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domingo, 22 de junho de 2025

IBARANÚ UITANE IWORÓ, Carro Ronca em Duas Rodas






Era tempo de novidade lá pelos lados de Porto Real do Colégio, mais ou menos nos anos de 1960. Os ventos que sopravam da cidade carregavam sons diferentes, cheiros de fumaça e barulhos estranhos que não vinham da mata nem dos bichos. Na beira da estrada de terra, Itaní, um jovem indígena curioso, olhava atento o que passava.


— Ei moço! Que troço é esse aí? — perguntou, com os olhos arregalados diante daquela geringonça barulhenta que cortava o ar soltando fumaça.


O homem branco, com o capacete pendurado no braço e um sorriso despreocupado, respondeu:


— Isso aqui é uma lambreta... ou moto, como queiram chamar.


Itaní não sabia se tinha medo ou admiração, mas achou aquilo mais perto de um carro do que de uma bicicleta. Correu para a aldeia na periferia da cidade, onde o velho Cajarana, ancião respeitado, tomava banho de cuia sob a sombra do umbuzeiro.


— Cajarana! — gritou, ainda ofegante. — Vi um troço diferente lá na cidade... é como um carro de duas rodas... mas ronca, solta fumaça...


O ancião, com o olhar firme e a sabedoria ancestral, refletiu por um instante. Depois, disse com serenidade:


— Então chamaremos de Ibaranú Uitane Iworó... Carro Ronca em Duas Rodas.


E assim, batizada em nossa língua Kariri, a moto passou a ter nome com alma, com som de história viva.


Mas naquela época, ninguém da aldeia tinha uma dessas. Só muitos anos depois, em 1989, a FUNAI trouxe uma moto para que um de seus funcionários pudesse fiscalizar o território indígena. Foi a primeira a circular pelas trilhas e caminhos entre as casas de barro e as cercas de varas.


Só em 1990 os indígenas começaram a comprar suas próprias motos. Vieram as Honda, depois as Yamaha. O ronco do motor se misturou ao som do canto dos pássaros e ao farfalhar das palhas dos telhados. A aldeia mudou, ganhou movimento. E agora, por essas bandas, não é raro ver um Mototáxi indígena cruzando a estrada que liga a Aldeia Kariri-Xocó à cidade de Porto Real do Colégio, levando gente, sonhos e histórias.


Afinal, cada moto que passa carrega mais do que passageiros — carrega também o eco de um tempo em que tudo começou com um olhar curioso e uma pergunta:

— Ei moço... que troço é esse aí?




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



 



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