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domingo, 28 de dezembro de 2025

DUBOHERIÁ E DUBOHERIDÉÁ – OS GUARDIÕES DO SABER NO OPARÁ






À margem esquerda do grande Opará, onde o rio fala com as pedras e o vento atravessa as Retséá, as florestas vivia o povo Kariri do grupo linguístico Dzubukuá. Sua Natiá, aldeia repousava entre as águas da Dzurichi Lagoa Comprida e as florestas antigas, lugar onde o tempo não corria — caminhava.


Ali moravam Duboheriá, o Mestre do Saber, e Duboheridéá, a Mestra da Palavra Viva. Não usavam paredes nem livros de pedra. Seus ensinamentos nasciam da terra, do rio, do fogo e da memória. As crianças sentavam-se em roda, e os Subatekié, conhecimento, Nhenetí, tradição fluíam como canto antigo, passando de geração em geração.


— Aprender é escutar o espírito da terra, dizia Duboheriá, enquanto traçava sinais na areia.


— Ensinar é manter vivo o que não pode morrer, completava Duboheridéá, com a voz calma das avós do mundo.

Mas um dia, o silêncio da floresta foi cortado por vozes estranhas. Chegaram os Waréá, padres vestidos de preto, trazendo cruzes e palavras novas. Com eles vieram os Caraí, brancos, os Peró, portugueses como diziam os Tupinambás. No alto do Boêdo, onde antes se ouvia apenas o canto dos pássaros, ergueram a Erantoá, a casa dos santos, e logo depois o Erátekié, o colégio dos jesuítas.


Os ensinamentos mudaram.

Os Duboheriá e as Duboheridéá foram silenciados. Seus lugares passaram a ser ocupados por vozes que não conheciam o Opará nem falavam com os espíritos da floresta. As Erácró, casas de pedras  cresceram, transformando a antiga Natiá, aldeia tradicional numa Naticróraí — a aldeia de pedra dos brancos.

Com o tempo, veio o Império, depois a República. Os Kariri foram empurrados para fora do centro, vivendo agora na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Sem proteção, sem terra, sem direito — mas ainda com memória.


As Duboheridéá, mestras envelheceram, mas nunca deixou de ensinar. À noite, reunia as crianças e sussurrava histórias proibidas, como sementes escondidas no chão seco. 

Em 1944, algo mudou. O Estado reconheceu novamente os indígenas. Surgiu o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso. Na Rua dos Índios nasceu a Escola dos Kariri. Mas ainda não era tempo de retorno completo: os professores vinham de fora, ensinavam sem ouvir.


Só em 1973 as primeiras professoras indígenas cruzaram os portões da escola. Duboheridéá já não caminhava, mas sorriu quando soube. Na década de 1980, o número cresceu. O saber começava a voltar para casa.


Em 1999, a educação indígena foi reconhecida segundo sua própria cultura, arte, língua e história. O que antes era sussurro voltou a ser voz.


E em 2006, a escola recebeu o nome do Pajé Francisco Queiroz Suíra. Ali, finalmente, os professores e professoras eram do próprio povo Kariri-Xocó.

Naquele dia, dizem que o vento passou diferente sobre a Lagoa Comprida.

Duboheriá, agora espírito da memória, falou ao rio:


— Voltamos.

Hoje, o saber ancestral caminha novamente pela escola:

Duboherí Worobü ensina os números como caminhos,

Dubosamy ensina cultura como raiz,

Doboherí Nunúanie faz a língua nativa florescer,

Duboherí Subantse revela os segredos da natureza,

Dubohé Hibuyê faz do corpo movimento sagrado.


E assim, no Opará, o ensino voltou a ser o que sempre foi:

memória viva, palavra ancestral e continuidade do povo.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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