticas.

No Brasil, a colonização sistemática iniciou-se em 1534 com o sistema de Capitanias Hereditárias. A Capitania de Pernambuco, denominada Nova Lusitânia, foi criada nesse contexto, tornando-se um dos principais centros da economia açucareira.

Impactos da Colonização Portuguesa no Brasil


1. Impactos Culturais


Imposição da língua portuguesa.

Expansão do catolicismo.

Formação de cultura híbrida luso-afro-indígena.

Sincretismo religioso.

Transformação das estruturas culturais originárias.


2. Impactos Econômicos


Implantação do sistema de plantation.

Monocultura da cana-de-açúcar.

Escravização de povos africanos.

Economia voltada à exportação.

Estrutura fundiária concentradora.


3. Impactos Sociais


Formação de sociedade hierarquizada.

Violência e deslocamento de povos indígenas.

Estrutura social desigual, cujos reflexos permanecem na contemporaneidade.



Conclusão


A colonização constitui fenômeno histórico de longa duração. Dos fenícios aos romanos, o modelo de expansão territorial evoluiu conforme interesses comerciais, militares e políticos. A Península Ibérica, sucessivamente colonizada, tornou-se ela própria agente colonizadora na era moderna. A expansão portuguesa transplantou para o Brasil estruturas econômicas e culturais que moldaram profundamente sua formação histórica. Para os povos originários, como os Kariri-Xocó, esse processo significou ruptura territorial, resistência cultural e reinvenção identitária — elementos que permanecem vivos na memória e na tradição oral.




Referências


BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português (1415-1825). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002.


GRANT, Michael. História de Roma. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.


HINGLEY, Richard. O Imperialismo Romano. São Paulo: Annablume, 2010.

MATTOSO, José. História de Portugal. Lisboa: Estampa, 1997.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




A INFLUÊNCIA DO NORTE DE PORTUGAL NA FORMAÇÃO CULTURAL DA CAPITANIA DE PERNAMBUCO E DE ALAGOAS (SÉCULOS XVI–XVIII)






RESUMO


Este artigo analisa a influência cultural, social, religiosa e econômica das regiões do Norte de Portugal — especialmente Minho, Trás-os-Montes e Beira — na formação da Capitania de Pernambuco entre os séculos XVI e XVIII, incluindo o território que posteriormente formaria o estado de Alagoas. Examina-se a formação histórica do Norte português desde os povos celtas até a consolidação do Reino de Portugal, e sua projeção cultural na América portuguesa. Conclui-se que a matriz rural, católica e senhorial do Norte português foi elemento estruturante da sociedade colonial nordestina.


Palavras-chave: Colonização portuguesa; Norte de Portugal; Pernambuco colonial; Alagoas; Cultura luso-brasileira.


1 INTRODUÇÃO


A colonização do Brasil foi organizada pela Coroa portuguesa por meio do sistema de capitanias hereditárias, implantado em 1534. Conforme observa Prado Júnior (2000, p. 34), tratava-se de um modelo voltado à exploração econômica, estruturado “em grandes unidades territoriais entregues a particulares com amplos poderes administrativos”.

A Capitania de Pernambuco destacou-se como um dos principais centros da economia açucareira. Segundo Freyre (2003, p. 79), “foi em Pernambuco que se consolidou o modelo clássico do engenho patriarcal”.

Até 1817, o atual estado de Alagoas integrava essa capitania, estando Porto Real do Colégio sob jurisdição da Vila de Penedo, importante núcleo administrativo do Baixo São Francisco.


2 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO NORTE DE PORTUGAL


A cultura do Norte português formou-se por camadas históricas sucessivas.


2.1 Herança celta e romanização


Antes da dominação romana, povos célticos ocupavam o noroeste da Península Ibérica. Posteriormente, a romanização introduziu estruturas administrativas e jurídicas duradouras.

Holanda (1995, p. 21) afirma que a herança ibérica carrega “fortes marcas da tradição municipal romana”, elemento que influenciaria a organização das vilas no Brasil colonial.


2.2 Cristianização medieval


Com o domínio visigótico e a consolidação do cristianismo, estruturou-se uma sociedade rural fortemente marcada pela religião.

Segundo Mattoso (1995, p. 112), a formação do Reino de Portugal consolidou “uma sociedade de base senhorial e profundamente cristã”, característica que marcaria o expansionismo ultramarino.


2.3 Sociedade rural e patriarcal


Raymundo Faoro (2001, p. 53) destaca que a estrutura política portuguesa baseava-se na autoridade senhorial e na concentração fundiária, modelo que seria transplantado para o Brasil.

Essa matriz rural do Norte português foi fundamental na formação da sociedade açucareira pernambucana.


3 TRANSFERÊNCIA CULTURAL PARA PERNAMBUCO E ALAGOAS


3.1 Estrutura agrária e economia açucareira


A economia colonial nordestina organizou-se em grandes propriedades monocultoras.

Freyre (2003, p. 85) descreve o engenho como:

“um complexo econômico e social que reunia casa-grande, senzala, capela e lavoura, sob a autoridade patriarcal do senhor.”

Esse modelo apresenta paralelos com a estrutura rural do Norte português medieval.


3.2 Religiosidade


A religiosidade católica estruturava a vida comunitária.

Holanda (1995, p. 95) observa que a sociedade luso-brasileira manteve “uma religiosidade de caráter doméstico e familiar”, marcada por devoções a santos e práticas populares.

As festas de padroeiro, procissões e irmandades religiosas reproduziam padrões tradicionais portugueses.


3.3 Cultura e tradições


Joel Serrão (1985) destaca que o Norte português preservava forte tradição oral e comunitária, elemento que encontrou eco na formação cultural nordestina.

No Brasil, tais tradições fundiram-se com elementos indígenas e africanos, formando uma síntese cultural singular.


3.4 Introdução de animais domésticos


A colonização implicou a introdução de espécies europeias adaptadas à realidade colonial.

Prado Júnior (2000, p. 42) observa que a pecuária foi essencial para a expansão territorial, permitindo a ocupação do sertão nordestino.

Entre os animais introduzidos destacam-se:

Bovinos ibéricos

Cavalos ibéricos

Suínos

Caprinos

Ovinos

Aves domésticas

Essas espécies foram fundamentais para a economia açucareira e para a interiorização da colonização.


4 ALAGOAS NO CONTEXTO PERNAMBUCANO


O território alagoano permaneceu subordinado à Capitania de Pernambuco até 1817.

Segundo registros históricos, sua emancipação ocorreu no contexto da Revolução Pernambucana, quando a região adquiriu autonomia administrativa.

Assim, a formação cultural de Alagoas está diretamente ligada à matriz implantada em Pernambuco desde o século XVI.


5 CONCLUSÃO


A análise histórica demonstra que a sociedade colonial pernambucana — e, por consequência, alagoana — foi profundamente marcada pela cultura do Norte de Portugal.

A estrutura rural, patriarcal e católica dessa região, moldada por influências célticas, romanas e medievais, foi transplantada para o Brasil e adaptada ao contexto tropical.

No encontro com povos indígenas e africanos, essa matriz transformou-se, dando origem à identidade cultural nordestina, sem perder suas raízes luso-nortenhas.



REFERÊNCIAS


FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 48. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal (1096–1325). Lisboa: Editorial Estampa, 1995.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.


SERRÃO, Joel (org.). Dicionário de História de Portugal. Porto: Figueirinhas, 1985.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




domingo, 22 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO ANTROPONÍMICA DA PENÍNSULA IBÉRICA: PROCESSOS HISTÓRICOS, LINGUÍSTICOS E CULTURAIS NA ORIGEM DOS SOBRENOMES







RESUMO



O presente artigo analisa a formação antroponímica da Península Ibérica a partir de uma perspectiva histórica, linguística e cultural, considerando os processos de ocupação e miscigenação que moldaram a constituição dos sobrenomes portugueses e espanhóis. Com base em estudos onomásticos e historiográficos, investiga-se a contribuição de povos ibero-celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e judeus sefarditas na consolidação do sistema nominativo hereditário. Argumenta-se que os sobrenomes ibéricos constituem registros históricos vivos, refletindo transformações sociais, religiosas e políticas desde a Antiguidade até a expansão ultramarina.

Palavras-chave: Antroponímia. Onomástica. Península Ibérica. História Medieval. Sobrenomes.



1 INTRODUÇÃO


A antroponímia, ramo da onomástica dedicado ao estudo dos nomes próprios de pessoas, constitui importante instrumento para a compreensão das dinâmicas históricas e culturais de uma sociedade.

No caso da Península Ibérica, a formação dos sobrenomes está diretamente associada aos processos de conquista, colonização, reorganização política e imposição religiosa que marcaram a região ao longo de mais de dois mil anos.

Segundo Machado (2003), os sobrenomes portugueses resultam de um processo gradual de fixação ocorrido entre os séculos XII e XV, quando os nomes patronímicos, toponímicos e ocupacionais passaram a ser transmitidos hereditariamente. Esse processo, contudo, possui raízes muito anteriores, remontando às matrizes culturais pré-romanas e à posterior romanização.

Dessa forma, compreender a origem dos sobrenomes ibéricos implica reconstruir uma linha do tempo histórica que integra linguística, política e religião.



2 MATRIZES PRÉ-ROMANAS: IDENTIDADE E TERRITÓRIO (até 218 a.C.)


Antes da conquista romana, a Península era habitada por iberos, celtas e lusitanos. Essas populações organizavam-se em estruturas tribais e utilizavam nomes individuais, frequentemente associados a atributos físicos, qualidades guerreiras ou vínculos territoriais.

De acordo com Saraiva (2007), a identidade pré-romana estava fortemente ligada ao espaço geográfico e à organização clânica. Essa ligação territorial explica a permanência de raízes toponímicas que posteriormente se fixariam como sobrenomes, como:

Silva (floresta)

Castro (fortificação)

Lima (rio)

Rocha

Costa

Esses nomes, embora consolidados apenas na Idade Média, possuem substrato linguístico anterior à romanização.


3 A ROMANIZAÇÃO E A ESTRUTURA NOMINAL LATINA (218 a.C. – século V)


A incorporação da Península ao Império Romano introduziu o sistema nominal tripartido (praenomen, nomen e cognomen). A romanização consolidou o latim vulgar como base linguística das futuras línguas ibéricas.

Machado (2003) destaca que muitos sobrenomes portugueses derivam de cognomina latinos ou de adaptações medievais desses nomes. Exemplos incluem:

Martins (derivado de Martius, ligado a Marte)

Pereira (associado à árvore pereira)

Ferreira (relacionado ao ferro e à atividade metalúrgica)

A romanização não apenas transformou a língua, mas também institucionalizou registros administrativos e eclesiásticos que favoreceram a posterior fixação dos sobrenomes.


4 OS POVOS GERMÂNICOS E O SISTEMA PATRONÍMICO (séculos V–VIII)


Com a queda de Roma, instalaram-se na Península povos germânicos, como suevos e visigodos, culminando na formação do Reino Visigótico.

Segundo Saraiva (2007), os visigodos mantiveram estruturas administrativas romanas, mas introduziram nomes germânicos que posteriormente foram latinizados. A principal contribuição foi o fortalecimento do modelo patronímico, caracterizado pelos sufixos:

-es (Portugal)

-ez (Espanha)

-iz

Esses sufixos indicam filiação, significando “filho de”. Exemplos:

Fernandes (filho de Fernando)

Gonçalves (filho de Gonçalo)

Henriques (filho de Henrique)

Nunes (filho de Nuno)

Esse modelo tornou-se dominante durante a Idade Média e permanece estruturante na onomástica ibérica.


5 AL-ANDALUS E A INFLUÊNCIA ISLÂMICA (711–1492)


A invasão muçulmana de 711 estabeleceu o território denominado Al-Andalus. Durante séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram sob diferentes regimes políticos.

A influência árabe na língua portuguesa é amplamente reconhecida. Conforme Tavani (1990), o contato linguístico favoreceu a incorporação de vocábulos e estruturas fonéticas árabes.

Na antroponímia, destacam-se:

Prefixo “Al-” (artigo definido árabe), como em Almeida e Albuquerque

Nomes ligados a profissões, como Haddad (ferreiro)

Topônimos como Medina

A presença islâmica contribuiu para a diversidade nominativa e cultural da região.


6 A RECONQUISTA E A FIXAÇÃO HEREDITÁRIA DOS SOBRENOMES (séculos VIII–XV)


A Reconquista Cristã consolidou os reinos ibéricos, entre eles o Reino de Portugal.

Nesse período, segundo Machado (2003), ocorre a fixação hereditária dos sobrenomes, inicialmente entre a nobreza e, gradualmente, entre camadas populares. A Igreja Católica desempenhou papel decisivo ao exigir registros batismais e matrimoniais, fortalecendo a estabilidade nominativa.

Sobrenomes tornaram-se instrumentos jurídicos, fiscais e sociais.


7 JUDEUS SEFARDITAS E CONVERSÕES FORÇADAS (séculos XV–XVI)


Com a instituição da Inquisição Espanhola em 1478, muitos judeus sefarditas converteram-se ao cristianismo.

Wolff e Wolff (1988) explicam que, nesse contexto, judeus convertidos (cristãos-novos) adotaram sobrenomes associados à natureza e localidades para evitar perseguições. Exemplos incluem:

Oliveira

Carvalho

Cardoso

Pinheiro

Leão

Toledo

Esses sobrenomes foram posteriormente levados às colônias americanas.


8 EXPANSÃO ULTRAMARINA E TRANSPLANTE ANTROPONÍMICO (séculos XVI–XVIII)


A expansão marítima portuguesa difundiu os sobrenomes ibéricos para África, Ásia e América. No Brasil colonial, a estrutura patronímica e toponímica foi mantida, mas passou a conviver com nomes indígenas e africanos.

Esse encontro gerou novos processos de miscigenação nominativa, ampliando o alcance histórico da antroponímia ibérica.


9 CONSIDERAÇÕES FINAIS


A formação antroponímica da Península Ibérica é resultado de um processo cumulativo, no qual cada período histórico deixou marcas estruturais nos sobrenomes atuais. Da herança territorial pré-romana à romanização, das contribuições germânicas à influência islâmica e judaica, observa-se uma construção identitária plural.

Os sobrenomes ibéricos constituem, portanto, arquivos históricos vivos, revelando camadas sucessivas de identidade, poder e adaptação cultural.



10 REFLEXÃO DO AUTOR: IDENTIDADE COMO TRAVESSIA HISTÓRICA


Ao concluir esta análise sobre a formação antroponímica da Península Ibérica, compreende-se que o estudo dos sobrenomes não se limita à investigação etimológica ou histórica. Trata-se também de uma reflexão sobre identidade e memória.

Carrego em meu nome os sobrenomes Nunes e Oliveira. O primeiro, de natureza patronímica, consolidou-se durante o período do Reino Visigótico, quando os sufixos "-es" passaram a indicar filiação, significando “filho de”. O segundo, de origem toponímica e ligado à árvore mediterrânica da oliveira, possui raízes latinas estruturadas no contexto do Império Romano e foi amplamente difundido na sociedade ibérica medieval, inclusive durante o período da Inquisição Espanhola, quando muitos cristãos-novos adotaram sobrenomes associados à natureza.

Entretanto, minha identidade primeira é indígena, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Essa ancestralidade antecede a colonização europeia e representa uma memória histórica originária do território brasileiro.

A coexistência desses elementos não constitui contradição, mas sobreposição histórica. O Brasil formou-se a partir de encontros complexos entre povos indígenas, europeus e africanos. Os sobrenomes ibéricos chegaram como parte de uma estrutura administrativa e religiosa colonial, mas foram ressignificados ao longo do tempo em uma sociedade marcada por resistência cultural e permanência identitária.

Assim, o nome torna-se um arquivo histórico vivo. Ele narra deslocamentos, imposições, adaptações e permanências. Contudo, a identidade transcende o registro nominal. O estudo da antroponímia ibérica, portanto, não é apenas uma investigação histórica, mas também uma oportunidade de compreender como as camadas do passado continuam presentes na constituição do sujeito contemporâneo.



REFERÊNCIAS



FAURE, Sabina; RIBEIRO, José Pedro. Dicionário de Sobrenomes Portugueses. Lisboa: Editorial Presença, 2007.


MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2003. 3 v.


SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. 25. ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 2007.


TAVANI, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1990.


WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Portugal. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Judaicos, 1988.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



FORMANDO AS PRIMEIRAS PALAVRAS EM KARIRI






(Da Sílabas ao Sentido Cultural)




🌱 Introdução


A palavra é mais do que som.

A palavra é memória.


A palavra é pensamento organizado.

A palavra é identidade.


Na língua Kariri-Xocó, cada sílaba carrega um sopro ancestral. Quando juntamos sílabas, não estamos apenas formando palavras — estamos reconstruindo caminhos culturais, fortalecendo a tradição oral e revitalizando nossa herança linguística.


Aprender a formar palavras é aprender a pensar no próprio idioma do povo.



🎯 Objetivos da Aula


Transformar sílabas em palavras completas.


Trabalhar o significado cultural das palavras.


Reforçar a identidade linguística Kariri-Xocó.


Introduzir leitura simples e consciente.



📚 Formação das Primeiras Palavras



1️⃣ BARÁ


Separação silábica: BA – RÁ

Significado cultural:

Balaio — utensílio feito de cipó onde se transportam frutas, peixes e a produção agrícola.

Contexto cultural:

O BARÁ representa trabalho coletivo, agricultura, pesca e subsistência tradicional. Ele é símbolo de organização e cuidado com o alimento.



2️⃣ KAYA


Separação silábica: KA – YA

Significado cultural:

Noite — período noturno sob domínio de Kayaku, a Lua.

Contexto cultural:

A noite é tempo de descanso, de histórias ao redor do fogo, de escuta dos mais velhos e de conexão espiritual com a natureza.



3️⃣ NHANI


Separação silábica: NHA – NI

Significado cultural:

Sal — substância utilizada na alimentação, trazida pelos colonizadores.

Contexto cultural:

A palavra permite ensinar também história. O NHANI representa o contato intercultural e as transformações alimentares após a colonização.



4️⃣ BUIBÚ


Separação silábica: BUI – BÚ

Significado cultural:

Cabaça — utilizada para fazer o maracá, instrumento sagrado do Toré.

Contexto cultural:

O BUIBÚ carrega espiritualidade. É som, é ritmo, é ritual. Está presente nas cerimônias e na força do Toré.



5️⃣ TSEHO


Separação silábica: TSE – HO

Significado cultural:

Gente — o povo, a comunidade.

Contexto cultural:

TSEHO é coletivo. Não é apenas indivíduo. É pertencimento, aldeia, família ampliada.



✏️ Exercício Prático


1️⃣ Separe em sílabas:

BARÁ → ______

KAYA → ______

NHANI → ______

BUIBÚ → ______

TSEHO → ______



2️⃣ Leia em voz alta


Pronuncie pausadamente cada sílaba e depois una os sons.


3️⃣ Copie no caderno


Escreva cada palavra três vezes.


4️⃣ Crie uma frase simples


Exemplos:

O BARÁ está cheio de frutas.

A KAYA chegou com a luz da Lua.

O TSEHO dança o Toré com o BUIBÚ.




🌿 Conclusão



Formar palavras é reconstruir caminhos.

Cada sílaba aprendida fortalece a identidade do povo Kariri-Xocó.


A língua vive quando é falada, escrita e ensinada.


Ensinar as primeiras palavras é plantar as primeiras sementes da continuidade cultural.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






sábado, 21 de fevereiro de 2026

AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI: O SOM QUE FORMA A PALAVRA






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú


🌿 Introdução


Depois de conhecer o Alfabeto Kariri, iniciamos uma nova etapa do letramento: a formação das primeiras sílabas.

A sílaba é o encontro entre o sopro da vogal e a força da consoante.

É nela que o som ganha corpo.

É nela que nasce a palavra.

Ensinar sílabas em Kariri é ensinar ritmo, identidade e continuidade cultural.


🌱 1. Revisando as Vogais


Antes de formar sílabas, reforçamos os sons das vogais:


A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI

A criança precisa ouvir, repetir e sentir o som.


Primeiro o ouvido aprende. Depois a mão escreve.


🌊 2. Primeiras Combinações Silábicas

Começamos com consoantes simples.


Com B:


BA – BE – BI – BO – BU

BUI


Observe como o som muda quando encontramos o UI.


Aqui o som desliza, ele caminha.


Com K:

KA – KE – KI – KO – KU

O K representa também o som do C e do Qu.


É importante que a criança perceba que o som é mais importante que a letra isolada.


Com T:


TA – TE – TI – TO – TU


Depois introduzimos:


TS A – TS E – TS I – TS O – TS U

Aqui começa a percepção dos sons compostos.


🌿 3. Sons Específicos da Língua Kariri


Agora introduzimos elementos próprios da Nunú.


Tx (som de “tchau”)


TXA – TXE – TXI – TXO – TXU

Nh (som semelhante ao ñ espanhol)

NHA – NHE – NHI – NHO – NHU


Aqui a criança percebe que nossa língua possui sons que o português não possui da mesma forma.


Isso fortalece identidade linguística.


🔥 4. A Sílabas Formam Cultura


Depois das sílabas, começamos a formar palavras simples e culturais.


Exemplos didáticos:


BA + RA

KA + YA

NHA + NA


Cada palavra deve ter significado dentro da realidade do povo.


O letramento indígena precisa nascer do território.


🌺 Metodologia Recomendada

Pronunciar lentamente

Repetição coletiva

Repetição individual

Escrita no ar com o dedo

Escrita no caderno


Som → Sílaba → Palavra → Sentido

🌄 Conclusão


Quando a criança aprende BA, ela não aprende apenas uma combinação de letras.


Ela aprende que o som pode ser unido.

Que a união cria palavra.


Que a palavra cria pensamento.

E que o pensamento mantém viva a Nunú.


Assim seguimos:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.

( Vamos aprender nossa língua )




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






LETRAMENTO DO ALFABETO KARIRI






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú

(Vamos Saber Nossa Língua)



🌿 Introdução


O letramento do Alfabeto Kariri representa um novo tempo para o povo Kariri-Xocó. A escrita não substitui a oralidade, mas a fortalece. Cada letra é um território sonoro, cada som é memória ancestral.


Ensinar o alfabeto é plantar identidade.



🌱 O Alfabeto Kariri


A língua Kariri possui 28 letras:


18 consoantes e 10 vogais.


Vogais:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Consoantes:


B – Tx – D – Dj – Ds – Dz – G – K – L – M – N – Nh – P – R – S – Ts – T – V



O ensino começa pelos sons, depois pelas sílabas, e então pelas palavras que carregam cultura.



🌊 Metodologia de Letramento


Oralidade primeiro


Reconhecimento sonoro


Associação com imagens culturais


Formação de sílabas


Leitura de palavras do cotidiano indígena



🌱 1ª ETAPA – DESPERTAR SONORO (ANTES DA ESCRITA)


Antes de ensinar letras, ensine sons.



🎶 1. Roda de escuta


Pronuncie cada vogal lentamente:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Peça que repitam em coro.


Depois, individualmente.



Trabalhe especialmente os sons que não existem no português (como IU e OE).



