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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O CÃO ALENTEJANO, SUA INFLUÊNCIA NO FILA BRASILEIRO E A FORMAÇÃO DO "CÃO VILA-LATA"






Introdução


A presença de cães na história do Brasil está profundamente ligada ao processo de colonização. Entre as raças trazidas pelos portugueses, destaca-se o Rafeiro do Alentejo, cão molosso usado para guarda de rebanhos e propriedades em Portugal. Sua introdução no Brasil no período colonial não apenas reforçou a segurança dos engenhos e fazendas, como também deixou descendência genética que contribuiu para a formação do Fila Brasileiro, uma das raças nacionais mais emblemáticas. Paralelamente, a miscigenação espontânea de cães importados deu origem ao popular “cão vila-lata”, símbolo da resistência e da mestiçagem no território brasileiro.


Linha do tempo histórica


Séculos XVI–XVII – Colonização e chegada dos cães ibéricos


Colonos portugueses trazem cães de grande porte da Península Ibérica, entre eles o Rafeiro do Alentejo.


Função: guarda de engenhos, fazendas e proteção contra invasores humanos e animais selvagens.


Adaptação: esses cães suportaram bem o clima e se espalharam pelo território colonial.


Século XVIII – Consolidação do cão alentejano no Brasil


O Rafeiro do Alentejo se torna um cão de guarda essencial em áreas rurais.


Surge o cruzamento com outros cães trazidos da Europa (mastins espanhóis, bloodhounds ingleses e cães de caça portugueses).


Esse processo inicia a formação de um “tipo brasileiro” de cão guardião.


Século XIX – Formação do Fila Brasileiro


Em fazendas de Minas Gerais e São Paulo, a miscigenação entre cães alentejanos, mastins e bloodhounds consolida o Fila Brasileiro.


O Fila é utilizado na guarda de propriedades, na caça de animais de grande porte e, de forma negativa, na captura de escravizados fugidos.


O cão alentejano é reconhecido como uma das matrizes genéticas mais importantes dessa raça nacional.


Século XIX–XX – O surgimento do “cão vila-lata”


Nos centros urbanos e vilas rurais, a miscigenação desordenada de cães sem controle gera os “cães de rua”, conhecidos como “vira-latas” ou “cães vila-lata”.


O termo “vira-lata” aparece pela observação desses cães revirando latas de lixo em busca de alimento.


Diferente do Fila Brasileiro, que teve padronização, o vira-lata representa a diversidade genética sem pedigree, mas com grande resistência e inteligência adaptativa.


Século XX – Reconhecimento cultural


O Fila Brasileiro ganha reconhecimento nacional e internacional como raça oficial, registrada pela Confederação Brasileira de Cinofilia e pela FCI.


O “cão vila-lata” se torna símbolo popular, exaltado na literatura, na música e até na política como representação da mestiçagem e da rusticidade do povo brasileiro.


Comparação entre Rafeiro do Alentejo, Fila Brasileiro e Cão Vila-Lata


AspectoRafeiro do AlentejoFila BrasileiroCão Vila-LataOrigemPortugal (Alentejo)Brasil colonial (séc. XIX)Brasil (miscigenação livre)FunçãoGuarda de rebanhos e fazendasGuarda, caça, defesaCompanhia e sobrevivência urbana/ruralPorteGrande, robustoGrande, musculosoVariávelTemperamentoVigilante, calmo, lealExtremamente fiel, “ojeriza” a estranhosInteligente, rústico, adaptávelReconhecimentoRaça oficial (FCI)Raça oficial (FCI)Não é raça, mas símbolo popular 


Conclusão


A presença do Rafeiro do Alentejo no Brasil colonial foi essencial para a organização da vida rural, garantindo a segurança dos engenhos e fazendas. Sua contribuição genética foi determinante para o surgimento do Fila Brasileiro, raça que sintetiza a herança luso-ibérica adaptada ao território brasileiro. Paralelamente, o cão vila-lata, fruto da miscigenação espontânea, tornou-se o retrato da resistência, da adaptabilidade e da mestiçagem cultural do país. Dessa forma, o Brasil carrega em sua história canina tanto a herança dos cães de raça trazidos pelos colonizadores quanto o legado dos mestiços, que se tornaram verdadeiros símbolos nacionais.


Referências (ABNT)


CORRÊA, Sérgio. O Fila Brasileiro: história e tradição. Belo Horizonte: Ed. Cinofilia Nacional, 2005.


CUNHA, António. Raças de cães de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1998.


SILVA, Carlos T. Animais e a colonização portuguesa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.


DIAS, Reinaldo. História do cão no Brasil: dos engenhos coloniais ao cão de companhia. Rio de Janeiro: Mauad, 2012.


FEDERAÇÃO CINOLÓGICA INTERNACIONAL (FCI). Padrão Oficial – Rafeiro do Alentejo (Fila de Alentejo). Bruxelas: FCI, 2020.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




CORDEL DOS CÃES DO BRASIL 



No tempo da colonização

Portugal trouxe o guardião,

Era o cão do Alentejo,

Forte, leal e sem pejo,

Defendia engenho e gado,

Sempre atento e respeitado.


Na lida dura da fazenda

Sua presença era emenda,

Guardava noite e dia

Com coragem e ousadia,

Nos sertões e nos caminhos,

Protegia os peregrinos.


Do cruzar de várias raças

Nas terras de muitas praças,

Surge o Fila Brasileiro,

Valente cão justiceiro,

De Minas fez-se a raiz,

Patrimônio do país.


Grande, firme e imponente,

Ao dono sempre obediente,

Com estranhos, desconfiado,

Mas no lar, fiel aliado,

Herança lusa e ibérica,

Raça forte, tão genérica.


Mas nas ruas da cidade,

Nascem cães sem identidade,

Misturados, sem fronteira,

De pelagem verdadeira,

São os nossos vira-latas,

Companheiros de bravatas.


Sem ter título ou brasão,

Vivem só do coração,

Guardam casas, seguem gente,

São astutos, persistentes,

E no peito do Brasil

Virou símbolo sutil.


Assim conta-se a memória

Dos cães dentro da história:

O Alentejo foi raiz,

O Fila marca o país,

E o Vila-Lata é prova

De uma nação sempre nova.



👉 Esse cordel pode ser usado em livro, blog ou até em roda de leitura, pois mistura memória histórica com linguagem popular.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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