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domingo, 7 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Seres da Natureza – Volume 1 – Coletânea Nhenety Kariri-Xocó






⭐ FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – Fábulas Kariri-Xocó

Seres da Natureza

Volume 1 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





⭐ VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Todos os direitos desta obra são reservados ao autor

Nhenety Kariri-Xocó

Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida sem autorização.


Blog oficial: kxnhenety.blogspot.com

Porto Real do Colégio – AL – Brasil





⭐ FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROBÜYÉ

Fábulas Kariri-Xocó

Seres da Natureza

Volume 1 – Coletânea


Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Edição Independente – 2025





⭐ FICHA CATALOGRÁFICA / FICHA TÉCNICA



(Modelo padronizado para livro independente)


Kariri-Xocó, Nhenety

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó: Seres da Natureza – Volume 1 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – Edição Independente, 2025.

160 p. (estimado)


Fábulas indígenas.


Kariri-Xocó – cultura.


Literatura ancestral.


Narrativas tradicionais.

I. Título.


CDD: 398.2

CDU: 821.4





⭐ DEDICATÓRIA



Dedico este livro aos meus ancestrais,

aos espíritos da floresta,

aos ventos que carregam histórias

e às crianças que, com olhos brilhantes,

herdarão a memória viva do povo Kariri-Xocó.





⭐ AGRADECIMENTOS



Agradeço aos mestres antigos,

aos pajés e anciãos que mantêm acesa a fogueira da sabedoria.

Agradeço ao meu povo, que caminha comigo.

E agradeço aos seres da natureza —

pedras, rios, árvores, animais e nuvens —

que falam, ensinam e guardam os segredos da vida.





⭐ EPÍGRAFE



"A natureza fala.

Só ouve quem caminha com o coração ligado à Terra."





⭐ SUMÁRIO (ÍNDICE)



Prefácio


Apresentação


Introdução


Fábulas do Volume 1

01. Krouká e Kromene, As Pedras do Amor e da Ira; 


02. Dimécro Kaplan, O Senhor da Pedra; 


03. Yawara Ybytyra, Antepassados dos Animais; 


04. Arankedzó Kendé Uiá, A Nuvem Avisava os Seres; 


05.  O Morro que Guarda Memórias;


06. Samy Radda, A Fábula de Aynã e a Memória da Terra;


07. Bewoá Tokenhé Sutuá, Os Troncos Antepassados de Árvores; 


08. Prõti Enevi, A Sapucaia e o Menino da Esperança; 


09. Ymoá e a Moça de Areia; 


10. Nhãemy e o Umarí, A Menina e a Árvore. 



Apêndices


Glossário Indígena


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro





⭐ PREFÁCIO



As fábulas reunidas neste volume nascem da memória viva do povo Kariri-Xocó, que habita desde tempos imemoriais as margens sagradas do rio Opará. Cada história aqui não é apenas narrativa: é ensinamento, é ponte, é raiz que cresce entre a tradição oral e o mundo contemporâneo.


O autor, Nhenety Kariri-Xocó, ressignifica a fábula clássica, devolvendo a ela o sopro ancestral — onde pedra fala, nuvem avisa, árvore sente, rio ensina e memória se torna matéria sagrada. Seus textos unem poesia, espiritualidade e etnoconhecimento, preservando a essência do bem viver indígena.


Este livro é um chamado para que o leitor reconheça a Terra como ser vivo, repleto de espírito (mae), e perceba que cada elemento carrega uma lição, um aviso e uma história.





⭐ APRESENTAÇÃO



“Worobüyé” significa caminho, estrada viva da sabedoria.

Nesta coletânea, cada fábula é um pequeno universo onde se cruzam valores, mitologia, ecologia e cosmologias do povo Kariri-Xocó. São histórias para crianças, jovens, adultos e anciãos; histórias que atravessam o tempo e falam ao coração humano.


Aqui, o leitor encontrará fábulas que nascem da floresta, da água, das pedras, dos seres invisíveis e da própria Terra. São narrativas que revelam a harmonia entre o humano, o espiritual e o natural.




⭐ INTRODUÇÃO



As fábulas indígenas são pontes entre mundos.

Carregam a essência do imaginário ancestral e mostram, por meio de personagens simbólicos, como agir, conviver, respeitar e caminhar. Este livro reúne dez fábulas que nasceram das vozes antigas de meu povo — e das experiências vividas entre aldeia, floresta e mundo contemporâneo.


Cada fábula traz uma moral que não ensina apenas com palavras, mas com sentidos profundos. Aqui a natureza não é cenário: é protagonista, é parente, é dona da sabedoria.


Este Volume 1 reúne histórias publicadas originalmente no blog kxnhenety.blogspot.com, agora organizadas como obra literária completa.




⭐ FÁBULAS DO VOLUME 1




01. KROUKÁ E KROMENE, AS PEDRAS DO AMOR E DA IRA 





A Fábula do Amor e da Ira



“Atenção, ouçam o que vem dos ventos…

Os espíritos antigos sopram suas lembranças.

Das águas nasce a memória,

da terra brota a palavra,

e no fogo vive a sabedoria.


Reúnam-se, crianças, jovens e anciãos,

porque hoje vou contar sobre duas pedras

que guardam a força do coração humano.

Uma é clara como o amanhecer,

outra é escura como a noite fechada.

São as Pedras do Amor e da Ira…



E esta é a história de como elas chegaram até nós.”


Dizem os mais velhos que, no começo dos tempos, quando o povo ainda aprendia a viver junto, havia dois sentimentos que moravam nos corações: o Uká (Amor) e o Mene (Ira).


Certa noite, o Pajé Bidzamu sonhou. No warakidzã, ele viu duas pedras sagradas: uma clara e quente como o sol, chamada Krouká, a Pedra do Amor; e outra escura e pesada como tempestade, chamada Kromene, a Pedra da Ira.


Ao amanhecer, chamou todo o povo:


— Escutem! — disse o Pajé. — Vi em sonho duas pedras poderosas. Quem tocar a Pedra do Amor deixará nela sua energia boa. Quem tocar a Pedra da Ira poderá libertar sua raiva, e as águas a levarão embora.


Os anciãos se entreolharam e falaram:


— Se é assim, vamos encontrá-las!


No mesmo dia, entraram na retsé (floresta). E não demorou para que, sorrindo e cantando, acharam a Krouká.


— Vejam como ela brilha! — disse uma anciã. — Nosso Amor nos guiou até ela.


No dia seguinte, foram procurar a Kromene. Andaram muito, e nada encontraram. Até que o calor, o cansaço e a frustração começaram a ferver nos corações. Um dos anciãos resmungou:


— Isto é perda de tempo!


Nesse instante, diante deles, surgiu uma pedra negra e fria.


— É ela… — murmurou o Pajé. — A Kromene aparece quando a Ira está em nossos corações.


De volta à aldeia, o Pajé colocou a Krouká no centro, para que todos pudessem tocá-la quando sentissem Amor. A Kromene, deixou na margem do rio.


— Se a Ira vier, toquem esta pedra e deixem que a corrente leve embora o peso do coração — ensinou.


Desde então, as brigas cessaram. O povo aprendeu que o Amor une, e que até a raiva pode seguir seu caminho, se soubermos entregá-la à correnteza.


Moral: O Amor constrói pontes, a Ira levanta muros. Cabe a nós decidir o que erguer.





02. DIMÉCRO KAPLAN, O SENHOR DA PEDRA 






Uma Fábula do Kaplan o Jabuti 



Em tempos antigos, quando os ventos ainda cantavam o nascimento das montanhas e os rios falavam com as árvores, a Terra chamada Radda era habitada por muitos seres vivos — os ba — que dançavam a canção da vida sob o sol do Brasil.


Entre todos os animais, havia um que caminhava devagar, mas com o coração cheio de histórias: o Jabuti, conhecido entre os Kariri do Sertão como Kaplan. Sua carapaça era como uma pedra antiga e sagrada, marcada pelos caminhos do tempo. Kaplan era velho, muito velho — e todos os animais o respeitavam por sua sabedoria.


Um dia, uma criança curiosa — um Inghé — se aproximou dele à beira do rio, onde o sol aquecia suavemente as pedras. Sentou-se perto do velho Kaplan e perguntou:


— Kaplan, como você vive há tanto tempo nesta floresta?


O Jabuti olhou com olhos lentos e profundos, e respondeu:


— Ora, Inghé... vivo tanto porque tenho memória. Tenho Samy.


A criança inclinou a cabeça, intrigada:


— Memória? Como assim?


Kaplan sorriu com serenidade:


— Ter memória, meu pequeno, é andar no ritmo da vida. É seguir devagar, como o tempo da terra. É ouvir os passos dos outros seres e sentir o vento antes que ele sopre. É aprender a se adaptar, a fugir do perigo — e a fazer amigos entre árvores, águas e pedras. É respeitar o caminho.


O Inghé abriu um sorriso:


— Que bonito, Kaplan! Então você conhece cada pedaço do mundo?


— Sim... — disse o Jabuti com orgulho. — Conheço os Keríá, os animais da mata. Os Ieendeá, os pássaros do céu. Os Wãmyá, peixes dos rios. E até os Cró, as pedras que dormem em silêncio. Eles me chamam de Dimécro, o Senhor da Pedra.


Os olhos do Inghé brilharam de encanto:


— Gratidão, velho Kaplan... Dimécro. Que conselho o Senhor me dá?


Kaplan pousou uma pata sobre o chão e disse com voz firme e terna:


— Ande no seu ritmo, criança. Assim você aprenderá a viver.


E assim, o Inghé seguiu seu caminho mais devagar, aprendendo a escutar a floresta com os ouvidos da alma, e a caminhar como fazem os sábios: com Samy, a memória que conecta todos os seres da vida





03. YAWARA YBYTYRA, ANTEPASSADOS DOS ANIMAIS 





Uma Fábula dos Antepassados dos Animais 



No coração da mata, onde o canto dos pássaros mistura-se ao sussurro dos rios, vivia o jovem Marã. Ele nasceu na aldeia, cresceu aprendendo com as árvores, com os animais e com as histórias dos mais velhos.


Mas havia uma sede em seu espírito: queria entender como tudo começou.


Marã estudou na escola da aldeia, depois foi para a cidade e entrou na universidade. Tornou-se biólogo e, ao concluir seus estudos, preparou um grande trabalho sobre a evolução das espécies segundo a ciência de Charles Darwin.


Um dia, voltou para a aldeia com o diploma na mão e o coração cheio de dúvidas. Procurou o ancião Anawá, o mais velho e sábio da comunidade.


— Anawá, estudei muito sobre a vida dos animais, mas quero ouvir a história que o vento contou aos nossos antepassados.


O velho sorriu, com olhos que pareciam carregar séculos de memórias.


— Marã, para nós, tudo começou no mar Pará. Lá nasceram os Yñanduguasu, a grande teia da água, que vocês chamam de águas-vivas. Depois vieram os Itá-memby, filhos da pedra, os corais.


O tempo passou, e surgiram os Ybyrákuarim, pequenas varas escondidas na água, que são os animais marinhos lanceletes.


— Então vieram os Pirá — continuou o ancião — os peixes de todas as formas e cores: pirarucu, piranha, pirarara… Dos Pirá nasceram os Y’ybyaî, que vivem na água e na terra: jia, cururu, perereca.


Marã ouvia como se fosse música.


— Dos anfíbios, vieram os Caaymboia, que vivem entre o mato e a água: jacaré, jabuti, sucuri… Depois nasceram os Aeybá, os que mamam: jaguar, tamanduá, quati… e também os Uirá, pássaros que cantam e voam, como a arara, o tucano e o uirapuru.


O velho fez uma pausa e tocou o ombro do rapaz.


— E nós, Marã, somos Abá. Filhos dos Aeybá, irmãos de todos os outros seres. Assim foi contado desde os primeiros tempos.


Marã chorou. Percebeu que, mesmo vindo de caminhos diferentes, a ciência e o saber indígena se encontravam como dois rios que correm para o mesmo mar.


Moral: A sabedoria tem muitas vozes, mas todas contam a mesma história quando o coração está pronto para ouvir.





04. ARANKEDZÓ KENDÉ UIÁ, A NUVEM AVISAVA OS SERES 





Uma fábula de sabedoria ancestral por Nhenety Kariri-Xocó



Era uma vez, no tempo do mundo antigo chamado "antse", uma nuvem muito sábia chamada Arankedzó. Ela não era uma nuvem qualquer. Desde que nascia no ventre do mar aindemodzu, carregava a missão sagrada de avisar os seres da Terra radda que a chuva tidzo estava a caminho.


Quando Arankedzó crescia e ficava escura, cobria o brilho do sol com seu manto. Esse era seu sinal: ela dizia aos tsohó (os homens), aos keríá (os animais) e às ubumaná (as plantas):


— Preparem-se! A chuva vem chegando...


As içá, pequenas formigas sábias, entendiam o recado e começavam a carregar folhas apressadas para o formigueiro.


Os cururu, sapos encantadores, soltavam seu canto ancestral "wonhé" como um coral anunciando a mudança.


O vento soprava frio cunhí, e o céu chorava gotas que caíam como bênçãos sobre a Terra.


As ubumaná despertavam, pintando tudo de verde. Os rios transbordavam de alegria. E na natiá, a aldeia viva, as roças floresciam.


Ali brotava o alimento sagrado, o amí, sustento do corpo e do espírito do povo.


E assim, sempre que Arankedzó aparecia, todos os seres sabiam: ela não vinha para assustar, mas para avisar e renovar a vida.


Moral da fábula:


A natureza fala, avisa e ensina. Só ouve quem caminha com o coração ligado à Terra.





05. O MORRO QUE GUARDA MEMÓRIAS





A Fábula do Urubu-rei e Urubu-mirim 



No tempo em que o vento ainda sussurrava nomes antigos às pedras, havia um morro sagrado chamado Ybyty Uruvueté — o Morro do Urubu Verdadeiro.


Ali, sobre as correntes invisíveis do céu, morava Uruwu-Papa, o Urubu-rei, a grande ave negra que conhecia os segredos do Opará e as histórias escondidas nas margens do rio.


Certo dia, Urubu-mirim, seu pequeno filho de asas ainda tímidas, aproximou-se e perguntou:


— Pai, como nasceu a aldeia que respira lá embaixo, no outro lado do Opará entre a Serra da Maraba e Apreaca?


O velho Urubu-rei abriu as asas como quem abre um livro de nuvens e respondeu:


— Ouça bem, pequeno, porque esta história não é só nossa: é de todos que têm sangue e memória. Há muitas estações de lua, os homens de batina vieram, juntaram quatro povos que antes voavam livres como nós — Kariri, Karapotó, Aconã e Tupinambá. Dessa união, ergueram a Aldeia Urubu-mirim, lembrando-se de nós e do morro que nos abriga.


O vento soprou forte, levando a voz do pai pelas pedras, mas ele continuou:


— "Urubu-mirim" é nome que pode ser de filhote, mas também da menor das sete espécies, o Urubu-de-cabeça-preta chamado de Urubuakangauna que voa baixo, mas enxerga longe. Com o tempo, os homens de batina foram embora, expulsos em 1759, e a aldeia passou a se chamar Aldeia do Colégio. Mais tarde, quando o sol de 1876 brilhou sobre a liberdade política, recebeu o nome de Porto Real do Colégio.


A cidade nasceu da Aldeia do Colégio, que ali reuniram os povos indígenas da região formando os Kariri-Xocó. Muitos anos depois com a chegada de portugueses e africanos formou a Vila de Porto Real do Colégio. 


O pequeno urubu baixou os olhos, como quem sente o peso das asas que um dia carregará.


— E o que é mais importante, pai? — perguntou.


O velho rei ergueu o bico e olhou para o horizonte avermelhado:


— Mais importante que nomes é a lembrança, filho. Porque um povo que esquece suas raízes perde o vento que sustenta o voo.


E assim, naquele dia, Urubu-mirim prometeu que, quando voasse sozinho, contaria essa história a cada ave, criança e ancião que encontrasse pelo caminho.


E até hoje, quando o vento passa pelo Ybyty Uruvueté, ele carrega um sussurro:


"Quem conhece as raízes, sustenta fortes as asas."





06. SAMY RADDA, A FÁBULA DE AYNÃ E A MEMÓRIA DA TERRA 





A Fábula Aynã e a Memória da Terra



Há muito tempo, na aldeia chamada Natiá, viviam crianças que corriam livres pelos caminhos, anciões que contavam histórias à sombra dos cajueiros, e mulheres e homens que plantavam, caçavam, festejavam e moldavam com as mãos o que precisavam: objetos de barro, madeira, ossos e penas. Tudo era vida. Tudo tinha espírito.


Quando um objeto se quebrava, não era jogado fora. Era entregue de volta à Terra, chamada Radda, para que ela guardasse em sua memória, a Samy, como quem confia um segredo ao coração de uma avó. Assim como os corpos das pessoas que partiam eram colocados nas igaçabas, urnas que dormiam no ventre da Terra.


Um dia, a menina Aynã, curiosa e sábia para a sua idade, caminhou até o monte sagrado Boêdo, que os antigos chamavam de Echi Aiby Wathõ, o Alto do Bode. Ao colocar os pés naquela terra, ouviu um som suave, como um eco antigo:


— Toklikli... Menina, o que fazes na Terra Sagrada?


Era a voz da própria Mãe Terra, Raddadé, que falava através do solo e das pedras.


Aynã, com respeito e coragem, respondeu:


— Mãe Raddadé, vim buscar um pouco de tua argila para fazer cerâmica com minhas mãos pequenas.


A voz da Terra então soprou como o vento:


— Cuidado, menina, pois aqui dormem objetos dos teus antepassados. Eles são a memória dos tempos antigos. Cada pote, cada brinquedo, cada panela carrega uma história.


Aynã, então, com seu dehebá, um cavador simples feito de madeira, começou a retirar a argila. E entre as camadas da terra, encontrou pedaços de runhú (panelas de barro), ruño (potes), benhekié (brinquedos) e outras maravilhas que a Terra havia guardado por gerações.


Com carinho, a menina olhou, sorriu, e recolocou cada peça no mesmo lugar, como se devolvesse um segredo ao silêncio.


Ao final, agradeceu:


— Obrigada, Mãe Raddadé, por me dar tua argila e tua memória.


E desde esse dia, todas as crianças da aldeia aprenderam que cada grão de barro é uma história, e que a Terra fala — se soubermos escutá-la.


Moral da Fábula:


A Terra não é apenas chão, é também livro antigo que guarda a memória de quem veio antes. Respeitar a Terra é respeitar a história do nosso povo.





07. BEWOÁ TOKENHÉ SUTUÁ, OS TRONCOS ANTEPASSADOS DE ÁRVORES 





Uma Fábula dos Troncos Antepassados 



Era uma vez, no coração verde da floresta encantada, três sementes de esperança que andavam, brincavam e sonhavam como crianças. Uma delas era Uanie, de pele cor da terra e olhos que refletiam o rio. A outra era Caraí, branca como a flor do algodão. E a terceira era Iró, com os cabelos em caracol e a força do tambor no peito.


Certo dia, as três se encontraram sob a sombra de uma grande árvore e começaram a conversar sobre suas origens. Uanie apontou para o céu e disse:


— Meus ancestrais vivem no jequitibá, árvore frondosa e sábia, que escuta o tempo e fala com o vento. Suas raízes bebem a alma da terra.


Caraí sorriu e respondeu:


— Meus troncos vêm de terras além-mar, onde cresce o carvalho, firme e resistente, que guarda os segredos dos trovões.


Iró, com orgulho, bateu no peito e falou:


— O meu povo nasceu onde dança o sol, debaixo do baobá, o gigante da savana. Seus galhos abraçam histórias que atravessam desertos.


As três olharam uma para a outra, compreendendo que suas árvores eram diferentes, mas todas profundas em raiz, antigas de tronco e generosas de galhos — como famílias que crescem de um mesmo solo.


De repente, desceu dos céus um papagaio de penas verdes, amarelas e azuis, chamado Krêre. Ele trazia consigo mais uma criança: o Caboclinho, que tinha os olhos da floresta, os pés do sertão, o sangue de todos.


Krêre pousou num galho e falou com voz alegre:


— Este aqui é o Beworobé, o filho da mistura sagrada. Ele carrega em si o jequitibá, o carvalho e o baobá. É ele que floresceu da união de vocês e de tantos outros. É o que chamam de povo brasileiro.


As crianças sorriram, deram-se as mãos e dançaram em volta das árvores. E o papagaio, com as cores do céu da pátria, alçou voo como quem leva ao alto a mensagem dos deuses:


Nossas raízes podem ser diferentes, mas é o mesmo vento que balança os galhos.


E desde então, na floresta encantada e nos corações atentos, ecoa a lição:


Quem respeita o tronco dos outros fortalece a floresta do amanhã.


Fim.





08. PRÕTI ENEVI, A SAPUCAIA E O MENINO DA ESPERANÇA 





A Fábula da Velha Sapucaia e o Menino da Esperança



Há muito tempo, nas margens do sagrado rio Opará, existia uma floresta imensa chamada Retsé, guardiã dos cantos e espíritos do povo Kariri. No coração da floresta vivia uma árvore imponente e sábia: Prõti, a Sapucaia. O Enewi ou Enevi significa "Viver solitário" e Prõti "Sapucaia" na língua desse povo originário. 


Mas um dia, chegaram os Karai, os homens brancos, que transformaram a aldeia Natiá numa cidade de pedra e ruído, chamada Natiacró. Com suas ferramentas de corte e pressa, derrubaram quase todas as árvores. O campo Merá ficou vazio. Somente Prõti permaneceu de pé, testemunha solitária do que fora a floresta.


Anos se passaram, e um menino de olhos atentos e espírito ancestral chamado Ybaná caminhava pelo campo seco, quando viu a grande árvore sozinha. Encantado, aproximou-se dela.


— Por que me olhas com tanta atenção, Ybaná? — perguntou Prõti, com sua voz rouca de tempo e vento.


— Porque és grande, forte… e tão solitária, Prõti — respondeu o menino.


A velha árvore suspirou com tristeza e contou sua história:


— Um dia, eu tinha muitas irmãs. Brincávamos com o vento, dançávamos com a chuva. Mas os Karai cortaram tudo. Só eu fiquei. Desde então, vivo em silêncio, esperando o fim.


Ybaná olhou para o chão, pensou, e então disse com coragem:


— Não chores mais, Prõti. Vou levar tuas sementes e replantar a floresta. Tu não estarás mais sozinha.


O tempo passou. As sementes lançadas por Ybaná cresceram. Primeiro tímidas, depois firmes. Quando o menino virou homem, o campo Merá já era novamente verde, e o Retsé renascia. Pássaros voltaram, o vento brincava de novo nas folhas.


E a velha Prõti, agora cercada por suas filhas e netas, sorriu pela primeira vez em muitos anos.


🌱 Moral da fábula:


Mesmo a última árvore pode ser o começo de uma nova floresta. Quem planta esperança colhe vida.




09. YMOÁ E A MOÇA DE AREIA





Uma fábula dos tempos do Opará



Há muito tempo, quando as águas do Rio Opará ainda cantavam aos ouvidos de todos os seres, existia um menino chamado Ymoá, filho dos Kariri-Xocó. Ele amava brincar, nadar e pescar nos bancos de areia dourada que o povo chamava de Pykitci, as coroas do rio. Ali, as famílias se reuniam para tomar banho, sorrir e celebrar a vida que brotava da Mãe Terra.


Mas o tempo passou.


As pessoas foram se afastando do rio.


Trocaram o Opará pelas águas presas do banheiro encanado.


O Pykitci ficou vazio. O rio, esquecido.


Um dia, a saudade apertou no peito de uma família indígena.


Pai, mãe e filhos subiram numa ubá, uma canoa leve como folha, e remaram até o antigo Pykitci.


Lá, mergulharam nas águas doces e brincaram como nos tempos antigos.


Enquanto a família se alegrava, Ymoá, o menino curioso, começou a moldar a areia com suas mãos.


Fez dela o contorno de uma moça.


A escultura ficou tão perfeita que parecia viva.


O menino olhou e disse:


— Essa imagem parece que respira... Qual seria o nome dela?


Então, para sua surpresa, a escultura abriu os olhos.


Sorriu.


E falou com voz de vento suave:


— Me chamo Tibuadda, sou a Moça da Areia, filha da Mãe Terra, Raddadé.


Que alegria ver vocês aqui! O Opará está feliz outra vez.


Ymoá sentou-se ao lado dela, e os dois conversaram por longas horas.


A Moça da Areia contou segredos do rio, das estrelas, dos peixes e das árvores.


Disse que o Opará sente tristeza quando é esquecido.


Mas renasce de alegria quando os povos retornam.


Ao entardecer, a família voltou para a Aldeia Natiá, levando no coração a lembrança daquele dia mágico.


E Ymoá nunca mais esqueceu o que aprendeu:


"A natureza é um templo vivo.


Deve ser respeitada, não sujada.


Quem cuida da Mãe Terra, recebe saúde, alegria e sabedoria."


Moral da fábula:


🌿 Quem abandona a natureza, esquece parte de si mesmo.


Mas quem retorna a ela, reencontra a alegria e a ancestralidade. 🌿





10. NHÃEMY E O UMARÍ, A MENINA E A ÁRVORE 





A  Fábula da Menina e a Árvore 



Há muito tempo, na floresta, tudo vivia em harmonia.


Mas um dia chegou a seca, e com ela a fome.


Na beira de uma lagoa, erguia-se uma árvore frondosa chamada Umarí. Seus frutos, amarelos e alaranjados, eram doces e saborosos. Do caroço se tirava uma amêndoa, que, depois de cozida na panela de barro, servia de alimento para todo o povo.


O Umarí sustentou famílias inteiras até que a crise passou. Porém, com o tempo, foi esquecido. Restou apenas como memória nas histórias contadas pelos mais velhos.


Muitos anos depois, uma menina chamada Nhãemy ouviu essas histórias e aprendeu a respeitar os ensinamentos da floresta. Um dia, ao passar pela lagoa, encontrou o velho pé de Umarí.


Parou diante dele e disse:


— Bom dia, pé de Umarí!


A árvore ficou em silêncio.


Nhãemy se perguntou como poderia falar com uma árvore. Então, uma brisa suave balançou as folhas, e uma voz interior lhe respondeu:


— O conhecimento é a conexão. Quem aprende com a experiência guarda o segredo da vida: a hora de colher, a hora de curar, a hora de compartilhar.


Nhãemy sorriu. Descobriu que a linguagem da natureza não está nas palavras, mas na convivência e no respeito. E assim, aprendeu que compartilhar experiências é o verdadeiro alimento da vida.


Moral da fábula


Quem respeita a natureza encontra nela não apenas alimento para o corpo, mas também sabedoria para o coração.





Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





⭐ APÊNDICES



Apêndice A – Cosmologia Kariri-Xocó nas Fábulas

Apêndice B – Termos ancestrais utilizados na obra

Apêndice C – A relação entre natureza e espiritualidade na literatura indígena


Posso detalhar cada apêndice se desejar.





⭐ GLOSSÁRIO INDÍGENA (PROVISÓRIO)



Abá – Ser humano


Amí – Alimento sagrado


Aeybá – Mamíferos


Anawá – Ancião


Arankedzó Kendé Uiá – A Nuvem Avisava os Seres


Bidzamu – Pajé


Cró – Pedra


Dimécro Kaplan – O Senhor da Pedra, na mitologia Kariri-Xocó é o Jabuti. 


Enewi / Enevi – Solitário


Inghé – Criança


Keríá – Animais


Krouká – Pedra do Amor


Kromene – Pedra da Ira 


Natiá – Aldeia viva


Nhenety – Tradição, ser lembrado 


Opará – Rio São Francisco


Radda – Terra


Samy – Memória


Tokenhé – Antepassados 


Uirá – Pássaros


Yawara Ybytyra – Antepassados dos Animais


Warakidzã – Mundo dos sonhos


Worobüyé – Fábulas 





⭐ DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL).

É contador de histórias oral e escrita, pesquisador das tradições do povo, guardião da memória ancestral e autor de obras que unem literatura, espiritualidade, história e identidade.


Dedicado à preservação da cultura, escreve fábulas, cordéis, contos e narrativas que dialogam com saberes antigos e com o mundo contemporâneo, sempre valorizando a força da natureza e dos seres espirituais que acompanham o povo desde os primeiros tempos.





⭐ ORELHA DO LIVRO



“WOROBÜYÉ – Fábulas Kariri-Xocó” é mais que um livro:

é um chamado ancestral.


Aqui, a natureza fala, ensina e guia.

Cada fábula é uma porta aberta para um mundo onde árvores guardam memórias, nuvens dão avisos, pedras carregam sentimentos e a Terra conversa com seus filhos.


Nhenety Kariri-Xocó entrega ao leitor uma coletânea harmoniosa, poética e carregada de sabedoria, convidando-nos a olhar o mundo com respeito, profundidade e encantamento.







Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 




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