quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

CANGHÍÁ UCHÉTÉ – QUANDO OS BONS TEMPOS CHEGARAM






Na memória dos mais velhos, ainda ecoa o tempo em que a Natiá, a Aldeia, repousava na Woderáehó Uanieá, a antiga Rua dos Índios, apertada entre os caminhos da Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio, em Dzurióá, Alagoas. Ali vivíamos, mas não era ali que a alma dos Tokenhé, os Antepassados, repousava inteira.

Faltava espaço para o sonho, para o canto, para a roça crescer sem medo.


Então veio 1978. Ano marcado como Canchetéá — bons tempos. A mudança para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, não foi apenas uma travessia de casas, mas um retorno do espírito à terra antiga. Quando o povo atravessou o Okenaye, o Grande Portão, algo invisível se abriu junto com ele: o direito de nomear. Ali escrevemos, com madeira, barro e coragem, o nome Aldeia Kariri-Xocó, selando o Canghíá Uchété — os bons tempos chegaram.


A terra nos reconheceu. Das Dzurióá, as lagoas, brotou a argila que virou Ruñonhú, cerâmica moldada pelas mãos que herdaram o saber do fogo. Das águas vieram os Wãmyá, peixes, alimento e celebração. As Erá, casas, nasceram com Wohoerá, quintais vivos, e as Bechiéá, roças, se estenderam como promessa de fartura. Cada passo no chão parecia reencontrar um rastro antigo.


Com o tempo, a aldeia foi se erguendo por inteiro. Surgiu o Erádékan, Polo Base de Saúde, cuidando dos corpos; a Erátekié, Escola, guardando a palavra; a Erantoá, Igreja, acolhendo a fé; o Bypeddá, Campo de Futebol, onde o riso corre solto; e a Erákemydzu, Estação de Tratamento d’Água, levando vida às casas. Tudo crescia em harmonia, como se a terra soubesse o lugar exato de cada coisa.


Os bons tempos trouxeram ainda mais. As Natisamyá, Aldeias Culturais, reacenderam o toré, fazendo o chão pulsar sob os pés. A Bypecró, Quadra de Futsal, virou ponto de encontro das gerações. Os Iabaerá, Conjuntos Residenciais, acolheram novas famílias. A Hinebakró, Energia Elétrica, iluminou as noites sem apagar as estrelas.


Assim, o Canghíá Uchété não foi apenas um tempo que chegou — foi um tempo que se assentou. Ficou na terra, no canto, na memória e no futuro. Porque quando um povo retorna ao chão dos seus antepassados, não constrói apenas moradas: reconstrói o próprio tempo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




DIPETE AMITEÁ – A DOAÇÃO DE ALIMENTOS






No Uchécrá, o Tempo da Seca, quando a terra rachava e o vento levantava o pó fino das estradas, e também nas Pehóá, o Tempo das Enchentes, quando o Opará, o grande Rio São Francisco, crescia e cobria as margens, havia uma cena que se repetia como um ritual silencioso.


Desde cedo, ainda com o sol baixo, os Uanieá — os indígenas — formavam fila diante da escola, na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Cada pessoa trazia consigo um Setu, o cesto, vazio por fora, mas cheio de esperança por dentro. Não havia pressa. Havia espera. E na espera, a dignidade.


O governo federal, tentando aliviar a Wongheré, a pobreza trazida pelas calamidades da natureza, realizava a Dipete Amiteá, a Doação de Alimentos. Não era fartura, mas era sustento. Não era escolha, mas era sobrevivência. A doação alcançava os indígenas e também as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, todas dependentes do humor do rio e do céu.


Os mais velhos lembravam bem das grandes cheias. Falavam dos anos como quem conta marcas no corpo da terra: 1979, 1985, 1992… depois 2007, 2020, 2022, 2023. Cada data trazia consigo histórias de água invadindo casas, de noites acordadas, de silêncio e medo. Mas já era outro tempo: os Kariri-Xocó estavam na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, terra de retomada, resistência e recomeço.


Era na Eráye, também chamada Picriá, a Casa Grande, que a fila se formava. Ali, onde antes mandava o poder do não indígena, agora se reunia o povo. Um a um, os Setu se enchiam: Dzurósa, o café; Takuare'êku'i, o açúcar; Ghinhé, o feijão; Sekiche, a farinha de milho; Riné, a carne salgada; Sekiki, a farinha de mandioca. Alimentos simples, mas carregados de valor.


As pessoas saíam dali com o peso do cesto nos braços e um alívio no peito. Havia sorrisos contidos, palavras baixas, olhares de gratidão. Aquela Dipete Amiteá garantia que os filhos comeriam, que a panela fumegaria ao menos por alguns dias, que a vida seguiria apesar das dificuldades.


E assim, entre a seca e a enchente, entre a espera e a partilha, o povo Kariri-Xocó seguia caminhando. Porque mais do que alimentos, aquela fila ensinava algo antigo: resistir juntos é também uma forma de viver.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IBÁCHIDDÁ PIDÉKAN, O ÔNIBUS-AMBULATÓRIO NAS ALDEIAS






Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, havia um dia esperado como quem espera a chuva depois da seca. Não vinha anunciado por sino nem por papel escrito, mas pelo som distante do motor que fazia o coração bater diferente. Era o Ibáchiddá Pidékan, o ônibus do Funrural, que surgia levantando poeira e esperança.


Desde 1971, ele chegava como um parente viajante, trazendo dentro de si remédios, instrumentos, vozes de cuidado e a promessa de alívio. Onde não havia posto de saúde nem casa de médico, o governo fazia rodar o socorro sobre rodas. O ônibus era branco, com faixas verde-lima, cores que se destacavam na paisagem da aldeia como sinal de vida.


Quando estacionava em frente à escola, o tempo parecia desacelerar. Homens, mulheres, crianças e anciãos se organizavam em fila, cada um carregando sua dor, seu medo ou apenas a necessidade de ser visto. O atendimento durava três dias, e nesses dias a aldeia respirava diferente.


O médico era o Dr. Rovérsio, homem de fala firme e mãos que examinavam com atenção. O dentista, Dr. Mário, trazia o som do motorzinho que assustava as crianças, mas também levava embora dores antigas. Dentro do ônibus, o espaço era pequeno, mas o cuidado era grande. Ali, muitos descobriram que sua dor tinha nome e tratamento.


Com o tempo, nosso povo se mudou para a nova Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo. Mesmo assim, o Ibáchiddá Pidékan continuou vindo, ficava defronte à Eráye "Casa Grande", atendendo os indígenas até meados da década de 1980.


Era antes do SUS, antes de acontecer a redemocratização, quando a saúde ainda vinha em passos lentos, mas vinha, fiel como o curso do rio, até a Aldeia Kariri-Xocó, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas. 


Para nós, aquele ônibus não era só ambulatório. Era sinal de que ainda existíamos aos olhos do mundo. Trouxe alívio aos corpos, mas também esperança aos espíritos. Em cada partida, deixava saudade; em cada chegada, renovava a confiança de que viver valia a pena.


Hoje, quando a memória chama, ainda é possível ouvir o motor chegando na Woderáehó Uanieá, Rua dos Índios e ver, entre poeira e sol, o ônibus branco e verde-lima trazendo consigo o cuidado que atravessou gerações.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



TEUDIOKIÉ HONÉÁ UANIEÁ, A LUTA PELOS DIREITOS INDÍGENAS






Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.


O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar. 


Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos  mantendo o povo unido.


Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias  transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.


Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.


A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.


Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.


Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.


E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO








No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.


Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.


Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.


Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.


As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na  Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.


Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:


— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.


O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.


Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.


Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.


E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.


Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA






O Conto da Escola Onde a Palavra Anda

Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.


Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.


Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.


Havia muitos Mestres na aldeia.

A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.


Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.

O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.


O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.

O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.


E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.


Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;


os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;


o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;


e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.


Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.

Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.


Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.


Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:


o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;


o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;


o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;


o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;


o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;


o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;


o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;


e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.


Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.


Entre todos eles caminhava Nhenety.

Não como quem manda, mas como quem escuta.


No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.


Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.

E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.


Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.


E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:

um conto que não termina,

uma escola que anda,

uma palavra que vive.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

UCHÉ AMITE EICORÉ – TEMPO DE ALIMENTO ESCASSO

 






Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.


Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.


— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.


Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.


Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.


— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.


Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.


Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.


— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.


No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.


Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.


Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:


— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?


O ancião sorria, olhando o fogo dançar.

— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.


Marú completava, olhando para a nova geração:


— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.

E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó





UCHÉ WONGHERÉ – O TEMPO DA POBREZA






A fogueira ardia mansa no centro da aldeia. As chamas dançavam como espíritos antigos, lançando sombras nas paredes de barro das casas. As crianças se achegavam, os mais velhos sentavam em silêncio. Era tempo de escuta.


Neêperé, a anciã, ajeitou o manto sobre os ombros marcados pelos anos e chamou com a voz calma:


— Indaiá, venha mais perto, minha neta. Hoje vou falar do Uché Wongheré, o tempo da pobreza… para que você nunca esqueça.


Indaiá sentou-se aos pés da avó, os olhos atentos, enquanto o povo se aproximava. Quando Neêperé falava, era como se a própria terra respirasse.


— Houve um tempo — começou ela — em que os Uanieá, nosso povo indígena, viviam em harmonia com a Antse, a Natureza. A Radda, a Terra, nos dava sustento. Da Retsé, a Floresta, vinham os alimentos, os remédios, os ensinamentos. Havia fartura todos os dias, e o coração do povo era leve.


O fogo estalou, como se confirmasse aquelas palavras antigas.


— Mas então veio outro Uché, outro tempo… o tempo da chegada dos Caraí, os brancos. Vieram os Peró, os portugueses, junto com os missionários. Criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, reunindo indígenas sob regras que não eram as nossas.


Neêperé fez uma pausa. Seus olhos marejaram, mas a voz seguiu firme.

— Anos depois, aquela aldeia deixou de ser aldeia. A Woroby, a notícia, chegou dura: a Natiá havia se tornado Naticróraí, um povoado de brancos, uma cidade. Diziam que agora ali viviam os Uanaraí, caboclos, mistura de indígenas e brancos. Mas para nós… foi o começo da perda.


Indaiá apertou a mão da avó.

— Os Uanieá perderam seus Honéá, seus direitos sobre a Radda, a Terra. Foi uma grande Dzeyá, uma tristeza profunda. Começou nosso Unu, o sofrimento. A Ami, a fome, entrou na aldeia como um vento frio que não vai embora.


Algumas pessoas ao redor abaixaram a cabeça. Outras deixaram cair silenciosas Pocú, lágrimas antigas.


— Fomos empurrados para a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Ali, muitos homens começaram a Wodó, a se embebedar, tentando calar a dor. O Tseho, o povo, adoeceu, caiu em Canghikié, estado de doença do corpo e da alma.


A anciã respirou fundo antes de continuar.

— Muitos partiram para o Naté Wanheré, trabalhar nas fazendas dos brancos. As Tetsiá, as mulheres, foram levadas para as Erácaraí, as casas dos brancos, como domésticas. Era Arancreru, vergonhoso. Vestíamos Roruréá, roupas velhas, e vivíamos na Wongheré, a pobreza.


O silêncio pesou, quebrado apenas pelo som do fogo.


Então Neêperé ergueu o olhar, firme como tronco antigo.


— Mas, minha neta, escute bem: mesmo na dor, nunca perdemos a Coram, a esperança. Depois de muitos anos de sofrimento, o povo entendeu que precisava Teudiokié Honéá, lutar pelos seus direitos.


Ela sorriu, suave.


— Essa é a nossa história. Foi assim quando a Natiá, a aldeia, virou Naticróraí, a cidade dos brancos. Mas também foi assim que aprendemos a resistir, a lembrar quem somos e a ensinar aos mais novos.

Neêperé acariciou os cabelos de Indaiá.


— Enquanto houver quem conte e quem escute, nosso tempo não será esquecido.

A fogueira continuou acesa. E a memória também.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





domingo, 11 de janeiro de 2026

UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM






O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.


Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.


Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.


— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.


Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.


— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.


Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:


— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.

Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.


— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.


A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.


Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:


— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.

Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.


Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.


— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.

E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




EISDEMBÉ WODERÁEHÓ – A FEIRA NA RUA






Quando o sol ainda espreguiçava seus primeiros raios sobre o Opará, Parú já estava de pé. Ajustava com cuidado os colares de sementes, os arcos pequenos e as pulseiras de fibra que ele mesmo fazia desde menino. Parú era Buruhúá, artesão da aldeia, e toda Myreprí bubyhé, a sexta-feira, armava sua pucá, banca no mesmo undé, lugar bem no começo da rua onde a feira nascia como um rio de gente.


Dizia-se entre os mais velhos que, muito antes dos Caraí chegarem, os povos indígenas já sabiam trocar saberes, alimentos e objetos. A feira, para Parú, não era invenção nova; era continuação da vida. Mas foi quando a antiga Natiá virou Naticróraí, a povoação de Colégio, que o povo passou a chamar aquele encontro de Eisdembé Woderáehó, a Feira na Rua.


Logo ao lado da banca de Parú, Amélia ajeitava suas formas de bolo. Era branca, filha de ribeirinhos, mas já falava algumas palavras da língua local e gostava de ouvir as histórias dos anciãos. Seus saredu, bolos de mandioca, perfumavam o ar, misturados ao cheiro do waraeró, o beijú quente que ela assava ali mesmo, em fogo manso.


— Bom dia, Parú — disse ela, sorrindo.

— Bom dia, Amélia. Que seu saredu venda bem hoje — respondeu ele, com respeito.

Mais adiante, dona Yandé cuidava de sua banca de ubudzoá, plantas medicinais.


Sabia qual folha curava febre, qual raiz acalmava o espírito e qual chá fortalecia o corpo. Gente vinha de longe só para ouvir seus conselhos. Perto dela, seu Paulo que vendia Rocruté pendurava roupas simples de pano, enquanto gritava os preços com voz alegre.


A feira crescia. Havia uanhí, grãos e cereais; tdjeá, verduras frescas; ghinhé, feijão recém-colhido; abati-uaupé, arroz; utuá, frutas de toda cor: bacobá, banana madura; behedzí, melancia aberta no meio, vermelha como o coração da terra.


Crianças se juntavam em volta da banca de benhekié bunhá, brinquedos de barro moldados por mãos pacientes. Um pouco mais adiante, tocava um rádio velho vendendo craiwonpiwon, CD e craiwopewa, DVD enquanto um cordelista recitava versos dos torãpisetí, contando histórias de heróis, encantados e do próprio Opará.


Havia também os keríerá, animais domésticos para vender; os wãmyá, peixes no balaio ainda brilhando de rio; as natéretá, ferramentas; e a pucá tané, banca do fumo. Todos eram atsemiucan, vendedores ambulantes, cada qual trazendo um pedaço da sua vida para aquele chão.


Parú observava tudo com olhos atentos. Para ele, a feira era mais que compra e venda: era a samy, a cultura viva pulsando.


Ali se encontravam os povos dos povoados, das cidades ribeirinhas, das margens do Opará. Ali se trocavam moedas, palavras, sorrisos e memórias.


Quando o sol já ia alto, Amélia levou um pedaço de bolo até Parú. Ele, em troca, lhe deu um colar simples, feito de sementes da mata.


Assim seguia a Eisdembé Woderáehó: antiga como o povo, nova a cada sexta-feira, rua que virava história, feira que ensinava que viver é partilhar.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

UNDÉÁ AIBY RADDA – OS LUGARES DA TERRA






Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados. 


Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.


Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.


— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.


George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.


— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.

Eles caminharam até um ponto mais alto.

Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.


— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.


Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.


— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.


George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.


— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.

Kanawí sorriu.


— A terra ensina antes da ciência.

Mais adiante, apontou para outra serra.


— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.


Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.


— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.


O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.


Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.


— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.


Clarice respirou fundo.

— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?


O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.


— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.


O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR

 





Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.


O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.


Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.


Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.


Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.


Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.


— Vem — disse apenas.

Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.


Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.


Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.


— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.

Akauã guardava a frase como quem guarda semente.


Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.


Numa noite de lua cheia, decidiu.

Convidou Helena para a aldeia.

O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.


Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.


Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:

— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.

Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.


Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.

Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.


E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 








quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ






Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.

Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.


— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?

Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.


— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.


Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.


— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.


Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.


— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.


Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.


— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…

Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.


— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.


Namara segurou a mão do avô.

— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?

Ele assentiu.


— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.


Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.


E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





AMITEÁ NHENETÍ TSEHO – O FOGO DE AMOTYRA






O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.


Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.


— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.


Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.


Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.


— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.


Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.


Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.


— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.


Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.


Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.


— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.

E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 6 de janeiro de 2026

AMITEÁ UANHOÁ TSEHO – O SABER DA COMIDA KARIRI






Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.


Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.


— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.

Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.


Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.


— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.


À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.


— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.


Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.


Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.


Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.


E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DUANTOÁ OKENERÁ – AS FOGUEIRAS DOS SANTOS NAS PORTAS






Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.


— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.

— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.


Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.


Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.


— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.

— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.


As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.


Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.

Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.


Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.


Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.


Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.


Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.


Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:


— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.

E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




IBENHETE ONHANTOÁ – AS IMAGENS DOS SANTOS NA PAREDE






Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.


O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.


— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?

O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.


— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.


E começou a contar.

Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.


A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.


— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.


No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.

Içánauá escutava atento.


Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.


Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.

Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.


— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.


O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.

Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.


E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




domingo, 4 de janeiro de 2026

TIRI MOAÎBA ATSEÁ – O CONSELHO DE AMOÃNY E OS INSETOS QUE PASSARAM A PREJUDICAR AS PESSOAS

 





Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.


— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?

Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:


— Eles sempre foram assim?

Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:


— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.

Ela apontou para a floresta que ainda resistia.


— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.


Kayany e Soany sentaram-se mais perto.

— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.


O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.


O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.


A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.


O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.


A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.


O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.


O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.


E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.


— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.

— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.


A voz de Amoãny ficou mais grave.


— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.

Kayany apertou a mão da irmã.


— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.


— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.


— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.

O vento passou entre as folhas, como se concordasse.


— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.


Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.


E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

UCHÉ UTTIHUÁ – O TEMPO DAS FRUTAS






Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.


Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.


Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.


Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.


— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.


— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.


O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.


Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.


— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.


As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.


Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.


Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.

E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





BATSOMYÁ BOHÉ WODERÁEHÓ, A VIDA CULTURAL E SOCIAL NA RUA






A Vida Cultural e Social na Rua

A antiga Natiá, a Aldeia dos Uanieá Kariri-Xocó, acordava todos os dias com o mesmo sopro da terra, ainda que seus olhos agora vissem mudanças. Onde antes só havia caminhos de barro e casas de palha, surgiram as Erácró, casas de pedra e alvenaria. Vieram também os Hinebakró, postes de luz elétrica, iluminando a noite e alterando o silêncio antigo. Assim, pouco a pouco, a aldeia virou Natierácró, uma cidade.


Mesmo com as transformações, o coração do povo não se afastou de suas raízes. Ao norte da cidade, os anciãos decidiram erguer uma nova Natianie, uma aldeia indígena que guardasse os Kenhéá, os costumes tradicionais, ainda que misturados aos elementos do mundo dos brancos. Ali, o passado e o presente aprenderam a caminhar juntos.


O Tseho, o povo, cresceu. As famílias aumentaram, novas casas surgiram, e foi preciso organizar as Woderáehó, as ruas da aldeia. Essas ruas não eram apenas caminhos: eram lugares de encontro, de troca, de vida cultural e social, onde a Batsomyá, vida cultural pulsava em cada gesto coletivo.

Em uma dessas ruas vivia Samany, ceramista de mãos firmes e olhar atento.


Desde cedo aprendera com as mais velhas a conversar com o barro. Na Ruñohú,  cerâmica ela moldava potes, panelas e figuras que carregavam histórias. Ao seu lado, sempre atentos, estavam os jovens Rayane e Tanauá, aprendizes curiosos, que observavam cada movimento, cada silêncio, cada ensinamento que não precisava de palavra.


Mais adiante, sob a sombra de um juazeiro antigo, trabalhava Akinoã, artesão respeitado. Seu Buruhúá, artesanatos nascia da madeira, da palha e da fibra retirada com cuidado da natureza. Ele ensinava que o artesanato não era só trabalho, mas respeito: à terra, aos espíritos e aos que viriam depois. Rayane e Tanauá também passavam horas ali, aprendendo a ouvir antes de fazer.


Durante o dia e à noite, o povo se reunia nas Okenerá, as portas das casas. Ali se conversava, se ria e se contavam Woroyá, histórias antigas que atravessavam gerações. As Inghéá, crianças da aldeia, enchiam as ruas com suas Benhekié, brincadeiras que misturavam Kaiworaí, cantigas de roda dos brancos, com as Kauanieá, cantigas indígenas que ecoavam como reza e alegria.


Entre uma casa e outra, os Keríerá, animais domésticos caminhavam livres: o Curé, porco; o Igaborou, cavalo; o Cradzó, boi; o Wathõ, bode; a Erintuca, ovelha; o Irerê, pato; e o Sabucá, galo. Eles faziam parte da aldeia tanto quanto as pessoas, cruzando as ruas sem pressa, como se também conhecessem o valor daquele lugar.


As mudanças traziam novos sons e imagens. Passavam pela aldeia a Ibákabaru, a carroça de burro; a Ibaworóbi, bicicleta; o Ibápohdu, automóvel; e a Ibaranú, moto. Eram sinais claros de que o mundo dos brancos estava cada vez mais próximo. Ainda assim, nas Woderáehó, permanecia viva a imagem das pessoas trabalhando, criando, ensinando.


Samany dizia aos aprendizes que o barro guarda memória. Akinoã ensinava que a madeira sente quando é respeitada. Rayane e Tanauá aprendiam que viver na rua da aldeia era mais do que ocupar espaço: era pertencer, cuidar e continuar.


E assim, entre luz elétrica e cantiga antiga, entre carro e carroça, entre cidade e aldeia, o povo Kariri-Xocó seguia vivendo. Porque enquanto houver rua com história, mãos que criam e jovens que aprendem, a Batsomyá Bohé Woderáehó — a vida cultural e social no Rua — jamais deixará de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

HIETÇÃDE BARETSÉ – NOSSA VIDA NA FLORESTA






Nas Radaá Hechi, as Terras Altas que se afastam da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio, estende-se a Retsé, nossa floresta viva. Ali repousa a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional do povo Kariri-Xocó, onde o tempo não corre apressado e cada passo respeita a respiração da Antse, a Natureza.


Foi ali que o velho cacique Nidé sentou-se à sombra de um angico antigo, com o olhar voltado para o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada, no lado Leste da floresta. Seus cabelos brancos lembravam a névoa que, ao amanhecer, cobre as folhas quando o Ukie, o Sol, desperta a terra, e a Kaiaku, a Lua, se recolhe lentamente rumo ao Opará, o Rio São Francisco, onde se põe ao Oeste.


Ao seu lado estava Nhamuãny, a jovem de olhos atentos e pensamento inquieto. Ela aprendia tanto com os livros da escola quanto com as palavras silenciosas da floresta. Naquele dia, trouxe consigo Mariana, uma moça branca da cidade, sua colega de estudos, curiosa e respeitosa, que caminhava com cuidado, como quem pisa num chão sagrado.


— Aqui tudo escuta, disse Nidé, com voz baixa e firme. — A floresta ouve antes de falar.


Mariana observava, admirada. Via os Keríá Retsé, os animais silvestres, surgirem como ensinamentos vivos: o Ibozoim, sonhim gritava oculto; a Kati, abelha zumbia entre as flores; o Munim, Grilo  marcava o ritmo do chão; enquanto o Nieɲi, cobra deslizava silencioso entre as folhas. Mais adiante, o Klimi, lontra surgia à beira d’água, e o Hamo, bicho deixava suas marcas na terra fofa.


Nhamuãny explicou, com orgulho sereno, que aquela diversidade não era apenas vida — era parentesco. O Tatú, o Jabuti, o Jacaré, o Coelho, o Veado do Mato, todos tinham seu lugar no equilíbrio antigo ensinado pelos Tokenhé, os antepassados.


Os Ieendeá, os pássaros, cruzavam o Aranke, o céu aberto: o Gongá, sabiá cantava como se chamasse lembranças; o Xáj, picapau batia o bico nos troncos; o Tute, pombo e o Xõn, urubu circulavam no alto, guardiões do invisível.

Quando a Kayá, a noite, caiu sobre a floresta, o céu se fez Battiá, coalhado de estrelas. A Kaiaku iluminou os caminhos, e o lamento do Urutau ecoou como uma história antiga sendo recontada.


Mariana sentiu, pela primeira vez, que aprender não estava apenas nos cadernos. Estava ali, na coletividade, no Tseho Bohé, no modo como o povo vivia seus Matkaí, rituais que mantêm a floresta viva porque mantêm viva a memória.


— Nossa vida é aqui, concluiu Nidé. — Enquanto houver respeito, a Retsé continuará falando.


Nhamuãny sorriu. Mariana silenciou. E a floresta, satisfeita, continuconsiderou cada uma delas parte de sua própria história.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó