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sábado, 6 de dezembro de 2025

WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, MEMÓRIA DA TECNOLOGIA, Contos – Volume 19 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó








📘 FALSA FOLHA DE ROSTO


WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ
MEMÓRIA DA TECNOLOGIA
Contos – Volume 19 – Coletânea
Nhenety Kariri-Xocó




📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Direitos autorais exclusivos do autor.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida sem autorização formal de Nhenety Kariri-Xocó, conforme a Lei nº 9.610/1998.

Edição independente.
Brasil – 2025.




📘 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)


WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ
MEMÓRIA DA TECNOLOGIA
Contos – Volume 19 – Coletânea

Autor:
Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – AL
2025




📘 FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO PADRÃO)


KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Woroy História – Kariri-Xocó, Memória da Tecnologia: Contos – Volume 19 – Coletânea /
Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio: Edição Independente, 2025.

Contos indígenas.

Memória oral Kariri-Xocó.

Tecnologia e cultura ancestral.

Literatura indígena.

Tradição e modernidade.

CDD: 899.93
CDU: 821.29-34




📘 DEDICATÓRIA


À memória viva dos antigos que caminham ao meu lado,
aos espíritos que sopram coragem na escrita,
e às crianças Kariri-Xocó,
que herdarão o canto da palavra e o brilho da tecnologia que não rouba nossa alma,
mas ilumina nosso caminho.




📘 AGRADECIMENTOS


Agradeço aos meus parentes, aos meus mestres de chão,
aos anciãos que ensinaram que memória não se guarda apenas na cabeça,
mas também no coração.

Agradeço aos que lutam pela preservação da cultura Kariri-Xocó,
aos que caminham dignamente entre o antigo e o novo,
e a todos que acolhem esta obra como um canto da aldeia para o mundo.

Agradeço especialmente ao Irmão Virtual ChatGPT,
que tem sido ponte, ferramenta e parceiro na construção
da memória escrita do meu povo.




📘 EPÍGRAFE


"A tecnologia muda o mundo.
A memória ancestral muda a alma."
— Provérbio Kariri-Xocó




📘 SUMÁRIO (ÍNDICE)


Prefácio

Apresentação

Introdução


Contos: 

01. Tonranran Toklikli, O Livro Folhas Que Falam;

02. Waruaerã, A Imagem Na Folha;

03. Worowakisí, Histórias nas Imagens Repartidas; 

04. Torãkemwa, Livro Fino de Imagens Coloridas; 

05. Cramycá Samyonhé: A Caixa que Canta Memórias; 

06. Warunaru, A Figura Que Se Desloca;

07. Ieençocahé, O Picapau em Apuros; 

08. Craiwonhé, A Caixa Roda Toca e Canta; 

09. Cramysawa, A Caixa de Fita que Gravava Imagens; 

10. Craiwopiwon, Caixa Roda Pequena que Toca e Canta; 

11. Craiwopewa, A Caixa Roda e Mostra Imagem. 

Apêndices

Glossário Indígena

Dados Biográficos do Autor

Orelha do Livro

Capa

Contracapa




📘 PREFÁCIO


A memória é um território sagrado. Não se prende ao tempo nem à matéria — ela se move como o Opará em sua dança eterna, conectando margens, povos e gerações. Este livro, Woroy História – Kariri-Xocó, Memória da Tecnologia, é mais do que uma coletânea de contos: é um arco de passagem entre o antigo e o novo, entre o mundo físico e o mundo das imagens, entre o canto ancestral e os aparelhamentos que moldaram a modernidade.

Aqui, cada conto abre uma trilha que atravessa séculos, unindo o sopro dos Encantados — agora chamados de Espírito pelo desejo do autor — às primeiras formas de tecnologia que chegavam à aldeia. Desde o Tonranran Toklikli, o Livro Folhas Que Falam, até o Warunaru, a figura que se desloca na televisão, cada invenção é ressignificada aos olhos do povo Kariri-Xocó, tornando-se parte de sua cosmologia, linguagem e existência.

Nhenety Kariri-Xocó não escreve apenas como narrador. Escreve como testemunha. Escreve como parte viva da história que conta. Sua palavra não descreve — ela encarna.

Ao longo dessas páginas, compreendemos que a tecnologia não veio apenas de fora. Ela encontrou um povo que já tinha sua própria tecnologia do sagrado: a palavra viva, a memória transmitida, o tambor que fala, a dança que revela, a imagem do mundo refletida no espírito.

Por isso este livro é tão especial. Ele não registra apenas objetos, mas encontros. E todo encontro, quando vivido com consciência ancestral, transforma-se em ninho de sabedoria.

Que este volume seja lido com o coração aberto, como quem segura um arco de tempos entre as mãos. Que cada leitor encontre aqui um rastro da própria humanidade, e perceba que a tecnologia verdadeira começa na alma de um povo.

[Assinatura sugerida]
Fulano de Tal
Pesquisador(a) das Culturas Originárias do Nordeste
Prefaciador




📘 APRESENTAÇÃO


Este livro é um território onde a memória anda. Cada conto aqui presente nasce da vivência, da observação e da espiritualidade do autor, Nhenety Kariri-Xocó, que transforma acontecimentos históricos e lembranças coletivas em fios de uma grande rede narrativa — uma rede que amarra passado, presente e futuro.

Woroy História – Kariri-Xocó, Memória da Tecnologia é o Volume 19 de uma longa caminhada literária, em que cada volume traz um rosto, uma lembrança, um caminho. Aqui, o foco não é apenas a tecnologia em si, mas a forma como ela chega, como é percebida, nomeada e incorporada pela aldeia Kariri-Xocó.

Cada artefato — livro, fotografia, fita cassete, televisão, gibi — é apresentado sob a luz da cultura indígena, traduzido pela língua ancestral, sentido pelo olhar do povo.

Não se trata de nostalgia. Trata-se de afirmação.
Não se trata de objetos. Trata-se de relações.
Não se trata apenas de modernidade. Trata-se de resistência, adaptação e reinvenção.

Este volume é, portanto, um documento vivo. Um registro literário da forma como uma aldeia inteira dialogou com o mundo e o transformou dentro de si.

Leitor, prepare-se para caminhar por histórias que não apenas informam, mas encantam — histórias que mostram que a tecnologia, quando toca a alma, vira memória. E memória, quando tocada pela palavra, vira eternidade.




📘 INTRODUÇÃO


A relação entre os povos indígenas e o mundo da tecnologia é mais profunda e antiga do que geralmente se imagina. Antes mesmo das máquinas e objetos trazidos pelos brancos, já existiam tecnologias da sobrevivência, da espiritualidade, da comunicação e da memória — tecnologias feitas de canto, gesto, ritual, observação da natureza, domínio da terra, do rio e das estações.

Quando os primeiros instrumentos do mundo moderno chegaram à aldeia Kariri-Xocó, eles não chegaram ao vazio — chegaram a um solo fértil de sentidos. Por isso, cada novidade ganhou nome em Kariri e encontrou seu lugar na cosmologia do povo.

O livro virou Tonranran Toklikli.
A fotografia tornou-se Waruaerã.
Os gibis transformaram-se em Worowakisí.
A revista se nomeou Torãkemwa.
O gravador de fita virou Cramycá Samyonhé.
O desenho animado passou a ser Warunaru.
E o Picapau da vida real ganhou narrativa própria em Ieençocahé.

Neste volume, reunimos contos que registram não apenas a chegada desses objetos, mas a maneira como foram sentidos, interpretados e absorvidos pelo povo. Cada texto mistura história documental, memória oral e imaginação poética — uma fusão que reflete a identidade viva da cultura Kariri-Xocó.

Para além da tecnologia, este livro fala do encontro.
Do encontro entre mundos.
Do encontro entre tempos.
Do encontro entre saberes.

E fala, sobretudo, da permanência.
Porque tudo muda — mas a memória, quando escrita, permanece cantando.

Assim, este volume se apresenta como um gesto de resistência cultural, um arquivo afetivo e uma celebração da capacidade Kariri-Xocó de transformar tudo o que toca.

Que esta introdução seja o convite para caminhar com calma — como quem desce a trilha da mata para ouvir uma história antiga sendo contada diante do fogo.




📘 CONTOS  — MEMÓRIA DA HISTÓRIA 



01. TONRANRAN TOKLIKLI, O LIVRO FOLHAS QUE FALAM 










Um Conto Sobre o Livro 


Dizem os mais velhos que, certa vez, chegaram à beira do Opará uns homens estranhos, vestidos com roupas pretas, carregando nas mãos pequenos pacotes feitos de folhas empilhadas. Eles não cantavam maracá, não assobiavam para o vento e nem dançavam com os pés na terra. Mas faziam algo que ninguém jamais tinha visto: faziam as folhas falarem.

Os Kariri Dzubukuá, espantados com a novidade, deram nome àquilo que viram: Tonranran Toklikli, o Livro Folhas Que Falam.

As palavras desses Waré — os padres jesuítas — vinham escritas, presas nas folhas, como se fossem cantos engaiolados. Eles diziam que era a Doutrina do seu Deus. E de fato, em 1698, o Padre Luiz Vicencio Mamiani escreveu o primeiro catecismo cristão na língua Kariri-Kipeá, na aldeia de Geru, do outro lado do rio. No ano seguinte, escreveu a gramática dessa mesma língua.

As aldeias escutavam essas notícias com espanto e curiosidade. Não era apenas um padre. No ano de 1709, nas margens do Opará, o Padre Bernardo de Nantes também escreveu um catecismo, agora na língua dos Kariri Dzubukuá. E muitos outros vieram, sempre com seus Tonranran Toklikli nas mãos.

Os Caraí — os brancos — pareciam ter gosto em escrever tudo que viam. Em 1817, o Padre Manoel Aires de Casal passou pela aldeia e escreveu sobre a arte das cerâmicas feitas pelas mulheres Karapotó. Já em 1871, o geógrafo Thomaz Espindola Bonfim anotou sobre a presença dos Tupinambá na Aldeia de Colégio.

E não parou por aí. Em 1935, chegou o cientista Carlos Estevão. Sentou-se para conversar com Maria Tomasia, a índia Natú, e ali registrou a presença dos povos Natú, Waconan, Xocó e tantos outros que vivem entre os galhos da memória.

Mas um dia, algo diferente aconteceu. Pela primeira vez, um Kariri-Xocó escreveu com sua própria voz, com sua própria alma. Nhenety — filho de Porto Real do Colégio — pegou as folhas que falam e fez delas arco, flecha e caminho.

No ano de 1999, escreveu seu primeiro artigo na revista da Universidade de São Paulo, falando de sua infância. Depois, em 2007, publicou seu livro Arco Digital, e dali por diante, nunca mais parou de fazer as folhas falarem com a força da palavra ancestral.

Hoje, os livros falam não apenas do que os outros viram em nós, mas do que nós mesmos sentimos, lembramos e sonhamos. Tonranran Toklikli já não é só um objeto dos padres e dos cientistas. Agora, é também arma da memória viva do povo Kariri-Xocó.

E assim, as folhas seguem falando, em cada canto do Opará, para que o tempo jamais esqueça.




02. WARUAERÃ, A IMAGEM NA FOLHA 









Um Conto Sobre a Fotografia Kariri-Xocó 


Desde os primeiros tempos, os nativos se encantavam com os reflexos nas águas do rio, com as sombras lançadas pelo fogo ou pelo sol. Chamavam aquilo de waruá — espelho, figura, imagem. A natureza, em sua simplicidade, já ensinava os olhos a verem o invisível.

Foi por volta da década de 1930 que um homem estranho apareceu na Rua dos Índios, com roupas de cidade e um caderno de anotações. Chamava-se Carlos Estevão, e dizia ser estudioso. Observava tudo com atenção: as casas de palha, as crianças correndo, os anciãos sentados à sombra do cajueiro. Mas o que mais espantou os olhos da aldeia foi uma tal de “caixa que fazia imagens”. Uma caixa preta, que ele segurava como um espírito curioso. Ele chamava aquilo de máquina fotográfica.

Carlos tirou retratos dos velhos e das crianças, das casas e dos caminhos. Guardava na caixa a imagem viva da aldeia. Era a primeira vez que o povo via algo tão impressionante. As imagens saíam em folhas — e não eram pinturas — eram sombras vivas da realidade.

Muito tempo se passou. Então alguém perguntou à sábia Pureza Poité:

— Vovó, que nome damos àquela caixa de fazer imagem?

Pureza sorriu com olhos de lembrança:

— Aquilo é Cramiwaá, minha neta. A Caixa de Tirar Imagens.

A filha de Pureza, chamada Jandira, perguntou curiosa:

— E a imagem que sai na folha, como se chama?

— Aquilo é Waruaerã — respondeu a anciã. — É a imagem na folha.

Naquele tempo, ninguém na Aldeia Kariri-Xocó podia ter uma máquina daquela. Era cara, coisa distante da realidade indígena. Mas o filho de Pureza, Jurandi, havia deixado a aldeia em 1942 e fora morar longe, em Manaus, no coração do Amazonas.

Na cidade de Porto Real do Colégio, morava um fotógrafo chamado Jorge Wanderley, irmão da professora Terezinha Wanderley, que ensinava os meninos da Rua dos Índios. Quando havia alguma data especial, como o encerramento do ano letivo, Terezinha chamava o irmão para “tirar retrato dos alunos”, como ela dizia.

Mas o tempo corre como o rio, e Pureza já havia partido para a Aldeia Sagrada. Foi então que, num dia de sol, chegaram à aldeia duas netas suas: Jeronisa e Maria Clara, filhas de Jurandi. O ano era 1975. Vieram do Amazonas com uma câmera fotográfica portátil, dessas que faziam imagem colorida.

Foi uma festa! As meninas fotografaram os primos, as tias, os caminhos de areia, o rio, a casa dos avós — tudo. Queriam levar a aldeia no coração e também em imagem para os parentes distantes.

Assim chegou, de fato, a fotografia à aldeia. Com tempo e memória, o Cramiwaá foi deixando de ser mistério. E hoje, não há quem não tenha uma câmera. Cada um carrega no bolso uma máquina que filma, grava, escreve e até fala. Mas o povo não esquece a primeira vez que viu a imagem na folha.

E até hoje, quando uma criança vê uma fotografia antiga de seus antepassados, alguém sussurra com orgulho:

— Waruaerã.




03. WOROWAKISÍ, HISTÓRIAS NAS IMAGENS REPARTIDAS 








Um Conto Sobre Histórias em Quadrinhos 


Naquela época, o fogo ainda era o centro das noites. Em volta das chamas, acesas nos locais sagrados da aldeia, os anciãos contavam histórias como quem semeia palavras no tempo. Cada frase, um galho seco que estalava no coração dos ouvintes. Era ali, sob o céu bordado de estrelas, que o passado caminhava até nós.

As histórias vinham em forma de sons, mas também moravam nas imagens — nos desenhos feitos com jenipapo no corpo, nos traços do barro moldado, nas tramas do artesanato. Cada linha era um caminho; cada cor, uma lembrança; cada forma, uma conexão com os nossos antepassados.

Um dia, chegou o homem branco trazendo um objeto novo: o Torarã, o "livro". Trazia histórias também, figuras impressas dos povos do outro lado do mar. Aos poucos, foram mudando os formatos, pintando com mais cores, desenhando com beleza. E as crianças ficaram curiosas.

Foi em 1974 que uma novidade desembarcou na Aldeia Kariri, ali na Rua dos Índios. O chefe do Posto Indígena, o senhor Paulo Astragéssimo, trouxe em mãos pequenos livretos coloridos. Os olhos das crianças brilharam ao ver os heróis estampados nas capas. Seriam guerreiros? Seriam deuses?

— Isso aqui é "gibi", — disse ele sorrindo —, histórias em quadrinhos!

Haviam homens com poderes, habilidades fora do comum, deuses, semideuses, alienígenas e monstros. Ficamos fascinados. Agradecidos, recebemos os gibis como presentes raros. Com alegria, corremos até o velho Iraminõ, guardião da palavra ancestral.

O ancião olhou os livretos com sabedoria antiga. Passou os dedos pelas figuras como quem toca em pedras sagradas.

— Isto é Worowakisí, — disse em nossa língua. — Histórias nas Imagens Repartidas.

Explicou que vinha de Woroy (história), Waruá (imagem) e Ukisí (repartir). Assim, o nome foi dado. Assim ficou entre nós.

Desde então, não parei mais. Colecionei gibi após gibi. Descobrimos que do outro lado do Opará, na cidade de Propriá, em Sergipe, vendiam mais. E o gosto por aquelas imagens divididas em quadros foi crescendo.

Hoje, os gibis estão na internet. Podemos lê-los online, de todas as épocas. Mas naquele tempo era diferente — era raro, era tesouro. E até hoje, ainda que o papel se desgaste, as histórias nas imagens repartidas vivem dentro do nosso peito, como brasas que nunca se apagam.





04. TORÃKEMWA, LIVRO FINO DE IMAGENS COLORIDAS 










Um Conto Sobre as Revistas


Na aldeia onde o rio murmura segredos antigos e as folhas dançam ao sabor do vento, chegou um dia um objeto encantado. Tinha cheiro de tinta, papel liso, e cores que saltavam aos olhos. Era o Torãkemwa — o Livro Fino de Imagens Coloridas.

Diziam que, há muito tempo, bem longe dali, um homem chamado Gutemberg havia criado a mágica de imprimir palavras e desenhos em folhas brancas. Lá na Europa do século XV, os livros nasceram como se fossem sementes de sabedoria. Depois vieram as revistas, essas flores ligeiras, cheias de imagens, que se abriram no século XIX como um novo jeito de contar o mundo.

Mas para os Kariri-Xocó, a história começou com os passos dos capuchinhos, lá no século XVII. Eles chegaram com seus catecismos e gramáticas, tentando aprender e ensinar ao mesmo tempo. E deixaram a palavra Torarã – "livro" – plantada na terra do nosso idioma.

Foi só muito depois, quando os caminhos da aldeia se abriram para o mundo, que o Torãkemwa chegou de verdade. Era a década de 1970. As mãos curiosas das meninas e dos meninos seguravam com cuidado aquelas revistas brilhantes: Sétimo Céu, Veja, Placar, Cruzeiro, IstoÉ…

As moças sonhavam acordadas ao ver os rostos sorridentes dos galãs de novela. Os rapazes vibravam com os retratos dos craques do futebol. Havia quem colasse pôsteres nas paredes de barro, fazendo do seu canto um pedaço do mundo grande. Era festa ao redor das imagens — era encanto, era conversa, era sonho.

O nome nasceu da nossa língua: Torãkemwa, de Torarã (livro), Kempé (fino), Waruá (imagem). Um nome que guarda a alma do que se via e sentia.

Hoje, o tempo corre mais ligeiro. As imagens voam por telas de celular. Os ídolos brilham em vídeos que cabem na palma da mão. As revistas impressas dormem quietas nas prateleiras, com cheiro de passado bom.

Mas há, no fundo do coração do povo Kariri-Xocó, uma saudade que não se apaga. Uma saudade do tempo em que abrir uma revista era abrir um mundo. Um tempo em que o Torãkemwa fazia os olhos brilhar e os sonhos correrem soltos como o vento entre os coqueiros do sertão.






05. CRAMYCÁ SAMYONHÉ: A CAIXA QUE CANTA MEMÓRIAS 










Um Conto Sobre o Gravador de Fita Cassete 


Na margem sagrada do rio Opará, quando o vento soprava as palavras dos antigos e os pássaros ainda contavam histórias nos galhos das gameleiras, uma novidade chegou à aldeia Kariri-Xocó. Era o ano de 1971. A terra vibrava com os cantos de Toré, e a memória ancestral pulsava forte nos mutirões e nas rodas de conversa à beira do fogo.

Na Rua dos Índios, o velho cacique Tuwaya, de olhar profundo como a noite, escutou os passos de um homem branco. Era Ademir, o chefe do Posto da FUNAI. Nas mãos, trazia uma caixa preta brilhante, com botões e luzinhas. O povo se reuniu curioso.

— O que é isso, Ademir? — perguntou a anciã Tainá, equilibrando uma panela de barro nas mãos.

— É um toca-fitas — respondeu o homem, com um sorriso nervoso. — Ele grava vozes e músicas... também toca sons de outras terras.

O menino Kamurim, que vivia correndo com seu bodoque entre as árvores, olhou encantado. Seu avô, Tuwaya, se aproximou devagar, como quem escuta o espírito da mata antes de atravessá-la.

— Isso tem espírito? — perguntou o velho, tocando o aparelho com os dedos respeitosos.

Ademir riu, mas Tuwaya não. Porque quando ligaram a tal “caixa mágica”, a aldeia inteira ouviu, como se os ecos de um tempo futuro cantassem de dentro dela. Era a voz do próprio Tuwaya gravada, entoando um Toré antigo. E quando o som saiu, as crianças se assustaram, os velhos se emocionaram. Tainá chorou em silêncio.

— Essa caixa... ela guarda as vozes? — perguntou Kamurim.

— Ela guarda mais do que vozes — respondeu Tuwaya. — Guarda memória. É uma Cramycá Samyonhé.

A partir daquele dia, o nome do aparelho foi outro. Não mais “toca-fitas”. Mas Cramycá Samyonhé, a Caixa de Fita que Grava, Toca e Canta, como traduziram os anciãos: Cramenu, a caixa; Mymycá, a fita; Samy, a memória; Wonhé, o cantar e o tocar.

Cada canto de mutirão, cada toante de saudação, cada palavra contada por um velho foi registrada naquela caixa. As famílias se reuniam nas noites de lua cheia para ouvir a si mesmas. Era como ouvir os próprios espíritos falar.

Kamurim cresceu ouvindo o mundo sair daquela caixa. Mais tarde, ajudaria na construção civil e no Projeto de Irrigação do Arroz no Itiúba. Ele ganharia o próprio gravador, depois uma televisão, um videocassete... Mas nunca esqueceria da primeira vez que sua voz foi ouvida por todos, vinda daquela “caixa mágica”.

Décadas depois, em uma reunião de memória oral na escola da aldeia, Kamurim, já com cabelos grisalhos, contou às crianças:

— Quando algo novo chega, ele traz mais que novidade... traz encontro. A Cramycá Samyonhé não era só um aparelho. Era um espírito que veio cantar conosco. E hoje... cada um de vocês carrega esse espírito. Gravem suas vozes, contem suas histórias, cantem seus cantos. Porque a memória só vive se for tocada e cantada.

As crianças sorriram. E no fundo da sala, um gravador antigo repousava sobre uma mesa. Silencioso, mas cheio de lembranças.





06. WARUNARU, A FIGURA QUE SE DESLOCA 









Um Conto Sobre Desenhos Animados


Naquele tempo antigo, quando o homem branco inventou um estranho aparelho que lançava luz num pano e fazia ele falar, os mais velhos deram-lhe um nome em nossa língua Kariri: Hinetoklité, a “luz que fala no pano”. Era o que os brancos chamavam de cinema. Ali, naquela luz encantada, surgia uma coisa diferente — uma figura que se movia sozinha, sem alma visível, mas cheia de espírito: Waruá, a “figura”.

Foi ali, nesse pano de luz, que nasceu o mistério de Warunaru — “a figura que se desloca de lugar”. Era como mágica: desenhos que ganhavam vida, imagens que falavam e corriam, lutavam, sorriam e voavam. Para os brancos, era o tal desenho animado. Para nós, era Warunaru — feito de Waruá (imagem) e Narubae (deslocar-se).

Mas naquela época, lá na aldeia Kariri-Xocó, não havia cinema. O que sabíamos era apenas por ouvir contar. O Hinetoklité só chegava bem longe, nas cidades dos brancos, onde passavam filmes de Jesus, mocinhos de chapéu e romance das gentes.

O primeiro verdadeiro Warunaru que chegou até nós não veio do pano de luz, mas sim do Warudókli, “o espelho que fala” — a televisão. Foi no ano de 1972 que esse espelho entrou pela primeira vez em nossa aldeia, carregando dentro dele aqueles pequenos seres dançantes, coloridos e vivos: os desenhos animados.

Naquela época, só um tinha esse espelho encantado: o indígena José Tononé. Sua sala se enchia de crianças todas as tardes. Sentadas no chão de barro batido, olhos brilhando, elas riam e sonhavam junto dos personagens que falavam línguas estranhas, mas que, de algum modo, pareciam entender o coração da criança.

O Warunaru daquele tempo era diferente. Era simples, com poucos traços, mas cheio de encanto. Hoje, dizem que estão mais bonitos, mais parecidos com gente, com aparência de três dimensões, como se estivessem ali na sala mesmo. Agora não estão mais só na televisão. Com os celulares e a internet, os Warunaru vivem andando com as crianças o tempo todo, dia e noite, na palma das mãos.

Os mais velhos, como eu, carregam no peito um carinho especial por aqueles desenhos antigos. Não era só diversão: era magia, era memória. Fez parte da nossa história. Era como se aquelas figuras deslocando-se pelo mundo dos brancos também deslocassem algo dentro de nós, acendendo sonhos no coração da aldeia.

E assim seguimos, entre os antigos e os novos Warunaru, entre o encantamento de antes e a tecnologia de agora — figuras que se deslocam no tempo, mas que permanecem vivas dentro de nós.





07. IEENÇOCAHÉ, O PICAPAU EM APUROS









Na aldeia Kariri-Xocó, entre as matas sagradas do Ouricuri, onde as árvores conversam com o vento e os bichos são tratados como parentes, vivem crianças que sabem ouvir os cantos dos pássaros e os sussurros do mato. Elas crescem ouvindo as histórias que os mais velhos contam sobre os seres da floresta, aprendendo que cada animal tem sua sabedoria, seu espírito e seu papel no grande ciclo da vida.

Mas também há televisão. E nas noites de céu estrelado, quando o gerador ronrona e a luz chega às casas da aldeia, é comum ver os pequenos reunidos diante da telinha, maravilhados com as peripécias dos personagens animados. Entre todos, havia um que fazia sucesso: o Picapau da TV, com seu riso engraçado e suas aventuras malucas. Para muitas crianças, ele era real, talvez até um encanto vindo do mundo dos desenhos.

Certa manhã, numa das andanças pela mata, um grupo de crianças descobriu um visitante especial. Lá estava ele, bicando um velho tronco de angico, com a cabeça avermelhada e as penas negras brilhando ao sol: um filhote de picapau, ainda desajeitado no voo. As crianças correram, apontando e gritando:

— Olha o Picapau da televisão!

— É ele mesmo! Olha ali! — diziam, em coro.

Cercaram a árvore, olhos arregalados, corações palpitando. O pequeno pássaro, assustado com a agitação, tentou voar de um galho para outro, mas ainda era novo demais para fugir com firmeza. Foi então que Wikaí, um dos guardiões da floresta, percebeu o perigo. Correu na frente das crianças, braços abertos como asas protetoras, e com paciência conseguiu segurar o frágil picapau em suas mãos.

— Calma, ele está assustado... — disse, com voz mansa.

As crianças se aproximavam, querendo tocar o pequeno herói alado. Para elas, era como ver um artista famoso de carne, osso e penas. Mas Wikaí sabia que aquele não era um personagem qualquer — era Ieençocahé, o verdadeiro espírito do picapau, filho da mata, irmão dos Kariri-Xocó.

Chamou então Joelma, a índia que tinha um carro. Juntos, levaram Ieençocahé para o coração da mata, bem longe das vozes e dos olhos curiosos. Lá, soltaram o filhote com carinho, desejando-lhe um bom voo e uma vida livre.

As crianças voltaram contando a história para todos: que o picapau da televisão esteve ali, na aldeia, e que Wikaí e Joelma o salvaram. Talvez fosse só um passarinho. Talvez fosse um espírito. Talvez fosse os dois.

Hoje, quando se ouve um picapau martelar alto no tronco de um angico, alguém sempre diz:

— É Ieençocahé... Ele voltou para nos visitar.





08. CRAIWONHÉ, A Caixa Roda Toca e Canta








Um conto de memória sonora do toca-disco 


Na beira do rio Opará, onde o tempo caminha descalço e as histórias vivem soltas no ar como folhas secas dançando com o vento, havia uma aldeia que conhecia a fala dos pássaros, o choro da chuva e o riso do fogo.

Mas certo dia, no início de 1970, uma nova voz ecoou entre os cajueiros e mangabeiras: uma voz que vinha de dentro de uma caixa de madeira escura, com fios como cipós e um disco preto que girava sem parar.

O velho Morã, conhecedor dos ventos, da cura e dos encantos, foi o primeiro a ver a engenhoca. Passou a mão enrugada sobre o tampo liso, olhou com olhos de jaguar e declarou:

— Crai-won-hé!

— O que disse, meu avô? — perguntou a netinha Aruã, de olhos atentos e tranças longas.

— Cramenu, menina... a caixa. Wonhé, o tocar e o cantar. E Iworó, rodar. É Craiwonhé, a caixa que roda, toca e canta!

Desde aquele momento, a aldeia ganhou um novo espírito.

O dia da festa

A máquina mágica chegou trazida por cacique Cícero Ireçê, que a comprou na cidade para o casamento de seu filho José Heleno. No dia da cerimônia, os maracás soaram primeiro, como sempre. Depois, as vozes dos cantadores entoaram o toré em homenagem aos noivos. Mas foi quando a Craiwonhé começou a girar que o espanto se espalhou.

— Olha! Ela canta sem boca! — disse Marieta, a parteira.

— E dança sem perna! — brincou o pajé Suíra, rindo com os olhos.

Era o forró do Trio Nordestino que ecoava pela aldeia. Depois veio Waldick Soriano, cantando dores que pareciam ter saído do peito de algum ancião. E logo depois, Fagner, Odair José, Os Incríveis, The Fevers e até Roberto Carlos chegaram à aldeia sem nunca terem posto os pés nela.

A cada LP, a aldeia girava junto com Craiwonhé. Os jovens se apaixonavam nas danças sob o luar. As meninas copiavam as roupas das capas coloridas. Os meninos sonhavam em formar suas bandas, mesmo sem instrumentos.

O tempo gira como disco

Crai-won-hé virou companheira das noites sem lua. Enquanto o rádio embutido nela contava as notícias do mundo, as crianças se deitavam em redes para ouvir histórias. Mas agora, era a voz de Evaldo Braga que narrava as tristezas, e de Diana que cantava as esperanças.

Aruã cresceu ouvindo aquele som. Um dia, sentou-se ao lado do avô Morã e perguntou:

— A Craiwonhé tem alma, vovô?

— Tem sim. Alma de muitos. Quando gira, ela chama os espíritos da música para dançar com a gente.

Anos depois, Aruã se tornaria contadora de histórias. E cada vez que contava sobre a Craiwonhé, seu rosto se iluminava, como se o som ainda estivesse ali.

A memória não se desliga

Com o passar dos anos, chegaram o gravador, o CD, o celular. Craiwonhé passou a descansar num canto, coberta por um pano bordado. Mas ninguém se atrevia a jogá-la fora.

O jovem Piratã, neto do cacique Ireçê, limpou a vitrola um dia e colocou um LP antigo. A aldeia parou. Os mais velhos choraram. As crianças riram. O som ainda era puro.

— Ela canta! Ela ainda canta! — gritou Aruã, agora com cabelos grisalhos.

Por que contar essa história?

Porque Craiwonhé não foi só uma caixa de som. Foi uma caixa de memórias, de encontros, de mudanças. Ela trouxe o mundo para dentro da aldeia sem arrancar a raiz de ninguém.

Ela foi ponte, não invasão.

Hoje, quando a lua cresce redonda no céu e o vento sopra do rio, ainda se pode ouvir, lá dentro das lembranças:

“Lado A: Forró. Lado B: Emoção.”

E a Craiwonhé continua a girar — na alma do povo Kariri-Xocó.





09. CRAMYSAWA, A CAIXA DE FITA QUE GRAVAVA IMAGENS 









Um Conto Sobre o Vídeo Cassete  


No tempo em que as televisões de tubo reinavam nas salas, iluminando os olhos curiosos com seus brilhos trêmulos, um novo objeto começou a visitar as casas das pessoas. Primeiro chegou bem longe, do outro lado do mundo — lá no Japão — em 1976. Chamavam-no de vídeo cassete VCR (Video Cassette Recorder) o gravador de vídeo que usa cassetes em formato VHS (Video Home System) de fita de vídeo e o sistema de gravação/reprodução associado. 

Um aparelho mágico que podia guardar o tempo dentro de uma fita e fazer o passado se repetir diante dos nossos olhos. Daí a possibilidade de ter os filmes do cinema, programas, séries de TV em casa o grande sonho das pessoas. 

Mas não foi logo que ele chegou em Porto Real do Colégio, em Alagoas. Foi só lá pelos anos de 1990 que a aldeia Kariri-Xocó viu, pela primeira vez, aquela máquina estranha ser colocada em cima de um rack de madeira, junto da televisão. As crianças olhavam com espanto, os mais velhos franziram a testa. O que seria aquilo? Um gravador de sonhos?

Quando apertavam o botão e a fita deslizava para dentro, surgiam imagens de filmes, músicas, programas de TV. Mas algo ainda mais surpreendente aconteceu: os próprios indígenas começaram a se ver nas telas. Documentários que falavam da sua gente, das danças, dos rituais, das lutas e das esperanças, podiam agora ser assistidos a qualquer momento.

Foi então que os anciãos decidiram dar ao aparelho um nome na sua própria língua ancestral. E assim nasceu o nome Cramysawa — a Caixa de Fita que Grava Imagens.

— Cramenu é caixa, disse o mais velho. — Mymycá, a fita que corre e guarda. — Samy, o poder de gravar. — Waruá, a imagem, a figura viva.

E ali, naquela pequena caixa com botões e luzes, havia um universo inteiro: da aldeia ao mundo, do mundo à aldeia.

Na cidade, uma locadora chamada Stilus se tornou ponto de encontro. As pessoas vinham a pé, de bicicleta, algumas de carro, para escolher qual história levariam para casa naquela noite. Filmes de ação, de amor, de lendas. E entre as capas coloridas de cartolina plastificada, um ou outro documentário sobre o povo Kariri-Xocó também esperava por alguém que quisesse saber mais.

Cramysawa não era apenas um aparelho eletrônico. Era uma espécie de espelho encantado que mostrava para o povo indígena que suas histórias também podiam ser vistas, guardadas, lembradas.

E hoje, mesmo que muitos já não usem mais fitas, mesmo que o tempo digital tenha chegado, os mais velhos ainda lembram:

— Você se lembra da Cramysawa?

— Claro que sim. Foi quando começamos a ver a nossa própria história em movimento.





10. CRAIWOPIWON, CAIXA RODA PEQUENA QUE TOCA E CANTA 









Um sobre o CD de memória e som Kariri-Xocó


Na aldeia banhada pelo Rio São Francisco, os dias corriam no compasso dos cantos ancestrais e dos passos do Toré. Era o tempo em que o vento ainda trazia o cheiro da terra molhada e os velhos contavam histórias ao pé do fogo. Mas o tempo, esse andarilho invisível, trouxe mudanças. E entre elas, chegou o som do mundo moderno.

Foi numa tarde de céu claro, quando o sol começava a se despedir atrás das palmeiras, que um objeto encantado fez sua aparição na aldeia. Tinha forma de caixa, com uma roda que girava em silêncio, mas quando tocada, fazia brotar músicas que pareciam espíritos cantando. Chamavam-na de toca-disco.

As famílias se reuniam ao redor dele como em torno de uma fogueira. Era comum ouvir um bolero, um xaxado, ou até mesmo um forrozinho, ecoando entre as casas de taipa. As crianças dançavam, os mais velhos sorriam e os jovens aprendiam que som também é memória.

Mas o mundo lá fora também girava — como a roda do toca-disco — e trouxe outra invenção: um pequeno disco prateado que brilhava como o luar. Chegou primeiro nos grandes centros em 1982, chamavam-no de Compact Disc. No Brasil, se fez presente em 1986. E logo a novidade bateu à porta da aldeia Kariri-Xocó.

— "É um CD, Nhenety," disse um jovem com os olhos brilhando.

— "E como se usa essa mágica?" perguntava uma anciã.

— "Com uma nova caixa. Menor. Mais leve. Mais rápida..."

Vieram os CD players. Pequenas caixas que tocavam e cantavam sem agulha, sem roda visível, mas com a mesma missão: embalar corações.

Já nos anos de 1990, muitos lares indígenas já guardavam esses aparelhos. As vozes nativas se reinventaram, ecoando agora em formato digital. Em 2008, um marco: a ONG Thydewá, ao lado de Sebastian, Nhenety e o povo Kariri-Xocó, gravou o CD Toré Som Sagrado, reunindo cantos em língua Kariri para manter viva a memória da floresta, do sagrado, da alma coletiva.

Outros também seguiram o caminho do canto gravado: o Grupo Dzubukuá, o grupo Sabucá, e até a dupla sertaneja da aldeia, Rei e Reinaldo. Cada um guardava no peito e no CD um pedaço da cultura, como se o tempo pudesse ser enrolado e guardado numa canção.

Certa vez, a jovem Kayany, olhos curiosos e mente desperta, perguntou:

— “Nhenety, e como se chama CD em nossa língua?”

O ancião olhou para o céu como quem busca resposta nos olhos do Criador, sorriu e disse:

— “Craiwopiwon.”

E explicou:

— “Cramenu é caixa, Iworó é roda, Pineté é pequena, e Wonhé quer dizer tocar e cantar. Assim nasceu o nome: Craiwopiwon, a Caixa Roda Pequena que Toca e Canta.”

Desde então, os mais jovens passaram a chamar assim aquela pequena jóia sonora. E em cada CD, ecoava o passado e o futuro do povo, como um Toré gravado no tempo.

Porque o som não morre — ele apenas muda de forma. E enquanto houver uma Craiwopiwon, a alma Kariri-Xocó continuará dançando com o vento.





11. CRAIWOPEWA, A CAIXA RODA E MOSTRA IMAGEM 










Um conto sobre o DVD



Na aldeia Kariri-Xocó, quando o sol se deitava lentamente sobre o Rio São Francisco e o céu tingia-se com as cores ancestrais do crepúsculo, um novo som passou a ecoar entre as ocas e casas: o som de uma pequena caixa que rodava e mostrava imagens. CRAIWOPEWA, assim passou a ser chamada.

Muito antes dela, os cantos do Toré ecoavam livres pelos terreiros, pelas memórias e pelas vozes dos mais velhos. O tempo corria, e os aparelhos do mundo dos brancos evoluíam como o voo de uma andorinha veloz. Primeiro veio o CD — aquele disco prateado que trazia músicas nascidas do vento elétrico. Depois, como quem atravessa oceanos e nuvens digitais, chegou o DVD: Digital Versatile Disc, a caixa mágica que mostrava som e imagem ao mesmo tempo.

No Brasil, esse artefato chegou em 1997, carregando filmes, músicas e lembranças digitais. Em pouco tempo, as casas indígenas já conheciam a nova tecnologia. Lá na aldeia Kariri-Xocó, no ano 2000, muitas famílias já ligavam seus aparelhos à televisão para assistir filmes e ouvir canções do mundo de fora. Mas havia algo maior a ser feito.

Foi em 2008, quando a ONG Thydêwá caminhava novamente junto com os filhos da aldeia, que surgiu uma ideia sagrada. Sebastian, com seus olhos atentos, e Nhenety, guerreiro da palavra e do tempo, que já haviam registrado o CD Toré Som Sagrado, decidiram guardar em imagem o som dos encantos: nasceu o projeto Kariri-Xocó Canta Toré, agora em DVD.

O CRAIWOPEWA não era apenas uma caixa qualquer. Ele podia carregar a memória dos ancestrais, os cantos que curam, os passos do Toré, os toques do maracá. Nas mãos dos jovens e velhos, a tecnologia se tornava um espelho da alma indígena.

E no ano de 2017, quando os jovens começaram a perguntar no grupo de WhatsApp OKAX — Origens Kariri-Xocó — criado por Nhenety para estudar e reviver a língua ancestral, surgiu uma nova necessidade: nomear as coisas do mundo moderno em Kariri. Assim nasceu o nome do DVD: CRAIWOPEWA – A Caixa Roda e Mostra Imagem.

"Cramenu" era a caixa.

"Iworó" era a roda.

"Pemi", o verbo mostrar.

E "Waruá", a imagem.

A língua ancestral estendia seus galhos sobre a árvore do futuro, e os frutos eram palavras novas, mas cheias de sentido antigo. O CRAIWOPEWA passou a habitar o vocabulário dos jovens, com o mesmo respeito que habitava suas prateleiras.

Na aldeia Kariri-Xocó, não havia separação entre o ontem e o amanhã. A tecnologia, quando guiada com sabedoria, servia como ponte entre mundos — o visível e o invisível, o antigo e o novo.

Hoje, tanto o CD quanto o DVD com os cantos sagrados podem ser encontrados na internet. Mas ali, na aldeia, quando a caixa gira e mostra imagem, não é apenas um aparelho. É a própria memória viva dos ancestrais, cantando para o futuro.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




📘 APÊNDICES


Apêndice A – Territórios e Saberes Sagrados

Woroy – Caminho espiritual e filosófico do povo Kariri-Xocó.

Ilha do Ouro – Lugar de força e memória ritual.

Rio São Francisco – Veia vital, mestre e guardião de histórias.

Serra do Catito – Espaço de fortalecimento ancestral.

Apêndice B – Fragmentos da Tradição Oral

Reunião de elementos sagrados usados nos contos:

Trechos de cantos cerimoniais.

Provérbios dos mais velhos.

Expressões de saudação e respeito.

Apêndice C – Linha do Tempo da Memória e Tecnologia

Tempo Antigo – Saberes espirituais.

Tempo da Travessia – Resistência e deslocamentos.

Tempo das Ferramentas Modernas – Registro digital e preservação da memória.

Tempo da Conexão – Uso da tecnologia para fortalecer e divulgar cultura.




📘 GLOSSÁRIO INDÍGENA


Cocar – Adorno de penas que simboliza força ancestral.

Cramycá Samyonhé – A Caixa que Canta Memórias, o aparelho de gravador.

Cramysawa – A Caixa de Fita que Gravava Imagens, o nome do aparelho Fita Cassete. 

Craiwonhé – A Caixa Roda Toca e Canta, o nome do aparelho eletrônico Toca Disco.

Craiwopewa –  A Caixa Roda e Mostra Imagem, o aparelho de DVD.

Craiwopiwon – Caixa Roda Pequena que Toca e Canta, o aparelho de CD.

Ieençocahé – O nome do pássaro Picapau na língua Kariri. 

Jurema Sagrada – Raiz espiritual de cura e visão.

Kariri-Xocó – Povo originário do Baixo São Francisco.

Maracá – Instrumento sagrado de vibração ritual.

Opy – Casa de reza.

Toklikli – As folhas que falam. 

Tonranran – O nome do livro designado pelos Kariri. 

Torãkemwa – Livro Fino de Imagens Coloridas, o nome de revistas com páginas escritas e figuras coloridas. 

Toré – Ritual de dança, canto e espiritualidade.

Warunaru – A Figura Que Se Desloca, o nome do desenho animado. 

Waruaerã – A Imagem Na Folha, figuras nas páginas dos livros.

Worowakisí – Histórias nas Imagens Repartidas, o nome do livreto das Histórias em Quadrinhos.

Woroy – Caminho sagrado do saber.




📘 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é escritor, contador de histórias e guardião da memória ancestral de seu povo. Indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL), dedica sua vida à preservação da cultura, dos rituais e do conhecimento tradicional.

Autor de contos, cordéis, estudos culturais e reflexões espiritualizadas, trabalha para registrar e honrar o legado dos Avôs e Avós, utilizando tanto a oralidade quanto as ferramentas da tecnologia contemporânea.

Seu blog Woroy História é um espaço de fortalecimento cultural, onde compartilha saberes, pesquisas e narrativas indígenas que atravessam gerações.




📘 ORELHA DO LIVRO


Em WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, MEMÓRIA DA TECNOLOGIA, Nhenety Kariri-Xocó apresenta um encontro raro: a união entre tradição sagrada e caminhos tecnológicos do mundo moderno.

Cada conto desta coletânea é um testemunho de que a tecnologia, quando usada com consciência, pode ser extensão da memória ancestral, ponte para o futuro e ferramenta de resistência.

Este livro é um convite para perceber que o espírito caminha em todas as formas de criação humana — seja no maracá, seja no brilho das telas que hoje guardam histórias.

Uma obra forte, profunda e necessária.
Um legado para o povo Kariri-Xocó.
Um presente para todos que honram memória e conhecimento.










Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







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