Ensino Fundamental
Ciências da Natureza / Conhecimentos Ambientais
Organização, autoria e curadoria:
Nhenety Kariri-Xocó
Aldeia Kariri-Xocó — Porto Real do Colégio — Alagoas — Brasil
2026
FALSA FOLHA DE ROSTO
SUBANTSE SUBATEKIÉ
CIÊNCIAS DA NATUREZA NOS SABERES TRADICIONAIS
Ensino Fundamental — Ciências da Natureza / Conhecimentos Ambientais
Nhenety Kariri-Xocó
Aldeia Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio — Alagoas
2026
FOLHA DE ROSTO
SUBANTSE SUBATEKIÉ — CIÊNCIAS DA NATUREZA NOS SABERES TRADICIONAIS
Conteúdo metodológico para o Ensino Fundamental na área de Ciências da Natureza e Conhecimentos Ambientais, integrando saberes tradicionais Kariri-Xocó, língua indígena, memória ancestral, educação ambiental e conhecimentos científicos.
Autor, organizador e curador:
Nhenety Kariri-Xocó
Área: Ciências da Natureza / Conhecimentos Ambientais
Público: Ensino Fundamental
Local: Aldeia Kariri-Xocó — Porto Real do Colégio — AL
Ano: 2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados ao autor quanto à organização, seleção, elaboração e apresentação desta obra.
Esta publicação possui finalidade cultural, educacional e de preservação da memória e dos saberes tradicionais Kariri-Xocó.
Os conhecimentos tradicionais aqui apresentados devem ser compreendidos dentro de seu contexto cultural e comunitário, respeitando os mestres, anciãos, famílias e gerações responsáveis por sua transmissão.
A utilização de conhecimentos, imagens, relatos ou materiais pertencentes a terceiros deverá respeitar as respectivas autorizações e direitos.
Obra pertencente à Biblioteca Digital Nhenety Kariri-Xocó.
Somos guardiões da memória do Opará.
FICHA CATALOGRAFICA
Nhenety Kariri-Xocó
Subantse Subatekié: Ciências da Natureza nos Saberes Tradicionais / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: edição do autor, 2026.
Conteúdo metodológico para o Ensino Fundamental.
Ciências da Natureza.
Educação ambiental.
Saberes tradicionais indígenas.
Cultura Kariri-Xocó.
Língua indígena.
Flora.
Fauna.
Medicina tradicional.
Astronomia cultural.
Manejo sustentável.
CDD: a definir por profissional habilitado.
CDU: a definir por profissional habilitado.
Nota: a ficha catalográfica definitiva deverá ser elaborada e validada conforme os procedimentos biblioteconômicos aplicáveis à edição final.
ISBN — SIMBÓLICO
ISBN simbólico/editorial desta edição digital:
ISBN-SIMBÓLICO:
SUB-SUBATEKIÉ-2026-NKX
Observação:
Este código é uma identificação simbólica da obra para fins culturais e editoriais internos. Não substitui o ISBN oficial.
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um projeto editorial em fase de estruturação e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva poderá futuramente ser submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se à identificação preliminar da obra e à organização interna do Acervo.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos Tokenhé Antoá — Antepassados Sagrados, que caminharam antes de nós, observaram a terra, conheceram as águas, ouviram os sons da floresta, reconheceram os animais, aprenderam com as plantas e transmitiram seus conhecimentos às novas gerações.
Dedico aos anciãos e mestres Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da cultura, da língua e da memória.
Dedico às crianças e aos jovens da Aldeia Kariri-Xocó, para que possam aprender olhando para o céu, pisando a terra, conhecendo as águas, respeitando os animais e reconhecendo nas plantas a continuidade da vida.
Dedico aos nossos filhos, netos e futuras gerações.
Que este livro seja uma pequena semente plantada na terra da memória.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos Dzenhéá Antse — Guardiões da Natureza, aos Dzenu Nhenetíá — Guardiões das Tradições, aos Dzenu Uaɲoá — Guardiões dos Costumes, aos Dzenuandzoá — Guardiões da Cura, aos mestres, pajés, anciãos, agricultores, pescadores, caçadores tradicionais, artesãos, professores, crianças e jovens.
Agradeço especialmente àqueles que conservaram pela oralidade os nomes das plantas, dos animais, das águas, da Lua, do Sol, das estações e dos fenômenos da natureza.
Agradeço às famílias Kariri-Xocó que continuam transmitindo seus conhecimentos às novas gerações.
Agradeço também aos educadores que compreendem que a escola indígena pode ser espaço de encontro entre a memória ancestral e a investigação científica.
Minha gratidão é também ao Opará, às águas, à floresta, à terra e a todos os seres que fazem parte da vida.
Inatekié — Obrigado.
Iewóá — Gratidão.
EPÍGRAFE
“A natureza é uma grande escola: a terra ensina, a água conta histórias, a Lua marca o tempo, os animais mostram seus caminhos e os antepassados deixam a palavra para as novas gerações.”
Nhenety Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
Este volume nasce do encontro entre dois caminhos de conhecimento.
De um lado está a tradição oral Kariri-Xocó, construída pela experiência de gerações que observaram a natureza, conheceram seus ciclos, reconheceram plantas e animais, aprenderam os caminhos das águas e transmitiram conhecimentos por meio da palavra.
Do outro lado está a escola, espaço de investigação, leitura, escrita, experimentação e sistematização do conhecimento.
Subantse Subatekié procura aproximar esses caminhos sem apagar suas diferenças.
A criança indígena não precisa abandonar seus saberes para aprender Ciências da Natureza. Pelo contrário: pode partir de seu próprio território, de sua língua e de sua memória para investigar cientificamente aquilo que observa.
O nome de uma planta em Kariri pode iniciar uma investigação de Botânica.
O nome de um animal pode iniciar uma investigação de Zoologia.
A observação da Lua pode conduzir à Astronomia.
A chuva pode levar ao estudo do ciclo da água.
A roça pode ensinar germinação, solo, sementes e alimentação.
A pesca pode ensinar ecologia.
A abelha pode ensinar polinização.
A medicina tradicional pode abrir caminho para o estudo das substâncias naturais e da Farmácia.
Assim, o conhecimento transforma-se em ponte.
Este livro é, portanto, uma proposta de educação que reconhece a criança como herdeira de uma memória e, ao mesmo tempo, como pesquisadora do mundo.
RESUMO
Subantse Subatekié — Ciências da Natureza nos Saberes Tradicionais é uma proposta metodológica para o Ensino Fundamental voltada à integração entre os conhecimentos tradicionais Kariri-Xocó, a língua indígena, a memória ancestral, a educação ambiental e as Ciências da Natureza.
A obra aborda a relação entre natureza e cultura, os guardiões dos saberes, os fenômenos naturais, o ciclo lunar, os períodos climáticos, a fauna silvestre, a caça tradicional, a pesca, a agricultura, as plantas medicinais, os animais domésticos e o manejo sustentável.
A proposta valoriza a observação, a oralidade, a pesquisa, o trabalho de campo, o registro escrito e visual e a participação dos mestres e anciãos da comunidade.
O livro apresenta os saberes tradicionais como patrimônio cultural vivo, promovendo o diálogo com conhecimentos científicos relacionados à Biologia, Ecologia, Botânica, Zoologia, Astronomia, Química, Saúde e Educação Ambiental.
Palavras-chave: Ciências da Natureza; Saberes Tradicionais; Kariri-Xocó; Educação Ambiental; Língua Indígena; Opará; Natureza; Cultura.
ABSTRACT
Subantse Subatekié — Natural Sciences in Traditional Knowledge is a methodological proposal for Elementary Education that integrates Kariri-Xocó traditional knowledge, Indigenous language, ancestral memory, environmental education and Natural Sciences.
The book addresses the relationship between nature and culture, knowledge keepers, natural phenomena, lunar cycles, climate periods, wildlife, traditional hunting, fishing, agriculture, medicinal plants, domestic animals and sustainable management.
The proposal values observation, oral tradition, research, fieldwork, written and visual records, and the participation of elders and knowledge keepers in the educational process.
The work understands traditional knowledge as living cultural heritage and promotes dialogue with scientific knowledge related to Biology, Ecology, Botany, Zoology, Astronomy, Chemistry, Health and Environmental Education.
Keywords: Natural Sciences; Traditional Knowledge; Kariri-Xocó; Environmental Education; Indigenous Language; Opará; Nature; Culture.
NOTA DO AUTOR
Este livro foi construído a partir dos conhecimentos tradicionais apresentados na língua e na memória Kariri-Xocó.
Os termos indígenas registrados nesta obra são apresentados conforme o material fornecido pelo autor, preservando sua forma de escrita.
O livro não pretende substituir os conhecimentos científicos especializados, nem transformar todo conhecimento tradicional em explicação científica.
Seu objetivo é criar um diálogo pedagógico.
Quando o estudante conhece uma planta medicinal tradicional, por exemplo, ele pode aprender simultaneamente sobre cultura, território, Botânica e os estudos científicos realizados sobre substâncias naturais.
Quando observa a Lua, pode conhecer tanto o calendário cultural quanto os fundamentos astronômicos de suas fases.
Quando aprende sobre pesca, pode estudar simultaneamente cultura, alimentação, ecologia, reprodução dos peixes e conservação das águas.
Esse diálogo constitui a essência metodológica desta obra.
MEMÓRIA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias e guardião de memórias.
Minha relação com a cultura começou dentro da própria comunidade, ouvindo as palavras dos mais velhos, conhecendo histórias, costumes, pessoas, lugares e acontecimentos que fazem parte da trajetória do povo Kariri-Xocó.
Aprendi que uma história não é apenas uma história.
Dentro dela podem existir ensinamentos sobre a terra, a água, os animais, as plantas, a família, a espiritualidade, a sobrevivência e a identidade.
Ao longo da vida, fui registrando memórias que poderiam desaparecer se não fossem transformadas em palavras, imagens e livros.
A escrita passou a ser uma maneira de continuar a tradição oral.
A tecnologia passou a ser uma nova ferramenta de preservação.
O livro passou a ser uma espécie de território da memória.
Este trabalho nasce dessa caminhada.
Não pretendo dizer que uma obra escrita substitui a palavra dos anciãos. Pelo contrário: desejo que a escrita ajude a fazer essa palavra chegar às crianças e às gerações futuras.
Nhenety significa tradição ou ser lembrado.
Por isso, escrever é também preservar.
APRESENTAÇÃO
O ensino de Subantse Subatekié — Ciências da Natureza nos Saberes Tradicionais parte do princípio de que o conhecimento da natureza não está somente nos livros. Ele também está na observação da floresta, das águas, do céu, da Lua, dos animais, das plantas, das roças, das mudanças do clima e nas experiências transmitidas pelos mais velhos.
Na tradição Kariri-Xocó, o conhecimento é construído pela convivência entre o ser humano e a Antse — Natureza, compreendendo que todos os elementos possuem relação com a vida.
A criança aprende, portanto, a observar:
a Radá — Terra;
o Ukie — Sol;
a Kaiaku — Lua;
as Batiá — Estrelas;
as Dzuá — Águas;
as Retséá — Florestas;
os Keríá — Animais;
os Ieendeá — Pássaros;
os Wãmyá — Peixes;
as Ubuá — Plantas;
as roças, frutos e sementes;
os ciclos do tempo e do clima.
Assim, os saberes tradicionais podem dialogar com as Ciências da Natureza ensinadas na escola.
OBJETIVOS GERAIS
Ao estudar Subantse Subatekié, espera-se que o estudante seja capaz de:
Reconhecer a natureza como fonte de vida e conhecimento.
Valorizar os saberes tradicionais transmitidos pelos antepassados.
Identificar plantas, animais, águas e fenômenos naturais.
Compreender relações entre os seres vivos e o ambiente.
Observar os ciclos da Lua, do Sol, das chuvas e das estações.
Conhecer práticas tradicionais de caça, pesca, agricultura e manejo.
Diferenciar práticas sustentáveis de práticas que podem causar desequilíbrio ambiental.
Reconhecer plantas utilizadas tradicionalmente para fins medicinais.
Compreender que muitas substâncias de origem vegetal são estudadas pela ciência para desenvolvimento de medicamentos.
Conhecer a importância dos animais domésticos para alimentação, transporte, trabalho e convivência.
Desenvolver atitudes de proteção da floresta, dos rios, das lagoas e dos animais.
Utilizar a língua Kariri como instrumento de aprendizagem científica e cultural.
INTRODUÇÃO
A natureza está presente em todos os momentos da vida.
Respiramos o ar, bebemos água, alimentamo-nos de plantas e animais, utilizamos materiais provenientes da terra e observamos diariamente o céu.
Os povos indígenas desenvolveram conhecimentos profundos sobre seus territórios justamente porque dependem dessa relação para viver.
O povo Kariri-Xocó possui palavras, histórias, observações e práticas relacionadas à natureza.
A disciplina Subantse Subatekié parte desses conhecimentos para construir uma proposta de ensino de Ciências da Natureza.
A palavra Subantse representa, neste trabalho, as Ciências da Natureza.
Aprender Subantse é aprender a observar.
É perceber quando as nuvens se formam.
É acompanhar a chuva.
É reconhecer as mudanças da Lua.
É saber quando uma planta floresce.
É conhecer os animais.
É observar os peixes.
É acompanhar a roça.
É compreender a importância da água.
É reconhecer o valor das abelhas.
É conhecer as plantas utilizadas tradicionalmente.
É entender que a natureza possui ciclos.
E é compreender que a vida humana depende do equilíbrio desses ciclos.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN — Simbólico
Prefácio da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Objetivos Gerais
Introdução
Sumário
Princípio Metodológico
1. Dzenhéá Subantse — Guardiões dos Saberes e da Ciência
2. Sãá Saerae Antse — Coisas de Poder da Natureza
3. Iworóché Kayaku — Ciclo do Tempo Lunar
4. Uché Busá Kyehâ — O Tempo Dividido do Clima
5. Keríá Retsé Ayby Radá — Animais Silvestres da Terra
6. Keríá Retsé Uaplu — Animais Silvestres de Caça
7. Mydzé e os Wãmyá — A Pesca dos Peixes
8. Uttihuá, Uanhí e Tdjeá — Frutas, Lavouras e Legumes
9. Ubudzoá Wohoerá — Frutas e Plantas Medicinais do Quintal
10. Ubudzoá Caaoby — Plantas Medicinais do Campo das Ervas
11. Keríerá Caraí — Animais Domésticos e sua Utilidade
12. Manejo Sustentável — Cuidar da Natureza para as Futuras Gerações
13. Metodologia de Ensino
14. Projeto Final — Calendário Vivo da Natureza Kariri-Xocó
15. Avaliação
16. Frase-Síntese para o Material Didático
Considerações Finais
Glossário Kariri-Português
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
Encerramento
PRINCÍPIO METODOLÓGICO
“Aprender a natureza observando, vivendo, respeitando e transmitindo os conhecimentos dos antepassados.”
1. DZENHÉÁ SUBANTSE — GUARDIÕES DOS SABERES E DA CIÊNCIA
O conhecimento tradicional é transmitido por pessoas que possuem experiência e responsabilidade dentro da comunidade.
Entre esses conhecimentos encontram-se:
Dzenhéá Antse — Guardiões da Natureza;
Duboherí Subantse — Professor ou mestre que revela os conhecimentos das Ciências da Natureza;
Subantse — Ciências da Natureza;
Doboherí Nunúanie — Mestre que faz a língua nativa florescer;
Dubosamy — Mestre que ensina a cultura como raiz;
Dzenu Uaɲoá — Guardião dos Costumes;
Dzenu Nhenetíá — Guardião das Tradições;
Dzenuandzoá — Guardiões da Cura;
Bidzanuandzo — Pajé, Guardião da Cura;
Dzenude — Guardião da Reza;
Dzenu Katiantse — Guardião das Abelhas Nativas;
Duboherí Torá — Mestre do Canto do Toré.
Atividade pedagógica
O professor pode convidar um ancião, mestre ou conhecedor da comunidade para conversar com os estudantes sobre:
“O que nossos antepassados aprenderam observando a natureza?”
Os alunos podem registrar:
palavras em Kariri;
nomes de plantas;
nomes de animais;
fenômenos do céu;
histórias tradicionais;
formas de utilização dos recursos naturais.
2. SÃÁ SAERAE ANTSE — COISAS DE PODER DA NATUREZA
A Antse — Natureza forma o Radda — Mundo.
O estudante poderá observar a relação:
Ukie — Sol → Hine — Luz → Cayápri — Dia
Aranke — Céu → Batiá — Estrelas → Kaiaku — Lua
Arankedzoá — Nuvens → Dzo — Chuva → Dzuá — Águas
Dzuá — Águas → Ebedzú — Fonte → Opará — Rio São Francisco
A água alimenta as plantas, os animais, as pessoas e as atividades da comunidade.
Experiência
Os estudantes podem observar durante vários dias:
posição do Sol;
formação das nuvens;
ocorrência de chuva;
direção dos ventos;
mudanças de temperatura;
comportamento dos animais;
aparecimento de flores e frutos.
Depois, registram suas observações em um Calendário de Observação da Natureza.
3. IWORÓCHÉ KAYAKU — CICLO DO TEMPO LUNAR
O Iworóché Kayaku — Ciclo do Tempo da Lua representa uma maneira tradicional de observar e compreender a passagem do tempo por meio da Kaiaku — Lua e dos acontecimentos que se manifestam na natureza durante o ano. Para o povo Kariri-Xocó, observar a Lua não significa apenas acompanhar sua mudança no céu, mas também perceber os sinais da terra, das águas, das plantas, dos animais e das atividades realizadas pela comunidade.
Esse conhecimento foi sendo construído pela observação contínua da natureza e transmitido pelos Tokenhé Antoá — Antepassados Sagrados, passando de geração em geração por meio da tradição oral. Cada período do calendário carrega uma memória, uma atividade, um fenômeno natural ou uma prática cultural que ajuda a compreender a relação entre o povo e o ambiente.
O calendário tradicional apresenta doze períodos:
Matikay Kayaku — Lua de Festa Ritual do Ouricuri, janeiro.
É o período associado à Festa Ritual do Ouricuri, momento de grande importância espiritual e cultural. A Lua marca o início de um novo ciclo anual, relacionado à continuidade das tradições e à transmissão dos conhecimentos dos antepassados.
Mydzé Kayaku — Lua dos Peixes, fevereiro.
É o período relacionado aos Wãmyá — Peixes e às águas. A observação desse tempo permite aos conhecedores da natureza perceber mudanças nos rios, lagoas e outros ambientes aquáticos, relacionando o ciclo natural aos conhecimentos da pesca.
Uanhí Kayaku — Lua da Lavoura, março.
É o tempo associado às Uanhí — Lavouras e ao trabalho da terra. O conhecimento tradicional observa a relação entre o período lunar, as condições do solo, as chuvas e o desenvolvimento das plantações.
Içá Kayaku — Lua das Formigas Grandes ou Tanajuras, abril.
É o período em que a presença das grandes formigas, conhecidas como tanajuras, torna-se um sinal observado pela comunidade. Os animais também podem funcionar como indicadores das transformações que acontecem no ambiente.
Sõ Kayaku — Lua da Cobra, maio.
É o período associado às cobras e à observação dos Keríá — Animais. O conhecimento tradicional acompanha o aparecimento e o comportamento desses animais, reconhecendo sua presença como parte do equilíbrio da natureza.
Dzó Kayaku — Lua da Chuva, junho.
É o tempo relacionado ao Dzó — Chuva. A chegada das águas transforma a paisagem, alimenta as nascentes, rios e lagoas e favorece o crescimento das plantas. A chuva é compreendida como elemento fundamental para a continuidade da vida.
Curuté Kayaku — Lua de Colheita, julho.
É o período relacionado à colheita dos alimentos cultivados. O conhecimento tradicional reconhece o momento em que aquilo que foi plantado anteriormente pode ser recolhido e compartilhado pela família e pela comunidade.
Cunhí Kayaku — Lua do Frio, agosto.
É o período associado à percepção das temperaturas mais baixas. A comunidade observa as mudanças do clima, o comportamento dos animais e as transformações das plantas durante esse período.
Hiaidé Kayaku — Lua do Sol, setembro.
É o tempo relacionado ao Ukie — Sol, à luminosidade e às mudanças percebidas na natureza. A observação do Sol ajuda a compreender a passagem do tempo e as transformações que ocorrem durante o ano.
Puruá Kayaku — Lua das Flores ou da Floração, outubro.
É o período em que a floração ganha destaque. As Ubuá — Plantas apresentam flores que anunciam novas etapas de seu ciclo de vida. As flores também possuem importância para os insetos, especialmente para as abelhas, que participam da polinização.
Bunhawí Kayaku — Lua da Cerâmica, novembro.
É o período associado ao conhecimento da cerâmica, relacionando o trabalho humano aos elementos encontrados na natureza, especialmente à terra. A atividade representa também a transmissão de conhecimentos culturais entre gerações.
Pehó Kayaku — Lua da Enxurrada, dezembro.
É o período associado às águas fortes e às enxurradas. A observação desse fenômeno permite compreender o movimento da água sobre a terra, a formação dos caminhos das águas e a importância da proteção do solo e da vegetação.
O calendário tradicional e as Ciências da Natureza
Na escola, o Iworóché Kayaku pode ser utilizado como instrumento para aproximar o conhecimento tradicional dos conteúdos científicos.
A criança pode observar a Kaiaku — Lua, registrar suas fases e compreender que elas resultam da posição relativa entre Sol, Terra e Lua. Ao mesmo tempo, pode registrar acontecimentos ambientais associados a cada período do calendário tradicional.
Dessa maneira, o estudante aprende que existem diferentes formas de organizar e interpretar as experiências da natureza. A ciência escolar busca explicar os fenômenos utilizando observação, investigação, hipóteses e evidências; os saberes tradicionais, por sua vez, carregam experiências acumuladas por muitas gerações de convivência com o território.
O objetivo não é colocar um conhecimento contra o outro, mas ensinar a criança a conhecer, comparar, investigar e respeitar diferentes formas de produzir conhecimento.
Assim, o calendário lunar Kariri-Xocó torna-se também um instrumento de educação ambiental, memória cultural e alfabetização científica.
O estudante pode construir seu próprio Calendário Vivo da Natureza, registrando, mês a mês:
Lua → Sol → chuva → temperatura → plantas → flores → frutos → animais → peixes → agricultura → pesca → cultura.
Dessa forma, o céu, a terra, as águas, as plantas, os animais e a cultura passam a fazer parte de uma mesma experiência de aprendizagem.
4. UCHÉ BUSÁ KYEHÂ — O TEMPO DIVIDIDO DO CLIMA
Os quatro períodos apresentados no conhecimento tradicional:
Puruha — Primavera;
Makye — Verão;
Âradzi — Outono;
Ñikudzi — Inverno.
podem ser utilizados para ensinar:
clima;
temperatura;
chuva;
umidade;
vento;
ciclo das plantas;
floração;
frutificação;
comportamento dos animais.
Observação importante para a escola
Como a comunidade Kariri-Xocó está no Nordeste brasileiro, o professor pode comparar o modelo tradicional das quatro estações com a realidade climática local, mostrando que as estações astronômicas existem como referência, mas os padrões de chuva e temperatura observados localmente podem seguir períodos climáticos próprios da região.
Isso transforma a diferença em oportunidade de investigação científica.
5. KERÍÁ RETSÉ AIBY RADÁ — ANIMAIS SILVESTRES DA TERRA
O conhecimento tradicional dos animais deve ser valorizado como memória ecológica e linguística.
Os estudantes podem construir um Dicionário Kariri da Fauna, utilizando os nomes apresentados:
Ibozoim — Sonhim
Kati — Abelha
Munim — Grilo
Cotó — Rato
Myghy — Caramujo
Nieɲi — Cobra
Klimi — Lontra
Axum — Formiga
Xykxyk — Gafanhoto
Poió Retsé — Gato-do-mato
Xepre — Morcego
Kõpere — Muriçoca
Chorecá — Raposa
Hazú — Tamanduá
E entre os pássaros:
Gongá — Sabiá
Sohó — Socó
Kêtre — Periquito
Xáj — Pica-pau
Xõn — Urubu
Ciências relacionadas
O professor pode trabalhar:
habitat;
alimentação;
reprodução;
cadeia alimentar;
biodiversidade;
animais ameaçados;
polinização;
equilíbrio ecológico.
6. KERÍÁ RETSÉ UAPLU — ANIMAIS SILVESTRES DE CAÇA
A caça tradicional pode ser ensinada dentro de uma perspectiva histórica, cultural e ambiental, sem incentivar a captura indiscriminada de animais.
Os estudantes podem conhecer os nomes tradicionais:
Tõnbozu — Tatu
Suét — Tatuí
Kaplan — Jabuti
Mé — Jacaré
Wakõ — Saroê
Miriu — Coelho
Doyé — Capivara
Buké — Veado-do-mato
Sãmbá — Cágado
Bani — Mocó
Conceito de manejo sustentável
O professor pode perguntar:
“Como nossos antepassados retiravam alimento da natureza sem destruir a natureza que deveria alimentar as próximas gerações?”
A discussão pode envolver:
necessidade → respeito → quantidade → época → reprodução → proteção → continuidade da vida.
Esse princípio pode ser relacionado atualmente à conservação da biodiversidade e ao manejo sustentável.
7. MYDZÉ E OS WÃMYÁ — A PESCA DOS PEIXES
Os Wãmyá — Peixes permitem estudar diretamente o ambiente aquático.
Os estudantes podem pesquisar:
peixes do Opará;
lagoas e riachos;
alimentação dos peixes;
reprodução;
qualidade da água;
períodos de pesca;
tamanho mínimo dos animais;
preservação das margens;
importância das matas ciliares.
A pergunta central pode ser:
“Se o rio é fonte de vida, como podemos pescar hoje sem acabar com os peixes de amanhã?”
8. UTTIHUÁ, UANHÍ E TDJEÁ — FRUTAS, LAVOURAS E LEGUMES
O conhecimento das roças permite ensinar simultaneamente Biologia, alimentação, agricultura e cultura.
Frutas
Bacobá — Banana;
Akryte — Caju;
Krow — Coqueiro;
Mé — Jenipapo;
Bucrenké — Urucu;
Obó — Imbu;
Ucrí — Mangaba;
Prebú — Cuieté.
Lavouras e legumes
Ghinhé — Feijão;
Eremú — Abóbora;
Ját — Batata;
Madiki — Mandioca;
Behedzi — Melancia;
Propwi — Melões;
Masiche — Milho.
Atividade
Criar uma pequena horta ou roça pedagógica, observando:
semente → germinação → crescimento → floração → fruto → semente.
9. UBUDZOÁ WOHOERÁ — FRUTAS E PLANTAS MEDICINAIS DO QUINTAL
Aqui existe uma excelente possibilidade de integração entre sabedoria tradicional, Botânica, Química, História e Saúde.
Os estudantes podem conhecer:
Ainpeân — Arruda;
Niútáia — Gengibre;
Ainxeverã — Manjericão;
Jpâkuaçû — Erva-cidreira;
Jecotiaçadé — Sálvia;
Aincrãdí — Tomilho;
Pyantoá — Capim-santo;
Caacica — Mastruz.
A ponte com a Farmácia
Uma explicação adequada para o Ensino Fundamental seria:
Algumas plantas possuem substâncias químicas biologicamente ativas. A ciência pode estudar essas substâncias, identificar seus efeitos, avaliar sua segurança e, em determinados casos, utilizá-las no desenvolvimento de medicamentos.
É importante ensinar também:
planta medicinal ≠ medicamento automaticamente.
Uma planta utilizada tradicionalmente pode ter efeitos, mas isso não significa que qualquer preparação caseira seja segura ou substitua tratamento médico. A ciência realiza estudos de dose, composição, eficácia, toxicidade, interações e segurança.
10. UBUDZOÁ CAAOBY — PLANTAS MEDICINAIS DO CAMPO DAS ERVAS
O conhecimento apresentado pode formar um Herbário Pedagógico Kariri-Xocó, reunindo:
nome Kariri;
nome em português;
fotografia/desenho;
local onde cresce;
parte tradicionalmente utilizada;
conhecimento transmitido pelos mais velhos;
estudos científicos existentes;
cuidados e contraindicações.
Entre os nomes apresentados:
Ainhiéní — Guaco
Aindonga — Beldroega
Dzícaiá — Cana-do-brejo
Kabacrúpí — Cavalinha
Kigyndzú — Pimenta-d'água
Akãoba — Chapéu-de-couro
Jûtoádé — Espinheira-santa
Aguarapongá — Gervão
Mybusãytoá — Macela
Ainrahedé — Mentrasto
Macaé — Cordão-de-São-Francisco
Goambú — Carrapicho-de-agulha.
11. KERÍERÁ CARAÍ — ANIMAIS DOMÉSTICOS E SUA UTILIDADE
Os animais domésticos podem ser estudados dentro da relação entre ser humano, alimentação, trabalho, transporte e criação animal.
Animais apresentados:
Curé — Porco;
Igaborou — Cavalo;
Cradzó — Boi;
Wathõ — Bode;
Erintuca — Ovelha;
Irerê — Pato;
Kati — Abelha;
Kaplan — Jabuti;
Krêre — Papagaio;
Bucuté — Cão;
Poió — Gato;
Tute — Pombo;
Miriu — Coelho;
Sabucá — Galo.
Relação com a vida cotidiana
Os alunos podem investigar:
Cavalo → transporte
Boi → trabalho, alimentação e atividades rurais
Porco → alimentação
Cabra → leite, carne e criação
Ovelha → lã, carne e criação
Galinha → ovos e alimentação
Abelha → mel + polinização
Cão → companhia e proteção
Gato → convivência e controle de alguns animais considerados pragas
A abelha merece destaque especial: além de produzir mel, participa da polinização, fundamental para muitas plantas produzirem frutos e sementes.
12. MANEJO SUSTENTÁVEL — CUIDAR DA NATUREZA PARA AS FUTURAS GERAÇÕES
O manejo sustentável é um dos conceitos centrais das Ciências da Natureza e dos Conhecimentos Ambientais, pois ensina que os seres humanos dependem da natureza para viver e, por isso, precisam utilizá-la com responsabilidade.
Para os saberes tradicionais, a natureza não deve ser vista apenas como um lugar de onde se retiram alimentos, plantas, água, madeira ou outros recursos. A Antse — Natureza é parte da própria vida. A Radá — Terra, as Dzuá — Águas, as Retséá — Florestas, os Keríá — Animais, os Wãmyá — Peixes e as Ubuá — Plantas participam de uma grande relação de vida.
Por isso, o princípio do manejo sustentável pode ser apresentado aos estudantes da seguinte maneira:
“Usar a natureza sem destruir a capacidade de a natureza continuar produzindo vida.”
Esse ensinamento significa pensar não somente no presente, mas também nas pessoas que viverão depois de nós. Aquilo que a comunidade utiliza hoje precisa continuar existindo para os filhos, netos e futuras gerações.
Plantar e replantar
Quando uma família cultiva uma planta, utiliza seus frutos ou sementes e depois continua plantando, contribui para a continuidade daquele alimento.
O estudante aprende que a agricultura possui um ciclo:
semente → plantio → crescimento → produção → colheita → novas sementes → novo plantio.
O conhecimento científico pode complementar esse ensinamento explicando a germinação, a reprodução das plantas, a fertilidade do solo e a importância da diversidade agrícola.
Proteger as nascentes e as águas
As Dzuá — Águas são indispensáveis à vida. Proteger uma nascente significa proteger uma fonte que alimenta pessoas, animais e plantas.
A preservação da vegetação próxima às nascentes e aos cursos d'água ajuda a proteger o solo e a qualidade da água.
O estudante aprende que cuidar da água é cuidar de toda a comunidade.
Preservar as árvores
As árvores fazem parte das Retséá — Florestas e oferecem alimento, abrigo e espaço de reprodução para diversos animais.
Também ajudam a proteger o solo, participam do ciclo da água, armazenam carbono e contribuem para a manutenção da biodiversidade.
Por isso, cortar uma árvore sem necessidade pode representar muito mais do que retirar madeira: pode significar alterar uma pequena parte de todo um sistema de vida.
Pescar com responsabilidade
Os Wãmyá — Peixes fazem parte da alimentação e da cultura das comunidades que vivem próximas às águas.
O manejo responsável da pesca significa retirar da natureza aquilo que é necessário sem comprometer a reprodução e a continuidade das espécies.
O estudante pode compreender que, quando os peixes são retirados em quantidade excessiva ou durante períodos importantes para sua reprodução, a população pode diminuir.
Assim, proteger os peixes hoje significa garantir que ainda existam peixes amanhã.
Caçar com respeito à fauna
O conhecimento tradicional da caça pode ser estudado como parte da história e da relação cultural com o território.
Na educação ambiental, o estudante deve compreender que a retirada de animais precisa respeitar as normas ambientais vigentes, os períodos de proteção das espécies e a necessidade de conservação da fauna.
A caça indiscriminada pode diminuir populações de animais e alterar o equilíbrio dos ecossistemas.
Dessa forma, o conhecimento tradicional pode ser relacionado ao princípio contemporâneo da conservação da biodiversidade.
Proteger as abelhas
As abelhas possuem grande importância para a natureza.
Além dos produtos que algumas espécies fornecem, elas participam da polinização, processo fundamental para a reprodução de muitas plantas.
Ao proteger as abelhas, a comunidade também contribui para a existência de flores, frutos e sementes.
O conhecimento tradicional sobre as abelhas pode, portanto, dialogar diretamente com a Biologia e a Ecologia.
Aproveitar e guardar sementes
As sementes carregam a possibilidade de uma nova planta.
Guardar sementes de plantas utilizadas pela comunidade contribui para a continuidade das espécies cultivadas e para a preservação da diversidade agrícola.
O estudante pode aprender que conservar sementes também significa conservar memória, alimentação e conhecimento.
Não jogar lixo nos rios, lagoas e florestas
O lixo lançado na natureza pode contaminar a água, o solo e os animais.
Materiais descartados de maneira inadequada podem permanecer durante muito tempo no ambiente, podendo causar danos aos ecossistemas.
Por isso, cuidar da natureza também significa reduzir a produção de resíduos, reutilizar materiais quando possível, separar corretamente os resíduos e evitar sua deposição em rios, lagoas, matas e terrenos.
O princípio da continuidade
Todas essas práticas podem ser reunidas em um único ensinamento:
Plantar para colher.
Colher para alimentar.
Guardar sementes para plantar novamente.
Proteger a água para continuar bebendo.
Preservar a floresta para continuar tendo vida.
Cuidar dos animais para que continuem existindo.
Proteger os peixes para que as águas continuem alimentando.
Cuidar das abelhas para que as plantas continuem florescendo.
O manejo sustentável, portanto, ensina uma ideia fundamental:
A natureza que recebemos dos antepassados deve ser cuidada para que possa ser entregue às futuras gerações.
Nesse sentido, o estudante deixa de ser apenas alguém que aprende sobre o meio ambiente e passa a compreender-se como participante e responsável pela continuidade da vida.
O conhecimento tradicional, a educação ambiental e as Ciências da Natureza encontram-se, assim, no compromisso de conhecer, respeitar, proteger e transmitir.
13. METODOLOGIA DE ENSINO
A metodologia pode ser chamada de:
“Aprender observando, fazendo, perguntando e transmitindo.”
1. Oralidade
O professor começa com a conversa dos anciãos e mestres.
2. Observação
Os estudantes observam diretamente plantas, animais, céu, água, roça e clima.
3. Registro
Registram por meio de:
desenhos;
palavras Kariri;
fotografias;
tabelas;
mapas;
calendários;
pequenos textos.
4. Investigação científica
O estudante formula perguntas:
O que aconteceu?
Por que aconteceu?
Quando acontece?
Como podemos comprovar?
5. Comparação de conhecimentos
O conhecimento tradicional é colocado em diálogo com:
Biologia;
Ecologia;
Botânica;
Zoologia;
Astronomia;
Ciências da Terra;
Química;
Educação ambiental.
6. Transmissão
O aluno apresenta aquilo que aprendeu para sua família e comunidade.
14. PROJETO FINAL — CALENDÁRIO VIVO DA NATUREZA KARIRI-XOCÓ
A turma poderá construir um grande calendário anual contendo:
Lua → chuva → clima → plantas → animais → pesca → agricultura → flores → frutos → festas → conhecimentos tradicionais.
Cada mês poderá apresentar:
Nome Kariri + fenômeno natural + planta + animal + atividade tradicional + conhecimento científico.
O projeto pode se transformar em um livro produzido pelos próprios estudantes, preservando a língua e os conhecimentos ambientais da comunidade.
15. AVALIAÇÃO
A avaliação não precisa depender apenas de provas escritas.
Pode considerar:
participação nas rodas de conversa;
domínio de palavras Kariri;
identificação de plantas e animais;
capacidade de observar fenômenos;
registros no caderno de campo;
respeito à natureza;
participação nas atividades comunitárias;
comparação entre saber tradicional e conhecimento científico;
produção de desenhos, mapas e textos;
apresentação oral.
Princípio avaliativo
O estudante não aprende somente para responder uma prova; aprende para reconhecer, cuidar e transmitir o conhecimento.
16. FRASE-SÍNTESE PARA O MATERIAL DIDÁTICO
Subantse Subatekié é aprender a ciência da natureza com os olhos voltados para a floresta, os ouvidos atentos à palavra dos antepassados, os pés firmes na Radá e o coração ligado ao Opará.
Esse conteúdo tem potencial para se transformar em um livro didático/metodológico completo de Ciências da Natureza / Conhecimentos Ambientais para o Ensino Fundamental Kariri-Xocó, mantendo os termos Kariri apresentados por você e acrescentando habilidades por ano escolar, atividades práticas, experiências, glossário, exercícios, projetos, avaliação e uma sequência didática do 1º ao 9º ano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Subantse Subatekié nasce da compreensão de que a natureza pode ser uma das maiores salas de aula do povo.
O céu ensina o tempo.
A Lua ensina os ciclos.
A chuva ensina a água.
A floresta ensina a diversidade.
Os animais ensinam equilíbrio.
As plantas ensinam continuidade.
As sementes ensinam futuro.
A roça ensina trabalho.
O rio ensina movimento.
Os anciãos ensinam memória.
A língua ensina identidade.
A ciência ensina a investigar.
Quando esses conhecimentos entram em diálogo, a escola pode tornar-se um espaço de fortalecimento cultural e de formação científica.
O estudante aprende que proteger a natureza não é apenas uma obrigação escolar.
É cuidar daquilo que sustenta a vida.
E aprende também que o conhecimento não termina em uma geração.
Ele passa de pessoa para pessoa.
De avó para mãe.
De mãe para filho.
De mestre para estudante.
De ancião para jovem.
De geração para geração.
A palavra continua caminhando.
A memória continua viva.
E a natureza continua ensinando.
Subantse Subatekié.
Ciências da Natureza nos Saberes Tradicionais.
GLOSSÁRIO KARIRI — PORTUGUÊS
Antse — Natureza
Radda — Mundo
Radá — Terra
Uanieá — Indígenas
Natiá — Aldeia
Ukie — Sol
Hine — Luz
Cayápri — Dia
Kaia — Noite
Aranke — Céu
Batiá — Estrelas
Kaiaku — Lua
Uché — Tempo
Tidzebæ — Relâmpago
Arankedzoá — Nuvens
Dzó — Chuva
Dzuá — Águas
Ebedzú — Fonte
Iwo Opará — Rio São Francisco
Retsé / Retséá — Floresta
Ubuá — Plantas
Keríá — Animais
Ieendeá — Pássaros
Wãmyá — Peixes
Mydzé — Pesca/peixes, conforme o contexto apresentado
Uanhí — Lavoura
Uttihu — Fruta
Tdjeá — Legumes
Bidzanuandzo — Pajé, Guardião da Cura
Dzenuandzoá — Guardiões da Cura
Dzenude — Guardião da Reza
Dzenhéá Antse — Guardiões da Natureza
Duboherí Subantse — Professor ou mestre das Ciências da Natureza
Dubosamy — Mestre que ensina a cultura como raiz
Doboherí Nunúanie — Mestre que faz a língua nativa florescer
Duboherí Torá — Mestre do Canto do Toré
Dzenu Nhenetíá — Guardião das Tradições
Dzenu Uaɲoá — Guardião dos Costumes
Dzenu Katiantse — Guardião das Abelhas Nativas
Tokenhé — Antepassados
Tokenhé Antoá — Antepassados Sagrados
Subantse — Ciências da Natureza
Kyehâ — Clima
Iworóché Kayaku — Ciclo do Tempo Lunar
Puruha — Primavera
Makye — Verão
Âradzi — Outono
Ñikudzi — Inverno
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em:
https://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Dzenhéá Duboheriá , Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/03/dzenhea-duboheria-guardioes-e-mestres.html?m=0 . Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Clima e Estações do Ano. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2022/08/clima-e-estacoes-do-ano.html?m=0 . Acesso em: 6 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Calendário Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2018/11/calendario-kariri-xoco.html?m=0. Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Calendário Indígena, na Ordem do Ano Gregoriano. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2018/11/calendario-indigena.html?m=0. Acesso em: 5 out. 2026.
RODRIGUES, Aryon Dall'Igna. O artigo definido e os numerais na língua Kiriri: Vocabulários Português-Kiriri e Kiriri-Português. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, Brasília, v. 4, n. 2, dez. 2012.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. A retomada da língua Kariri-Xocó. In: Cadernos de Linguística, v. 1, n. 3, p. 1–13. Rio de Janeiro: UFRJ, 2020. Disponível em:
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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História — Kariri-Xocó, Saberes, Contos — Volume 17 — Coletânea. Nhenety Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroy-historia-kariri-xoco-caminhos-e_5.html?m=0. Acesso em: 4 out. 2026.
SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Alagoinhas, 2025. Disponível em:
https://www.poscritica.uneb.br/wp-content/uploads/2025/12/Suzart-Elizabete-Costa.-DICIONARIO-CULTURAL-KARIRI-XOCO_Forma-de-ocupar-a-lingua-portuguesa-como-direito-a-memoria-e-.pdf . Acesso em: 8 out. 2026.
SOBRE O AUTOR
NHENETY KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó é escritor, contador de histórias, pesquisador da memória cultural e autor de trabalhos voltados à preservação dos saberes tradicionais do povo Kariri-Xocó.
Sua produção reúne contos, fábulas, cordéis, artigos, registros históricos, vocabulários, narrativas ancestrais, conhecimentos culturais e materiais educativos.
Seu trabalho busca transformar a tradição oral em registros escritos e visuais, utilizando também as tecnologias contemporâneas como instrumentos de preservação cultural.
A natureza, o Opará, a aldeia, a memória dos antepassados, a língua indígena, as histórias dos anciãos e a educação das novas gerações constituem elementos importantes de sua produção.
Como contador de histórias, Nhenety compreende que contar é também guardar.
Escrever é continuar a transmissão.
Ensinar é plantar.
E preservar a memória é garantir que aquilo que foi recebido dos antepassados possa chegar às futuras gerações.
Nhenety significa tradição ou ser lembrado.
ENCERRAMENTO
UMA PALAVRA PARA AS NOVAS GERAÇÕES
Filhos e netos,
aprendam a olhar para a natureza.
Olhem para o céu.
Observem a Lua.
Escutem a chuva.
Conheçam o rio.
Respeitem a floresta.
Aprendam o nome das plantas.
Conheçam os animais.
Protejam as águas.
Guardem as sementes.
Ouçam os mais velhos.
Aprendam a língua.
Perguntem.
Pesquisem.
Escrevam.
Contem histórias.
Porque o conhecimento que fica guardado somente em uma pessoa pode desaparecer com ela.
Mas o conhecimento transmitido às novas gerações continua caminhando.
Que a Antse — Natureza continue ensinando.
Que o Opará continue correndo.
Que a Radá continue alimentando.
Que as Retséá continuem vivas.
Que os Keríá continuem existindo.
Que as Ubuá continuem florescendo.
E que a palavra dos Tokenhé Antoá continue viva no coração das crianças.
Somos guardiões da memória do Opará.
Iewóá 'Gratidão'.
Inatekié 'Obrigado'.
AUTOR:
Nhenety Kariri-Xocó



