Páginas

quinta-feira, 22 de maio de 2025

A ARIAMA

 






Quando Pero Coelho primeiro chegou no Ceará, vindo na costa de onde hoje é Mucuripe, fez seu percurso pelo estado, em uma dessas explorações, tivemos uma notícia que ecoou na história, os nomes tapuias de Maranguape, sendo o primeiro, documentado por este mesmo português, foi o nome de Ariama.


Muito depois, chegaram outros exploradores que vinham perguntando sempre a mesma coisa: "qual é o nome das serras acolá ?", apontando em direção do Maciço de Baturité, que compõe Baturité própria em Baturité, Aratanha ou Pacatuba e Maranguape na cidade de Maranguape e Juá em Caucaia, constantemente a resposta parecia não repetir o que era dito em português, mas sim uma pergunta baseada no fato de estarem apontando para lá:


de kîam amum ne ? = 'tu irás à terra/casa ?'

a wam amum ne = 'ele irá ali'


Apenas uma língua distante ecoa esses vocábulos: O Proto-Transanfranciscano, uma língua Macro-Jê Oriental que existiu por uma vasta área do Nordeste e Sudeste brasileiro, dando origem aos ramos Maxakali, Krenák e Kamakã. Possivelmente, outras ramas existiram, mas não temos dados suficientes para compilar grupos linguísticos da região em um novo grupo linguístico, sobrando somente este resquíscio próximo da capital do Ceará. "Então como descobri os significados das palavras ?" deve ser a dúvida.


Mesmo que não saibamos qual ramificação Transanfranciscana participou essa língua, podemos ao menos comparar as palavras com os que existem nas ramificações ainda vivas, vejam as palavras:


Ariama 'nome das serras de Maranguape e Pacatuba'


Krenak: aram 'pedra, laje' (Alves, tradução da obra de Rudolph, 1909, p. 36)

Coroado: arandé 'pedra' (Ramirez, vocabulário do Leste Brasileiro, p. 10)


Obs.: O Coroado está aqui por comparação, apesar de ser uma ramificação própria de colocamento ainda em debate, é uma língua com grande influência transanfranciscana.


de kîam amum ne ? 'irás à casa ?'


Krenak: compare com a frase de Claro Monteiro do Amaral: 

'Você já foi à terra deles?'

Oti m'nhan girũ kjeme amumũ ?


Retire o m'nhan girũ (etnônimo do Minhangirũ) e sobra


oti kjeme amumũ ? 'fostes à casa ?'


Compare também a marcação do futuro em ne dos dois, fazendo as frases ficarem assim:


oti kjeme amumũ ne ? 'irás à casa (dele) ?'

de kîam amum ne ? 'irás à casa (dele) ?'


literalmente nos dois: tu casa ir FUT ?


Note a divergência fonética, queda de vogais eco e mudança de je > ja (kjeme vs kîam) e vozeamento de t > d (oti 'tu' vs de 'tu')


a wam amum ne = 'ele vai ali'


Krenak: compare com a 'ele, ela' e locativo wa mu 'ali, para ali', formando na nossa língua


a    wam    amum    ne

ele    ali         ir       FUT

"ele vai ali"



Fontes: 


ALVES, Maria Thereza, Dicionário Krenak-Português / Português-Krenak, s.d, p. 33, 36, 73


POMPEU SOBRINHO, TH, Topônimos indígenas dos séculos 16 e 17 na costa cearense, 1945, p. 179-180.




Autor da matéria: Ari Suã Kariri 



Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho, em 22 de maio de 2025 e a capa do artigo na mesma data.




Nenhum comentário:

Postar um comentário