Páginas

terça-feira, 13 de maio de 2025

JACIARA – A LUA DO DIA





 Diz a memória antiga do povo Xocó que, antes de habitar a Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, os seus pés pisavam forte as terras de Pão de Açúcar, nas margens do velho rio São Francisco, no Alagoas. Ali, entre cajueiros e ventos do sertão, havia uma grande aldeia, viva de canto e tradição. Os Xocós mantinham laços antigos com os Aramurus, que já viviam na Ilha de São Pedro. Era um tempo de encontros e trocas, de caminhos abertos entre as águas e o barro quente do chão indígena.


Foi então que, num fim de tarde do século XVII, chegou à aldeia um guerreiro de nome estranho: Nuirá Ubi, que os brancos chamavam de Arco Verde. Tinha o olhar firme de quem conhecia as trilhas do mato e a voz rouca de quem trazia histórias pesadas no peito. Viera a mando de Domingos Jorge Velho, buscando guerreiros para compor o temido Terço que marcharia contra os levantes da Capitania de Pernambuco. O destino era a guerra — contra os quilombos, contra os Kariris, contra a liberdade dos povos do sertão.


Arco Verde, porém, não veio apenas com ordens. Trouxe também o coração disposto a ficar. Apaixonou-se pela jovem Jaciara, filha da lua e do dia, mulher de espírito forte e olhos que refletiam o São Francisco. Desse amor nasceu Tereza Muirá, nome escolhido em lembrança a outra filha do sertão, Muirá Ubi, talvez irmã, talvez sombra de saudade. Por um tempo, a aldeia viu em Arco Verde um pai, um mestre, um homem dividido entre a espada do colonizador e o sangue da terra.


Quando chegou o tempo da guerra, muitos Xocós, treinados por ele, partiram. Marcharam ao lado de Arco Verde, confiantes ou resignados, rumo aos combates que cruzaram o sertão em chamas. Alguns voltaram. Outros ficaram nos campos de batalha. Mas Arco Verde... nunca mais retornou.


Jaciara esperou. No canto do Toré, nos olhos da filha, no silêncio das noites de lua cheia. E foi ali, no lamento calado do tempo, que os Xocós perceberam o perigo se aproximando: os brancos vinham mais perto, como sombra crescente. Decidiram migrar para a Ilha de São Pedro, juntando-se aos Aramurus. No início, houve disputas, desconfiança. Mas os casamentos, como o de Jaciara e Arco Verde, abriram caminhos. Com o tempo, os dois povos se tornaram um só.


Até hoje, o povo canta. Em roda, no terreiro, na memória viva do tambor, ecoa o nome da filha esquecida pela guerra, mas guardada pela história: Tereza Muirá.


“Dona Tereza,

Eu vou embora…

Vou lá pra cima pro sertão,

Eu vou embora…”


E assim, Jaciara — a lua que brilha de dia — segue iluminando os passos de quem ainda escuta os cantos antigos e honra os nomes gravados nas raízes do tempo.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





Nenhum comentário:

Postar um comentário