segunda-feira, 9 de março de 2026

PEDI NHENETÍ KROTSEBA CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA






PARTE PRÉ-TEXTUAL (estrutura editorial)


FALSA FOLHA DE ROSTO 

(Página apenas com o título)

PEDI NHENETÍ KROTSEBA

CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO 





Obra literária de narrativa tradicional indígena que reúne contos sobre memória, espiritualidade, resistência cultural e história do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.

Todos os contos foram originalmente publicados no blog do autor.

Blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com

© Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.



FOLHA DE ROSTO (Frontispício)


PEDI NHENETÍ KROTSEBA

CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA

Contos de Memória, Fé e Resistência do Povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026



FICHA CATALOGRÁFICA (modelo acadêmico)


Ficha catalográfica (modelo simplificado)

Nhenety Kariri-Xocó

PEDI NHENETÍ KROTSEBA: crer com tradição na resistência /

Nhenety Kariri-Xocó.

1ª edição.

Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, tradição, religiosidade e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.

Inclui glossário de termos indígenas.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Narrativas tradicionais

História indígena do Nordeste

Resistência cultural

CDD — Literatura indígena brasileira



DEDICATÓRIA 


Este livro é dedicado aos meus ancestrais e os anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó.


Àqueles que guardaram as histórias, os cantos, os ensinamentos e a memória do nosso povo mesmo em tempos difíceis.


Aos que ensinaram através da palavra falada, das conversas ao redor do fogo, das caminhadas pela mata, das histórias contadas nas casas e nos terreiros.


Foram eles que mantiveram viva a cultura, o Toré, a espiritualidade, os saberes da natureza e a identidade do povo Kariri-Xocó.


Muitos já partiram para o mundo dos encantados, mas suas palavras continuam vivas na memória de seu povo.


Que este livro seja também uma forma de agradecer, respeitar e honrar aqueles que vieram antes de nós.


E que as novas gerações possam continuar ouvindo, aprendendo e caminhando com a sabedoria dos mais velhos.


Ao povo de minha aldeia, que mantém viva a chama da tradição.


E às novas gerações, para que saibam que nossa história continua caminhando.


Com respeito e gratidão,


Nhenety Kariri-Xocó



AGRADECIMENTOS 


Agradeço ao meu povo Kariri-Xocó, guardião de saberes antigos que atravessam gerações.

Aos anciãos e anciãs que mantiveram viva a memória do povo, transmitindo histórias, palavras e ensinamentos.

Aos jovens da aldeia, que continuam fortalecendo a identidade indígena.

A todos que valorizam a cultura indígena brasileira e compreendem que preservar memória é também construir futuro.



EPÍGRAFE 


“A tradição não desaparece.

Ela apenas espera o momento certo

para voltar a caminhar.”

— Sabedoria Kariri-Xocó



SUMÁRIO 


Falsa folha de rosto

Verso da falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor

Contos ( 01 a 10 )

01. Ibenhete Onhantoá – As Imagens dos Santos na Parede; 

02. Duantoá Okenerá – As Fogueiras dos Santos nas Portas; 

03. Woroy Saicrã Boighytéá, História das Doenças Daqui e das que Vieram; 

04. Tiri Moaîba Atseá – O Conselho de Amoãny e os Insetos que Passaram a Prejudicar as Pessoas; 

05. Teudiokié Honéá Uanieá, A Luta Pelos Direitos Indígenas; 

06. Woroia Wontseré – História dos Grupos de Toré;

07. Toráhekié - Quando os Pés Aprendem a Conversar;

08. Amiteá Nhenetí Tseho – O Fogo de Amotyra; 

09. Woroy Toklikli Bohé Uanie, O Conto da Escola Onde a Palavra Anda; 

10. Nhaehí Aiby, Resgate da Língua Kariri-Xocó. 

Apêndices

Glossário

Dados biográficos do autor

Sobre a obra

Orelha do livro



PREFÁCIO 


Este livro reúne contos que nascem da memória viva do povo Kariri-Xocó, habitantes históricos da região do Baixo São Francisco. As narrativas aqui apresentadas não são apenas histórias literárias, mas registros culturais que atravessam o tempo, conectando tradição indígena, experiências históricas e formas próprias de interpretar o mundo.

Ao longo dos contos, o leitor encontrará a presença constante de elementos fundamentais da identidade Kariri-Xocó: o Toré, a memória dos anciãos, a relação com a natureza, os encontros culturais e as estratégias de resistência diante das transformações impostas pela história.

Mais do que contar histórias, esta obra preserva vozes.



APRESENTAÇÃO


Os contos deste livro foram escritos a partir da memória cultural do povo Kariri-Xocó, unindo tradição oral e registro escrito.

Cada narrativa traz palavras da língua indígena, elementos históricos e experiências vividas ou transmitidas pelos mais velhos.

Assim, a obra procura cumprir dois objetivos:

preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó

e compartilhar com o mundo a riqueza de sua tradição.



INTRODUÇÃO


A história dos povos indígenas do Brasil é marcada por encontros, transformações e resistências. No caso do povo Kariri-Xocó, que habita a região do Baixo São Francisco, essa trajetória inclui a convivência com missionários, colonizadores, cidades em expansão e políticas de reconhecimento indígena.

Mesmo diante dessas mudanças, a memória cultural permaneceu viva por meio da oralidade, dos rituais, das narrativas e da transmissão de conhecimentos entre gerações.

Os contos reunidos neste livro procuram registrar parte dessa memória, apresentando episódios que refletem a relação entre tradição, espiritualidade, território e resistência.



CONTOS ( 01 a 05 )




01. IBENHETE ONHANTOÁ – AS IMAGENS DOS SANTOS NA PAREDE





Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.


O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.


— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?


O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.


— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.


E começou a contar.


Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.


A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.


— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.


No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.


Içánauá escutava atento.


Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.


Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.


Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.


— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.


O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.


Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.


E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.



02. DUANTOÁ OKENERÁ – AS FOGUEIRAS DOS SANTOS NAS PORTAS





Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.


— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.


— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.


Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.


Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.


— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.


— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.


As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.


Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.


Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.


Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.


Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.


Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.


Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.


Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:


— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.


E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.



03. WOROY SAICRÃ BOIGHYTÉÁ, HISTÓRIA DAS DOENÇAS DAQUI E DAS QUE VIERAM





Naquele fim de tarde em que o sol já se escondia atrás das árvores do Opará, a jovem Namuãny sentou-se perto da fogueira, observando o velho Bidzamu, o Pajé, preparar seus remédios de folhas, raízes e palavras antigas. O cheiro da lenha queimando misturava-se ao silêncio respeitoso da aldeia.


Com o coração inquieto, Namuãny rompeu o silêncio:


— Bidzamu, é verdade que todas as Saicrã, as doenças, foram trazidas pelos Caraí, os brancos?


O velho Pajé ergueu os olhos devagar, como quem busca respostas no tempo antigo. Passou a mão enrugada sobre o rosto e respondeu com voz firme, porém serena:


— Não, Namuãny. Nem todas. Algumas Saicrã já moravam nesta terra antes dos Caraí chegarem. Outras, sim, foram as que aqui vieram, as Boighytéá.


Ele então começou a contar o que aprendeu com seus ancestrais, palavras guardadas como sementes.


Disse que os parentes Tupi da Aindzubé, da beira do mar, já conheciam certas doenças desde tempos imemoriais.


Falavam da Pereba, a ferida que não fecha; da Akubaby, as febres e a malária que enfraquecem o corpo; da Seba, os vermes que roubam a força das crianças; do Vupir, a doença silenciosa do coração; e da Poxi, que mancha o corpo e o destino.


— Essas — explicou Bidzamu — já caminhavam conosco antes do primeiro Caraí pisar nesta terra.


Mas o Pajé também falou das doenças que chegaram com os passos estrangeiros, trazidas nas roupas, na respiração e no contato forçado. Os Kariri do Opará logo perceberam sua presença cruel:


a Aba-póra, a peste que varria aldeias;


a Uhu, a gripe que derrubava fortes guerreiros;


os Borôrus, as bexigas que marcavam a pele e a memória;


a Tatapora, que atacava as crianças;


as Dsebudana, febres sem nome;


a Baekla, a tosse longa da tuberculose;


e a Wonghecri, a doença da mente, que confundia o espírito.


— Essas — disse o Pajé, abaixando a cabeça — chegaram com o mundo que mudou tudo.


Por muito tempo, as Saicrã levaram parentes, deixando aldeias em luto. Mas o tempo também trouxe caminhos de cura. Com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, surgiu uma enfermaria, remédios e novas formas de cuidado, somando-se ao saber antigo dos Pajés.


Hoje, contou Bidzamu com esperança, a Aldeia Kariri-Xocó tem um Polo Base de Saúde, com médico, dentista, enfermeira, técnicos e agentes de saúde. Um espaço inaugurado em 15 de maio de 2014, símbolo de resistência, sobrevivência e continuidade da vida.


O fogo da fogueira já virava brasa quando o Pajé concluiu:


— Enquanto houver memória, palavra e cuidado, nosso povo seguirá curando o corpo e o espírito.


Namuãny ficou em silêncio. Agora entendia que a história das doenças era também a história da luta e da permanência de seu povo.



04. TIRI MOAÎBA ATSEÁ – O CONSELHO DE AMOÃNY E OS INSETOS QUE PASSARAM A PREJUDICAR AS PESSOAS





Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.


— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?


Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:


— Eles sempre foram assim?


Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:


— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.


Ela apontou para a floresta que ainda resistia.


— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.


Kayany e Soany sentaram-se mais perto.


— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.


O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.


O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.


A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.


O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.


A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.


O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.


O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.


E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.


— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.


— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.


A voz de Amoãny ficou mais grave.


— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.


Kayany apertou a mão da irmã.


— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.


— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.


— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.


O vento passou entre as folhas, como se concordasse.


— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.


Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.


E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.



05. TEUDIOKIÉ HONÉÁ UANIEÁ, A LUTA PELOS DIREITOS INDÍGENAS





Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.


O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar. 


Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos  mantendo o povo unido.


Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias  transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.


Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.


A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.


Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.


Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.


E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.



06. WOROIA WONTSERÉ – HISTÓRIA DOS GRUPOS DE TORÉ





A fogueira ardia no centro da aldeia, cuspindo faíscas que subiam ao céu como pequenas estrelas. Ao redor dela, a noite escutava. Foi ali que o jovem Nayrã, com os olhos curiosos e o coração inquieto, rompeu o silêncio e perguntou ao velho Nidé, que descansava sobre uma pedra antiga como a própria terra:


— Meu grande cacique, o que é o Toré? Desde quando ele existe? E para que serve?


O ancião demorou a responder. Fitou o fogo como quem consulta os espíritos e, em seguida, falou com voz baixa, mas firme, como se cada palavra tivesse peso sagrado:


— O Toré, meu neto, é o som que vem da flauta e ecoa no mundo invisível. É som sagrado. Ele nasce do trovão de Tupã e corre pelo vento até encontrar nossos corpos. Vem desde o começo do mundo, desde quando nossos antepassados aprenderam a escutar a terra.


Nidé explicou que o Toré não acontece por acaso. Ele nasce de um motivo, de uma necessidade do povo. Serve para agradecer a colheita, celebrar nascimentos, unir casamentos, honrar os mortos, fortalecer a paz, curar feridas do corpo e da alma, e também para afirmar a luta, a identidade e a memória.


Os anos passaram como passam as águas do rio São Francisco. Nayrã cresceu, tornou-se adulto, e em muitas fogueiras ouviu novamente as histórias do Toré. Soube então que, em 1859, quando o Imperador Dom Pedro II visitou a Aldeia Kariri de Colégio, foi recebido com um Toré conduzido pelo pajé Manoel Baltazar e por um grupo de indígenas. Mesmo diante do poder do Império, foi o som ancestral que falou primeiro.


Mais tarde, conversando com o velho Irecê, Nayrã compreendeu algo ainda mais profundo. O Toré foi essencial para o reconhecimento étnico dos Kariri de Colégio. Os grupos eram liderados pelos Duboheriá, os Mestres do saber: Manoel Ibá, Antônio Tinga, Giriçá e outros que, em 1935, dançaram e cantaram diante do pesquisador Carlos Estevão. Daquele registro nasceu, anos depois, em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.


Mas o Toré não ficou preso às páginas dos estudos. Ele seguiu vivo. Em 1973, o cacique Irecê levou um grupo Kariri-Xocó para além da aldeia. Foram até Aracaju, capital sergipana, onde apresentaram o Toré ao mundo de fora. O som ecoou nos jornais, na televisão, e atravessou fronteiras invisíveis.


Com o tempo, muitos grupos de Toré nasceram, como sementes espalhadas pelo vento. Na década de 1990 surgiram o Seregê, liderado pelo cacique José Tenório; o Thydjo, sob a liderança de Cará; o Suré, do soprador mágico Ademir Cruz; o Wakái, do líder Mocó; e o Dzubukuá, conduzido por Nido. Esses grupos não apenas dançavam: vendiam artesanato, arrecadavam alimentos, curavam, ensinavam, falavam ao mundo.


Nos anos 2000, novos passos se somaram à roda. Vieram o Etçãmy, de Batoré; o Sabucá, de Pawanã; o Kaçafeita, de Coção; o Yegeri, das grandes chamadoras de chuva, liderado por Nelcide; e o Subatekié, do conhecimento, conduzido por Idiane Crudzá. Muitos outros ainda nasceram, tantos que a lista já não cabe na memória escrita.


Naquela mesma fogueira, agora já homem feito, Nayrã entendeu: o Toré nunca foi apenas dança ou canto. Ele é raiz viva. Enquanto houver quem escute o trovão de Tupã e bata o pé na terra, o Toré continuará renascendo, mais forte, mais firme, como esperança que não se apaga.


E o fogo, em silêncio, concordou.



07. TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR





Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.


O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.


Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.


Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.


Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.


Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.


— Vem — disse apenas.


Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.


Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.


Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.


— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.


Akauã guardava a frase como quem guarda semente.


Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.


Numa noite de lua cheia, decidiu.


Convidou Helena para a aldeia.


O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.


Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.


Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:


— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.


Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.


Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.


Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.


E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.



08. AMITEÁ NHENETÍ TSEHO – O FOGO DE AMOTYRA





O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.


Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.


— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.


Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.


Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.


— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.


Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.


Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.


— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.


Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.


Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.


— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.


E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.



09. WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA





O Conto da Escola Onde a Palavra Anda


Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.


Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.


Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.


Havia muitos Mestres na aldeia.


A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.


Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.


O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.


O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.


O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.


E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.


Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;


os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;


o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;


e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.


Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.


Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.


Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.


Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:


o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;


o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;


o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;


o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;


o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;


o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;


o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;


e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.


Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.


Entre todos eles caminhava Nhenety.


Não como quem manda, mas como quem escuta.


No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.


Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.


E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.


Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.


E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:


um conto que não termina,


uma escola que anda,


uma palavra que vive.



10. NHAEHÍ AIBY NUNÚ, RESGATE DA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ





Quando os missionários chegaram às margens do Opará, não vieram apenas com cruzes e promessas. Trouxeram também o silêncio.


Levaram os Uanieá,  indígenas para a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde escreveram o Tonranraná — livros de gramática e catecismo — para entender como nosso povo falava, como pensava, como nomeava o mundo.


Aprenderam nossa Nunú Antse, língua nativa para, depois, nos ensinar a esquecê-la.


Os Waréá, padres passaram a ensinar a Samy Caraí, a cultura dos brancos, e proibiram nossos antepassados de falar a língua nativa. A ordem era clara: a partir dali, só o Nunú Peró, língua portuguesa deveria ser ouvida. A língua Kariri foi empurrada para dentro das casas, depois para dentro da memória, até quase desaparecer no fundo do silêncio.


O tempo seguiu seu caminho duro.


A antiga Natiá, aldeia virou Naticróraí, povoação dos brancos. As terras foram tomadas, os direitos negados, e já no Império do Brasil nosso povo foi declarado invisível. Mas o espírito Kariri-Xocó nunca aceitou o fim.


Quando chegou a República, chegou também o tempo de lutar outra vez pelo reconhecimento étnico.


Foi na Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, que um gesto pequeno reacendeu a chama. Ali, no Posto Indígena, o indígena Iraminõ reuniu o que ainda restava da língua: poucas palavras, sobreviventes, datilografadas em quatro folhas de papel, em letras vermelhas — como se o sangue da memória ainda pulsasse nelas.


O jovem Nhenety soube da existência daquele vocabulário. Procurou Iraminõ. Sentaram, conversaram, compartilharam palavras como quem partilha sementes raras. Já na Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo, algo começou a nascer: o Nhaehí Aiby Nunú — o Resgate da Língua.


Com um Cramycá Samyonhé, um simples gravador de voz, Nhenety passou a traduzir os Wonhé Torá, os cantos de Toré, para a língua Kariri. Depois criou um blog, onde espalhou cantos, frases e palavras, oferecendo aos jovens da aldeia aquilo que quase lhes havia sido roubado: a própria voz.


A tecnologia, antes instrumento de apagamento, virou ali ferramenta de resistência.


Com o apoio da Thydêwá, ONG cultural, e ao lado de Sebastian, seu amigo Caraí, Nhenety gravou CDs e DVDs de cantos de Toré. O som antigo ganhou novos caminhos, atravessando fios, telas e gerações.


A revitalização da língua ganhou novo fôlego com a criação do grupo de WhatsApp OKAX, reunindo cerca de cento e vinte participantes. Logo depois nasceu a Escolinha da Língua Subatekié Nunú, conduzida por Indiane Crudzá e Nhenety — professora e coordenador pedagógico — onde a língua deixou de ser lembrança e voltou a ser ensinada.


Vieram também os estudiosos. Thea, Daiane, Elizabete. Caminharam junto, acompanharam as atividades, escreveram artigos e teses, sempre com a participação ativa de Nhenety e Indiane. A língua Kariri-Xocó, antes calada, passou a existir também nos livros, nas universidades, sem perder o chão da aldeia.


E assim, palavra por palavra, canto por canto, a Nunú Antse voltou a respirar.


Porque uma língua não morre enquanto houver quem a pronuncie com o coração.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



APÊNDICES


Apêndice A


Contexto histórico do povo Kariri-Xocó


O povo Kariri-Xocó habita historicamente a região do Baixo Rio São Francisco, no município de Porto Real do Colégio, estado de Alagoas. Sua trajetória inclui processos complexos de contato cultural, missões religiosas, perda territorial e posterior reorganização comunitária.


Durante o período colonial e imperial, muitos povos indígenas da região foram reunidos em aldeamentos missionários. Entre esses espaços destacou-se a chamada Aldeia dos Padres (Natiwaré), que mais tarde se transformaria em núcleo urbano.


Apesar das transformações históricas, o povo Kariri-Xocó manteve práticas culturais fundamentais, como o Toré, a tradição oral, os conhecimentos sobre natureza e medicina tradicional.


No século XX, especialmente a partir da década de 1940, iniciou-se um novo ciclo de reconhecimento indígena, com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, ligado ao antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).


Esse processo marcou o início de novas lutas por direitos territoriais, educação indígena diferenciada e políticas de saúde.



Apêndice B


O Toré como expressão cultural


O Toré é uma das manifestações culturais mais importantes dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os Kariri-Xocó, ele representa:


ritual espiritual


expressão cultural


afirmação identitária


instrumento de resistência política


O Toré reúne canto, dança, música e elementos simbólicos que conectam o povo à memória ancestral.



GLOSSÁRIO 


Antse — Natureza


Atseá — Pessoas


Bohé — Ensino


Duboherí — Mestre do saber


Erá — Casa


Iwo Opará — Rio São Francisco


Natiá — Aldeia


Nunú — Língua


Peró / Caraí — Branco / não indígena


Radda — Terra


Retsé — Floresta


Samyá — Cultura


Toré — Ritual tradicional indígena


Uanieá — Indígenas




PALAVRA DO AUTOR


Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias de meu povo.

Escrevo porque as palavras também são caminhos de resistência. Durante muito tempo nossas histórias caminharam apenas pela oralidade, sendo contadas ao redor da fogueira, nas rodas de conversa ou nos momentos de aprendizado entre anciãos e jovens.

Hoje escrevo para que essas histórias continuem vivas também no papel.

Cada conto deste livro nasce de lembranças, ensinamentos e observações da vida de nosso povo.

Não escrevo apenas para contar histórias, mas para registrar a memória de quem somos.



PALAVRA FINAL



Memória e Caminho do Povo Kariri-Xocó


Este livro nasceu da memória.


Das histórias ouvidas desde criança, das palavras dos anciãos, das conversas nas casas, das lembranças da aldeia e das caminhadas pela nossa terra.


Muitas dessas histórias foram contadas ao redor do fogo, nas reuniões da comunidade, nos momentos de celebração e também nos tempos difíceis em que nosso povo precisou se manter firme para continuar existindo.


Escrever estas páginas foi uma forma de guardar essas lembranças, para que não se percam com o tempo.


O povo Kariri-Xocó segue caminhando.


Nossa cultura continua viva no Toré, na palavra dos mais velhos, na educação das crianças, na luta por direitos e no cuidado com a natureza.


Cada geração tem a responsabilidade de aprender, preservar e transmitir esses saberes.


Que estas histórias possam chegar aos jovens do nosso povo e também a todos aqueles que desejam conhecer e respeitar a história dos povos indígenas do Brasil.


A memória é um caminho que liga o passado ao futuro.


E enquanto nossas histórias continuarem sendo contadas, o povo Kariri-Xocó continuará existindo.


Com respeito à memória dos nossos antepassados e esperança nas novas gerações.



Nhenety Kariri-Xocó



SOBRE A OBRA



PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne dez contos que retratam aspectos históricos, culturais e espirituais do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.


As narrativas dialogam com a tradição oral indígena e com acontecimentos históricos reais, abordando temas como:


religiosidade e espiritualidade indígena


convivência cultural entre povos indígenas e colonizadores


história das aldeias


preservação da memória


luta pelos direitos indígenas


revitalização da língua Kariri-Xocó


educação indígena


culinária tradicional


tradição do Toré


O livro busca registrar saberes transmitidos por gerações e reafirmar a importância da cultura indígena como patrimônio vivo do Brasil.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Aldeia Kariri-Xocó localizada em Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas.


É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da cultura indígena e divulgador da memória histórica de seu povo.


Seu trabalho dedica-se à valorização da tradição, da língua indígena e da cultura Kariri-Xocó, utilizando tanto meios tradicionais quanto ferramentas contemporâneas, como blogs, gravações e projetos culturais.


Nhenety também participa de iniciativas voltadas à revitalização da língua indígena Kariri-Xocó e ao fortalecimento da educação indígena.


Seu blog reúne textos, contos e reflexões sobre cultura, história e identidade indígena.


Blog do autor:


kxnhenety.blogspot.com



ORELHA DO LIVRO



Este livro nasce da memória.


Em PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que atravessam o tempo para contar a história de seu povo.


Entre fogueiras, cantos de Toré, histórias de anciãos, culinária tradicional, lutas políticas e resgate da língua ancestral, o leitor é convidado a conhecer um universo onde memória e resistência caminham juntas.


Cada narrativa revela que a cultura indígena não pertence apenas ao passado — ela continua viva no presente.


Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho da permanência do povo Kariri-Xocó e de sua capacidade de transformar memória em futuro.



CONTRACAPA 


PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne contos que preservam a memória, a cultura e a espiritualidade do povo Kariri-Xocó, habitantes da região do Baixo São Francisco, em Alagoas.


Nas páginas desta obra, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó conduz o leitor por narrativas inspiradas na tradição oral, nos ensinamentos dos anciãos e nas experiências vividas por seu povo ao longo da história.


Entre fogueiras de santos, cantos de Toré, histórias da natureza, lembranças das antigas aldeias e relatos das lutas por direitos indígenas, os contos revelam um universo onde memória, espiritualidade e resistência caminham juntas.


A obra também registra momentos importantes da história recente, como as mobilizações indígenas pela garantia de direitos após a Constituição de 1988, quando lideranças de diversos povos viajaram até Brasília para defender educação diferenciada e saúde indígena.


Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho de identidade, resistência e continuidade cultural.


Ao compartilhar essas histórias, o autor contribui para manter viva a memória do povo Kariri-Xocó e fortalecer o respeito às culturas indígenas do Brasil.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






sábado, 7 de março de 2026

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM






FALSA FOLHA DE ROSTO

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da vida, memória e cultura do povo Kariri-Xocó às margens do Opará — Rio São Francisco.

Autor

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Todos os contos desta obra são baseados na memória cultural, nos costumes e nas narrativas do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes tradicionais da região do Baixo Rio São Francisco.

A obra valoriza a tradição oral indígena, integrando elementos da língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, preservando significados culturais e cosmológicos associados à natureza, ao território e à vida comunitária.

Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Publicação independente.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil



FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)


Kariri-Xocó. Nhenety,

Baiwo Opará Uohoie Canghi: viver no Rio São Francisco tudo de bom /

Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos sobre memória cultural, vida ribeirinha e tradições do povo indígena Kariri-Xocó no Baixo Rio São Francisco.

Inclui glossário de termos da língua Kariri-Xocó.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Rio São Francisco – memória cultural

Narrativas tradicionais indígenas

Povos indígenas do Nordeste brasileiro

CDD: 869.899

Literatura indígena brasileira



DEDICATÓRIA


Dedico esta obra ao meu povo Kariri-Xocó, guardião das águas do Opará, que atravessam gerações levando vida, memória e sabedoria.

Dedico também aos mais velhos, que ensinaram que a palavra não mora apenas no papel, mas no vento, na terra e nas águas.

E às novas gerações, para que nunca esqueçam que nós todos somos o rio.



AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente aos ancestrais Kariri-Xocó, guardiões da memória e da sabedoria tradicional, que ao longo das gerações transmitiram ensinamentos, histórias e conhecimentos sobre o rio, a terra e a vida, cuja memória continua viva em cada história contada às margens do Opará.


A realização deste livro nasceu do desejo de preservar e compartilhar as histórias vividas nas margens do Opará, o grande Rio São Francisco, que acompanha a vida do povo Kariri-Xocó desde tempos antigos.


Agradeço às famílias da aldeia que mantêm vivos os costumes, os ensinamentos e a convivência com a natureza.


Agradeço também às iniciativas culturais que valorizam a língua e a tradição indígena, permitindo que histórias como estas sejam registradas e compartilhadas.


Expresso também minha profunda gratidão aos alunos, professores e professoras da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, que diariamente fortalecem a educação indígena e ajudam a manter viva a cultura de nosso povo através do estudo, da língua, da tradição e do respeito às nossas raízes.


Que este livro possa inspirar novas gerações a conhecer, respeitar e proteger o Opará, suas histórias e os saberes que vivem nas comunidades do Baixo Rio São Francisco.


Por fim, agradeço aos leitores que se aproximam desta obra com respeito e curiosidade, permitindo que o rio das palavras continue correndo.


Com gratidão,


Nhenety Kariri-Xocó



EPÍGRAFE


“Assim como o rio corre sem esquecer sua nascente,

um povo vive enquanto guarda sua memória.”

— Sabedoria tradicional indígena



SUMÁRIO 


Falsa folha de rosto

Verso da falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor


Contos (01 a 10)


01. Hietãdé Uihoie Opará, Nós Todos Somos o Rio São Francisco; 

02. Piwonhé Ieendeá – A Reprodução das Aves; 

03. Baiwo Opará Bohé, A Vida Social no Rio São Francisco; 

04. Okendzurió – A Porta D’Água da Lagoa; 

05. Hehé Pahaempá – Escorregar no Barranco Molhado; 

06. Batim Hopele Pahankó, Salto do Barranco no Opará; 

07. Pehó Iwo Opará, A Enchente do Rio São Francisco; 

08. Taiutará Ruñohú Midzé, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe; 

09. Undéá Boighy Opará – O Caminho das Águas que Ensinam; 

10. Ubauipú Itohiquiete – A Lancha dos Viajantes. 


Apêndices

Glossário

Dados biográficos do autor

Sobre a obra

Orelha do livro



PREFÁCIO


Esta obra nasce das margens do Opará, nome indígena do Rio São Francisco, um dos maiores rios da América do Sul e verdadeiro eixo cultural de muitos povos.

Nos contos reunidos neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que unem memória, natureza e identidade. Cada história revela não apenas acontecimentos, mas também uma forma de compreender o mundo.

Nas palavras do autor, o rio não é apenas água: é parente, é caminho, é história viva.

Os contos trazem elementos da língua Kariri-Xocó, resgatando termos e conceitos que pertencem ao universo cultural indígena e que ajudam a compreender a relação profunda entre o povo e a natureza.

Assim, este livro não é apenas literatura:

é memória cultural, registro histórico e expressão de resistência indígena.



APRESENTAÇÃO


O Rio São Francisco, chamado pelos povos indígenas de Opará, é muito mais do que um curso d’água que atravessa o Brasil. Para as comunidades que vivem às suas margens, ele é território, memória, alimento e ensinamento.


Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da experiência direta com o rio e com a vida ribeirinha do povo Kariri-Xocó, habitante tradicional da região de Porto Real do Colégio, no Baixo São Francisco.


As narrativas apresentam diferentes dimensões da convivência com o Opará:


a infância nas margens do rio, as pescarias, as enchentes, os costumes antigos, a cerâmica tradicional, as travessias e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


A presença da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos fortalece o caráter cultural da obra e reafirma a importância da preservação das línguas indígenas como guardiãs de conhecimento ancestral.


Mais do que literatura, esta obra é um registro de memória cultural, uma forma de manter viva a relação entre o povo e o rio que sustenta sua história.



INTRODUÇÃO



O Rio São Francisco é um dos principais rios do Brasil e atravessa diferentes regiões, culturas e paisagens. Entre os povos indígenas que vivem em suas margens está o povo Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada ao rio e às lagoas que formam o território do Baixo São Francisco.


Para esse povo, o rio não é apenas um elemento natural. Ele é considerado parte da própria vida comunitária, influenciando a alimentação, os costumes, as formas de trabalho, as brincadeiras das crianças e as práticas espirituais.


Os contos reunidos neste livro apresentam fragmentos dessa convivência com o Opará. Cada narrativa revela uma experiência ou lembrança relacionada ao rio: a chegada das aves migratórias, a vida social nas margens, os antigos barrancos onde as crianças brincavam, as grandes enchentes, o comércio tradicional de cerâmica e peixe e as mudanças trazidas pela modernidade.


Ao registrar essas histórias, o autor contribui para preservar elementos importantes da memória cultural Kariri-Xocó, fortalecendo a tradição oral que durante séculos foi o principal meio de transmissão de conhecimento entre as gerações.



PALAVRA DO AUTOR



Escrever estas histórias foi como voltar muitas vezes às margens do Opará, o grande Rio São Francisco que acompanha a vida do meu povo Kariri-Xocó desde os tempos mais antigos.


Cada conto deste livro nasceu da memória, da observação e das palavras que escutei dos mais velhos, aqueles que sempre ensinaram que o rio não é apenas água correndo, mas também um ser vivo que orienta a vida das pessoas.


Nas margens do Opará aprendemos a pescar, a brincar, a plantar, a respeitar os animais, a ouvir o vento e a observar os sinais da natureza. O rio nos ensina paciência, convivência e respeito pelos ciclos da vida.


As histórias aqui reunidas falam de momentos simples do cotidiano: crianças escorregando no barranco molhado, pescadores trabalhando nas águas do rio, mulheres moldando o barro da cerâmica, travessias em canoas e lanchas, enchentes que transformam a paisagem e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Ao registrar essas lembranças, meu desejo é contribuir para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó e mostrar às novas gerações que nossa história continua viva.


O Opará sempre foi mais que um rio para nós. Ele é caminho, alimento, memória e espírito de resistência.


Se estas histórias conseguirem fazer o leitor sentir um pouco da vida que pulsa nas margens do São Francisco, então o rio também terá encontrado um novo caminho através das palavras.


Nhenety Kariri-Xocó



CONTOS ( 01 a 10 )



01. HIETÃDÉ UIHOIE OPARÁ, NÓS TODOS SOMOS O RIO SÃO FRANCISCO





Na Aldeia Kariri-Xocó, quando o Ukie, o Sol, começa a se deitar no lado Oeste, a luz dourada repousa sobre o Opará. O grande rio segue seu caminho antigo, correndo do Norte ao Sul, até encontrar o Aindzu, o Mar. Assim ele atravessa os Undéá, os Lugares do mundo, carregando histórias pelo Uché, o Tempo que nunca para.


Era nesse entardecer, quando o vento soprava manso e as Dzuá, as Águas, murmuravam palavras antigas, que Mayara, moça curiosa e atenta aos sinais da vida, aproximou-se de sua mãe, Nancy. Seus olhos brilhavam como quem deseja compreender o que não se vê apenas com os olhos.


— Mãe — perguntou — o rio Opará representa o quê?


Nancy silenciou por um instante. Olhou para o horizonte, onde o céu se encontrava com as águas, e então falou com a voz mansa de quem carrega saber antigo:


— Minha filha, o Opará não é apenas as Dzuá que correm aqui diante de nossa Natiá, a Aldeia. Ele é muito mais do que parece.


Ela então explicou que a conexão do Opará nasce da própria Antse, a Natureza. Vem do Aranke, o Céu profundo, das Battiá, as Estrelas que vigiam a noite, e do Ukie, o Sol, que aquece o Aindzu, o Mar. Do encontro desses seres surgem as Arankedzoá, as Nuvens, que viajam pelo céu e alimentam muitos Iwoá, os Rios, até que todos retornem ao grande Opará.


— É no Uché das Dzoá, Tempo das Chuvas — continuou Nancy — que a Radá, a Terra, se torna fértil. É nela que plantamos os Uanhí Tdjeá, nossas lavouras e legumes. Eles alimentam nosso Buiehoho, o Corpo, assim como as Dzuá que bebemos, todas vindas do Opará.


Mayara ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra da mãe corria dentro dela como o próprio rio.


— Olhe bem, minha filha — disse Nancy, com firmeza e doçura — Hietãdé uihoie Opará. Nós todos somos o Rio São Francisco.


Ela explicou que o Opará vive nas Atse, as Pessoas; nos Keríá Retsé, os Animais Silvestres; nas Ubuá, as Plantas; nos Boêdoá, os Montes; nas Naticróbeá, as Cidades Ribeirinhas; e nos Uanieá, os Povos Indígenas.


— Todos carregamos o Opará dentro de Hietãdé, de Nós — concluiu — seja nas Dzuá que sustentam a vida, seja no Amíá, o Alimento que a Natureza nos oferece por meio dele.


Quando a noite caiu, a Kaiaku, a Lua, surgiu no céu, chamando as marés do mar. Com ela vinham os Wãmyá, os Peixes, que subiam pelo Opará. Era o tempo das Mydzéá, as Pescarias, tradição antiga passada de geração em geração, ligando o passado ao presente como o curso do rio.


E assim, enquanto o Opará seguia seu caminho eterno, Mayara compreendeu que o rio não corre apenas pela terra: ele corre dentro de todos os seres que vivem, respiram e lembram.



02. PIWONHÉ IEENDEÁ – A REPRODUÇÃO DAS AVES





Antigamente, quando o Opará ainda conversava com o céu em águas largas e mansas, o Baixo São Francisco se tornava caminho de asas. Era tempo de anúncio, tempo sagrado. As Parari, ligeiras e numerosas, riscavam o firmamento em grandes revoadas. Os mais antigos as chamavam de Arribaçã, e diziam que sua chegada era sinal de fartura, de renovação da vida.


O céu escurecia de movimento, e o som das asas parecia um canto coletivo, um chamado antigo que vinha de longe para cumprir o ciclo da reprodução. Elas pousavam, descansavam, procriavam, e depois partiam, deixando no ar a lembrança de sua passagem.


Junto delas vinham outras parentes do vento. A Pukûa-tinga, a Rolinha-cinzenta, chegava em bandos numerosos, mas diferente das Parari, permanecia mais tempo. Fazia morada, observava o chão, escutava a mata. Seu canto fino atravessava as manhãs como um fio invisível ligando céu e terra.


Na Terra Indígena Kariri-Xocó, entre Porto Real do Colégio e São Brás, a mata do Ouricuri ainda guarda esse segredo vivo. Ali, a Caatinga respira diversidade. Entre galhos retorcidos e folhas resistentes, muitas espécies de aves fazem sua morada, conhecendo cada sombra, cada fruto, cada silêncio.


Na Várzea do Itiúba, onde a terra se deixa inundar pelas águas do rio, a vida se multiplica o ano inteiro. As aves aquáticas conhecem bem esse território. O Socó-Yobi, o Socó azul, caminha lento pelas margens. A Guaraúna, ave carão, anuncia sua presença com voz forte. Marrecas e paturis deslizam sobre a água como se fossem parte do próprio rio, cumprindo ali o mistério eterno da reprodução.


Para o indígena, tudo isso não é apenas paisagem. É convivência. É parentesco. Viver com a natureza é respeitar o tempo de cada ser, é proteger a flora e a fauna, porque na cultura Kariri-Xocó os Keríá — os Animais — não são apenas criaturas: são seres sagrados, guardiões do equilíbrio e geradores da vida.


Assim, quando uma ave cruza o céu do Opará, ela não passa sozinha. Leva consigo a memória dos antigos, o espírito da terra e a certeza de que, enquanto houver respeito, o ciclo continuará.



03. BAIWO OPARÁ BOHÉ, A VIDA SOCIAL NO RIO SÃO FRANCISCO





O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.


Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.


Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.


As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.


Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.


O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.


Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.


O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz. 



04. OKENDZURIÓ – A PORTA D’ÁGUA DA LAGOA





Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.


— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?


Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.


— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.


E então começava a história.


No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.


— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água. 


Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.


Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.


Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.


— Depois vieram os colonizadores.


As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.


A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.


Sãbuá apertava a terra com os dedos.


— E nós, vovô?


Teipó sorriu com tristeza e firmeza.


— Nós resistimos.


Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.


Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.


Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.


O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande". 


— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.


Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:


algumas águas correm no rio,


outras correm na memória. 



05. HEHÉ PAHAEMPÁ – ESCORREGAR NO BARRANCO MOLHADO





Quando vinham as Pehóá, as grandes enchentes do Opará, ainda não existia na Naticróraí, a cidade, o Oncródzu, o cais de pedra. Naquele tempo, o rio falava direto com a terra, e o Pahankó, o barranco de barro cru, era parte da nossa vida. Era ali que acontecia o Hehé Pahaempá — escorregar no barranco molhado.


Assim que as águas começavam a subir, a alegria também subia junto. Os Inghéá, os meninos, os Mynhekiá, os rapazes, e as Tibudinã, as moças, se reuniam naquele antigo Kenhé, um costume passado de geração em geração, como se o próprio rio ensinasse.


Primeiro vinha o preparo. Com o Dehebá, o cavador, moldávamos a rampa no barro vivo. Abríamos uma cavidade funda, depois malhávamos a superfície com os pés e com as mãos, alisando o caminho até ficar perfeito para Craraidyó, descer. O barranco ficava liso, escuro, brilhando de água, pronto para o Hehé — o escorregar ligeiro que terminava no abraço frio das Dzuá, as águas do Opará.


Era queda, riso e grito. A Curaempá, roupa toda molhada, e o Dimy Bunhá, o corpo sujo de barro, não eram problema — eram motivo de alegria. Aquele era o tempo da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro. Tempo bom para Buiempá, tomar banho no rio, lavar o corpo e também o espírito.


Para ter segurança de não ter ferimentos havia uma grande minúcia na verificação de pedras no barro, retirando detritos pedregosos ficando somente a argila macia umedecida com água,  assim a rampa estava pronta para a brincadeira. 


O Opará corria forte, largo, como se sorrisse com a nossa brincadeira. Cada escorregada era um desafio, cada mergulho uma vitória. O barro grudava na pele, o riso ecoava pelas margens, e a memória se escrevia sem papel, direto no coração.


Depois, o tempo mudou. Veio o prefeito, veio o Oncródzu, o cais de pedra. O barranco desapareceu, e com ele aquele lugar exato da brincadeira. Mas o Opará continuou grande. O rio não esquece seus filhos.


E quando as águas voltarem a subir, nós saberemos: acharemos outros barrancos, outros caminhos, outros lugares para viver de novo o Hehé Pahaempá — porque enquanto o rio existir, a memória não morre.



06. BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ





Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.


Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.


— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?


Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.


— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.


Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.


— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.


Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.


— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.


Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.


— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…


Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.


— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.


Namara segurou a mão do avô.


— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?


Ele assentiu.


— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.


Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.


E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.



07. PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO





No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.


Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.


Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.


Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.


As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na  Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.


Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:


— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.


O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.


Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.


Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.


E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.


Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.



08. TAIUTARÁ RUÑOHÚ MIDZÉ, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe





A velha Soyá acordava antes do sol. Suas mãos, marcadas pelo tempo, conheciam o barro como quem conhece o próprio corpo. Sentada à sombra de um juazeiro, às margens do Opará, ela amassava a argila com calma, enquanto a neta Aramã observava em silêncio, aprendendo mais com o gesto do que com as palavras.


— Vê, Aramã… — dizia Soyá, sem levantar os olhos. — O barro escuta a gente. Se a mão estiver pesada, ele racha. Se estiver mansa, ele vira ruñohú.


A cerâmica sempre foi assim para o povo Kariri-Xocó: mais que trabalho, era vida. Desde antiga data, as mulheres moldavam potes e panelas de barro, o ruñohú, e seguiam em taioiará, vendendo e trocando com os carai, os brancos. Em troca vinham o taiu, o dinheiro; a sabucá, a galinha; e o sekiki, a farinha que sustentava a casa.


Soyá lembrava bem do tempo da Rua dos Índios, quando ainda não tinham a terra reconquistada. As mulheres seguiam pelo rio na Ubacródzu, a canoa do Porto das Pedras, levando a cerâmica para os Atserácroraí, os povoados ribeirinhos. O rio era estrada, mercado e companhia.


Depois veio a retomada da Terra Indígena,  já nos anos de 1990. 


A aldeia se firmou às margens do Opará, cercada por lagoas fartas de midzé, os peixes. A vida mudou. Agora, junto com os potes de barro, as mulheres carregavam setu, balaios cheios de peixe fresco, para vender e trocar nos Atserácaddá, os povoados do interior.


— Foi o tempo mais bonito, Aramã — contou Soyá certa vez. — A terra voltou pra gente, e o peixe vinha como presente.


Já não era mais a canoa. As mulheres seguiam nos Ibáchiddá, os carros compridos da terra, atravessando Apreaca, Angico, Girau, Salomé e Xinaré. 


A Nova Aldeia trouxe estrada, luz elétrica, casa de alvenaria e água encanada. Trouxe conforto, mas também trouxe silêncio para o barro.


Agora, Soyá estava aposentada. Muitas das velhas ceramistas também. As mãos cansaram, os olhos falharam, e poucas jovens quiseram aprender o ofício. O barro começou a esfriar.


Aramã, porém, escutava tudo com atenção. Naquele dia, ajoelhou-se ao lado da avó e pediu:


— Ensina de novo, vó. Quero aprender a ouvir o barro.


Soyá sorriu. Um sorriso lento, profundo, como quem vê o futuro respirando.


— Então senta, minha neta. Enquanto houver mão jovem pra aprender, o ruñohú não morre. A tradição só dorme quando ninguém chama por ela.


E ali, entre o barro úmido, o rio antigo e a memória viva, Soyá passou à neta não apenas a técnica da cerâmica, mas a história de um povo que troca, vende, resiste e permanece.



09. UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM





O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.


Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.


Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.


— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.


Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.


— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.


Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:


— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.


Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.


— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.


A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.


Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:


— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.


Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.


Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.


— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.


E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.



10. UBAUIPÚ ITOHIQUIETE – A LANCHA DOS VIAJANTES





O Uché, o Tempo, não caminhava: ele deslizava manso sobre as Dzuá, as águas do Opará. E quem soubesse olhar percebia que algo estava mudando. As antigas Ubácruté, canoas de pano que durante décadas cortaram o rio com paciência e coragem, começavam a ceder espaço a uma nova forma de viajar.


Chegavam as Ubauipú Itohiquiete, as Lanchas dos Viajantes. Eram canoas transformadas, agora com cobertura firme e motor a diesel no ventre, rompendo a correnteza com mais ligeireza. O rio era o mesmo, mas o jeito de atravessá-lo ganhava outro ritmo.


No Baixo São Francisco, quase toda Ubauipú carregava uma história anterior. Antes lancha, fora Ubácruté. As mãos que um dia esticaram pano e confiaram no vento, agora aprenderam a domar o motor. Não era abandono do passado, mas continuação — evolução que respeita a origem.


No antigo Radamy Cródzu, o Porto de Baixo, onde antes repousavam as canoas de pano, o cenário se renovava. As Ubauipúá alinhavam-se à margem, prontas para a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá. De um lado e do outro do rio, pessoas, histórias, mercadorias e esperanças cruzavam juntas.


Cada lancha levava quarenta passageiros e três tripulantes. Custava pouco atravessar: três reais para quem escolhia o rio, seis para quem seguia pelo Ibápohduá, o automóvel, pelas estradas de terra e asfalto. Mas não era só o preço que pesava na escolha. Havia quem preferisse o balanço das águas, o vento no rosto, o cheiro do rio vivo.


Mesmo com as rodovias cortando a paisagem e os transportes terrestres acelerando o mundo, as Ubauipúá continuavam essenciais. Não apenas como meio de transporte, mas como elo cultural. Para muitos, entrar numa lancha não era só atravessar: era Tuyokié, passear com o rio, conversar com o Opará, lembrar que a vida também sabe fluir.


E assim, enquanto o Tempo seguia mudando, as Lanchas dos Viajantes continuavam indo e vindo, levando no casco não apenas pessoas, mas a memória viva de um povo que aprendeu a transformar sem esquecer.



Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




APÊNDICES 


CONTEXTO CULTURAL DO POVO KARIRI-XOCÓ


O povo Kariri-Xocó habita tradicionalmente a região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do Baixo Rio São Francisco.


Sua história está marcada por processos de resistência cultural, retomada territorial e preservação da identidade indígena no Nordeste brasileiro.


A relação com o Opará sempre foi central para o modo de vida Kariri-Xocó. O rio fornece alimento, orienta práticas sociais e aparece também em narrativas míticas e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Entre as práticas tradicionais destacam-se:


a pesca artesanal


a cerâmica indígena


a coleta de frutos da região


as travessias fluviais


os rituais associados ao ciclo da natureza


Os contos deste livro dialogam diretamente com essas práticas, apresentando episódios do cotidiano que refletem o conhecimento tradicional do povo.



GLOSSÁRIO



Palavras da Língua Kariri-Xocó presentes nos contos


Este glossário ajuda o leitor a compreender melhor algumas palavras e expressões usadas pelo povo Kariri-Xocó, preservando o significado cultural dentro das histórias.


Baiwo – Viver, morar, existir em determinado lugar.


Opará – Nome ancestral do Rio São Francisco, usado por diversos povos indígenas da região.


Uohoie – Tudo, totalidade, aquilo que abrange o conjunto das coisas.


Canghi – Bom, agradável, positivo, aquilo que traz alegria ou bem-estar.


Baiwo Opará – Viver no Rio São Francisco; expressão que representa o modo de vida ligado ao rio.


Canghi Opará – A bondade ou generosidade do rio, quando ele oferece fartura de peixe e boas águas.


Nhenety – Nome indígena; associado à ideia de quem observa, escuta e transmite histórias.


Toré – Ritual sagrado praticado por vários povos indígenas do Nordeste, envolvendo canto, dança e espiritualidade.


Aldeia – Território tradicional onde vive o povo indígena.


Barranco do rio – Margem de terra do rio onde muitas atividades do cotidiano acontecem.


Canoa – Embarcação tradicional usada para pesca e travessia no rio.


Barro da cerâmica – Terra retirada das margens ou lagoas para produção de peças artesanais.


Dzuá – águas.


Opará – nome indígena do Rio São Francisco.


Uché – tempo.


Kayaku – lua ou período lunar associado aos ciclos naturais.


Tokenhé – antepassados.


Wãmyá – peixes.


Tetsiá – mulheres.


Inghéá – crianças.


Pahankó – barranco.


Ruñohú – utensílios de cerâmica.


Ubacródzuá – porto das canoas.


Boêdohe – morro ou elevação de terra.


Natiá – aldeia.


Undéá – lugares.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil.

É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória cultural indígena e autor de diversos textos sobre a vida, os costumes e a história de seu povo.

Por meio da literatura e de seu blog, dedica-se à preservação da cultura, da língua e das narrativas tradicionais associadas ao Rio São Francisco, conhecido entre os povos indígenas como Opará.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



SOBRE A OBRA


Este livro reúne contos que retratam a vida cultural, social e espiritual do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias revelam práticas antigas, como pescarias coletivas, brincadeiras de infância, observação da natureza e o respeito aos ciclos da vida.


A obra também apresenta termos da língua Kariri-Xocó, fortalecendo o processo de valorização e revitalização cultural.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom reúne dez contos que retratam a vida cultural e social do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias percorrem diferentes momentos da vida ribeirinha: a infância nas margens do rio, as pescarias tradicionais, as enchentes que transformam a paisagem, o comércio de cerâmica e peixe, os ensinamentos dos mais velhos e as mudanças trazidas pela modernidade.


Cada narrativa revela a profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, mostrando que o rio não é apenas um elemento geográfico, mas um verdadeiro eixo de identidade cultural.



ORELHA DO LIVRO (TEXTO)


Nas margens do grande Opará, o Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.

Neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos que nascem da memória de seu povo e da convivência com a natureza.

As narrativas mostram a vida ribeirinha, os ensinamentos dos mais velhos, as brincadeiras de infância, a relação sagrada com os animais, as lagoas e as águas do rio.

Cada conto é uma pequena porta aberta para o universo cultural Kariri-Xocó, onde tradição, memória e natureza caminham juntas.

Ler estas histórias é navegar pelo Opará — um rio que corre não apenas pela terra, mas também pelo coração de quem o conhece.



CONTRACAPA



Nas margens do grande Opará, nome ancestral do Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.


Neste livro, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da memória viva de seu povo e da convivência profunda com o rio que sustenta a vida no Baixo São Francisco.


As narrativas revelam cenas do cotidiano ribeirinho: crianças brincando nos barrancos molhados, pescadores enfrentando as águas do rio, mulheres lavando roupas nas margens, aves que anunciam os ciclos da natureza e antigas lagoas que guardam segredos da terra.


Entre lembranças de enchentes, pescarias, travessias de canoa, comércio tradicional de cerâmica e histórias transmitidas pelos mais velhos, o autor apresenta uma visão de mundo em que natureza, cultura e memória caminham juntas.


Misturando a língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, os contos preservam expressões e significados culturais que revelam a profunda ligação entre o povo indígena e o Opará, o rio que corre não apenas pela terra, mas também dentro das pessoas.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom é mais do que um livro de contos: é um testemunho de identidade, resistência cultural e amor pelo território.


Uma obra que convida o leitor a navegar pelas águas do São Francisco e descobrir que cada curva do rio guarda uma história.


Sobre o autor


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, Alagoas.


É contador de histórias oral e escrita e dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo, valorizando a tradição, a língua e os saberes transmitidos pelas gerações.


Blog do autor:


kxnhenety.blogspot.com



LOMBADA LATERAL DO LIVRO 



A lombada é a parte lateral do livro que aparece quando ele está na estante.


Texto sugerido para a lombada:


BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI


Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom


Nhenety Kariri-Xocó


(se houver logotipo da editora ou publicação independente ele pode ir na parte inferior)






Autor: Nhenety Kariri-Xocó