📌 Aqui o foco não é a grafia, é o ouvido.



🌿 2ª ETAPA – VOGAIS PRIMEIRO (Base do Letramento)



Comece pelas vogais, pois são o coração da língua.



Sugestão de sequência didática:


Aula 1 – Vogais simples:


A – E – I – O – U



Trabalhar:


Som isolado


Palavra exemplo


Desenho associado


Pronúncia comparativa com o português


Aula 2 – Vogais compostas:


EI – IU – OE – OI – UI


Aqui você pode:


Mostrar que são “vogais que caminham juntas”


Fazer comparação sonora (ex: EI como Bananeira; OI como Oiticica)


📌 Trabalhe muito o IU, explicando que é um som único, como você já descreveu — semelhante ao I grosso do Tupi.




🌾 3ª ETAPA – CONSOANTES EM BLOCOS


Não apresente as 18 de uma vez. Divida por famílias sonoras:



Bloco 1 – Sons simples


B – D – G – K – L – M – N – P – R – S – T – V



Depois:



Bloco 2 – Sons compostos


Dj – Dz – Ds – Nh – Tx – Ts



🌊 4ª ETAPA – SÍLABAS (Construção Gradual)



Após vogais dominadas:


Exemplo:


BA – BE – BI – BO – BU


KA – KE – KI – KO – KU



Depois introduza:


BUI (Bwj)


DJA


TXA



Aqui começa a alfabetização real.



🔥 5ª ETAPA – PALAVRAS SIGNIFICATIVAS


Nunca ensine palavras neutras. Ensine palavras culturais.



Exemplo:


Opará (Rio São Francisco)


Kayaku / Kadjaku


Naticrórai


Pahankó



Isso fortalece identidade.



🌳 METODOLOGIA INDÍGENA DE LETRAMENTO



Sugestão baseada na pedagogia intercultural:


Oralidade primeiro


Som antes da letra


Letra antes da sílaba


Sílabas antes de textos


Textos com significado cultural



📚 MATERIAL DIDÁTICO SIMPLES PARA INÍCIO



Você pode criar:


Cartões com letras grandes


Cartões com sílabas


Cartazes das vogais


Um pequeno livreto ilustrado


Exemplo de estrutura inicial:



Capa:



“Aprendendo o Alfabeto Kariri”


1ª página – Vogais


2ª página – Consoantes simples


3ª página – Consoantes compostas


4ª página – Sílabas


5ª página – Primeiras palavras



🌄 PROPOSTA DE PRIMEIRO MÊS



Semana 1 → Vogais simples


Semana 2 → Vogais compostas


Semana 3 → Consoantes simples


Semana 4 → Formação de sílabas



🌺 ELEMENTO FUNDAMENTAL



Ensinar que:



Tx é som de “tchau”


Nh é semelhante ao ñ espanhol


Dj é som de “Django”


Y possui função dupla (vogal IU / som Dj dependendo da posição)


Explique sempre com exemplos falados.



🌞 UMA FRASE PEDAGÓGICA PARA INICIAR A AULA



Você pode começar dizendo:


“Nossa língua é nosso território sonoro. Cada letra é um passo na memória do nosso povo.”



🌺 Conclusão



Letrar em Kariri é reconectar gerações.


É dizer às crianças:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

AERÃUBÍ RADÁNUNÚ: O MAPEAMENTO DA TERRITORIALIDADE NA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ






1. Introdução


O território indígena ultrapassa a dimensão geográfica e jurídica. Para o povo Kariri-Xocó, a territorialidade está profundamente vinculada à língua, à memória histórica e à relação espiritual com o espaço. O conceito de Aerãubí Radánunú — mapeamento da territorialidade na língua Kariri-Xocó — expressa essa compreensão ampliada, na qual cada palavra constitui um marco geográfico, histórico e cultural.


Este estudo apresenta uma análise descritiva da territorialidade Kariri-Xocó a partir de sua própria nomenclatura tradicional, destacando elementos geográficos, históricos, ambientais e socioculturais, bem como os impactos das transformações ocorridas após a chegada dos colonizadores.


2. Fundamentação Histórica e Identitária


A etimologia do nome Kariri-Xocó revela sua conexão com o território. “Ka” significa cantar; “Ri”, derivado de Rihu, significa lagoa ( Dzurió ); e “Xocó” refere-se ao pássaro Socó, ave característica das lagoas. Assim, o nome do povo associa-se diretamente ao ambiente lacustre e à prática cultural do canto, evidenciando a integração entre identidade e natureza.


Na Woroy (história tradicional), registra-se que os Waréá (padres) retiraram os indígenas da Natianie (aldeia tradicional), estabelecendo a Naticróraí, povoado que posteriormente se consolidou como cidade. Esse deslocamento marca um momento significativo de reorganização espacial e social, mas não rompeu os vínculos simbólicos com a Radá Nhenetí (terra tradicional).


3. Delimitação Territorial Tradicional


A Radá Nhenetí localiza-se às margens do Rio São Francisco, denominado na língua Kariri-Xocó como Opará.


Os limites tradicionais são descritos da seguinte forma:


Oeste: onde o Ukie Dzunú (sol) se põe;

Norte: Siririté da Maraba (serra);


Leste: Boêdo da Dzurió Tasí (morro da Lagoa da Enxada);


Sul: a cidade de Porto Real do Colégio.

Dentro da Terra Indígena encontram-se importantes referências ambientais e culturais:


Dzurió Curéá (Lagoa dos Porcos);

Dzurióchi (Lagoa Comprida);

Pohó Itiúba (Várzea da Canoa);

Retsé Matkaí (Floresta do Ouricuri);

Natiá (Aldeia).


Esses espaços constituem marcos ecológicos e simbólicos do território.


4. Transformações Territoriais e Impactos


Parte do território encontra-se homologada, enquanto outra parte ainda aguarda regularização. Nas áreas ocupadas externamente surgiram as Wanheréá Caraí (fazendas dos brancos), as Erácró (casas de alvenaria) e povoados como Tibirí, Tapera e Girau.


Com a expansão não indígena, a Antse (natureza) sofreu modificações significativas. A construção de hidrelétricas — denominadas Maecrótçawoá, “cerca de pedra que corta o rio” — alterou o fluxo do Opará.


Destaca-se também a construção da ponte rodoviária sobre o Rio São Francisco, na década de 1970, elemento que intensificou a integração viária regional.


Essas intervenções representaram mudanças estruturais no ambiente físico e no modo de vida tradicional, impactando práticas culturais, econômicas e espirituais.


5. Estrutura Sociocultural Atual


Na Aldeia encontram-se instituições que articulam tradição e contemporaneidade:


Erantoá (igreja, casa dos santos);

Erátekié Uanie (escola indígena);

Iabaerá (conjuntos residenciais);

Hinebakró (poste de luz elétrica);

Bypeddá (campo de jogar).


A fauna e a biodiversidade da mata Retsé permanecem componentes essenciais da territorialidade, incluindo espécies como cobra (Nieɲi), lontra (Klimi), gato-do-mato (Poió Retsé) e tamanduá (Hazú), reforçando a relação entre língua, ecologia e cosmovisão.


6. A Territorialidade como Linguagem


O Opará ocupa papel central na Samy (cultura) Kariri-Xocó. Ele não é apenas recurso natural, mas eixo estruturante da identidade coletiva.


O conceito de Aerãubí Radánunú demonstra que o território é também um sistema linguístico. A língua organiza o espaço, nomeia a natureza e consolida a memória histórica. Assim, a preservação linguística configura-se como instrumento de resistência territorial.


7. Conclusão


O mapeamento da territorialidade Kariri-Xocó evidencia que território não se restringe à demarcação física ou jurídica. Ele é constituído por narrativas, significados e expressões linguísticas que perpetuam a identidade coletiva.


A língua Kariri-Xocó funciona como cartografia cultural, na qual cada termo representa um marco espacial e histórico. Manter viva essa língua é assegurar a continuidade da Radá Nhenetí e da Samy do povo.


O Aerãubí Radánunú, portanto, não é apenas um conceito, mas um método de preservação identitária e territorial.




Referências Bibliográficas


BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.


FUNAI – Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Povos indígenas no Brasil: Terras indígenas e processos de demarcação. Brasília: FUNAI, 2023.


KARIRI-XOCÓ, Nnhenety. O devir de tradicionalista: “o guardião da língua e da tradição KX” In: Fórum de debate: Bilinguismo indígena no Brasil. Universidade do Estado da Bahia. Evento online, 17 mai. 2022. Vídeo (1h28). Disponível em: 

https://www.youtube.com/watch?v=RRXWZr27Ax4&t=58s. Acesso em: 2 jun. 2024.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Undea Boighy Opará: o caminho das águas. Blog Kx Nhenety, 2026. Disponível em: https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/undea-boighy-opara-o-caminho-das-aguas.html�. Acesso em: 10 fev. 2026.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Undea Aiby Radda: os lugares da terra. Blog Kx Nhenety, 2026. Disponível em: https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/undea-aiby-radda-os-lugares-da-terra.html�. Acesso em: 10 fev. 2026.


RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. O artigo definido e os numerais na língua Kirirí: Vocabulários Português-Kirirí e Kirirí-Português In: Revista Brasileira de Linguística Antropológica.Volume 4, Número 2, dezembro de 2012, p. 169-235.


SIQUEIRA, Baptista. Os Cariris do Nordeste. Livraria Editora Cátedra, 351, p. Rio de Janeiro 1978. Disponível em:

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SUZART, Elizabete Costa. Fórum de Debates: Bilinguismo indígena no Brasil / organizado por Elizabete Costa Suzart [Evento online]. Canal Pós-Crítica UNEB. Tirocínio Docente I (17 mai. A 07 jul. 2022). Universidade do Estado da Bahia, Campus II - Alagoinhas Bahia, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLzluw2pRSkGdP5dalduPmf6ekcV2WXL. 

___________________. Ressonância da pragmática dos signos ancestrais no movimento bilíngue Kariri-Xocó: por um outro dicionário In: Anais Seminário Interlinhas – Universidade Estadual da Bahia (Campus II): Fábrica de Letras, v. 9, n. 1 e 2 (2021) 733-758 p. Disponível em:

https://www.revistas.uneb.br/index.php/asipc/article/view/16123. Acesso em 03 jun. 2024. 

____________________. Kariri-Xocó: Arquivos e Práticas por uma cultura bilíngue / 

Elizabete Costa Suzart; orientador Prof. Dr. Osmar Moreira dos Santos. Dissertação para obtenção ao título de mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural.Universidade do Estado da Bahia – UNEB (Campus II-Alagoinhas-BA). 2020. 200p. il. Disponível em: https://www.poscritica.uneb.br/wp-content/uploads/2025/03/Suzart-Elizabete-Costa.pdf. Acesso em 26 mai. 2025.


SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Alagoinhas, 2025. 



RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.





Autores: Nhenety Kariri-Xocó, Formador, Orientadoras, Professores da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra. 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

WIPOKIÉ AINDZU — ATRAVESSANDO O MAR






No Tudenhé, no tempo antigo que mora na memória dos mais velhos, muitos Caraí, brancos cruzaram o Aindzu, grande mar e chegaram às nossas Radá, terra. Vieram em navios altos como montanhas flutuantes, trazendo bandeiras, mapas e promessas que o vento levou.


Mas o Radda Iworó, mundo gira como o Toré.

E chegou o Uché dos Uanieá, Tempo dos Indígenas.

Chegou o tempo em que os filhos da Radá, terra  decidiram conhecer o Radda Saidzá — o mundo deles. Não para conquistar, não para tomar, mas para cantar, ensinar e lembrar que a terra tem espírito.


Assim começou Wipokié Aindzu Yeemerãkié — atravessando o mar de avião.


Quando o pássaro de ferro cortou as Arankedzoá, nuvens pela primeira vez, os corações bateram como maracás. Não era fuga. Era retorno de dignidade. Era intercâmbio de mundos.


No ano de 2003, e depois em 2005, a ONG Thydêwá abriu Woré Arankedzoá, caminhos do céu. Sete prefeituras, o CISA, o MDH e a RELACS ajudaram a tecer essa ponte invisível entre continentes. Cinco indígenas atravessaram o Aindzu, oceano e pousaram nas Mair Naticróraí da França.


A Turnê chamava-se Índios na França.

Levaram Buruhúá, artesanatos feitos com mãos que conhecem a madeira e a fibra como parentes.


Levaram Dakloná, adornos que brilhavam como o sol sobre o rio.


Levaram Wonhé — os Cantos do Toré — que ecoaram além-mar.


Quando chegaram a Paris, olharam para o alto e viram a grande estrutura de ferro tocar o céu. O povo de lá a chamava de Torre Eiffel.


Mas eles sorriram.

— Yebewó Meratá — disseram.

O Grande Tronco de Ferro.


E naquele instante, a torre deixou de ser apenas monumento. Tornou-se árvore de outro território.


Os cantos do Toré dançaram sob o céu francês. O mar já não era distância. Era ponte.


Em 2018, novo voo rasgou as nuvens rumo à Radá Ingueré — a Terra dos Ingleses. Com apoio do Fundo de Cultura da Bahia e acolhimento da Universidade de Leeds, os Uanieá chegaram ao Reino Unido.


Lá, entre prédios antigos e ruas de pedra, ergue-se um relógio que marca as horas do mundo. O povo de lá o chama de Big Ben.

Mas os indígenas olharam para ele com outro entendimento.


— Yeiwouché — disseram.

O Grande Relógio, Roda do Tempo.


Enquanto o sino ecoava sobre Londres, marcando o tempo oficial dos impérios, os filhos da Radá sentiam outro tempo pulsar dentro de si — o tempo do Toré, o tempo da memória, o tempo da ancestralidade.


O Yeiwouché marcava horas.


Lá, na terra da névoa, o Toré também encontrou espaço.


Nas viagens participaram Tibiriçá, Ayrá, Atyá, Mayá, Tawanã, Xumalhá, Aranawí — filhos das etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pataxó-Hãhãhãe. Não iam como visitantes silenciosos. Iam como povos vivos.


Mostraram que o Nordeste brasileiro pulsa em canto, artesanato e memória.

Mostraram que a cultura não é passado — é presença.


No Tudenhé, os Caraí atravessaram o mar para chegar às nossas Radá.

Agora, no Uché dos Uanieá, somos nós que atravessamos.


Não como vencidos.

Mas como cantadores de mundos.

Porque Wipokié Aindzu não é apenas atravessar o mar.


É atravessar o tempo.

É transformar distância em diálogo.

É lembrar ao mundo que a cultura indígena não ficou na história — ela voa.


E quando o avião pousa, o Toré continua dançando dentro do peito.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







SAMYONHÉ WONHÉÁ TORÁ, GRAVAÇÃO DOS CANTOS DE TORÉ






No Uché Tudenhé — o Tempo Passado — o Wonhéá Torá, cantos sagrados vivia guardado onde nenhum vento apaga e nenhuma chuva leva: na Samy Bohé, a Memória Social do povo.


Não existia Cramycá Bydimerakró, caixa com chip.


Não havia botão para apertar.

O som morava no peito.


A gravação era feita no coração das Atseá, pessoas, 

Os Duboheâra, Mestres do Canto, ensinavam olhando nos olhos.

O ritmo nascia no chão batido.


O Toré ecoava nas noites claras, e cada criança aprendia ouvindo, repetindo, sentindo.


Mas o Barae Uché — o Novo Tempo — chegou como vento diferente.

Veio trazendo novidades que brilhavam como estrela moderna.


Chegou a ONG Thydêwá, trazendo junto o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.


E disseram:

— Vamos registrar o que já vive há séculos.

— Vamos guardar no Iworó, disco, aquilo que já mora na alma.


Então a comunidade se reuniu.

Chamaram os Duboheâra e as Atseá, mestres e pessoas:

Seregé, Soyré, Nhenety, Wiriçá, Geriçá, Taréiçá, Kayanã, Eruanã, Wrwray, Anoráya, Ynoraya, Iraçá, Kayane, Suirana e Wyrayane.


Cada nome era um som.

Cada voz era uma raiz.

Gravaram o Craiwonpiwon — o CD Kariri-Xocó Canta Toré.


Gravaram também o Craiwopewa — o DVD Toré Som Sagrado.


Não era apenas tecnologia.

Era memória atravessando o tempo.

Na Bechiéá de Wiriçá, o parente generoso que abriu sua roça como quem abre o coração, levaram Amí, Uttihu e Riné, comida, carne e frutas.


Fizeram Buyê mó torá Toré — acenderam a fogueira.


E ali, sob o céu testemunha, o Toré foi dançado como sempre foi.


O fogo iluminava os corpos.

O canto iluminava o espírito.


A câmera registrava.

Mas o verdadeiro registro continuava sendo feito na Samy Bohé.


Foram dois mil Iworó espalhando o canto sagrado.


E quando o vídeo foi exibido na praça da aldeia, diante da comunidade reunida, não era apenas uma tela que brilhava —

Era o povo vendo a si mesmo.

Era o passado conversando com o futuro.

Era o Uché Tudenhé abraçando o Barae Uché.


E assim ficou gravado:

Não apenas no disco.

Não apenas na imagem.

Mas na eternidade da cultura.

O Wonhéá Torá continua.


Vive na memória.

Vive na tecnologia.

Vive no povo.


E enquanto houver fogueira acesa e voz que cante,

o Toré jamais se apagará.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





domingo, 15 de fevereiro de 2026

WONHÉ SAMYÁ UANIEÁ, CANTANDO AS CULTURAS INDÍGENAS






No Batti, ano de 2003, quando o vento soprava histórias antigas pelas margens do Opará, algo novo começou a nascer nas aldeias.


A ONG Thydêwá, com o patrocínio do BNDS através do Programa de Apoio a Crianças e Jovens em Situação de Risco Social, trouxe não apenas um projeto — trouxe um reencontro. Chamava-se Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas.


Não era apenas cantar. Era lembrar. Era acordar a memória adormecida nas vozes das Inghéá, as crianças que carregavam no peito a batida do maracá e o ritmo da terra.


Mais de três mil e quinhentas crianças das comunidades Pataxó HãHãHãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká reuniram-se em roda, cada povo trazendo seu canto, sua dança, sua história guardada no tempo.


As Duboheridéá — as professoras — e o Duboherí Nhenety, junto com Sebastian, conduziam as rodas como quem acende fogueiras. Mas quem fazia o fogo crescer eram as próprias crianças.


Nos ensaios, os pés marcavam o chão como quem escreve no barro.

As mãos batiam no compasso da ancestralidade.


As vozes ecoavam além das aldeias.

Não falavam apenas de música.

Falavam de Cidadania.


Falavam de Direitos Humanos.

Falavam de Ecologia.


Falavam da Diversidade Cultural que forma o verdadeiro Brasil.


O primeiro grande encontro aconteceu na aldeia Kariri-Xocó. Os Etçamyá — parentes de outros povos — chegaram trazendo pinturas no corpo e alegria no olhar. A Erátekié Uanie — Escola Indígena — tornou-se casa de todos.


Ali, os cantos se misturaram como rios que se encontram.


E daquele encontro nasceu algo que poderia atravessar o tempo:

o Tonranran — o livro Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas — e o Craiwonpiwon — o CD com os cantos que agora podiam viajar para além das aldeias.

Mas o maior fruto não estava no papel nem no disco.


Estava nas crianças que descobriram que sua cultura não era passado.


Era presente.

Era futuro.

Era força.


E assim, naquele Batti de 2003, as vozes indígenas cantaram juntas — não para pedir espaço — mas para lembrar ao Brasil que sempre estiveram aqui.

E continuam cantando.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




sábado, 14 de fevereiro de 2026

TOKLIDDAYSÃ UANIEÁ, CELULARES INDÍGENAS






Na Woderáehó Uanieá “Rua dos Índios”, quando o vento ainda soprava histórias nas portas de madeira e as crianças corriam livres entre as casas simples, o mundo era outro.


Ali, na Atseuróché “Geração X”, o som que atravessava o tempo vinha do Benheokli — o “Telefone de disco, analógico”. Cada número girado parecia um pequeno ritual. O clique giratório era como um maracá mecânico chamando vozes distantes.

O Benheokli não era apenas um aparelho. Era ponte. Era espera. Era saudade que se escutava no fio.


Mas o tempo corre como o Opará, e as gerações mudam como as margens do rio.

Quando o povo já morava na Wanheré Uanhí “Fazenda Sementeira”, surgiu o Tokliddaysã — o “Telefone Celular”. Era a Atseuróché “Geração Y / Millennials”. O mundo já cabia na palma da mão. As mensagens viajavam invisíveis pelo ar, como espíritos leves cruzando o céu.


O que antes precisava de fio, agora voava.

E então, na Atseuróché “Geração Z”, algo ainda mais bonito floresceu.


No ano de 2009, a Thydêwá, formada por indígenas de diferentes etnias aliados a não indígenas, idealizou um projeto que unia tradição e tecnologia: Tokliddaysã Uanieá — “Celulares Indígenas”.


O objetivo não era apenas usar o aparelho.

Era contar histórias.

Era registrar memórias.

Era fortalecer identidades.

Nascia ali uma nova forma de oralidade: a imagem em movimento feita pela própria aldeia.


Sessenta indígenas foram formados na produção de celumetragens — curtas-metragens gravados pelo Tokliddaysã. Cada vídeo era uma flecha digital lançada ao mundo.


E tudo se conectava à Pité Uanieá Piteiatekié — “Rede Índios On-Line”, que expandia saberes pelo Brasil afora e criava presença no território virtual.


Assim surgiu também o canal Índios On-Line no YouTube, onde a palavra indígena ganhou tela, voz e autonomia.

A Aldeia Kariri-Xocó participou desse movimento com orgulho.


Os jovens Nhenety e Ayrá foram contemplados. Receberam seus Tokliddaysã como instrumentos de memória e futuro.


Outros parentes também caminharam juntos nesse projeto:

os Tupinambá,

os Pankararú,

os Pataxó-Hãhãhãe

e os Pataxó.


Não era apenas tecnologia.

Era retomada.


Se antes o Benheokli levava a voz pelo fio,

agora o Tokliddaysã levava a identidade pelo mundo.


A língua Kariri-Xocó, revitalizada, ganhou nova morada:

a tela iluminada.


O que era invisível passou a ser visto.

O que era silenciado passou a narrar.

O que era memória tornou-se arquivo vivo.


E assim, entre o som giratório do disco antigo

e o toque suave da tela sensível,

o povo Kariri-Xocó segue escrevendo sua história —

agora também em pixels.

Porque tradição não é passado.

É raiz que aprende a florescer em qualquer tempo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

BURUHÚ IDZEBAE – ARTE ELETRÔNICA






Dizem os mais velhos que antes mesmo do Uché Caraí — o Tempo do Homem Branco — a Idzebae Antse já riscava o Aranke, céu.


A eletricidade natural não nasceu dos fios.

Ela nasceu do relâmpago.


Nas Arankedzoá, as nuvens dançavam pesadas sobre o mundo recém-criado. Quando o céu rasgava em clarão, os Uanieá, indígenas, sabiam: era o Radda, mundo, respirando luz. Aquele brilho atravessava o medo e iluminava o escuro das noites antigas. Era o primeiro anúncio de que a energia sempre esteve ali, pulsando entre o céu e a terra.


