segunda-feira, 2 de novembro de 2026

GRAVIÉ E MARIA MATILDES: OS CURADORES E PROTETORES DOS KARIRI-XOCÓ





Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Obra de história ancestral, memória indígena e resistência cultural

Porto Real do Colégio — Alagoas, Brasil
2026




1. FALSA FOLHA DE ROSTO

GRAVIÉ E MARIA MATILDES

OS CURADORES E PROTETORES DOS KARIRI-XOCÓ

História ancestral, memória comunitária e resistência indígena no Baixo São Francisco.

Nhenety Kariri-Xocó

2026




2. FOLHA DE ROSTO

GRAVIÉ E MARIA MATILDES: OS CURADORES E PROTETORES DOS KARIRI-XOCÓ

Obra dedicada à memória de Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, e de Maria Matildes, personagens lembrados pela tradição histórica e oral como importantes referências de cuidado, proteção, solidariedade e resistência dos indígenas de Porto Real do Colégio, Alagoas.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó.

Gênero: História ancestral, memória indígena, narrativa histórica e patrimônio cultural imaterial.

Local de referência: Rua dos Índios, posteriormente associada à história da comunidade Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, às margens do Rio São Francisco.

Edição: 1ª edição.

Ano: 2026.




3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO

Direitos autorais

© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó.

Todos os direitos reservados ao autor, respeitadas as disposições legais aplicáveis.

Esta obra reúne narrativas sobre a memória de Gravié e Maria Matildes, personagens associados à história dos povos indígenas de Porto Real do Colégio, Alagoas. Seu propósito é contribuir para a preservação da memória ancestral, o fortalecimento da identidade Kariri-Xocó e a transmissão de conhecimentos às novas gerações.

As narrativas são apresentadas com base nos textos autorais indicados nas referências bibliográficas e na perspectiva da valorização da tradição oral. Informações cronológicas, genealógicas, patrimoniais e administrativas que necessitem de confirmação em documentos históricos devem ser confrontadas com registros de época, arquivos públicos, fontes eclesiásticas e testemunhos comunitários.

A reprodução integral ou parcial desta obra depende da observância da legislação de direitos autorais.

Porto Real do Colégio, Alagoas, Brasil — 2026.





4. FICHA CATALOGRÁFICA

KARIRI-XOCÓ, Nhenety.

Gravié e Maria Matildes: os curadores e protetores dos Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. — 1. ed. — Porto Real do Colégio, AL: edição do autor, 2026.

Obra de história ancestral, memória indígena e resistência cultural.

Povos indígenas — Alagoas. 2. Kariri-Xocó — História. 3. Porto Real do Colégio — Memória histórica. 4. Medicina tradicional indígena. 5. Resistência cultural. 6. Tradição oral. 7. Patrimônio cultural indígena. I. Título.

CDD sugerida: 980.41 — História do Brasil, conforme a classificação adotada pela biblioteca.

Nota: ficha catalográfica preliminar, para organização editorial. A classificação definitiva deverá ser conferida por bibliotecário habilitado.




5. ISBN SIMBÓLICO

ISBN simbólico da edição: ISBN-SIMBÓLICO-GMMKX-2026-001.

Este código é utilizado exclusivamente para organização interna e identificação simbólica da obra no acervo bibliográfico do autor. Não constitui ISBN oficial atribuído pela agência competente.

Identificação da obra: GMMKX-2026.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó.

Título: Gravié e Maria Matildes: os curadores e protetores dos Kariri-Xocó.

Edição: Primeira edição, 2026.




6. DEDICATÓRIA

Dedico esta obra à memória ancestral do povo Kariri-Xocó, aos nossos antepassados que resistiram às transformações históricas, aos anciãos que guardaram as lembranças de seus familiares e aos descendentes que continuam a transmitir os conhecimentos recebidos das gerações anteriores. Dedico especialmente a Gabriel Gonçalves, o inesquecível Gravié, e a Maria Matildes, mulher de coragem, cuidado e proteção, cujas trajetórias representam, nesta narrativa, a força de uma comunidade que não deixou desaparecer sua identidade. Dedico também às crianças, aos jovens, aos professores, aos pesquisadores, aos contadores de histórias e a todos aqueles que compreendem que a memória indígena é patrimônio vivo, fundamento da identidade coletiva e herança que deve atravessar o tempo.




7. AGRADECIMENTOS

Agradeço, em primeiro lugar, aos antepassados Kariri-Xocó, cujas experiências, palavras, ensinamentos e formas de resistência constituem a base espiritual e histórica desta obra. Agradeço aos anciãos e às pessoas da comunidade que preservam relatos sobre a Rua dos Índios, as antigas famílias, os curadores tradicionais e os acontecimentos que marcaram a vida indígena em Porto Real do Colégio. Agradeço também aos familiares de Gravié e Maria Matildes, cuja memória representa uma contribuição importante para a compreensão das relações de parentesco, solidariedade e proteção comunitária. Aos professores, estudantes, pesquisadores e leitores interessados na história dos povos indígenas, expresso meu reconhecimento pelo compromisso com a educação, a cultura e o respeito às tradições ancestrais. Agradeço a todos que compreendem a importância de registrar essas narrativas para que os nomes e os feitos dos nossos antepassados não sejam esquecidos. Que este livro contribua para fortalecer a memória Kariri-Xocó, honrar aqueles que vieram antes de nós e inspirar as novas gerações a continuarem a defender sua história, sua cultura e seus direitos.




8. EPÍGRAFE

Há pessoas que passam pela vida deixando bens materiais; outras deixam caminhos de coragem, cuidado e proteção. Gravié transformou o conhecimento ancestral em acolhimento, e Maria Matildes fez da memória, da solidariedade e da resistência uma herança para o seu povo.

— Nhenety Kariri-Xocó




9. PREFÁCIO DO VOLUME

A história dos povos indígenas brasileiros não pode ser compreendida somente por meio dos documentos produzidos pelas autoridades, das decisões administrativas ou dos registros oficiais que sobreviveram ao tempo. É necessário reconhecer também as memórias familiares, as narrativas transmitidas pelos anciãos, os conhecimentos tradicionais e as experiências cotidianas das comunidades que enfrentaram transformações profundas sem abandonar suas identidades. É nesse horizonte que se insere a obra Gravié e Maria Matildes: os curadores e protetores dos Kariri-Xocó, de Nhenety Kariri-Xocó. O livro recupera duas figuras que ocupam lugar significativo na narrativa histórica apresentada pelo autor: Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, e Maria Matildes. Suas trajetórias estão relacionadas ao cuidado tradicional, à assistência aos necessitados, à proteção das famílias indígenas e à continuidade da vida comunitária na Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, Alagoas. A obra situa essa memória em um período de transformações sociais e políticas, associado à criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, e às consequências que esse processo teria produzido para os direitos e a organização dos indígenas locais. Nesse contexto, a história de Gravié e Maria Matildes adquire significado que ultrapassa suas experiências individuais: representa a importância das pessoas que, por meio de seus conhecimentos, de suas relações e de seus recursos, ajudaram a sustentar a comunidade. O relato também aproxima suas trajetórias dos acontecimentos relacionados à atuação do padre Alfredo Dâmaso e à criação do posto indígena em 1944, marco importante da narrativa histórica regional. Ao apresentar esses acontecimentos, é necessário distinguir a memória transmitida pela comunidade dos fatos que podem ser comprovados por documentos contemporâneos, sem desvalorizar o significado cultural da tradição oral. Essa atitude fortalece a obra, pois permite que a memória ancestral seja preservada com respeito e, simultaneamente, submetida ao diálogo responsável com a pesquisa histórica. O mérito deste livro está em colocar em evidência personagens que merecem ser conhecidos pelas novas gerações, valorizando o protagonismo indígena e a contribuição das pessoas que defenderam seus parentes em tempos de dificuldades. Que a leitura desperte o interesse pela história Kariri-Xocó e incentive novas pesquisas sobre as famílias, os territórios, os conhecimentos curativos e as formas de resistência que mantiveram viva a comunidade ao longo das gerações.




10. RESUMO

Esta obra apresenta a trajetória de Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, e de Maria Matildes, personagens lembrados na narrativa histórica de Nhenety Kariri-Xocó como curadores, protetores e referências de solidariedade entre os indígenas de Porto Real do Colégio, Alagoas. O livro situa suas experiências no contexto das transformações sociais e políticas relacionadas à criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, período associado, na memória apresentada, à perda de direitos e ao enfraquecimento das condições de autonomia indígena. Por meio de dez capítulos, a narrativa aborda os conhecimentos tradicionais de cura, o acolhimento de pessoas necessitadas, a preservação das relações comunitárias, a sucessão de responsabilidades após a morte de Gravié e a atuação de Maria Matildes na proteção dos indígenas. Também relaciona essa memória aos acontecimentos de 1944, especialmente à criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, apresentado como parte de um processo de reorganização da assistência institucional aos indígenas da região. A obra valoriza a tradição oral, a memória familiar, o protagonismo indígena e a importância da transmissão intergeracional dos conhecimentos. Seu objetivo é contribuir para a preservação do patrimônio histórico e cultural Kariri-Xocó, incentivando a pesquisa documental e o reconhecimento das pessoas que participaram da continuidade da comunidade em tempos de transformação.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; Gravié; Maria Matildes; memória ancestral; tradição oral; resistência indígena; Porto Real do Colégio.




11. ABSTRACT

This book presents the lives of Gabriel Gonçalves, known as Gravié, and Maria Matildes, figures remembered in Nhenety Kariri-Xocó's historical narrative as traditional healers, protectors, and important sources of solidarity among the Indigenous people of Porto Real do Colégio, Alagoas, Brazil. Their experiences are situated within the social and political transformations associated with the establishment of the town of Porto Real do Colégio in 1876, a period linked in the narrative to the loss of Indigenous rights and the weakening of local Indigenous autonomy. Through ten chapters, the book explores traditional healing knowledge, hospitality and care for those in need, the preservation of community relationships, the continuation of responsibilities following Gravié's death, and Maria Matildes's role in protecting Indigenous families. It also connects these memories with events in 1944, particularly the establishment of the Padre Alfredo Dâmaso Indigenous Post, presented as part of a broader process of institutional reorganization and assistance for Indigenous people in the region. The work emphasizes oral tradition, family memory, Indigenous agency, and the intergenerational transmission of knowledge. Its purpose is to contribute to the preservation of Kariri-Xocó historical and cultural heritage while encouraging documentary research and recognition of the people who helped sustain the community through periods of historical change.

Keywords: Kariri-Xocó; Gravié; Maria Matildes; ancestral memory; oral tradition; Indigenous resistance; Porto Real do Colégio.




12. APRESENTAÇÃO

A história de um povo também é construída pelas pessoas que cuidam, orientam, acolhem e protegem sua comunidade nos períodos de maior dificuldade. Nem sempre essas pessoas aparecem nos documentos oficiais ou recebem o reconhecimento que merecem, mas seus nomes permanecem guardados nas lembranças familiares e nas narrativas transmitidas de geração em geração. Este livro nasce do desejo de preservar a memória de Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, e de Maria Matildes, duas figuras apresentadas na tradição histórica aqui registrada como referências de cuidado e proteção dos indígenas de Porto Real do Colégio. Suas trajetórias estão ligadas à Rua dos Índios, espaço de memória comunitária onde as relações familiares, os conhecimentos ancestrais e as práticas tradicionais de cura tiveram importância para a continuidade da vida indígena. Gravié é lembrado por sua generosidade, por sua experiência com ervas e rezas e pela disposição de receber pessoas vindas de diferentes localidades do Baixo São Francisco. Maria Matildes é recordada por sua coragem, sua capacidade de acolhimento e sua atuação na defesa dos parentes indígenas após a morte de Gravié. A narrativa também considera as transformações políticas e sociais que afetaram a comunidade, relacionando-as à criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, e aos acontecimentos que antecederam a instalação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em 1944. Mais do que contar duas biografias, esta obra procura mostrar como a resistência pode assumir formas diversas: conservar conhecimentos curativos, compartilhar recursos, proteger familiares, enfrentar preconceitos e garantir que uma comunidade continue existindo. A memória de Gravié e Maria Matildes constitui, assim, um convite à reflexão sobre o valor das pessoas que sustentam a vida coletiva e sobre a responsabilidade das novas gerações em preservar a história Kariri-Xocó.




13. NOTA DO AUTOR

Escrever sobre Gravié e Maria Matildes é reconhecer que a história indígena também vive nas lembranças dos familiares, nas palavras dos anciãos e nas experiências que permanecem na memória da comunidade. Ao organizar estas narrativas, procurei valorizar a importância dos dois personagens para a história dos indígenas de Porto Real do Colégio, destacando o cuidado tradicional, a solidariedade, a proteção comunitária e a resistência cultural. A narrativa de Gravié apresenta um homem que teria colocado seus conhecimentos curativos a serviço das pessoas, transformando sua casa em lugar de acolhimento. A trajetória de Maria Matildes destaca uma mulher que, depois da morte de Gravié, teria continuado a desempenhar papel importante na proteção dos indígenas e na preservação das relações comunitárias. As datas e os acontecimentos mencionados nesta obra são apresentados conforme os textos de referência utilizados em sua composição. Algumas informações, especialmente as datas relativas ao falecimento de Luzia, à sucessão patrimonial e à contribuição de recursos para a criação do posto indígena, precisam ser confrontadas com documentos históricos para que se estabeleça uma cronologia definitiva. Essa necessidade de investigação não diminui o valor da memória oral; pelo contrário, demonstra a importância de registrar os relatos e buscar outras fontes capazes de ampliar seu entendimento. Este livro é, portanto, uma contribuição à preservação da memória ancestral e um convite à comunidade, aos pesquisadores e aos educadores para continuarem investigando a história dos nossos antepassados.




14. MEMÓRIA DO AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, pesquisador e produtor cultural indígena de Alagoas, dedicado à preservação e à divulgação da memória ancestral do povo Kariri-Xocó. Sua trajetória de escrita está relacionada à valorização da história comunitária, dos conhecimentos tradicionais, das narrativas orais e da transmissão cultural entre gerações. Por meio de contos, cordéis, textos históricos, materiais educativos e publicações digitais, desenvolve um trabalho voltado ao registro das experiências dos antepassados e à construção de instrumentos de conhecimento para as novas gerações. Seu acervo reúne narrativas sobre personagens históricos, territórios, famílias, espiritualidade, língua, cultura e resistência indígena. A produção escrita constitui uma forma de continuidade da tradição oral, permitindo que histórias anteriormente compartilhadas pela palavra também sejam organizadas em livros e materiais de consulta. Nesta obra, o autor volta sua atenção para Gravié e Maria Matildes, personagens cuja memória considera fundamental para compreender as formas de cuidado, proteção e solidariedade que marcaram a história dos indígenas de Porto Real do Colégio.




15. APRESENTAÇÃO DA OBRA

Gravié e Maria Matildes: os curadores e protetores dos Kariri-Xocó foi concebido como um livro de memória histórica organizado em dez capítulos. Seu percurso começa com o contexto de transformação vivido pela comunidade indígena no final do século XIX, apresenta a figura de Gravié e seus conhecimentos curativos, acompanha sua vida familiar e sua relação com Luzia, aborda a chegada de Maria Matildes e destaca a continuidade de sua atuação após a morte do companheiro. Os capítulos seguintes ampliam o olhar para a Rua dos Índios, as relações de parentesco, a defesa comunitária, a atuação de lideranças religiosas e indígenas e os acontecimentos de 1944. O encerramento retoma o significado da memória ancestral e sua importância para o reconhecimento da história Kariri-Xocó. A organização procura estabelecer uma sequência temática e cronológica, sem ocultar que alguns episódios ainda necessitam de confirmação documental. As referências principais são os textos autorais de Nhenety Kariri-Xocó sobre Gravié e Maria Matildes, além da coletânea dedicada aos heróis e heroínas Kariri-Xocó. Dessa forma, o livro pretende servir como material de leitura, consulta cultural e apoio a atividades educativas sobre a história indígena de Alagoas.




16. INTRODUÇÃO

A história dos povos indígenas é marcada por processos de continuidade, transformação e resistência. Em diferentes regiões do Brasil, as mudanças administrativas, a ocupação territorial e as políticas dirigidas às populações originárias alteraram profundamente as condições de vida das comunidades, sem que isso significasse o desaparecimento de suas identidades. A história dos indígenas de Porto Real do Colégio, no Baixo São Francisco alagoano, precisa ser compreendida considerando tanto as transformações institucionais quanto as estratégias desenvolvidas pelas próprias famílias para manter suas relações, conhecimentos e formas de organização. A criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, constitui o marco temporal adotado nesta obra para situar um período de mudanças políticas e sociais associado à perda de direitos indígenas. Para compreender a extensão dessas mudanças, é importante investigar a legislação, os registros administrativos e as condições concretas de vida da população indígena da região. Nesse cenário, a memória de Gravié e Maria Matildes permite observar uma dimensão cotidiana da resistência: o cuidado com os enfermos, a preservação dos conhecimentos tradicionais, a assistência aos parentes e a proteção das famílias. Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, é apresentado como curador respeitado, detentor de conhecimentos ancestrais e proprietário de bens que, segundo a narrativa, lhe permitiam acolher numerosas pessoas. Maria Matildes, por sua vez, é lembrada como mulher de coragem, conhecedora das práticas de cuidado e capaz de continuar a proteção comunitária depois da morte de Gravié, em 1932. A narrativa situa a morte de Maria Matildes em 1944 e aproxima sua memória da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, acontecimento que marca outra etapa da história regional. A relação entre essas vidas e os processos de reconhecimento indígena deve ser entendida como parte de uma trajetória coletiva mais ampla, na qual diferentes famílias, lideranças e apoiadores tiveram participação. O livro, dividido em dez capítulos, procura apresentar essa história de maneira acessível, respeitosa e organizada. Ao mesmo tempo, reconhece que a memória oral e a documentação escrita possuem características distintas e complementares. A primeira preserva sentidos, experiências e lembranças transmitidas entre gerações; a segunda permite estabelecer datas, identificar registros e confrontar versões. O diálogo entre ambas pode ampliar o conhecimento sobre os antepassados. Ao registrar Gravié e Maria Matildes, esta obra reafirma que a história Kariri-Xocó não é apenas a história das dificuldades enfrentadas, mas também a história das pessoas que cuidaram de sua comunidade e contribuíram para sua continuidade.




17. SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto

Folha de Rosto

Verso da Folha de Rosto

Ficha Catalográfica

ISBN Simbólico

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Prefácio do Volume

Resumo

Abstract

Apresentação

Nota do Autor

Memória do Autor

Apresentação da Obra

Introdução

Corpo da obra — Dez capítulos

A Vila de Porto Real do Colégio e as transformações da história indígena

Gravié: o curador do Baixo São Francisco

Luzia e a tradição do cuidado ancestral

Maria Matildes: a chegada de uma protetora

Gravié e Maria Matildes: uma aliança de cuidado e solidariedade

A Rua dos Índios: território de memória e resistência

A morte de Gravié e a continuidade de seu legado

Maria Matildes e a defesa dos direitos indígenas

O ano de 1944: memória, assistência e reorganização comunitária

O legado dos curadores e protetores dos Kariri-Xocó

Carlos Estevão de Oliveira e os Registros Históricos de Colégio

Considerações Finais

Glossário

Referências Bibliográficas

Sobre o Autor




CAPÍTULO 1 — A VILA DE PORTO REAL DO COLÉGIO E AS TRANSFORMAÇÕES DA HISTÓRIA INDÍGENA




No século XIX, a região do Baixo São Francisco era um espaço de circulação de pessoas, mercadorias, conhecimentos e tradições, onde os povos indígenas mantinham suas relações familiares e comunitárias em meio às transformações da sociedade regional. Porto Real do Colégio, em Alagoas, possuía uma história marcada pela presença indígena, pelas atividades agrícolas, pelas relações com o rio e pelos contatos com diferentes autoridades e grupos sociais. A criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, constitui, nesta narrativa, um marco para compreender as mudanças administrativas e políticas que afetaram a comunidade indígena, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento de sua identidade, à ocupação de seus espaços tradicionais e à manutenção de seus direitos. Os efeitos concretos desse processo precisam ser investigados por meio de registros históricos, pois as mudanças administrativas nem sempre ocorreram da mesma maneira para todas as famílias; contudo, a memória comunitária apresentada pelo autor associa esse período a dificuldades crescentes para a continuidade da vida indígena. A Rua dos Índios tornou-se um espaço fundamental nessa história, reunindo famílias, conhecimentos, vínculos de parentesco e formas de convivência que contribuíram para a preservação da identidade coletiva. Foi nesse ambiente que a figura de Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, adquiriu importância, sendo lembrado por seu conhecimento das práticas tradicionais de cura e pela generosidade com que recebia pessoas necessitadas. Ao seu lado, em diferentes momentos de sua trajetória, estiveram familiares e companheiras que participaram da manutenção de uma casa aberta ao acolhimento. A história de Gravié e Maria Matildes deve ser compreendida dentro desse cenário de mudanças, porque a proteção oferecida por ambos representava mais do que assistência individual: constituía uma forma de fortalecer relações sociais e manter a comunidade unida. Enquanto as condições políticas e administrativas se transformavam, os conhecimentos transmitidos pelos antepassados continuavam a oferecer orientação e sentido à vida cotidiana. A memória desses personagens demonstra que a resistência indígena também se constrói por meio de gestos de solidariedade, da conservação das tradições e da disposição de proteger aqueles que enfrentam dificuldades. Assim, o período iniciado pelas transformações do final do século XIX serve de ponto de partida para compreender as trajetórias que este livro procura preservar, reconhecendo que a história dos Kariri-Xocó é feita tanto pelos acontecimentos públicos quanto pelas experiências familiares e comunitárias que permaneceram vivas através das gerações.




CAPÍTULO 2 — GRAVIÉ: O CURADOR DO BAIXO SÃO FRANCISCO





Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, é lembrado na narrativa de Nhenety Kariri-Xocó como um homem indígena respeitado, generoso e profundamente ligado aos conhecimentos tradicionais de seu povo, tendo vivido na Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, onde sua casa se tornou referência para pessoas que procuravam ajuda e orientação. Segundo o relato, Gravié possuía terras, fazendas, casas e rebanhos, mas sua verdadeira importância não estava somente nos bens materiais, e sim na maneira como utilizava seus recursos e conhecimentos para atender às necessidades de outras pessoas. Sua experiência com ervas, rezas e práticas ancestrais de cuidado fazia com que indígenas e moradores de diferentes localidades do Baixo São Francisco procurassem sua ajuda, transformando sua residência em um espaço de acolhimento e convivência. 




A imagem de Gravié transmitida pela memória comunitária é a de um curador que compreendia o cuidado como responsabilidade coletiva, recebendo os necessitados sem reduzir a importância de cada pessoa à sua condição econômica ou social. Seu trabalho estava relacionado a uma tradição na qual os conhecimentos sobre plantas, palavras de oração, observação da natureza e experiências acumuladas pelas gerações ocupavam lugar significativo na vida das comunidades. Ao exercer essa função, Gravié contribuía para a preservação de saberes que não se limitavam ao tratamento das enfermidades, pois envolviam também confiança, aconselhamento e fortalecimento dos laços entre parentes. Sua casa era lembrada como lugar de portas abertas, onde o sofrimento alheio encontrava atenção e solidariedade. Ao seu lado estava Luzia, sua esposa e irmã do pajé Manoel Paulo, conforme a narrativa, com quem compartilhava a vida familiar e as responsabilidades do cuidado. A presença de Luzia demonstra que essa história não pode ser reduzida à atuação isolada de um único homem, pois os conhecimentos e as relações familiares formavam uma rede de apoio que envolvia diferentes pessoas. Gravié representa, portanto, uma memória de generosidade e compromisso comunitário, cuja importância permanece associada à continuidade dos costumes indígenas de Porto Real do Colégio. Ao registrar sua trajetória, a obra valoriza os curadores tradicionais e reconhece que muitos conhecimentos ancestrais foram conservados por pessoas cuja atuação cotidiana nem sempre aparece nos registros oficiais. Sua história recorda que a riqueza de uma pessoa também pode ser medida pela confiança que inspira, pelo cuidado que oferece e pela contribuição que deixa para a comunidade.




CAPÍTULO 3 — LUZIA E A TRADIÇÃO DO CUIDADO ANCESTRAL




Na trajetória de Gravié, Luzia ocupa um lugar importante como companheira de vida e participante do ambiente familiar em que os conhecimentos tradicionais de cuidado eram praticados e compartilhados, sendo lembrada como irmã do pajé Manoel Paulo e integrante de uma rede de relações ligada à espiritualidade e à assistência aos indígenas da Rua dos Índios. Sua presença ajuda a compreender que a casa de Gravié não era apenas uma residência particular, mas um espaço comunitário no qual se reuniam pessoas em busca de alívio, orientação e apoio. O relato apresenta Luzia ao lado do marido durante uma fase em que a família já havia conquistado respeito entre os indígenas e outros habitantes do Baixo São Francisco, e sua relação com o pajé Manoel Paulo aproxima a história familiar de um universo mais amplo de conhecimentos tradicionais e responsabilidades espirituais. Em determinado momento, porém, a enfermidade de Luzia teria alterado profundamente a rotina da casa, exigindo cuidados constantes e trazendo sofrimento à família. A narrativa informa que Maria Matildes chegou para ajudá-la, inicialmente como cuidadora, estabelecendo uma relação de proximidade com aquela família antes de assumir o papel que posteriormente ocuparia na vida de Gravié e na proteção comunitária. Os textos autorais utilizados como referência apresentam divergência quanto ao ano da morte de Luzia, indicando 1910 em um relato e 1912 em outro; por isso, este capítulo não estabelece uma data definitiva sem a confirmação por fontes adicionais. Independentemente dessa divergência, a memória de Luzia permite reconhecer a importância das mulheres que participavam das redes de cuidado e das relações familiares que sustentavam a vida comunitária. Sua história também recorda que a tradição ancestral se transmite não apenas por meio de cerimônias ou ensinamentos formalizados, mas através de gestos cotidianos, do acompanhamento dos enfermos, da partilha das responsabilidades e da confiança construída entre as pessoas. A enfermidade e a morte de Luzia constituem momentos dolorosos na narrativa, mas também abrem caminho para compreender a chegada de Maria Matildes e a continuidade do cuidado na casa de Gravié. Assim, a memória de Luzia permanece ligada ao reconhecimento da contribuição das mulheres na manutenção das famílias, na preservação dos conhecimentos tradicionais e na formação das relações que permitiram à comunidade enfrentar as transformações de seu tempo.




CAPÍTULO 4 — MARIA MATILDES: A CHEGADA DE UMA PROTETORA




Maria Matildes entrou na história de Gravié, conforme a narrativa transmitida por Nhenety Kariri-Xocó, quando foi chamada para cuidar de Luzia durante o período de enfermidade, chegando à casa não apenas como alguém encarregada de prestar assistência, mas como uma presença que gradualmente passou a integrar a vida daquela família. O trabalho de cuidar exigia paciência, dedicação e capacidade de compreender as necessidades de uma pessoa enferma, e foi nesse ambiente que Matildes teria demonstrado qualidades que mais tarde seriam associadas à sua atuação na proteção dos indígenas. Depois da morte de Luzia, Gravié atravessou um período de luto, e, com o passar do tempo, ele e Maria Matildes estabeleceram uma união que deu continuidade à vida familiar e às responsabilidades comunitárias. A narrativa a apresenta como mulher conhecedora das práticas de cuidado e capaz de acompanhar Gravié no acolhimento de pessoas que chegavam à Rua dos Índios em busca de ajuda. Entretanto, sua importância não se restringiu à condição de companheira de um homem respeitado: Maria Matildes desenvolveu uma trajetória própria, marcada pela coragem, pela firmeza nas relações com pessoas de fora da comunidade e pela disposição de defender os indígenas em situações de dificuldade. A tradição que fundamenta este livro recorda que ela mantinha relações próximas com seus familiares, entre eles o irmão Luiz Teipó e os primos Quinca, João Menino e Zeca, compondo uma rede de parentesco que ajuda a compreender a estrutura social ao seu redor. Sua casa e seus recursos materiais, segundo o relato, permitiam oferecer apoio a pessoas que enfrentavam necessidades, enquanto sua posição social lhe proporcionava condições de interceder em favor dos parentes. Maria Matildes é lembrada, portanto, como uma mulher cuja força se manifestava tanto no cuidado cotidiano quanto na defesa da comunidade, transformando a experiência adquirida no ambiente familiar em responsabilidade coletiva. Sua trajetória demonstra que as mulheres indígenas desempenharam papéis decisivos na continuidade das tradições e na proteção das famílias, muitas vezes assumindo responsabilidades que se ampliavam conforme as circunstâncias históricas exigiam. Ao apresentar sua chegada, este capítulo prepara o leitor para compreender como Matildes passou de cuidadora de uma pessoa enferma a protagonista de uma memória de proteção, solidariedade e resistência entre os indígenas de Porto Real do Colégio.




CAPÍTULO 5 — GRAVIÉ E MARIA MATILDES: UMA ALIANÇA DE CUIDADO E SOLIDARIEDADE




A união de Gravié e Maria Matildes, tal como apresentada na tradição histórica registrada por Nhenety Kariri-Xocó, representou a continuidade de uma casa que já era conhecida pelo acolhimento e pela assistência aos indígenas do Baixo São Francisco, fortalecendo uma rede de cuidado baseada nos conhecimentos ancestrais, nos vínculos familiares e na disposição de ajudar aqueles que procuravam proteção. Gravié contribuía com sua experiência de curador, sua reputação e os recursos materiais que, segundo o relato, havia acumulado ao longo da vida, enquanto Maria Matildes participava das práticas de cuidado e desenvolvia sua própria atuação na defesa dos parentes. Juntos, tornaram-se referências para pessoas que precisavam de orientação, apoio e acolhimento, em um contexto no qual as mudanças políticas e sociais podiam ampliar as dificuldades enfrentadas pelas famílias indígenas. A relação entre ambos deve ser entendida como uma parceria de responsabilidades e não apenas como uma união conjugal, pois o significado atribuído à sua casa estava ligado à continuidade das relações comunitárias e à preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações. Naquele ambiente, a assistência prestada às pessoas necessitadas ajudava a fortalecer a confiança entre parentes e vizinhos, enquanto a presença de familiares e visitantes mantinha viva a circulação de histórias, experiências e ensinamentos. A narrativa destaca que Gravié era respeitado por suas práticas curativas e que Maria Matildes possuía firmeza para lidar com situações que exigiam coragem, especialmente quando estavam em jogo a dignidade e a proteção dos indígenas. Essa combinação de conhecimentos, recursos e compromisso comunitário fez com que a memória da família ultrapassasse os limites da vida privada. 




A casa tornou-se símbolo de solidariedade, e o trabalho de cuidado passou a representar uma forma de resistência em um período de transformações históricas. Quando Gravié faleceu, em 1932, conforme o relato utilizado neste livro, Maria Matildes permaneceu como responsável pela continuidade dessa memória e pela manutenção de sua atuação protetora. O legado da união dos dois não deve ser medido apenas pelos bens materiais mencionados na tradição, mas sobretudo pela imagem de uma família que colocou sua posição e seus conhecimentos a serviço dos outros. A história de Gravié e Matildes recorda que o cuidado pode fortalecer uma comunidade, que a solidariedade pode proteger identidades ameaçadas e que a resistência também se manifesta nas ações cotidianas de quem não abandona seus parentes diante das adversidades.




CAPÍTULO 6 — A RUA DOS ÍNDIOS: TERRITÓRIO DE MEMÓRIA E RESISTÊNCIA




A Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, constitui um dos espaços centrais desta narrativa, pois está associada à residência de Gravié, à atuação de Maria Matildes e às relações familiares que ajudaram a preservar a memória dos indígenas da região. Mais do que uma referência geográfica, a rua representa um território de convivência, pertencimento e continuidade cultural, no qual diferentes gerações construíram suas experiências em meio às transformações sociais e administrativas do município. A memória comunitária relaciona esse espaço às antigas famílias indígenas, aos conhecimentos tradicionais, às práticas de cuidado e às formas de solidariedade que contribuíram para a manutenção da identidade coletiva. Em períodos de dificuldade, a proximidade entre parentes e a existência de pessoas reconhecidas por sua generosidade podiam oferecer apoio material e emocional, fortalecendo a capacidade de enfrentar as pressões externas. A casa de Gravié e Maria Matildes aparece, nesse contexto, como um ponto de acolhimento para pessoas que chegavam de outras localidades do Baixo São Francisco, ampliando as relações da comunidade para além dos limites imediatos da rua. O nome Rua dos Índios também recorda a maneira como as populações indígenas foram identificadas e situadas dentro da organização urbana regional, aspecto que merece investigação histórica para compreender as mudanças de denominação, os usos do espaço e as experiências dos moradores ao longo do tempo. A história territorial não se resume aos nomes das ruas ou aos limites administrativos, pois inclui os caminhos percorridos pelas famílias, os lugares de reunião, os quintais, as casas e os espaços onde os conhecimentos eram compartilhados. Ao lembrar Gravié e Maria Matildes, este livro também preserva a memória do lugar em que suas ações adquiriram significado. A rua torna-se, assim, uma referência para compreender como a identidade indígena permaneceu presente mesmo quando as condições políticas e sociais se transformaram. A resistência não dependia somente de grandes acontecimentos públicos: ela também se manifestava na permanência das famílias, na transmissão dos costumes, na ajuda aos necessitados e na proteção dos vínculos comunitários. Por isso, preservar a história da Rua dos Índios é reconhecer que os territórios guardam memórias e que essas memórias contribuem para explicar a continuidade de um povo. A história de Porto Real do Colégio ganha profundidade quando seus espaços são compreendidos a partir das experiências de seus moradores indígenas, cujas trajetórias merecem ser registradas, investigadas e transmitidas às futuras gerações.




CAPÍTULO 7 — A MORTE DE GRAVIÉ E A CONTINUIDADE DE SEU LEGADO




Em 1932, segundo a narrativa utilizada como referência para este livro, Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, encerrou sua trajetória de vida, deixando uma lembrança marcada pela generosidade, pelos conhecimentos curativos e pela assistência que oferecia às pessoas que procuravam sua casa. Sua morte representou uma perda significativa para aqueles que reconheciam nele uma referência de cuidado e orientação, mas não significou o desaparecimento imediato das responsabilidades e dos vínculos que haviam sido construídos ao longo dos anos. A tradição apresentada por Nhenety Kariri-Xocó relata que Gravié deixou seus bens para Maria Matildes, incluindo terras, casas, rebanhos e outros recursos, permitindo que ela continuasse a desempenhar um papel importante na vida comunitária. A extensão e as condições exatas dessa transmissão patrimonial necessitam de confirmação documental, mas, na memória narrativa, a herança representa também a continuidade de uma missão de proteção. Maria Matildes não teria recebido somente propriedades; teria assumido a responsabilidade de manter viva uma casa que, durante anos, servira de lugar de acolhimento para os indígenas. Essa continuidade é importante porque demonstra como os vínculos familiares e a disponibilidade de recursos podiam sustentar formas de solidariedade em um período de mudanças. A memória de Gravié permaneceu associada ao conhecimento das plantas, às rezas, à disposição de atender os necessitados e à reputação construída entre os habitantes do Baixo São Francisco. Sua história também evidencia que a contribuição de um curador tradicional não se limita aos resultados imediatos de seus cuidados, pois sua atuação pode fortalecer relações de confiança e preservar conhecimentos transmitidos entre gerações. Depois de sua morte, Maria Matildes tornou-se a principal figura dessa continuidade na narrativa, assumindo responsabilidades que a colocariam diante de novos desafios. A sucessão entre ambos demonstra que o legado ancestral pode permanecer vivo quando outras pessoas reconhecem seu valor e se comprometem a mantê-lo. Gravié é recordado, assim, não apenas como um homem que possuía bens ou exercia práticas curativas, mas como alguém cuja existência adquiriu significado coletivo por meio do cuidado. Seu legado continua a ser contado porque a comunidade reconhece, nessa trajetória, uma expressão da solidariedade e da resistência indígena. Registrar essa memória é contribuir para que sua história seja conhecida pelas novas gerações e para que as práticas de cuidado ancestral sejam compreendidas como parte importante do patrimônio cultural Kariri-Xocó.




CAPÍTULO 8 — MARIA MATILDES E A DEFESA DOS DIREITOS INDÍGENAS




Após a morte de Gravié, Maria Matildes passou a ocupar uma posição ainda mais destacada na narrativa da proteção comunitária, sendo lembrada como uma mulher que não se limitava a administrar os recursos recebidos, mas os relacionava à continuidade da assistência aos parentes e à defesa da dignidade indígena. Segundo o relato de Nhenety Kariri-Xocó, Matildes enfrentava autoridades, resistia ao preconceito e procurava garantir que os indígenas fossem tratados com respeito, tornando-se uma referência para aqueles que necessitavam de apoio. Sua atuação é descrita como uma combinação de firmeza, coragem e compromisso com a comunidade, características que ajudam a compreender por que sua memória permaneceu ligada à proteção dos mais vulneráveis. Ao lado dos parentes que viviam ao seu redor, entre eles Luiz Teipó, Quinca, João Menino e Zeca, ela teria mantido relações de proximidade que favoreciam a continuidade dos vínculos familiares. 




A defesa dos direitos indígenas, naquele contexto, precisa ser compreendida a partir das condições históricas específicas da região, incluindo as transformações administrativas, as disputas por espaços e as dificuldades de reconhecimento da identidade indígena. A memória de Maria Matildes apresenta uma mulher que utilizava sua posição e suas relações para enfrentar situações consideradas injustas, agindo como intermediária e protetora em favor de seus parentes. O relato também aproxima essa trajetória da atuação do pajé Francisquinho, que teria viajado a Bom Conselho, em Pernambuco, para buscar o apoio do padre Alfredo Dâmaso, em um esforço relacionado às reivindicações indígenas da região. 




Esse episódio situa a proteção exercida por Matildes dentro de um movimento comunitário mais amplo, no qual diferentes pessoas desempenharam funções próprias e buscaram caminhos para assegurar a continuidade do povo. Embora a documentação disponível nesta obra não permita estabelecer todos os detalhes das ações atribuídas a Matildes, sua imagem permanece significativa como expressão da participação feminina na resistência indígena. Ela representa a mulher que protege, argumenta, acolhe e se posiciona diante das dificuldades, demonstrando que a luta pela dignidade não ocorre somente por meio de instituições formais, mas também nas relações cotidianas e nas iniciativas individuais. Ao registrar sua história, este capítulo reconhece a contribuição das mulheres indígenas para a manutenção das comunidades e ressalta a necessidade de ampliar as pesquisas sobre suas experiências. Maria Matildes permanece, assim, como símbolo de coragem e compromisso, cuja memória convida as novas gerações a valorizar aqueles que assumiram responsabilidades em defesa dos direitos e da continuidade cultural dos Kariri-Xocó.




CAPÍTULO 9 — O ANO DE 1944: MEMÓRIA, ASSISTÊNCIA E REORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA





O ano de 1944 ocupa lugar importante na narrativa histórica apresentada neste livro porque está associado à criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso e ao encerramento da trajetória de Maria Matildes, acontecimentos que a memória comunitária aproxima da reorganização da assistência aos indígenas de Porto Real do Colégio. Segundo o relato de Nhenety Kariri-Xocó, a morte de Matildes deixou um sentimento profundo de perda entre aqueles que encontravam nela uma referência de proteção e solidariedade. A narrativa acrescenta que parte de sua fortuna teria contribuído para a instalação do posto indígena, onde surgiram estruturas de atendimento, incluindo sede, enfermaria e escola. Essa informação deve ser tratada como uma lembrança histórica a ser investigada em registros patrimoniais, administrativos e institucionais, pois a confirmação da origem dos recursos e da participação de diferentes pessoas exige documentação específica. Ainda assim, a associação entre a memória de Matildes e o posto indígena revela a importância atribuída pela comunidade à continuidade da assistência e à busca por condições mais estáveis de proteção. A atuação do pajé Francisquinho e sua viagem a Bom Conselho para procurar o apoio do padre Alfredo Dâmaso também aparecem no relato como parte de um esforço de articulação em favor dos indígenas. Esses acontecimentos mostram que a história da comunidade não pode ser atribuída a uma única pessoa, pois envolveu diferentes lideranças, famílias e apoiadores, cada qual contribuindo de maneira própria. Gravié havia sido lembrado pelo cuidado tradicional e pela generosidade; Maria Matildes, pela continuidade desse cuidado e pela defesa comunitária; e a instalação do posto representa, nesta narrativa, a passagem para uma etapa em que a assistência também passou a contar com uma estrutura institucional. 





Essa mudança não deve ser interpretada como substituição dos conhecimentos ancestrais por instituições externas, mas como um acontecimento que precisa ser compreendido dentro das relações históricas entre a comunidade indígena e as autoridades da época. A memória de 1944 reúne, portanto, luto, continuidade e reorganização, preservando a lembrança de pessoas que buscaram condições para que os indígenas recebessem atendimento e mantivessem seus vínculos comunitários. Ao registrar esse período, a obra procura reconhecer a importância da assistência à saúde e à educação, bem como incentivar a pesquisa sobre a origem, o funcionamento e os impactos do posto indígena na vida local. O legado atribuído a Maria Matildes permanece associado à ideia de que proteger um povo também significa contribuir para que ele tenha acesso a recursos, espaços de organização e oportunidades de continuidade cultural.




CAPÍTULO 10 — O LEGADO DOS CURADORES E PROTETORES DOS KARIRI-XOCÓ




A memória de Gravié e Maria Matildes permanece como parte significativa da narrativa sobre os indígenas de Porto Real do Colégio porque reúne experiências de cuidado, solidariedade, proteção familiar e resistência cultural em um período de profundas transformações históricas. Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, é lembrado como curador tradicional que colocou seus conhecimentos a serviço das pessoas, recebendo em sua casa indígenas e moradores que buscavam alívio, orientação e apoio. Maria Matildes, por sua vez, é recordada como mulher de coragem que continuou a missão de acolhimento após a morte de Gravié, tornando-se uma referência na defesa dos parentes e na preservação das relações comunitárias. Suas trajetórias mostram que a história de um povo não é formada somente por decisões políticas ou acontecimentos administrativos, mas também por ações cotidianas que garantem a continuidade da vida coletiva. A casa aberta aos necessitados, o conhecimento transmitido pelos antepassados, o auxílio aos enfermos, a defesa diante das autoridades e a manutenção dos vínculos familiares constituem elementos que ajudam a compreender a resistência indígena. A narrativa também estabelece uma ligação entre essas experiências e a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em 1944, acontecimento que representa uma etapa importante da história regional e cuja relação com o legado patrimonial de Maria Matildes merece investigação documental. Ao mesmo tempo, o reconhecimento étnico dos indígenas de Porto Real do Colégio deve ser compreendido como resultado de uma trajetória coletiva que ultrapassa as vidas de dois personagens e envolve a persistência das famílias, das lideranças, dos conhecimentos e das formas de identificação indígena. Gravié e Matildes são apresentados neste livro como pessoas que contribuíram para essa continuidade, ajudando a preservar as condições de solidariedade e pertencimento em tempos de dificuldades. Seu legado não está apenas nos bens materiais mencionados pela tradição, mas no significado atribuído às suas ações e na lembrança que permanece entre aqueles que valorizam a história Kariri-Xocó. Para as novas gerações, conhecer essas trajetórias é aprender que a resistência também se manifesta no cuidado, na generosidade, na coragem e na responsabilidade de proteger a comunidade. Preservar essas memórias exige escutar os anciãos, registrar os relatos, pesquisar documentos e respeitar as diferentes formas pelas quais o passado é transmitido. Que Gravié e Maria Matildes continuem a ser lembrados como referências de uma história maior: a história de um povo que enfrentou transformações, conservou sua identidade e segue afirmando sua presença, sua cultura e seus direitos. Assim, este livro conclui seu percurso reafirmando que a memória ancestral não pertence apenas ao passado, mas permanece viva sempre que uma nova geração conhece, respeita e transmite os ensinamentos daqueles que vieram antes.




CARLOS ESTEVÃO DE OLIVEIRA E OS REGISTROS HISTÓRICOS DE COLÉGIO




Uma fonte histórica de grande relevância para o estudo da memória indígena de Porto Real do Colégio encontra-se nas páginas 172 e 173 do trabalho de Carlos Estevão de Oliveira, publicado no Boletim do Museu Nacional. Na seção intitulada “Colégio”, o pesquisador relata sua passagem pela localidade e registra informações obtidas durante suas investigações sobre os descendentes dos povos indígenas que ali viviam. Na página 172, menciona a anciã Maria Tomázia, identificada no texto como uma velha cabocla “Natú”, a quem atribui informações sobre a presença de diferentes descendências indígenas em Colégio. Na página 173, apresenta Maria Matilde, descrita como viúva de Gabriel Gonçalves de Oliveira, conhecido como “Caboclo de Colégio”, e ressalta sua atuação na preservação dos costumes e das crenças dos indígenas da comunidade. 




Esses registros constituem testemunhos documentais importantes para a pesquisa sobre Gravié, Maria Matildes e a história da Rua dos Índios. Ao serem confrontados com a tradição oral Kariri-Xocó e com outras fontes, permitem aprofundar o estudo sobre a identidade das personagens, suas relações comunitárias e a continuidade da memória ancestral. Para esta obra, a menção a Maria Tomázia possui também um significado familiar especial, pois ela é lembrada pelo autor, Nhenety Kariri-Xocó, como sua bisavó.





18. CONSIDERAÇÕES FINAIS




A trajetória de Gravié e Maria Matildes, conforme registrada nesta obra, permite refletir sobre a importância das pessoas que contribuíram para a proteção dos indígenas de Porto Real do Colégio em períodos de transformação social e política. Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, permanece na narrativa como curador tradicional, homem generoso e referência de acolhimento no Baixo São Francisco. Maria Matildes é lembrada como mulher de coragem, responsável pela continuidade do cuidado comunitário e pela defesa dos parentes após a morte de Gravié. Juntos, os dois representam uma memória de solidariedade que ultrapassa a vida familiar e alcança a história coletiva do povo Kariri-Xocó.

A obra situa essas trajetórias no contexto das mudanças associadas à criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 1876, e aos processos históricos que afetaram os direitos e as condições de vida dos indígenas. Também destaca o ano de 1944, relacionado à morte de Maria Matildes e à criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, acontecimentos cuja relação histórica merece continuar sendo investigada. O reconhecimento étnico e a continuidade da comunidade indígena não devem ser entendidos como resultado da atuação exclusiva de dois indivíduos, mas como parte de um processo coletivo, sustentado por famílias, lideranças, anciãos e diferentes gerações.

O valor desta narrativa está em destacar personagens cuja contribuição pode não aparecer de forma suficiente nos registros oficiais, mas que permanecem significativos na memória comunitária. Ao registrar seus nomes, suas experiências e os sentidos atribuídos às suas ações, o autor contribui para ampliar o conhecimento sobre a história indígena de Alagoas e para estimular novas pesquisas sobre as famílias, os territórios, os conhecimentos curativos e as formas de resistência cultural.

É importante que a continuidade desse trabalho seja acompanhada de investigação documental e de entrevistas com os detentores da tradição oral, respeitando a memória da comunidade e distinguindo as informações confirmadas daquelas que permanecem como relatos a verificar. Essa prática permite fortalecer a obra e preservar suas contribuições para o futuro.

Que a história de Gravié e Maria Matildes inspire as novas gerações a compreender que proteger um povo significa cuidar de suas pessoas, respeitar seus conhecimentos, defender seus direitos e preservar sua memória. Que os nomes desses personagens permaneçam vivos na educação, na cultura e na história Kariri-Xocó, como lembrança de que a resistência também se constrói por meio da generosidade, do compromisso e da coragem de não abandonar os próprios parentes.




19. GLOSSÁRIO




Ancestral: pessoa de gerações anteriores que integra a memória e a genealogia de uma família ou comunidade.

Baixo São Francisco: região associada ao trecho inferior do Rio São Francisco, abrangendo áreas de Alagoas e Sergipe.

Comunidade indígena: coletividade formada por pessoas indígenas que compartilham vínculos históricos, culturais, familiares e territoriais.

Conhecimento ancestral: saber transmitido entre gerações, construído por meio da experiência, da observação e das práticas culturais de um povo.

Curador tradicional: pessoa reconhecida por seus conhecimentos e práticas tradicionais de cuidado e tratamento, conforme os costumes de sua comunidade.

Direitos indígenas: direitos dos povos indígenas, incluindo identidade, organização social, cultura, línguas, tradições e territórios, nos termos da legislação aplicável.

Gravié: nome pelo qual Gabriel Gonçalves é conhecido na narrativa histórica apresentada nesta obra.

Identidade étnica: sentimento de pertencimento a um povo ou grupo étnico, relacionado à história, à cultura, à memória e à identificação coletiva.

Kariri-Xocó: povo indígena cuja história, cultura e identidade estão profundamente relacionadas à região de Porto Real do Colégio, em Alagoas.

Maria Matildes: personagem lembrada na tradição apresentada por Nhenety Kariri-Xocó como protetora dos indígenas e continuadora da assistência comunitária após a morte de Gravié.

Memória ancestral: conjunto de lembranças, narrativas, conhecimentos e experiências transmitidos pelas gerações anteriores.

Memória comunitária: lembranças e interpretações do passado compartilhadas por integrantes de uma comunidade.

Opará: denominação indígena associada ao Rio São Francisco, conforme o uso cultural registrado pelo autor.

Padre Alfredo Dâmaso: sacerdote relacionado à história da assistência e das iniciativas de reconhecimento indígena na região, conforme a narrativa desta obra.

Pajé: liderança espiritual ou conhecedora de práticas tradicionais, conforme as particularidades culturais de cada povo indígena.

Patrimônio cultural imaterial: conhecimentos, práticas, expressões, celebrações e tradições reconhecidos como parte da herança cultural de uma coletividade.

Posto Indígena: denominação histórica de estruturas administrativas e de assistência destinadas aos indígenas em determinados períodos da política indigenista brasileira.

Reconhecimento étnico: reconhecimento da identidade e do pertencimento de uma coletividade a determinado povo ou grupo étnico.

Resistência indígena: conjunto de ações e estratégias por meio das quais os povos indígenas defendem sua existência, identidade, cultura, direitos e continuidade histórica.

Rua dos Índios: espaço de memória associado à presença indígena em Porto Real do Colégio e à história familiar e comunitária narrada nesta obra.

Tradição oral: transmissão de histórias, conhecimentos e experiências por meio da palavra falada, das narrativas familiares e da memória comunitária.

Vila de Porto Real do Colégio: marco administrativo situado em 1876 nesta narrativa, associado às transformações históricas vividas pela população indígena local.




20. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERRARI, Alfonso Trujillo. Os Kariri de Porto Real do Colégio: um grupo tribal abrasileirado. In: Revista Sociologia. São Paulo: 1956, p. 233-251

HOHENTHAL JR, William Dalton. As Tribos Indígenas do Médio e Baixo São Francisco. In: Revista do Museu Paulista. Volume XII. Nova Série: São Paulo, 1960, p. 37-86.

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Gravié, o curador do Baixo São Francisco. 2025. Disponível em:

 https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/gravie-o-curador-do-baixo-sao-francisco.html. Acesso em: 22 out. 2026.

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Maria Matildes, a protetora dos índios. 2025. Disponível em:

 https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/maria-matildes-protetora-dos-indios.html. Acesso em: 22 out. 2026.

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, os Heróis e Heroínas: Contos — Volume 3 (Coletânea). 2025. Disponível em:

 https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-kariri-xoco-os-herois-e.html. Acesso em: 21 out. 2026.

MATA, Vera Lúcia Calheiros da. Semente da Terra. Identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. Tese (Doutorado em História dos Índios Cariri-Xocó em Porto Real do Colégio) Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 1989, 360 p.

OLIVEIRA, Carlos Estevão de. O ossuário da “Gruta-do-Padre” em Itaparica e algumas notícias sobre remanescentes indígenas do Nordeste. Rio de Janeiro: Boletim do Museu Nacional, XIV-XVII (1938-1941) p. 151-184. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942. 

SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Alagoinhas, 2025. 

SUZART, Elizabete Costa. Kariri-Xocó: arquivos e práticas por uma cultura bilíngue. 2020. Dissertação (Mestrado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2020.



21. SOBRE O AUTOR




Nhenety Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, pesquisador e produtor cultural indígena, dedicado à preservação da memória ancestral, da história e dos conhecimentos tradicionais do povo Kariri-Xocó, de Alagoas. Sua produção reúne narrativas históricas, contos, fábulas, cordéis, textos de memória, estudos culturais e materiais educativos voltados à valorização dos antepassados e à transmissão de conhecimentos às novas gerações.

Por meio de sua escrita e de seu acervo digital, procura registrar histórias de personagens, famílias, territórios, tradições e experiências que contribuíram para a continuidade da comunidade indígena. Seu trabalho também se relaciona à valorização da língua, da identidade cultural e da presença histórica dos Kariri-Xocó na região do Baixo São Francisco.

Nesta obra, Nhenety dedica-se à memória de Gravié e Maria Matildes, apresentando suas trajetórias como referências de cuidado tradicional, solidariedade e proteção comunitária. Ao transformar a tradição oral em narrativa escrita, reafirma seu compromisso com a preservação da história indígena e com a construção de materiais que possam ser utilizados por leitores, professores, estudantes e pesquisadores interessados na memória dos povos originários.

Nhenety Kariri-Xocó — contador de histórias, pesquisador e guardião da memória ancestral.


FIM DA OBRA

Gravié e Maria Matildes: os curadores e protetores dos Kariri-Xocó




Autor: Nhenety Kariri-Xocó — 2026









domingo, 1 de novembro de 2026

TAROBÁ AINDZU DHAECRÁ: DO MAR AO SERTÃO — MEMÓRIA ANCESTRAL, TRADIÇÃO ORAL E RESISTÊNCIA DO POVO KARIRI-XOCÓ






Autor: Nhenety Kariri-Xocó





1. FALSA FOLHA DE ROSTO

TAROBÁ AINDZU DHAECRÁ: DO MAR AO SERTÃO

Memória ancestral, tradição oral e resistência do povo Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó

Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó

Alagoas — Brasil

2026




2. FOLHA DE ROSTO

TAROBÁ AINDZU DHAECRÁ: DO MAR AO SERTÃO

Memória ancestral, tradição oral e resistência do povo Kariri-Xocó

Obra literária fundamentada na tradição oral, na memória ancestral e na reflexão sobre os caminhos históricos e culturais dos povos indígenas relacionados ao território do Opará, o Rio São Francisco.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Área temática: História indígena, tradição oral, literatura, memória cultural e resistência dos povos originários.

Acervo: Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó.

Alagoas — Brasil

2026




3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO

Direitos autorais

© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó.

Todos os direitos reservados ao autor. A reprodução, distribuição ou utilização desta obra, integral ou parcial, deverá respeitar os direitos autorais e a identificação de sua autoria.

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó e tem como propósito contribuir para a preservação, valorização e transmissão dos saberes ancestrais, da tradição oral e da memória histórica e cultural indígena.

Nota editorial: a narrativa de Tarobá é apresentada como elaboração literária inspirada nos contos do autor e em reflexões sobre memória e resistência. Diálogos, sonhos e cenas narrativas não devem ser interpretados automaticamente como registros documentais de acontecimentos históricos.




4. FICHA CATALOGRÁFICA PROVISÓRIA

KARIRI-XOCÓ, Nhenety.

Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão : memória ancestral, tradição oral e resistência do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. — Alagoas, Brasil, 2026.

Obra literária e cultural.

Temas: 1. Povos indígenas. 2. Povo Kariri-Xocó. 3. Tradição oral. 4. Memória ancestral. 5. Resistência cultural. 6. Rio São Francisco — Opará.

CDD sugerida: 398.2081 — Literatura oral e tradições populares relacionadas aos povos indígenas.

Ficha provisória para organização do acervo. A classificação e os dados catalográficos definitivos poderão ser revistos conforme as normas bibliográficas adotadas pela instituição responsável.




5. ISBN SIMBÓLICO

ISBN simbólico interno do acervo: NKX-2026-TAD-001

Este código é destinado exclusivamente à organização interna do Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó. Não constitui ISBN oficial emitido pela agência competente.




6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.




7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR

A presente obra constitui, neste momento, um projeto editorial em fase de estruturação e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva poderá futuramente ser submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se à identificação preliminar da obra e à organização interna do Acervo.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó




8. DEDICATÓRIA




Dedico esta obra aos nossos antepassados, que caminharam pelas margens do Opará, atravessaram tempos de sofrimento e resistência e transmitiram às novas gerações a força de sua memória.

Dedico também aos anciãos e às anciãs que guardaram histórias, palavras, cantos e conhecimentos que não podem ser apagados pelo tempo.

À comunidade Kariri-Xocó, às crianças, aos jovens, aos professores e aos pesquisadores indígenas, para que reconheçam na memória ancestral uma fonte de identidade, conhecimento e continuidade cultural.

Que Tarobá, personagem desta narrativa, simbolize a coragem daqueles que jamais abandonaram o direito de existir, recordar e contar sua própria história.

Nhenety Kariri-Xocó




9. AGRADECIMENTOS





Agradeço aos antepassados que deixaram seus ensinamentos como sementes plantadas na memória coletiva dos povos originários.

Agradeço aos anciãos e às anciãs que, por meio da palavra, dos cantos, dos conselhos e das lembranças, contribuíram para a continuidade dos saberes indígenas.

Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, cuja história, cultura, espiritualidade e resistência constituem fontes permanentes de reflexão e inspiração.

Agradeço aos professores, estudantes, pesquisadores, escritores e leitores que valorizam a tradição oral como forma legítima de conhecimento e reconhecem a importância de preservar as memórias indígenas.

Agradeço também a todos aqueles que contribuem para que as histórias transmitidas de geração em geração encontrem novos caminhos na escrita, na educação e nos acervos digitais.

Que esta obra possa servir à escola, à comunidade e às futuras gerações, fortalecendo o respeito aos povos originários e a valorização de suas narrativas.

Iewóá! Inatekié!




10. EPÍGRAFE




> “Quem nomeia o rio não o domina. O nome verdadeiro vive no coração dos que resistem.”

— Frase literária presente na narrativa de Tarobá.




11. PREFÁCIO DO VOLUME

A história de um povo não se encontra somente nos documentos oficiais, nos mapas ou nos livros escritos por viajantes e autoridades. Ela também permanece nas palavras dos mais velhos, nas lembranças familiares, nos nomes dos lugares, nos cantos tradicionais e nas narrativas transmitidas de geração em geração.

Em Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão, Nhenety Kariri-Xocó conduz o leitor por uma narrativa literária que relaciona o território do Opará, os encontros entre povos, as experiências de deslocamento e a resistência cultural indígena.

Tarobá aparece como personagem simbólico: um guardião da memória, da palavra ancestral e da relação profunda entre o povo e seu território. Sua caminhada representa a luta para preservar os nomes, os conhecimentos e os modos de vida diante das transformações provocadas pela chegada de estrangeiros e pelo avanço da colonização.

O percurso narrativo do mar ao sertão não representa apenas uma mudança geográfica. Simboliza também os caminhos difíceis percorridos por comunidades que precisaram defender sua existência, reorganizar seus vínculos e transmitir às novas gerações aquilo que não poderia ser perdido.

A obra aproxima literatura, memória e reflexão histórica. Ao mesmo tempo, convida o leitor a compreender que a tradição oral não é uma lembrança sem vida, mas uma forma dinâmica de conhecimento, capaz de orientar o presente e fortalecer o futuro.

Que este livro seja recebido como uma contribuição à valorização das narrativas indígenas e ao reconhecimento da importância de ouvir os povos originários contando suas próprias histórias.




12. RESUMO

Esta obra apresenta uma narrativa literária inspirada na tradição oral, na memória ancestral e nas reflexões históricas e culturais relacionadas ao povo Kariri-Xocó e ao território do Opará, conhecido atualmente como Rio São Francisco. Por meio da figura de Tarobá, personagem que representa a liderança, a resistência e a transmissão dos conhecimentos tradicionais, o livro aborda o encontro entre povos indígenas e estrangeiros, os conflitos provocados pela colonização, os deslocamentos territoriais e a preservação da identidade cultural. A narrativa percorre simbolicamente o caminho do mar ao sertão, destacando a importância dos nomes ancestrais, da língua, dos cantos e dos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos. A obra articula literatura e memória cultural, contribuindo para a reflexão sobre a resistência dos povos originários e a valorização de suas formas de narrar e interpretar o mundo. Os episódios literários são apresentados como elaboração narrativa, não devendo ser confundidos, sem documentação adicional, com transcrições de acontecimentos históricos comprovados.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; memória ancestral; Opará; resistência indígena; literatura indígena.




13. ABSTRACT

This book presents a literary narrative inspired by oral tradition, ancestral memory, and historical and cultural reflections related to the Kariri-Xocó people and the territory of Opará, now widely known as the São Francisco River. Through Tarobá, a character representing leadership, resistance, and the transmission of traditional knowledge, the work explores encounters between Indigenous peoples and foreigners, conflicts associated with colonization, territorial displacement, and the preservation of cultural identity. The narrative symbolically follows a journey from the sea to the hinterland, emphasizing the importance of ancestral names, language, songs, and teachings passed down by elders. By bringing literature and cultural memory together, the book encourages reflection on Indigenous resistance and the value of Indigenous ways of narrating and understanding the world. The literary episodes are presented as narrative creations and should not be mistaken, without additional documentation, for verified historical transcripts.

Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; ancestral memory; Opará; Indigenous resistance; Indigenous literature.




14. APRESENTAÇÃO





O livro Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão nasce do desejo de preservar e compartilhar uma narrativa que reúne memória, imaginação literária e reflexão sobre a trajetória dos povos originários.

O Opará, nome ancestral do Rio São Francisco, ocupa lugar simbólico central nesta obra. Suas águas representam continuidade, passagem, sustento e memória. Ao longo de suas margens, diferentes comunidades construíram suas relações com a natureza, estabeleceram vínculos territoriais e transmitiram conhecimentos fundamentais para sua existência.

Tarobá, personagem principal, representa o guardião da palavra ancestral. Sua trajetória literária convida o leitor a refletir sobre os encontros entre povos, as mudanças impostas pela colonização e os esforços para preservar a identidade coletiva.

A expressão “do mar ao sertão” sintetiza uma caminhada marcada por deslocamentos, desafios e permanências. O território pode ser disputado, os nomes podem ser substituídos e as comunidades podem enfrentar profundas transformações; entretanto, a memória, quando transmitida e cultivada, continua encontrando caminhos para sobreviver.

Esta obra destina-se aos leitores interessados na literatura indígena, aos educadores, aos estudantes e a todos aqueles que compreendem a importância da tradição oral na formação das identidades culturais.

Mais do que contar uma história, o livro procura abrir espaço para a escuta, o respeito e o reconhecimento das vozes indígenas.



15. NOTA HISTÓRICA SOBRE A FORMAÇÃO PLURIÉTNICA KARIRI-XOCÓ

Esta obra apresenta Tarobá e os Natu como referências de uma narrativa de tradição oral voltada à memória ancestral, aos primeiros contatos com a colonização e às transformações históricas dos povos indígenas relacionados à formação do povo Kariri-Xocó. Na perspectiva histórica e cultural aqui desenvolvida, os Natu constituem o primeiro grupo dessa sequência narrativa a enfrentar o contato colonial, seguido pelos Kariri, Aconã, Karapotó e Xocó. A presença desses diferentes grupos permite compreender a formação Kariri-Xocó como resultado de origens diversas, experiências históricas, relações entre comunidades e processos de resistência. Suas trajetórias devem ser reconhecidas em sua particularidade, sem apagar as diferenças entre os povos nem reduzir suas histórias a uma única origem. A tradição oral, articulada aos registros de estudiosos dos séculos XIX, XX e XXI, constitui um caminho para preservar a memória, investigar o passado e transmitir às novas gerações os conhecimentos relacionados à história indígena do Baixo São Francisco. Esta narrativa literária valoriza a memória ancestral e a perspectiva indígena, distinguindo os elementos simbólicos da obra das afirmações que dependem de documentação histórica específica.





16. NOTA DO AUTOR




Escrever sobre os povos indígenas exige responsabilidade com a memória, com a palavra e com as experiências das comunidades.

Nesta obra, Tarobá é apresentado como personagem de uma narrativa literária que dialoga com os contos anteriormente elaborados pelo autor. Sua trajetória foi organizada em dez capítulos, buscando formar uma sequência que parte do Opará, passa pelos encontros e conflitos e chega à continuidade da memória ancestral.

A narrativa utiliza imagens simbólicas, sonhos, diálogos e acontecimentos literários para expressar questões históricas e culturais. Esses recursos não substituem a pesquisa documental nem pretendem comprovar, por si mesmos, a existência histórica de cada episódio narrado.

O propósito principal é valorizar a tradição oral, refletir sobre a resistência indígena e estimular o reconhecimento dos saberes que atravessam gerações.

Que a leitura seja acompanhada de respeito às comunidades indígenas, à diversidade de suas histórias e à responsabilidade de preservar suas memórias sem apagar suas diferenças.




17. MEMÓRIA DO AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, de Alagoas, contador de histórias, pesquisador e produtor cultural. Seu trabalho está ligado à preservação da memória ancestral, à valorização da tradição oral e à produção de materiais literários e educativos voltados ao conhecimento da história e da cultura indígena.

Ao longo de sua trajetória, dedica-se a registrar narrativas, elaborar contos, produzir literatura de cordel, organizar vocabulários e desenvolver textos que aproximam os saberes tradicionais dos espaços escolares e dos meios digitais.

Sua produção busca contribuir para que as novas gerações tenham acesso às memórias de seus antepassados e encontrem na língua, nos cantos, nos nomes e nas narrativas elementos de continuidade cultural.

O Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó representa parte desse esforço de reunir, organizar e compartilhar materiais destinados à educação, à pesquisa e à valorização da cultura indígena.

Em Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão, o autor dá continuidade a esse compromisso, utilizando a literatura como caminho de transmissão da memória e de reflexão sobre a resistência dos povos originários.




18. INTRODUÇÃO




As águas dos rios guardam muitas histórias. Ao longo de suas margens, povos nasceram, caminharam, construíram aldeias, estabeleceram relações com a natureza e transmitiram conhecimentos às gerações seguintes. O rio não é apenas um elemento da paisagem: para muitas comunidades, constitui parte da memória, da espiritualidade e da identidade coletiva.

O Opará, conhecido amplamente como Rio São Francisco, ocupa lugar importante na história e na memória de diferentes povos indígenas. Seu curso atravessa territórios, conecta paisagens e permanece presente nas narrativas que procuram compreender as relações entre os seres humanos, a terra e as águas.

Nesta obra, Tarobá surge como personagem literário ligado a esse universo ancestral. Sua caminhada permite refletir sobre os encontros entre indígenas e estrangeiros, as disputas pelos nomes dos lugares, os conflitos decorrentes da colonização e a resistência das comunidades diante das mudanças impostas ao longo do tempo.

O título Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão sugere um percurso que vai além da geografia. Trata-se de uma travessia simbólica entre diferentes momentos da experiência indígena: o tempo dos encontros, o tempo das rupturas, o tempo dos deslocamentos e o tempo da reconstrução da memória.

A obra está organizada em dez capítulos. Os primeiros apresentam o Opará e o encontro narrativo de Tarobá com os estrangeiros. Os capítulos seguintes abordam a disputa pelos nomes ancestrais, o avanço da colonização e a travessia em direção ao sertão. A narrativa prossegue com a união entre povos, a transmissão dos conhecimentos tradicionais e o sonho da serpente de luz. Por fim, a língua, o canto e a memória são apresentados como forças de continuidade cultural.

É importante esclarecer que a obra combina referências culturais, reflexão histórica e criação literária. A personagem Tarobá e os acontecimentos narrados devem ser lidos dentro dessa proposta, sem que cenas imaginadas sejam tomadas automaticamente como documentos históricos.

A intenção do autor é contribuir para a valorização da tradição oral e estimular novas gerações a reconhecerem a importância da memória indígena.

Porque uma história que continua sendo contada não permanece apenas no passado: ela participa da construção do presente e ajuda a orientar os caminhos do futuro.



19. SUMÁRIO


1. Falsa Folha de Rosto

2. Folha de Rosto

3. Verso da Folha de Rosto

4. Ficha Catalográfica

5. ISBN Simbólico

6. Prefácio Oficial da Coleção

7. Esclarecimento do Autor

8. Dedicatória

9. Agradecimentos

10. Epígrafe

11. Prefácio do Volume

12. Resumo

13. Abstract

14. Apresentação

15. Nota Histórica Sobre a Formação Pluriétnica Kariri-Xocó

16. Nota do Autor

17. Memória do Autor

18. Introdução

19. Sumário

20. Corpo Narrativo: Capítulos I — X

Capítulo I — Opará, o Rio das Origens

Capítulo II — Aindzu: O Primeiro Encontro

Capítulo III — A Disputa pelos Nomes Ancestrais

Capítulo IV — O Avanço dos Estrangeiros e a Ruptura da Paz

Capítulo V — A Travessia dos Natu para o Dhaecrá

Capítulo VI — A União dos Povos e o Nascimento de uma Nova Caminhada

Capítulo VII — Tarobá, Guardião dos Saberes Antigos

Capítulo VIII — O Sonho da Serpente de Luz

Capítulo IX — O Canto, a Língua e a Memória dos Antepassados

Capítulo X — Do Mar ao Sertão: O Canto que Não Morre

21. Considerações Finais

22. Glossário

23. Referências Bibliográficas

24. Sobre o Autor

25. Encerramento da Obra.




20. CORPO NARRATIVO DA OBRA: CAPÍTULOS I — X



CAPÍTULO I — OPARÁ, O RIO DAS ORIGENS




O Opará, conhecido atualmente como Rio São Francisco, representa um importante símbolo de vida, memória e pertencimento para os povos indígenas relacionados à sua história. Suas águas oferecem alimento, caminhos de comunicação e conhecimentos construídos ao longo de muitas gerações. Na narrativa, Tarobá vive entre os Natu, uma comunidade que mantém uma relação profunda com o rio, as matas, os animais e os ensinamentos dos anciãos. Desde criança, aprende a observar a natureza, escutar os mais velhos e compreender que a sobrevivência depende da união e do respeito entre as pessoas. Para seu povo, o território não é apenas um lugar de moradia, mas uma herança formada pelas experiências dos antepassados, pelos conhecimentos tradicionais e pelas lembranças compartilhadas. O Opará testemunha encontros, despedidas, transformações e acontecimentos que marcam a vida comunitária. Suas águas simbolizam a continuidade da existência, mesmo quando as circunstâncias mudam. Tarobá compreende que proteger o rio significa preservar também as histórias, os costumes e a identidade de seu povo. Assim, o território torna-se parte da memória coletiva, e o conhecimento das origens ajuda as novas gerações a compreenderem quem são, de onde vieram e por que precisam respeitar a natureza e os ensinamentos ancestrais.




CAPÍTULO II — AINDZU: O PRIMEIRO ENCONTRO




A chegada de estrangeiros às margens do Opará marca o início de uma nova etapa na vida dos Natu. Tarobá percebe sinais desconhecidos no horizonte e procura compreender as intenções dos recém-chegados antes de tomar qualquer decisão. O encontro apresenta dois mundos com línguas, costumes, crenças e maneiras diferentes de compreender o território. Enquanto os habitantes originários possuem conhecimentos transmitidos pelos antepassados, os estrangeiros trazem suas próprias referências culturais e interesses. Tarobá procura agir com prudência, observando os gestos, escutando as palavras e avaliando as atitudes dos visitantes. Ele reconhece que o diálogo pode favorecer a aprendizagem e a convivência, mas entende que a hospitalidade não significa abrir mão dos direitos de sua comunidade. Para que exista confiança, é necessário que todas as partes respeitem a identidade, os costumes e a autonomia umas das outras. O primeiro encontro transforma-se, assim, em um momento decisivo, pois anuncia mudanças que poderão afetar a vida coletiva. Tarobá percebe que a memória desse acontecimento deverá ser transmitida aos jovens para que compreendam as consequências do contato entre povos diferentes. A experiência ensina que conhecer o outro é importante, mas a convivência somente se torna justa quando ninguém procura impor sua vontade ou apagar a história de outra comunidade.




CAPÍTULO III — A DISPUTA PELOS NOMES ANCESTRAIS




Os nomes ancestrais guardam conhecimentos, lembranças e sentimentos de pertencimento que ligam os povos aos seus territórios. Na narrativa, Opará é o nome indígena associado ao grande rio, enquanto São Francisco representa a denominação portuguesa que se consolidou historicamente. Para Tarobá, pronunciar Opará significa recordar os antepassados e reconhecer a relação profunda entre seu povo e as águas. Com a chegada dos estrangeiros, surge uma nova maneira de nomear o rio, revelando que as palavras também podem expressar diferentes relações com o território. O problema não está na existência de vários nomes para um mesmo lugar, mas na possibilidade de uma denominação ser imposta enquanto outra é desvalorizada ou esquecida. Durante os processos de colonização, diversos nomes indígenas foram substituídos ou deixaram de aparecer nos registros oficiais, embora alguns tenham permanecido vivos na tradição oral e nas comunidades. Tarobá compreende que preservar as palavras ancestrais é uma forma de resistência cultural, pois elas carregam histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações. Por isso, incentiva os jovens a conhecerem os nomes tradicionais, escutarem os mais velhos e valorizarem a língua de seus antepassados. A recuperação dessas palavras exige pesquisa, respeito às comunidades e atenção às fontes históricas. Assim, a disputa pelos nomes ensina que preservar a memória linguística é reconhecer o direito dos povos indígenas de contar suas próprias histórias e manter viva sua ligação com o território.






CAPÍTULO IV — O AVANÇO DOS ESTRANGEIROS E A RUPTURA DA PAZ




Com o avanço dos estrangeiros sobre o território, o encontro inicial transforma-se em uma situação de desconfiança e conflito. Na narrativa, Tarobá percebe que os visitantes começam a interferir na organização da comunidade e a demonstrar interesses que ameaçam a autonomia dos Natu. A paz enfraquece quando as palavras de aproximação deixam de corresponder às atitudes e os direitos dos habitantes originários não são respeitados. O território, que representa moradia, alimento, memória e continuidade cultural, passa a ser disputado por interesses externos. Essa transformação pode comprometer o acesso às águas, às matas e aos espaços necessários à subsistência, além de prejudicar a transmissão das línguas e dos costumes tradicionais. Diante das dificuldades, Tarobá procura ouvir os anciãos, observar os acontecimentos e orientar a comunidade com prudência e responsabilidade. Sua coragem não significa ausência de medo, mas disposição para proteger a vida, a dignidade e os conhecimentos de seu povo. A resistência depende da união entre as famílias, do cuidado com as crianças, da experiência dos mais velhos e da capacidade de tomar decisões coletivas. A memória dos conflitos também se torna um ensinamento para as gerações futuras, ajudando-as a reconhecer situações de injustiça e compreender a importância da autonomia indígena. Dessa maneira, a resistência não acontece somente nos momentos de confronto, mas também na preservação das tradições, na transmissão dos saberes ancestrais e na continuidade da identidade comunitária.




CAPÍTULO V — A TRAVESSIA DOS NATU PARA O DHAECRÁ




Diante do agravamento das dificuldades, os Natu precisam enfrentar a possibilidade de deixar o território conhecido e procurar condições para continuar vivendo. Na narrativa, a travessia em direção ao Dhaecrá simboliza um deslocamento marcado por desafios, perdas, coragem e esperança. Tarobá compreende que abandonar os lugares de origem não é uma decisão simples, pois as paisagens guardam lembranças, experiências familiares e relações construídas ao longo de muitas gerações. Durante o caminho, a comunidade precisa cuidar das crianças, escutar os anciãos, compartilhar os recursos e organizar coletivamente suas decisões. Os conhecimentos tradicionais sobre a natureza, os caminhos e a convivência continuam sendo importantes, mesmo quando o ambiente se modifica. Os Natu levam consigo não apenas aquilo que podem transportar, mas também suas histórias, palavras, costumes e ensinamentos ancestrais. Na narrativa, Dhaecrá representa a possibilidade de reorganizar a vida e construir novas condições de continuidade comunitária. Entretanto, chegar a um novo lugar não elimina automaticamente as dificuldades, pois é necessário conhecer o ambiente, adaptar as práticas e estabelecer novas relações. Tarobá ensina que mudar de território não significa abandonar as próprias origens. A memória acompanha os viajantes e oferece referências para enfrentar as incertezas. A travessia também recorda que a perda territorial pode provocar sofrimento e enfraquecer vínculos culturais. Assim, a jornada dos Natu representa tanto a dificuldade de sobreviver diante das adversidades quanto a capacidade de preservar a identidade, reconstruir relações e transmitir os saberes recebidos dos antepassados.







CAPÍTULO VI — A UNIÃO DOS POVOS E O NASCIMENTO DE UMA NOVA CAMINHADA




Depois da travessia, os Natu precisam reorganizar sua vida e enfrentar novos desafios em um ambiente diferente. Tarobá compreende que a sobrevivência depende não apenas da coragem individual, mas também da cooperação e da construção de relações respeitosas com outras comunidades. Na narrativa, o contato com povos como Kariri, Karapotó, Aconã e Xocó permite refletir sobre a diversidade indígena e as possibilidades de estabelecer alianças. Cada povo possui sua própria história, seus conhecimentos, suas tradições e suas formas de compreender o mundo, por isso a união não deve significar a perda das diferenças. O diálogo entre comunidades pode favorecer a troca de experiências, a partilha de conhecimentos e a busca de soluções para problemas comuns. Os mais velhos contribuem com sua sabedoria, os jovens participam das atividades coletivas e as crianças aprendem observando as relações entre as pessoas. Tarobá reconhece que a cooperação fortalece a resistência quando existe respeito à autonomia e à identidade de cada grupo. A memória compartilhada também aproxima as comunidades, permitindo que suas experiências sejam conhecidas sem que uma história seja confundida com outra. Entretanto, os conhecimentos específicos de cada povo precisam ser preservados com responsabilidade e respeito às suas origens. A nova caminhada simboliza a compreensão de que os desafios podem ser enfrentados de maneira coletiva, sem abandonar as raízes ancestrais. Assim, Tarobá amplia sua visão sobre a resistência e reconhece que a união respeitosa entre povos pode contribuir para a defesa dos territórios, da dignidade, da diversidade cultural e da continuidade das futuras gerações.




CAPÍTULO VII — TAROBÁ, GUARDIÃO DOS SABERES ANTIGOS




Tarobá aprende com os anciãos que a sabedoria é construída ao longo da vida e transmitida por meio das histórias, dos gestos, das práticas cotidianas e da observação da natureza. Os mais velhos ensinam conhecimentos sobre os caminhos, as plantas, os animais, as águas e as relações necessárias à convivência comunitária. Desde cedo, Tarobá compreende que ninguém possui sozinho todo o conhecimento necessário para a vida coletiva e que aprender exige atenção, respeito e participação. Na narrativa, ele se torna símbolo de um guardião dos saberes antigos, assumindo a responsabilidade de preservar e transmitir os ensinamentos recebidos dos antepassados. Ser guardião não significa ser dono das histórias, mas cuidar delas, reconhecer suas origens e respeitar as pessoas e comunidades que as mantêm vivas. A natureza também aparece como fonte de aprendizagem, pois sua observação ajuda a compreender os ciclos ambientais e a importância de proteger os elementos necessários à vida. A palavra oral ocupa um lugar fundamental nessa transmissão, permitindo que experiências, valores e conselhos sejam compartilhados entre gerações. Tarobá entende que os jovens precisam escutar os mais velhos e participar ativamente da preservação cultural. A escola, os livros, as gravações autorizadas e os acervos digitais podem contribuir para esse trabalho, desde que respeitem a autoria e as condições de compartilhamento dos conhecimentos tradicionais. A memória, porém, não permanece viva apenas porque foi registrada: precisa ser conhecida, valorizada e transmitida. Dessa maneira, Tarobá representa a responsabilidade de proteger a herança ancestral e criar condições para que as novas gerações compreendam suas origens e aprendam com a experiência de seus antepassados.




CAPÍTULO VIII — O SONHO DA SERPENTE DE LUZ




Depois de uma longa jornada, Tarobá adormece pensando no Opará, nas dificuldades enfrentadas pelos Natu, no encontro com os estrangeiros e na responsabilidade de transmitir os conhecimentos ancestrais. Durante o sono, imagina uma serpente luminosa que se movimenta entre as águas e a terra, trazendo uma imagem de transformação, continuidade e esperança. Na narrativa, a serpente de luz constitui um símbolo literário, e não um acontecimento histórico comprovado. Sua claridade representa o conhecimento capaz de iluminar situações difíceis e ajudar a compreender a relação entre memória, território e identidade. Durante o sonho, Tarobá recebe uma mensagem que se torna central para a reflexão da obra: “Quem nomeia o rio não o domina. O nome verdadeiro vive no coração dos que resistem.” Essas palavras ensinam que dar um nome a um lugar não significa possuir todos os seus significados nem apagar a história daqueles que mantêm com ele uma relação ancestral. Um nome pode aparecer em mapas e documentos, enquanto outros continuam vivos na língua, nas lembranças e nas narrativas das comunidades. Ao despertar, Tarobá reflete sobre a importância de preservar os nomes tradicionais e transmitir os conhecimentos dos antepassados às novas gerações. Ele compreende que a resistência não consiste apenas em enfrentar as dificuldades presentes, mas também em garantir que a memória continue acessível no futuro. A serpente de luz passa, então, a representar a consciência que ajuda a reconhecer as origens, respeitar a diversidade cultural e manter viva a história de um povo. O sonho convida o leitor a compreender que a tradição oral pode transformar experiências e preocupações em ensinamentos simbólicos, capazes de orientar a reflexão sobre o passado, o presente e o futuro.




CAPÍTULO IX — O CANTO, A LÍNGUA E A MEMÓRIA DOS ANTEPASSADOS




A língua, o canto e a tradição oral constituem importantes formas de preservar e transmitir os conhecimentos ancestrais. Por meio das palavras, os povos compartilham experiências, nomeiam o território, expressam sentimentos e ensinam às novas gerações suas histórias e formas de compreender a vida. Na narrativa, Tarobá reconhece que a palavra ancestral precisa continuar sendo conhecida e pronunciada para que a memória de seu povo permaneça viva. O canto também assume um papel importante, pois reúne voz, ritmo, participação e lembranças, podendo fortalecer os vínculos entre pessoas de diferentes gerações. Seus significados dependem dos contextos culturais e das comunidades que os mantêm, exigindo respeito às formas tradicionais de realização e transmissão. Tarobá incentiva os jovens a escutar os mais velhos, compreender as histórias e participar da continuidade dos conhecimentos recebidos. A transmissão não significa apenas repetir palavras, mas conhecer seus sentidos, suas origens e os valores que orientam a convivência. A escrita também pode colaborar com a preservação, permitindo que narrativas sejam registradas em livros, materiais educativos e acervos digitais. Entretanto, o registro escrito não substitui completamente a voz dos anciãos, os gestos, as entonações e as relações presentes na tradição oral. Por isso, diferentes recursos podem ser utilizados de maneira complementar, sempre com respeito à autoria, à autorização e aos conhecimentos comunitários. Na trajetória de Tarobá, o canto simboliza a continuidade de uma memória que encontra novas pessoas dispostas a escutar e transmitir seus ensinamentos. Assim, a língua, a música e a palavra falada ajudam a fortalecer a identidade indígena, aproximar gerações e garantir que as histórias dos antepassados continuem contribuindo para a educação e para a valorização cultural.




CAPÍTULO X — DO MAR AO SERTÃO: O CANTO QUE NÃO MORRE




A trajetória de Tarobá, do universo das águas aos caminhos do sertão, simboliza uma longa caminhada marcada por encontros, transformações, deslocamentos, dificuldades e resistência. O percurso representa não apenas uma mudança de paisagem, mas também a capacidade de uma comunidade enfrentar novas realidades sem abandonar suas origens. Durante a jornada, os Natu acumulam experiências e lembranças que passam a integrar seu patrimônio cultural. Tarobá compreende que as marcas do caminho podem recordar sofrimentos e perdas, mas também revelam a força daqueles que continuam buscando condições para viver e preservar seus conhecimentos. O sertão simboliza um espaço de adaptação e reconstrução, no qual a observação da natureza, a cooperação e os ensinamentos dos mais velhos continuam sendo fundamentais. Mesmo distante das águas do Opará, a comunidade conserva a memória de seu território de origem, demonstrando que a identidade não depende apenas da presença física em determinado lugar. Ao longo da narrativa, Tarobá assume a responsabilidade de proteger os saberes ancestrais, reconhecer a importância da união entre povos e transmitir histórias às novas gerações. Seu legado está na coragem, na prudência, na escuta e no compromisso com a continuidade cultural. No encerramento, o canto que não morre simboliza a memória que permanece viva quando existem pessoas dispostas a ouvir, aprender e compartilhar os ensinamentos recebidos. As histórias podem encontrar novos espaços nos livros, nas escolas, nas línguas e nos acervos digitais, desde que sejam preservadas com respeito às comunidades de origem. O Opará representa as raízes, a serpente de luz simboliza o despertar da consciência e o canto reúne as vozes dos antepassados e a responsabilidade dos jovens. Assim, a caminhada de Tarobá termina como narrativa, mas seu ensinamento continua: preservar a memória, respeitar as origens e construir o futuro sem apagar a história dos povos indígenas.




21. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do mar ao sertão: a memória que continua viva

A trajetória literária de Tarobá chega ao seu encerramento, mas as reflexões suscitadas por sua caminhada permanecem abertas. Ao longo dos dez capítulos, acompanhamos simbolicamente o universo do Opará, o encontro com os estrangeiros, a disputa pelos nomes ancestrais, a ruptura da paz, a travessia dos Natu e a importância da união entre povos.

Essa caminhada representa muito mais do que uma mudança de território. Ela simboliza os desafios enfrentados pelos povos originários diante das transformações históricas, das disputas territoriais e das tentativas de enfraquecimento de suas identidades culturais.

Tarobá, como personagem literário, representa a responsabilidade de guardar e transmitir os conhecimentos recebidos dos antepassados. Sua trajetória destaca a importância da liderança comprometida com a comunidade, da escuta dos mais velhos e da formação das novas gerações.

O Opará ocupa lugar central nessa reflexão. Suas águas simbolizam a continuidade da vida, a ligação com o território e a memória daqueles que construíram suas histórias às margens do rio. A presença de diferentes denominações, como Opará e São Francisco, também convida à reflexão sobre a importância de reconhecer as palavras ancestrais e respeitar as diferentes formas de nomear e compreender os lugares.

A narrativa evidencia que a resistência indígena não se limita aos momentos de confronto. Ela também se manifesta na preservação das línguas, na transmissão das histórias, no cuidado com a natureza, na educação das crianças e na continuidade dos conhecimentos comunitários.

O sonho da serpente de luz reforça, simbolicamente, essa mensagem. Sua luminosidade representa o conhecimento que ajuda a compreender o passado e a reconhecer os caminhos possíveis para o futuro. A frase que acompanha a visão recorda que os nomes e as memórias não podem ser compreendidos apenas como marcas escritas em mapas: eles também vivem nas pessoas que os reconhecem como parte de sua história.

O canto, por sua vez, representa a voz que atravessa gerações. Cada história transmitida oferece às novas gerações a possibilidade de conhecer suas origens, refletir sobre as experiências de seus antepassados e participar da continuidade cultural de seu povo.

Esta obra também reafirma a importância da literatura indígena como espaço de criação, reflexão e transmissão de conhecimentos. A escrita pode ampliar o alcance das narrativas e contribuir para sua preservação, desde que mantenha o respeito às comunidades, à autoria e aos contextos culturais dos saberes compartilhados.

É importante reconhecer que a narrativa de Tarobá reúne criação literária, imagens simbólicas e reflexões históricas. Sua contribuição não depende de transformar cada cena em documento histórico, mas de oferecer uma obra que estimule o interesse pela memória indígena e incentive a pesquisa responsável sobre as trajetórias dos povos originários.

Concluir este livro significa, portanto, abrir novos caminhos para a leitura e a reflexão. O mar, o rio e o sertão permanecem como imagens de uma caminhada que relaciona território, memória e resistência.

Que os leitores compreendam que cada povo possui o direito de contar sua história, preservar seus conhecimentos e transmitir suas tradições às novas gerações.

Que os professores encontrem nesta obra possibilidades de diálogo sobre história indígena, diversidade cultural, tradição oral e respeito aos territórios.




Que as crianças e os jovens percebam que a memória ancestral não pertence somente ao passado: ela também participa da construção do presente e do futuro.

E que Tarobá permaneça, dentro deste universo literário, como símbolo daquele que escuta os antepassados, protege a memória e ensina a importância de continuar caminhando.

Do mar ao sertão, a caminhada termina no livro, mas a memória continua sua jornada.

Nhenety Kariri-Xocó





22. GLOSSÁRIO




Termos e expressões relacionados ao universo narrativo da obra.

Este glossário reúne palavras, nomes e conceitos importantes para a compreensão do livro. Os significados apresentados são contextuais e literários quando se referem a elementos específicos da narrativa. A inclusão de um termo não significa que todos os povos indígenas utilizem a palavra da mesma maneira.

Aconã — Nome de povo indígena mencionado na narrativa, que habitou a região de Porto Real do Colégio, Alagoas.

Aindzu — O mar, as grandes águas, para onde corre o Opará.

Ancestralidade — Relação de continuidade entre as gerações, envolvendo antepassados, memória, conhecimentos, valores e pertencimento comunitário.

Antepassados — Pessoas das gerações anteriores cujas experiências, histórias e ensinamentos integram a memória de uma família ou comunidade.

Canto ancestral — Expressão vocal transmitida entre gerações e relacionada, conforme cada contexto cultural, à memória, à convivência e às práticas comunitárias.

Colonização — Processo histórico pelo qual uma potência ou grupo externo estabelece domínio sobre territórios e populações, frequentemente provocando mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais.

Dhaecrá — A região de pouca chuva, terra seca do sertão nordestino.

Identidade cultural — Conjunto dinâmico de referências, conhecimentos, práticas, memórias e relações por meio das quais uma comunidade reconhece e expressa sua continuidade cultural.

Karapotó — Nome de povo indígena mencionado na narrativa, aldeado por jesuítas em Porto Real do Colégio, junto aos Kariri e Aconã.

Kariri — Nome relacionado a povos indígenas e a tradições históricas e linguísticas do Nordeste brasileiro. O termo possui diferentes usos históricos e não deve ser entendido como indicação de uma única trajetória para todas as comunidades.

Kariri-Xocó — Povo indígena de Alagoas cuja identidade, história e continuidade cultural estão ligadas à experiência comunitária, à memória ancestral e à defesa de seus direitos.

Memória ancestral — Conjunto de lembranças, narrativas, conhecimentos e experiências transmitidos entre gerações.

Natu — Nome utilizado para a comunidade de Tarobá no universo literário desta obra, grupo formador dos Kariri-Xocó, junto com outras etnias.

Opará — Nome de origem indígena associado ao Rio São Francisco. Nesta obra, simboliza as águas, o território, as origens e a memória ancestral.

Oralidade — Forma de transmitir conhecimentos, histórias e experiências por meio da fala, da escuta e de outras práticas de comunicação oral.

Povos originários — Povos que mantêm relações históricas, culturais e territoriais anteriores à formação dos Estados e às estruturas coloniais modernas.

Resistência cultural — Ações e práticas pelas quais uma comunidade preserva, recria e transmite sua identidade, seus conhecimentos e suas formas de vida diante de situações adversas.

Serpente de luz — Figura simbólica do sonho de Tarobá. Na narrativa, representa transformação, conhecimento e continuidade da memória.

Tarobá — Personagem central desta obra literária, apresentado como guardião simbólico da memória ancestral e dos ensinamentos transmitidos entre gerações.

Território ancestral — Espaço relacionado à história, à memória, às práticas culturais, às relações comunitárias e ao pertencimento de um povo.

Tradição oral — Processo de transmissão de histórias, conhecimentos, valores e experiências por meio da palavra falada e de práticas comunitárias de escuta e aprendizagem.




23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS




FERRARI, Alfonso Trujillo. Os Kariri de Porto Real do Colégio: um grupo tribal abrasileirado. In: Revista Sociologia. São Paulo: 1956, p. 233-251


FERNANDES, Ulysses (Org.). FULKAXÓ: Ser e Viver Kariri-Xocó. Textos: Nhenety Kariri-Xocó e Ulysses Fernandes. SESC, 2013. 159 p.


HOHENTHAL JR, William Dalton. As Tribos Indígenas do Médio e Baixo São Francisco. In: Revista do Museu Paulista. Volume XII. Nova Série: São Paulo, 1960, p. 37-86.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó e as Origens das Águas: Contos – Volume 2 (Coletânea). Disponível em:



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. O Primeiro Encontro – O Conto de Tarobá. Disponível em: 



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. A Trilha dos que Resistem – O Conto de Tarobá (Parte II). Disponível em: 



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Tarobá e o Canto que Não Morre – Parte III. Disponível em: 



MATA, Vera Lúcia Calheiros da. Semente da Terra. Identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. Tese (Doutorado em História dos Índios Cariri-Xocó em Porto Real do Colégio) Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 1989, 360 p.


SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Alagoinhas, 2025. 


SUZART, Elizabete Costa. Kariri-Xocó: arquivos e práticas por uma cultura bilíngue. 2020. Dissertação (Mestrado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2020.




24. SOBRE O AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, de Alagoas, contador de histórias, pesquisador e produtor cultural. Sua trajetória está relacionada à preservação da memória ancestral, à valorização da tradição oral e à produção de obras literárias e educativas dedicadas à história, à cultura e aos conhecimentos indígenas.

Seu trabalho abrange contos, literatura de cordel, narrativas ancestrais, pesquisas sobre memória comunitária, vocabulários, textos educativos e materiais destinados à valorização da língua e da cultura Kariri-Xocó.

Como contador de histórias e autor, dedica-se a registrar e compartilhar conhecimentos que contribuem para aproximar as experiências dos antepassados das novas gerações. Sua produção procura fortalecer o diálogo entre comunidade, escola, professores, estudantes e pesquisadores.

O Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó constitui um espaço de organização e divulgação de sua produção escrita, reunindo materiais que abordam memória, história, tradição oral, literatura e educação indígena.

Em Tarobá Aindzu Dhaecrá: do mar ao sertão, o autor utiliza a criação literária para refletir sobre o território, os encontros entre povos, a resistência cultural e a importância da transmissão dos conhecimentos ancestrais.

A obra reafirma seu compromisso com a valorização das narrativas indígenas e com o reconhecimento da memória como parte viva da identidade coletiva.

Assinatura do autor:

Nhenety Kariri-Xocó




25. ENCERRAMENTO DA OBRA




TAROBÁ AINDZU DHAECRÁ: DO MAR AO SERTÃO

Memória ancestral, tradição oral e resistência do povo Kariri-Xocó

Uma caminhada literária pelas águas do Opará, pelos caminhos do sertão e pelas vozes que preservam a memória dos antepassados.

O canto continua enquanto houver quem escute, aprenda e transmita.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó