Nhenety Kariri-Xocó
FALSA FOLHA DE ROSTO
AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI
O SOM QUE FORMA A PALAVRA
BOCUWIÁ UNÉ HIETÃDÉ NUNÚ
VAMOS SABER NOSSA LÍNGUA
Nhenety Kariri-Xocó
2026
FOLHA DE ROSTO
AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI
O SOM QUE FORMA A PALAVRA
BOCUWIÁ UNÉ HIETÃDÉ NUNÚ
VAMOS SABER NOSSA LÍNGUA
Autor:
Nhenety Kariri-Xocó
Obra de continuidade do projeto de letramento da língua Kariri-Xocó.
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI — O SOM QUE FORMA A PALAVRA
Esta obra integra o projeto de registro, ensino, valorização e transmissão dos conhecimentos linguísticos e culturais Kariri-Xocó.
O presente volume dá continuidade à obra:
LETRAMENTO DO ALFABETO KARIRI — BOCUWIÁ UNÉ HIETÃDÉ NUNÚ, VAMOS SABER NOSSA LÍNGUA
Neste segundo momento, o estudo concentra-se na formação das primeiras sílabas, passando do reconhecimento dos sons para sua combinação e preparação para a formação de palavras.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Organização, autoria e curadoria: Nhenety Kariri-Xocó
Local: Porto Real do Colégio – AL
Ano: 2026
Obra destinada a fins culturais, educacionais, linguísticos e de preservação da memória.
“Somos guardiões da memória do Opará.”
FICHA CATALOGÁFICA
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
As primeiras sílabas em Kariri: o som que forma a palavra, Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú, Vamos Saber Nossa Língua / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
Livro digital.
Língua Kariri-Xocó.
Línguas indígenas.
Letramento indígena.
Alfabetização.
Sílabas.
Cultura Kariri-Xocó.
Memória indígena.
Educação indígena.
Revitalização linguística.
Opará – Rio São Francisco.
CDD: 498 – Línguas indígenas da América do Sul
CDU: 811.1 – Línguas indígenas
Nota: Esta ficha é uma proposta editorial para organização da obra digital e não substitui ficha catalográfica elaborada por bibliotecário habilitado quando exigida para publicação institucional.
ISBN — REGISTRO SIMBÓLICO
ISBN SIMBÓLICO / EDITORIAL
978-65-00000-00-0
Este número é apresentado nesta edição como elemento simbólico de organização da coleção digital do autor.
Para fins de registro oficial, catalogação comercial ou publicação por editora, deverá ser utilizado o ISBN efetivamente atribuído pela agência competente.
Coleção: Letramento Kariri
Volume: II
Ano: 2026
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um projeto editorial em fase de estruturação e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva poderá futuramente ser submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se à identificação preliminar da obra e à organização interna do Acervo.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico este livro às crianças Kariri-Xocó.
A cada criança que escuta uma palavra, repete um som, aprende uma sílaba e descobre que a língua de seu povo também vive dentro de sua própria voz.
Dedico aos nossos anciãos, guardiões das palavras antigas, das histórias, dos cantos e dos ensinamentos que atravessaram gerações.
Dedico às famílias Kariri-Xocó, que continuam transmitindo conhecimentos dentro de suas casas e da comunidade.
Dedico aos professores e educadores indígenas que transformam a sala de aula em espaço de memória, identidade e continuidade.
E dedico especialmente aos nossos antepassados, que deixaram caminhos para que hoje pudéssemos continuar caminhando.
Que cada sílaba aprendida seja uma pequena semente.
Que cada palavra cresça.
Que cada história floresça.
E que a nossa língua continue viva.
Nhenety Kariri-Xocó
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente aos meus antepassados, cuja memória continua orientando meus passos.
Agradeço aos anciãos e às anciãs Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da tradição e dos conhecimentos transmitidos pela oralidade.
Agradeço às crianças e aos jovens, que representam a continuidade da nossa cultura e que poderão levar a língua para novas gerações.
Agradeço aos professores, pesquisadores e colaboradores que contribuem para o registro e a valorização da língua Kariri-Xocó.
Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, território vivo onde a memória encontra o presente.
Agradeço também às ferramentas digitais e às novas tecnologias que possibilitam organizar, registrar, ilustrar e compartilhar conhecimentos que antes permaneciam principalmente na oralidade.
Este livro é resultado de uma caminhada.
Nenhuma caminhada de conhecimento pertence somente a uma pessoa.
A palavra recebida torna-se responsabilidade de quem a recebe.
Por isso, agradeço a todos aqueles que, de diferentes maneiras, ajudam a manter viva a memória do nosso povo.
Iewóá.
Gratidão.
EPÍGRAFE
“Primeiro o ouvido aprende.
Depois a boca pronuncia.
Depois a mão escreve.
E então a palavra permanece.”
Nhenety Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
O primeiro volume desta caminhada apresentou o Alfabeto Kariri, reunindo as vogais e as consoantes utilizadas na proposta de escrita apresentada para o processo de letramento.
Agora chegamos a uma nova etapa.
A criança já conhece os elementos básicos.
É hora de descobrir como eles podem se encontrar.
É nesse encontro que aparecem as primeiras sílabas.
Uma sílaba pode parecer pequena.
Entretanto, pedagogicamente, ela representa uma grande conquista.
A criança percebe que os sons não estão isolados.
Eles podem ser combinados.
Podem ser repetidos.
Podem ser escritos.
Podem formar palavras.
E as palavras podem guardar pensamentos, histórias e conhecimentos.
Este volume foi organizado para caminhar lentamente, respeitando o processo de aprendizagem.
Não se trata apenas de memorizar combinações.
Trata-se de desenvolver a escuta, a pronúncia, o reconhecimento visual, a escrita e, sobretudo, a relação entre língua e cultura.
O letramento Kariri-Xocó precisa estar ligado à vida.
A palavra precisa encontrar o território.
O som precisa encontrar a memória.
A escrita precisa encontrar a oralidade.
Assim, o livro torna-se uma ferramenta de continuidade cultural.
RESUMO
As Primeiras Sílabas em Kariri: O Som que Forma a Palavra — Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú, Vamos Saber Nossa Língua constitui o segundo volume da proposta de letramento da língua Kariri-Xocó desenvolvida por Nhenety Kariri-Xocó.
A obra dá continuidade ao estudo apresentado no primeiro volume, dedicado ao Alfabeto Kariri, e concentra-se na formação das primeiras sílabas a partir da combinação entre consoantes e vogais.
O livro apresenta atividades de escuta, repetição, reconhecimento, leitura e escrita, valorizando o princípio de que o aprendizado linguístico começa pelo som e pela oralidade antes de chegar ao registro escrito.
São abordadas combinações silábicas iniciais, sons específicos representados por conjuntos de letras e atividades que relacionam sílaba, palavra, significado, território e cultura.
A proposta considera o letramento como instrumento de fortalecimento da memória e da continuidade cultural Kariri-Xocó.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; língua indígena; letramento; sílaba; oralidade; educação indígena; memória; cultura.
ABSTRACT
First Syllables in Kariri: The Sound That Forms the Word — Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú, Let Us Learn Our Language is the second volume of the Kariri-Xocó language literacy project developed by Nhenety Kariri-Xocó.
The book continues the work presented in the first volume, which introduced the Kariri alphabet, and focuses on the formation of the first syllables through combinations of consonants and vowels.
The work proposes activities involving listening, repetition, recognition, reading and writing, emphasizing the importance of oral language and sound perception as foundations for written literacy.
It introduces initial syllabic combinations, specific sounds represented by groups of letters, and educational activities connecting syllables, words, meanings, territory and culture.
The proposal understands literacy as an instrument for strengthening Kariri-Xocó cultural memory, language transmission and intergenerational continuity.
Keywords: Kariri-Xocó; Indigenous language; literacy; syllables; orality; Indigenous education; memory; culture.
APRESENTAÇÃO
Este segundo volume nasce como continuação de uma caminhada.
No primeiro livro, entramos no universo do Alfabeto Kariri.
Conhecemos as vogais.
Conhecemos as consoantes.
Aprendemos que cada som possui importância.
Agora avançamos.
Vamos juntar esses sons.
Vamos descobrir as primeiras sílabas.
A criança que aprende uma sílaba está começando a perceber uma das grandes possibilidades da escrita: transformar o som em registro.
Mas a escrita não substitui a oralidade.
Ela é uma forma de registrar, preservar, ensinar e compartilhar aquilo que a comunidade conhece.
Por isso, o caminho deste livro será:
OUVIR → FALAR → REPETIR → LER → ESCREVER → COMPREENDER
O livro também procura aproximar a aprendizagem da realidade Kariri-Xocó.
A língua não está separada do território.
Ela está nas histórias.
Nos nomes.
Nas relações familiares.
Na natureza.
Nos cantos.
Nas lembranças.
Na comunidade.
Nos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
Assim, aprender uma sílaba pode ser o começo de uma longa caminhada.
NOTA DO AUTOR
Este livro foi elaborado como continuidade do trabalho de letramento da língua Kariri-Xocó.
O objetivo não é apresentar a língua como um objeto distante, mas como conhecimento vivo, relacionado à memória e à identidade do povo.
A proposta parte do princípio de que a criança precisa primeiro escutar.
A escuta vem antes da escrita.
A pronúncia vem antes da cópia mecânica.
O significado vem antes da simples decoração.
Por isso, as atividades devem ser realizadas de maneira oral, coletiva e participativa sempre que possível.
Também considero importante que as palavras utilizadas nos exemplos sejam palavras conhecidas, registradas ou validadas dentro do trabalho linguístico Kariri-Xocó.
Não devemos inventar palavras simplesmente para preencher exercícios.
A língua deve orientar o material didático.
O material didático deve servir à língua.
Este livro, portanto, é uma proposta de caminhada.
Ele poderá ser ampliado, corrigido e aperfeiçoado conforme novos registros, conhecimentos comunitários e estudos linguísticos sejam incorporados.
Nhenety Kariri-Xocó
MEMÓRIA DO AUTOR
Minha caminhada com a palavra começou muito antes de escrever livros.
Começou na escuta.
Começou nas histórias contadas pelos mais velhos.
Começou na convivência com a comunidade.
Aprendi que uma história não é apenas uma narrativa.
Ela carrega ensinamentos.
Uma palavra pode guardar um lugar.
Um nome pode guardar uma pessoa.
Uma lembrança pode guardar uma geração inteira.
Ao longo da minha trajetória como tradicionalista e contador de histórias, fui percebendo a importância de registrar aquilo que recebemos pela oralidade.
A escrita passou a ser uma ferramenta para organizar essa memória.
Com o tempo, comecei a produzir contos, fábulas, cordéis, artigos, livros e registros relacionados à cultura e à língua Kariri-Xocó.
O trabalho digital também abriu novas possibilidades.
A tecnologia permitiu transformar parte da memória oral em textos, imagens e materiais educativos.
Mas a tecnologia não substitui a comunidade.
Ela é ferramenta.
A fonte principal continua sendo a memória, a experiência, a escuta e o conhecimento transmitido entre gerações.
Este livro nasce exatamente desse encontro:
TRADIÇÃO + EDUCAÇÃO + ESCRITA + TECNOLOGIA + MEMÓRIA
Meu desejo é que as crianças possam olhar para a língua Kariri-Xocó não como algo distante, mas como parte de sua própria vida.
Que possam ouvir.
Falar.
Ler.
Escrever.
Contar.
E transmitir.
Porque uma língua continua viva quando encontra novas vozes.
INTRODUÇÃO
Depois de conhecer o Alfabeto Kariri, iniciamos uma nova etapa do letramento: a formação das primeiras sílabas.
A sílaba é o encontro entre o sopro da vogal e a força da consoante.
É nela que o som ganha corpo.
É nela que começa a nascer a palavra.
Ensinar sílabas em Kariri é ensinar ritmo, identidade e continuidade cultural.
Neste volume, retomamos as dez vogais:
A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI
E as dezoito consoantes:
B – TX – D – DJ – DS – DZ – G – K – L – M – N – NH – P – R – S – TS – T – V
A partir delas, iniciamos exercícios de combinação e reconhecimento.
O princípio pedagógico é simples:
Som → Sílaba → Palavra → Sentido
Primeiro o ouvido aprende.
Depois a boca pronuncia.
Depois os olhos reconhecem.
Finalmente, a mão escreve.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN - Simbólico
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Introdução
Sumário
1. Do Alfabeto à Sílaba
2. Revisando as Vogais
3. A Primeira Consoante: B
4. A Consoante: K
5. A Consoante: T
6. Os Sons Compostos
7. O Som: TX
8. O Som: NH
9. A Família das Sílabas
10. Todas as Consoante Entram no Caminho
11. Não Inventar Palavra para Preencher o Exercício
12. Da Sílaba à Palavra
13. A Palavra Nasce do Território
14. O Corpo Também Aprende
15. Brincadeiras de Sílabas
16. Escrever no Ar
17. A Roda de Leitura
18. A Família Ensina
19. Professor, Ancião e Criança
20. Metodologia do Livro
21. O Caminho do Letramento
22. Caderno de Exercícios
23. A Língua como Memória Viva
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
1. DO ALFABETO À SÍLABA
No primeiro livro aprendemos que cada letra representa um som dentro do sistema de escrita que estamos utilizando.
Agora precisamos descobrir o que acontece quando esses sons se encontram.
Podemos começar observando:
B + A = BA
B + E = BE
B + I = BI
A criança escuta.
Depois repete.
Depois observa a escrita.
Depois escreve.
Por isso, nosso caminho pedagógico começa assim:
OUVIR → FALAR → REPETIR → RECONHECER → ESCREVER
Primeiro o ouvido aprende.
Depois a boca produz.
Depois os olhos reconhecem.
Por fim, a mão registra.
2. REVISANDO AS VOGAIS
Antes de iniciar as combinações, vamos recordar as dez vogais apresentadas no primeiro livro:
A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI
Esses sons precisam ser trabalhados com atenção.
Não devemos ensinar somente pela aparência da letra.
É necessário ouvir.
É necessário pronunciar.
É necessário comparar.
É necessário repetir.
A criança deve perceber que uma mudança na vogal pode modificar o som produzido pela sílaba.
Exercício de escuta
O professor ou a pessoa mais experiente pronuncia uma vogal.
As crianças escutam.
Depois todas repetem.
Em seguida, cada criança pode repetir individualmente.
Caminho:
Ouvir → Repetir → Reconhecer → Escrever
3. A PRIMEIRA CONSOANTE: B
Começamos com uma consoante simples:
B
Agora aproximamos o B das vogais.
Combinações iniciais
BA – BE – BI – BO – BU
Depois podemos observar as vogais compostas:
BEI – BIU – BOE – BOI – BUI
O objetivo inicial não é decorar uma lista.
O objetivo é perceber que o B pode encontrar diferentes sons vocálicos.
Exercício
O professor aponta para uma sílaba.
A criança pronuncia.
Depois a criança procura a mesma sílaba entre outras.
Finalmente, escreve.
4. A CONSOANTE K
Agora conhecemos outra consoante:
K
Formamos:
KA – KE – KI – KO – KU
E observamos também as combinações com vogais compostas:
KEI – KIU – KOE – KOI – KUI
O K deve ser trabalhado a partir do som estabelecido no sistema de escrita adotado para o Kariri-Xocó.
A criança deve compreender que a aprendizagem parte do som da língua, e não simplesmente da comparação automática com a ortografia portuguesa.
5. A CONSOANTE T
Chegamos ao:
T
Formamos:
TA – TE – TI – TO – TU
Depois experimentamos outras combinações vocálicas:
TEI – TIU – TOE – TOI – TUI
A repetição ajuda a criança a perceber que uma mesma consoante pode participar de diferentes sílabas.
Exercício oral
O professor pronuncia uma sequência.
A turma acompanha.
Depois a sequência é repetida mais lentamente.
Em seguida, as crianças podem marcar cada sílaba com uma batida leve da mão.
Assim, o corpo também participa da aprendizagem.
6. OS SONS COMPOSTOS
Depois das consoantes mais simples, introduzimos sons representados por mais de uma letra.
Esse é um momento importante do letramento.
A criança precisa entender que:
duas letras podem representar uma unidade sonora específica.
Começamos com:
TS
TSA – TSE – TSI – TSO – TSU
E, progressivamente:
TSEI – TSIU – TSOE – TSOI – TSUI
Aqui começa uma nova percepção.
A criança não deve ler cada letra isoladamente.
Ela precisa aprender a reconhecer o conjunto como uma unidade sonora dentro do sistema de escrita.
7. O SOM TX
Outro elemento importante é:
TX
Neste material, o som pode ser apresentado por meio de uma referência conhecida pelas crianças, como o início sonoro de “tchau”, sempre lembrando que a comparação serve apenas como apoio pedagógico e não substitui a pronúncia própria do Kariri-Xocó.
Formamos:
TXA – TXE – TXI – TXO – TXU
E depois:
TXEI – TXIU – TXOE – TXOI – TXUI
A criança aprende que determinados sons da nossa língua necessitam de uma representação gráfica própria.
8. O SOM NH
Agora encontramos:
NH
Podemos utilizar como apoio pedagógico a comparação com o som nasal conhecido em palavras do português, sem perder de vista a pronúncia própria da língua Kariri-Xocó.
Formamos:
NHA – NHE – NHI – NHO – NHU
E avançamos:
NHEI – NHIU – NHOE – NHOI – NHUI
Neste momento, o professor deve valorizar especialmente a escuta.
O importante não é apenas saber escrever NH.
É saber reconhecer o som.
9. A FAMÍLIA DAS SÍLABAS
Depois das primeiras experiências, podemos construir famílias silábicas.
Por exemplo:
Família do B
BA – BE – BI – BO – BU
Família do K
KA – KE – KI – KO – KU
Família do T
TA – TE – TI – TO – TU
Família do TS
TSA – TSE – TSI – TSO – TSU
Família do TX
TXA – TXE – TXI – TXO – TXU
Família do NH
NHA – NHE – NHI – NHO – NHU
O professor pode apresentar cada família separadamente.
Depois pode misturá-las para que a criança reconheça as sílabas sem depender apenas da ordem decorada.
10. TODAS AS CONSOANTES ENTRAM NO CAMINHO
O sistema apresentado no primeiro livro possui dezoito consoantes:
B – TX – D – DJ – DS – DZ – G – K – L – M – N – NH – P – R – S – TS – T – V
Agora essas consoantes começam a entrar na formação das sílabas.
A progressão poderá seguir esta sequência:
B → D → G → K → L → M → N → P → R → S → T → V
Depois trabalharemos cuidadosamente os sons compostos:
TX → DJ → DS → DZ → NH → TS
A organização pode ser feita em pequenas lições.
Cada lição apresenta:
a consoante;
a escuta;
as primeiras sílabas;
as combinações com as vogais;
a repetição oral;
a leitura;
a escrita;
um exercício;
uma palavra cultural, quando houver uma forma previamente registrada e validada.
11. NÃO INVENTAR PALAVRAS PARA PREENCHER O EXERCÍCIO
Este princípio é muito importante.
O exercício pode ensinar uma sílaba sem necessariamente inventar uma palavra.
Quando utilizarmos uma palavra Kariri-Xocó, seu significado deverá ser conhecido, registrado ou validado dentro do trabalho linguístico do povo.
Assim, o livro não deve criar palavras apenas porque precisamos de um exemplo.
A língua vem primeiro.
O exercício vem depois.
Quando uma palavra tradicional existir, ela será apresentada com seu significado cultural.
Quando ainda não houver uma palavra apropriada para determinado exercício, podemos trabalhar apenas com a sílaba.
Por exemplo:
BA
BE
BI
BO
BU
Não é necessário inventar uma palavra para cada combinação.
12. DA SÍLABA À PALAVRA
Depois que a criança reconhece as sílabas, podemos começar a juntá-las.
Uma palavra pode ser apresentada de forma segmentada:
BA + RÁ
Depois:
BARÁ
O objetivo é mostrar que a palavra pode ser percebida em partes e, ao mesmo tempo, reconhecida como uma unidade de sentido.
Aqui começamos uma nova etapa:
SÍLABA → PALAVRA
E depois:
PALAVRA → SENTIDO
A criança não aprende somente a ler.
Ela aprende que aquilo que lê possui significado.
13. A PALAVRA NASCE DO TERRITÓRIO
O letramento Kariri-Xocó precisa dialogar com o território.
Podemos trabalhar palavras relacionadas:
à aldeia ( natiá );
ao rio ( Opará );
à natureza ( antse );
às plantas ( ubuá );
aos animais ( keriá );
à pesca ( mydzé );
à agricultura ( natéra );
ao dança ou canto ( toré );
ao Ouricuri ( retsé );
às famílias ( bohé );
aos anciãos ( tokenhé );
às crianças ( inghé );
às histórias ( woroyá );
aos lugares de memória ( undé samy ).
Assim, a sala de aula não fica separada da vida.
A palavra aprendida no papel pode ser encontrada novamente na comunidade.
A criança pode ouvir.
Pode observar.
Pode perguntar aos mais velhos.
Pode registrar.
Pode desenhar.
Pode contar uma história.
Esse é o caminho do letramento vivo.
14. O CORPO TAMBÉM APRENDE
A aprendizagem das sílabas pode utilizar o corpo.
Para cada sílaba, a criança pode:
ouvir;
repetir;
bater uma palma;
marcar o ritmo com os pés;
escrever no ar;
traçar a sílaba com o dedo;
escrever no quadro;
escrever no caderno.
Assim, a aprendizagem deixa de ser somente visual.
Ela passa a envolver:
OUVIDO + BOCA + OLHOS + MÃO + CORPO + MEMÓRIA
15. BRINCADEIRAS DE SÍLABAS
Jogo 1 — Escute e levante
O professor pronuncia uma sílaba.
As crianças levantam o cartão correspondente.
Jogo 2 — Encontre a sílaba
Vários cartões são colocados sobre a mesa.
O professor pronuncia uma sílaba.
A criança procura.
Jogo 3 — Complete
O professor apresenta:
B + A = ____
A criança completa:
BA
Jogo 4 — Misture
Apresentamos:
BA + RÁ
A criança junta:
BARÁ
Jogo 5 — Desenhe a palavra
Depois de aprender uma palavra cultural, a criança faz um desenho relacionado ao seu significado.
Assim:
PALAVRA + IMAGEM + MEMÓRIA
16. ESCREVER NO AR
Antes de escrever no caderno, podemos escrever no ar.
O professor apresenta uma sílaba.
As crianças acompanham o movimento com o dedo.
Primeiro lentamente.
Depois novamente.
Em seguida, cada criança escreve a mesma forma no caderno.
Esse exercício ajuda a aproximar:
movimento → forma → memória
17. A RODA DE LEITURA
Podemos organizar uma roda.
Cada criança recebe uma sílaba.
Uma criança começa.
Lê sua sílaba.
A próxima continua.
Depois o grupo inteiro repete.
A atividade pode terminar com uma palavra conhecida pela comunidade.
Dessa maneira, o aprendizado torna-se coletivo.
O conhecimento não fica preso em uma única pessoa.
Ele circula.
18. A FAMÍLIA ENSINA
O letramento também pode sair da escola.
A criança pode levar para casa uma sílaba ou uma palavra estudada.
Pode perguntar:
“Você conhece esta palavra?”
“Como nossos mais velhos falavam?”
“Qual é o significado?”
“Em que história aparece?”
Assim, o livro torna-se uma ponte entre:
ESCOLA → FAMÍLIA → ANCIÃOS → COMUNIDADE
Esse movimento é fundamental para uma língua viva.
19. PROFESSOR, ANCIÃO E CRIANÇA
O ensino da língua não precisa acontecer somente diante de um quadro.
O ancião possui memória.
O professor possui metodologia.
A criança possui curiosidade.
Quando esses conhecimentos se encontram, a aprendizagem se fortalece.
Por isso:
O ANCIÃO GUARDA A MEMÓRIA.
O PROFESSOR ORGANIZA O ENSINO.
A CRIANÇA RECEBE, EXPERIMENTA E CONTINUA.
E assim a língua atravessa as gerações.
20. METODOLOGIA DO LIVRO
Propomos uma sequência simples:
1. ESCUTAR
Ouvir o som apresentado.
2. REPETIR
Reproduzir o som coletivamente.
3. RECONHECER
Identificar a forma escrita.
4. COMBINAR
Unir consoante e vogal.
5. LER
Reconhecer a sílaba.
6. ESCREVER
Registrar a forma.
7. FORMAR
Juntar sílabas quando houver palavra validada.
8. COMPREENDER
Conhecer seu significado.
9. CONTEXTUALIZAR
Relacionar a palavra à cultura e ao território.
10. TRANSMITIR
Ensinar novamente a outra pessoa.
21. O CAMINHO DO LETRAMENTO
Podemos representar nossa caminhada assim:
SOM
↓
LETRA
↓
SÍLABA
↓
PALAVRA
↓
FRASE
↓
HISTÓRIA
↓
MEMÓRIA
↓
CULTURA
A aprendizagem começa pequena.
Uma letra.
Um som.
Uma sílaba.
Mas pode crescer até formar histórias inteiras.
22. CADERNO DE EXERCÍCIOS
Exercício 1 — Leia
BA – BE – BI – BO – BU
KA – KE – KI – KO – KU
TA – TE – TI – TO – TU
Exercício 2 — Circule
Circule a sílaba que o professor pronunciar.
BA BE BI BO BU
Exercício 3 — Complete
B + A = ______
K + A = ______
T + A = ______
Exercício 4 — Copie
Escreva três vezes:
BA
KA
TA
Exercício 5 — Escute
O professor pronuncia.
A criança marca a sílaba que ouviu.
Exercício 6 — Escreva no ar
Escolha uma sílaba.
Trace-a no ar com o dedo.
Depois escreva no caderno.
Exercício 7 — Junte
BA + RÁ = __________
Exercício 8 — Desenhe
Escolha uma palavra cultural conhecida e faça um desenho que represente seu significado.
23. A LÍNGUA COMO MEMÓRIA VIVA
Uma língua não é apenas um conjunto de letras.
Ela guarda maneiras de observar o mundo.
Guarda nomes.
Guarda lugares.
Guarda histórias.
Guarda relações entre pessoas, natureza e território.
Por isso, quando uma criança aprende uma sílaba em Kariri, ela está dando um pequeno passo dentro de uma caminhada muito maior.
Cada som aprendido pode se tornar uma palavra.
Cada palavra pode guardar uma lembrança.
Cada lembrança pode contar uma história.
E cada história pode atravessar gerações.
CONCLUSÃO
Chegamos ao final desta primeira caminhada pelas sílabas.
No livro anterior, conhecemos o alfabeto.
Agora aprendemos a juntar seus sons.
Aprendemos que uma consoante pode encontrar uma vogal.
Aprendemos que diferentes encontros produzem diferentes sílabas.
Aprendemos que a leitura começa pelo ouvido.
Aprendemos que a escrita registra aquilo que a memória, a fala e a comunidade preservam.
Quando uma criança aprende uma sílaba, ela não está apenas aprendendo uma combinação de letras.
Ela está descobrindo que o som pode ser unido.
Que a união pode formar uma palavra.
Que a palavra pode guardar um significado.
Que o significado pode carregar uma história.
E que a história pode manter viva a língua.
Por isso continuamos nossa caminhada:
SOM → SÍLABA → PALAVRA → SENTIDO → CULTURA → MEMÓRIA
BOCUWIÁ UNÉ HIETÃDÉ NUNÚ.
VAMOS SABER NOSSA LÍNGUA.
A caminhada continua.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A caminhada iniciada neste volume pode parecer simples:
uma consoante encontra uma vogal.
Uma sílaba é formada.
Uma criança lê.
Entretanto, por trás desse pequeno gesto existe um grande processo cultural.
A criança está aprendendo a reconhecer os sons de sua língua.
Está aprendendo a registrar aquilo que escuta.
Está descobrindo que a escrita pode servir à memória.
Está construindo uma ponte entre a tradição oral e as novas formas de conhecimento.
O caminho continua:
SOM
SÍLABA
PALAVRA
FRASE
HISTÓRIA
MEMÓRIA
CULTURA
O livro termina, mas a aprendizagem não termina.
Ela continua na escola.
Continua na aldeia.
Continua nas famílias.
Continua nas histórias dos mais velhos.
Continua nas crianças.
Continua no território.
A língua pertence à vida.
E a vida continua ensinando.
Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.
Vamos saber nossa língua.
GLOSSÁRIO
ALFABETO
Conjunto organizado de sinais utilizados para representar os sons de uma língua na escrita.
CONSOANTE
Som que, dentro do sistema de escrita apresentado nesta obra, participa da formação das sílabas juntamente com as vogais.
CULTURA
Conjunto de conhecimentos, práticas, valores, histórias, costumes, expressões e modos de viver transmitidos entre gerações.
ESCRITA
Sistema utilizado para registrar graficamente a língua.
FALA
Manifestação oral da língua por meio dos sons produzidos pelos falantes.
LETRAMENTO
Processo de aprendizagem e utilização da leitura e da escrita em situações significativas.
LÍNGUA
Sistema de comunicação e expressão utilizado por uma comunidade, carregando conhecimentos, histórias e formas de compreender o mundo.
MEMÓRIA
Conjunto de lembranças, conhecimentos e experiências preservados e transmitidos entre gerações.
NUNÚ
Termo utilizado nesta obra para designar a língua no contexto da proposta de letramento apresentada.
OITIVA / ESCUTA
Ato de ouvir atentamente os sons da língua para reconhecê-los e reproduzi-los.
OPRÁ / OPARÁ
Nome utilizado para o Rio São Francisco no contexto cultural apresentado pelo autor.
ORALIDADE
Transmissão de conhecimentos por meio da fala, da escuta, das histórias, dos cantos e de outras formas de expressão oral.
PALAVRA
Unidade linguística que possui significado e pode ser formada por uma ou mais sílabas.
SÍLABA
Unidade sonora utilizada na formação das palavras.
SOM
Manifestação acústica produzida pela fala e percebida pelo ouvido.
TERRITÓRIO
Espaço vivido por uma comunidade, carregado de relações sociais, culturais, históricas e simbólicas.
VOGAL
Som vocálico utilizado na formação das sílabas dentro do sistema apresentado nesta obra.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BATISTA CAETANO (ed.). Arte de Grammatica da Língua Brasílica da Naçam Kiriri. Paris: Imprensa Nacional, 1877.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. As Primeiras Silábicas em Kariri: Som que Forma a Palavra. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/02/as-primeiras-silabas-em-kariri-o-som.html?m=0 . Acesso em: 2 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Letramento do Alfabeto Kariri, Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú, Vamos Saber Nossa Língua. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/10/letramento-do-alfabeto-kariri-bocuwia.html?m=0 . Acesso em: 02 de out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nnhenety. O devir de tradicionalista: “o guardião da língua e da tradição KX” In: Fórum de debate: Bilinguismo indígena no Brasil. Universidade do Estado da Bahia. Evento online, 17 mai. 2022. Vídeo (1h28). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=RRXWZr27Ax4&t=58s . Acesso em: 28 set. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nnhenety. A retomada da língua Kariri-Xocó In: Cadernos de Linguística, v. 1, n. 3, p. 01. Rio de Janeiro: UFRJ, 2020. p. 1-13. Disponível em:
https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/254/243 . Acesso em: 26 set. 2026.
QUEIROZ, José Márcio de. Aspectos da Fonologia Dzubukuá. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). CAC. Linguística, 2008. 122 p.
QUEIROZ, José Márcio de. Um Estudo Gramatical da Língua Dzubukuá, Família Kariri.Tese de Doutorado em Linguística – Universidade Federal da Paraíba (UFPB/PROLING). Letras CCHLA 2012. 427 p.
SOBRE O AUTOR
NHENETY KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor, tradicionalista e pesquisador da memória, da cultura e dos conhecimentos do povo Kariri-Xocó.
Sua produção reúne histórias, contos, fábulas, cordéis, artigos, registros culturais e trabalhos relacionados à língua e à tradição de seu povo.
Ao longo de sua trajetória, dedica-se ao registro e à transmissão de conhecimentos recebidos por meio da oralidade e da convivência comunitária.
Seu trabalho procura estabelecer pontes entre a tradição oral e as novas formas de registro, utilizando também recursos digitais e tecnológicos para ampliar a preservação e a circulação do conhecimento.
Na área linguística, desenvolve materiais voltados ao registro, ensino e valorização da língua Kariri-Xocó, buscando aproximar a aprendizagem da realidade cultural, territorial e comunitária.
Para Nhenety, escrever é também guardar memória.
Contar é transmitir.
Ensinar é continuar.
E preservar uma língua é ajudar a garantir que as novas gerações possam reconhecer nela parte de sua própria história.
Nhenety significa tradição ou ser lembrado.
AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó
Contador de História Oral e Escrita
Professor e pesquisador da língua e da cultura Kariri-Xocó
“Somos guardiões da memória do Opará.”
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026





