No Uché Tudenhé — o Tempo Passado — o Wonhéá Torá, cantos sagrados vivia guardado onde nenhum vento apaga e nenhuma chuva leva: na Samy Bohé, a Memória Social do povo.
Não existia Cramycá Bydimerakró, caixa com chip.
Não havia botão para apertar.
O som morava no peito.
A gravação era feita no coração das Atseá, pessoas,
Os Duboheâra, Mestres do Canto, ensinavam olhando nos olhos.
O ritmo nascia no chão batido.
O Toré ecoava nas noites claras, e cada criança aprendia ouvindo, repetindo, sentindo.
Mas o Barae Uché — o Novo Tempo — chegou como vento diferente.
Veio trazendo novidades que brilhavam como estrela moderna.
Chegou a ONG Thydêwá, trazendo junto o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.
E disseram:
— Vamos registrar o que já vive há séculos.
— Vamos guardar no Iworó, disco, aquilo que já mora na alma.
Então a comunidade se reuniu.
Chamaram os Duboheâra e as Atseá, mestres e pessoas:
Seregé, Soyré, Nhenety, Wiriçá, Geriçá, Taréiçá, Kayanã, Eruanã, Wrwray, Anoráya, Ynoraya, Iraçá, Kayane, Suirana e Wyrayane.
Cada nome era um som.
Cada voz era uma raiz.
Gravaram o Craiwonpiwon — o CD Kariri-Xocó Canta Toré.
Gravaram também o Craiwopewa — o DVD Toré Som Sagrado.
Não era apenas tecnologia.
Era memória atravessando o tempo.
Na Bechiéá de Wiriçá, o parente generoso que abriu sua roça como quem abre o coração, levaram Amí, Uttihu e Riné, comida, carne e frutas.
Fizeram Buyê mó torá Toré — acenderam a fogueira.
E ali, sob o céu testemunha, o Toré foi dançado como sempre foi.
O fogo iluminava os corpos.
O canto iluminava o espírito.
A câmera registrava.
Mas o verdadeiro registro continuava sendo feito na Samy Bohé.
Foram dois mil Iworó espalhando o canto sagrado.
E quando o vídeo foi exibido na praça da aldeia, diante da comunidade reunida, não era apenas uma tela que brilhava —
Era o povo vendo a si mesmo.
Era o passado conversando com o futuro.
Era o Uché Tudenhé abraçando o Barae Uché.
E assim ficou gravado:
Não apenas no disco.
Não apenas na imagem.
Mas na eternidade da cultura.
O Wonhéá Torá continua.
Vive na memória.
Vive na tecnologia.
Vive no povo.
E enquanto houver fogueira acesa e voz que cante,
o Toré jamais se apagará.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó






