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sexta-feira, 16 de maio de 2025

CANINDÉ, O Líder dos Kariri

 






No tempo em que o sertão ainda era livre e vasto como o céu, as terras do Nordeste ecoavam os passos dos Kariri — um povo forte, de raízes profundas e espírito altivo. Foi no século XVII, quando os primeiros vaqueiros portugueses romperam os caminhos da mata e da caatinga com seus rebanhos de gado, que começou a longa e sofrida história de ocupação do território sagrado.


Mas os Kariri não aceitaram o invasor em silêncio. Dentre eles, se ergueu uma voz firme como o chão seco e resistente da terra: Canindé, o cacique guerreiro. Ele não era apenas um líder, era um símbolo vivo da resistência. Diz-se que Canindé percorreu as trilhas quentes da Capitania de Pernambuco, convocando guerreiros, reacendendo o espírito de luta em aldeias distantes, incluindo as do território que hoje é Alagoas.


Vestido com as cores da terra e armado de coragem, Canindé levava consigo o grito do povo. Em cada aldeia que visitava, deixava sementes de coragem e sabedoria, como quem planta esperança no chão seco da caatinga.


Passaram-se séculos, mas os passos de Canindé ainda ecoam no coração dos Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, em Alagoas. Ali, nas noites de Toré, o canto ancestral ainda sobe aos céus, como reza e como memória:


Lêlê Lêlê Kanindé

Olha o Mestre Kanindé

Olê Kanindé


É assim que se eterniza um líder: no canto, na dança, no sopro da memória coletiva.


E há mais: entre as muitas famílias que guardam esse legado, vive o nome da linhagem — a família Nidé, descendente do saudoso cacique Otávio Nidé, que guiou o povo de 1944 até 1978 com a mesma firmeza que outrora teve o velho Canindé.


A cultura, como uma esponja viva, absorve a dor e a glória, o canto e a luta. Nos Kariri-Xocó, ela vive forte, e Canindé, o líder da caatinga, nunca partiu — apenas se tornou eterno no peito de quem ainda canta.




Autor: Nhenety KX 



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