FALSA FOLHA DE ROSTO
MITO, IMAGINAÇÃO E CONSTRUÇÕES SIMBÓLICAS XXXVIII
Volume 38
FOLHA DE ROSTO
Nhenety Kariri-Xocó
MITO, IMAGINAÇÃO E CONSTRUÇÕES SIMBÓLICAS XXXVIII
Coletânea de Artigos do Acervo Virtual Bibliográfico
Volume 38
Porto Real do Colégio – AL
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Todos os direitos reservados.
Esta obra pode ser utilizada para fins acadêmicos, desde que citada a fonte.
FICHA CATALOGRÁFICA
Kariri-Xocó, Nhenety.
Mito, imaginação e construções simbólicas XXXVIII: coletânea de artigos do acervo virtual bibliográfico – volume 38.
Porto Real do Colégio – AL, 2026.
Mitologia.
Imaginação.
Cultura simbólica.
Literatura e filosofia.
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN: 978-65-0000-0038-0
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra à memória ancestral de meu povo Kariri-Xocó,
às tradições orais que resistem ao tempo,
e a todos aqueles que mantêm viva a chama do conhecimento e da imaginação.
AGRADECIMENTOS
Agradeço às forças da natureza, aos meus ancestrais e à minha comunidade, que inspiram minha caminhada intelectual e espiritual.
Aos leitores e estudiosos que valorizam a cultura, o mito e a arte como caminhos de conhecimento.
EPÍGRAFE
“O mito é o sonho coletivo da humanidade, e o sonho é o mito individual.”
— Joseph Campbell
RESUMO
Esta obra reúne cinco artigos que analisam as relações entre mito, imaginação e construções simbólicas ao longo da história. Partindo da mitologia grega e das concepções do tempo, passando pela filosofia da imaginação, pela análise literária da Terra do Nunca, pela cosmologia medieval e pela representação feminina na cultura, o volume propõe uma abordagem interdisciplinar. O estudo evidencia a permanência e a transformação dos símbolos na construção do pensamento humano.
Palavras-chave: mito; imaginação; simbolismo; cultura; narrativa.
ABSTRACT
This work brings together five articles that analyze the relationships between myth, imagination, and symbolic constructions throughout history. From Greek mythology and conceptions of time, through the philosophy of imagination, literary analysis of Neverland, medieval cosmology, and female representation in culture, the volume proposes an interdisciplinary approach. The study highlights the persistence and transformation of symbols in shaping human thought.
Keywords: myth; imagination; symbolism; culture; narrative.
APRESENTAÇÃO
A presente coletânea integra o acervo bibliográfico de Nhenety Kariri-Xocó, reunindo reflexões que dialogam com diferentes campos do saber. O livro apresenta uma leitura ampla das construções simbólicas, conectando tradição e contemporaneidade, oralidade e escrita, mito e ciência.
NOTA DO AUTOR
Os textos aqui reunidos foram originalmente publicados em ambiente digital e revisados para compor esta edição acadêmica. Mantém-se o compromisso com a valorização da cultura, da memória e da reflexão crítica.
MEMÓRIA DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, pesquisador independente e integrante do povo indígena Kariri-Xocó. Sua produção intelectual articula tradição oral, cultura simbólica e reflexão acadêmica, contribuindo para a preservação e difusão de saberes ancestrais.
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN ( Simbólico)
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Introdução Geral
Desenvolvimento dos Capítulos
Capítulo 1 - O Mundo Atemporal e as Viagens ao Tempo
Capítulo 2 - O Mundo da Imaginação
Capítulo 3 - Geografia e a Estrutura Social da Terra do Nunca
Capítulo 4 - Cosmologia Mítica Medieval
Capítulo 5 - Da Deusa à Heroína Digital
Considerações Finais
Referências Bibliográficas Gerais Unificadas
Sobre o Autor
INTRODUÇÃO GERAL
O mito e a imaginação constituem fundamentos essenciais da experiência humana. Desde as narrativas ancestrais até as produções contemporâneas, o ser humano constrói significados por meio de símbolos que organizam sua visão de mundo.
Este volume investiga essas construções em diferentes contextos históricos e culturais, evidenciando a continuidade entre tradição e modernidade. Ao integrar ciência, filosofia e arte, propõe-se uma leitura ampla do imaginário humano.
DESENVOLVIMENTO DOS CAPÍTULOS
CAPÍTULO 1
O MUNDO ATEMPORAL E AS VIAGENS AO TEMPO
1. Introdução
Desde os primórdios da humanidade, o tempo desperta fascínio e inquietação. Mas será que ele é linear? Cíclico? Ou será que é possível transcender o tempo, vivê-lo de outras formas, ou mesmo viajar por ele?
Neste artigo, exploramos três dimensões fundamentais:
a) As divindades do tempo na mitologia grega;
b) A cronologia de obras literárias e audiovisuais sobre viagem no tempo;
c) As teorias científicas modernas sobre o tema.
2. O Mundo Atemporal e a Mitologia Grega
Na filosofia e na mitologia antiga, especialmente na grega, o tempo não era algo único. Ele era dividido em diferentes expressões e deuses:
Caos: estado primordial, sem forma nem tempo.
Chronos: o tempo eterno, abstrato e infinito.
Cronos: o titã do tempo que devora os filhos, simbolizando a destruição cíclica.
Kairós: o tempo da oportunidade, o instante certo.
Aión: o tempo eterno, ligado aos ciclos cósmicos.
Essa pluralidade mostra que, para os gregos, o tempo era vivo, simbólico e múltiplo. Um Mundo Atemporal seria, então, o espaço onde esses tempos coexistem, anterior à criação do tempo humano.
3. Viagens no Tempo na Literatura, Cinema e TV
A ideia de manipular o tempo fascina há séculos, mas foi com a ficção científica que ela se tornou central.
3.1. Obras Literárias
1895 – H. G. Wells, A Máquina do Tempo
1934 – Gladiador do Tempo (Nat Schachner)
1955 – O Fim da Eternidade (Isaac Asimov)
1969 – Matadouro-Cinco (Kurt Vonnegut)
1980 – Timescape (Gregory Benford)
1995 – Assassinato no Tempo (Connie Willis)
3.2. Filmes Icônicos
1960 – A Máquina do Tempo (adaptação de Wells)
1985 – De Volta para o Futuro
1995 – Os 12 Macacos
2004 – Efeito Borboleta
2014 – Interestelar (com base na teoria da relatividade)
2020 – Tenet (tempo invertido)
3.3. Séries de TV
1963 – Doctor Who
1989 – Quantum Leap
2005 – Lost
2017 – Dark (complexidade temporal e paradoxo)
2021 – Loki (tempo como entidade burocrática)
Essas obras misturam emoção, filosofia e ciência para questionar: e se o tempo pudesse ser dobrado, revertido, atravessado?
4. Viagem no Tempo na Ciência Moderna
4.1. Relatividade e Tempo Dilatado
Einstein mostrou que o tempo pode se esticar ou se contrair, dependendo da velocidade ou da gravidade. Isso já foi comprovado com relógios atômicos e satélites.
4.2. Buracos de Minhoca
Físicos como Kip Thorne propuseram os buracos de minhoca, túneis teóricos no espaço-tempo que poderiam conectar tempos diferentes.
4.3. Curvas Fechadas Tipo-Tempo
Permitem que uma pessoa volte ao próprio passado — algo matematicamente possível, mas fisicamente instável.
4.4. Paradoxos e Proteção Cronológica
Paradoxo do avô: se você mata seu avô no passado, como você existiria?
Stephen Hawking propôs a "proteção cronológica", segundo a qual o próprio universo impede viagens que criariam paradoxos.
4.5. Multiversos e Realidades Paralelas
A teoria dos múltiplos universos pode resolver os paradoxos: ao mudar o passado, cria-se uma nova linha temporal.
5. Considerações Finais
O tempo, mais do que uma linha reta, pode ser um emaranhado de possibilidades. Desde os mitos antigos até os cálculos da física moderna, a humanidade busca entender, controlar ou transcender o tempo.
O Mundo Atemporal talvez não seja apenas ficção — pode ser uma realidade fora da percepção humana, onde passado, presente e futuro coexistem de forma simultânea e incompreensível para nossos sentidos.
Ao unir mito, arte e ciência, percebemos que o tempo não é apenas o que nos limita — é também o que nos inspira a sonhar.
Nhenety Kariri-Xocó
CAPÍTULO 2
O MUNDO DA IMAGINAÇÃO
Introdução
A imaginação sempre ocupou lugar de destaque no pensamento humano. Desde a filosofia clássica até as neurociências modernas, ela é reconhecida como uma faculdade essencial que permite ao ser humano transcender o imediato e criar mundos possíveis. Neste artigo, exploramos o conceito de imaginação sob as lentes filosófica e científica, analisando como ela atua no cotidiano, na criação de histórias orais e obras escritas. Propomos também uma metodologia em cinco etapas, mostrando como a imaginação opera do pensamento à ação, contribuindo para o êxito na expressão humana e cultural.
1. Fundamentos Filosóficos e Científicos da Imaginação
Historicamente, a filosofia compreendeu a imaginação como uma ponte entre a percepção sensível e o pensamento racional. Aristóteles chamou essa faculdade de phantasia, elemento que transforma a sensação em imagem interior. Kant, por sua vez, considerou a imaginação transcendental como organizadora das experiências sensíveis sob categorias mentais.
Na contemporaneidade, Paul Ricoeur destacou o papel criador da imaginação na construção de narrativas e éticas. Já no campo das ciências cognitivas, estudos mostram que a imaginação ativa as mesmas regiões cerebrais envolvidas na percepção e na memória, como o hipocampo e o córtex pré-frontal. Assim, a imaginação é compreendida como uma simulação mental que permite antecipar, planejar, criar e compreender o mundo e os outros.
2. A Imaginação em Movimento: Metodologia em 5 Etapas
A seguir, apresentamos uma metodologia prática que revela como a imaginação se transforma em ação concreta:
Etapa 1 – Estímulo ou Inspiração
A imaginação começa com um estímulo: uma palavra, imagem, som ou emoção. Essa faísca inicial desperta o campo simbólico da mente.
Etapa 2 – Construção de Imagens Mentais
O cérebro combina lembranças, desejos e percepções, formando cenas, metáforas e histórias internas.
Etapa 3 – Organização Simbólica
Essas imagens são organizadas em estruturas coerentes: narrativas, conceitos, poesias, personagens ou planos de ação.
Etapa 4 – Comunicação ou Materialização
A imaginação é convertida em expressão concreta: uma fala, uma escrita, um gesto artístico ou uma solução prática.
Etapa 5 – Retroalimentação e Aperfeiçoamento
A ação gera retorno (crítica, reação, reflexão), o que leva à revisão, recriação ou refinamento do conteúdo imaginado.
3. Aplicações no Cotidiano, na Oralidade e na Escrita
A imaginação se manifesta de maneira diversa:
Na história oral: Ela sustenta mitos, lendas e memórias coletivas, transmitidas de geração em geração.
Na obra escrita: Inspira contos, poemas, romances, ensaios, criando mundos paralelos ou reinterpretando a realidade.
No cotidiano: Permite o planejamento, a solução de problemas, a empatia e a reinvenção diante dos desafios da vida.
Considerações Finais
A imaginação é uma força vital que transcende o devaneio. Ela é produtiva, simbólica e transformadora. Filosoficamente, está no cerne da liberdade humana e da criação de sentido. Cientificamente, demonstra o poder do cérebro de simular, prever e inovar. Compreender sua estrutura e dinâmica nos permite melhor utilizar essa capacidade para educar, criar, contar histórias e viver com mais consciência. O mundo da imaginação é, portanto, um mundo de possibilidades infinitas – e acessível a todos nós.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CAPÍTULO 3
GEOGRAFIA E A ESTRUTURA SOCIAL DA TERRA DO NUNCA: UM ESTUDO DESCRITIVO DE PETER PAN
1 INTRODUÇÃO
A Terra do Nunca, concebida pelo escritor escocês James Matthew Barrie em 1904, tornou-se uma das mais célebres representações da fantasia literária infantil. Trata-se de uma ilha mágica, povoada por crianças que não envelhecem, piratas, fadas, sereias e indígenas, todos organizados em espaços simbólicos que refletem tanto a imaginação quanto os conflitos humanos (BARRIE, 1911).
Mais do que um cenário de aventuras, a Terra do Nunca constitui um microcosmo que apresenta valores, perigos e possibilidades de aprendizado para a vida real. Este artigo tem como objetivo descrever a geografia da ilha, analisar sua estrutura hierárquica e discutir o papel pedagógico da narrativa para a compreensão da condição humana.
2 A GEOGRAFIA DA TERRA DO NUNCA
A ilha da Terra do Nunca é descrita como um espaço instável, moldado pela imaginação das crianças que nela vivem. Sua paisagem combina elementos tropicais e europeus, criando um território ao mesmo tempo familiar e fantástico.
Entre os principais locais, destacam-se:
A Lagoa das Sereias: um espaço encantado, habitado por seres mágicos que, embora belos, representam perigo e sedução.
O Acampamento dos índios Picanniny: grupo indígena que participa de alianças e rivalidades, simbolizando o contato com culturas diferentes.
A Árvore do Nunca: residência de Peter Pan e dos Meninos Perdidos, local subterrâneo de proteção e organização.
O Navio Pirata, o Jolly Roger: território móvel comandado pelo Capitão Gancho, símbolo da ameaça e do perigo constante.
Campos e florestas: palco de caçadas, jogos e combates.
A geografia da ilha não é fixa, mas mutável conforme os sonhos, medos e desejos das crianças, reforçando sua natureza imaginária (HOLLINDALE, 1991).
3 ESTRUTURA HIERÁRQUICA E ORGANIZAÇÃO SOCIAL
A Terra do Nunca possui uma estrutura hierárquica simbólica, na qual os diferentes grupos exercem papéis distintos:
Peter Pan: líder carismático e central, que encarna a eterna juventude e a resistência ao crescimento.
Os Meninos Perdidos: seguem Peter Pan em aventuras, formando uma comunidade infantil de obediência e solidariedade.
As Fadas: criaturas mágicas, com destaque para Sininho, que representam talentos especiais e o poder da imaginação.
Os Índios Picanniny: organizados em tribo, reforçam valores de coragem e ligação com a natureza.
As Sereias: seres ambíguos que habitam a lagoa, representando tanto encantamento quanto ameaça.
Os Piratas, liderados pelo Capitão Gancho: representam o mundo adulto, a crueldade e a passagem inevitável do tempo (ZORN, 2005).
Essa estrutura reflete um equilíbrio entre forças antagônicas — juventude e maturidade, inocência e perigo, liberdade e autoridade.
4 OUTROS ESPAÇOS E DIMENSÕES
Além dos locais já mencionados, a Terra do Nunca abriga montanhas, cavernas escondidas, clareiras para batalhas e refúgios secretos. Cada ambiente cumpre uma função narrativa: servir de abrigo, de ameaça ou de prova para os personagens.
A diversidade desses espaços reforça o caráter multifacetado da imaginação, que se molda ao desejo e ao medo infantil.
5 A TERRA DO NUNCA E O RETORNO À REALIDADE
Embora ofereça a promessa da eternidade infantil, a Terra do Nunca não é um espaço definitivo. A narrativa de Barrie sugere que, mais cedo ou mais tarde, é necessário retornar ao mundo real e aceitar o crescimento.
Assim, a experiência nesse universo mágico ensina a importância do equilíbrio entre imaginação e responsabilidade, fantasia e vida prática.
O maior ensinamento da Terra do Nunca é que a infância, ainda que passageira, guarda um valor eterno na capacidade humana de sonhar. Contudo, a maturidade exige a aceitação do tempo e da mudança.
6 CONCLUSÃO
A Terra do Nunca constitui uma das mais ricas criações do imaginário literário moderno. Sua geografia fantástica, sua estrutura hierárquica peculiar e sua diversidade de povos e criaturas formam um cenário no qual se encenam dilemas universais da existência humana.
Ao mesmo tempo que convida à aventura e à imaginação, o mito da Terra do Nunca aponta para a necessidade do retorno, do amadurecimento e da vivência plena do real.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CAPÍTULO 4
A COSMOLOGIA MÍTICA MEDIEVAL: HIERÁRQUIA, REINOS, SERES LENDÁRIOS E SUA INFLUÊNCIA LITERÁRIA
Introdução
A Idade Média (séculos V a XV) constituiu-se em um período de intensa simbologia, no qual mitos, lendas e crenças populares se entrelaçaram com a religiosidade cristã e com tradições pagãs, gerando um universo mítico que inspirou narrativas literárias posteriores. Castelos, cavaleiros, monstros, dragões, bruxas, gnomos, heróis e reinos fantásticos formaram uma cosmologia hierárquica e mítica, marcada por dualidades entre o bem e o mal, a luz e as trevas. Este artigo descreve essa atmosfera, sua cronologia simbólica e sua permanência na literatura, tanto no Oriente quanto no Ocidente.
Cosmologia e atmosfera mítica medieval
A cosmologia medieval refletia uma ordem hierárquica inspirada na filosofia cristã e na tradição clássica. O mundo era dividido em três esferas principais:
Celeste – morada de Deus, anjos e santos;
Terrena – espaço dos homens, reis, cavaleiros e povos;
Infernal – domínio de demônios, monstros, bruxas e criaturas sombrias.
Essa visão era reforçada pela estrutura feudal: reis, senhores, cavaleiros e camponeses reproduziam uma ordem social rígida que se refletia também no plano mítico. Os castelos surgiam como símbolos de poder e defesa contra forças externas, tanto humanas quanto sobrenaturais.
Hierarquia e seres lendários
Reinos e castelos: O lendário Rei Artur e a Távola Redonda representam o ideal cavaleiresco, ao lado de fortalezas como Camelot. No Oriente, narrativas persas e árabes descrevem palácios míticos como o de Shāhnameh, de Ferdowsi (século X).
Monstros: Dragões simbolizavam o caos e o mal, enfrentados por heróis como São Jorge. Lobisomens e grifos representavam a fusão do humano com o animal.
Bruxas: figuras perseguidas pela Inquisição, mas também guardiãs de saberes antigos.
Gnomos e elfos: oriundos de tradições germânicas e nórdicas, vistos como espíritos da terra e guardiões de tesouros ocultos.
Heróis: cavaleiros templários, Roland (na Canção de Rolando), Beowulf na tradição anglo-saxônica, e Sigurd (ou Siegfried) na mitologia germânica.
Linha do tempo descritiva da cosmologia mítica medieval e sua influência literária
Oriente
Século X – Pérsia: Ferdowsi compõe o Shāhnameh (Livro dos Reis), obra monumental que reúne mitos persas, batalhas cósmicas e heróis lendários como Rostam. Este épico estabelece uma ponte entre a tradição oral e a escrita, preservando a cosmologia zoroastriana.
Séculos XI-XIII – Mundo Islâmico: Consolidação das Mil e Uma Noites, onde aparecem reis sábios, magos, gênios (djins), cidades encantadas e reinos de maravilhas. Essa coletânea torna-se a maior expressão do imaginário mágico árabe e persa.
Ocidente
Século VIII – Inglaterra Anglo-Saxônica: O épico Beowulf narra o enfrentamento de um herói contra monstros como Grendel e um dragão. É uma das primeiras obras da literatura medieval europeia a estruturar o combate entre herói e forças sombrias.
Século XI – França Carolíngia: Surge a Canção de Rolando, exaltando o heroísmo cristão contra os sarracenos, e colocando os cavaleiros como protetores do reino e da fé.
Século XII-XIII – França e Alemanha: Desenvolve-se o Ciclo Arturiano com Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach. Camelot, a Távola Redonda, o Graal e a busca pela pureza tornam-se símbolos da cavalaria mítica.
Século XIII – Itália: Dante Alighieri escreve a Divina Comédia, estruturando o céu, o purgatório e o inferno como uma cosmologia hierárquica, com anjos, demônios e almas em penitência.
Renascimento e Barroco
Século XVI – Itália: Ludovico Ariosto publica Orlando Furioso, onde cavaleiros enfrentam monstros e bruxas em um mundo repleto de encantamentos.
Século XVII – Inglaterra: John Milton escreve Paraíso Perdido, narrando a queda de Lúcifer e o embate cósmico entre Deus e as forças rebeldes.
Modernidade
Século XIX – Alemanha: Os Irmãos Grimm recolhem contos populares de tradição medieval, com princesas, bruxas, lobos, gnomos e florestas encantadas.
Século XIX – Inglaterra: William Morris e George MacDonald renovam a fantasia com cenários de inspiração medieval, pontes diretas para a literatura fantástica moderna.
Contemporaneidade
Século XX – Inglaterra: J. R. R. Tolkien cria O Senhor dos Anéis, fundamentando uma mitologia própria, mas inspirada em cosmologias medievais nórdicas e cristãs. C. S. Lewis, em As Crônicas de Nárnia, funde alegoria cristã e fantasia cavaleiresca.
Século XXI – Global: George R. R. Martin, em As Crônicas de Gelo e Fogo, recria uma Idade Média sombria, com castelos, reinos, bruxas e dragões, dialogando diretamente com a atmosfera mítica medieval.
Conclusão
A cosmologia mítica medieval estruturou-se como um universo hierárquico, no qual seres lendários, castelos, reinos e heróis conviviam em tensão com monstros e forças sombrias. Do Oriente ao Ocidente, essa atmosfera inspirou narrativas épicas, religiosas e populares, que atravessaram séculos e consolidaram a fantasia como gênero literário. Escritores modernos e contemporâneos herdaram essa tradição, remodelando-a para novos contextos, mas preservando sua essência: a eterna luta entre luz e trevas, ordem e caos, heróis e monstros.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CAPÍTULO 5
DA DEUSA À HEROÍNA DIGITAL: HIERARQUIA SIMBÓLICA DA MULHER NA MITOLOGIA, ARTE E CULTURA POP
1. Introdução
A mulher, desde as primeiras narrativas míticas, ocupa uma posição simbólica marcada por contrastes: de deusa a vilã, de musa a mártir, de rainha a escrava. Ao longo da história, sua representação esteve associada tanto ao sagrado e ao poder quanto à marginalização e à submissão. Nas artes e nas tradições culturais, a figura feminina foi exaltada como fonte de inspiração e fertilidade, mas também reduzida a objeto de desejo, de controle e de violência.
Esse duplo movimento, que combina hierarquia divina e subalternização social, revela uma questão central: como a mulher transita, no imaginário cultural, do lugar de símbolo divino para o de sujeito histórico que luta por autonomia e direitos?
A hipótese deste artigo sustenta que a chamada “hierarquia divina da mulher” não é fixa, mas relacional e mutável: do mito à era digital, o feminino é constantemente reinterpretado, oscilando entre idealização e objetificação, mas também abrindo espaço para novas formas de agência e protagonismo.
O objetivo geral é analisar a evolução da representação feminina desde as mitologias antigas até as produções digitais contemporâneas. Como objetivos específicos, propõe-se: (a) mapear arquétipos femininos recorrentes (deusas, musas, rainhas, heroínas, vilãs, mártires); (b) identificar os regimes de olhar e os processos de objetificação; (c) discutir as rupturas que permitem a emergência de novas vozes e protagonismos femininos; e (d) relacionar essas representações com as lutas históricas das mulheres pela igualdade e pela felicidade na construção da vida privada e pública.
A metodologia adotada é comparativa e iconográfica, combinando análise de narrativas mitológicas, obras literárias e artísticas, filmes, quadrinhos, séries de TV e jogos digitais. As categorias de análise envolvem agência, autoridade, corpo e olhar, opressão, interseccionalidade e desfecho narrativo. O corpus será delimitado a exemplos representativos das tradições grega, egípcia, iorubá e ameríndia, bem como a obras da cultura pop e digital, como Wonder Woman, Alien, The Handmaid’s Tale, Tomb Raider e The Last of Us Part II.
2. Referencial teórico
2.1. Mito, símbolo e hierarquia do feminino
Mircea Eliade (2010) destaca que os mitos expressam estruturas universais, onde o feminino aparece como força criadora e destruidora. Marina Warner (1995) mostra como as narrativas sobre mulheres condensam símbolos de poder e medo.
2.2. Feminismo, olhar e agência cultural
Simone de Beauvoir (2016) afirma que a mulher foi historicamente construída como “o outro” em relação ao homem. Laura Mulvey (2008) introduz o conceito de “male gaze” para explicar a forma como o cinema constrói a mulher como objeto visual. Judith Butler (2019) e bell hooks (2018) ampliam a discussão ao incluir identidade de gênero, interseccionalidade e crítica social.
2.3. Cultura de massa e transmídia
Na cultura pop, a mulher transita entre arquétipos de musa e heroína, vilã e mártir. Autoras como Gilbert e Gubar (2000) discutem a “mulher no sótão” como metáfora do silenciamento literário, ao passo que estudiosos de mídia evidenciam como quadrinhos, cinema e games redefinem esses papéis.
3. A mulher nas mitologias e tradições
As mitologias revelam uma diversidade de arquétipos femininos. No Egito, Ísis era mãe e rainha, guardiã da magia. Na Grécia, Atena representava a sabedoria, Ártemis a independência e Afrodite o desejo. Entre os iorubás, Oxum simbolizava a fertilidade e Iansã a força guerreira. Nas culturas ameríndias, Jaci regia os ciclos da lua e Iara refletia o perigo da sedução.
Essas narrativas revelam a mulher como sagrada e poderosa, mas também sujeita a restrições, mostrando que a “hierarquia divina” já continha tensões entre veneração e submissão.
4. Hierarquia simbólica e trajetória histórica
Na Idade Média e no Renascimento, a mulher foi simultaneamente exaltada como musa ou santa e demonizada como bruxa ou pecadora. Essa dicotomia moldou séculos de produção artística. O corpo feminino passou a ser controlado, tanto no espaço privado da família quanto nas representações públicas da arte e da literatura.
5. A mulher na literatura, cinema, quadrinhos e TV
A literatura moderna reconfigurou o feminino, mas ainda sob a ótica masculina. Com os quadrinhos e o cinema, surgem heroínas que desafiam estereótipos, como Mulher-Maravilha, Ellen Ripley e Sarah Connor. A televisão contemporânea aprofunda a crítica com obras como The Handmaid’s Tale, que expõe a apropriação política do corpo da mulher.
6. Games e era digital
Nos videogames, a trajetória de Lara Croft exemplifica a passagem da objetificação à agência. Ellie e Abby, em The Last of Us Part II, representam personagens complexas, longe da sensualidade como único atributo. A era digital permite maior protagonismo de criadoras, roteiristas e jogadoras, ao mesmo tempo em que expõe as mulheres a novos espaços de violência simbólica.
7. Discussão: permanências e rupturas
A análise revela permanências da hierarquia simbólica que coloca a mulher entre o sagrado e o profano, a musa e a vilã, a rainha e a escrava. Contudo, as rupturas contemporâneas apontam para uma reconfiguração em que o feminino assume protagonismo e autoria, desafiando olhares patriarcais e abrindo espaço para representações mais plurais e emancipatórias.
8. Conclusão
Do mito à era digital, a figura feminina percorreu uma trajetória de contradições. Como deusa, foi cultuada; como rainha, respeitada; como musa, inspiradora; mas também como escrava, marginalizada e objetificada. A hierarquia simbólica que estruturou essas narrativas mostra como a mulher foi sistematicamente posicionada em lugares de ambivalência: venerada e subjugada.
Entretanto, o movimento histórico revela também processos de resistência e superação. Na literatura, no cinema, nos quadrinhos, na televisão e nos games, surgem heroínas que rompem com estereótipos e se afirmam como sujeitos de ação. A era digital amplia esse processo ao permitir que mulheres sejam não apenas personagens, mas criadoras, produtoras e protagonistas de suas próprias narrativas.
Assim, o estudo da hierarquia divina e simbólica da mulher demonstra que, apesar das permanências de desigualdade, as representações culturais abrem caminho para a construção de novos horizontes de autonomia, dignidade e felicidade. O futuro das narrativas femininas aponta para a superação definitiva da condição de objeto e para a afirmação plena como sujeito histórico e criativo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente obra demonstra que mito, imaginação e construções simbólicas são elementos permanentes na história da humanidade. Ao atravessarem diferentes épocas, essas estruturas revelam a capacidade humana de criar, interpretar e transformar o mundo.
Os artigos reunidos apontam para a continuidade do imaginário como força ativa na cultura contemporânea, reafirmando sua importância na construção do conhecimento e da identidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GERAIS UNIFICADAS
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo: Editora 34, 2019.
ARIAS, José Manuel. Mitos y leyendas medievales. Madrid: Alianza Editorial, 2008.
ARISTÓTELES. Da Alma. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).
ASIMOV, Isaac. O fim da eternidade. Rio de Janeiro: Aleph, 2009.
BARRIE, James Matthew. Peter and Wendy. London: Hodder & Stoughton, 1911.
BARROW, John D. O livro do tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2 v. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2007.
CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Global, 2012.
DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DEUTSCH, David. A estrutura da realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2010.
FERDOWSI. Shāhnameh: The Persian Book of Kings. New York: Penguin Classics, 2006.
GILBERT, Sandra; GUBAR, Susan. The Madwoman in the Attic. New Haven: Yale University Press, 2000.
GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
HAWKING, Stephen. Uma breve história do tempo. São Paulo: Rocco, 1988.
HOLLINDALE, Peter. Peter Pan and the Captures of Childhood. London: Routledge, 1991.
HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MARTIN, George R. R. As crônicas de gelo e fogo. Rio de Janeiro: Leya, 2010.
MILTON, John. Paraíso perdido. Lisboa: Relógio d’Água, 2009.
MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. São Paulo: Paz e Terra, 2008. p. 435-453.
OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. The Invention of Women. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1997.
THORNE, Kip S. A física do impossível. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
TROYER, Chrétien de. O romance de Perceval ou o conto do Graal. Lisboa: Estampa, 1997.
VARELA, Francisco; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. A mente corporificada: ciência cognitiva e experiência humana. São Paulo: Palas Athena, 2003.
VERGER, Pierre. Orixás. Salvador: Corrupio, 1981.
WARNER, Marina. From the Beast to the Blonde: On Fairy Tales and Their Tellers. London: Vintage, 1995.
WELLS, H. G. A máquina do tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
ZORN, Christa. Peter Pan: The Lost Child and the Myth of Eternal Youth. New York: Palgrave Macmillan, 2005.
REFERÊNCIAS DOS ARTIGOS DO ACERVO
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. O Mundo Atemporal e as Viagens ao Tempo. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/04/o-mundo-atemporal-e-as-viagens-ao-tempo.html?m=0 . Acesso em: 1 mai. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. O Mundo da Imaginação. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/04/o-mundo-da-imaginacao.html?m=0 . Acesso em: 1 mai. 2026 .
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Geografia e a Estrutura Social da Terra do Nunca. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/geografia-e-estrutura-social-da-terra.html?m=0 . Acesso em: 1 mai. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. A Cosmogonia Mítica Medieval. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/a-cosmologia-mitica-medieval-hierarquia.html?m=0 . Acesso em: 1 mai. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Da Deusa à Heroína Digital. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/da-deusa-heroina-digital-hierarquia.html?m=0 . Acesso em: 1 mai. 2026.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador independente, escritor e contador de histórias do povo Kariri-Xocó, localizado em Porto Real do Colégio, Alagoas. Sua obra articula tradição oral, mitologia, cultura simbólica e análise histórica, contribuindo para o fortalecimento da memória cultural e da produção intelectual indígena no Brasil.
Autor do acervo virtual:
Autor: Nhenety Kariri-Xocó




















