quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DAS GRANDES PROPRIEDADES RURAIS DA ANTIGUIDADE AO BRASIL E SUA INFLUÊNCIA NA ESTRUTURAÇÃO DAS CIDADES






1 INTRODUÇÃO



A terra, enquanto espaço produtivo e simbólico, constituiu elemento central na organização das sociedades humanas. Desde a Antiguidade clássica até o Brasil, as grandes propriedades rurais moldaram estruturas econômicas e sociais. No caso brasileiro, sua consolidação esteve associada às contribuições indígenas e africanas, frequentemente invisibilizadas pela historiografia tradicional¹.



2 DESENVOLVIMENTO


2.1 Estruturas agrárias na Antiguidade


Na Grécia Antiga, a produção agrícola sustentava a pólis². Pequenas e médias propriedades garantiam a autonomia alimentar das cidades-estado.

Posteriormente, na Roma Antiga, consolidaram-se os latifundia³, grandes propriedades voltadas à produção comercial. Essas unidades abasteciam a cidade de Roma e dependiam amplamente do trabalho escravo⁴.



2.2 A reorganização fundiária medieval


Com a fragmentação do Império Romano, a terra tornou-se o principal elemento de poder político e econômico. O sistema feudal estruturou-se em torno dos feudos⁵, compostos por terras do senhor e parcelas cultivadas por servos.

Ao redor dessas unidades produtivas surgiram vilas e burgos⁶, embriões do renascimento urbano europeu.



2.3 A formação das fazendas no Brasil e a contribuição indígena


Quando os portugueses chegaram ao território americano, encontraram sociedades indígenas com sistemas agrícolas consolidados⁷. Técnicas como o cultivo da mandioca e o uso da coivara⁸ foram incorporadas à economia colonial.

Os povos originários também desempenharam papel fundamental na abertura de caminhos, na orientação geográfica e na adaptação da produção agrícola ao clima tropical.



2.4 A matriz africana na consolidação das fazendas


A economia açucareira, mineradora e cafeeira estruturou-se com base no trabalho de africanos escravizados⁹. Contudo, esses grupos trouxeram conhecimentos agrícolas, metalúrgicos e culturais que marcaram profundamente a formação da sociedade brasileira¹⁰.

As fazendas tornaram-se espaços de resistência cultural¹¹, onde práticas religiosas, musicais e alimentares africanas foram preservadas e transformadas.



2.5 A transição rural-urbana no Brasil


No século XIX, com a expansão cafeeira em regiões como São Paulo e Minas Gerais, consolidou-se o capital agrícola que financiaria ferrovias e núcleos urbanos¹².

A cidade brasileira formou-se como espaço multicultural, resultado da interação entre matrizes europeias, indígenas e africanas.



2.6 Povos do Nordeste e do Vale do São Francisco: territorialidade, fazendas e formação urbana


No Nordeste colonial, especialmente na região do Vale do Rio São Francisco, a formação das fazendas esteve diretamente relacionada aos processos de ocupação territorial, expansão pecuária e reorganização dos povos indígenas locais.


O Vale do São Francisco constituiu eixo estratégico de interiorização da colonização portuguesa, articulando o litoral açucareiro com o sertão pecuarista. A pecuária expandiu-se ao longo do rio como atividade complementar ao açúcar, fornecendo carne, couro e animais de tração para os engenhos.


Nesse contexto, a formação de fazendas no interior nordestino não ocorreu em território vazio, mas sobre espaços tradicionalmente ocupados por diversos povos indígenas¹³. Entre esses povos destacam-se os grupos Kariri, que habitavam extensas áreas do sertão e do baixo São Francisco.


2.6.1 A Fazenda Urubumirim e a formação de Porto Real do Colégio


Segundo MATA (1989; 2014), a colonização da região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, está vinculada à formação da Fazenda Urubumirim, datada de 1675. Essa fazenda tornou-se núcleo estruturante da ocupação territorial na área, integrando-se ao movimento de expansão agropecuária no baixo São Francisco.


A implantação da fazenda articulava:


Exploração pecuária;


Controle territorial;


Catequese e política indigenista colonial;


Consolidação de estruturas administrativas.


A região também foi marcada pela presença de missões religiosas, que atuaram na reorganização dos povos indígenas locais sob o modelo colonial¹⁴. A dinâmica entre fazenda, missão e aldeamento configurou uma nova organização territorial.


Contudo, conforme demonstra MATA (2014), o processo não significou desaparecimento cultural, mas transformação e resistência. O povo Kariri-Xocó manteve estratégias de afirmação identitária e continuidade territorial mesmo diante da integração forçada ao sistema colonial.



2.6.2 Estrutura social e econômica no Vale do São Francisco


As fazendas do Vale do São Francisco apresentavam características específicas:


Predominância da pecuária extensiva;


Uso de mão de obra indígena e posteriormente africana;


Formação de redes comerciais fluviais;


Surgimento de núcleos populacionais ao redor das propriedades.


O rio São Francisco funcionava como via de circulação econômica e cultural¹⁵, conectando diferentes regiões do Nordeste. Ao redor das fazendas surgiam capelas, armazéns e povoados que, gradualmente, evoluíam para vilas e municípios.


A formação de Porto Real do Colégio insere-se nesse contexto histórico, em que a fazenda não era apenas unidade produtiva, mas núcleo de reorganização territorial e social.



3 CONCLUSÃO



A evolução das grandes propriedades rurais demonstra continuidade estrutural desde a Antiguidade até o Brasil. Entretanto, no contexto brasileiro, a formação das cidades foi resultado de um processo multicultural e assimétrico.


Reconhecer as contribuições indígenas e africanas permite compreender a urbanização brasileira não apenas como fenômeno econômico, mas como construção histórica marcada por resistência, adaptação e síntese cultural.


A análise histórica evidencia que as grandes propriedades rurais exerceram papel central na formação das cidades desde a Antiguidade. No entanto, no Brasil — e particularmente no Nordeste e no Vale do São Francisco — esse processo esteve profundamente vinculado à territorialidade indígena e à presença africana.


A Fazenda Urubumirim, fundada em 1675, representa exemplo concreto da transformação do espaço indígena em unidade produtiva colonial, ao mesmo tempo em que revela processos de resistência e continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.


Dessa forma, compreender a formação urbana de Porto Real do Colégio e de outras localidades nordestinas implica reconhecer a fazenda como espaço de disputa, adaptação e permanência histórica.



NOTAS DE RODAPÉ



¹ A historiografia tradicional priorizou a perspectiva europeia, reduzindo o protagonismo indígena e africano.

² Pólis: cidade-estado grega caracterizada por autonomia política e econômica.

³ Latifundia: grandes propriedades rurais romanas destinadas à produção comercial em larga escala.

⁴ O trabalho escravo em Roma era resultado, sobretudo, das guerras de expansão territorial.

⁵ Feudo: unidade territorial da sociedade medieval baseada na posse senhorial da terra.

⁶ Burgos: núcleos urbanos que surgiram próximos a castelos ou rotas comerciais medievais.

⁷ Antes da colonização, povos indígenas já praticavam agricultura diversificada e manejo ambiental sustentável.

⁸ Coivara: técnica agrícola indígena baseada na queima controlada da vegetação para fertilização do solo.

⁹ O tráfico atlântico trouxe milhões de africanos para o Brasil entre os séculos XVI e XIX.

¹⁰ Muitos saberes agrícolas africanos foram fundamentais para o sucesso da produção açucareira e cafeeira.

¹¹ Resistência cultural refere-se à preservação de práticas religiosas, linguísticas e comunitárias mesmo sob regime de opressão.

¹² A expansão ferroviária brasileira esteve diretamente ligada à economia cafeeira do século XIX.

¹³ O sertão nordestino era habitado por diversos grupos indígenas antes da expansão colonial portuguesa.

¹⁴ As missões religiosas tinham como objetivo catequizar e integrar os povos indígenas ao sistema colonial.

¹⁵ O Rio São Francisco foi importante eixo econômico, cultural e estratégico na interiorização do Brasil colonial.




REFERÊNCIAS




FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FINLEY, Moses I. A economia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1990.


FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.


MATA, Vera Lúcia Calheiros da. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. 2014. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DOS IMPÉRIOS COLONIZADORES E OS IMPACTOS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL






Introdução


A história da colonização constitui um dos fenômenos estruturantes da formação política, econômica e cultural do mundo antigo e moderno. Desde as primeiras expansões marítimas no Mediterrâneo até a colonização europeia da América, diferentes civilizações desenvolveram modelos próprios de ocupação territorial além de seus núcleos originários. Este estudo analisa, em perspectiva cronológica, os principais povos colonizadores da Antiguidade — fenícios, gregos e romanos — a ocupação da Península Ibérica e, posteriormente, a expansão ultramarina portuguesa, culminando na colonização do Brasil, com destaque para a Capitania de Pernambuco (Nova Lusitânia) e seus impactos estruturais.


Desenvolvimento Cronológico


1. As Primeiras Experiências Colonizadoras na Antiguidade


Os habitantes da região da Fenícia, a partir do século XII a.C., foram pioneiros na colonização marítima comercial. Estabeleceram entrepostos ao longo do Mediterrâneo, destacando-se a fundação de Cartago por volta de 814 a.C. Seu modelo consistia em colônias autônomas voltadas ao comércio.

Entre os séculos VIII e VI a.C., a Grécia Antiga expandiu-se pelo Mediterrâneo e Mar Negro. Fundou colônias como Massália (c. 600 a.C.), no sul da atual França. Diferentemente dos fenícios, as colônias gregas tornavam-se cidades independentes, mas preservavam vínculos culturais com a pólis de origem.

O Império Romano, a partir do século III a.C., consolidou um modelo distinto: a colonização militar e administrativa. Suas colônias serviam para fixar veteranos de guerra e assegurar domínio territorial nas regiões conquistadas.

O Egito Antigo, por sua vez, expandiu-se por conquistas militares na Núbia e no Levante, mas não desenvolveu um sistema amplo de colonização marítima.


2. A Península Ibérica: Espaço de Colonização e Conquista


A Península Ibérica tornou-se palco de sucessivas ocupações:

Século XI a.C.: presença fenícia, com fundação de Gadir (atual Cádiz).

Séculos VI–III a.C.: domínio cartaginês.

218 a.C.: início da conquista romana durante a Segunda Guerra Púnica.

711 d.C.: invasão islâmica e formação de Al-Andalus.

Esse processo moldou profundamente a cultura ibérica, cuja herança seria transportada posteriormente para a América.


3. A Expansão Ultramarina Portuguesa


A expansão portuguesa iniciou-se em 1415 com a conquista de Ceuta, marco da expansão atlântica. Ao longo do século XV, Portugal estabeleceu colônias e entrepostos na África, Ásia e ilhas atlânticas.

No Brasil, a colonização sistemática iniciou-se em 1534 com o sistema de Capitanias Hereditárias. A Capitania de Pernambuco, denominada Nova Lusitânia, foi criada nesse contexto, tornando-se um dos principais centros da economia açucareira.

Impactos da Colonização Portuguesa no Brasil


1. Impactos Culturais


Imposição da língua portuguesa.

Expansão do catolicismo.

Formação de cultura híbrida luso-afro-indígena.

Sincretismo religioso.

Transformação das estruturas culturais originárias.


2. Impactos Econômicos


Implantação do sistema de plantation.

Monocultura da cana-de-açúcar.

Escravização de povos africanos.

Economia voltada à exportação.

Estrutura fundiária concentradora.


3. Impactos Sociais


Formação de sociedade hierarquizada.

Violência e deslocamento de povos indígenas.

Estrutura social desigual, cujos reflexos permanecem na contemporaneidade.



Conclusão


A colonização constitui fenômeno histórico de longa duração. Dos fenícios aos romanos, o modelo de expansão territorial evoluiu conforme interesses comerciais, militares e políticos. A Península Ibérica, sucessivamente colonizada, tornou-se ela própria agente colonizadora na era moderna. A expansão portuguesa transplantou para o Brasil estruturas econômicas e culturais que moldaram profundamente sua formação histórica. Para os povos originários, como os Kariri-Xocó, esse processo significou ruptura territorial, resistência cultural e reinvenção identitária — elementos que permanecem vivos na memória e na tradição oral.




Referências


BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português (1415-1825). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002.


GRANT, Michael. História de Roma. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.


HINGLEY, Richard. O Imperialismo Romano. São Paulo: Annablume, 2010.

MATTOSO, José. História de Portugal. Lisboa: Estampa, 1997.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




A INFLUÊNCIA DO NORTE DE PORTUGAL NA FORMAÇÃO CULTURAL DA CAPITANIA DE PERNAMBUCO E DE ALAGOAS (SÉCULOS XVI–XVIII)






RESUMO


Este artigo analisa a influência cultural, social, religiosa e econômica das regiões do Norte de Portugal — especialmente Minho, Trás-os-Montes e Beira — na formação da Capitania de Pernambuco entre os séculos XVI e XVIII, incluindo o território que posteriormente formaria o estado de Alagoas. Examina-se a formação histórica do Norte português desde os povos celtas até a consolidação do Reino de Portugal, e sua projeção cultural na América portuguesa. Conclui-se que a matriz rural, católica e senhorial do Norte português foi elemento estruturante da sociedade colonial nordestina.


Palavras-chave: Colonização portuguesa; Norte de Portugal; Pernambuco colonial; Alagoas; Cultura luso-brasileira.


1 INTRODUÇÃO


A colonização do Brasil foi organizada pela Coroa portuguesa por meio do sistema de capitanias hereditárias, implantado em 1534. Conforme observa Prado Júnior (2000, p. 34), tratava-se de um modelo voltado à exploração econômica, estruturado “em grandes unidades territoriais entregues a particulares com amplos poderes administrativos”.

A Capitania de Pernambuco destacou-se como um dos principais centros da economia açucareira. Segundo Freyre (2003, p. 79), “foi em Pernambuco que se consolidou o modelo clássico do engenho patriarcal”.

Até 1817, o atual estado de Alagoas integrava essa capitania, estando Porto Real do Colégio sob jurisdição da Vila de Penedo, importante núcleo administrativo do Baixo São Francisco.


2 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO NORTE DE PORTUGAL


A cultura do Norte português formou-se por camadas históricas sucessivas.


2.1 Herança celta e romanização


Antes da dominação romana, povos célticos ocupavam o noroeste da Península Ibérica. Posteriormente, a romanização introduziu estruturas administrativas e jurídicas duradouras.

Holanda (1995, p. 21) afirma que a herança ibérica carrega “fortes marcas da tradição municipal romana”, elemento que influenciaria a organização das vilas no Brasil colonial.


2.2 Cristianização medieval


Com o domínio visigótico e a consolidação do cristianismo, estruturou-se uma sociedade rural fortemente marcada pela religião.

Segundo Mattoso (1995, p. 112), a formação do Reino de Portugal consolidou “uma sociedade de base senhorial e profundamente cristã”, característica que marcaria o expansionismo ultramarino.


2.3 Sociedade rural e patriarcal


Raymundo Faoro (2001, p. 53) destaca que a estrutura política portuguesa baseava-se na autoridade senhorial e na concentração fundiária, modelo que seria transplantado para o Brasil.

Essa matriz rural do Norte português foi fundamental na formação da sociedade açucareira pernambucana.


3 TRANSFERÊNCIA CULTURAL PARA PERNAMBUCO E ALAGOAS


3.1 Estrutura agrária e economia açucareira


A economia colonial nordestina organizou-se em grandes propriedades monocultoras.

Freyre (2003, p. 85) descreve o engenho como:

“um complexo econômico e social que reunia casa-grande, senzala, capela e lavoura, sob a autoridade patriarcal do senhor.”

Esse modelo apresenta paralelos com a estrutura rural do Norte português medieval.


3.2 Religiosidade


A religiosidade católica estruturava a vida comunitária.

Holanda (1995, p. 95) observa que a sociedade luso-brasileira manteve “uma religiosidade de caráter doméstico e familiar”, marcada por devoções a santos e práticas populares.

As festas de padroeiro, procissões e irmandades religiosas reproduziam padrões tradicionais portugueses.


3.3 Cultura e tradições


Joel Serrão (1985) destaca que o Norte português preservava forte tradição oral e comunitária, elemento que encontrou eco na formação cultural nordestina.

No Brasil, tais tradições fundiram-se com elementos indígenas e africanos, formando uma síntese cultural singular.


3.4 Introdução de animais domésticos


A colonização implicou a introdução de espécies europeias adaptadas à realidade colonial.

Prado Júnior (2000, p. 42) observa que a pecuária foi essencial para a expansão territorial, permitindo a ocupação do sertão nordestino.

Entre os animais introduzidos destacam-se:

Bovinos ibéricos

Cavalos ibéricos

Suínos

Caprinos

Ovinos

Aves domésticas

Essas espécies foram fundamentais para a economia açucareira e para a interiorização da colonização.


4 ALAGOAS NO CONTEXTO PERNAMBUCANO


O território alagoano permaneceu subordinado à Capitania de Pernambuco até 1817.

Segundo registros históricos, sua emancipação ocorreu no contexto da Revolução Pernambucana, quando a região adquiriu autonomia administrativa.

Assim, a formação cultural de Alagoas está diretamente ligada à matriz implantada em Pernambuco desde o século XVI.


5 CONCLUSÃO


A análise histórica demonstra que a sociedade colonial pernambucana — e, por consequência, alagoana — foi profundamente marcada pela cultura do Norte de Portugal.

A estrutura rural, patriarcal e católica dessa região, moldada por influências célticas, romanas e medievais, foi transplantada para o Brasil e adaptada ao contexto tropical.

No encontro com povos indígenas e africanos, essa matriz transformou-se, dando origem à identidade cultural nordestina, sem perder suas raízes luso-nortenhas.



REFERÊNCIAS


FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 48. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal (1096–1325). Lisboa: Editorial Estampa, 1995.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.


SERRÃO, Joel (org.). Dicionário de História de Portugal. Porto: Figueirinhas, 1985.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




domingo, 22 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO ANTROPONÍMICA DA PENÍNSULA IBÉRICA: PROCESSOS HISTÓRICOS, LINGUÍSTICOS E CULTURAIS NA ORIGEM DOS SOBRENOMES







RESUMO



O presente artigo analisa a formação antroponímica da Península Ibérica a partir de uma perspectiva histórica, linguística e cultural, considerando os processos de ocupação e miscigenação que moldaram a constituição dos sobrenomes portugueses e espanhóis. Com base em estudos onomásticos e historiográficos, investiga-se a contribuição de povos ibero-celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e judeus sefarditas na consolidação do sistema nominativo hereditário. Argumenta-se que os sobrenomes ibéricos constituem registros históricos vivos, refletindo transformações sociais, religiosas e políticas desde a Antiguidade até a expansão ultramarina.

Palavras-chave: Antroponímia. Onomástica. Península Ibérica. História Medieval. Sobrenomes.



1 INTRODUÇÃO


A antroponímia, ramo da onomástica dedicado ao estudo dos nomes próprios de pessoas, constitui importante instrumento para a compreensão das dinâmicas históricas e culturais de uma sociedade.

No caso da Península Ibérica, a formação dos sobrenomes está diretamente associada aos processos de conquista, colonização, reorganização política e imposição religiosa que marcaram a região ao longo de mais de dois mil anos.

Segundo Machado (2003), os sobrenomes portugueses resultam de um processo gradual de fixação ocorrido entre os séculos XII e XV, quando os nomes patronímicos, toponímicos e ocupacionais passaram a ser transmitidos hereditariamente. Esse processo, contudo, possui raízes muito anteriores, remontando às matrizes culturais pré-romanas e à posterior romanização.

Dessa forma, compreender a origem dos sobrenomes ibéricos implica reconstruir uma linha do tempo histórica que integra linguística, política e religião.



2 MATRIZES PRÉ-ROMANAS: IDENTIDADE E TERRITÓRIO (até 218 a.C.)


Antes da conquista romana, a Península era habitada por iberos, celtas e lusitanos. Essas populações organizavam-se em estruturas tribais e utilizavam nomes individuais, frequentemente associados a atributos físicos, qualidades guerreiras ou vínculos territoriais.

De acordo com Saraiva (2007), a identidade pré-romana estava fortemente ligada ao espaço geográfico e à organização clânica. Essa ligação territorial explica a permanência de raízes toponímicas que posteriormente se fixariam como sobrenomes, como:

Silva (floresta)

Castro (fortificação)

Lima (rio)

Rocha

Costa

Esses nomes, embora consolidados apenas na Idade Média, possuem substrato linguístico anterior à romanização.


3 A ROMANIZAÇÃO E A ESTRUTURA NOMINAL LATINA (218 a.C. – século V)


A incorporação da Península ao Império Romano introduziu o sistema nominal tripartido (praenomen, nomen e cognomen). A romanização consolidou o latim vulgar como base linguística das futuras línguas ibéricas.

Machado (2003) destaca que muitos sobrenomes portugueses derivam de cognomina latinos ou de adaptações medievais desses nomes. Exemplos incluem:

Martins (derivado de Martius, ligado a Marte)

Pereira (associado à árvore pereira)

Ferreira (relacionado ao ferro e à atividade metalúrgica)

A romanização não apenas transformou a língua, mas também institucionalizou registros administrativos e eclesiásticos que favoreceram a posterior fixação dos sobrenomes.


4 OS POVOS GERMÂNICOS E O SISTEMA PATRONÍMICO (séculos V–VIII)


Com a queda de Roma, instalaram-se na Península povos germânicos, como suevos e visigodos, culminando na formação do Reino Visigótico.

Segundo Saraiva (2007), os visigodos mantiveram estruturas administrativas romanas, mas introduziram nomes germânicos que posteriormente foram latinizados. A principal contribuição foi o fortalecimento do modelo patronímico, caracterizado pelos sufixos:

-es (Portugal)

-ez (Espanha)

-iz

Esses sufixos indicam filiação, significando “filho de”. Exemplos:

Fernandes (filho de Fernando)

Gonçalves (filho de Gonçalo)

Henriques (filho de Henrique)

Nunes (filho de Nuno)

Esse modelo tornou-se dominante durante a Idade Média e permanece estruturante na onomástica ibérica.


5 AL-ANDALUS E A INFLUÊNCIA ISLÂMICA (711–1492)


A invasão muçulmana de 711 estabeleceu o território denominado Al-Andalus. Durante séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram sob diferentes regimes políticos.

A influência árabe na língua portuguesa é amplamente reconhecida. Conforme Tavani (1990), o contato linguístico favoreceu a incorporação de vocábulos e estruturas fonéticas árabes.

Na antroponímia, destacam-se:

Prefixo “Al-” (artigo definido árabe), como em Almeida e Albuquerque

Nomes ligados a profissões, como Haddad (ferreiro)

Topônimos como Medina

A presença islâmica contribuiu para a diversidade nominativa e cultural da região.


6 A RECONQUISTA E A FIXAÇÃO HEREDITÁRIA DOS SOBRENOMES (séculos VIII–XV)


A Reconquista Cristã consolidou os reinos ibéricos, entre eles o Reino de Portugal.

Nesse período, segundo Machado (2003), ocorre a fixação hereditária dos sobrenomes, inicialmente entre a nobreza e, gradualmente, entre camadas populares. A Igreja Católica desempenhou papel decisivo ao exigir registros batismais e matrimoniais, fortalecendo a estabilidade nominativa.

Sobrenomes tornaram-se instrumentos jurídicos, fiscais e sociais.


7 JUDEUS SEFARDITAS E CONVERSÕES FORÇADAS (séculos XV–XVI)


Com a instituição da Inquisição Espanhola em 1478, muitos judeus sefarditas converteram-se ao cristianismo.

Wolff e Wolff (1988) explicam que, nesse contexto, judeus convertidos (cristãos-novos) adotaram sobrenomes associados à natureza e localidades para evitar perseguições. Exemplos incluem:

Oliveira

Carvalho

Cardoso

Pinheiro

Leão

Toledo

Esses sobrenomes foram posteriormente levados às colônias americanas.


8 EXPANSÃO ULTRAMARINA E TRANSPLANTE ANTROPONÍMICO (séculos XVI–XVIII)


A expansão marítima portuguesa difundiu os sobrenomes ibéricos para África, Ásia e América. No Brasil colonial, a estrutura patronímica e toponímica foi mantida, mas passou a conviver com nomes indígenas e africanos.

Esse encontro gerou novos processos de miscigenação nominativa, ampliando o alcance histórico da antroponímia ibérica.


9 CONSIDERAÇÕES FINAIS


A formação antroponímica da Península Ibérica é resultado de um processo cumulativo, no qual cada período histórico deixou marcas estruturais nos sobrenomes atuais. Da herança territorial pré-romana à romanização, das contribuições germânicas à influência islâmica e judaica, observa-se uma construção identitária plural.

Os sobrenomes ibéricos constituem, portanto, arquivos históricos vivos, revelando camadas sucessivas de identidade, poder e adaptação cultural.



10 REFLEXÃO DO AUTOR: IDENTIDADE COMO TRAVESSIA HISTÓRICA


Ao concluir esta análise sobre a formação antroponímica da Península Ibérica, compreende-se que o estudo dos sobrenomes não se limita à investigação etimológica ou histórica. Trata-se também de uma reflexão sobre identidade e memória.

Carrego em meu nome os sobrenomes Nunes e Oliveira. O primeiro, de natureza patronímica, consolidou-se durante o período do Reino Visigótico, quando os sufixos "-es" passaram a indicar filiação, significando “filho de”. O segundo, de origem toponímica e ligado à árvore mediterrânica da oliveira, possui raízes latinas estruturadas no contexto do Império Romano e foi amplamente difundido na sociedade ibérica medieval, inclusive durante o período da Inquisição Espanhola, quando muitos cristãos-novos adotaram sobrenomes associados à natureza.

Entretanto, minha identidade primeira é indígena, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Essa ancestralidade antecede a colonização europeia e representa uma memória histórica originária do território brasileiro.

A coexistência desses elementos não constitui contradição, mas sobreposição histórica. O Brasil formou-se a partir de encontros complexos entre povos indígenas, europeus e africanos. Os sobrenomes ibéricos chegaram como parte de uma estrutura administrativa e religiosa colonial, mas foram ressignificados ao longo do tempo em uma sociedade marcada por resistência cultural e permanência identitária.

Assim, o nome torna-se um arquivo histórico vivo. Ele narra deslocamentos, imposições, adaptações e permanências. Contudo, a identidade transcende o registro nominal. O estudo da antroponímia ibérica, portanto, não é apenas uma investigação histórica, mas também uma oportunidade de compreender como as camadas do passado continuam presentes na constituição do sujeito contemporâneo.



REFERÊNCIAS



FAURE, Sabina; RIBEIRO, José Pedro. Dicionário de Sobrenomes Portugueses. Lisboa: Editorial Presença, 2007.


MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2003. 3 v.


SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. 25. ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 2007.


TAVANI, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1990.


WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Portugal. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Judaicos, 1988.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



FORMANDO AS PRIMEIRAS PALAVRAS EM KARIRI






(Da Sílabas ao Sentido Cultural)




🌱 Introdução


A palavra é mais do que som.

A palavra é memória.


A palavra é pensamento organizado.

A palavra é identidade.


Na língua Kariri-Xocó, cada sílaba carrega um sopro ancestral. Quando juntamos sílabas, não estamos apenas formando palavras — estamos reconstruindo caminhos culturais, fortalecendo a tradição oral e revitalizando nossa herança linguística.


Aprender a formar palavras é aprender a pensar no próprio idioma do povo.



🎯 Objetivos da Aula


Transformar sílabas em palavras completas.


Trabalhar o significado cultural das palavras.


Reforçar a identidade linguística Kariri-Xocó.


Introduzir leitura simples e consciente.



📚 Formação das Primeiras Palavras



1️⃣ BARÁ


Separação silábica: BA – RÁ

Significado cultural:

Balaio — utensílio feito de cipó onde se transportam frutas, peixes e a produção agrícola.

Contexto cultural:

O BARÁ representa trabalho coletivo, agricultura, pesca e subsistência tradicional. Ele é símbolo de organização e cuidado com o alimento.



2️⃣ KAYA


Separação silábica: KA – YA

Significado cultural:

Noite — período noturno sob domínio de Kayaku, a Lua.

Contexto cultural:

A noite é tempo de descanso, de histórias ao redor do fogo, de escuta dos mais velhos e de conexão espiritual com a natureza.



3️⃣ NHANI


Separação silábica: NHA – NI

Significado cultural:

Sal — substância utilizada na alimentação, trazida pelos colonizadores.

Contexto cultural:

A palavra permite ensinar também história. O NHANI representa o contato intercultural e as transformações alimentares após a colonização.



4️⃣ BUIBÚ


Separação silábica: BUI – BÚ

Significado cultural:

Cabaça — utilizada para fazer o maracá, instrumento sagrado do Toré.

Contexto cultural:

O BUIBÚ carrega espiritualidade. É som, é ritmo, é ritual. Está presente nas cerimônias e na força do Toré.



5️⃣ TSEHO


Separação silábica: TSE – HO

Significado cultural:

Gente — o povo, a comunidade.

Contexto cultural:

TSEHO é coletivo. Não é apenas indivíduo. É pertencimento, aldeia, família ampliada.



✏️ Exercício Prático


1️⃣ Separe em sílabas:

BARÁ → ______

KAYA → ______

NHANI → ______

BUIBÚ → ______

TSEHO → ______



2️⃣ Leia em voz alta


Pronuncie pausadamente cada sílaba e depois una os sons.


3️⃣ Copie no caderno


Escreva cada palavra três vezes.


4️⃣ Crie uma frase simples


Exemplos:

O BARÁ está cheio de frutas.

A KAYA chegou com a luz da Lua.

O TSEHO dança o Toré com o BUIBÚ.




🌿 Conclusão



Formar palavras é reconstruir caminhos.

Cada sílaba aprendida fortalece a identidade do povo Kariri-Xocó.


A língua vive quando é falada, escrita e ensinada.


Ensinar as primeiras palavras é plantar as primeiras sementes da continuidade cultural.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






sábado, 21 de fevereiro de 2026

AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI: O SOM QUE FORMA A PALAVRA






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú


🌿 Introdução


Depois de conhecer o Alfabeto Kariri, iniciamos uma nova etapa do letramento: a formação das primeiras sílabas.

A sílaba é o encontro entre o sopro da vogal e a força da consoante.

É nela que o som ganha corpo.

É nela que nasce a palavra.

Ensinar sílabas em Kariri é ensinar ritmo, identidade e continuidade cultural.


🌱 1. Revisando as Vogais


Antes de formar sílabas, reforçamos os sons das vogais:


A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI

A criança precisa ouvir, repetir e sentir o som.


Primeiro o ouvido aprende. Depois a mão escreve.


🌊 2. Primeiras Combinações Silábicas

Começamos com consoantes simples.


Com B:


BA – BE – BI – BO – BU

BUI


Observe como o som muda quando encontramos o UI.


Aqui o som desliza, ele caminha.


Com K:

KA – KE – KI – KO – KU

O K representa também o som do C e do Qu.


É importante que a criança perceba que o som é mais importante que a letra isolada.


Com T:


TA – TE – TI – TO – TU


Depois introduzimos:


TS A – TS E – TS I – TS O – TS U

Aqui começa a percepção dos sons compostos.


🌿 3. Sons Específicos da Língua Kariri


Agora introduzimos elementos próprios da Nunú.


Tx (som de “tchau”)


TXA – TXE – TXI – TXO – TXU

Nh (som semelhante ao ñ espanhol)

NHA – NHE – NHI – NHO – NHU


Aqui a criança percebe que nossa língua possui sons que o português não possui da mesma forma.


Isso fortalece identidade linguística.


🔥 4. A Sílabas Formam Cultura


Depois das sílabas, começamos a formar palavras simples e culturais.


Exemplos didáticos:


BA + RA

KA + YA

NHA + NA


Cada palavra deve ter significado dentro da realidade do povo.


O letramento indígena precisa nascer do território.


🌺 Metodologia Recomendada

Pronunciar lentamente

Repetição coletiva

Repetição individual

Escrita no ar com o dedo

Escrita no caderno


Som → Sílaba → Palavra → Sentido

🌄 Conclusão


Quando a criança aprende BA, ela não aprende apenas uma combinação de letras.


Ela aprende que o som pode ser unido.

Que a união cria palavra.


Que a palavra cria pensamento.

E que o pensamento mantém viva a Nunú.


Assim seguimos:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.

( Vamos aprender nossa língua )




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






LETRAMENTO DO ALFABETO KARIRI






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú

(Vamos Saber Nossa Língua)



🌿 Introdução


O letramento do Alfabeto Kariri representa um novo tempo para o povo Kariri-Xocó. A escrita não substitui a oralidade, mas a fortalece. Cada letra é um território sonoro, cada som é memória ancestral.


Ensinar o alfabeto é plantar identidade.



🌱 O Alfabeto Kariri


A língua Kariri possui 28 letras:


18 consoantes e 10 vogais.


Vogais:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Consoantes:


B – Tx – D – Dj – Ds – Dz – G – K – L – M – N – Nh – P – R – S – Ts – T – V



O ensino começa pelos sons, depois pelas sílabas, e então pelas palavras que carregam cultura.



🌊 Metodologia de Letramento


Oralidade primeiro


Reconhecimento sonoro


Associação com imagens culturais


Formação de sílabas


Leitura de palavras do cotidiano indígena



🌱 1ª ETAPA – DESPERTAR SONORO (ANTES DA ESCRITA)


Antes de ensinar letras, ensine sons.



🎶 1. Roda de escuta


Pronuncie cada vogal lentamente:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Peça que repitam em coro.


Depois, individualmente.



Trabalhe especialmente os sons que não existem no português (como IU e OE).



📌 Aqui o foco não é a grafia, é o ouvido.



🌿 2ª ETAPA – VOGAIS PRIMEIRO (Base do Letramento)



Comece pelas vogais, pois são o coração da língua.



Sugestão de sequência didática:


Aula 1 – Vogais simples:


A – E – I – O – U



Trabalhar:


Som isolado


Palavra exemplo


Desenho associado


Pronúncia comparativa com o português


Aula 2 – Vogais compostas:


EI – IU – OE – OI – UI


Aqui você pode:


Mostrar que são “vogais que caminham juntas”


Fazer comparação sonora (ex: EI como Bananeira; OI como Oiticica)


📌 Trabalhe muito o IU, explicando que é um som único, como você já descreveu — semelhante ao I grosso do Tupi.




🌾 3ª ETAPA – CONSOANTES EM BLOCOS


Não apresente as 18 de uma vez. Divida por famílias sonoras:



Bloco 1 – Sons simples


B – D – G – K – L – M – N – P – R – S – T – V



Depois:



Bloco 2 – Sons compostos


Dj – Dz – Ds – Nh – Tx – Ts



🌊 4ª ETAPA – SÍLABAS (Construção Gradual)



Após vogais dominadas:


Exemplo:


BA – BE – BI – BO – BU


KA – KE – KI – KO – KU



Depois introduza:


BUI (Bwj)


DJA


TXA



Aqui começa a alfabetização real.



🔥 5ª ETAPA – PALAVRAS SIGNIFICATIVAS


Nunca ensine palavras neutras. Ensine palavras culturais.



Exemplo:


Opará (Rio São Francisco)


Kayaku / Kadjaku


Naticrórai


Pahankó



Isso fortalece identidade.



🌳 METODOLOGIA INDÍGENA DE LETRAMENTO



Sugestão baseada na pedagogia intercultural:


Oralidade primeiro


Som antes da letra


Letra antes da sílaba


Sílabas antes de textos


Textos com significado cultural



📚 MATERIAL DIDÁTICO SIMPLES PARA INÍCIO



Você pode criar:


Cartões com letras grandes


Cartões com sílabas


Cartazes das vogais


Um pequeno livreto ilustrado


Exemplo de estrutura inicial:



Capa:



“Aprendendo o Alfabeto Kariri”


1ª página – Vogais


2ª página – Consoantes simples


3ª página – Consoantes compostas


4ª página – Sílabas


5ª página – Primeiras palavras



🌄 PROPOSTA DE PRIMEIRO MÊS



Semana 1 → Vogais simples


Semana 2 → Vogais compostas


Semana 3 → Consoantes simples


Semana 4 → Formação de sílabas



🌺 ELEMENTO FUNDAMENTAL



Ensinar que:



Tx é som de “tchau”


Nh é semelhante ao ñ espanhol


Dj é som de “Django”


Y possui função dupla (vogal IU / som Dj dependendo da posição)


Explique sempre com exemplos falados.



🌞 UMA FRASE PEDAGÓGICA PARA INICIAR A AULA



Você pode começar dizendo:


“Nossa língua é nosso território sonoro. Cada letra é um passo na memória do nosso povo.”



🌺 Conclusão



Letrar em Kariri é reconectar gerações.


É dizer às crianças:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó