Dimensões Religiosas, Culturais e Políticas na Antiguidade
Resumo
Este artigo investiga a origem mítica e sagrada da música e da dança segundo as concepções dos povos da Antiguidade. Para estas culturas, tais expressões eram consideradas dons divinos, sendo fundamentais na comunicação com o transcendente e na estruturação das sociedades. Além de seu caráter religioso, a música e a dança desempenharam funções culturais, artísticas, políticas e econômicas, consolidando-se como instrumentos de coesão social e identidade. A análise inclui exemplos de civilizações como Egito, Grécia, Índia, China e povos africanos, destacando como essas manifestações foram ressignificadas em diversos contextos históricos.
Palavras-chave: música, dança, mito, religião, cultura, Antiguidade.
Introdução
Desde os primórdios da humanidade, a música e a dança são reconhecidas como expressões que transcendem a mera comunicação, sendo associadas ao divino e ao sagrado. Diversas culturas da Antiguidade criaram mitos que atribuem a origem dessas manifestações a seres ou entidades sobrenaturais, que, ao inspirarem os humanos, lhes proporcionaram instrumentos para interagir com o mundo espiritual, celebrar a vida e organizar a sociedade. Como destaca Eliade (2010, p. 15), “a manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo, conferindo-lhe realidade e significado”. Assim, este artigo propõe uma análise descritiva e comparativa das concepções míticas sobre a origem da música e da dança e suas funções religiosas, culturais, artísticas, políticas e econômicas, destacando sua importância na formação das civilizações antigas.
Desenvolvimento
1. A origem mítica e sagrada da música e da dança
Para muitos povos antigos, a música e a dança eram dádivas das divindades, atuando como veículos para a comunicação entre o mundo humano e o espiritual. No Egito Antigo, por exemplo, a deusa Hathor era reverenciada como a patrona da música, da dança e do amor. Conforme Groenewegen-Frankfort (2015, p. 87), “as festividades dedicadas a Hathor integravam música e dança como elementos indispensáveis para a manutenção da ordem cósmica e social”.
Na Grécia Antiga, a música tinha caráter profundamente divino e educativo. O deus Apolo era considerado o patrono da lira, símbolo da harmonia cósmica e espiritual, enquanto as Musas eram concebidas como entidades inspiradoras das artes. Hesíodo (2003, v. 1-10) descreve, na Teogonia, as Musas como aquelas que “alegram o grande espírito de Zeus com cânticos, exaltando as glórias eternas dos deuses”.
No contexto do hinduísmo, destaca-se a figura de Shiva Nataraja, cujo papel como dançarino cósmico representa a criação, preservação e destruição do universo. Para Sachs (2004, p. 42), “a dança de Shiva simboliza o ciclo eterno do cosmos, onde o som e o movimento são inseparáveis”.
Na China Antiga, a música foi concebida como expressão da harmonia entre o céu e a terra. Os filósofos confucionistas viam-na como essencial para a ordem social. Segundo Sachs (2004, p. 65), “para Confúcio, a música não era mero passatempo, mas instrumento educativo e político”.
Entre os povos africanos tradicionais, a música e a dança são indissociáveis dos ritos religiosos e sociais. Pierre Verger (1997, p. 33) aponta que “os tambores não são apenas instrumentos musicais, mas meios de comunicação espiritual, com poderes que transcendem a materialidade sonora”.
2. Funções religiosas e culturais
A música e a dança desempenharam papéis centrais nos rituais religiosos das sociedades antigas, funcionando como meio de invocação, agradecimento ou apaziguamento das divindades. Como observa Eliade (2010, p. 19), “o rito, ao ser repetido, reatualiza o tempo mítico, reintegrando o homem na ordem primordial”.
Essas práticas reforçavam a coesão social e preservavam mitos e tradições através de gerações. No Egito, os festivais de Opet envolviam procissões musicais e dançantes em homenagem aos deuses, associando a música à renovação periódica do poder faraônico (GROENEWEGEN-FRANKFORT, 2015, p. 112).
Na Grécia, os concursos musicais e teatrais, como os realizados nas Dionisíacas, serviam para celebrar a arte e reafirmar a identidade cívica. Hesíodo (2003, v. 25-30) já destacava o poder das Musas de “inspirar o canto nos homens mortais, para que celebrem os feitos dos deuses e dos heróis”.
3. Funções políticas e econômicas
A música e a dança também foram empregadas como instrumentos de poder político. No Egito, os faraós patrocinavam grandes celebrações religiosas com música e dança para demonstrar seu poder e legitimar sua autoridade divina (GROENEWEGEN-FRANKFORT, 2015, p. 98).
Na China, os rituais musicais reforçavam a hierarquia imperial e a harmonia social. Segundo Sachs (2004, p. 67), “o sistema musical codificado refletia a organização política, onde cada nota representava um aspecto da ordem social”.
Economicamente, a profissionalização de músicos e dançarinos foi uma realidade em muitas sociedades antigas. Na Grécia e em Roma, artistas viajavam entre cidades, participando de festivais e recebendo recompensas (NETO, 2018, p. 44). Na África e na Ásia, músicos e dançarinos exerciam funções importantes como mediadores de tradições orais e animadores de eventos sociais, promovendo a circulação econômica e cultural (VERGER, 1997, p. 45).
Considerações Finais
A análise das concepções antigas sobre a música e a dança evidencia a centralidade dessas práticas na constituição das culturas humanas. Consideradas como dons divinos, tais expressões desempenharam funções que ultrapassaram a esfera do sagrado, tornando-se instrumentos fundamentais para a coesão social, a preservação cultural, a afirmação política e a dinâmica econômica das sociedades. Como afirma Eliade (2010, p. 27), “não há sociedade tradicional que não tenha compreendido a arte como uma via de acesso ao sagrado”. Assim, a música e a dança não podem ser compreendidas apenas como formas artísticas, mas como elementos estruturantes das civilizações desde a Antiguidade.
Referências Bibliográficas
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
GROENEWEGEN-FRANKFORT, H. A. Religião e Arte no Egito Antigo. Lisboa: Edições 70, 2015.
HESÍODO. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2003.
NETO, José Ribamar Bessa Freire. Ritual e Cultura: Música e Dança como Linguagens do Sagrado. Rio de Janeiro: UFRJ, 2018.
SACHS, Curt. História da Música. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
VERGER, Pierre. Notas sobre as Culturas Africanas e Afro-brasileiras. Salvador: Corrupio, 1997.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho, em 22 de maio de 2025 e a capa do artigo no dia 23 de maio de 2025.

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