O tempo passou.

Veio o Uché Caraí, tempo do homem branco.

E com ele, outra luz — a Hinebakró, luz elétrica. Não mais caída do céu em trovão, mas conduzida por fios invisíveis que entraram na Natiá. A aldeia acendeu lâmpadas, e as sombras começaram a contar novas histórias.


Logo chegaram os Hineidzebae, eletrônicos.

Primeiro o Warudókli, televisor que trazia imagens de mundos distantes dentro de uma caixa brilhante. Depois o Pohiesawa, câmera de vídeo que capturava memórias. O Cramycá Samyonhé, gravador guardava vozes. O Craiwonpiwon, CD Player e o Craiwopewa,  DVD Player cantavam músicas redondas. A Cramenunhí, geladeira conservava o alimento. O Crametekié, computador abriu portas para universos invisíveis.


E então surgiu a Nikiékliwahi — inteligência que parecia pensar.


Alguns estranharam. Outros temeram.

Mas os jovens observaram com olhos atentos.


Foi quando a ONG Thydêwá chegou trazendo algo diferente: não apenas máquinas, mas propósito.

Nascia o Projeto AEI — Arte Eletrônica Indígena.


Entre os Kariri-Xocó, o nome ganhou outro espírito:

BHU — Buruhú, Hineidzebae, Uanie.

Arte. Eletrônica. Indígena.


Não era tecnologia contra tradição.

Era tradição atravessando a tecnologia.

Nas aldeias Kariri-Xocó e Karapotó, em Alagoas; Pankararú, em Pernambuco; Xokó, em Sergipe; Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Pataxó, na Bahia, algo começou a despertar.


O Pité Mydzé — Rede de Pescar — virou pulsação digital.


O Niú Bydimerakró — Raiz do Chip — gravou o som do maracá, transformando o eco ancestral em onda sonora que viajava pelo mundo.


O Hé Neieta — Árvore dos Desejos — ensinou que o que vem da natureza também pode florescer na tela.

E entre os Kariri-Xocó ecoou a frase que atravessava os cabos invisíveis:

Su Pidéá Netçónu — Eles estão escutando.


Os jovens perceberam que a arte do povo não precisava ficar presa à memória do vento. Ela podia correr pelos fios, viajar pelos satélites, atravessar oceanos digitais.


O relâmpago que antes iluminava as nuvens agora brilhava nas telas.

Mas sua origem continuava a mesma.

A Idzebae Antse nunca deixou o Aranke.

Apenas encontrou novos caminhos para descer até a terra.


E assim, entre trovões antigos e cliques modernos, o povo seguiu criando.

Porque o Buruhú não depende do tempo.

Ele apenas se transforma.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PUTOB, A REDE QUE VIROU RISADA

 





Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do velho Opará, havia um tempo em que o artesanato era silêncio e espera. As mãos sabiam fazer, mas o mundo ainda não sabia ver.


As mulheres trançavam fibras como quem tecia histórias antigas. Os homens entalhavam madeira como quem desenhava espíritos da mata. As crianças aprendiam observando, pois ali a arte não era ensinada — era herdada no sopro da convivência.


Foi então que chegou uma notícia trazida pelo vento da tecnologia.


A ONG Thydêwá anunciava um projeto que uniria povos distantes por um mesmo fio: Kariri-Xocó, Pankararu, Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá de Olivença. O nome soava leve e forte ao mesmo tempo: Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato.

RISADA.


Alguns sorriram ao ouvir.

— Se é RISADA, que traga alegria — disse um ancião.


E trouxe.

A rede não era feita de cipó, mas de conexões invisíveis. Não era armada entre árvores, mas estendida pela internet. Uma loja virtual nasceu como uma nova oca coletiva, onde os artesanatos não apenas eram vendidos, mas apresentados com dignidade, história e identidade.

Não era comércio comum.


Era troca.

Era articulação.

Era partilha de saberes.

Cada peça carregava mais do que matéria: carregava território, memória, luta e pertencimento.


Com o passar dos anos, o projeto deixou de ser apenas apoio externo e começou a se transformar em autonomia. As comunidades aprenderam a lidar com os novos meios tecnológicos como quem aprende um novo instrumento, sem abandonar o tambor antigo.

A rede cresceu, mas não perdeu sua raiz.


Falava-se então:

— Se RISADA é o nome em português, como seria em nossa língua?

Reuniram-se os guardiões da palavra. Pensaram. Traduziram não apenas letras, mas sentidos.

E nasceu PUTOB – Pité Uanieá Totsouka Buruhúá.


Pité — Rede.

Uanieá — Indígena.

Totsouka — Arte, gente que Inventa com amor

Buruhúá — Artesanato 

Não era apenas tradução.

Era reafirmação.


Assim, a RISADA virou PUTOB.

E PUTOB não era só projeto.

Era declaração de que o povo que inventa, inventa junto.


A rede que antes era silêncio tornou-se voz.


A voz tornou-se venda justa.

A venda tornou-se valorização.

E no meio de tudo isso, havia algo maior que o lucro:

a permanência da cultura.


Hoje, quando alguém acessa aquela loja virtual, talvez veja apenas colares, cestarias, esculturas. Mas quem conhece a história sabe: ali não se compra apenas arte.


Compra-se continuidade.

E toda vez que uma peça encontra novo caminho, ecoa na aldeia uma certeza antiga:

A rede está viva.

A invenção continua.

E o povo segue criando — coletivamente.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CUNHENHÉÁ SAMY, OS PONTOS DE CULTURA






Quando o tempo ainda caminhava de mãos dadas com a memória, a comunidade Kariri-Xocó começou a perceber que a cultura também precisava de cuidado, como se cuida de uma roça antiga ou de um rio que ensina a pescar. Foi assim que surgiram os Pontos de Cultura — não como prédios ou papéis, mas como lugares vivos de encontro.


Ao longo dos anos a Thydêwá ONG atuou nos Pontos de Cultura Índios On-Line e o PCI - Ponto de Cultura Indígena e a Associação Comunitária Indígena Bom Sucesso Kariri-Xocó no Ponto de Cultura Horizonte Circular. 


Os mais velhos diziam que cada Ponto era um fogo aceso no meio da aldeia. O primeiro clarão veio em 2005, quando a Rede Índios On-Line chegou como Pité Uanieá Piteiatekié, abrindo caminhos para que a palavra indígena atravessasse o mundo sem perder o chão. Depois, em 2009, o Horizonte Circular — Ubíniworó — ensinou que o saber não anda em linha reta, mas gira, volta, escuta e retorna mais forte. Em 2011, o coração bateu mais alto com o Ponto de Cultura Indígena Cunhenhéá Samy Uanie, Ponto de Cultura Indígena, onde a língua e a memória passaram a caminhar juntas. 


Na Erátekié Uanie, a Escola Indígena, os saberes antigos entraram pela porta da frente. Vieram os Dubuheríá Samy, Mestres da Cultura, trazendo histórias guardadas no peito. O Duboheri Mydzé, Mestre da Pescaria, ensinava a ler o rio como quem lê um livro antigo. Os Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, moldavam a tradição com as mãos, enquanto a Duboheridé Ruñohú, Mestra da Cerâmica, conversava com o barro como quem conversa com um parente.


Os jovens recebiam Pohiesawa, a câmera de vídeo, e Waruaerã, a câmera fotográfica. Com elas, aprenderam que a tecnologia também pode ser parente da tradição. Registravam cantos, gestos, histórias e risos. À noite, na praça da comunidade, as imagens ganhavam vida no projetor, e o passado se sentava ao lado do presente para olhar o futuro.


Assim, os Pontos de Cultura aproximaram os anciãos dos alunos, os contadores de histórias dos professores, a aldeia da escola. Não deixaram apenas registros ou projetos concluídos, mas um legado de saberes, onde a língua Kariri-Xocó voltou a respirar nas palavras, nos olhos e na escuta das novas gerações.


E até hoje, quem caminha pela comunidade sabe: ali existem pontos invisíveis, marcados não no mapa, mas na memória viva do povo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó






PITÉ UANIEÁ PITEIATEKIÉ, REDE ÍNDIOS ON-LINE






Naquele tempo em que o mundo ainda caminhava mais devagar nas aldeias, quando o canto do pássaro era o aviso da manhã e a palavra corria de boca em boca, algo novo começou a se anunciar no horizonte. Não veio pelo vento nem pelo rio, mas por fios finos, quase invisíveis, que atravessavam cidades, serras e sertões.


Foi assim que os povos Kariri-Xocó, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Pataxó-Hãhãhãe decidiram se encontrar — não num terreiro comum, mas num espaço ainda desconhecido. Um portal. Uma porta aberta para o diálogo entre etnias, saberes e sonhos. Era o ano de 2004, e a aliança nascia com o propósito de fortalecer culturas, trocar experiências e afirmar cidadania em tempos de mudança.


A semente dessa ideia foi plantada pela ONG Thydêwá, que deu nome ao sonho: Índios On-Line. Com apoio e parcerias que vinham de longe — ministérios, programas culturais e patrocinadores — o portal cresceu e foi reconhecido como Ponto de Cultura Viva, pulsando saber ancestral em linguagem digital.


Quando a Internet chegou às aldeias, não foi apenas uma máquina que entrou. Entrou o espanto, a curiosidade, o medo e a coragem. Entrou a possibilidade de falar com o mundo sem sair da terra. Entrou o desafio de manter viva a língua, agora também escrita em telas.


Anos depois, os Kariri-Xocó batizaram aquele caminho novo com palavras próprias, nascidas da língua e do pensamento ancestral: Pité Uanieá Piteiatekié, Rede Índios On-Line. 


A Rede Índios On-Line.

Pité era rede.

Iabae, juntar.

Subatekié, conhecimento.

Crametekié, a caixa do saber — o computador.


Assim, a Internet ganhou alma indígena: a rede de juntar conhecimento.


Hoje, muita coisa mudou. O que antes era novidade virou costume. A conexão cabe no bolso, ilumina a sala, fala pela televisão. Mas aquele primeiro momento ficou marcado na memória das aldeias como um tempo de travessia — quando o saber antigo encontrou o novo caminho e decidiu caminhar junto, sem se perder de si.

Porque rede não é só fio.


Rede é gente.

Rede é palavra que circula.

Rede é cultura viva que não se cala.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





domingo, 8 de fevereiro de 2026

UANIEÁ UBI UANIEÁ, ÍNDIOS NA VISÃO DOS ÍNDIOS






No ano em que o mundo virou o número e chamou de dois mil, algo antigo voltou a respirar entre os povos. Não foi projeto apenas, nem livro apenas. Foi escuta.

A Thydêwá chegou como quem acende uma fogueira no centro da aldeia e disse, sem impor:


— Agora são vocês que vão falar, escrever sua próprias histórias, fotografar. Assim nasceu Índios na Visão dos Índios.


Um nome que não veio pronto, mas brotou da como raiz que insiste em viver mesmo depois de tanta terra remexida.


As mãos que escreveram eram pequenas e jovens, mas carregavam histórias grandes. Crianças e jovens Pataxó Hâhãhãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká sentaram para contar o que sabiam, o que viam, o que sentiam. Escreveram sobre cidadania, direitos humanos, ecologia, diversidade cultural — mas, sem saber, escreviam também sobre dignidade.


Nós, mais velhos, caminhávamos junto.

Não como donos da palavra, mas como parentes que ajudam a segurar o papel, a organizar o caminho, a proteger a voz para que ela não fosse silenciada outra vez. A história era deles. Sempre foi.


Os livros ganharam pernas.


As palavras saíram das aldeias e foram visitar cidades, escolas, salas cheias de espanto. Sebastian, Nhenety, Limbo e tantos outros parentes acompanharam essas crianças e jovens, apresentando não uma cultura congelada, mas viva, falada por quem a vive.


Os Kariri-Xocó posteriormente na revitalização da língua dão o nome essa iniciativa anos depois segunda a tradução como Uanieá Ubi Uanieá "Índios na Visão dos Índios, não é apenas uma coleção de livros mas, muito mais. A aventura iniciou como uma colecao e foi crescendo como cresce uma floresta... foi se diversificando e dando frutos... Uma floresta que segue viva ate hoje.



Quem ouvia estranhava.

Quem escrevia se reconhecia.

Entre os Kariri-Xocó, cada palavra escrita ajudava a levantar a língua que o tempo tentou calar. Nomear o mundo novamente era um ato de retomada. Era dizer, com firmeza: ninguém mais falará por nós sem nos ouvir.


Na atualização poderíamos dizer: Uanieá Ubi Uanieá "Indígenas na Visão Indígena" porque são os nativos do Brasil não é da Índia país asiático. 

Foi o primeiro passo de muitos escritores indígenas que ainda eram crianças, mas já sabiam que sua história merecia existir no papel.


Ali começou um tempo novo, a Thydêwá com Sebastian Gerlic apoia a Revitalização da Língua Kariri-Xocó junto a Escolinha Subatekié Nunú com amigos externos. 

O tempo em que o nativo se vê com seus próprios olhos.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



BENHEOKLI BENHEYE, O TELEFONE ORELHÃO






No começo da década de 1970, quando o tempo ainda caminhava devagar pelas ruas de Colégio, chegou uma voz diferente à cidade. Não era canto de pássaro nem chamado de feira. Era fio, era campainha, era novidade. A TELESA, telefonia de Alagoas, instalou sua Eraibáme — a estação — na Rua da Aurora. Ali, pela primeira vez, o som distante atravessava o espaço e chegava inteiro ao ouvido.


Foi nesse tempo que os Kariri-Xocó conheceram o telefone, ainda vivendo na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. O aparelho parecia coisa de outro mundo: falava sem corpo, viajava sem pés. A voz saía de longe e pousava ali, dentro da sala, como se fosse visita invisível.


Os anos correram como o rio Opará. O povo Kariri-Xocó já vivia na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, quando, duas décadas depois, uma nova transformação chegou. Em 2002, a Telemar Norte Leste S.A. fincou nas aldeias um objeto redondo, pesado e resistente: o Benheokli Benheye — o telefone orelhão.


Não era mais preciso entrar em prédio nem pedir licença. O telefone agora morava na rua, sob o sol e a chuva, esperando quem tivesse algo a dizer. Para falar, usava-se um cartão, passado com cuidado, quase como um ritual. Cada ligação era pensada, medida, respeitada.


O Benheye virou marco. Por ele se chamava ajuda para a saúde, se resolvia viagem, se avisava chegada, se buscava remédio, se matava saudade. A aldeia passou a conversar com outras aldeias, com cidades distantes, com o mundo que antes parecia longe demais.


Havia orelhões espalhados pelos caminhos da comunidade: na Escola Estadual Indígena, no Posto Indígena Kariri-Xocó, na Associação Indígena Comunitária Kariri-Xocó. Os números eram decorados como nomes de parentes. E quando alguém precisava ligar, formava-se fila. Gente esperando, gente ouvindo pedaços de conversa, gente respeitando o tempo do outro.


Todo mundo queria usar a novidade. Falar com quem estava longe. Resolver coisa de trabalho, de estudo, de vida. O orelhão virou ponto de encontro, de expectativa, de silêncio atento.


Hoje, o Benheokli Benheye quase não se vê mais. Mas permanece vivo na memória da comunidade, como símbolo de um tempo em que a tecnologia chegou devagar, foi aprendida coletivamente e serviu, acima de tudo, para aproximar pessoas.


E assim, entre fios, cartões e vozes distantes, o telefone orelhão entrou para a história do povo Kariri-Xocó — não como objeto, mas como lembrança partilhada.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó