quinta-feira, 25 de junho de 2026

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE







FALSA FOLHA DE ROSTO

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE




FOLHA DE ROSTO

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© Nhenety Kariri-Xocó, 2026.
Todos os direitos reservados.
Obra dedicada à preservação da memória cultural, histórica e espiritual do povo Kariri-Xocó.





FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)

Kariri-Xocó, Nhenety.
Toré Kariri-Xocó: memória, cultura e espiritualidade / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.
xx p.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Povos indígenas. 2. Kariri-Xocó. 3. Toré. 4. Cultura indígena. 5. Memória oral. 6. Espiritualidade indígena.
CDD: 980.41




ISBN (SIMBÓLICO)

ISBN: 978-65-0000-000-0






PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.






ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 







DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri e Xocó, guardiões dos cantos, das histórias e dos caminhos que conduziram nosso povo através dos séculos. Dedico também às crianças, jovens e futuros guardiões da memória, para que jamais se apague a chama do conhecimento herdado dos antigos.







AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos ancestrais que preservaram os saberes transmitidos pela tradição oral. Aos anciãos e anciãs que compartilharam suas memórias, aos parentes Kariri-Xocó que mantêm viva a cultura do Toré e a todos aqueles que contribuíram para a construção desta obra.

Registro igualmente minha gratidão às ferramentas contemporâneas de pesquisa e escrita que auxiliaram na organização e preservação desses conhecimentos, permitindo que a memória ancestral alcance novas gerações.






EPÍGRAFE

"Enquanto houver quem cante o Toré, os ancestrais continuarão caminhando entre seu povo."
— Tradição Oral Kariri-Xocó







PREFÁCIO

O presente livro constitui um importante registro da memória cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó. Por meio dos cantos do Toré, o autor reúne narrativas, lembranças e conhecimentos preservados pela tradição oral, demonstrando como a cultura indígena permanece viva através das gerações.

Mais do que uma descrição de práticas culturais, esta obra apresenta uma visão de mundo construída pela relação entre comunidade, ancestralidade, natureza e espiritualidade. Cada capítulo representa um fragmento da memória coletiva transformado em registro escrito para fortalecer a preservação dos saberes tradicionais.







RESUMO

Esta obra apresenta um estudo descritivo sobre os principais cantos tradicionais do Toré Kariri-Xocó, abordando seus significados culturais, históricos e espirituais. Por meio da tradição oral, da memória coletiva e dos conhecimentos ancestrais, são analisados oito torés associados a diferentes momentos da vida comunitária, incluindo casamento, despedida dos mortos, celebração das vitórias, acolhimento de visitantes, colheitas, chuvas e devoções religiosas. O trabalho busca contribuir para a preservação da memória indígena e para a valorização do patrimônio cultural do povo Kariri-Xocó.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; Toré; Memória; Cultura Indígena; Espiritualidade.






ABSTRACT

This work presents a descriptive study of the main traditional Toré chants of the Kariri-Xocó people, addressing their cultural, historical and spiritual meanings. Through oral tradition, collective memory and ancestral knowledge, eight Toré chants associated with different moments of community life are analyzed, including marriage, funerary rites, celebrations of victories, welcoming ceremonies, harvests, rains and religious devotions. The work seeks to contribute to the preservation of Indigenous memory and to the appreciation of the cultural heritage of the Kariri-Xocó people.

Keywords: Kariri-Xocó; Toré; Memory; Indigenous Culture; Spirituality.






APRESENTAÇÃO

O Toré constitui uma das mais importantes expressões culturais dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os Kariri-Xocó, ele representa um patrimônio vivo que reúne música, dança, espiritualidade, memória e identidade coletiva.

Esta obra busca registrar parte desse patrimônio por meio de oito capítulos dedicados a diferentes modalidades de Toré preservadas na memória oral da comunidade.







SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Toré do Piwonhé: O Canto da Memória Ancestral
Capítulo II – Toré Wonhénhá: O Canto da Memória e da Despedida
Capítulo III – Toré Uide: Os Cantos da Vitória e da Resistência
Capítulo IV – Toré Wontseho Atseá: Os Cantos de Boas-Vindas e a Celebração da Fraternidade
Capítulo V – Toré Santoá Usarunghí: Entre a Fogueira e a Colheita na Tradição Kariri-Xocó
Capítulo VI – Toré Curoté: O Canto da Celebração na Fartura do Milho Verde
Capítulo VII – Toré Dzóá: O Canto das Chuvas e a Memória Ancestral das Águas
Capítulo VIII – Toré Hietçãdékiete: O Canto da Padroeira e o Encontro das Tradições Espirituais
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







NOTA DO AUTOR

Este livro foi elaborado a partir de pesquisas, memórias familiares, relatos de anciãos, experiências culturais e estudos desenvolvidos ao longo dos anos. Não pretende encerrar o conhecimento sobre o Toré, mas contribuir para sua valorização e preservação.






MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci entre histórias, cantos e lembranças preservadas pelos mais velhos do povo Kariri-Xocó. Desde a infância ouvi narrativas sobre os antigos troncos familiares, os encantados, os rituais e os acontecimentos que marcaram a trajetória de nossa comunidade.

Ao longo dos anos compreendi que registrar essas memórias significa fortalecer a identidade de nosso povo e garantir que os ensinamentos ancestrais permaneçam vivos para as futuras gerações.






INTRODUÇÃO

O Toré ocupa posição central na vida cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó. Presente em celebrações, cerimônias, momentos de passagem, acolhimentos e manifestações de fé, ele constitui uma importante forma de transmissão de conhecimentos ancestrais.

Este livro apresenta oito expressões do Toré preservadas pela tradição oral, buscando compreender seus significados históricos, simbólicos e comunitários.





CAPÍTULO I – TORÉ DO PIWONHÉ: O CANTO DA MEMÓRIA ANCESTRAL


O Toré do Piwonhé ocupa um lugar especial na tradição oral do povo Kariri-Xocó, reunindo canto, dança, espiritualidade e memória coletiva em uma única manifestação cultural. Transmitido pelos mais velhos às novas gerações, esse toré preserva ensinamentos ancestrais, lembranças dos antigos caminhos percorridos pelo povo e a profunda relação entre os seres humanos, a natureza e as forças sagradas que orientam a vida da comunidade. Ao longo deste capítulo, serão apresentados os relatos, significados e lembranças associados ao Toré do Piwonhé, destacando sua importância para a identidade cultural e para a continuidade das tradições Kariri-Xocó.

Na memória do povo Kariri-Xocó, o casamento representava um dos momentos mais importantes da vida comunitária. Antes de se unir à sua companheira, o rapaz precisava demonstrar que estava preparado para formar uma nova família. Para isso, com a ajuda dos parentes e do mutirão da aldeia, construía sua erá (casa) e mantinha sua bechiéá (roça), cultivando legumes e outros alimentos necessários ao sustento do futuro lar.

Somente depois de cumprir essas responsabilidades o jovem e a moça podiam realizar o piwonhé (casamento). A união não era vista apenas como um compromisso entre duas pessoas, mas como um acontecimento de interesse coletivo, pois fortalecia os laços da comunidade e garantia a continuidade do povo por meio das futuras gerações.

Marcado o grande dia, iniciava-se a festa no Toré. Ao redor da fogueira, homens, mulheres, crianças e anciãos cantavam, dançavam e celebravam durante toda a noite. O som dos maracás, as cantigas tradicionais e a presença dos familiares transformavam aquele momento em uma verdadeira cerimônia de alegria, união e reconhecimento social.

Quando a madrugada avançava e o novo dia surgia, a festa continuava na porta da casa recém-construída. Ali, diante de todos, o povo reconhecia oficialmente o casal como uma nova unidade familiar. Era também uma forma de desejar prosperidade, harmonia e muitos filhos que viessem fortalecer a comunidade e preservar as tradições ancestrais.

Após o encerramento do Toré, realizava-se uma grande partilha de alimentos produzidos na roça. Todos participavam da refeição coletiva e celebravam a abundância conquistada pelo trabalho comum. Em seguida, na presença dos pais e dos avós, o casal recebia as bênçãos dos mais velhos, levando consigo os ensinamentos, a proteção espiritual e os votos de uma vida longa e feliz dentro da comunidade Kariri-Xocó.

Mais do que um simples canto ritual, o Toré do Piwonhé representa um elo vivo entre passado, presente e futuro. Em cada passo da dança, em cada voz que entoa seus versos e em cada ensinamento transmitido pelos anciãos, permanecem guardadas as memórias e os valores que sustentam a existência do povo Kariri-Xocó. Sua preservação fortalece a identidade coletiva, reafirma o respeito aos ancestrais e garante que a sabedoria herdada continue iluminando os caminhos das futuras gerações, mantendo viva a história e a espiritualidade do povo.





CAPÍTULO II – TORÉ WONHÉNHÁ: O CANTO DA MEMÓRIA E DA DESPEDIDA


Entre os Kariri-Xocó, a morte não representa o fim da existência, mas a passagem para outra etapa da caminhada espiritual. Desde tempos antigos, os ensinamentos dos ancestrais orientam que cada pessoa deixa sua marca na comunidade por meio de suas ações, palavras e exemplos. Nesse contexto, o Toré Wonhénhá ocupa um lugar especial na tradição, pois reúne a memória coletiva, o respeito aos que partiram e a valorização do legado deixado por cada membro do povo. Por meio dos cantos sagrados, das narrativas compartilhadas e dos rituais de despedida, a comunidade reafirma seus vínculos com os antepassados e fortalece a continuidade de sua identidade cultural.

Na Cultura dos Kariri-Xocó, cada pessoa deixa suas marcas no caminho da vida. Desde o nascimento até os últimos dias, o homem ou a mulher constrói sua história por meio de suas ações, de seu trabalho e de sua convivência com a comunidade. Uns são lembrados como grandes pescadores das águas do Velho Chico, outros como caçadores habilidosos, agricultores dedicados, ceramistas talentosos ou guardiões das tradições. Essas histórias, chamadas de woroyá, permanecem vivas na memória do povo e ajudam a definir o legado de cada pessoa.

Quando chega o momento da partida e alguém encerra sua caminhada na Terra, a aldeia se reúne em respeito e lembrança. Durante a noite que antecede o sepultamento, a família acende uma fogueira diante da casa. O fogo ilumina a escuridão e reúne parentes, amigos e vizinhos ao redor de suas chamas, criando um espaço de memória e reflexão.

Ao redor da fogueira, começam os relatos sobre a vida daquele que partiu. São recordadas suas lutas, suas alegrias, seus ensinamentos e as contribuições que deixou para a comunidade. Cada palavra fortalece a lembrança de quem viveu entre seu povo e ajuda os mais jovens a compreenderem a importância de honrar os costumes herdados dos antepassados.

Com o amanhecer do novo dia, chega a hora da despedida final. Antes que o cortejo siga para o local do enterro, são entoados três cantos sagrados de Toré conhecidos como Wonhénhá, o Canto do Morto. As vozes ecoam pela aldeia, levando consigo o respeito, a gratidão e o reconhecimento pela trajetória daquele que cumpriu sua missão entre os seus.

Assim, o Toré Wonhénhá não representa apenas uma despedida, mas também uma celebração da memória. Por meio dos cantos e das histórias compartilhadas, a vida da pessoa continua presente no coração da comunidade. Dessa forma, os Kariri-Xocó reafirmam que ninguém parte sem deixar seus ensinamentos, e que a memória dos ancestrais permanece viva enquanto suas histórias continuarem sendo contadas.

O Toré Wonhénhá revela a profunda sabedoria dos Kariri-Xocó ao transformar a despedida em um momento de união, reflexão e preservação da memória ancestral. Ao redor da fogueira, nas histórias contadas e nos cantos entoados antes do sepultamento, permanece viva a certeza de que a trajetória de cada pessoa continua presente na lembrança de seu povo. Assim, o Wonhénhá não apenas honra aqueles que partiram, mas também ensina às novas gerações o valor da coletividade, da gratidão e da continuidade dos saberes tradicionais. Enquanto houver quem recorde e compartilhe essas histórias, os ancestrais permanecerão caminhando ao lado de seu povo, fortalecendo a identidade e a espiritualidade Kariri-Xocó.





CAPÍTULO III — TORÉ WIDE: OS CANTOS DA VITÓRIA E DA RESISTÊNCIA


O Toré Uide ocupa um lugar especial na memória e na tradição do povo Kariri-Xocó, pois reúne os cantos que celebram as conquistas alcançadas ao longo das gerações. Mais do que simples manifestações de alegria, esses cantos representam a gratidão coletiva diante das vitórias conquistadas pelo esforço, pela união e pela proteção dos ancestrais e encantados. Em cada época da história, o Toré Uide acompanhou os momentos de superação, renovando a esperança e fortalecendo o sentimento de pertencimento à comunidade.

O Canto da Vitória, não é um único canto, mas um conjunto de cantos comemorativos que acompanham as conquistas do povo ao longo do tempo. Desde os tempos mais antigos, os indígenas celebram seus momentos de alegria e realização através do toré. Cada vitória alcançada, grande ou pequena, torna-se motivo para reunir a comunidade em cantos, danças e agradecimentos, fortalecendo os laços entre as pessoas e a memória dos ancestrais.

Quando os caçadores retornavam trazendo alimento para suas famílias, quando as roças ofereciam boas colheitas ou quando uma nova aldeia era construída com o esforço coletivo, o povo reunia-se para festejar. Os maracás ecoavam pelo terreiro, os cantos se elevavam ao céu e os dançadores formavam o círculo sagrado do toré, celebrando a abundância e a união da comunidade.

Nas épocas de luta, o Toré Uide também marcava presença. Depois de enfrentar dificuldades, proteger o território ou superar desafios que surgiam pelo caminho, a comunidade celebrava sua resistência. A vitória não pertencia apenas a uma pessoa, mas a todos aqueles que haviam contribuído para o bem-estar e a continuidade do povo.

Com a passagem dos anos, novas formas de conquista surgiram. Além das vitórias relacionadas à caça, à agricultura e à organização da aldeia, passaram a ser comemoradas as conquistas dos direitos indígenas, a valorização da cultura tradicional, a preservação da identidade e o reconhecimento dos saberes ancestrais. Cada boa notícia tornava-se motivo para novos cantos e celebrações.

Assim, o Toré Uide permanece vivo através de diversos cantos de comemoração, transmitidos e recriados conforme as necessidades de cada geração. Embora os tempos mudem e as conquistas assumam novas formas, o sentimento continua o mesmo: celebrar a vitória, agradecer aos encantados e aos ancestrais e reafirmar a força coletiva do povo Kariri-Xocó.

Ao atravessar o tempo e chegar aos dias atuais, o Toré Uide continua sendo uma expressão viva da força do povo Kariri-Xocó. Seus cantos preservam a memória das conquistas antigas e celebram as vitórias do presente, lembrando que cada avanço alcançado é fruto da caminhada coletiva de muitas gerações. Assim, ao som dos maracás e dos passos no terreiro, o Toré Uide permanece reafirmando a resistência, a identidade cultural e a continuidade dos saberes ancestrais que sustentam a vida e a história do povo.





CAPÍTULO IV – TORÉ WONTSEHO ATSEÁ: OS CANTOS DE BOAS-VINDAS E A CELEBRAÇÃO DA FRATERNIDADE


Entre as diversas expressões culturais preservadas pelo povo Kariri-Xocó, o Toré Wontseho Atseá ocupa um lugar especial como manifestação de acolhimento, respeito e fortalecimento dos vínculos comunitários. Mais do que uma simples recepção aos visitantes, essa tradição reúne cantos, danças e ensinamentos transmitidos pelos ancestrais, revelando valores fundamentais da convivência coletiva. Ao longo das gerações, o Toré Wontseho Atseá tornou-se um importante símbolo da hospitalidade indígena, preservando memórias, reafirmando identidades e promovendo o encontro entre diferentes povos e culturas.

No povo Kariri-Xocó, existe uma antiga tradição chamada Toré Wontseho Atseá, os cantos de apresentação dedicados à chegada de visitantes. Desde os tempos mais antigos, quando parentes de outras aldeias se aproximavam, homens, mulheres, anciãos e crianças reuniam-se para cantar e dançar, demonstrando alegria, respeito e fraternidade. O som dos maracás e as vozes entoadas em conjunto anunciavam que os visitantes eram recebidos como parte de uma grande família.

Os mais velhos contam que esses cantos não serviam apenas para saudar quem chegava, mas também para fortalecer os laços entre os povos indígenas. Cada apresentação carregava mensagens de paz, amizade e reconhecimento mútuo. Ao redor do terreiro, os cantos ecoavam como um convite para a convivência harmoniosa, reafirmando a união entre comunidades que compartilhavam histórias, costumes e ancestrais.

Com o passar do tempo, os Kariri-Xocó passaram a receber também pessoas não indígenas, conhecidas tradicionalmente como caraí. A mesma cerimônia de acolhimento foi então estendida aos novos visitantes. Dessa forma, o Toré Wontseho Atseá tornou-se uma ponte entre culturas, preservando o respeito aos costumes ancestrais enquanto acolhia aqueles que chegavam de fora da aldeia.

Uma das narrativas mais lembradas pela tradição oral conta que o pajé Baltazar recebeu o imperador Dom Pedro II durante sua visita à aldeia, em 1859. Na ocasião, os cantos e danças do Toré Wontseho Atseá foram apresentados como sinal de boas-vindas e respeito. A memória desse encontro permaneceu viva entre as gerações, sendo transmitida pelos anciãos como um momento marcante da história do povo.

Ainda hoje, o Toré Wontseho Atseá continua vivo entre os Kariri-Xocó. Quando o povo visita escolas, participa de eventos culturais ou recebe amigos e autoridades na aldeia, os cantos de apresentação voltam a ecoar pelo terreiro. Muitos daqueles que participam do Toré afirmam que existe uma grande diferença entre apenas ouvir falar dessa tradição e vivenciá-la. Ao cantar, dançar e acompanhar o ritmo dos maracás, sentem a alegria dos homenageados e a força da união do grupo. Assim, o Toré permanece como uma expressão viva de acolhimento, respeito e memória ancestral, transmitindo conhecimentos que não se aprendem somente pelas palavras, mas também pela experiência compartilhada.

O Toré Wontseho Atseá permanece como uma das mais significativas heranças culturais do povo Kariri-Xocó, expressando por meio dos cantos e das danças a continuidade de saberes ancestrais que atravessam o tempo. Sua prática reafirma a importância da união, do respeito mútuo e da valorização da memória coletiva, fortalecendo tanto os laços internos da comunidade quanto as relações estabelecidas com outros povos e visitantes. Ao manter viva essa tradição, os Kariri-Xocó preservam não apenas uma forma de recepção, mas também um patrimônio cultural e espiritual que continua ensinando às novas gerações os princípios da fraternidade, da reciprocidade e da convivência harmoniosa.






CAPÍTULO V – TORÉ SANTOÁ USARUNGHÍ: ENTRE A FOGUEIRA E A COLHEITA NA TRADIÇÃO KARIRI-XOCÓ


Entre os Kariri-Xocó, os ciclos da natureza sempre estiveram profundamente ligados à vida espiritual e comunitária. Cada etapa do plantio e da colheita era acompanhada por rituais que fortaleciam os laços entre as famílias, a terra e os encantados guardiões da existência. Nesse contexto, surgiu uma das mais significativas expressões culturais do povo: o Toré Santoá Usarunghí, celebração que reúne elementos ancestrais e influências históricas incorporadas ao longo dos séculos, preservando a essência da identidade indígena e a memória coletiva da comunidade.

Toré Santoá Usarunghí. Entre os Kariri-Xocó, o tempo da colheita sempre foi marcado por celebrações que uniam a comunidade em torno da terra e de seus frutos. No período em que os legumes da roça alcançavam a maturação, os antigos Kariri realizavam um toré especial de agradecimento, reconhecendo a generosidade da natureza e renovando os laços de respeito com as forças espirituais que protegiam a vida do povo.

Era uma época de alegria e abundância. Homens, mulheres, crianças e anciãos reuniam-se para cantar, dançar e celebrar os alimentos que garantiriam o sustento das famílias. O toré ecoava pelos caminhos da aldeia como uma expressão de gratidão, marcando o ciclo da renovação e da continuidade da vida comunitária.

Com a chegada dos colonizadores portugueses, novas práticas religiosas passaram a fazer parte do cotidiano da região. Entre elas estava a tradição de acender fogueiras em homenagem a Santo Antônio, celebrado no dia 13 de junho. Ao longo do tempo, essa festividade tornou-se conhecida entre os não indígenas como a festa do santo associado às noivas e aos casamentos.

Os Kariri-Xocó, porém, não abandonaram suas antigas referências culturais. Em vez disso, incorporaram alguns elementos da nova tradição ao seu próprio universo simbólico. A fogueira passou a ser acesa juntamente com o toré, e Santo Antônio recebeu uma denominação própria na língua e na memória do povo, sendo chamado de Santoá Usarunghí.

Assim, nasceu o Toré Santoá Usarunghí, uma celebração que reúne heranças distintas em uma mesma experiência cultural. Ao redor da fogueira e ao som do toré, permanece viva a lembrança dos antigos tempos da maturação dos legumes da roça, enquanto a comunidade reafirma sua capacidade de preservar a memória ancestral e ressignificar influências externas sem perder sua identidade.

O Toré Santoá Usarunghí representa muito mais do que uma festividade associada à colheita ou à tradição da fogueira. Ele simboliza a capacidade histórica dos Kariri-Xocó de dialogar com diferentes influências culturais sem abandonar seus valores fundamentais. Ao manter vivo o toré como centro da celebração, o povo reafirma sua ligação com a terra, com os ancestrais e com os ensinamentos transmitidos de geração em geração. Dessa forma, a festa permanece como um importante patrimônio cultural, testemunhando a resistência, a continuidade e a renovação da identidade Kariri-Xocó ao longo do tempo.






CAPÍTULO VI – TORÉ CUROTÉ: O CANTO DA CELEBRAÇÃO NA FARTURA DO MILHO VERDE


Entre os diversos saberes transmitidos pelos antigos troncos Kariri, destacam-se as celebrações ligadas aos ciclos da natureza e à produção dos alimentos que garantiam a sobrevivência da comunidade. Muito além de uma simples atividade agrícola, o tempo da colheita era compreendido como um momento sagrado de agradecimento, partilha e fortalecimento dos laços coletivos. Nesse contexto surgiu o Toré Curoté, tradição ancestral associada ao milho verde, que atravessou gerações preservando memórias, ensinamentos e valores fundamentais da cultura Kariri.

Toré Curoté (Canto da Colheita). Muito antes da chegada dos missionários waré às terras indígenas do Baixo São Francisco, o povo Kariri celebrava os ciclos da natureza por meio de cantos, danças e rituais que fortaleciam a união da comunidade. Entre essas tradições estava o Toré Curoté, o “Canto da Colheita”, realizado no tempo em que o masiche erã (milho verde) alcançava o ponto ideal para ser colhido e compartilhado entre as famílias da aldeia.

Nessa época de abundância, homens, mulheres, jovens e crianças reuniam-se para agradecer pelos frutos oferecidos pela terra. O milho verde era colhido com alegria e preparado nas fogueiras comunitárias, espalhando seu aroma pela aldeia. O Toré acompanhava esse momento de fartura, transformando a colheita em uma celebração coletiva marcada por cantos, passos ritmados e expressões de gratidão aos encantados e às forças da natureza.

Com o passar do tempo, os missionários e colonizadores, conhecidos pelos indígenas como caraí, trouxeram novos elementos culturais e religiosos para a região. Entre eles estavam o Erantoá (Casa dos Santos, Igreja) e diversos kenhé (costumes) ligados às festividades cristãs. Essas mudanças passaram a fazer parte do cotidiano das comunidades indígenas, criando novas formas de convivência entre tradições ancestrais e práticas introduzidas pelos não indígenas.

Entre os costumes incorporados destacavam-se as Duantoá Okenerá, as fogueiras acesas diante das casas durante as festas dos santos, especialmente as celebrações dedicadas a São João. As chamas que iluminavam as noites festivas passaram a se somar às antigas práticas ligadas ao tempo da colheita, aproximando elementos de diferentes origens culturais em uma mesma celebração comunitária.

Assim, o Toré Curoté atravessou gerações sem perder seu significado essencial. O que começou como um canto dedicado à colheita do milho verde incorporou novos símbolos ao longo da história, mantendo viva a memória ancestral do povo Kariri. Até os dias de hoje, essa tradição recorda um tempo de fartura, união e respeito às heranças culturais que foram sendo tecidas ao longo dos séculos na vida da aldeia.

O Toré Curoté permanece como um importante testemunho da capacidade de resistência e adaptação cultural do povo Kariri ao longo dos séculos. Mesmo diante das transformações provocadas pelo contato com missionários, colonizadores e novas práticas religiosas, a essência da celebração continuou viva na memória coletiva da comunidade. Como expressão de gratidão pela fartura, de respeito aos encantados e de valorização da vida comunitária, o Canto da Colheita representa um elo entre passado e presente, reafirmando a identidade indígena e a continuidade dos conhecimentos ancestrais transmitidos de geração em geração.






CAPÍTULO VII – TORÉ DZÓÁ: O CANTO DAS CHUVAS E A MEMÓRIA ANCESTRAL DAS ÁGUAS


Neste capítulo, adentramos o universo sagrado do Toré Dzóá, o Canto das Chuvas, manifestação ancestral que expressa a profunda relação entre o povo Xocó e os ciclos da natureza. Inserido no tempo mítico dos antigos, quando a terra ainda guardava os passos primeiros dos ancestrais, este canto ritual revela não apenas uma celebração das águas, mas também um modo de compreender o mundo em harmonia com os sinais do céu, da lua e das estações. É nesse contexto de memória viva que o Toré Dzóá se apresenta como elo espiritual entre o passado e o presente, mantendo acesa a continuidade da tradição.

Toré Dzóá, o Canto das Chuvas, nasceu nos tempos antigos, quando ainda não existia Natierácró, a cidade dos não indígenas que hoje se encontra próxima da Natiá Aramurú, a aldeia onde viveram os Xocó. Naquele uché, o tempo dos ancestrais, a vida seguia o ritmo da natureza, e cada mudança das estações era acompanhada por cantos, danças e celebrações que fortaleciam a ligação entre o povo e os espíritos da terra.

Durante o período de Dzó Kayaku, a Lua da Chuva, os Xocó realizavam o Toré Dzóá. Era um momento especial em que os cantos ecoavam pelos caminhos da aldeia, agradecendo pelas águas que alimentavam os rios, as lagoas, as plantações e todos os seres vivos. O som dos maracás misturava-se ao cair da chuva, criando uma atmosfera sagrada que renovava a esperança e a fartura para toda a comunidade.

Com o passar dos anos, os caraí chegaram à região e estabeleceram a Missão Ilha São Pedro. Trouxeram consigo novas práticas religiosas, festas de santos e fogueiras que passaram a fazer parte do cotidiano local. Mesmo diante dessas mudanças, os Xocó mantiveram vivas muitas de suas tradições, guardando na memória coletiva os ensinamentos recebidos dos antigos e transmitindo-os às novas gerações.

Mais tarde, quando os Xocó migraram para a Aldeia de Colégio, onde viviam os Kariri, levaram consigo seus costumes, suas histórias e seus cantos sagrados. Entre essas tradições estava o Toré Dzóá, que continuou sendo realizado como expressão da identidade do povo e como lembrança dos tempos em que seus antepassados celebravam a chegada das chuvas em suas terras de origem.

Assim, as celebrações passaram a unir heranças de diferentes troncos ancestrais. No ciclo festivo de São João, os Kariri realizavam o Toré Santoá Usarunghí na abertura das comemorações, enquanto os Xocó encerravam o período festivo com o Toré Dzóá, o Canto das Chuvas. Dessa forma, os dois povos fortaleciam seus laços de parentesco e memória, preservando tradições que atravessaram gerações e continuam vivas no coração da comunidade.

Dessa forma, o Toré Dzóá permanece como expressão viva da resistência cultural e da espiritualidade do povo Xocó, atravessando mudanças históricas, deslocamentos territoriais e encontros com outros modos de vida sem perder sua essência. Ao unir canto, dança e memória, o ritual reafirma a importância das águas como fonte de vida e renovação, simbolizando também a permanência dos laços ancestrais que sustentam a identidade coletiva. Assim, o Canto das Chuvas segue ecoando no tempo, não apenas como lembrança do passado, mas como presença contínua que fortalece o espírito comunitário e a ligação sagrada com a terra.






CAPÍTULO VIII – TORÉ HIETÇÃDÉKIETE: O CANTO DA PADROEIRA E O ENCONTRO DAS TRADIÇÕES ESPIRITUAIS


O Toré Hietçãdékiete, conhecido como o Canto da Padroeira, inscreve-se na memória ancestral do povo Kariri como expressão de um tempo em que a espiritualidade tradicional e novas formas de devoção passaram a coexistir na aldeia. Nesse cenário histórico e simbólico, marcado pela presença dos waré e pela introdução da imagem de Hietçãdékiete, Nossa Senhora da Conceição, a comunidade passou a ressignificar seus rituais, integrando elementos da fé cristã ao universo do Toré, sem romper com a essência de sua identidade cultural. Assim, o canto da Padroeira emerge como um elo entre mundos espirituais, fortalecendo a continuidade da tradição e da memória coletiva.

Nas antigas eras, quando os Kariri viviam em sua Natianie, a aldeia tradicional cercada por águas, matas e caminhos ancestrais, a vida seguia o ritmo das estações, das colheitas e dos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos. O povo realizava seus rituais, fortalecia seus laços de parentesco e mantinha viva a memória de seus antepassados por meio dos cantos, das narrativas e do Toré.

Foi então que, durante o Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, no tempo das grandes chuvas de dezembro, chegaram às terras Kariri os waré, os padres missionários. Eles trouxeram novos costumes, novas palavras e uma imagem que seria acolhida pela comunidade. Essa imagem era Hietçãdékiete, Nossa Senhora da Conceição, que passou a ser reverenciada como Idzedete, a Madrinha e mãe espiritual protetora do povo.

Com a presença dos missionários, ergueu-se o Erantoá, a igreja que se tornou espaço de oração e encontro. Próximo a ela foi construído o Erátekié, o colégio dos padres jesuítas, onde se ensinavam novos conhecimentos religiosos e outras formas de aprendizado. Aos poucos, elementos da tradição indígena e da devoção cristã passaram a caminhar lado a lado na vida da aldeia, criando uma convivência simbólica entre diferentes formas de espiritualidade.

Nas noites iluminadas pela fé e pelas estrelas, durante o período das novenas dedicadas à Padroeira, o povo reunia-se em comunidade. Homens, mulheres, crianças e anciãos entoavam cânticos que misturavam devoção, gratidão e identidade cultural. Era nesses momentos que o Toré Hietçãdékiete ecoava pelos caminhos da aldeia, unindo gerações em torno da proteção da Madrinha espiritual.

Com o passar do tempo, o canto passou a ser transmitido entre gerações como parte viva da memória coletiva, preservando não apenas a devoção, mas também a história do encontro entre diferentes mundos espirituais. O Toré Hietçãdékiete tornou-se, assim, um símbolo de continuidade cultural, em que o sagrado indígena e o sagrado cristão dialogam dentro da vivência comunitária.

Dessa forma, o Toré Hietçãdékiete permanece como um dos mais significativos testemunhos da capacidade do povo Kariri de dialogar com diferentes tradições religiosas sem romper com suas raízes ancestrais. O Canto da Padroeira não representa apenas um ato de devoção, mas também um símbolo de união comunitária, resistência cultural e adaptação histórica. Ao ecoar nas novenas, nas reuniões e nas celebrações da aldeia, ele reafirma a presença viva da memória indígena, mostrando que a espiritualidade Kariri continua pulsando no tempo, entrelaçada à proteção da Madrinha e à força do Toré.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os cantos do Toré constituem muito mais do que manifestações artísticas ou religiosas. Eles representam formas de preservar a memória, transmitir conhecimentos e fortalecer a identidade coletiva do povo Kariri-Xocó.

Ao reunir os oito torés apresentados nesta obra, torna-se possível compreender a riqueza cultural e espiritual de uma tradição que atravessou séculos de transformações históricas sem perder sua essência. Cada canto guarda ensinamentos sobre a vida, a natureza, os ancestrais, a coletividade e a resistência cultural.

Assim, este livro busca contribuir para a valorização da memória indígena, reafirmando a importância de preservar os conhecimentos tradicionais como patrimônio vivo das presentes e futuras gerações.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 




KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiá Buyõ Dzéá — Aldeia de Muitos Nomes. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/03/natia-buyo-dzea-aldeia-de-muitos-nomes.html?m=0 . Acesso em: 25 jun. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Pedi Nhenetí Krotseba — Crer com Tradição na Resistência. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/03/pedi-nheneti-krotseba-crer-com-tradicao.html?m=0 . Acesso em: 25 jun. 2026.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroia Wontseré – História dos Grupos de Toré. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroia-wontsere-historia-dos-grupos-de.html?m=0  . Acesso em: 25 jun. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Teudiokié Honéá Uanieá, A Luta Pelos Direitos Indígenas. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/teudiokie-honea-uaniea-luta-pelos.html?m=0  . Acesso em: 25 jun. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Ibenhete Onhantoá – As Imagens dos Santos na Parede. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/ibenhete-onhantoa-as-imagens-dos-santos.html?m=0  . Acesso em: 25 jun. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Duantoá Okenerá – As Fogueiras dos Santos nas Portas. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/duantoa-okenera-as-fogueiras-dos-santos.html?m=0  . Acesso em: 25 jun. 2026. 







SOBRE O AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador indígena, contador de histórias, escritor e guardião da memória cultural de seu povo. Pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas, dedica-se à preservação da tradição oral, da história indígena, dos sobrenomes ancestrais, da espiritualidade, da cultura e da identidade dos povos originários do Baixo São Francisco.
Por meio de pesquisas, narrativas e publicações, busca registrar conhecimentos transmitidos pelos anciãos e contribuir para que as futuras gerações mantenham vivos os ensinamentos herdados dos antigos troncos familiares e dos guardiões da memória coletiva.




              





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




quarta-feira, 24 de junho de 2026

GRUPOS DE TORÉ DO POVO KARIRI-XOCÓ: HISTÓRIAS, SIGNIFICADOS E MISSÕES CULTURAIS







FALSA FOLHA DE ROSTO

GRUPOS DE TORÉ DO POVO KARIRI-XOCÓ: HISTÓRIAS, SIGNIFICADOS E MISSÕES CULTURAIS
Nhenety Kariri-Xocó






FOLHA DE ROSTO



GRUPOS DE TORÉ DO POVO KARIRI-XOCÓ: HISTÓRIAS, SIGNIFICADOS E MISSÕES CULTURAIS
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026






VERSO DA FOLHA DE ROSTO



Copyright © 2026
Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
Esta obra destina-se à preservação da memória, da história e dos conhecimentos tradicionais do povo Kariri-Xocó, valorizando os grupos culturais de Toré como importantes guardiões da ancestralidade indígena.







FICHA CATALOGRÁFICA



Kariri-Xocó, Nhenety.
Grupos de Toré do Povo Kariri-Xocó: Histórias, Significados e Missões Culturais / Nhenety Kariri-Xocó.
Porto Real do Colégio (AL): Edição do Autor, 2026.
Inclui referências bibliográficas.
Povos Indígenas do Nordeste.
Kariri-Xocó.
Toré.
Cultura Indígena.
Memória Ancestral.
Tradição Oral.
CDD: 980.41






ISBN (SIMBÓLICO)


ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de organização da obra. O ISBN definitivo deverá ser solicitado junto à Câmara Brasileira do Livro.)






PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.







ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 






DEDICATÓRIA



Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri-Xocó, que preservaram os caminhos da memória mesmo diante das adversidades do tempo.

Dedico também aos mestres do Toré, aos guardiões da palavra, aos artesãos, aos cantadores, aos rezadores, às lideranças e a todas as famílias indígenas que mantêm viva a chama da cultura ancestral.

Que este livro seja uma homenagem permanente aos que vieram antes de nós e uma fonte de conhecimento para aqueles que virão depois.







AGRADECIMENTOS



Agradeço primeiramente ao Grande Criador, pela vida, pela inspiração e pela oportunidade de registrar parte da memória de meu povo.

Agradeço aos anciãos Kariri-Xocó, guardiões dos conhecimentos transmitidos pela tradição oral, aos líderes culturais, aos grupos de Toré e a todos aqueles que compartilharam histórias, ensinamentos e experiências que contribuíram para a construção desta obra.

Minha gratidão também aos familiares, amigos, pesquisadores, educadores e apoiadores da cultura indígena que incentivam a preservação da memória ancestral.







EPÍGRAFE



"Enquanto houver um canto de Toré, uma história contada pelos mais velhos e uma criança aprendendo os caminhos da tradição, a memória de nosso povo continuará viva."
— Sabedoria tradicional Kariri-Xocó







PREFÁCIO



Este livro nasce do compromisso de registrar, preservar e compartilhar a memória cultural dos grupos de Toré do povo Kariri-Xocó. Cada grupo apresentado nesta obra representa uma importante expressão da identidade indígena, reunindo histórias, significados, missões culturais e trajetórias construídas por homens e mulheres dedicados à continuidade dos saberes ancestrais.

Mais do que uma simples reunião de informações, esta obra constitui um testemunho da resistência cultural indígena, demonstrando que os conhecimentos transmitidos pelos antepassados permanecem vivos através da oralidade, dos cantos, das danças, dos rituais e das práticas comunitárias.






SUMÁRIO



Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo 1 – Os Caminhos do Parentesco e da União: Grupos Culturais Etçãmy e Wyanã
Capítulo 2 – Os Guardiões da Espiritualidade: Grupos Culturais Pawí e Suré
Capítulo 3 – A Força da Cura Ancestral: Grupos Culturais Apony e Thydjo
Capítulo 4 – Aguas, Rios e Povos da Ribeira: Grupos Culturais Dzú e Dzubukuá
Capítulo 5 – Os Semeadores do Conhecimento: Grupos Culturais Takayoá e Swbatekié
Capítulo 6 – O Tempo dos Astros e dos Ancestrais: Grupos Culturais Kayakuá e Arankié
Capítulo 7 – Resistência e Fortaleza Cultural: Grupos Culturais Morochy Crody e Muratã
Capítulo 8 – A Voz dos Cantos e da Música Nativa: Grupos Culturais Wakai e Benhekié
Capítulo 9 – Os Guardiões do Trabalho e da Partilha: Grupos Culturais Ketçã e Piratã
Capítulo 10 – Caminhos de Encontro e Movimento: Grupos Culturais Bocuwiá e Wyriçá
Capítulo 11 – Lideranças e Despertares: Grupos Culturais Sabucá e Yegeri
Capítulo 12 – Os Elementos da Natureza e da Vida: Grupos Culturais Kaçafeita e Kayomã
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor








RESUMO



Esta obra apresenta um levantamento histórico, cultural e simbólico dos grupos de Toré do povo Kariri-Xocó. Através de uma abordagem descritiva, são reunidas informações sobre suas origens, significados linguísticos, lideranças, atividades culturais e missões comunitárias. Os capítulos demonstram como os grupos atuam na preservação da memória ancestral, na valorização da língua indígena, na transmissão dos conhecimentos tradicionais, na espiritualidade, na educação cultural e no fortalecimento da identidade coletiva. O estudo evidencia a importância do Toré como elemento central da cultura Kariri-Xocó e como instrumento de resistência e continuidade histórica.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; Toré; Cultura Indígena; Memória Ancestral; Identidade Cultural.






ABSTRACT



This work presents a historical, cultural and symbolic survey of the Toré groups of the Kariri-Xocó people. Through a descriptive approach, information is gathered regarding their origins, linguistic meanings, leaderships, cultural activities and community missions. The chapters demonstrate how these groups contribute to the preservation of ancestral memory, the appreciation of indigenous language, the transmission of traditional knowledge, spirituality, cultural education and the strengthening of collective identity. The study highlights the importance of Toré as a central element of Kariri-Xocó culture and as an instrument of resistance and historical continuity.
Keywords: Kariri-Xocó; Toré; Indigenous Culture; Ancestral Memory; Cultural Identity.







APRESENTAÇÃO



Os grupos de Toré constituem uma das mais importantes formas de expressão cultural do povo Kariri-Xocó. Por meio deles, a memória ancestral continua sendo transmitida, fortalecendo a identidade coletiva e assegurando a continuidade dos conhecimentos tradicionais.

Esta obra reúne histórias, significados e missões culturais desses grupos, valorizando suas contribuições para a preservação da cultura indígena e para o fortalecimento das futuras gerações.







NOTA DO AUTOR



Este livro foi elaborado a partir de relatos, memórias, observações culturais e conhecimentos compartilhados pelos próprios integrantes da comunidade Kariri-Xocó.

Seu objetivo principal é contribuir para a preservação da tradição oral por meio da escrita, registrando informações que possam servir às futuras gerações como fonte de consulta, pesquisa e valorização da cultura indígena.







MEMÓRIA DO AUTOR



Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias da tradição oral e escrita, pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas.

Ao longo dos anos, tenho dedicado parte de minha caminhada à preservação da memória de meu povo, registrando histórias, costumes, tradições, genealogias, manifestações culturais e conhecimentos ancestrais transmitidos pelos mais velhos.

Este livro representa mais um passo nessa missão de transformar a oralidade em registro escrito, contribuindo para que as futuras gerações possam conhecer e valorizar a riqueza da herança cultural Kariri-Xocó.








INTRODUÇÃO



Os grupos de Toré ocupam um papel fundamental na preservação da cultura do povo Kariri-Xocó. São eles que mantêm vivos os cantos, as danças, os ensinamentos espirituais, os conhecimentos tradicionais e os valores comunitários herdados dos ancestrais.

Ao longo desta obra, o leitor encontrará histórias de lideranças, significados linguísticos, missões culturais e ações desenvolvidas por diferentes grupos que atuam na proteção e divulgação da identidade indígena. Cada capítulo revela uma faceta da riqueza cultural Kariri-Xocó, demonstrando que a tradição permanece viva quando é praticada, compartilhada e transmitida às novas gerações.





CAPÍTULO 1 – OS CAMINHOS DO PARENTESCO E DA UNIÃO: GRUPOS CULTURAIS ETÇÃMY E WYANÃ


O povo Kariri-Xocó construiu sua história apoiado nos laços de parentesco, na solidariedade coletiva e no compromisso de preservar os ensinamentos recebidos dos ancestrais. Nesse contexto, os grupos culturais Etçãmy e Wyanã representam importantes expressões da identidade indígena, pois fortalecem a união entre as famílias, valorizam a memória dos mais velhos e mantêm viva a tradição do Toré como elemento de resistência cultural. Por meio de suas ações, ambos demonstram que o sentimento de pertencimento à comunidade e à terra continua sendo uma das bases fundamentais da existência e da continuidade do povo Kariri-Xocó.



Etçãmy História, Significado e Missão


Etçãmy – é um grupo de Toré do povo Kariri-Xocó cujo nome, na língua Kariri, significa “parente”. A denominação expressa os laços de união, respeito e pertencimento que fortalecem a comunidade indígena. O grupo é liderado por Batoré, que atua na preservação e divulgação das tradições culturais herdadas dos ancestrais.

Suas atividades são desenvolvidas na aldeia Kariri-Xocó, em um espaço cultural que leva o nome Etçãmy. Nesse local, turistas, estudantes e visitantes têm a oportunidade de conhecer aspectos da cultura indígena por meio de apresentações culturais e do contato com os saberes tradicionais do povo Kariri-Xocó.

O grupo também se dedica à produção e comercialização de artesanato tradicional, confeccionando peças como arcos, flechas, cachimbos de pau, zarabatanas e maracás. Esses objetos representam importantes expressões da cultura material indígena, além de contribuírem para a geração de renda e para a valorização dos conhecimentos transmitidos entre as gerações.

Desde 2010, o Grupo Etçãmy participa das atividades da Semana dos Povos Indígenas em escolas do município de Feira de Santana, na Bahia. Por meio de cantos, danças e apresentações de Toré, seus integrantes compartilham a história e a cultura Kariri-Xocó, fortalecendo a identidade de seu povo e promovendo o reconhecimento da riqueza cultural indígena junto à sociedade.



Wyanã História, Significado e Missão


Wyanã é um grupo cultural de Toré e Cura que mantém viva a sintonia da música nativa e dos conhecimentos ancestrais do povo Kariri-Xocó. Seu nome foi escolhido em homenagem ao saudoso líder Gildeon, cuja dedicação à cultura indígena deixou marcas profundas entre seus parentes e seguidores. A palavra Wyanã carrega um significado especial, traduzida como “parente da terra”, expressando o vínculo sagrado entre o povo indígena, a natureza e seus ancestrais.

Ao longo dos anos, o grupo consolidou-se como um importante espaço de preservação cultural, reunindo cantos, danças, rituais e saberes tradicionais transmitidos de geração em geração. Em seu espaço cultural localizado na Terra Indígena Kariri-Xocó, a memória de Gildeon continua presente em cada atividade desenvolvida, fortalecendo a identidade e o orgulho de seu povo.

Após a partida de seu fundador, a continuidade do trabalho ficou sob a responsabilidade de seu filho Kawãpé, nome que significa “Ave Mensageira”. Seguindo os ensinamentos recebidos de seu pai, Kawãpé assumiu a missão de conduzir o grupo, mantendo acesa a chama da tradição e promovendo ações voltadas à valorização da cultura indígena entre as novas gerações.

A atuação do Wyanã ultrapassa os limites da aldeia, alcançando cidades como São Paulo e Campinas, onde realiza apresentações e atividades culturais que divulgam a riqueza das tradições Kariri-Xocó. Vinculado aos clãs Suré Kariri-Xocó e Thydjo Fulni-ô, o grupo segue sua caminhada como guardião da memória ancestral, demonstrando que a cultura permanece viva sempre que há quem a preserve, celebre e compartilhe com o mundo.

As trajetórias dos grupos Etçãmy e Wyanã revelam que a força de um povo está na união de seus parentes, na preservação de suas raízes e na transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações. Seja por meio do artesanato, das apresentações culturais, dos cantos, das danças ou dos rituais tradicionais, esses grupos mantêm acesa a chama da identidade Kariri-Xocó, reafirmando diariamente os valores do respeito, da coletividade e da ligação sagrada com a terra. Assim, tornam-se verdadeiros guardiões da memória e da cultura, demonstrando que a tradição permanece viva quando é compartilhada, celebrada e fortalecida por toda a comunidade.





CAPÍTULO 2 – OS GUARDIÕES DA ESPIRITUALIDADE: GRUPOS CULTURAIS PAWÍ E SURÉ


O universo espiritual do povo Kariri-Xocó encontra expressão viva nos grupos culturais Pawí e Suré, guardiões de conhecimentos ancestrais que atravessam gerações por meio do Toré, dos cantos sagrados, das práticas de cura e dos rituais comunitários. Mais do que grupos culturais, eles representam caminhos de ligação entre o mundo material e o mundo espiritual, preservando ensinamentos herdados dos antepassados e fortalecendo a identidade coletiva do povo. Em suas ações, revelam a profunda relação entre espiritualidade, tradição e pertencimento, mantendo acesa a memória dos antigos e renovando continuamente os laços que unem a comunidade ao sagrado.




Pawí História, Significado e Missão 


Pawí é um grupo de toré pertencente ao povo Kariri-Xocó, carrega em seu nome um significado profundo na língua Kariri: “cachimbo”, objeto que simboliza a comunicação espiritual e o fortalecimento das relações com o sagrado. Esse grupo mantém viva a tradição do Toré, expressão cultural e ritual que une dança, canto e espiritualidade, reafirmando a identidade coletiva de seu povo.

À frente do grupo está Paruanã, liderança que integra a família Sóia e Tononé. Ele também exerce a função de cacique da aldeia Kariri-Xocó Multiétnica, situada no município de Entre Rios, na Bahia, onde coordena atividades culturais e fortalece os laços entre diferentes comunidades indígenas.

Nas práticas cotidianas e apresentações culturais, o grupo Pawí realiza manifestações de Toré, além de promover a venda de artesanatos e o uso de ervas medicinais tradicionais. Essas atividades não apenas preservam o conhecimento ancestral, mas também garantem a sustentabilidade econômica e cultural da comunidade.

Paruanã também se destaca pelo intercâmbio com outras etnias indígenas do Centro-Oeste, participando de encontros de moytará, que consistem na troca de produtos e saberes culturais, como ornamentos e conhecimentos tradicionais. Dessa forma, o grupo Pawí amplia suas conexões e reforça a continuidade das redes de solidariedade entre os povos indígenas.




Suré História, Significado e Missão


Suré é um nome carregado de significado e respeito entre o povo Kariri-Xocó. A palavra está associada ao “soprador mágico do Toré”, aquele que conduz a força dos cantos e das tradições sagradas. Com o passar do tempo, o nome também passou a identificar um importante grupo cultural de Toré, liderado por Ademir Cruz, guardião de saberes herdados dos ancestrais.

Dizem ainda que o clã Suré nasceu das antigas famílias indígenas Kariri-Xocó, cujas gerações mantiveram vivas as práticas, os cantos e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos. Essas famílias foram responsáveis por fortalecer os grupos culturais de Toré, preservando uma herança que atravessou o tempo e permaneceu presente na memória coletiva do povo.

Quando chegam os períodos festivos, especialmente durante as celebrações juninas e as festividades de final de ano, são os Suré que muitas vezes dão início aos cantos do Toré na aldeia. Ao som dos maracás e das vozes reunidas, eles ajudam a abrir os caminhos da celebração, renovando os laços entre as famílias, a comunidade e os espíritos protetores da tradição.

Mas a história dos Suré não se limita às terras da aldeia. Levando consigo a cultura Kariri-Xocó, seus integrantes percorrem diferentes estados do Brasil, realizando apresentações culturais, compartilhando a beleza do Toré e divulgando o artesanato indígena. Em suas viagens, também transmitem conhecimentos da cura nativa, fazendo com que os ensinamentos ancestrais continuem vivos e respeitados por onde passam.

As trajetórias dos grupos Pawí e Suré demonstram que a espiritualidade Kariri-Xocó permanece viva por meio daqueles que assumem a missão de proteger e transmitir os saberes ancestrais. Seja através do cachimbo sagrado, dos cantos do Toré, das práticas de cura, dos intercâmbios culturais ou das apresentações realizadas dentro e fora das aldeias, esses guardiões mantêm abertas as portas da tradição para as novas gerações. Assim, Pawí e Suré não apenas preservam uma herança cultural milenar, mas também reafirmam a força do espírito coletivo Kariri-Xocó, garantindo que a voz dos ancestrais continue ecoando nos caminhos do presente e do futuro.





CAPÍTULO 3 – A FORÇA DA CURA ANCESTRAL: GRUPOS CULTURAIS APONY E THYDJO


A medicina tradicional indígena constitui um dos mais importantes patrimônios culturais dos povos originários, reunindo conhecimentos acumulados ao longo de inúmeras gerações sobre as plantas, os cantos sagrados, os rituais e a relação espiritual entre o ser humano e a natureza. Entre o povo Kariri-Xocó, a cura não se limita ao tratamento do corpo, mas envolve também o fortalecimento da mente, do espírito e dos vínculos comunitários. Nesse contexto, os grupos culturais Apony e Thydjo representam diferentes expressões dessa herança ancestral, preservando saberes terapêuticos, práticas xamânicas e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos, reafirmando a continuidade de uma tradição que permanece viva e essencial para a identidade do povo.



Apony História, Significado e Missão


Apony é o nome de um grupo cultural de cura ligado aos conhecimentos tradicionais sobre as ervas medicinais e aos saberes ancestrais transmitidos entre gerações. Na língua indígena, o nome Apony significa “pequeno espírito de cura”, expressão que simboliza a presença da força espiritual que acompanha os tratamentos naturais e a relação harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

Seu líder, Miller, pertence aos clãs Poité e Baca, trazendo consigo a herança cultural de famílias guardiãs de importantes conhecimentos do povo Kariri-Xocó. Durante muitos anos, desenvolveu suas atividades na cidade de São Paulo, onde conciliava o trabalho de cura com a comercialização de ervas medicinais e outros produtos oriundos da floresta, divulgando saberes tradicionais para diferentes públicos e fortalecendo a valorização da cultura indígena fora da aldeia.

Com o passar do tempo, o chamado da terra ancestral tornou-se mais forte. A partir de 2020, Miller retornou à Aldeia Kariri-Xocó, onde construiu sua oca e passou a receber visitantes e clientes interessados nos conhecimentos das plantas medicinais e nos ensinamentos relacionados à cura tradicional. Esse retorno representou também uma reconexão profunda com o território, a comunidade e os valores transmitidos pelos antigos.

Atualmente, além de continuar compartilhando seus conhecimentos sobre as ervas e os produtos naturais, Miller dedica-se ao cultivo de seu pequeno sítio, onde cria animais domésticos e mantém uma relação próxima com a terra. Assim, o grupo Apony segue preservando práticas culturais e conhecimentos ancestrais, demonstrando que a tradição continua viva e renovada no cotidiano do povo Kariri-Xocó.




Thydjo História, Significado e Missão


Thydjo o grupo de cura xamânica conhecido, palavra que significa “peixe” na língua Iatê do povo Fulni-ô. O nome também está ligado à trajetória de seu líder, Umberto Cruz, que reuniu conhecimentos tradicionais, cantos sagrados e práticas de cura herdadas dos ancestrais. Assim como o peixe que percorre os caminhos das águas, o Thydjo passou a levar sua mensagem para diferentes regiões do Brasil e também para outros países, divulgando saberes indígenas e fortalecendo a identidade de seu povo.

Com o passar dos anos, Umberto Cruz tornou-se uma importante liderança indígena e assumiu a função de cacique da Aldeia Fulkaxo. Sob sua orientação, a comunidade consolidou-se como um espaço de preservação cultural, onde tradições, rituais, cantos e ensinamentos ancestrais continuam sendo transmitidos às novas gerações. A aldeia representa um encontro de heranças culturais que unem os povos Fulni-ô, Kariri e Xocó em uma mesma caminhada.

A história dos Fulkaxos começou a ganhar novos contornos a partir de 2012, quando famílias ligadas ao povo Kariri-Xocó iniciaram o processo de formação de uma nova aldeia no município de Pacatuba, em Sergipe. A mudança marcou o início de uma nova etapa, construída com esforço coletivo, respeito às tradições e desejo de fortalecer uma identidade própria sem romper com as raízes que os formaram ao longo do tempo.

Mesmo estabelecidos em um novo território, os Fulkaxos jamais esqueceram sua origem. Os laços culturais, familiares e espirituais com a terra de Kariri-Xocó continuam vivos nas celebrações, nos cantos, nas histórias contadas pelos mais velhos e na memória compartilhada por toda a comunidade. Dessa forma, a trajetória do Thydjo e da Aldeia Fulkaxo tornou-se um exemplo de continuidade cultural, mostrando que um povo pode abrir novos caminhos sem abandonar as marcas deixadas por seus ancestrais.

As trajetórias dos grupos Apony e Thydjo demonstram que os conhecimentos tradicionais de cura continuam desempenhando um papel fundamental na preservação da cultura indígena e no fortalecimento da memória ancestral. Por meio das ervas medicinais, dos cantos sagrados, dos ensinamentos espirituais e da convivência harmoniosa com a natureza, seus integrantes mantêm viva uma herança que ultrapassa gerações e resiste às transformações do tempo. Mais do que práticas terapêuticas, esses saberes representam formas de compreender o mundo, cuidar da comunidade e honrar os ancestrais, reafirmando a força cultural e espiritual que sustenta a caminhada do povo Kariri-Xocó e de seus parentes indígenas.





CAPÍTULO 4 – ÁGUAS, RIOS E POVOS DA RIBEIRA: GRUPOS CULTURAIS DZÚ E DZUBUKUÁ


O Rio Opará, conhecido nacionalmente como Rio São Francisco, ocupa um lugar central na história, na espiritualidade e na identidade dos povos indígenas do Baixo São Francisco. Muito mais do que um curso d’água, ele representa um território de vida, memória e resistência, onde gerações construíram suas relações com a natureza, transmitiram saberes ancestrais e fortaleceram seus vínculos comunitários. Entre os Kariri-Xocó, as águas do Opará permanecem presentes nos cantos, nos rituais e nas narrativas que atravessam o tempo, inspirando grupos culturais que assumem a missão de preservar e compartilhar esse patrimônio imaterial. Nesse contexto, destacam-se os grupos Dzú e Dzubukuá, cujos nomes e trajetórias refletem a profunda conexão entre povo, território e ancestralidade.



Dzú História, Significado e Missão


Dzú é um grupo cultural de Toré do povo Kariri-Xocó, cujo nome significa “água”, um elemento sagrado que simboliza a vida, a renovação e a ligação profunda com a natureza. Sob a liderança de Gilson Yradzú, o grupo mantém viva a tradição dos ancestrais por meio dos cantos, danças e ensinamentos transmitidos de geração em geração. O nome Dzú também carrega um significado espiritual, relacionado às águas das emoções e ao amor pelo rio Opará, o grande Rio São Francisco, que há séculos sustenta a vida e a memória dos povos indígenas da região.

Inspirado por esse simbolismo, o grupo desenvolve diversas atividades culturais e comunitárias. Seus integrantes participam da produção e comercialização de artesanatos indígenas, promovem campanhas de arrecadação de alimentos e realizam palestras educativas que divulgam a história, os costumes e os valores do povo Kariri-Xocó. Por meio dessas ações, o Dzú fortalece os laços entre tradição, solidariedade e educação.

As apresentações de Toré constituem uma das principais marcas do grupo. Em escolas de Alagoas, seus membros compartilham cantos, danças e narrativas que aproximam estudantes e educadores da riqueza cultural indígena. Cada apresentação torna-se um momento de aprendizado e respeito mútuo, contribuindo para a valorização das identidades indígenas e para a preservação dos conhecimentos ancestrais.

Gilson Yradzú possui raízes que unem diferentes povos indígenas. Kariri-Xocó e Karapotó, ele pertence ao clã Itapó, ligado à família do cacique Juarez, irmão de sua mãe. Embora tenha construído sua família na aldeia Tingui-Botó, Yradzú mantém fortes vínculos com a comunidade Kariri-Xocó, visitando frequentemente seu povo e participando das atividades culturais. Sua trajetória representa a continuidade dos laços de parentesco, da memória ancestral e do compromisso com a preservação da cultura indígena.




Dzubukuá História, Significado e Missão


Dzubukuá, entre os muitos grupos que mantêm viva a cultura ancestral do povo Kariri-Xocó, destaca-se o Dzubukuá, nome que, na língua Kariri, significa “povo da ribeira”. A denominação guarda profunda ligação com as margens do Rio Opará, o grande Rio São Francisco, que há séculos alimenta a vida, a memória e as tradições dos povos indígenas da região. Sob a liderança de Nido, o grupo segue fortalecendo os laços entre passado e presente por meio da preservação de seus costumes e saberes tradicionais.

Por onde passa, o Dzubukuá leva consigo a força do Toré, expressão sagrada da identidade indígena. Suas apresentações em cidades como Maceió, Porto Real do Colégio e Palmeiras dos Índios aproximam diferentes públicos da cultura Kariri-Xocó, revelando cantos, danças, histórias e conhecimentos herdados dos ancestrais. Além das apresentações culturais, o grupo participa de palestras, encontros e projetos voltados à valorização dos povos originários.

O trabalho desenvolvido pelo Dzubukuá também está ligado à produção e à divulgação do artesanato indígena, importante fonte de sustento e afirmação cultural. Em sua caminhada, o grupo recebe apoio por meio de doações de alimentos e sementes, que contribuem para o cultivo das roças comunitárias e para a manutenção de práticas agrícolas tradicionais transmitidas de geração em geração.

Mais do que um grupo cultural, Dzubukuá representa uma herança histórica profundamente enraizada na identidade Kariri. O nome também remete a um dos grupos dialetais da língua Kariri, da qual os Kariri-Xocó fazem parte como integrantes de uma grande nação indígena vinculada ao Rio Opará. Dessa forma, cada canto do Toré, cada peça de artesanato e cada ação comunitária tornam-se expressões vivas de um povo que continua preservando sua língua, sua memória e sua relação ancestral com a terra e as águas do Velho Chico.

As trajetórias dos grupos Dzú e Dzubukuá demonstram que a cultura Kariri-Xocó continua viva e em constante movimento, alimentada pela força da memória coletiva e pelas águas sagradas do Rio Opará. Por meio do Toré, do artesanato, das ações comunitárias e da transmissão dos conhecimentos tradicionais, esses grupos reafirmam a identidade de seu povo e fortalecem o diálogo entre as novas gerações e os ensinamentos dos ancestrais. Assim como o rio segue seu curso atravessando terras e histórias, Dzú e Dzubukuá mantêm viva a missão de proteger e difundir os valores culturais, espirituais e territoriais que fazem dos Kariri-Xocó herdeiros e guardiões de uma das mais ricas tradições indígenas do Nordeste brasileiro.





CAPÍTULO 5 – OS SEMEADORES DO CONHECIMENTO: GRUPOS CULTURAIS TAKAYOÁ E SWBATEKIÉ


A preservação de um povo depende não apenas da defesa de seu território, mas também da continuidade dos conhecimentos transmitidos entre as gerações. Entre os Kariri-Xocó, a educação tradicional acontece por meio da oralidade, dos cantos, das danças, da língua materna, dos rituais e das práticas culturais que fortalecem a identidade coletiva. Nesse contexto, os grupos culturais Takayoá e Swbatekié desempenham um papel fundamental como semeadores do conhecimento ancestral, atuando na formação cultural das novas gerações e na difusão dos valores que sustentam a memória e a resistência do povo Kariri-Xocó.




Takayoá História, Significado e Missão


Takayoá o grupo de cantos e danças de toré do povo Kariri-Xocó, ligado ao clã Aracaré Pahancó e conduzido pela liderança de Pêpa. Seu nome significa “tocha luminosa”, uma expressão carregada de simbolismo e sabedoria ancestral. Assim como uma chama que rompe a escuridão da noite, Takayoá representa a força do conhecimento que ilumina os caminhos da comunidade e fortalece a preservação da identidade indígena.

Na tradição Kariri-Xocó, a tocha luminosa simboliza a busca pelo saber e pela consciência coletiva. Ela recorda que o conhecimento transmitido pelos mais velhos, pelas histórias, pelos cantos e pelas vivências é uma luz capaz de afastar as trevas da ignorância. Por meio do toré, o grupo mantém viva a memória dos ancestrais e reafirma os valores que sustentam a cultura do povo.

Um dos grandes destaques do Takayoá é o trabalho de palestras e apresentações culturais realizadas em diferentes espaços. Nesses encontros, seus integrantes compartilham a visão de mundo do povo Kariri-Xocó, apresentando aspectos da história, das tradições e da relação espiritual com a natureza. Dessa forma, o grupo contribui para ampliar o conhecimento sobre os povos indígenas e promover o respeito à diversidade cultural.

Cada elemento apresentado pelo Takayoá possui um significado especial. O artesanato, as pinturas corporais, os cantos e as danças não são apenas manifestações artísticas, mas expressões vivas de uma herança cultural construída ao longo de muitas gerações. Assim, a tocha luminosa que dá nome ao grupo continua acesa, iluminando caminhos, fortalecendo identidades e levando adiante os ensinamentos do povo Kariri-Xocó.




Swbatekié História, Significado e Missão


Swbatekié grupo de toré que significa “conhecimento”. Sob a liderança de Idiane Crudzá, o grupo tornou-se um importante espaço de fortalecimento cultural, reunindo crianças, jovens e adultos em torno da preservação da memória, da língua e das tradições do povo. Seu nome representa a busca constante pelo aprendizado e pela valorização dos ensinamentos herdados dos ancestrais.

No espaço cultural do Swbatekié, o conhecimento ganha vida por meio da Escola da Língua Kariri-Xocó. Ali, Idiane Crudzá e seu esposo Kawã exercem a função de Duboherí, os mestres responsáveis por transmitir os saberes linguísticos e culturais às novas gerações. Ao lado deles, Nhenety atua como coordenador pedagógico, contribuindo para a organização das atividades educativas e para o fortalecimento da identidade indígena através da educação tradicional.

Além do ensino da língua, o espaço cultural é também um centro de aprendizado das artes tradicionais. Oficinas de cerâmica, pintura em tecidos, pintura corporal e produção de artesanatos permitem que os participantes desenvolvam habilidades manuais enquanto aprendem os significados culturais presentes em cada criação. Cada peça produzida carrega símbolos, histórias e conhecimentos que conectam o presente ao legado ancestral dos Kariri-Xocó.

Fora da aldeia, o Swbatekié leva sua mensagem de conhecimento e valorização cultural para diferentes comunidades e eventos. Por meio das apresentações de toré, o grupo compartilha a beleza de seus cantos, danças e tradições, aproximando outros povos da cultura indígena. A venda dos artesanatos complementa essa missão, permitindo que o trabalho cultural seja reconhecido e contribuindo para a sustentabilidade das atividades do grupo. Assim, o Swbatekié segue iluminando caminhos através do conhecimento, fortalecendo a cultura Kariri-Xocó e mantendo viva a herança deixada pelos ancestrais.

Ao manterem vivos os cantos do toré, os ensinamentos da língua, as artes tradicionais e a transmissão dos saberes ancestrais, Takayoá e Swbatekié cumprem uma missão que ultrapassa o campo cultural, tornando-se verdadeiras escolas de identidade e pertencimento. Por meio de suas atividades, esses grupos fortalecem os vínculos entre passado, presente e futuro, garantindo que a memória dos antepassados continue orientando os caminhos das novas gerações. Assim, como tochas acesas pelo conhecimento e pela tradição, Takayoá e Swbatekié permanecem como importantes pilares da educação cultural Kariri-Xocó, preservando e renovando o legado de seu povo para os tempos vindouros.





CAPÍTULO 6 – O TEMPO DOS ASTROS E DOS ANCESTRAIS: GRUPOS CULTURAIS KAYAKUÁ E ARANKIÉ


Entre os Kariri-Xocó, o tempo não é compreendido apenas como uma sucessão de dias, meses e anos, mas como uma manifestação sagrada dos ciclos da natureza e da presença contínua dos ancestrais. As fases da lua, o movimento dos astros e a relação entre o mundo visível e o mundo espiritual constituem elementos fundamentais de uma cosmologia que orienta a vida coletiva, os ensinamentos tradicionais e as práticas culturais do povo. Neste capítulo, os grupos culturais Kayakuá e Arankié revelam diferentes dimensões dessa sabedoria ancestral: enquanto Kayakuá preserva a memória das doze luas que marcam o ritmo da existência e das atividades comunitárias, Arankié mantém viva a ligação espiritual entre a terra e o céu, reafirmando a presença dos antepassados como guias permanentes das novas gerações.





Kayakuá História, Significado e Missão


Kayakuá é um grupo de Toré do povo Kariri-Xocó cujo nome significa “Luas” ou “meses”. Liderado por Kamonny, o grupo carrega em sua identidade a sabedoria do tempo marcado pelos ciclos da natureza e pelas doze luas que orientam o calendário tradicional do povo. Para os Kariri-Xocó, cada lua representa um período de vida, trabalho, aprendizado e fortalecimento da cultura ancestral que atravessa gerações.

Na aldeia, a identidade indígena não se limita a uma data comemorativa. Os ensinamentos dos antepassados estão presentes todos os dias do ano, nos cantos do Toré, nas histórias contadas pelos mais velhos, nas práticas comunitárias e no respeito à terra. Assim, o povo segue seu caminho guiado pelas doze luas, mantendo vivas as tradições que sustentam sua memória e sua espiritualidade.

Quando chega o dia 19 de abril, data em que o Brasil dedica atenção especial aos povos indígenas, o grupo Kayakuá participa de apresentações culturais para compartilhar um pouco de sua riqueza cultural. Nesses encontros, os cantos, as danças do Toré e o artesanato produzido ao longo do ano tornam-se pontes de diálogo entre os Kariri-Xocó e a sociedade, revelando a força de uma cultura que permanece viva e atuante.

Mais do que celebrar uma única data, o grupo Kayakuá busca mostrar que a presença indígena faz parte da realidade cotidiana do país. Por isso, seus integrantes convidam todos a conhecer a aldeia em qualquer período do ano, com as portas e os braços abertos. Ali, cada visitante pode aprender que os povos indígenas continuam escrevendo sua história a cada lua que passa, preservando conhecimentos ancestrais e compartilhando sua cultura com respeito, acolhimento e orgulho.





Arankié História, Significado e Missão


Arankié um dos grupos culturais de Toré do povo Kariri-Xocó, tendo como significado a palavra “céu”. Sob a liderança de Lewdirã, o grupo carrega uma importante missão dentro da cultura tradicional: manter viva a memória da ligação entre o mundo terrestre e o mundo celeste. Seu nome recorda que acima do horizonte visível existe uma morada sagrada, onde habitam os ancestrais que continuam acompanhando e protegendo seus descendentes.

Na tradição Kariri-Xocó, o céu não é apenas um espaço distante, mas uma aldeia sagrada conectada à aldeia dos vivos. É nesse plano espiritual que residem aqueles que caminharam sobre a terra antes das gerações atuais, deixando ensinamentos, cantos e exemplos de vida. Através dessa visão, a existência humana é compreendida como parte de uma grande continuidade, onde passado e presente permanecem unidos pelos laços da ancestralidade.

Quando o grupo Arankié realiza seus cantos e danças de Toré, revive-se uma herança recebida dos antigos. Cada passo, cada melodia e cada movimento carregam significados transmitidos ao longo das gerações. Os participantes tornam-se guardiões de um legado que não pertence apenas ao presente, mas também aos ancestrais que continuam vivos na memória coletiva do povo. Assim, a cultura se fortalece como uma ponte entre os mundos.

Por meio de suas apresentações, Arankié revela o lado espiritual dos cantos e danças tradicionais. Suas expressões culturais contam histórias de homens e mulheres que viveram na terra, construíram famílias, enfrentaram desafios e deixaram marcas profundas na comunidade. Dessa forma, o grupo transforma o Toré em uma celebração da memória ancestral, reafirmando que os ensinamentos dos antepassados continuam iluminando o caminho das novas gerações Kariri-Xocó.

Os grupos Kayakuá e Arankié representam importantes expressões da espiritualidade e da visão de mundo Kariri-Xocó, demonstrando que o conhecimento ancestral permanece vivo por meio dos cantos, das danças, das narrativas e das práticas coletivas transmitidas entre gerações. Ao celebrar as luas que orientam os ciclos da vida e ao recordar o céu como morada dos ancestrais, esses grupos fortalecem os laços entre passado, presente e futuro, preservando valores que sustentam a identidade do povo. Suas ações revelam que a cultura indígena continua sendo uma fonte permanente de sabedoria, capaz de ensinar sobre respeito à natureza, à memória coletiva e à continuidade da vida, mantendo acesa a chama da ancestralidade que ilumina o caminho dos Kariri-Xocó.




CAPÍTULO 7 – RESISTÊNCIA E FORTALEZA CULTURAL: GRUPOS CULTURAIS MOROCHY CRODY E MURATÃ


O caminho percorrido pelos povos indígenas ao longo dos séculos foi marcado por inúmeros desafios, mas também por uma extraordinária capacidade de resistência e renovação cultural. Entre os Kariri-Xocó, essa força manifesta-se nos grupos de toré que preservam os ensinamentos ancestrais e mantêm vivos os vínculos espirituais, familiares e comunitários herdados das gerações passadas. Neste capítulo, destacam-se os grupos Morochy Crody e Muratã, cujas trajetórias representam a firmeza de um povo que transformou a memória em instrumento de continuidade histórica, fortalecendo sua identidade por meio da cultura, da educação e da prática permanente do Toré.




Morochy Crody História, Significado e Missão


Morochy Crody é um grupo de toré do povo Kariri-Xocó, cujo nome traz o sentido de “firme e forte”. Sob a liderança de Boiada, o grupo se constitui como expressão viva da continuidade cultural, reafirmando diariamente a força de sua tradição.

A atuação do grupo está profundamente ligada à resistência cultural, marcada pela manutenção dos costumes ancestrais. Por meio dos cantos, das danças e da organização do toré, Morochy Crody reforça a ligação espiritual e coletiva com a memória do povo Kariri-Xocó.

Em suas apresentações, o grupo também estabelece o contato com a sociedade envolvente, levando o toré para além dos limites da aldeia. Nesse encontro, a pintura corporal e a arte indígena tornam-se linguagens de afirmação identitária, mostrando a riqueza de uma cultura que segue viva e atuante.

Assim, o grupo evidencia que, embora existam diferenças entre os povos, elas não significam separação, mas sim diversidade cultural. O Morochy Crody reafirma que é possível viver em um mundo plural, onde cada tradição contribui para a construção de uma convivência mais respeitosa e enriquecedora.




Muratã História, Significado e Missão


Muratã o grupo de Toré, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Seu nome carrega um significado profundo: "semente dura da terra", símbolo de resistência, força e continuidade cultural. Assim como a semente que permanece firme mesmo diante das adversidades, o grupo preserva os ensinamentos herdados dos antepassados e mantém viva a identidade indígena por meio do canto, da dança e da espiritualidade do Toré.

À frente do grupo está Weverton, liderança indígena que reside na Aldeia Karapotó de Terra Nova, no município de São Sebastião, Alagoas. Com dedicação e compromisso, ele conduz o Muratã em diversas atividades culturais, levando a mensagem de seu povo para diferentes comunidades. Por meio das apresentações de Toré, o grupo compartilha saberes ancestrais, fortalecendo o respeito às tradições indígenas e promovendo o reconhecimento da riqueza cultural dos povos originários.

Além das apresentações, os integrantes do Muratã participam de eventos em escolas, onde realizam palestras sobre a cultura indígena e expõem artesanatos produzidos por suas comunidades. Essas ações contribuem para a valorização da memória ancestral, aproximando estudantes e professores das histórias, dos costumes e dos conhecimentos preservados pelos povos indígenas ao longo das gerações.

Nos períodos de festas culturais e durante os rituais tradicionais, Weverton retorna a Porto Real do Colégio para reencontrar seus parentes Kariri-Xocó. Nesses momentos, o líder fortalece os laços familiares e espirituais que unem seu povo, participando das celebrações e das práticas tradicionais que atravessam o tempo. Assim, o Muratã segue como uma semente resistente lançada sobre a terra da memória, germinando cultura, identidade e pertencimento para as gerações presentes e futuras.

As histórias dos grupos Morochy Crody e Muratã revelam que a resistência indígena não se limita à preservação do passado, mas se expressa na capacidade de transmitir conhecimentos, fortalecer laços comunitários e projetar a cultura para o futuro. Por meio do Toré, dos cantos, das danças, das ações educativas e do compromisso com a memória ancestral, esses grupos reafirmam a vitalidade do povo Kariri-Xocó e de seus parentes indígenas. Como árvores de raízes profundas e sementes que atravessam o tempo, Morochy Crody e Muratã demonstram que a verdadeira fortaleza cultural reside na continuidade dos saberes, na união do povo e na permanência de uma identidade que segue florescendo geração após geração.





CAPÍTULO 8 – A VOZ DOS CANTOS E DA MÚSICA NATIVA: GRUPOS CULTURAIS WAKAI E BENHEKIÉ


A música sempre ocupou um lugar especial na vida dos povos indígenas, funcionando como uma ponte entre o mundo espiritual, a memória dos ancestrais e o cotidiano das comunidades. Por meio dos cantos, danças, brincadeiras e celebrações coletivas, conhecimentos, valores e tradições são transmitidos de geração em geração, fortalecendo a identidade cultural dos povos originários. Neste capítulo, destacam-se os grupos culturais Wakai e Benhekié, que, através da arte, da musicalidade e das ações educativas, mantêm viva a herança ancestral dos povos Kariri-Xocó e Fulni-ô, demonstrando que a cultura indígena continua pulsando com força, criatividade e sabedoria nos tempos atuais.




Wakai História, Significado e Missão


Wakai é um grupo cultural de música nativa formado por integrantes dos povos Kariri-Xocó e Fulni-ô, cuja trajetória está profundamente ligada à valorização das tradições indígenas e à preservação dos conhecimentos ancestrais. Seu nome tem origem na língua Yatê, falada pelo povo Fulni-ô, e significa “açude” ou “lagoa”, elementos que simbolizam vida, renovação e a forte ligação dos povos indígenas com a natureza. O grupo também carrega o nome indígena de seu líder, Wakai, conhecido como Mocó, que se tornou uma importante referência na difusão da cultura nativa.

Ao longo dos anos, o grupo consolidou sua atuação em diversos espaços educativos e culturais, levando a música indígena, a história dos povos originários e suas tradições para escolas, teatros e instituições de ensino. Por meio de apresentações artísticas, palestras e atividades culturais, Wakai tem contribuído para ampliar o conhecimento da sociedade sobre a riqueza cultural dos povos indígenas do Nordeste brasileiro, fortalecendo o diálogo entre diferentes comunidades.

No final da década de 1990, Wakai realizou um importante trabalho de registro e preservação cultural ao gravar um CD com músicas interpretadas na língua Yatê. Esse projeto ajudou a divulgar a musicalidade indígena para um público mais amplo e a valorizar uma das línguas nativas ainda vivas no Brasil. Nos anos seguintes, novas gravações e regravações deram continuidade a esse trabalho, mantendo viva a memória musical e fortalecendo a identidade cultural dos povos envolvidos.

Atualmente, o grupo desenvolve suas atividades principalmente na cidade de Salvador e em diversos municípios do interior da Bahia. Em Itinga, no município de Lauro de Freitas, mantém o Centro Cultural Tháfene e a Reserva Ambiental Memboré, espaços dedicados à promoção da cultura indígena, à educação, à preservação ambiental e ao fortalecimento das tradições ancestrais. Dessa forma, Wakai segue construindo uma importante ponte entre passado e presente, unindo música, conhecimento e respeito à natureza em favor da valorização dos povos indígenas.




Benhekié História, Significado e Missão


Benhekié é o nome de um grupo cultural de toré que carrega consigo a alegria e a força das tradições do povo Kariri-Xocó. Na língua Kariri, Benhekié significa “brincar”, expressão que traduz o espírito de união, aprendizado e celebração presente em suas atividades. Sob a liderança de Tawca pertencente ao tronco familiar Suré. É filho de Suré, neto de Suré, um dos antigos representantes dessa família tradicional, cuja trajetória permanece viva na memória da comunidade."

As atividades do Benhekié acontecem principalmente na Aldeia Fulkaxo, localizada no município de Pacatuba, em Sergipe, mas seus integrantes também levam suas ações para a cidade de Aracaju. Em cada apresentação, o grupo compartilha saberes tradicionais, fortalecendo os laços entre as comunidades indígenas e a sociedade envolvente.

Entre as muitas iniciativas desenvolvidas pelo grupo está a produção e comercialização de artesanatos inspirados em brinquedos indígenas tradicionais. Essas miniaturas representam não apenas uma fonte de renda para as famílias envolvidas, mas também uma forma de transmitir conhecimentos culturais às novas gerações, preservando histórias, costumes e modos de vida herdados dos ancestrais.

Além do artesanato, o Benhekié realiza apresentações de toré, palestras e atividades educativas em escolas e outros espaços culturais. O grupo também promove ações solidárias, recebendo doações de alimentos para auxiliar famílias da comunidade. Dessa forma, Benhekié segue cumprindo sua missão de brincar, ensinar, compartilhar e fortalecer a identidade indígena através da cultura, da solidariedade e da preservação das tradições ancestrais.

As trajetórias dos grupos Wakai e Benhekié revelam a importância da música, da arte e da brincadeira como instrumentos de preservação cultural e fortalecimento identitário. Seja por meio dos cantos na língua Yatê, das apresentações de toré, da produção de artesanato tradicional ou das atividades educativas desenvolvidas junto às comunidades, ambos os grupos desempenham um papel fundamental na valorização dos saberes ancestrais. Suas ações demonstram que a cultura indígena permanece viva e dinâmica, renovando-se a cada geração sem perder suas raízes. Assim, Wakai e Benhekié tornam-se verdadeiros guardiões da memória e da alegria dos povos originários, assegurando que as vozes dos ancestrais continuem ecoando através da música, da solidariedade e da transmissão dos conhecimentos tradicionais.




CAPÍTULO 9 – OS GUARDIÕES DO TRABALHO E DA PARTILHA: GRUPOS CULTURAIS KETÇÃ E PIRATÃ


Neste capítulo, conhecemos a trajetória dos grupos culturais Ketçã e Piratã, guardiões de valores fundamentais para a vida coletiva do povo Kariri-Xocó. Suas histórias revelam a importância da solidariedade, da partilha dos alimentos, do trabalho comunitário e da valorização dos saberes artesanais como formas de fortalecer a identidade indígena. Inspirados pelos ensinamentos ancestrais, esses grupos demonstram que a cultura não se manifesta apenas nos cantos e danças do Toré, mas também nos gestos de cuidado, cooperação e apoio mútuo que garantem o bem-estar da comunidade.




Ketçã História, Significado e Missão


Ketçã é o nome de um grupo de Toré do povo Kariri-Xocó, guardião de uma palavra antiga que carrega um significado especial na língua Kariri: “comer depressa”. Mais do que uma simples expressão, Ketçã representa um ensinamento transmitido pelos ancestrais sobre a importância do alimento para a vida. Em sua essência, lembra que a comida é uma necessidade fundamental e que, diante da fome, alimentar-se torna-se prioridade para todos.

Entre os Kariri-Xocó, o nome Ketçã ganhou também um sentido simbólico ligado à solidariedade e ao cuidado coletivo. Ele recorda os tempos em que as famílias precisavam compartilhar os frutos da caça, da pesca, da agricultura e da coleta para garantir a sobrevivência da comunidade. Assim, a palavra tornou-se uma lembrança permanente de que ninguém deve passar necessidade quando existe união entre os parentes e amigos.

À frente do grupo está Juninho, descendente das tradicionais famílias Suíra e Pirigipe. Sob sua liderança, o Ketçã fortalece a cultura do Toré e leva adiante os valores herdados dos mais velhos. Em cada apresentação, o grupo reafirma a identidade Kariri-Xocó, preservando cantos, danças e saberes que fazem parte da memória viva de seu povo.

A atuação do Ketçã se estende por diversas cidades do Baixo São Francisco, onde seus integrantes realizam apresentações culturais, palestras e comercializam artesanatos produzidos pela comunidade. Além de divulgar a riqueza da cultura indígena, o grupo também promove ações solidárias, recebendo doações de alimentos que são destinadas ao bem-estar coletivo, fortalecendo os laços de ajuda mútua e de compromisso com a comunidade Kariri-Xocó.




Piratã História, Significado e Missão


Piratã é um dos grupos de Toré do povo Kariri-Xocó, carregando em seu nome um significado especial: “peixe duro”. Ao longo dos anos, o grupo tornou-se conhecido não apenas por suas apresentações culturais, mas também pelo compromisso com o fortalecimento da economia da aldeia. Sua liderança é exercida por Piuí, homem dedicado às tradições e às necessidades de seu povo.

Nas ocasiões festivas e encontros culturais, os integrantes do Piratã entoam os cantos do Toré e participam das danças que preservam a memória ancestral dos Kariri-Xocó. Cada apresentação representa um momento de reafirmação da identidade indígena, transmitindo aos mais jovens os conhecimentos herdados dos antepassados e fortalecendo os laços entre as famílias da comunidade.

Mas a missão do grupo vai além das celebrações culturais. Em muitas casas da aldeia existem pequenas oficinas familiares onde são produzidos artesanatos de diferentes tipos. São peças confeccionadas com dedicação, utilizando saberes tradicionais passados de geração em geração. Nem sempre, porém, esses produtos encontram compradores com facilidade, fazendo com que muitos artesãos acumulem suas obras sem conseguir transformá-las em renda.

Percebendo essa realidade, Piuí passou a adquirir os artesanatos produzidos pelos moradores, reunindo as peças para comercialização em eventos, feiras e apresentações. Dessa forma, o grupo Piratã tornou-se também um importante elo de apoio econômico para a comunidade. Ao valorizar o trabalho dos artesãos, contribui para melhorar a renda das famílias e ajuda a manter vivas as tradições culturais que fazem parte da história do povo Kariri-Xocó.

As experiências dos grupos Ketçã e Piratã mostram que a força de um povo se constrói pela união entre tradição, trabalho e generosidade. Enquanto o Ketçã mantém viva a memória da partilha e do cuidado com aqueles que mais necessitam, o Piratã transforma a valorização do artesanato em instrumento de fortalecimento econômico e cultural. Juntos, esses grupos preservam ensinamentos herdados dos ancestrais e demonstram que a verdadeira riqueza dos Kariri-Xocó está na capacidade de caminhar coletivamente, compartilhando conhecimentos, oportunidades e esperanças para as futuras gerações.





CAPÍTULO 10 – CAMINHOS DE ENCONTRO E MOVIMENTO: GRUPOS CULTURAIS BOCUWIÁ E WYRIÇÁ


Ao longo da história do povo Kariri-Xocó, os caminhos sempre foram mais do que simples trajetos entre lugares. Eles representam encontros, trocas de conhecimentos, fortalecimento de alianças e oportunidades de compartilhar a riqueza cultural herdada dos ancestrais. Neste capítulo, destacam-se os grupos culturais Bocuwiá e Wyriçá, cujas jornadas ultrapassam os limites da aldeia para levar o Toré, os saberes tradicionais e o artesanato indígena a diferentes regiões. Por meio de suas viagens e ações coletivas, esses grupos tornam-se importantes embaixadores da cultura Kariri-Xocó, promovendo o diálogo entre povos, fortalecendo a identidade indígena e construindo pontes de respeito e valorização cultural.




Bocuwiá História, Significado e Missão


Bocuwiá o grupo de toré que carrega em seu nome uma mensagem de movimento, encontro e partilha. Na língua Kariri, Bocuwiá significa “vamos”, um convite que ecoa entre os cantos, os passos da dança e o espírito de união do povo Kariri-Xocó. Liderado por Gil, o grupo tornou-se uma importante ponte entre a aldeia e os diferentes espaços onde a cultura indígena é apresentada e valorizada.

Por meio do Toré, os integrantes do Bocuwiá levam para além dos limites da aldeia os conhecimentos, as histórias e os costumes herdados dos ancestrais. As apresentações acontecem em escolas, universidades, eventos culturais e diversos centros urbanos, onde o público tem a oportunidade de conhecer um pouco da riqueza cultural do povo Kariri-Xocó. Ao mesmo tempo, essas viagens fortalecem a divulgação e a comercialização do artesanato produzido na comunidade.

Durante as apresentações, o Toré não é apenas um espetáculo para ser observado. Muitas vezes, os visitantes são convidados a participar da dança, formando um grande círculo de convivência e respeito. Nesse momento, os cantos e os movimentos tornam-se uma linguagem capaz de aproximar pessoas de diferentes origens, promovendo o intercâmbio cultural e a valorização dos saberes indígenas.

É justamente nesse espírito de acolhimento que a expressão Bocuwiá ganha seu significado mais profundo: “vamos”. Vamos conhecer, aprender, compartilhar e dançar juntos. Assim, o grupo segue sua caminhada, levando a cultura Kariri-Xocó para novos lugares e mostrando que a verdadeira aprendizagem nasce da convivência, do respeito mútuo e da sintonia com as tradições que mantêm viva a memória do povo.



Wyriçá História, Significado e Missão


Wyriçá é o nome de um grupo cultural de toré do povo Kariri-Xocó, cujo significado é “formiga da terra”. Assim como as formigas trabalham em união e perseverança, o grupo carrega em sua trajetória os valores da coletividade, da resistência cultural e do fortalecimento da identidade indígena. Sua liderança é exercida por Rovésio Tenório, pertencente ao tradicional clã Tibiriçá, que conduz as atividades do grupo com dedicação à cultura de seu povo.

As caminhadas de Wyriçá ultrapassam os limites da aldeia e alcançam diferentes regiões do Brasil, especialmente a cidade de São Paulo, onde realiza apresentações de toré e divulga a riqueza cultural Kariri-Xocó. Durante essas viagens, o grupo leva consigo não apenas os cantos, danças e saberes ancestrais, mas também o artesanato produzido pelos parentes da aldeia, tornando-se uma importante ponte entre a tradição indígena e o público das escolas e instituições que visita.

O trabalho de comercialização dos artesanatos representa uma valiosa contribuição para as famílias artesãs da comunidade. Ao adquirir peças produzidas pelos parentes Kariri-Xocó para revenda durante suas apresentações, Wyriçá ajuda a ampliar a geração de renda e incentiva a continuidade dos conhecimentos tradicionais transmitidos de geração em geração. Dessa forma, cultura e economia caminham juntas em benefício do povo.

Na Aldeia Kariri-Xocó, o grupo mantém suas ações educativas e culturais no espaço Aldeia Cultural Opará Taré, ligado ao seu clã familiar. Ali, estudantes e visitantes têm a oportunidade de conhecer aspectos da história, da língua, do toré e das tradições indígenas. Por meio dessas atividades, Wyriçá continua semeando conhecimento, fortalecendo a memória ancestral e contribuindo para que as futuras gerações mantenham viva a herança cultural de seu povo.

As trajetórias de Bocuwiá e Wyriçá demonstram que a cultura Kariri-Xocó permanece viva quando caminha junto com seu povo. Seja nos círculos do Toré, nas apresentações culturais, nos espaços educativos ou na divulgação do artesanato tradicional, ambos os grupos transformam cada viagem em uma oportunidade de ensinar, aprender e fortalecer laços de amizade e respeito. Como mensageiros da memória ancestral, seguem abrindo caminhos para que as novas gerações conheçam e valorizem sua herança cultural, provando que a força de um povo também se revela na capacidade de compartilhar sua história, preservar suas tradições e construir encontros que unem diferentes mundos em torno da sabedoria indígena.




CAPÍTULO 11 – LIDERANÇAS E DESPERTARES: GRUPOS CULTURAIS SABUCÁ E YEGERI


O fortalecimento de um povo depende não apenas da preservação de suas tradições, mas também da existência de lideranças capazes de despertar consciências, transmitir conhecimentos e mobilizar a comunidade em torno de objetivos coletivos. Entre os Kariri-Xocó, os grupos culturais Sabucá e Yegeri representam essa importante missão de educar, inspirar e promover o reconhecimento da identidade indígena. Por meio da cultura, do ensino, da solidariedade e da valorização dos saberes ancestrais, esses grupos contribuem para a formação de novas gerações conscientes de suas raízes e comprometidas com a continuidade da memória de seu povo.




Sabucá  História, Significado e Missão


Sabucá o grupo cultural Kariri-Xocó que se destaca, mantêm viva a tradição do povo Kariri-Xocó. O nome Sabucá significa “galo”, ave que simboliza o despertar, a vigilância e a força da comunidade. Sob a liderança de Pawanã, o grupo tornou-se um importante guardião dos saberes ancestrais, fortalecendo a identidade indígena por meio da preservação dos cantos, danças e ensinamentos transmitidos de geração em geração.

Na Terra Indígena Kariri-Xocó, o grupo mantém o Centro Cultural Sabucá, espaço dedicado à valorização e difusão da cultura tradicional. Ali são realizadas oficinas de artesanato, cursos de pintura corporal, ensinamentos sobre os cantos e danças do toré, além da preservação dos cantos de trabalho em mutirão, conhecidos como rojão. O centro tornou-se um lugar de aprendizado, encontro e fortalecimento da memória coletiva do povo.

O Sabucá também abre suas portas para visitantes, estudantes e pesquisadores interessados em conhecer mais profundamente a cultura indígena. Durante as vivências culturais, os participantes têm a oportunidade de ouvir histórias tradicionais, experimentar comidas típicas e participar de atividades que revelam a riqueza dos costumes Kariri-Xocó. Dessa forma, o grupo promove o diálogo entre diferentes culturas e contribui para a valorização dos povos originários.

Além das atividades realizadas na aldeia, o grupo leva suas apresentações para escolas e eventos em diversas regiões do Brasil, especialmente nas capitais das regiões Sul e Sudeste. À frente dessas ações está Pawanã, que também atua como professor de cultura indígena na Escola Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas. Por meio de seu trabalho como educador e líder cultural, ele contribui para que os conhecimentos ancestrais continuem vivos e sejam transmitidos às novas gerações.




Yegeri História, Significado e Missão


Yegeri o grupo de Toré do povo Kariri-Xocó, cuja denominação significa “Grande Giri”, expressão associada aos antigos chamadores de chuva, guardiões de saberes ancestrais ligados à natureza e à espiritualidade indígena. Sob a liderança de Nelcide, mulher indígena Kariri-Xocó comprometida com a valorização da cultura de seu povo, o grupo tornou-se uma importante referência na divulgação das tradições da aldeia.

As atividades do Yegeri acontecem principalmente nas escolas da cidade de Maceió, em Alagoas, onde seus integrantes compartilham conhecimentos sobre a história, os costumes e a identidade indígena. Por meio das apresentações de Toré, os estudantes e educadores têm a oportunidade de conhecer uma manifestação cultural que reúne canto, dança, espiritualidade e memória coletiva, fortalecendo o respeito à diversidade dos povos originários.

Além das apresentações culturais, o grupo também promove a exposição e a venda de artesanatos produzidos na aldeia. Essas peças carregam símbolos, técnicas e conhecimentos transmitidos entre gerações, contribuindo para a valorização da arte indígena e para a geração de renda das famílias. Durante os eventos, também são arrecadadas doações de alimentos destinadas às famílias mais necessitadas da comunidade, fortalecendo os laços de solidariedade.

O período de maior atuação do Yegeri ocorre no mês de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas, quando as questões relacionadas aos povos originários ganham maior visibilidade na sociedade. Nessa época, o grupo intensifica suas atividades culturais e educativas, levando a mensagem de resistência, identidade e preservação cultural a diferentes públicos, mantendo viva a herança ancestral do povo Kariri-Xocó.

As trajetórias dos grupos Sabucá e Yegeri demonstram que a liderança cultural é uma das forças mais importantes para a preservação e o fortalecimento da identidade Kariri-Xocó. Seja por meio da educação, das apresentações culturais, da transmissão dos saberes tradicionais ou das ações de solidariedade comunitária, ambos os grupos mantêm viva a herança ancestral recebida dos mais velhos. Assim, seus integrantes tornam-se verdadeiros semeadores de consciência, despertando o orgulho de pertencer ao povo Kariri-Xocó e assegurando que os cantos, as histórias, os ensinamentos e os valores dos antepassados continuem ecoando entre as gerações presentes e futuras.




CAPÍTULO 12 – OS ELEMENTOS DA NATUREZA E DA VIDA: GRUPOS CULTURAIS KAÇAFEITA E KAYOMÃ


Entre os povos indígenas, os elementos da natureza não são apenas partes do mundo físico, mas também expressões vivas dos ensinamentos transmitidos pelos ancestrais. No universo cultural Kariri-Xocó, o fogo e o vento representam forças de transformação, movimento, sabedoria e continuidade da vida. É nesse contexto que se destacam os grupos culturais Kaçafeita e Kayomã, guardiões de conhecimentos que unem maturidade, responsabilidade e compromisso com a preservação da identidade coletiva. Por meio do Toré, das práticas culturais e da transmissão dos saberes tradicionais, esses grupos mantêm acesa a chama da memória ancestral, fortalecendo os vínculos entre passado, presente e futuro.




Kaçafeita História, Significado e Missão


Kaçafeita é um grupo de Toré pertencente ao povo Kariri-Xocó, cuja denominação, na compreensão cultural, significa “homem feito”, isto é, a pessoa já adulta que passou pelos processos de formação e responsabilidade dentro da tradição. Nesse contexto, o uso da calça também marca simbolicamente essa fase de maturidade, e o grupo se organiza sob a liderança de Coção, que conduz as atividades e orienta os trabalhos culturais.

Dentro da Terra Indígena Kariri-Xocó, o Kaçafeita mantém um espaço próprio de atuação cultural, onde recebe visitantes, turistas e estudantes interessados em conhecer mais de perto a tradição do Toré e seus significados. Nesse ambiente, as apresentações não são apenas espetáculos, mas momentos de reafirmação da identidade, da memória e da espiritualidade do povo.

Além das apresentações do Toré, o grupo também desenvolve práticas de “terapia nativa”, voltadas ao bem-estar e ao equilíbrio espiritual, além da produção e venda de artesanatos que expressam a criatividade e a ancestralidade Kariri-Xocó. Essas atividades fortalecem a economia local e ajudam a manter viva a circulação dos saberes tradicionais.

Desde o ano de 1998, o Kaçafeita também ampliou sua atuação para além do território indígena, realizando trabalhos culturais na cidade de São Paulo. Nesse intercâmbio contínuo com escolas e universidades, o grupo compartilha conhecimentos, histórias e práticas tradicionais ao longo de todo o ano, contribuindo para o diálogo entre culturas e para a valorização da presença indígena na sociedade contemporânea.




Kayomã História, Significado e Missão


Kayomã grupo de Toré do povo Kariri-Xocó, significa 'Fogo que Traz o Vento'. Entre os grupos de Toré do povo Kariri-Xocó, destaca-se o Kayomã, nome que carrega o significado de “Fogo que traz o vento”. Sob a liderança de Ailton, o grupo tornou-se uma importante referência cultural na aldeia, preservando e compartilhando os saberes ancestrais por meio dos cantos, danças e tradições do Toré. Seu nome simboliza a força do fogo que aquece e ilumina, acompanhado pelo vento que espalha sua energia e leva sua mensagem para além das fronteiras da comunidade.

Durante muitos anos, os integrantes do Kayomã percorreram diferentes caminhos levando a cultura Kariri-Xocó para outros lugares. Entre essas jornadas, destacam-se as viagens para a cidade de Salvador, na Bahia, onde realizavam apresentações de Toré e mostravam ao público a riqueza das tradições indígenas. Essas experiências permitiram que muitas pessoas conhecessem um pouco da história, da espiritualidade e da identidade cultural preservadas pelo povo Kariri-Xocó.

Com o passar do tempo, porém, uma nova visão começou a orientar o trabalho do grupo. Em vez de levar a cultura apenas para fora da aldeia, chegou o momento de convidar as pessoas a conhecerem diretamente o território onde essa tradição permanece viva. Assim, o espaço cultural do Kayomã passou a receber visitantes vindos de diversas regiões do Brasil e também do exterior, proporcionando encontros marcados pelo diálogo, pela troca de conhecimentos e pelo respeito às raízes indígenas.

Hoje, a aldeia cultural do Kayomã tornou-se um lugar de aprendizado e convivência. Ali, os visitantes participam de vivências com as ceramistas, conhecem a culinária tradicional, acompanham manifestações culturais e encontram artesanatos produzidos pelas mãos habilidosas da comunidade. Dessa forma, o grupo segue cumprindo sua missão de manter acesa a chama da cultura Kariri-Xocó, como um fogo ancestral que, conduzido pelo vento, continua levando memória, conhecimento e identidade para as novas gerações e para todos aqueles que desejam conhecer a riqueza desse povo.

As trajetórias dos grupos Kaçafeita e Kayomã demonstram que a cultura se fortalece quando é vivida com responsabilidade e compartilhada com respeito. Enquanto o Kaçafeita simboliza a maturidade alcançada por aqueles que assumem seu papel na comunidade, o Kayomã representa a força transformadora do fogo ancestral conduzido pelos ventos da renovação. Juntos, esses grupos revelam que a tradição Kariri-Xocó permanece viva porque encontra em cada geração homens e mulheres dispostos a proteger, ensinar e transmitir os conhecimentos recebidos dos mais velhos. Assim, como o fogo que ilumina e o vento que espalha suas sementes, a cultura Kariri-Xocó continua seu caminho, renovando a memória de seus ancestrais e inspirando os que virão.






CONSIDERAÇÕES FINAIS



A história dos grupos de Toré do povo Kariri-Xocó revela muito mais do que a existência de organizações culturais; ela demonstra a continuidade de uma herança ancestral construída ao longo de inúmeras gerações. Cada grupo apresentado nesta obra representa uma expressão singular da memória coletiva, reunindo conhecimentos, práticas espirituais, cantos, danças, artes, formas de educação tradicional e modos próprios de compreender a relação entre o ser humano, a natureza e o sagrado.

Ao percorrer os caminhos dos grupos Etçãmy, Wyanã, Pawí, Suré, Apony, Thydjo, Dzú, Dzubukuá, Takayoá, Swbatekié, Kayakuá, Arankié, Morochy Crody, Muratã, Wakai, Benhekié, Ketçã, Piratã, Bocuwiá, Wyriçá, Sabucá, Yegeri, Kaçafeita e Kayomã, torna-se evidente a riqueza cultural existente dentro do povo Kariri-Xocó. Cada nome, cada significado e cada missão refletem valores profundamente ligados à ancestralidade, à coletividade, ao respeito pelos mais velhos e à preservação dos conhecimentos tradicionais.

Os grupos de Toré assumem funções que vão além das apresentações culturais. Eles atuam como escolas de identidade, centros de memória, espaços de fortalecimento espiritual, agentes de solidariedade comunitária e instrumentos de diálogo entre a cultura indígena e a sociedade envolvente. Por meio de suas ações, garantem que os ensinamentos dos ancestrais continuem vivos e acessíveis às novas gerações.

Este livro também representa um esforço de transformar a tradição oral em registro escrito, contribuindo para a preservação de conhecimentos que durante séculos foram transmitidos principalmente pela palavra falada, pelos cantos e pela convivência comunitária. Ao registrar essas histórias, busca-se fortalecer a memória do povo Kariri-Xocó e oferecer às futuras gerações uma fonte de consulta sobre parte importante de seu patrimônio cultural.

Por fim, esta obra reafirma que a cultura indígena não pertence apenas ao passado. Ela permanece viva, dinâmica e em constante renovação. Enquanto houver um canto de Toré ecoando na aldeia, uma criança aprendendo os ensinamentos dos mais velhos, um artesão produzindo suas peças tradicionais ou uma liderança compartilhando sua sabedoria, a memória ancestral continuará caminhando junto ao povo Kariri-Xocó, iluminando os caminhos do presente e do futuro.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Grupos de Toré. Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2019/04/os-grupos-de-tore.html?m=0. Acesso em: 21 jun. 2026.

SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2025.






SOBRE O AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Terra Indígena localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias da tradição oral e escrita, dedica-se à preservação da memória histórica, cultural e ancestral de seu povo por meio da pesquisa, da escrita e da valorização dos conhecimentos transmitidos pelas gerações mais antigas.

Ao longo de sua trajetória, tem desenvolvido estudos sobre história indígena, genealogias familiares, manifestações culturais, língua tradicional, espiritualidade, memória oral e patrimônio imaterial dos povos originários do Nordeste brasileiro. Seus trabalhos buscam registrar conhecimentos que historicamente foram preservados pela oralidade, contribuindo para a continuidade da identidade cultural Kariri-Xocó.

Como pesquisador independente, escritor e agente cultural, utiliza a literatura como instrumento de fortalecimento da memória coletiva, promovendo o diálogo entre tradição e escrita. Seus livros e pesquisas constituem importantes contribuições para a valorização dos saberes indígenas e para a difusão da história de seu povo junto às futuras gerações.

Blog do autor: 


https://kxnhenety.blogspot.com

Terra Indígena Kariri-Xocó Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil




             




Autor: Nhenety Kariri-Xocó