FALSA FOLHA DE ROSTO
BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI
VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM
Contos da vida, memória e cultura do povo Kariri-Xocó às margens do Opará — Rio São Francisco.
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO
Todos os contos desta obra são baseados na memória cultural, nos costumes e nas narrativas do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes tradicionais da região do Baixo Rio São Francisco.
A obra valoriza a tradição oral indígena, integrando elementos da língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, preservando significados culturais e cosmológicos associados à natureza, ao território e à vida comunitária.
Autor:
Nhenety Kariri-Xocó
Publicação independente.
Blog do autor:
https://kxnhenety.blogspot.com�
FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)
BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI
VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM
Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
Brasil
FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
Kariri-Xocó. Nhenety,
Baiwo Opará Uohoie Canghi: viver no Rio São Francisco tudo de bom /
Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.
Livro de contos sobre memória cultural, vida ribeirinha e tradições do povo indígena Kariri-Xocó no Baixo Rio São Francisco.
Inclui glossário de termos da língua Kariri-Xocó.
Literatura indígena brasileira
Cultura Kariri-Xocó
Rio São Francisco – memória cultural
Narrativas tradicionais indígenas
Povos indígenas do Nordeste brasileiro
CDD: 869.899
Literatura indígena brasileira
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra ao meu povo Kariri-Xocó, guardião das águas do Opará, que atravessam gerações levando vida, memória e sabedoria.
Dedico também aos mais velhos, que ensinaram que a palavra não mora apenas no papel, mas no vento, na terra e nas águas.
E às novas gerações, para que nunca esqueçam que nós todos somos o rio.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente aos ancestrais Kariri-Xocó, guardiões da memória e da sabedoria tradicional, que ao longo das gerações transmitiram ensinamentos, histórias e conhecimentos sobre o rio, a terra e a vida, cuja memória continua viva em cada história contada às margens do Opará.
A realização deste livro nasceu do desejo de preservar e compartilhar as histórias vividas nas margens do Opará, o grande Rio São Francisco, que acompanha a vida do povo Kariri-Xocó desde tempos antigos.
Agradeço às famílias da aldeia que mantêm vivos os costumes, os ensinamentos e a convivência com a natureza.
Agradeço também às iniciativas culturais que valorizam a língua e a tradição indígena, permitindo que histórias como estas sejam registradas e compartilhadas.
Expresso também minha profunda gratidão aos alunos, professores e professoras da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, que diariamente fortalecem a educação indígena e ajudam a manter viva a cultura de nosso povo através do estudo, da língua, da tradição e do respeito às nossas raízes.
Que este livro possa inspirar novas gerações a conhecer, respeitar e proteger o Opará, suas histórias e os saberes que vivem nas comunidades do Baixo Rio São Francisco.
Por fim, agradeço aos leitores que se aproximam desta obra com respeito e curiosidade, permitindo que o rio das palavras continue correndo.
Com gratidão,
Nhenety Kariri-Xocó
EPÍGRAFE
“Assim como o rio corre sem esquecer sua nascente,
um povo vive enquanto guarda sua memória.”
— Sabedoria tradicional indígena
SUMÁRIO
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Sumário
Prefácio
Apresentação
Introdução
Palavra do Autor
Contos (01 a 10)
01. Hietãdé Uihoie Opará, Nós Todos Somos o Rio São Francisco;
02. Piwonhé Ieendeá – A Reprodução das Aves;
03. Baiwo Opará Bohé, A Vida Social no Rio São Francisco;
04. Okendzurió – A Porta D’Água da Lagoa;
05. Hehé Pahaempá – Escorregar no Barranco Molhado;
06. Batim Hopele Pahankó, Salto do Barranco no Opará;
07. Pehó Iwo Opará, A Enchente do Rio São Francisco;
08. Taiutará Ruñohú Midzé, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe;
09. Undéá Boighy Opará – O Caminho das Águas que Ensinam;
10. Ubauipú Itohiquiete – A Lancha dos Viajantes.
Apêndices
Glossário
Dados biográficos do autor
Sobre a obra
Orelha do livro
PREFÁCIO
Esta obra nasce das margens do Opará, nome indígena do Rio São Francisco, um dos maiores rios da América do Sul e verdadeiro eixo cultural de muitos povos.
Nos contos reunidos neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que unem memória, natureza e identidade. Cada história revela não apenas acontecimentos, mas também uma forma de compreender o mundo.
Nas palavras do autor, o rio não é apenas água: é parente, é caminho, é história viva.
Os contos trazem elementos da língua Kariri-Xocó, resgatando termos e conceitos que pertencem ao universo cultural indígena e que ajudam a compreender a relação profunda entre o povo e a natureza.
Assim, este livro não é apenas literatura:
é memória cultural, registro histórico e expressão de resistência indígena.
APRESENTAÇÃO
O Rio São Francisco, chamado pelos povos indígenas de Opará, é muito mais do que um curso d’água que atravessa o Brasil. Para as comunidades que vivem às suas margens, ele é território, memória, alimento e ensinamento.
Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da experiência direta com o rio e com a vida ribeirinha do povo Kariri-Xocó, habitante tradicional da região de Porto Real do Colégio, no Baixo São Francisco.
As narrativas apresentam diferentes dimensões da convivência com o Opará:
a infância nas margens do rio, as pescarias, as enchentes, os costumes antigos, a cerâmica tradicional, as travessias e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.
A presença da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos fortalece o caráter cultural da obra e reafirma a importância da preservação das línguas indígenas como guardiãs de conhecimento ancestral.
Mais do que literatura, esta obra é um registro de memória cultural, uma forma de manter viva a relação entre o povo e o rio que sustenta sua história.
INTRODUÇÃO
O Rio São Francisco é um dos principais rios do Brasil e atravessa diferentes regiões, culturas e paisagens. Entre os povos indígenas que vivem em suas margens está o povo Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada ao rio e às lagoas que formam o território do Baixo São Francisco.
Para esse povo, o rio não é apenas um elemento natural. Ele é considerado parte da própria vida comunitária, influenciando a alimentação, os costumes, as formas de trabalho, as brincadeiras das crianças e as práticas espirituais.
Os contos reunidos neste livro apresentam fragmentos dessa convivência com o Opará. Cada narrativa revela uma experiência ou lembrança relacionada ao rio: a chegada das aves migratórias, a vida social nas margens, os antigos barrancos onde as crianças brincavam, as grandes enchentes, o comércio tradicional de cerâmica e peixe e as mudanças trazidas pela modernidade.
Ao registrar essas histórias, o autor contribui para preservar elementos importantes da memória cultural Kariri-Xocó, fortalecendo a tradição oral que durante séculos foi o principal meio de transmissão de conhecimento entre as gerações.
PALAVRA DO AUTOR
Escrever estas histórias foi como voltar muitas vezes às margens do Opará, o grande Rio São Francisco que acompanha a vida do meu povo Kariri-Xocó desde os tempos mais antigos.
Cada conto deste livro nasceu da memória, da observação e das palavras que escutei dos mais velhos, aqueles que sempre ensinaram que o rio não é apenas água correndo, mas também um ser vivo que orienta a vida das pessoas.
Nas margens do Opará aprendemos a pescar, a brincar, a plantar, a respeitar os animais, a ouvir o vento e a observar os sinais da natureza. O rio nos ensina paciência, convivência e respeito pelos ciclos da vida.
As histórias aqui reunidas falam de momentos simples do cotidiano: crianças escorregando no barranco molhado, pescadores trabalhando nas águas do rio, mulheres moldando o barro da cerâmica, travessias em canoas e lanchas, enchentes que transformam a paisagem e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.
Ao registrar essas lembranças, meu desejo é contribuir para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó e mostrar às novas gerações que nossa história continua viva.
O Opará sempre foi mais que um rio para nós. Ele é caminho, alimento, memória e espírito de resistência.
Se estas histórias conseguirem fazer o leitor sentir um pouco da vida que pulsa nas margens do São Francisco, então o rio também terá encontrado um novo caminho através das palavras.
Nhenety Kariri-Xocó
CONTOS ( 01 a 10 )
01. HIETÃDÉ UIHOIE OPARÁ, NÓS TODOS SOMOS O RIO SÃO FRANCISCO
Na Aldeia Kariri-Xocó, quando o Ukie, o Sol, começa a se deitar no lado Oeste, a luz dourada repousa sobre o Opará. O grande rio segue seu caminho antigo, correndo do Norte ao Sul, até encontrar o Aindzu, o Mar. Assim ele atravessa os Undéá, os Lugares do mundo, carregando histórias pelo Uché, o Tempo que nunca para.
Era nesse entardecer, quando o vento soprava manso e as Dzuá, as Águas, murmuravam palavras antigas, que Mayara, moça curiosa e atenta aos sinais da vida, aproximou-se de sua mãe, Nancy. Seus olhos brilhavam como quem deseja compreender o que não se vê apenas com os olhos.
— Mãe — perguntou — o rio Opará representa o quê?
Nancy silenciou por um instante. Olhou para o horizonte, onde o céu se encontrava com as águas, e então falou com a voz mansa de quem carrega saber antigo:
— Minha filha, o Opará não é apenas as Dzuá que correm aqui diante de nossa Natiá, a Aldeia. Ele é muito mais do que parece.
Ela então explicou que a conexão do Opará nasce da própria Antse, a Natureza. Vem do Aranke, o Céu profundo, das Battiá, as Estrelas que vigiam a noite, e do Ukie, o Sol, que aquece o Aindzu, o Mar. Do encontro desses seres surgem as Arankedzoá, as Nuvens, que viajam pelo céu e alimentam muitos Iwoá, os Rios, até que todos retornem ao grande Opará.
— É no Uché das Dzoá, Tempo das Chuvas — continuou Nancy — que a Radá, a Terra, se torna fértil. É nela que plantamos os Uanhí Tdjeá, nossas lavouras e legumes. Eles alimentam nosso Buiehoho, o Corpo, assim como as Dzuá que bebemos, todas vindas do Opará.
Mayara ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra da mãe corria dentro dela como o próprio rio.
— Olhe bem, minha filha — disse Nancy, com firmeza e doçura — Hietãdé uihoie Opará. Nós todos somos o Rio São Francisco.
Ela explicou que o Opará vive nas Atse, as Pessoas; nos Keríá Retsé, os Animais Silvestres; nas Ubuá, as Plantas; nos Boêdoá, os Montes; nas Naticróbeá, as Cidades Ribeirinhas; e nos Uanieá, os Povos Indígenas.
— Todos carregamos o Opará dentro de Hietãdé, de Nós — concluiu — seja nas Dzuá que sustentam a vida, seja no Amíá, o Alimento que a Natureza nos oferece por meio dele.
Quando a noite caiu, a Kaiaku, a Lua, surgiu no céu, chamando as marés do mar. Com ela vinham os Wãmyá, os Peixes, que subiam pelo Opará. Era o tempo das Mydzéá, as Pescarias, tradição antiga passada de geração em geração, ligando o passado ao presente como o curso do rio.
E assim, enquanto o Opará seguia seu caminho eterno, Mayara compreendeu que o rio não corre apenas pela terra: ele corre dentro de todos os seres que vivem, respiram e lembram.
02. PIWONHÉ IEENDEÁ – A REPRODUÇÃO DAS AVES
Antigamente, quando o Opará ainda conversava com o céu em águas largas e mansas, o Baixo São Francisco se tornava caminho de asas. Era tempo de anúncio, tempo sagrado. As Parari, ligeiras e numerosas, riscavam o firmamento em grandes revoadas. Os mais antigos as chamavam de Arribaçã, e diziam que sua chegada era sinal de fartura, de renovação da vida.
O céu escurecia de movimento, e o som das asas parecia um canto coletivo, um chamado antigo que vinha de longe para cumprir o ciclo da reprodução. Elas pousavam, descansavam, procriavam, e depois partiam, deixando no ar a lembrança de sua passagem.
Junto delas vinham outras parentes do vento. A Pukûa-tinga, a Rolinha-cinzenta, chegava em bandos numerosos, mas diferente das Parari, permanecia mais tempo. Fazia morada, observava o chão, escutava a mata. Seu canto fino atravessava as manhãs como um fio invisível ligando céu e terra.
Na Terra Indígena Kariri-Xocó, entre Porto Real do Colégio e São Brás, a mata do Ouricuri ainda guarda esse segredo vivo. Ali, a Caatinga respira diversidade. Entre galhos retorcidos e folhas resistentes, muitas espécies de aves fazem sua morada, conhecendo cada sombra, cada fruto, cada silêncio.
Na Várzea do Itiúba, onde a terra se deixa inundar pelas águas do rio, a vida se multiplica o ano inteiro. As aves aquáticas conhecem bem esse território. O Socó-Yobi, o Socó azul, caminha lento pelas margens. A Guaraúna, ave carão, anuncia sua presença com voz forte. Marrecas e paturis deslizam sobre a água como se fossem parte do próprio rio, cumprindo ali o mistério eterno da reprodução.
Para o indígena, tudo isso não é apenas paisagem. É convivência. É parentesco. Viver com a natureza é respeitar o tempo de cada ser, é proteger a flora e a fauna, porque na cultura Kariri-Xocó os Keríá — os Animais — não são apenas criaturas: são seres sagrados, guardiões do equilíbrio e geradores da vida.
Assim, quando uma ave cruza o céu do Opará, ela não passa sozinha. Leva consigo a memória dos antigos, o espírito da terra e a certeza de que, enquanto houver respeito, o ciclo continuará.
03. BAIWO OPARÁ BOHÉ, A VIDA SOCIAL NO RIO SÃO FRANCISCO
O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.
Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.
Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.
As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.
Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.
O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.
Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.
O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz.
04. OKENDZURIÓ – A PORTA D’ÁGUA DA LAGOA
Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.
— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?
Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.
— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.
E então começava a história.
No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.
— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água.
Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.
Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.
Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.
— Depois vieram os colonizadores.
As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.
A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.
Sãbuá apertava a terra com os dedos.
— E nós, vovô?
Teipó sorriu com tristeza e firmeza.
— Nós resistimos.
Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.
Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.
Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.
O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande".
— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.
Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:
algumas águas correm no rio,
outras correm na memória.
05. HEHÉ PAHAEMPÁ – ESCORREGAR NO BARRANCO MOLHADO
Quando vinham as Pehóá, as grandes enchentes do Opará, ainda não existia na Naticróraí, a cidade, o Oncródzu, o cais de pedra. Naquele tempo, o rio falava direto com a terra, e o Pahankó, o barranco de barro cru, era parte da nossa vida. Era ali que acontecia o Hehé Pahaempá — escorregar no barranco molhado.
Assim que as águas começavam a subir, a alegria também subia junto. Os Inghéá, os meninos, os Mynhekiá, os rapazes, e as Tibudinã, as moças, se reuniam naquele antigo Kenhé, um costume passado de geração em geração, como se o próprio rio ensinasse.
Primeiro vinha o preparo. Com o Dehebá, o cavador, moldávamos a rampa no barro vivo. Abríamos uma cavidade funda, depois malhávamos a superfície com os pés e com as mãos, alisando o caminho até ficar perfeito para Craraidyó, descer. O barranco ficava liso, escuro, brilhando de água, pronto para o Hehé — o escorregar ligeiro que terminava no abraço frio das Dzuá, as águas do Opará.
Era queda, riso e grito. A Curaempá, roupa toda molhada, e o Dimy Bunhá, o corpo sujo de barro, não eram problema — eram motivo de alegria. Aquele era o tempo da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro. Tempo bom para Buiempá, tomar banho no rio, lavar o corpo e também o espírito.
Para ter segurança de não ter ferimentos havia uma grande minúcia na verificação de pedras no barro, retirando detritos pedregosos ficando somente a argila macia umedecida com água, assim a rampa estava pronta para a brincadeira.
O Opará corria forte, largo, como se sorrisse com a nossa brincadeira. Cada escorregada era um desafio, cada mergulho uma vitória. O barro grudava na pele, o riso ecoava pelas margens, e a memória se escrevia sem papel, direto no coração.
Depois, o tempo mudou. Veio o prefeito, veio o Oncródzu, o cais de pedra. O barranco desapareceu, e com ele aquele lugar exato da brincadeira. Mas o Opará continuou grande. O rio não esquece seus filhos.
E quando as águas voltarem a subir, nós saberemos: acharemos outros barrancos, outros caminhos, outros lugares para viver de novo o Hehé Pahaempá — porque enquanto o rio existir, a memória não morre.
06. BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ
Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.
Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.
— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?
Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.
— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.
Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.
— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.
Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.
— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.
Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.
— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…
Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.
— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.
Namara segurou a mão do avô.
— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?
Ele assentiu.
— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.
Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.
E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.
07. PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO
No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.
Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.
Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.
Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.
As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.
Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:
— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.
O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.
Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.
Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.
E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.
Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.
08. TAIUTARÁ RUÑOHÚ MIDZÉ, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe
A velha Soyá acordava antes do sol. Suas mãos, marcadas pelo tempo, conheciam o barro como quem conhece o próprio corpo. Sentada à sombra de um juazeiro, às margens do Opará, ela amassava a argila com calma, enquanto a neta Aramã observava em silêncio, aprendendo mais com o gesto do que com as palavras.
— Vê, Aramã… — dizia Soyá, sem levantar os olhos. — O barro escuta a gente. Se a mão estiver pesada, ele racha. Se estiver mansa, ele vira ruñohú.
A cerâmica sempre foi assim para o povo Kariri-Xocó: mais que trabalho, era vida. Desde antiga data, as mulheres moldavam potes e panelas de barro, o ruñohú, e seguiam em taioiará, vendendo e trocando com os carai, os brancos. Em troca vinham o taiu, o dinheiro; a sabucá, a galinha; e o sekiki, a farinha que sustentava a casa.
Soyá lembrava bem do tempo da Rua dos Índios, quando ainda não tinham a terra reconquistada. As mulheres seguiam pelo rio na Ubacródzu, a canoa do Porto das Pedras, levando a cerâmica para os Atserácroraí, os povoados ribeirinhos. O rio era estrada, mercado e companhia.
Depois veio a retomada da Terra Indígena, já nos anos de 1990.
A aldeia se firmou às margens do Opará, cercada por lagoas fartas de midzé, os peixes. A vida mudou. Agora, junto com os potes de barro, as mulheres carregavam setu, balaios cheios de peixe fresco, para vender e trocar nos Atserácaddá, os povoados do interior.
— Foi o tempo mais bonito, Aramã — contou Soyá certa vez. — A terra voltou pra gente, e o peixe vinha como presente.
Já não era mais a canoa. As mulheres seguiam nos Ibáchiddá, os carros compridos da terra, atravessando Apreaca, Angico, Girau, Salomé e Xinaré.
A Nova Aldeia trouxe estrada, luz elétrica, casa de alvenaria e água encanada. Trouxe conforto, mas também trouxe silêncio para o barro.
Agora, Soyá estava aposentada. Muitas das velhas ceramistas também. As mãos cansaram, os olhos falharam, e poucas jovens quiseram aprender o ofício. O barro começou a esfriar.
Aramã, porém, escutava tudo com atenção. Naquele dia, ajoelhou-se ao lado da avó e pediu:
— Ensina de novo, vó. Quero aprender a ouvir o barro.
Soyá sorriu. Um sorriso lento, profundo, como quem vê o futuro respirando.
— Então senta, minha neta. Enquanto houver mão jovem pra aprender, o ruñohú não morre. A tradição só dorme quando ninguém chama por ela.
E ali, entre o barro úmido, o rio antigo e a memória viva, Soyá passou à neta não apenas a técnica da cerâmica, mas a história de um povo que troca, vende, resiste e permanece.
09. UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM
O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.
Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.
Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.
— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.
Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.
— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.
Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:
— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.
Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.
— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.
A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.
Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:
— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.
Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.
Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.
— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.
E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.
10. UBAUIPÚ ITOHIQUIETE – A LANCHA DOS VIAJANTES
O Uché, o Tempo, não caminhava: ele deslizava manso sobre as Dzuá, as águas do Opará. E quem soubesse olhar percebia que algo estava mudando. As antigas Ubácruté, canoas de pano que durante décadas cortaram o rio com paciência e coragem, começavam a ceder espaço a uma nova forma de viajar.
Chegavam as Ubauipú Itohiquiete, as Lanchas dos Viajantes. Eram canoas transformadas, agora com cobertura firme e motor a diesel no ventre, rompendo a correnteza com mais ligeireza. O rio era o mesmo, mas o jeito de atravessá-lo ganhava outro ritmo.
No Baixo São Francisco, quase toda Ubauipú carregava uma história anterior. Antes lancha, fora Ubácruté. As mãos que um dia esticaram pano e confiaram no vento, agora aprenderam a domar o motor. Não era abandono do passado, mas continuação — evolução que respeita a origem.
No antigo Radamy Cródzu, o Porto de Baixo, onde antes repousavam as canoas de pano, o cenário se renovava. As Ubauipúá alinhavam-se à margem, prontas para a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá. De um lado e do outro do rio, pessoas, histórias, mercadorias e esperanças cruzavam juntas.
Cada lancha levava quarenta passageiros e três tripulantes. Custava pouco atravessar: três reais para quem escolhia o rio, seis para quem seguia pelo Ibápohduá, o automóvel, pelas estradas de terra e asfalto. Mas não era só o preço que pesava na escolha. Havia quem preferisse o balanço das águas, o vento no rosto, o cheiro do rio vivo.
Mesmo com as rodovias cortando a paisagem e os transportes terrestres acelerando o mundo, as Ubauipúá continuavam essenciais. Não apenas como meio de transporte, mas como elo cultural. Para muitos, entrar numa lancha não era só atravessar: era Tuyokié, passear com o rio, conversar com o Opará, lembrar que a vida também sabe fluir.
E assim, enquanto o Tempo seguia mudando, as Lanchas dos Viajantes continuavam indo e vindo, levando no casco não apenas pessoas, mas a memória viva de um povo que aprendeu a transformar sem esquecer.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
APÊNDICES
CONTEXTO CULTURAL DO POVO KARIRI-XOCÓ
O povo Kariri-Xocó habita tradicionalmente a região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do Baixo Rio São Francisco.
Sua história está marcada por processos de resistência cultural, retomada territorial e preservação da identidade indígena no Nordeste brasileiro.
A relação com o Opará sempre foi central para o modo de vida Kariri-Xocó. O rio fornece alimento, orienta práticas sociais e aparece também em narrativas míticas e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.
Entre as práticas tradicionais destacam-se:
a pesca artesanal
a cerâmica indígena
a coleta de frutos da região
as travessias fluviais
os rituais associados ao ciclo da natureza
Os contos deste livro dialogam diretamente com essas práticas, apresentando episódios do cotidiano que refletem o conhecimento tradicional do povo.
GLOSSÁRIO
Palavras da Língua Kariri-Xocó presentes nos contos
Este glossário ajuda o leitor a compreender melhor algumas palavras e expressões usadas pelo povo Kariri-Xocó, preservando o significado cultural dentro das histórias.
Baiwo – Viver, morar, existir em determinado lugar.
Opará – Nome ancestral do Rio São Francisco, usado por diversos povos indígenas da região.
Uohoie – Tudo, totalidade, aquilo que abrange o conjunto das coisas.
Canghi – Bom, agradável, positivo, aquilo que traz alegria ou bem-estar.
Baiwo Opará – Viver no Rio São Francisco; expressão que representa o modo de vida ligado ao rio.
Canghi Opará – A bondade ou generosidade do rio, quando ele oferece fartura de peixe e boas águas.
Nhenety – Nome indígena; associado à ideia de quem observa, escuta e transmite histórias.
Toré – Ritual sagrado praticado por vários povos indígenas do Nordeste, envolvendo canto, dança e espiritualidade.
Aldeia – Território tradicional onde vive o povo indígena.
Barranco do rio – Margem de terra do rio onde muitas atividades do cotidiano acontecem.
Canoa – Embarcação tradicional usada para pesca e travessia no rio.
Barro da cerâmica – Terra retirada das margens ou lagoas para produção de peças artesanais.
Dzuá – águas.
Opará – nome indígena do Rio São Francisco.
Uché – tempo.
Kayaku – lua ou período lunar associado aos ciclos naturais.
Tokenhé – antepassados.
Wãmyá – peixes.
Tetsiá – mulheres.
Inghéá – crianças.
Pahankó – barranco.
Ruñohú – utensílios de cerâmica.
Ubacródzuá – porto das canoas.
Boêdohe – morro ou elevação de terra.
Natiá – aldeia.
Undéá – lugares.
DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil.
É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória cultural indígena e autor de diversos textos sobre a vida, os costumes e a história de seu povo.
Por meio da literatura e de seu blog, dedica-se à preservação da cultura, da língua e das narrativas tradicionais associadas ao Rio São Francisco, conhecido entre os povos indígenas como Opará.
Blog do autor:
https://kxnhenety.blogspot.com�
SOBRE A OBRA
Este livro reúne contos que retratam a vida cultural, social e espiritual do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.
As histórias revelam práticas antigas, como pescarias coletivas, brincadeiras de infância, observação da natureza e o respeito aos ciclos da vida.
A obra também apresenta termos da língua Kariri-Xocó, fortalecendo o processo de valorização e revitalização cultural.
Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom reúne dez contos que retratam a vida cultural e social do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.
As histórias percorrem diferentes momentos da vida ribeirinha: a infância nas margens do rio, as pescarias tradicionais, as enchentes que transformam a paisagem, o comércio de cerâmica e peixe, os ensinamentos dos mais velhos e as mudanças trazidas pela modernidade.
Cada narrativa revela a profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, mostrando que o rio não é apenas um elemento geográfico, mas um verdadeiro eixo de identidade cultural.
ORELHA DO LIVRO (TEXTO)
Nas margens do grande Opará, o Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.
Neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos que nascem da memória de seu povo e da convivência com a natureza.
As narrativas mostram a vida ribeirinha, os ensinamentos dos mais velhos, as brincadeiras de infância, a relação sagrada com os animais, as lagoas e as águas do rio.
Cada conto é uma pequena porta aberta para o universo cultural Kariri-Xocó, onde tradição, memória e natureza caminham juntas.
Ler estas histórias é navegar pelo Opará — um rio que corre não apenas pela terra, mas também pelo coração de quem o conhece.
CONTRACAPA
Nas margens do grande Opará, nome ancestral do Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.
Neste livro, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da memória viva de seu povo e da convivência profunda com o rio que sustenta a vida no Baixo São Francisco.
As narrativas revelam cenas do cotidiano ribeirinho: crianças brincando nos barrancos molhados, pescadores enfrentando as águas do rio, mulheres lavando roupas nas margens, aves que anunciam os ciclos da natureza e antigas lagoas que guardam segredos da terra.
Entre lembranças de enchentes, pescarias, travessias de canoa, comércio tradicional de cerâmica e histórias transmitidas pelos mais velhos, o autor apresenta uma visão de mundo em que natureza, cultura e memória caminham juntas.
Misturando a língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, os contos preservam expressões e significados culturais que revelam a profunda ligação entre o povo indígena e o Opará, o rio que corre não apenas pela terra, mas também dentro das pessoas.
Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom é mais do que um livro de contos: é um testemunho de identidade, resistência cultural e amor pelo território.
Uma obra que convida o leitor a navegar pelas águas do São Francisco e descobrir que cada curva do rio guarda uma história.
Sobre o autor
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, Alagoas.
É contador de histórias oral e escrita e dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo, valorizando a tradição, a língua e os saberes transmitidos pelas gerações.
Blog do autor:
kxnhenety.blogspot.com
LOMBADA LATERAL DO LIVRO
A lombada é a parte lateral do livro que aparece quando ele está na estante.
Texto sugerido para a lombada:
BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI
Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom
Nhenety Kariri-Xocó
(se houver logotipo da editora ou publicação independente ele pode ir na parte inferior)
Autor: Nhenety Kariri-Xocó












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