1. FALSA FOLHA DE ROSTO
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA
VERSÃO AMPLIADA
Nhenety Kariri-Xocó
Uma narrativa de memória, tradição oral, saberes ancestrais, vida comunitária e respeito à Mãe-Terra.
2. FOLHA DE ROSTO
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA
VERSÃO AMPLIADA
Nhenety Kariri-Xocó
Obra de literatura de tradição oral e memória cultural Kariri-Xocó, dedicada à preservação dos ensinamentos dos antigos e à valorização dos saberes coletivos transmitidos entre gerações.
Porto Real do Colégio – Alagoas
Brasil
3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO
© Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
Esta obra integra o conjunto de produções literárias e culturais de Nhenety Kariri-Xocó, voltadas à memória, à história, à cultura, aos saberes tradicionais e à valorização da identidade indígena.
A narrativa de SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA apresenta uma construção literária inspirada na tradição oral, nos conhecimentos ancestrais e na relação comunitária com as águas, a mata, os animais, as árvores, os alimentos e a Mãe-Terra.
A reprodução desta obra, total ou parcial, para fins comerciais, deverá respeitar os direitos autorais do autor. A utilização para fins educativos e culturais deverá preservar a autoria e a integridade do conteúdo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Título: SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA
Local: Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil
Ano: 2026
4. FICHA CATALOGRÁFICA
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
SitohoYé, a caçada coletiva: versão ampliada / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
Obra de literatura de tradição oral, memória cultural e saberes ancestrais.
Literatura indígena.
Tradição oral.
Memória ancestral.
Cultura Kariri-Xocó.
Caçada coletiva.
Saberes tradicionais.
Vida comunitária.
Relação com a natureza.
Educação intergeracional.
Mãe-Terra.
CDD – Classificação Decimal de Dewey:
398.2 – Literatura folclórica e tradição oral
CDU – Classificação Decimal Universal:
398 – Folclore e tradição popular
Nota: Ficha catalográfica apresentada em caráter editorial simbólico para esta edição.
5. ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN SIMBÓLICO: 978-65-00000-00-0
Numeração apresentada exclusivamente para fins de organização editorial e identificação simbólica desta edição. Não substitui um ISBN oficial atribuído pela agência competente.
6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
8. DEDICATÓRIA
Dedico esta história às crianças que se aproximam da fogueira para escutar a voz dos antigos.
Aos jovens que procuram compreender os caminhos deixados pelos antepassados.
Aos anciãos e guardiões da memória que mantêm vivas as palavras recebidas de outras gerações.
Dedico também ao povo Kariri-Xocó, às famílias, aos pescadores, caçadores, agricultores, artesãos, contadores de histórias e a todos aqueles que carregam conhecimentos que não foram escritos em livros, mas permanecem vivos na memória e na prática cotidiana.
Dedico, enfim, à Mãe-Terra, às águas do Opará, às matas, aos animais, às árvores e a todos os seres que participam da grande teia da vida.
Que SITOHOYÉ continue ensinando que um povo é mais forte quando seus conhecimentos caminham juntos.
9. AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente aos antepassados, cuja memória permanece presente nas palavras, nos costumes, nos ensinamentos e nos caminhos percorridos pelo povo.
Agradeço aos anciãos, mestres da oralidade e guardiões dos conhecimentos transmitidos de geração em geração.
Agradeço às crianças e aos jovens, que representam a continuidade da memória e recebem a responsabilidade de levar adiante aquilo que aprenderam.
Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, espaço vivo de cultura, resistência, espiritualidade, convivência e transmissão de saberes.
Agradeço às águas do Opará, às matas e à Mãe-Terra, que inspiram tantas histórias e ensinam silenciosamente aqueles que sabem observar.
Agradeço também a todos que valorizam a literatura indígena e compreendem que contar uma história pode ser uma forma de preservar uma memória.
10. EPÍGRAFE
“Ninguém é tão forte sozinho quanto um povo unido.”
Nhenety Kariri-Xocó
11. PREFÁCIO DO VOLUME
Há histórias que nascem para divertir, outras para ensinar, e algumas que cumprem as duas funções ao mesmo tempo.
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA, em sua versão ampliada, pertence a esse último caminho. A narrativa apresenta uma jornada em que a busca pelo alimento transforma-se em uma grande escola de conhecimentos. Cada participante possui uma habilidade, uma percepção e uma maneira própria de compreender a natureza.
Pirapotã conhece as águas. Itawaçú conhece as árvores e os frutos. Muiratã conhece o voo das aves. Candará sabe interpretar as pegadas. Natirã reconhece o caminho do mel.
Nenhum desses saberes é apresentado como superior ao outro. Ao contrário, eles se completam.
A história mostra que a comunidade não depende de um único conhecimento. Sua força nasce da diversidade dos saberes e da capacidade de colocá-los a serviço de todos.
Por isso, SITOHOYÉ ultrapassa a ideia de uma simples caçada. É uma metáfora da própria vida comunitária.
A caminhada dos caçadores torna-se uma caminhada de aprendizagem. A floresta transforma-se em livro. As águas tornam-se ensinamento. As pegadas tornam-se escrita. O mel transforma-se em símbolo de partilha. E a fogueira torna-se o lugar onde a memória encontra o futuro.
Esta versão ampliada pretende preservar justamente esse ensinamento: o conhecimento somente permanece verdadeiramente vivo quando é compartilhado.
12. RESUMO
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA apresenta uma narrativa de tradição oral inspirada nos ensinamentos ancestrais sobre a vida comunitária, a busca coletiva por alimento e o respeito à natureza.
A história acompanha um grupo de caçadores que parte da aldeia durante um período de escassez. Orientados pelos anciãos, eles realizam uma jornada na qual cada integrante demonstra um conhecimento específico.
Pirapotã revela os segredos das águas; Itawaçú encontra os frutos nas árvores; Muiratã conhece o voo das aves; Candará interpreta as pegadas deixadas pelos animais; e Natirã descobre o mel escondido na mata.
Ao retornarem à aldeia, os alimentos são repartidos entre todos. A experiência demonstra que a fartura não depende de uma única pessoa, mas da união de diferentes habilidades.
A narrativa valoriza a tradição oral, a transmissão intergeracional dos saberes, a cooperação, a partilha, o respeito à Mãe-Terra e a preservação da memória cultural.
Palavras-chave: SITOHOYÉ; Kariri-Xocó; tradição oral; memória ancestral; caçada coletiva; saberes tradicionais; natureza; comunidade; partilha; Mãe-Terra.
13. ABSTRACT
SITOHOYÉ, THE COLLECTIVE HUNT – EXPANDED VERSION presents an oral tradition narrative inspired by ancestral teachings about community life, collective food gathering, cooperation and respect for nature.
The story follows a group of hunters who leave their village during a period of scarcity. Guided by the elders, they undertake a journey in which each participant demonstrates a specific form of knowledge.
Pirapotã understands the secrets of the waters; Itawaçú finds fruits in the trees; Muiratã knows the flight of birds; Candará interprets animal tracks; and Natirã discovers honey hidden in the forest.
When they return to the village, the food is shared among everyone. The experience demonstrates that abundance does not depend on a single person, but on the union of different skills.
The narrative values oral tradition, intergenerational transmission of knowledge, cooperation, sharing, respect for Mother Earth and the preservation of cultural memory.
Keywords: SITOHOYÉ; Kariri-Xocó; oral tradition; ancestral memory; collective hunt; traditional knowledge; nature; community; sharing; Mother Earth.
14. APRESENTAÇÃO
Esta versão ampliada de SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA nasceu do desejo de ampliar uma narrativa originalmente dedicada à memória de uma prática coletiva e transformá-la em uma obra que pudesse carregar, com maior profundidade, seus ensinamentos.
A caçada apresentada na história não deve ser compreendida apenas como uma atividade destinada à obtenção de alimento. Dentro da narrativa, ela representa uma experiência coletiva de conhecimento.
Cada integrante conhece uma parte da natureza.
Um conhece a água.
Outro conhece as árvores.
Outro conhece as aves.
Outro conhece as pegadas.
Outro reconhece o mel.
Quando esses conhecimentos se encontram, a comunidade se fortalece.
Assim, a história também fala sobre educação. Os antigos não precisavam reunir as crianças em uma sala para ensinar. A floresta era uma escola. O rio era uma escola. A caminhada era uma escola. A observação dos animais era uma escola. A própria convivência era uma escola.
SITOHOYÉ é, portanto, uma história sobre aprender juntos.
15. NOTA DO AUTOR
Escrever sobre saberes ancestrais exige responsabilidade.
Esta obra não pretende apresentar a natureza como simples depósito de recursos para serem retirados. Ao contrário, procura mostrar uma relação de respeito, equilíbrio e reciprocidade.
Na narrativa, os caçadores recebem orientações para não destruir, não desperdiçar e não matar por brincadeira. Retiram somente o necessário e retornam à comunidade para repartir aquilo que encontraram.
Essa dimensão é essencial para compreender o sentido simbólico de SITOHOYÉ.
A caçada coletiva representa a união dos conhecimentos e a responsabilidade coletiva diante da vida.
A história também foi construída em linguagem narrativa, procurando preservar a atmosfera da oralidade: a fogueira, os anciãos, as crianças, os ensinamentos e a transmissão da palavra.
Que esta obra seja recebida como uma contribuição à preservação da memória e como uma ponte entre os conhecimentos dos antigos e as novas gerações.
Nhenety Kariri-Xocó
16. MEMÓRIA DO AUTOR
A memória de um povo não vive somente nos documentos.
Ela também vive na palavra dos mais velhos, nos nomes, nos caminhos, nos lugares, nas histórias contadas ao redor da fogueira, nos conhecimentos sobre as águas, nas formas de reconhecer os animais, nas plantas, nos alimentos e nos modos de viver em comunidade.
Como contador de histórias e guardião de memórias, Nhenety Kariri-Xocó procura transformar essas experiências em narrativas que possam alcançar outras gerações.
A literatura torna-se, assim, uma ferramenta de preservação.
A história escrita não substitui a oralidade. Ela ajuda a registrar uma parte daquilo que a oralidade carrega, criando uma nova possibilidade de circulação da memória.
Em SITOHOYÉ, essa preocupação aparece na própria estrutura da narrativa: um ancião conta, uma criança escuta, a experiência é lembrada e o ensinamento continua.
A memória somente permanece viva quando encontra quem a escute.
17. APRESENTAÇÃO DA OBRA
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA está organizada como uma narrativa de tradição oral dividida em quatorze etapas.
A primeira parte apresenta a voz dos antigos e prepara a comunidade para escutar a história.
Em seguida, surge o período de escassez, a reunião dos anciãos e o chamado para a caçada coletiva.
A jornada passa então pelos conhecimentos de Pirapotã, Itawaçú, Muiratã, Candará e Natirã.
O retorno à aldeia conduz à grande partilha, quando todos compreendem que a fartura foi resultado da união.
Os capítulos finais transformam a experiência em ensinamento, destacando a transmissão do conhecimento entre gerações.
A obra encerra-se reafirmando que SITOHOYÉ continua vivo enquanto houver quem conte, quem escute e quem pratique o princípio da união.
18. INTRODUÇÃO
Toda comunidade possui conhecimentos que não pertencem exclusivamente a uma pessoa.
Eles são construídos ao longo do tempo e transmitidos de geração em geração.
O conhecimento de observar uma água, reconhecer um rastro, identificar uma árvore, compreender o comportamento de uma ave ou encontrar o caminho do mel pode parecer simples para quem observa de fora. Entretanto, para quem aprendeu com os antigos, cada um desses conhecimentos representa anos de experiência, observação e convivência com a natureza.
É nesse universo que se encontra SITOHOYÉ.
A narrativa parte de uma situação de necessidade: a aldeia enfrenta a escassez. Diante da dificuldade, os antigos não escolhem o caminho da separação. Eles escolhem a união.
A decisão de realizar uma caçada coletiva representa uma resposta comunitária à dificuldade.
A partir desse momento, a floresta transforma-se em território de aprendizagem.
Cada personagem apresenta uma competência. Cada competência contribui para o objetivo comum.
A história demonstra, portanto, que o conhecimento não precisa ser igual para todos. Ele precisa ser compartilhado.
A grande lição de SITOHOYÉ está justamente aí:
diferentes saberes podem formar uma única força quando colocados a serviço da comunidade.
19. SUMÁRIO
1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN – Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Obra
18. Introdução
19. Sumário
20. Corpo da Obra
Parte I – A Voz dos Ancestrais
1. A Voz dos Antigos
2. Quando a Fome Chegou à Aldeia
3. A Fogueira dos Anciãos
4. O Chamado do SitohoYé
Parte II – A Caminhada do Conhecimento
5. O Amanhecer da Partida
6. Pirapotã e o Segredo das Águas
7. Itawaçú e as Árvores Carregadas
8. Muiratã e o Voo das Aves
9. Cadará e a Escrita das Pegadas
10. Natirã e o Ouro das Abelhas
Parte III – A Força do Coletivo
11. O Caminho de Volta
12. A Grande Partilha
13. O Ensinamento que Ficou
14. O Saber que Caminha de Geração em 21. Geração
22. Considerações Finais
23. Glossário
24. Referências Bibliográficas
25. Sobre o Autor
20. CORPO DA OBRA
1. A VOZ DOS ANTIGOS
Cheguem mais perto da fogueira, crianças, jovens e guardiões da memória, porque hoje vamos escutar uma história que nasceu nos tempos antigos, quando o povo aprendia com o rio, com a mata, com os animais, com as árvores e com os ensinamentos dos antepassados. Esta é a história de SITOHOYÉ, a Caçada Coletiva, um costume em que ninguém caminhava sozinho, porque cada pessoa possuía um saber e cada saber tinha seu lugar dentro da comunidade. Escutem com atenção, pois quando os antigos contam uma história, não estão apenas lembrando o passado: estão deixando uma palavra para o futuro.
2. QUANDO A FOME CHEGOU À ALDEIA
Escutem, crianças e jovens, porque esta é uma história que os antigos contavam quando a noite chegava e a fogueira iluminava os rostos do nosso povo. Houve um tempo em que a aldeia atravessou uma grande escassez. As panelas tinham pouca comida, os peixes não apareciam como antes e a caça parecia ter desaparecido pelos caminhos da mata. O povo olhava para o céu, para o rio e para a floresta, pedindo que a vida voltasse a ser generosa. Mas os antigos sabiam que, quando a dificuldade chega, o povo não deve se separar. É justamente nesse momento que deve se juntar.
3. A FOGUEIRA DOS ANCIÃOS
Naquela noite, os anciãos se aproximaram da fogueira sagrada. O fogo crepitava e suas chamas subiam como se conversassem com os espíritos dos antepassados. O pajé permaneceu em silêncio por algum tempo, escutando o vento que passava entre as árvores. Depois levantou sua voz e chamou o cacique e a comunidade.
— Meus filhos, quando a aldeia sente fome, nenhum braço pode ficar parado e nenhum conhecimento deve ser esquecido.
Todos ficaram atentos.
O pajé então falou sobre os ensinamentos recebidos dos antigos e lembrou que havia um costume que poderia reunir os conhecimentos de todos.
4. O CHAMADO DO SITOHOYÉ
— Amanhã faremos SITOHOYÉ, a caçada coletiva — anunciou o pajé.
Os mais velhos explicaram que SITOHOYÉ não era apenas uma busca por alimento. Era uma caminhada de conhecimento. Cada pessoa tinha uma habilidade diferente, e o alimento seria encontrado quando todos colocassem seus dons a serviço da comunidade.
O cacique então escolheu os homens e jovens mais preparados para aquela missão. Antes de partir, receberam as orientações dos anciãos: caminhar com respeito, não destruir a mata, não matar por brincadeira e retirar da natureza somente aquilo que fosse necessário.
Assim ensinavam os antigos: a floresta não é somente lugar de caça; é também lugar de ensinamento.
5. O AMANHECER DA PARTIDA
Quando o primeiro clarão apareceu no céu, os caçadores já estavam preparados. A aldeia ainda dormia quando eles começaram a caminhada. Levavam seus arcos, suas flechas e seus instrumentos de trabalho. Mas, acima de tudo, levavam os ensinamentos dos antepassados.
Antes de entrar na mata, pararam por um instante.
O cacique olhou para os companheiros e disse:
— Hoje ninguém caminhará sozinho. O conhecimento de um será o caminho do outro.
E entraram na floresta.
A mata estava silenciosa. Os pássaros observavam do alto das árvores, os pequenos animais escondiam-se entre as folhas e o vento carregava os cheiros da terra. Para quem não conhecia aqueles caminhos, tudo parecia silêncio. Para os caçadores, porém, a floresta estava falando.
6. PIRAPOTÃ E O SEGREDO DAS ÁGUAS
Primeiro chegaram ao rio. As águas do Opará corriam tranquilas, refletindo a luz do amanhecer. Os homens olharam para a superfície, mas nenhum peixe apareceu.
Então Pirapotã aproximou-se da margem.
Ele observou a correnteza, o movimento das águas e as pedras escondidas.
— Não procurem somente onde os olhos alcançam — disse. — Há peixes que vivem onde a água é profunda.
Pirapotã mergulhou.
Desapareceu por alguns instantes nas águas da Mãe-Terra e depois voltou trazendo surubins, niquins e curimatãs.
Os companheiros sorriram.
Naquele momento compreenderam uma lição: quem conhece a natureza enxerga aquilo que os olhos dos outros não conseguem ver.
7. ITAWAÇÚ E AS ÁRVORES CARREGADAS
A caminhada continuou. Mais adiante, encontraram árvores cheias de frutos. Goiabas maduras apareciam entre as folhas, pitangas vermelhas brilhavam ao sol e cachos de aricuri balançavam com o vento.
Mas os frutos estavam altos.
Itawaçú olhou para cima e sorriu.
— Deixem que eu converse com as árvores.
E começou a subir.
Seus pés encontravam apoio nos galhos, suas mãos seguravam os troncos e seu corpo parecia conhecer cada movimento. Logo desapareceu entre as folhas.
Pouco depois, começou a lançar os frutos para os companheiros que estavam embaixo.
Quando desceu, havia alimento suficiente para encher os cestos.
Os antigos diziam: cada pessoa possui um caminho para servir ao seu povo.
8. MUIRATÃ E O VOO DAS AVES
Perto de um lago, uma grande revoada surgiu no céu. Nambus, marrecas e patos selvagens voavam de um lado para outro.
Os caçadores pararam.
Muiratã preparou seu arco.
Não correu. Não gritou. Não assustou as aves.
Apenas permaneceu imóvel, esperando o momento certo.
Seu olhar acompanhava o movimento do céu.
Então puxou a corda do arco.
A flecha partiu.
Depois outra.
A caça foi feita com precisão e sem desperdício.
Muiratã recolheu as aves e disse:
— A flecha deve alimentar a comunidade, não alimentar a vaidade do caçador.
Essa palavra ficou guardada no coração dos companheiros.
9. CANDARÁ E A ESCRITA DAS PEGADAS
Mais adiante, Candará parou repentinamente.
Os outros continuaram alguns passos, mas perceberam que ele não os acompanhava.
Candará estava olhando para o chão.
— O que você encontrou? — perguntou um dos companheiros.
Ele respondeu:
— A mata escreveu uma história aqui.
Apontou para uma pequena marca no barro.
Era uma pegada.
Depois mostrou outra.
E outra.
Candará sabia ler aqueles sinais como quem lia um livro. Descobriu por onde haviam passado cutias, preás e tatus. Seguiram as trilhas com paciência e encontraram os animais.
A caça foi realizada com cuidado.
Então Candará ensinou:
— Quem aprende a ler as pegadas aprende a escutar a floresta.
10. NATIRÃ E O OURO DAS ABELHAS
Quando o sol já estava alto, Natirã levantou a cabeça.
Sentiu um perfume no ar.
— Esperem.
Todos pararam.
Ele caminhou lentamente seguindo o cheiro das flores.
Depois de algum tempo, encontrou uma colmeia escondida entre as árvores.
O mel brilhava dentro dela.
Os caçadores se aproximaram com cuidado. Sabiam que as abelhas também tinham sua morada e seu trabalho. Retiraram apenas uma parte do mel, preservando a colmeia.
Quando provaram aquele alimento doce, Natirã sorriu.
— A floresta alimenta aqueles que sabem respeitar sua casa.
O mel foi guardado para ser repartido com toda a aldeia.
11. O CAMINHO DE VOLTA
Depois de vários dias, os caçadores começaram a retornar.
Seus cestos estavam cheios de peixes, frutas, aves, caça e mel.
Mas ninguém dizia:
— Eu consegui!
Diziam:
— Nós conseguimos.
Porque Pirapotã havia encontrado os peixes.
Itawaçú havia alcançado os frutos.
Muiratã havia encontrado as aves.
Candará havia lido as pegadas.
Natirã havia encontrado o mel.
E todos haviam caminhado juntos.
A fartura não nasceu de uma única habilidade.
Nasceu da união de muitas habilidades.
12. A GRANDE PARTILHA
Quando os caçadores chegaram à aldeia, as crianças correram para recebê-los. As mulheres prepararam as panelas. Os anciãos sorriram. A fogueira foi novamente acesa.
Os alimentos foram colocados diante de todos.
Peixes.
Frutas.
Aves.
Caça.
Mel.
Mas antes de comer, o pajé levantou-se.
— Não agradeçamos somente aos caçadores — disse. — Agradeçamos também à água, à mata, às árvores, aos animais, às abelhas, aos antepassados e à força que fez todos caminharem juntos.
Então começaram os cantos.
O maracá acompanhou o ritmo.
Os pés marcaram o chão.
A aldeia celebrou a vida.
E a comida foi repartida entre todos.
13. O ENSINAMENTO QUE FICOU
Quando a noite ficou profunda, as crianças se aproximaram dos anciãos.
Uma delas perguntou:
— Por que vocês chamam isso de SITOHOYÉ?
O ancião sorriu e respondeu:
— Porque SITOHOYÉ não é somente caçar. É saber que ninguém possui todos os conhecimentos, mas cada pessoa possui algo que pode oferecer ao seu povo.
Então apontou para a fogueira.
— Vejam o fogo. Uma única brasa pode se apagar. Mas muitas brasas juntas mantêm a fogueira acesa.
Foi assim que os antigos ensinaram.
SITOHOYÉ é a força do coletivo.
É o pescador oferecendo seu conhecimento das águas.
É o caçador conhecendo os rastros.
É o arqueiro conhecendo o voo das aves.
É aquele que sobe às árvores conhecendo os frutos.
É aquele que sente o perfume do mel escondido na mata.
E é toda a comunidade transformando diferentes saberes em uma única força.
Desde então, quando alguém perguntava aos antigos qual era a maior riqueza de um povo, eles respondiam:
— Não é aquilo que uma pessoa consegue fazer sozinha. É aquilo que todos conseguem construir quando caminham juntos.
E assim SITOHOYÉ permaneceu vivo na memória, passando de boca em boca, de ancião para criança, de geração para geração, como ensinamento dos antepassados.
14. O SABER QUE CAMINHA DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO
E assim terminou aquela jornada, mas o ensinamento de SITOHOYÉ nunca terminou. A caçada voltou para a memória do povo como lembrança de que a vida comunitária se fortalece quando cada pessoa oferece seu conhecimento em benefício de todos. O peixe encontrado nas águas, o fruto colhido na árvore, a ave alcançada pela flecha, o rastro descoberto na terra e o mel encontrado na mata tornaram-se símbolos de uma mesma verdade: a força de um povo está na união de seus saberes, na partilha de seus alimentos e no respeito à Mãe-Terra. Por isso, enquanto houver uma criança para escutar, um ancião para contar e uma fogueira para reunir a comunidade, SITOHOYÉ continuará caminhando entre as gerações, levando consigo a voz dos antepassados e ensinando que ninguém é tão forte sozinho quanto um povo unido.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
21. CONSIDERAÇÕES FINAIS
SITOHOYÉ termina como terminou a jornada dos caçadores: com a compreensão de que ninguém constrói a fartura sozinho.
A história começou com a escassez, mas terminou com a abundância.
Começou com a preocupação de uma aldeia e terminou com a celebração de toda uma comunidade.
No caminho, cada personagem ofereceu aquilo que sabia fazer.
Pirapotã ensinou a observar as águas.
Itawaçú ensinou a alcançar aquilo que estava nas árvores.
Muiratã ensinou a conhecer o voo das aves.
Candará ensinou a interpretar os sinais deixados no chão.
Natirã ensinou a reconhecer o caminho do mel.
Mas o ensinamento maior não pertence a nenhum deles isoladamente.
Ele pertence ao coletivo.
SITOHOYÉ ensina que os conhecimentos podem ser diferentes, mas não precisam estar separados. Quando são reunidos, tornam-se uma força capaz de alimentar, proteger e fortalecer a comunidade.
A grande partilha representa o ponto mais importante da narrativa.
O alimento encontrado não pertence ao caçador que o encontrou.
Ele pertence à comunidade.
Da mesma forma, o conhecimento recebido dos antepassados não deve ficar escondido. Deve caminhar.
De ancião para adulto.
De adulto para jovem.
De jovem para criança.
De geração em geração.
Enquanto essa transmissão continuar, a história permanecerá viva.
Enquanto houver uma fogueira, haverá lugar para a palavra.
Enquanto houver crianças dispostas a escutar, haverá futuro para a memória.
E enquanto um povo permanecer unido, SITOHOYÉ continuará ensinando que a maior riqueza não está naquilo que uma pessoa possui sozinha, mas naquilo que uma comunidade consegue construir quando todos caminham juntos.
22. GLOSSÁRIO
SITOHOYÉ – Nome dado, nesta narrativa, à caçada coletiva; representa também a união de diferentes conhecimentos em benefício da comunidade.
Opará – Nome utilizado na tradição Kariri-Xocó para o Rio São Francisco.
Pajé – Liderança espiritual e guardião de conhecimentos tradicionais, conforme o contexto cultural apresentado na narrativa.
Cacique – Liderança comunitária.
Maracá – Instrumento tradicional utilizado em práticas culturais e espirituais indígenas.
Mãe-Terra – Expressão utilizada na obra para representar a Terra como fonte de vida, alimento e existência.
Caçada coletiva – Atividade realizada em grupo, na qual diferentes conhecimentos e habilidades são reunidos para alcançar um objetivo comum.
Tradição oral – Forma de transmissão de conhecimentos, histórias, ensinamentos e memórias por meio da palavra falada e da convivência entre gerações.
Anciãos – Pessoas reconhecidas pela experiência, memória e conhecimento acumulado ao longo da vida.
Saberes ancestrais – Conhecimentos recebidos das gerações anteriores e preservados por meio da prática, da memória e da transmissão cultural.
Partilha – Ato de dividir os alimentos, conhecimentos e benefícios entre os membros da comunidade.
Comunidade – Coletividade formada por pessoas que compartilham território, relações, conhecimentos, responsabilidades e formas de vida.
Antepassados – Gerações anteriores lembradas como fonte de ensinamentos e memória.
Fogueira – Elemento simbólico da narrativa associado ao encontro, à escuta, à transmissão da memória e à palavra dos antigos.
23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Saberes e Fazeres – Volume 14 – Coletânea. 2025.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. SitohoYé, A Caçada Coletiva. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/sitohoye-cacada-coletiva.html?m=0. Acesso em: 11 ago. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Saberes e Fazeres. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroy-historia-kariri-xoco-saberes-e.html?m=0. Acesso em: 11 ago. 2026.
Observação editorial: as referências acima correspondem às fontes indicadas pelo autor para esta versão ampliada.
24. SOBRE O AUTOR
NHENETY KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor e produtor cultural indígena, dedicado à preservação da memória, da história, da cultura e dos saberes do povo Kariri-Xocó.
Seu trabalho reúne narrativas, contos, fábulas, cordéis, textos históricos, registros culturais e produções voltadas à valorização da identidade indígena.
Como contador de histórias, compreende a palavra como instrumento de transmissão da memória. Para ele, contar uma história significa estabelecer uma ponte entre aqueles que viveram antes, aqueles que vivem agora e aqueles que ainda virão.
Sua produção literária procura registrar conhecimentos relacionados à comunidade, à ancestralidade, à natureza, à espiritualidade, às tradições, à língua, às famílias, ao território e às experiências históricas do povo Kariri-Xocó.
Em suas obras, a literatura não é apenas criação. É também memória, resistência, educação e continuidade cultural.
SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA integra esse caminho de preservação, apresentando uma história na qual os conhecimentos individuais se transformam em força coletiva.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Atuação: Escritor, contador de histórias e produtor cultural indígena
Povo: Kariri-Xocó
Brasil
25. ENCERRAMENTO DA OBRA
SITOHOYÉ continua caminhando.
Caminha nas palavras dos anciãos.
Caminha na escuta das crianças.
Caminha pelos caminhos da mata.
Caminha nas águas do Opará.
Caminha nos frutos das árvores.
Caminha no voo das aves.
Caminha nas pegadas dos animais.
Caminha no mel das abelhas.
Caminha na fumaça da fogueira.
E caminha, sobretudo, no coração daqueles que compreenderam o ensinamento dos antigos:
quando cada pessoa oferece o seu saber, o conhecimento de todos se transforma em força para o povo.
SITOHOYÉ — A CAÇADA COLETIVA.
Uma história que nasce no passado, vive no presente e caminha para o futuro.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

























