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sábado, 17 de maio de 2025

BUYÊ WOROYÁ, A Fogueira das Histórias

 






Quando o sol mergulha atrás da mata e o céu começa a se encher de estrelas, os Kariri-Xocó se reúnem ao redor da fogueira. A chama crepita como se tivesse boca, sussurrando os segredos antigos da terra. É nessa hora mágica, entre o crepúsculo e o sonho, que as histórias ganham vida.


Ali, sentados em círculo, os mais velhos falam — e os jovens escutam. É assim que se aprende na aldeia: ouvindo e vivendo. Durante o dia, as palavras viram ação — no roçado, na pesca, na coleta na mata, na construção das casas de taipa, nos rituais do ouricuri e nos mutirões para limpar a terra. À noite, os ensinamentos voltam em forma de histórias, como se fossem sementes jogadas ao vento, prontas para brotar na alma.


Naquela noite, o fogo dançava diferente. Os olhos brilhavam, não só pela luz, mas pela lembrança dos grandes Contadores de Histórias que haviam passado. O menino Rayron de olhos atentos perguntou:


— Avô Nhenety, quem eram eles? Os contadores antigos?


O ancião sorriu. Seus cabelos brancos reluziam como luar sobre a areia do rio. “Meu neto”, disse ele, “quem sabe contar a história da sua gente, já alcançou o doutorado da vida.” As histórias nativas e dos colonizadores se conectaram. 


E então, como se abrisse um grande livro invisível, o velho começou a narrar. Nós indígenas aprendemos com nossas tradições e também com a histórias que os brancos trouxeram e viveram com nós aqui em outros tempos.


“Houve Joaquim Fumaça, que falava do Tempo do Rei, das assombrações do engenho, do lobisomem espreitando na estrada de barro. O Velho Gringo era valente nas palavras — contava dos cangaceiros, de Lampião e Corisco, dos valentões do sertão e das artimanhas de João Grilo e Zé Bico Doce. Já Manoel Iraminon era um livro de política e história: falava da Revolução de 30, dos vaqueiros, dos coronéis e do sertanejo pobre.”


“O Cacique Otávio Nidé conhecia os caminhos da alma — contava dos pajés antigos, do Cemitério Sagrado onde se enterrava em igaçabas, das trovoadas como aviso do tempo. Pajé Francisco Suíra era outro mundo: falava com espíritos, curava doenças, enfrentava feitiços e invejas com a força do toré.”


“E Candará... Ah, esse era bicho do mato. Imita o canto dos pássaros, segue o rastro da capivara, do veado e do teiú. Antônio Preto era o homem do barro e do cipó: sabia levantar choupana e girau, conhecia os remédios da floresta e os segredos da madeira.”


“Cícero Irêcê, o grande Cacique, sabia das tribos do São Francisco, dos Kariri, Xocó, Tupinambás, dos conflitos com os brancos, das leis esquecidas e das promessas não cumpridas. E Júlio Queiroz, filho do Pajé Suíra, puxava toré com alma e rojões com fé — enquanto ajudava na roça, cantava a resistência.”


O menino escutava com olhos marejados. A fogueira tremulava como se aplaudisse.


“Dessas histórias saíram decisões importantes, meu neto. Retomamos nossa terra, fortalecemos nossos cantos, danças, a tradição do toré. As palavras dos velhos são como raízes — seguram nossa cultura firme contra qualquer vento.”


Naquela noite, o menino entendeu. Um dia, também ele contaria histórias ao redor da fogueira. Não porque era bonito, mas porque era necessário.




Autor: Nhenety KX 




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