quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

HIETÇÃDE BARETSÉ – NOSSA VIDA NA FLORESTA






Nas Radaá Hechi, as Terras Altas que se afastam da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio, estende-se a Retsé, nossa floresta viva. Ali repousa a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional do povo Kariri-Xocó, onde o tempo não corre apressado e cada passo respeita a respiração da Antse, a Natureza.


Foi ali que o velho cacique Nidé sentou-se à sombra de um angico antigo, com o olhar voltado para o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada, no lado Leste da floresta. Seus cabelos brancos lembravam a névoa que, ao amanhecer, cobre as folhas quando o Ukie, o Sol, desperta a terra, e a Kaiaku, a Lua, se recolhe lentamente rumo ao Opará, o Rio São Francisco, onde se põe ao Oeste.


Ao seu lado estava Nhamuãny, a jovem de olhos atentos e pensamento inquieto. Ela aprendia tanto com os livros da escola quanto com as palavras silenciosas da floresta. Naquele dia, trouxe consigo Mariana, uma moça branca da cidade, sua colega de estudos, curiosa e respeitosa, que caminhava com cuidado, como quem pisa num chão sagrado.


— Aqui tudo escuta, disse Nidé, com voz baixa e firme. — A floresta ouve antes de falar.


Mariana observava, admirada. Via os Keríá Retsé, os animais silvestres, surgirem como ensinamentos vivos: o Ibozoim, sonhim gritava oculto; a Kati, abelha zumbia entre as flores; o Munim, Grilo  marcava o ritmo do chão; enquanto o Nieɲi, cobra deslizava silencioso entre as folhas. Mais adiante, o Klimi, lontra surgia à beira d’água, e o Hamo, bicho deixava suas marcas na terra fofa.


Nhamuãny explicou, com orgulho sereno, que aquela diversidade não era apenas vida — era parentesco. O Tatú, o Jabuti, o Jacaré, o Coelho, o Veado do Mato, todos tinham seu lugar no equilíbrio antigo ensinado pelos Tokenhé, os antepassados.


Os Ieendeá, os pássaros, cruzavam o Aranke, o céu aberto: o Gongá, sabiá cantava como se chamasse lembranças; o Xáj, picapau batia o bico nos troncos; o Tute, pombo e o Xõn, urubu circulavam no alto, guardiões do invisível.

Quando a Kayá, a noite, caiu sobre a floresta, o céu se fez Battiá, coalhado de estrelas. A Kaiaku iluminou os caminhos, e o lamento do Urutau ecoou como uma história antiga sendo recontada.


Mariana sentiu, pela primeira vez, que aprender não estava apenas nos cadernos. Estava ali, na coletividade, no Tseho Bohé, no modo como o povo vivia seus Matkaí, rituais que mantêm a floresta viva porque mantêm viva a memória.


— Nossa vida é aqui, concluiu Nidé. — Enquanto houver respeito, a Retsé continuará falando.


Nhamuãny sorriu. Mariana silenciou. E a floresta, satisfeita, continuconsiderou cada uma delas parte de sua própria história.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó