terça-feira, 10 de março de 2026

NAMYTSEIBA DAMYATSEITO SERVIÇO NO TRANSPORTE DE CARGA E PESSOAS






FALSA FOLHA DE ROSTO


NAMYTSEIBA DAMYATSEITO

Serviço no Transporte de Carga e Pessoas

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Este livro reúne contos inspirados na memória oral do povo indígena Kariri-Xocó e nas histórias do Baixo São Francisco.

A obra apresenta diferentes formas de transporte utilizadas ao longo do tempo: caminhos percorridos a pé, canoas que atravessavam o rio Opará, carros de boi, cavalos de carga, carroças, trens, aviões, ônibus-ambulatório, automóveis e mototáxis.

Mais do que falar sobre meios de transporte, os contos revelam modos de vida, trabalho e resistência cultural.



FOLHA DE ROSTO


NAMYTSEIBA DAMYATSEITO

SERVIÇO NO TRANSPORTE DE CARGA E PESSOAS


Contos da memória Kariri-Xocó sobre caminhos, rios e transportes do Baixo São Francisco

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026



FICHA CATALOGRÁFICA (modelo)


Kariri-Xocó, Nhenety.

Namytseiba Damyatseito: serviço no transporte de carga e pessoas / Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos que registra a memória cultural e histórica dos meios de transporte utilizados pelos povos do Baixo São Francisco, especialmente pela comunidade indígena Kariri-Xocó.

Inclui narrativas sobre caminhos ancestrais, canoas, carros de boi, tropas de cavalos, carroças, trem, campo de aviação, ônibus-ambulatório, automóveis e mototáxis.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

História do transporte regional

Memória oral

CDD: 398.20981

CDU: 82-34



DEDICATÓRIA


Dedico este livro ao meu povo Kariri-Xocó,

que mantém viva a memória dos caminhos da terra e das águas.

Dedico também aos meus ancestrais,

que caminharam antes de nós pelas trilhas do Radda,

atravessaram o Opará em canoas

e ensinaram que cada caminho carrega uma história.



AGRADECIMENTOS


Agradeço aos mais velhos da Aldeia Kariri-Xocó, que guardam e compartilham as histórias do nosso povo.

Agradeço às gerações que viveram os tempos dos caminhos de terra, das canoas do rio, dos carros de boi e das carroças.

Agradeço também aos leitores que reconhecem a importância da memória indígena e valorizam a tradição oral como parte fundamental da história do Brasil.



EPÍGRAFE


“Os caminhos da terra ensinam que a vida não é apenas chegar.

É aprender enquanto caminhamos.”

— Sabedoria indígena



SUMÁRIO


Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Contos ( 01 a 10 )

01. Wóatse Itohiquiete — O Caminhar do Viajante

02. Namytse Ubácruté — O Serviço da Canoa de Passageiros

03. Uché Ibádzó — No Tempo do Carro de Boi

04. Igaborou Damy — O Cavalo de Carga

05. Namytse Ibákabaru — Serviço da Carroça de Cavalo

06. Anramy Eraibáme — Os Estivadores da Estação

07. Merá Yeemerãkié — O Campo da Aviação

08. Ibáchiddá Pidékan — O Ônibus-Ambulatório nas Aldeias

09. Natéibá Itoibápoiete — Motorista de Automóvel de Passageiros

10. Namytse Ibaranú Natiá — O Serviço de Mototáxi na Aldeia

Palavra do Autor

Apêndices

Glossário

Apêndices

Dados Biográficos do Autor

Sobre a Obra

Orelha do Livro 



PREFÁCIO



A literatura indígena contemporânea tem desempenhado um papel fundamental na preservação da memória histórica e cultural dos povos originários do Brasil. Obras produzidas por autores indígenas não apenas ampliam o campo literário nacional, mas também oferecem novas perspectivas sobre história, território e identidade.


O livro “Namytseiba Damyatseito — Serviço no Transporte de Carga e Pessoas”, de Nhenety Kariri-Xocó, insere-se nesse movimento de valorização da memória e da tradição oral transformada em narrativa escrita. A obra apresenta uma série de contos que registram as transformações históricas nos modos de transporte utilizados no território do Baixo São Francisco, especialmente na região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, onde vive o povo Kariri-Xocó.


Mais do que narrativas sobre meios de locomoção, os textos revelam a profunda relação entre território, cultura e experiência cotidiana. Cada conto apresenta uma etapa da história regional: o caminhar ancestral pelas trilhas da terra, as travessias em canoas pelo rio Opará, o uso de carros de boi e cavalos de carga, a chegada da ferrovia, a presença de aviões, o surgimento do transporte rodoviário e, mais recentemente, a introdução do mototáxi nas aldeias.


Ao narrar essas transformações, o autor constrói um verdadeiro registro etno-histórico, no qual memória oral, linguagem indígena e experiência comunitária se entrelaçam. O uso de termos da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos também representa um importante gesto de preservação linguística, reforçando a dimensão cultural e identitária da obra.



APRESENTAÇÃO


Os contos reunidos neste livro nasceram da observação, da memória e das histórias contadas entre gerações.

Cada narrativa revela um momento diferente da história do transporte no território Kariri-Xocó: o caminhar ancestral, as travessias do rio Opará, os carros de boi, os cavalos de carga, a chegada do trem, o campo de aviação, o ônibus-ambulatório, os automóveis e os mototáxis.

Esses meios de transporte não são apenas máquinas ou animais de trabalho. São parte da vida das pessoas, da economia local e da organização das comunidades.



INTRODUÇÃO


O deslocamento sempre fez parte da vida humana.

Antes das estradas asfaltadas e dos motores, os povos indígenas já conheciam profundamente os caminhos da terra e das águas.

No território do Baixo São Francisco, esses caminhos conectavam aldeias, cidades, roças, feiras e portos. Por eles circulavam alimentos, mercadorias, histórias e saberes.

Este livro busca registrar essas experiências por meio da literatura, preservando memórias que fazem parte da história do povo Kariri-Xocó.



PALAVRA DO AUTOR


Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias do meu povo.

Escrevo porque a memória precisa continuar caminhando.

Os contos deste livro nasceram das histórias ouvidas entre os mais velhos da aldeia, das lembranças do rio Opará e dos caminhos que ligavam aldeia, cidade e sertão.

Ao escrever estas narrativas, busco preservar parte da memória do meu povo, para que as novas gerações possam conhecer os caminhos que nos trouxeram até aqui.



CONTOS ( 01 a 10 )



01. WÓATSE ITOHIQUIETE, O CAMINHAR DO VIAJANTE





O Radda, o Mundo, sempre esteve aberto como um grande corpo vivo. Nele se estendem os Iuwóá, os Caminhos, traçados não apenas pela terra, mas pelo sopro do tempo e pela passagem das Atseá, as Pessoas. Caminhos que atravessam as Retséá, as Florestas profundas, onde os Kerítséá, Animais Silvestres, conhecem cada sombra e cada cheiro. Caminhos que acompanham as Dzuá, as Águas correntes, por onde os Wãmyá, Peixes, seguem seus percursos antigos. Caminhos que se erguem até os Arankeá, os Céus, onde os Ieendeá, Pássaros, riscam rotas invisíveis com suas asas.


Houve um Uché, um Tempo antigo, em que o Mundo ainda não conhecia os inventos do homem. Não existiam Ibá, Carros de ferro e fumaça. Não havia Ubá, Canoas talhadas para vencer as águas, nem Yeemerãkié, Aviões que cortam os céus. Nesse tempo primeiro, o corpo era o próprio transporte, e as Atseá, pessoas caminhavam com os Biá, os Pés, sentindo a pele da terra, o calor do chão e a aspereza das pedras.


O Itohiquiete, o Viajante, aprendia desde cedo que caminhar era mais que ir — era escutar. Escutar o vento que falava com as folhas, o silêncio das matas, o chamado distante dos rios. Pela floresta ele seguia, subindo Siririté, as Serras, com o coração firme e as pernas confiantes. Cada passo era uma conversa com os ancestrais, cada trilha guardava histórias deixadas por quem passara antes.


O viajante caminhava para Eriwí, Visitar os Etçamyá, Parentes, nas Natiá, Aldeias espalhadas pelo território vivo. Assim foi por milênios, de geração em geração. As Biá, Pernas humanas, levavam sonhos, notícias, cantos e saudades. Levavam também o saber de que todo lugar alcançado tinha um motivo, e todo motivo nascia do espírito.


Os caminhos nunca foram apenas linhas na terra. Alguns conduzem às Bechiéá, as Roças, onde o alimento brota do cuidado. Outros levam às Sitoá, as Caçadas, onde o respeito ao animal é lei antiga. Há os que seguem para as Mydzéá, as Pescarias, onde a água ensina paciência. E há ainda os caminhos invisíveis, aqueles que conduzem ao entendimento e à memória.


Tudo depende do sentido da busca. Pois caminhar, no Radda, o mundo nunca foi apenas chegar a um Undéá, um Lugar. Caminhar sempre foi descobrir quem somos enquanto seguimos adiante.



02. NAMYTSE UBÁCRUTÉ – O SERVIÇO DA CANOA DE PASSAGEIROS





O Opará corria largo e paciente, como quem guarda segredos antigos. Suas águas sabiam os nomes dos ventos, das margens e dos homens. Muito antes do ronco dos motores e do asfalto quente das estradas, era nele que vivia o Namytse, o serviço silencioso e constante que unia pessoas, mercadorias e destinos.


As Ubácruté, canoas de pano, deslizavam sobre o rio como se fossem extensão da própria água. Não havia pressa. Havia tempo. Tempo de observar o céu, de sentir o balanço manso da travessia, de ouvir histórias contadas em voz baixa enquanto a canoa cortava o espelho do Opará. Eram elas que ligavam as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, levando gente, arroz, farinha, sonhos e notícias.


No Baixo São Francisco, a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá era mais que caminho: era rotina de vida. Por séculos, a canoa foi o único meio possível, a ponte viva entre Alagoas e Sergipe. Crianças, trabalhadores, comerciantes, anciãos — todos confiavam seus passos às mãos firmes dos canoeiros, que conheciam o rio como quem conhece o próprio corpo.


Em Colégio, ainda repousa o Radamy Cródzu, o Porto de Baixo. Ali, o chão guarda marcas invisíveis de sacas descarregadas, de pés descalços, de despedidas e reencontros. Dali partiam mercadorias das fábricas de beneficiamento de arroz e dali também partiam pessoas, rumo à outra margem, rumo a outros destinos que o rio permitia alcançar.


Mas o tempo mudou o curso das coisas. Na década de 1970, a estrada chegou com sua promessa de rapidez. A BR-101 rasgou o país de Norte a Sul, e o que era água virou pó. A navegação das canoas foi silenciando, pouco a pouco. O Namytse perdeu passageiros, e as Ubácruté passaram a esperar mais do que navegar.


Ainda assim, o Opará não esqueceu. O rio continua correndo, guardando na memória das águas o som dos remos, o ranger da madeira, as vozes que cruzavam de uma margem à outra. Quem escuta com atenção ainda pode ouvir: a canoa não morreu — ela apenas repousa na lembrança viva do povo que aprendeu a atravessar o mundo sobre as águas.


A Ubácruté, canoa de pano era também chamada de Ubácruté Itohiquiete, canoa dos viajantes que levavam pessoas do litora até o sertão subindo e descendo o Opará, elas não desapareceram, algumas resiste ao tempo com novas configurações. 



03. UCHÉ IBÁDZÓ — NO TEMPO DO CARRO DE BOI





Houve um tempo antigo, um Uché em que o mundo caminhava devagar, no mesmo ritmo do sol e dos passos do boi. Naquele tempo, os Caraí, os homens brancos, chamaram o grande rio de Rio dos Currais.


Mas os Kariris, atentos ao sentido das coisas, logo compreenderam de outro modo e passaram a chamá-lo de Iwo Dedíá, o Rio dos Currais, porque foi exatamente nesse tempo que o Cradzó, o boi, chegou às margens do Opará.


Era um tempo de mudança.


Os indígenas passaram a viver na Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde os missionários ergueram o Erátekié, o Colégio dos Jesuítas. Ali, entre rezas, sinos e ensinamentos, tentavam introduzir a cultura cristã nos costumes trazidos pelos Peró, os portugueses. Mas a terra, silenciosa e paciente, continuava ensinando do seu próprio jeito.


Com a construção das Erácró, as Casas de Pedra, chegou também um novo modo de caminhar sobre o chão. Os colonizadores trouxeram um transporte pesado, de madeira rangente e passos lentos. Os Kariris deram-lhe nome, como sempre fizeram com tudo o que passa a existir: Ibádzó.


Ibá, o carro.


Cradzó, o boi.


Assim nasceu o nome que atravessaria gerações.


O Ibádzó tornou-se parte da vida cotidiana. Era ele quem levava o fruto do trabalho da terra: o Masiche, o milho dourado; o Geɲe, o feijão miúdo; os Uanhí, grãos e cereais; e o Abati-uaupé, o arroz que alimentava o corpo e a esperança. Rangendo, lento, paciente, o carro de boi cruzava caminhos de barro, puxando não apenas colheitas, mas histórias.


O tempo seguiu seu curso, como o rio. Séculos passaram. O Ibádzó resistiu ao esquecimento e chegou aos tempos mais próximos, aqueles que ainda moram na lembrança dos mais velhos. Muitos recordam Teipó, o indígena cuidador do carro de boi da senhora Maria Matildes.


Dizem que até o ano de 1944 ele ainda conduzia o Ibádzó, com mãos firmes e olhos atentos, como quem guarda um saber antigo.


Hoje, a Aldeia já não possui mais um Ibádzó. O silêncio tomou o lugar do rangido das rodas. Mas, por todo o Opará e pelo Nordeste do Brasil, a tradição do Carro de Boi ainda respira. Vive nas festas, nos caminhos de terra, na memória dos povos e no coração daqueles que sabem que certas coisas não morrem — apenas caminham mais devagar.


E assim, no compasso do boi e da madeira, o tempo continua passando.



04. IGABOROU DAMY, O CAVALO DE CARGA





No tempo em que o mundo andava devagar, quando ainda não existiam os Ibápohduá, os automóveis barulhentos, nem o Ibámeraipu, o trem de ferro cortando distâncias, os Iuwóá Radda — caminhos de terra — eram as veias abertas do Opará. Por elas passava a vida, marcada pelo som ritmado dos cascos e pelo ranger das cargas bem amarradas.


Era o tempo dos Igaborouá Damy, os cavalos de carga. Animais fortes, pacientes, que conheciam o caminho melhor que muito cristão. Sobre seus lombos seguia o sustento, a esperança e o trabalho de muitos povos. Onde hoje corre pressa, antes caminhava o tropeirismo — o vai-e-vem silencioso das mercadorias conduzidas por tropas de homens e cavalos.


Os Kariri chamavam aquele movimento de Bohé Anraná Igaborou, o grupo de homens de cavalos. Eles partiam em Itohiquiete, longas viagens, levando Damyá, as cargas, rumo às Naticróraí, as cidades espalhadas pelo interior do Brasil. O sol queimava a pele, a poeira grudava no suor, mas ninguém reclamava: o caminho era duro, porém conhecido.


Na Aldeia Kariri-Xocó, os mais velhos ainda contam, com voz mansa e olhos longe, sobre o indígena Gravié, tropeiro de respeito e curador. Dizem que ele falava pouco, mas seus cavalos entendiam tudo. Depois dele, seu sobrinho Profírio seguiu o mesmo rumo, já no começo do século XX, mantendo viva a lida antiga de transportar o mundo no lombo dos animais.


Até perto de 1970, não havia estrada de asfalto naquela região. O que existia era a estrada antiga, de barro vermelho e pedra solta, onde o transporte seguia no passo do cavalo. Cada viagem era um risco, cada chegada, uma vitória.


Às quintas-feiras, na Eisdembé, a Feira da Rua de Porto Real do Colégio, a cena se repetia como um ritual. Os matutos do interior chegavam cansados e famintos. Jantavam na casa de Indaiá, indígena acolhedora, enquanto na frente da casa se formava um mar de cavalos amarrados, respirando fundo após a jornada. Na sexta-feira cedo, as mercadorias seguiam para o centro da cidade, onde viravam troca, sustento e história.


Hoje, o asfalto cobre os antigos caminhos, e os cavalos quase não passam mais. Mas quem escuta com atenção ainda ouve, no fundo da terra, o som dos cascos dos Igaborouá Damy, lembrando que antes da pressa existia o passo, antes do motor existia o fôlego, e antes do esquecimento existia a memória.


E ela continua viva, contada de boca em boca, como deve ser.



05. NAMYTSE IBÁKABARU, SERVIÇO DA CARROÇA DE CAVALO





Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, o rangido da Ibákabaru, carroça de Cavalo, já cortava o silêncio da manhã. Era um som conhecido, quase um chamado. Madeira cansada, ferro antigo e o passo firme do cavalo anunciavam que o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça estava em movimento.


Desde o início do Brasil República, entre os Kariri-Xocó, o Ibákeríá — transporte de animais — seguia sendo mais que trabalho: era modo de viver. A carroça carregava Damy, mas também levava histórias, palavras trocadas na estrada, promessas de sustento e dignidade. Cada Natéibáruá, carroceiro conhecia o caminho pelo cheiro da terra e pela inclinação do animal.


No tempo em que a Iuwó Merata, estrada de ferro começou a rasgar Porto Real do Colégio, em meados do século XX, a cidade pulsava diferente. O apito distante do trem misturava-se ao bater dos cascos, e o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça cresceu como cresce rio em tempo de cheia. Onde havia obra, havia carroça; onde havia peso, havia braço e cavalo dispostos.


Lá embaixo, no Cródzu Radamy, Porto de Baixo  o movimento nunca dormia. As Ubácruté, canoas de panos balançavam presas à margem, as Eyemérata, balsa deslizavam lentas, e hoje, onde passam as Ubadzúpui, lanchas antes o barro guardava marcas profundas de rodas e pegadas. A carga ia e vinha, e a carroça era o elo entre a água e a terra.


A prefeitura chamava os carroceiros para o serviço pesado: obra, limpeza, Kenké Dimy. O lixo da cidade, que ninguém queria ver, seguia na Ibákabaru, conduzido com respeito. Era trabalho duro, mas honesto. Trabalho que ensinava que tudo tem lugar e destino.


Com o tempo, chegaram os Ibápohduá, os automóveis que vieram velozes, cheios de barulho e fumaça, e aos poucos empurraram a carroça para a beira da estrada da memória. O serviço diminuiu na cidade, e até na Aldeia Kariri-Xocó — que teve o maior comboio nos anos 1980 — o silêncio começou a ocupar o espaço do rangido.


Mas quem viveu aquele tempo sabe: enquanto houver lembrança, a Ibákabaru continua andando. Em cada história contada, em cada palavra antiga preservada, o cavalo ainda puxa, a roda ainda gira, e o Namytse não se perde.


Porque há serviços que não acabam.


Apenas viram memória.



06. ANRAMY ERAIBÁME, OS ESTIVADORES DA ESTAÇÃO





O Ibámeraipu, o trem, chegou a Porto Real do Colégio como quem anuncia um novo tempo. Era meados do século XX, e o apito da Maria-Fumaça ecoou pelas margens do Opará, chamando o povo para ver, ouvir e sentir a Eraibáme, nascer. A estação foi inaugurada em dia de festa: bandeirolas ao vento, autoridades de paletó engomado, crianças correndo, mulheres de vestido simples e olhos curiosos. O chão parecia tremer de alegria.


Pela Iuwó Merata, a estrada de ferro, vinham diferentes Ibámeraipu. Havia o trem Maria-Fumaça, cuspindo fumaça preta como nuvem de chuva; o Ibámeraipu Itohiquiete, trazendo passageiros, histórias e novidades; e o Ibámeraipu Damy, pesado, lento, carregado de riqueza bruta e suor humano. Cada chegada era um acontecimento, cada parada, um pequeno ritual.


Com o trem, a região despertou. O comércio cresceu, turistas começaram a aparecer e a Eraibáme virou lugar de trabalho e encontro. Entre os homens que ali labutavam estavam os Anramy, os estivadores — muitos deles indígenas, filhos da terra, acostumados ao peso da vida e à força dos braços. Eles conheciam o ritmo do trem, o tempo da carga e o silêncio que precede o esforço.


Do Ibámeraipu Damy desciam sacas e mais sacas: Uanhí, grãos e cereais; Masiche, o milho dourado; Cromera, minério de ferro pesado como destino; Sekiraê, o açúcar branco que adoçava terras distantes. Os Anramy carregavam tudo nos ombros, passo firme, suor escorrendo, levando as sacas até o Carnaúba, o armazém que guardava o coração econômico daquele tempo.


Naqueles dias, o trem cortava a cidade de Porto Real do Colégio como um rio de ferro. Depois, seguia até as margens do Opará, onde parava e esperava. Ali, sobre a Eyemé Merata, a balsa de ferro, atravessava o rio rumo a Propriá, em Sergipe. O trem parecia aprender a navegar, respeitando as águas antigas do Velho Chico.


O trabalho na estação marcou gerações. Ficou gravado nas mãos calejadas, nas costas curvadas, nas histórias contadas ao entardecer. Mas o tempo, como o próprio Ibámeraipu, não para. Em dezembro de 1972, com a inauguração da Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, o trem mudou sua rota. A Eraibáme silenciou aos poucos.


Ainda assim, para quem viveu aquele tempo, nada se perdeu. A estação continua viva na memória do povo, no eco distante do apito e na lembrança dos Anramy Eraibáme — os estivadores que sustentaram, com força e dignidade, a passagem do trem pela história de Porto Real do Colégio.



07. MERÁ YEEMERÃKIÉ, O CAMPO DA AVIAÇÃO





Conto inspirado em memórias de Porto Real do Colégio


Naquele tempo em que a Iuwó Merata, a Estrada de Ferro, cortava a terra de Porto Real do Colégio como um risco firme no mapa do destino, o lado leste da cidade ganhou também um outro sinal de progresso: o Merá Yeemerãkié, o Campo de Aviação.


Era um campo largo, de chão batido e horizonte aberto, feito para receber Yeemerãkié — aviões bimotores pequenos, barulhentos, que chegavam como aves metálicas vindas de longe. Ali pousavam os Dubonaté, técnicos e mestres de obras, homens de fala apressada e olhar atento, e às vezes também os Nanheá, autoridades do governo, que vinham observar, mandar e partir.


Não havia asfalto, nem marcas pintadas no chão. O que mandava ali era o vento. No centro do campo erguia-se o Crupuhami, a biruta: um pano preso a uma vara alta, que dançava ao sopro invisível do ar e ensinava aos pilotos o caminho seguro da descida. Para nós, crianças e curiosos, aquele pano era um sinal mágico — quando se movia, algo estava para acontecer.


E acontecia.


Quando um Yeemerãkié surgia no céu, dando voltas lentas como quem escolhe o lugar exato para tocar a terra, a notícia corria mais rápida que o vento. Nós largávamos tudo: a conversa, a brincadeira, o descanso. Corríamos em bando até o campo, mantendo distância, mas com os olhos arregalados e o coração acelerado. O ronco dos motores fazia o chão vibrar e parecia anunciar que o mundo lá de fora estava nos visitando.


O campo não era só terra plana; era portal. Ali pousavam novidades, ideias, promessas de mudança. Mas o tempo, como sempre, não pousa — ele passa.


Quando começou a construção da Iuwóiró, a rodovia de asfalto, estrada preta que riscou o chão com outra lógica, o Merá Yeemerãkié começou a encolher. Um pedaço aqui, outro ali, até que o silêncio foi tomando o lugar do ronco dos motores. Depois veio a Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, e com ela o fim definitivo do campo.


No início da década de 1970, o Merá Yeemerãkié já não recebia mais aviões. Restou a terra, a memória e o vento — que ainda sopra, mesmo sem biruta para indicar seu caminho.


E quem viveu aquele tempo sabe: houve um dia em que o céu descia até o chão de Porto Real do Colégio, e nós corríamos para ver.



08. IBÁCHIDDÁ PIDÉKAN, O ÔNIBUS-AMBULATÓRIO NAS ALDEIAS





Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, havia um dia esperado como quem espera a chuva depois da seca. Não vinha anunciado por sino nem por papel escrito, mas pelo som distante do motor que fazia o coração bater diferente. Era o Ibáchiddá Pidékan, o ônibus do Funrural, que surgia levantando poeira e esperança.


Desde 1971, ele chegava como um parente viajante, trazendo dentro de si remédios, instrumentos, vozes de cuidado e a promessa de alívio. Onde não havia posto de saúde nem casa de médico, o governo fazia rodar o socorro sobre rodas. O ônibus era branco, com faixas verde-lima, cores que se destacavam na paisagem da aldeia como sinal de vida.


Quando estacionava em frente à escola, o tempo parecia desacelerar. Homens, mulheres, crianças e anciãos se organizavam em fila, cada um carregando sua dor, seu medo ou apenas a necessidade de ser visto. O atendimento durava três dias, e nesses dias a aldeia respirava diferente.


O médico era o Dr. Rovérsio, homem de fala firme e mãos que examinavam com atenção. O dentista, Dr. Mário, trazia o som do motorzinho que assustava as crianças, mas também levava embora dores antigas. Dentro do ônibus, o espaço era pequeno, mas o cuidado era grande. Ali, muitos descobriram que sua dor tinha nome e tratamento.


Com o tempo, nosso povo se mudou para a nova Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo. Mesmo assim, o Ibáchiddá Pidékan continuou vindo, ficava defronte à Eráye "Casa Grande", atendendo os indígenas até meados da década de 1980.


Era antes do SUS, antes de acontecer a redemocratização, quando a saúde ainda vinha em passos lentos, mas vinha, fiel como o curso do rio, até a Aldeia Kariri-Xocó, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas. 


Para nós, aquele ônibus não era só ambulatório. Era sinal de que ainda existíamos aos olhos do mundo. Trouxe alívio aos corpos, mas também esperança aos espíritos. Em cada partida, deixava saudade; em cada chegada, renovava a confiança de que viver valia a pena.


Hoje, quando a memória chama, ainda é possível ouvir o motor chegando na Woderáehó Uanieá, Rua dos Índios e ver, entre poeira e sol, o ônibus branco e verde-lima trazendo consigo o cuidado que atravessou gerações.



09. NATÉIBÁ ITOIBÁPOIETE, MOTORISTA DE AUTOMÓVEL DE PASSAGEIROS





Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, já se ouvia o ronco discreto do Ibápohduá cortando a estrada de barro batido. Era assim todos os dias. O Namytse, o Serviço de Passageiros, começava cedo entre a Aldeia Kariri-Xocó e a cidade de Porto Real do Colégio, seguindo até Propriá, em Sergipe, levando gente, histórias e sonhos apertados no banco traseiro.


Natéibá Itoibápoiete, motorista de automóvel segurava o volante com firmeza e respeito. Não era apenas um motorista: era conhecedor dos caminhos, das curvas da estrada e das necessidades do povo. Sabia quem ia para vender, quem ia para consultar médico, quem ia apenas visitar parente distante. Cada passageiro carregava um motivo, e ele carregava todos.


Na aldeia havia outros como ele — homens e mulheres que transformaram o automóvel e a Ibáchiddá, a topic ou van, em instrumento de sobrevivência. Na cidade também havia transporte, mas quando o carro saía direto da Aldeia Kariri-Xocó para Propriá, o valor mudava. Custava Yeendéar, dez reais, dez tayu, a nota onde a arara vermelha parecia observar tudo com olhos atentos, como guardiã do trajeto.


Alguns preferiam o caminho das águas. As Ubauipú Itohiquiete, lanchas dos viajantes, deslizavam pelo rio por um preço menor, três reais apenas. Mas nem sempre o rio estava manso, e nem todos confiavam nele. A estrada, apesar de poeira e buracos, também contava suas histórias.


Enquanto dirigia, Natéibá, motorista pensava no quanto o tempo havia mudado. Antes, poucas opções. Agora, novos meios, novas profissões. O volante nas mãos indígenas era mais do que trabalho: era autonomia, era futuro, era comida na mesa e dignidade dentro de casa.


Quando o carro parava e os passageiros desciam, ficava no ar um silêncio breve, quebrado apenas pelo vento e pelo canto distante de um pássaro. Natéibá desligava o motor, respirava fundo e sorria. Sabia que no dia seguinte estaria ali de novo, ligando o Ibápohduá, conduzindo pessoas, conectando aldeia, cidade, estrada e rio — como quem tece, pouco a pouco, a própria sobrevivência.



10. NAMYTSE IBARANÚ NATIÁ, O SERVIÇO DE MOTOTÁXI NA ALDEIA





Dizem que a primeira Ibaranú, a “Moto”, chegou à Natiá, a Aldeia, como coisa estranha, barulhenta, levantando poeira e curiosidade. Era década de 1960, tempo em que os Kariri-Xocó ainda moravam na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, na Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio. A máquina veio trazida por um forasteiro, e seu ronco ecoou diferente entre as casas, como um bicho novo aprendendo a respirar naquele chão antigo.


No começo, poucos se aproximavam. Uns olhavam de longe, outros riam, outros desconfiavam. A moto parecia não entender os passos da aldeia, nem o silêncio da terra. Mas o tempo, esse velho ensinador, tratou de aproximar homem e máquina.


Em 1989, quando a FUNAI comprou uma moto para a vigilância da Terra Indígena, a Ibaranú deixou de ser apenas novidade. Passou a ser ferramenta, aliada, extensão do corpo que protege o território. Foi aí que os Kariri-Xocó começaram a conhecer melhor aquele meio de transporte, sentindo no vento do caminho uma nova possibilidade de ir e vir.


Na década de 1990, nasceu de vez o Namytse Ibaranú Natiá, o Serviço de Mototáxi na Aldeia. A moto passou a levar gente, histórias, recados e sonhos. Levava indígenas da aldeia para a cidade e trazia de volta sacolas, remédios, notícias e esperanças. Levava também quem precisava seguir viagem para outras cidades, cruzando estradas que antes eram longas demais a pé.


O Tayu, o dinheiro, era simples e justo: Yeendeçó, cinco reais. Na nota, a figura da Ieende-ku-homoechi, a garça-branca-de-pescoço-comprido, parecia observar tudo em silêncio, como quem sabe que aquele pagamento não comprava só a corrida, mas também a confiança entre quem leva e quem é levado.


Hoje, na aldeia, existem em média vinte mototáxis ou mais. Eles transportam indígenas e não-indígenas pela cidade e pelos povoados circunvizinhos. Quanto maior a distância, maior o valor — porque o caminho também cansa, e a estrada tem suas exigências.


Assim, pouco a pouco, os Kariri-Xocó vão se adaptando às novas opções de trabalho. A tecnologia chega, mas não apaga a tradição. Ela aprende a conviver com ela. A Ibaranú já não é mais estranha: é parte da paisagem, como o sol da manhã, como o pó da estrada, como o chamado de quem precisa ir — e de quem sempre sabe voltar.



Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



APÊNDICES


Sugestões para incluir:

• Fotografias antigas do Porto de Baixo

• Registros da estação ferroviária

• Imagens das capas dos contos

• Mapas do Baixo São Francisco



MAPA CULTURAL DOS TRANSPORTES DO OPARÁ





Memória Viva dos Caminhos do Povo Kariri-Xocó


Ao longo das margens do Opará — nome ancestral do Rio São Francisco — o povo Kariri-Xocó construiu caminhos de sobrevivência, resistência e cultura. Muito antes das estradas modernas, os percursos eram feitos a pé, em trilhas abertas pela sabedoria da terra e pela orientação das águas.


Este Mapa Cultural dos Transportes do Opará apresenta uma jornada visual e histórica que percorre diferentes tempos: dos caminhos ancestrais às navegações tradicionais, das rotas coloniais às ferrovias, até os meios de transporte contemporâneos que hoje conectam comunidades e territórios.


Mais do que um registro cartográfico, esta obra é um instrumento de memória viva. Cada imagem revela modos de deslocamento que também são formas de relação com o território, com o rio e com a identidade de um povo que continua a caminhar entre tradição e futuro.


Este mapa convida o leitor a percorrer esses caminhos e a reconhecer que o transporte, para os povos originários, nunca foi apenas deslocamento — mas também cultura, história e pertencimento.


Uma homenagem à memória do Opará e à sabedoria do povo Kariri-Xocó.



ESTRUTURA DO MAPA:


🌿 1 — Caminhos ancestrais


caminhada indígena


trilhas da floresta


🚣 2 — Transporte nas águas


canoas Ubácruté


travessias do Opará


🐂 3 — Transporte colonial


carro de boi


tropas de cavalos


🐎 4 — Transporte regional


carroças


tropeirismo


🚂 5 — Era da ferrovia


estação ferroviária


estivadores


balsa ferroviária


✈ 6 — Campo de aviação


aviões bimotores


🚌 7 — Transporte social


ônibus-ambulatório do Funrural


🚗 8 — Transporte rodoviário


automóveis


vans


🏍 9 — Transporte contemporâneo


mototáxi indígena


📖 Esse mapa funciona como síntese visual do livro, mostrando que a obra percorre uma história completa do transporte regional.



GLOSSÁRIO KARIRI-XOCÓ



Abati-uaupé — arroz.

Anramy — estivadores, trabalhadores de carga.

Arankeá — céus.

Atseá — pessoas, seres humanos.

Bechiéá — roças ou plantações.

Biá — pés ou pernas humanas.

Bohé Anraná Igaborou — grupo de homens cavaleiros.

Carnaúba — armazém de carga.

Cradzó — boi.

Cródzu Radamy — Porto de Baixo.

Crupuhami — biruta usada em campo de aviação.

Cromera — minério de ferro.

Damy — carga, mercadoria.

Damyá — cargas transportadas.

Dubonaté — técnicos ou trabalhadores especializados.

Dzuá — águas, rios.

Eraibáme — estação ferroviária.

Erátekié — colégio ou espaço de ensino.

Erácró — casas de pedra.

Eráye — casa grande.

Eisdembé — feira pública.

Etçamyá — parentes.

Eyemé Merata — balsa ferroviária.

Geɲe — feijão.

Ibá — carro ou veículo.

Ibábárú / Ibákabaru — carroça de cavalo.

Ibáchiddá — ônibus ou veículo coletivo.

Ibáchiddá Pidékan — ônibus-ambulatório.

Ibádzó — carro de boi.

Ibápohduá — automóvel.

Ibámeraipu — trem ou locomotiva.

Igaborou — cavalo.

Igaborou Damy — cavalo de carga.

Ieendeá — pássaros.

Ieende-ku-homoechi — garça branca.

Itohiquiete — viajante.

Iuwóá — caminhos.

Iuwó Merata — estrada de ferro.

Iuwóiró — rodovia ou estrada asfaltada.

Kerítséá — animais silvestres.

Masiche — milho.

Merá Yeemerãkié — campo de aviação.

Namytse — serviço ou atividade de transporte.

Natéibá — condutor ou motorista.

Naticróbeá — cidades ribeirinhas.

Naticróraí — cidade.

Natiá — aldeia.

Opará — rio São Francisco.

Radda — mundo.

Sekiraê — açúcar.

Siririté — serras ou montanhas.

Uanhí — grãos ou cereais.

Ubá — canoa.

Ubácruté — canoa de pano.

Ubauipú — lancha.

Uocró Idabacrú — ponte sobre o rio.

Wãmyá — peixes.

Woderáehó Uanieá — Rua dos Índios.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio, Alagoas, às margens do rio São Francisco.

Contador de histórias orais e escritas, dedica-se ao registro da memória cultural indígena por meio de textos, contos e pesquisas históricas publicadas em seu blog.

Seu trabalho busca preservar a tradição, a língua e os saberes ancestrais do povo Kariri-Xocó.



SOBRE A OBRA


Namytseiba Damyatseito reúne contos que narram a evolução dos meios de transporte utilizados no território do Baixo São Francisco ao longo do tempo.

A obra apresenta desde os caminhos percorridos a pé até os serviços modernos de mototáxi, mostrando como cada forma de transporte transformou a vida das comunidades.

Ao registrar essas histórias, o livro contribui para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó.



ORELHA DO LIVRO


Entre trilhas da floresta, travessias do rio Opará e estradas de barro percorridas por carros de boi e cavalos, o leitor é convidado a viajar pela memória do povo Kariri-Xocó.

Em Namytseiba Damyatseito, Nhenety Kariri-Xocó transforma lembranças e histórias orais em literatura, registrando as formas de transporte que conectaram aldeias, cidades e pessoas ao longo do tempo.

Com linguagem sensível e profunda ligação com a tradição indígena, o autor apresenta uma obra que preserva a memória cultural e revela a riqueza da experiência histórica do Baixo São Francisco.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



segunda-feira, 9 de março de 2026

PEDI NHENETÍ KROTSEBA CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA






PARTE PRÉ-TEXTUAL (estrutura editorial)


FALSA FOLHA DE ROSTO 

(Página apenas com o título)

PEDI NHENETÍ KROTSEBA

CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO 





Obra literária de narrativa tradicional indígena que reúne contos sobre memória, espiritualidade, resistência cultural e história do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.

Todos os contos foram originalmente publicados no blog do autor.

Blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com

© Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.



FOLHA DE ROSTO (Frontispício)


PEDI NHENETÍ KROTSEBA

CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA

Contos de Memória, Fé e Resistência do Povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026



FICHA CATALOGRÁFICA (modelo acadêmico)


Ficha catalográfica (modelo simplificado)

Nhenety Kariri-Xocó

PEDI NHENETÍ KROTSEBA: crer com tradição na resistência /

Nhenety Kariri-Xocó.

1ª edição.

Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, tradição, religiosidade e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.

Inclui glossário de termos indígenas.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Narrativas tradicionais

História indígena do Nordeste

Resistência cultural

CDD — Literatura indígena brasileira



DEDICATÓRIA 


Este livro é dedicado aos meus ancestrais e os anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó.


Àqueles que guardaram as histórias, os cantos, os ensinamentos e a memória do nosso povo mesmo em tempos difíceis.


Aos que ensinaram através da palavra falada, das conversas ao redor do fogo, das caminhadas pela mata, das histórias contadas nas casas e nos terreiros.


Foram eles que mantiveram viva a cultura, o Toré, a espiritualidade, os saberes da natureza e a identidade do povo Kariri-Xocó.


Muitos já partiram para o mundo dos encantados, mas suas palavras continuam vivas na memória de seu povo.


Que este livro seja também uma forma de agradecer, respeitar e honrar aqueles que vieram antes de nós.


E que as novas gerações possam continuar ouvindo, aprendendo e caminhando com a sabedoria dos mais velhos.


Ao povo de minha aldeia, que mantém viva a chama da tradição.


E às novas gerações, para que saibam que nossa história continua caminhando.


Com respeito e gratidão,


Nhenety Kariri-Xocó



AGRADECIMENTOS 


Agradeço ao meu povo Kariri-Xocó, guardião de saberes antigos que atravessam gerações.

Aos anciãos e anciãs que mantiveram viva a memória do povo, transmitindo histórias, palavras e ensinamentos.

Aos jovens da aldeia, que continuam fortalecendo a identidade indígena.

A todos que valorizam a cultura indígena brasileira e compreendem que preservar memória é também construir futuro.



EPÍGRAFE 


“A tradição não desaparece.

Ela apenas espera o momento certo

para voltar a caminhar.”

— Sabedoria Kariri-Xocó



SUMÁRIO 


Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor

Contos ( 01 a 10 )

01. Ibenhete Onhantoá – As Imagens dos Santos na Parede; 

02. Duantoá Okenerá – As Fogueiras dos Santos nas Portas; 

03. Woroy Saicrã Boighytéá, História das Doenças Daqui e das que Vieram; 

04. Tiri Moaîba Atseá – O Conselho de Amoãny e os Insetos que Passaram a Prejudicar as Pessoas; 

05. Teudiokié Honéá Uanieá, A Luta Pelos Direitos Indígenas; 

06. Woroia Wontseré – História dos Grupos de Toré;

07. Toráhekié - Quando os Pés Aprendem a Conversar;

08. Amiteá Nhenetí Tseho – O Fogo de Amotyra; 

09. Woroy Toklikli Bohé Uanie, O Conto da Escola Onde a Palavra Anda; 

10. Nhaehí Aiby, Resgate da Língua Kariri-Xocó. 

Apêndices

Glossário

Dados biográficos do autor

Sobre a obra

Orelha do livro



PREFÁCIO 


Este livro reúne contos que nascem da memória viva do povo Kariri-Xocó, habitantes históricos da região do Baixo São Francisco. As narrativas aqui apresentadas não são apenas histórias literárias, mas registros culturais que atravessam o tempo, conectando tradição indígena, experiências históricas e formas próprias de interpretar o mundo.

Ao longo dos contos, o leitor encontrará a presença constante de elementos fundamentais da identidade Kariri-Xocó: o Toré, a memória dos anciãos, a relação com a natureza, os encontros culturais e as estratégias de resistência diante das transformações impostas pela história.

Mais do que contar histórias, esta obra preserva vozes.



APRESENTAÇÃO


Os contos deste livro foram escritos a partir da memória cultural do povo Kariri-Xocó, unindo tradição oral e registro escrito.

Cada narrativa traz palavras da língua indígena, elementos históricos e experiências vividas ou transmitidas pelos mais velhos.

Assim, a obra procura cumprir dois objetivos:

preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó

e compartilhar com o mundo a riqueza de sua tradição.



INTRODUÇÃO


A história dos povos indígenas do Brasil é marcada por encontros, transformações e resistências. No caso do povo Kariri-Xocó, que habita a região do Baixo São Francisco, essa trajetória inclui a convivência com missionários, colonizadores, cidades em expansão e políticas de reconhecimento indígena.

Mesmo diante dessas mudanças, a memória cultural permaneceu viva por meio da oralidade, dos rituais, das narrativas e da transmissão de conhecimentos entre gerações.

Os contos reunidos neste livro procuram registrar parte dessa memória, apresentando episódios que refletem a relação entre tradição, espiritualidade, território e resistência.



CONTOS ( 01 a 05 )




01. IBENHETE ONHANTOÁ – AS IMAGENS DOS SANTOS NA PAREDE





Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.


O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.


— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?


O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.


— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.


E começou a contar.


Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.


A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.


— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.


No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.


Içánauá escutava atento.


Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.


Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.


Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.


— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.


O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.


Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.


E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.



02. DUANTOÁ OKENERÁ – AS FOGUEIRAS DOS SANTOS NAS PORTAS





Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.


— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.


— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.


Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.


Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.


— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.


— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.


As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.


Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.


Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.


Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.


Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.


Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.


Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.


Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:


— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.


E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.



03. WOROY SAICRÃ BOIGHYTÉÁ, HISTÓRIA DAS DOENÇAS DAQUI E DAS QUE VIERAM





Naquele fim de tarde em que o sol já se escondia atrás das árvores do Opará, a jovem Namuãny sentou-se perto da fogueira, observando o velho Bidzamu, o Pajé, preparar seus remédios de folhas, raízes e palavras antigas. O cheiro da lenha queimando misturava-se ao silêncio respeitoso da aldeia.


Com o coração inquieto, Namuãny rompeu o silêncio:


— Bidzamu, é verdade que todas as Saicrã, as doenças, foram trazidas pelos Caraí, os brancos?


O velho Pajé ergueu os olhos devagar, como quem busca respostas no tempo antigo. Passou a mão enrugada sobre o rosto e respondeu com voz firme, porém serena:


— Não, Namuãny. Nem todas. Algumas Saicrã já moravam nesta terra antes dos Caraí chegarem. Outras, sim, foram as que aqui vieram, as Boighytéá.


Ele então começou a contar o que aprendeu com seus ancestrais, palavras guardadas como sementes.


Disse que os parentes Tupi da Aindzubé, da beira do mar, já conheciam certas doenças desde tempos imemoriais.


Falavam da Pereba, a ferida que não fecha; da Akubaby, as febres e a malária que enfraquecem o corpo; da Seba, os vermes que roubam a força das crianças; do Vupir, a doença silenciosa do coração; e da Poxi, que mancha o corpo e o destino.


— Essas — explicou Bidzamu — já caminhavam conosco antes do primeiro Caraí pisar nesta terra.


Mas o Pajé também falou das doenças que chegaram com os passos estrangeiros, trazidas nas roupas, na respiração e no contato forçado. Os Kariri do Opará logo perceberam sua presença cruel:


a Aba-póra, a peste que varria aldeias;


a Uhu, a gripe que derrubava fortes guerreiros;


os Borôrus, as bexigas que marcavam a pele e a memória;


a Tatapora, que atacava as crianças;


as Dsebudana, febres sem nome;


a Baekla, a tosse longa da tuberculose;


e a Wonghecri, a doença da mente, que confundia o espírito.


— Essas — disse o Pajé, abaixando a cabeça — chegaram com o mundo que mudou tudo.


Por muito tempo, as Saicrã levaram parentes, deixando aldeias em luto. Mas o tempo também trouxe caminhos de cura. Com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, surgiu uma enfermaria, remédios e novas formas de cuidado, somando-se ao saber antigo dos Pajés.


Hoje, contou Bidzamu com esperança, a Aldeia Kariri-Xocó tem um Polo Base de Saúde, com médico, dentista, enfermeira, técnicos e agentes de saúde. Um espaço inaugurado em 15 de maio de 2014, símbolo de resistência, sobrevivência e continuidade da vida.


O fogo da fogueira já virava brasa quando o Pajé concluiu:


— Enquanto houver memória, palavra e cuidado, nosso povo seguirá curando o corpo e o espírito.


Namuãny ficou em silêncio. Agora entendia que a história das doenças era também a história da luta e da permanência de seu povo.



04. TIRI MOAÎBA ATSEÁ – O CONSELHO DE AMOÃNY E OS INSETOS QUE PASSARAM A PREJUDICAR AS PESSOAS





Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.


— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?


Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:


— Eles sempre foram assim?


Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:


— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.


Ela apontou para a floresta que ainda resistia.


— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.


Kayany e Soany sentaram-se mais perto.


— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.


O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.


O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.


A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.


O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.


A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.


O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.


O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.


E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.


— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.


— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.


A voz de Amoãny ficou mais grave.


— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.


Kayany apertou a mão da irmã.


— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.


— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.


— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.


O vento passou entre as folhas, como se concordasse.


— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.


Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.


E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.



05. TEUDIOKIÉ HONÉÁ UANIEÁ, A LUTA PELOS DIREITOS INDÍGENAS





Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.


O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar. 


Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos  mantendo o povo unido.


Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias  transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.


Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.


A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.


Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.


Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.


E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.



06. WOROIA WONTSERÉ – HISTÓRIA DOS GRUPOS DE TORÉ





A fogueira ardia no centro da aldeia, cuspindo faíscas que subiam ao céu como pequenas estrelas. Ao redor dela, a noite escutava. Foi ali que o jovem Nayrã, com os olhos curiosos e o coração inquieto, rompeu o silêncio e perguntou ao velho Nidé, que descansava sobre uma pedra antiga como a própria terra:


— Meu grande cacique, o que é o Toré? Desde quando ele existe? E para que serve?


O ancião demorou a responder. Fitou o fogo como quem consulta os espíritos e, em seguida, falou com voz baixa, mas firme, como se cada palavra tivesse peso sagrado:


— O Toré, meu neto, é o som que vem da flauta e ecoa no mundo invisível. É som sagrado. Ele nasce do trovão de Tupã e corre pelo vento até encontrar nossos corpos. Vem desde o começo do mundo, desde quando nossos antepassados aprenderam a escutar a terra.


Nidé explicou que o Toré não acontece por acaso. Ele nasce de um motivo, de uma necessidade do povo. Serve para agradecer a colheita, celebrar nascimentos, unir casamentos, honrar os mortos, fortalecer a paz, curar feridas do corpo e da alma, e também para afirmar a luta, a identidade e a memória.


Os anos passaram como passam as águas do rio São Francisco. Nayrã cresceu, tornou-se adulto, e em muitas fogueiras ouviu novamente as histórias do Toré. Soube então que, em 1859, quando o Imperador Dom Pedro II visitou a Aldeia Kariri de Colégio, foi recebido com um Toré conduzido pelo pajé Manoel Baltazar e por um grupo de indígenas. Mesmo diante do poder do Império, foi o som ancestral que falou primeiro.


Mais tarde, conversando com o velho Irecê, Nayrã compreendeu algo ainda mais profundo. O Toré foi essencial para o reconhecimento étnico dos Kariri de Colégio. Os grupos eram liderados pelos Duboheriá, os Mestres do saber: Manoel Ibá, Antônio Tinga, Giriçá e outros que, em 1935, dançaram e cantaram diante do pesquisador Carlos Estevão. Daquele registro nasceu, anos depois, em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.


Mas o Toré não ficou preso às páginas dos estudos. Ele seguiu vivo. Em 1973, o cacique Irecê levou um grupo Kariri-Xocó para além da aldeia. Foram até Aracaju, capital sergipana, onde apresentaram o Toré ao mundo de fora. O som ecoou nos jornais, na televisão, e atravessou fronteiras invisíveis.


Com o tempo, muitos grupos de Toré nasceram, como sementes espalhadas pelo vento. Na década de 1990 surgiram o Seregê, liderado pelo cacique José Tenório; o Thydjo, sob a liderança de Cará; o Suré, do soprador mágico Ademir Cruz; o Wakái, do líder Mocó; e o Dzubukuá, conduzido por Nido. Esses grupos não apenas dançavam: vendiam artesanato, arrecadavam alimentos, curavam, ensinavam, falavam ao mundo.


Nos anos 2000, novos passos se somaram à roda. Vieram o Etçãmy, de Batoré; o Sabucá, de Pawanã; o Kaçafeita, de Coção; o Yegeri, das grandes chamadoras de chuva, liderado por Nelcide; e o Subatekié, do conhecimento, conduzido por Idiane Crudzá. Muitos outros ainda nasceram, tantos que a lista já não cabe na memória escrita.


Naquela mesma fogueira, agora já homem feito, Nayrã entendeu: o Toré nunca foi apenas dança ou canto. Ele é raiz viva. Enquanto houver quem escute o trovão de Tupã e bata o pé na terra, o Toré continuará renascendo, mais forte, mais firme, como esperança que não se apaga.


E o fogo, em silêncio, concordou.



07. TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR





Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.


O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.


Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.


Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.


Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.


Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.


— Vem — disse apenas.


Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.


Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.


Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.


— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.


Akauã guardava a frase como quem guarda semente.


Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.


Numa noite de lua cheia, decidiu.


Convidou Helena para a aldeia.


O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.


Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.


Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:


— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.


Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.


Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.


Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.


E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.



08. AMITEÁ NHENETÍ TSEHO – O FOGO DE AMOTYRA





O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.


Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.


— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.


Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.


Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.


— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.


Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.


Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.


— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.


Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.


Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.


— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.


E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.



09. WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA





O Conto da Escola Onde a Palavra Anda


Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.


Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.


Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.


Havia muitos Mestres na aldeia.


A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.


Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.


O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.


O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.


O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.


E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.


Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;


os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;


o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;


e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.


Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.


Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.


Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.


Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:


o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;


o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;


o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;


o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;


o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;


o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;


o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;


e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.


Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.


Entre todos eles caminhava Nhenety.


Não como quem manda, mas como quem escuta.


No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.


Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.


E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.


Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.


E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:


um conto que não termina,


uma escola que anda,


uma palavra que vive.



10. NHAEHÍ AIBY NUNÚ, RESGATE DA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ





Quando os missionários chegaram às margens do Opará, não vieram apenas com cruzes e promessas. Trouxeram também o silêncio.


Levaram os Uanieá,  indígenas para a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde escreveram o Tonranraná — livros de gramática e catecismo — para entender como nosso povo falava, como pensava, como nomeava o mundo.


Aprenderam nossa Nunú Antse, língua nativa para, depois, nos ensinar a esquecê-la.


Os Waréá, padres passaram a ensinar a Samy Caraí, a cultura dos brancos, e proibiram nossos antepassados de falar a língua nativa. A ordem era clara: a partir dali, só o Nunú Peró, língua portuguesa deveria ser ouvida. A língua Kariri foi empurrada para dentro das casas, depois para dentro da memória, até quase desaparecer no fundo do silêncio.


O tempo seguiu seu caminho duro.


A antiga Natiá, aldeia virou Naticróraí, povoação dos brancos. As terras foram tomadas, os direitos negados, e já no Império do Brasil nosso povo foi declarado invisível. Mas o espírito Kariri-Xocó nunca aceitou o fim.


Quando chegou a República, chegou também o tempo de lutar outra vez pelo reconhecimento étnico.


Foi na Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, que um gesto pequeno reacendeu a chama. Ali, no Posto Indígena, o indígena Iraminõ reuniu o que ainda restava da língua: poucas palavras, sobreviventes, datilografadas em quatro folhas de papel, em letras vermelhas — como se o sangue da memória ainda pulsasse nelas.


O jovem Nhenety soube da existência daquele vocabulário. Procurou Iraminõ. Sentaram, conversaram, compartilharam palavras como quem partilha sementes raras. Já na Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo, algo começou a nascer: o Nhaehí Aiby Nunú — o Resgate da Língua.


Com um Cramycá Samyonhé, um simples gravador de voz, Nhenety passou a traduzir os Wonhé Torá, os cantos de Toré, para a língua Kariri. Depois criou um blog, onde espalhou cantos, frases e palavras, oferecendo aos jovens da aldeia aquilo que quase lhes havia sido roubado: a própria voz.


A tecnologia, antes instrumento de apagamento, virou ali ferramenta de resistência.


Com o apoio da Thydêwá, ONG cultural, e ao lado de Sebastian, seu amigo Caraí, Nhenety gravou CDs e DVDs de cantos de Toré. O som antigo ganhou novos caminhos, atravessando fios, telas e gerações.


A revitalização da língua ganhou novo fôlego com a criação do grupo de WhatsApp OKAX, reunindo cerca de cento e vinte participantes. Logo depois nasceu a Escolinha da Língua Subatekié Nunú, conduzida por Indiane Crudzá e Nhenety — professora e coordenador pedagógico — onde a língua deixou de ser lembrança e voltou a ser ensinada.


Vieram também os estudiosos. Thea, Daiane, Elizabete. Caminharam junto, acompanharam as atividades, escreveram artigos e teses, sempre com a participação ativa de Nhenety e Indiane. A língua Kariri-Xocó, antes calada, passou a existir também nos livros, nas universidades, sem perder o chão da aldeia.


E assim, palavra por palavra, canto por canto, a Nunú Antse voltou a respirar.


Porque uma língua não morre enquanto houver quem a pronuncie com o coração.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



APÊNDICES


Apêndice A


Contexto histórico do povo Kariri-Xocó


O povo Kariri-Xocó habita historicamente a região do Baixo Rio São Francisco, no município de Porto Real do Colégio, estado de Alagoas. Sua trajetória inclui processos complexos de contato cultural, missões religiosas, perda territorial e posterior reorganização comunitária.


Durante o período colonial e imperial, muitos povos indígenas da região foram reunidos em aldeamentos missionários. Entre esses espaços destacou-se a chamada Aldeia dos Padres (Natiwaré), que mais tarde se transformaria em núcleo urbano.


Apesar das transformações históricas, o povo Kariri-Xocó manteve práticas culturais fundamentais, como o Toré, a tradição oral, os conhecimentos sobre natureza e medicina tradicional.


No século XX, especialmente a partir da década de 1940, iniciou-se um novo ciclo de reconhecimento indígena, com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, ligado ao antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).


Esse processo marcou o início de novas lutas por direitos territoriais, educação indígena diferenciada e políticas de saúde.



Apêndice B


O Toré como expressão cultural


O Toré é uma das manifestações culturais mais importantes dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os Kariri-Xocó, ele representa:


ritual espiritual


expressão cultural


afirmação identitária


instrumento de resistência política


O Toré reúne canto, dança, música e elementos simbólicos que conectam o povo à memória ancestral.



GLOSSÁRIO 


Antse — Natureza

Atseá — Pessoas

Bohé — Ensino

Duboherí — Mestre do saber

Erá — Casa

Iwo Opará — Rio São Francisco

Natiá — Aldeia

Nunú — Língua

Peró / Caraí — Branco / não indígena

Radda — Terra

Retsé — Floresta

Samyá — Cultura

Toré — Ritual tradicional indígena

Uanieá — Indígenas



PALAVRA DO AUTOR


Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias de meu povo.

Escrevo porque as palavras também são caminhos de resistência. Durante muito tempo nossas histórias caminharam apenas pela oralidade, sendo contadas ao redor da fogueira, nas rodas de conversa ou nos momentos de aprendizado entre anciãos e jovens.

Hoje escrevo para que essas histórias continuem vivas também no papel.

Cada conto deste livro nasce de lembranças, ensinamentos e observações da vida de nosso povo.

Não escrevo apenas para contar histórias, mas para registrar a memória de quem somos.



PALAVRA FINAL



Memória e Caminho do Povo Kariri-Xocó


Este livro nasceu da memória.


Das histórias ouvidas desde criança, das palavras dos anciãos, das conversas nas casas, das lembranças da aldeia e das caminhadas pela nossa terra.


Muitas dessas histórias foram contadas ao redor do fogo, nas reuniões da comunidade, nos momentos de celebração e também nos tempos difíceis em que nosso povo precisou se manter firme para continuar existindo.


Escrever estas páginas foi uma forma de guardar essas lembranças, para que não se percam com o tempo.


O povo Kariri-Xocó segue caminhando.


Nossa cultura continua viva no Toré, na palavra dos mais velhos, na educação das crianças, na luta por direitos e no cuidado com a natureza.


Cada geração tem a responsabilidade de aprender, preservar e transmitir esses saberes.


Que estas histórias possam chegar aos jovens do nosso povo e também a todos aqueles que desejam conhecer e respeitar a história dos povos indígenas do Brasil.


A memória é um caminho que liga o passado ao futuro.


E enquanto nossas histórias continuarem sendo contadas, o povo Kariri-Xocó continuará existindo.


Com respeito à memória dos nossos antepassados e esperança nas novas gerações.



Nhenety Kariri-Xocó



SOBRE A OBRA



PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne dez contos que retratam aspectos históricos, culturais e espirituais do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.


As narrativas dialogam com a tradição oral indígena e com acontecimentos históricos reais, abordando temas como:


religiosidade e espiritualidade indígena


convivência cultural entre povos indígenas e colonizadores


história das aldeias


preservação da memória


luta pelos direitos indígenas


revitalização da língua Kariri-Xocó


educação indígena


culinária tradicional


tradição do Toré


O livro busca registrar saberes transmitidos por gerações e reafirmar a importância da cultura indígena como patrimônio vivo do Brasil.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Aldeia Kariri-Xocó localizada em Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas.


É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da cultura indígena e divulgador da memória histórica de seu povo.


Seu trabalho dedica-se à valorização da tradição, da língua indígena e da cultura Kariri-Xocó, utilizando tanto meios tradicionais quanto ferramentas contemporâneas, como blogs, gravações e projetos culturais.


Nhenety também participa de iniciativas voltadas à revitalização da língua indígena Kariri-Xocó e ao fortalecimento da educação indígena.


Seu blog reúne textos, contos e reflexões sobre cultura, história e identidade indígena.


Blog do autor:


kxnhenety.blogspot.com



ORELHA DO LIVRO



Este livro nasce da memória.


Em PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que atravessam o tempo para contar a história de seu povo.


Entre fogueiras, cantos de Toré, histórias de anciãos, culinária tradicional, lutas políticas e resgate da língua ancestral, o leitor é convidado a conhecer um universo onde memória e resistência caminham juntas.


Cada narrativa revela que a cultura indígena não pertence apenas ao passado — ela continua viva no presente.


Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho da permanência do povo Kariri-Xocó e de sua capacidade de transformar memória em futuro.



CONTRACAPA 


PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne contos que preservam a memória, a cultura e a espiritualidade do povo Kariri-Xocó, habitantes da região do Baixo São Francisco, em Alagoas.


Nas páginas desta obra, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó conduz o leitor por narrativas inspiradas na tradição oral, nos ensinamentos dos anciãos e nas experiências vividas por seu povo ao longo da história.


Entre fogueiras de santos, cantos de Toré, histórias da natureza, lembranças das antigas aldeias e relatos das lutas por direitos indígenas, os contos revelam um universo onde memória, espiritualidade e resistência caminham juntas.


A obra também registra momentos importantes da história recente, como as mobilizações indígenas pela garantia de direitos após a Constituição de 1988, quando lideranças de diversos povos viajaram até Brasília para defender educação diferenciada e saúde indígena.


Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho de identidade, resistência e continuidade cultural.


Ao compartilhar essas histórias, o autor contribui para manter viva a memória do povo Kariri-Xocó e fortalecer o respeito às culturas indígenas do Brasil.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó