A Fábula dos Peixes Cobras
Numa lagoa escondida entre matas e campos alagados, viviam dois companheiros muito especiais: o Mussum e o Sarapó. Ambos eram alongados e escorregadios, tanto que, de longe, quem os via pensava logo: “São cobras d’água!”.
Por causa dessa aparência, muitos pescadores novos torciam o nariz:
— “Argh! Que bichos feios, devem ser venenosos!”
Mas as comunidades tradicionais, que carregavam a sabedoria dos antigos, sabiam que ali se escondia um tesouro da natureza.
O Sarapó, de corpo pardo com faixas escuras, tinha dons especiais. Conseguia sentir o mundo ao redor com descargas elétricas invisíveis, como se fosse um mago das águas. Já o Mussum, paciente e resistente, sabia sobreviver mesmo em tempos de seca, enterrado na lama até que as chuvas voltassem.
Certa noite, enquanto nadavam juntos, o Sarapó comentou:
— “Amigo Mussum, será que algum dia vão reconhecer nosso valor? Sempre nos confundem com cobras, quando na verdade somos guardiões da vida nos rios e lagoas.”
O Mussum sorriu, movendo-se como se dançasse na correnteza:
— “Quem não nos conhece pode se enganar, irmão. Mas o povo que aprendeu a viver com a natureza nos honra há séculos. Eles sabem que nosso corpo dá força, que nossa carne alimenta, e que nossa presença é sinal de equilíbrio.”
E assim os dois seguiram nadando, sem se importar com as aparências. Sabiam que, no coração da tradição, já estavam eternizados como alimento sagrado e companheiros de jornada das comunidades ribeirinhas.
Moral da Fábula:
As aparências podem enganar. O que parece estranho ou assustador aos olhos de alguns, pode ser um grande tesouro para aqueles que conhecem a verdadeira essência das coisas.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
MUSSUM E O SARAPÓ, Os Peixes que Parecem Cobras
( Versão Cordel Sextilhas )
No fundo de uma lagoa,
Viviam dois camaradas,
O Mussum cheio de força,
O Sarapó nas jornadas.
Pareciam cobra-d’água,
Mas eram joias sagradas.
O Sarapó era esperto,
Sentia tudo ao redor,
Com energia escondida,
Se guiava sem ter sol.
Um peixe de grande tino,
Que sabia o seu farol.
O Mussum tinha um segredo,
Sabia se proteger,
Na seca ficava oculto,
Na lama pra não morrer.
Quando a chuva retornava,
Voltava logo a viver.
Muitos viam e temiam,
Diziam: “São peçonhentos!”
Mas o povo da floresta
Guardava outros pensamentos:
Sabia que aqueles peixes
Valiam mais que sustento.
Pois davam força ao corpo,
Nutriam toda a família,
E no saber ancestral
Tinham valor que brilha.
O saber dos ancestrais
É a luz que não vacila.
Assim Mussum e Sarapó
Seguiram sua missão,
De alimentar os humanos
E ensinar a lição:
Não se julga pela forma,
Mas sim pelo coração.
👉 Moral em verso:
Quem só olha a aparência
Corre o risco de enganar,
Pois a beleza da vida
Está no modo de amar.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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