Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Local: Aldeia Kariri-Xocó — Porto Real do Colégio, Alagoas.
Natureza da obra: Material pedagógico intercultural para o Ensino Fundamental.
Edição preliminar para revisão comunitária, linguística, histórica e pedagógica.
FALSA FOLHA DE ROSTO
WOROY CRODÍBA TSEHO
HISTÓRIA E RESISTÊNCIA DO POVO KARIRI-XOCÓ
ENSINO FUNDAMENTAL
Nhenety Kariri-Xocó
Aldeia Kariri-Xocó — Porto Real do Colégio, Alagoas.
2026
FOLHA DE ROSTO
WOROY CRODÍBA TSEHO
HISTÓRIA E RESISTÊNCIA DO POVO KARIRI-XOCÓ — ENSINO FUNDAMENTAL
Obra dedicada à valorização da memória ancestral, da tradição oral, da língua, da história, da geografia e da resistência territorial do povo Kariri-Xocó.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó.
Público-alvo: professores e estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental.
Local de referência: Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio, Alagoas.
Ano: 2026.
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Esta obra tem como finalidade contribuir para a educação escolar indígena, valorizando os conhecimentos tradicionais, a história oral, a memória dos anciãos e a identidade cultural do povo Kariri-Xocó.
O material articula os conhecimentos comunitários aos componentes curriculares de História, Geografia, Língua Portuguesa, Arte e ao estudo da língua Kariri-Xocó, respeitando as particularidades culturais e os processos próprios de aprendizagem.
A publicação deverá passar por revisão histórica, linguística e pedagógica, com participação de representantes da comunidade e de pessoas reconhecidas como detentoras dos conhecimentos tradicionais.
Direitos autorais: a definir na edição final, respeitando os direitos do autor, os conhecimentos coletivos e as autorizações necessárias para reprodução de narrativas, fotografias, ilustrações e outros registros culturais.
FICHA CATALOGRÁFICA — PRELIMINAR
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Woroy Crodíba Tseho: história e resistência do povo Kariri-Xocó — Ensino Fundamental / Nhenety Kariri-Xocó. — Edição preliminar. — Porto Real do Colégio, AL, 2026.
Material pedagógico intercultural.
1. Povos indígenas — História. 2. Kariri-Xocó — Memória e tradição oral. 3. Educação escolar indígena. 4. História e Geografia — Ensino Fundamental. I. Título.
CDD: a definir por bibliotecário habilitado.
Nota: esta ficha é apenas um modelo. A ficha catalográfica definitiva deverá ser elaborada após a definição dos dados editoriais e da edição final.
ISBN simbólico
ISBN: 978-65-00000-00-0
Este número é meramente ilustrativo e não constitui ISBN válido. A numeração definitiva deverá ser solicitada antes da publicação formal.
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um projeto editorial em fase de estruturação e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva poderá futuramente ser submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se à identificação preliminar da obra e à organização interna do Acervo.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedicamos esta obra aos Toá, aos Troncos Velhos, às anciãs e aos anciãos Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da memória e dos ensinamentos ancestrais. Às famílias que mantêm vivas as histórias dos antepassados, às lideranças que defendem o território e aos professores que trabalham para fortalecer a identidade indígena por meio da educação. Dedicamos, sobretudo, às crianças e aos jovens Kariri-Xocó, para que conheçam suas raízes, respeitem a sabedoria dos mais velhos e continuem transmitindo a história de seu povo às futuras gerações.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos anciãos e às anciãs que preservam e compartilham a tradição oral Kariri-Xocó; às famílias que guardam as lembranças dos antepassados; às lideranças indígenas que lutam pela dignidade, pelo território e pelos direitos coletivos; aos professores, estudantes e pesquisadores comprometidos com a educação intercultural; e a todas as pessoas que contribuem para a preservação da língua, da cultura e da memória ancestral.
Os nomes e as contribuições individuais poderão ser acrescentados nesta seção mediante consulta e autorização das pessoas envolvidas.
EPÍGRAFE
“Enquanto houver quem conte, quem escute e quem transmita, a memória ancestral continuará florescendo de geração em geração.”
Formulação inspirada nos princípios da tradição oral apresentados nesta obra.
PREFÁCIO DO VOLUME
A história de um povo não está somente nos livros, nos documentos oficiais ou nos arquivos das instituições. Ela também vive na palavra dos mais velhos, nas lembranças das famílias, nos nomes dos lugares, nas práticas culturais, nos caminhos percorridos pelos antepassados e nos conhecimentos transmitidos de geração em geração.
Ao colocar a tradição oral no centro do processo educativo, a obra reconhece os anciãos como importantes fontes de conhecimento histórico e os povos indígenas como sujeitos de sua própria história. A comunidade Kariri-Xocó é apresentada não apenas por suas experiências do passado, mas também por sua presença contemporânea, sua organização, sua língua, sua cultura e sua luta pela continuidade territorial e cultural.
Os conteúdos articulam a história local à história regional e nacional, permitindo compreender os impactos da colonização, as transformações das aldeias, a resistência às imposições culturais, a valorização da língua e a conquista de direitos indígenas.
Este livro também convida professores e estudantes a desenvolver pesquisas, entrevistar pessoas mais velhas, construir linhas do tempo, elaborar mapas, analisar documentos e produzir trabalhos artísticos e audiovisuais.
Que esta obra contribua para aproximar a escola da comunidade e para fortalecer o diálogo entre gerações, mantendo viva a palavra ancestral Kariri-Xocó.
RESUMO
O livro Woroy Crodíba Tseho — História e Resistência do Povo Kariri-Xocó é uma proposta de material pedagógico intercultural destinada ao Ensino Fundamental. A obra valoriza a tradição oral, a memória dos anciãos, a língua Kariri-Xocó, a história ancestral, o território indígena e as experiências de resistência cultural e política do povo. Organizada em duas seções, contempla os Anos Iniciais, com ênfase na memória, na família e nas primeiras noções de tempo histórico, e os Anos Finais, com estudos sobre colonização, missões religiosas, transformações territoriais, resistência e direitos indígenas. A proposta articula História, Geografia, Língua Portuguesa, Arte e conhecimentos linguísticos, mediante entrevistas, mapas, linhas do tempo, murais, dramatizações e produções audiovisuais. Sua metodologia parte da realidade comunitária para compreender a história regional e nacional, promovendo o respeito aos antepassados, à diversidade cultural e aos direitos dos povos originários.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; memória ancestral; território indígena; educação intercultural; resistência cultural.
ABSTRACT
Woroy Crodíba Tseho — History and Resistance of the Kariri-Xocó People is a proposed intercultural educational resource for Brazilian elementary education. The book values oral tradition, elders' memories, the Kariri-Xocó language, ancestral history, Indigenous territory, and the people's experiences of cultural and political resistance. Organized into two sections, it addresses the early grades through family history, memory, and basic concepts of historical time, while the later grades explore colonization, religious missions, territorial transformations, resistance, and Indigenous rights. The proposal connects History, Geography, Portuguese Language, Arts, and linguistic knowledge through interviews, maps, timelines, murals, dramatizations, and audiovisual projects. Its methodology begins with the community's own experiences to explore regional and national history, promoting respect for ancestors, cultural diversity, and the rights of Indigenous peoples.
Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; ancestral memory; Indigenous territory; intercultural education; cultural resistance.
APRESENTAÇÃO
Este livro foi elaborado com o propósito de contribuir para o ensino da história e da cultura do povo Kariri-Xocó, oferecendo a professores e estudantes um material que aproxima os conhecimentos tradicionais das atividades desenvolvidas em sala de aula.
A proposta parte do entendimento de que a história indígena não deve ser ensinada apenas como um acontecimento distante, relacionado à chegada dos europeus. Os povos originários possuem histórias anteriores à colonização e continuam participando da construção da sociedade brasileira.
A tradição oral constitui um dos fundamentos desta obra. Por meio das narrativas dos anciãos, os estudantes poderão conhecer lembranças familiares, compreender transformações na aldeia, reconhecer a importância dos lugares ancestrais e refletir sobre a continuidade da língua e da cultura.
O livro está organizado em duas seções. A primeira é destinada aos Anos Iniciais, do 1º ao 5º ano, e trabalha o tempo vivido, a história da família, a memória dos antepassados e a presença indígena anterior à colonização. A segunda é voltada aos Anos Finais, do 6º ao 9º ano, e aprofunda os estudos sobre colonização, missões religiosas, mudanças territoriais, história republicana, resistência e direitos indígenas.
As atividades propostas incluem entrevistas, pesquisas familiares, mapas, linhas do tempo, análise de documentos, produções artísticas e registros audiovisuais. Todas deverão respeitar os conhecimentos comunitários e as autorizações necessárias.
NOTA DO AUTOR
Os textos desta obra procuram registrar e valorizar os conhecimentos transmitidos pela tradição oral Kariri-Xocó. As narrativas apresentam formas próprias de interpretar a criação, a ancestralidade, o território, as mudanças históricas e a continuidade cultural.
Os termos em língua Kariri-Xocó e suas traduções são apresentados conforme o material-base utilizado na elaboração do manuscrito. A grafia, a pronúncia e os significados deverão ser revisados por pessoas reconhecidas pela comunidade como conhecedoras da língua, respeitando as variações e os contextos de uso.
As narrativas orais e os documentos escritos possuem características próprias. Por isso, a obra procura promover o diálogo entre diferentes fontes de conhecimento, sem desconsiderar a importância da memória coletiva e dos protocolos culturais da comunidade.
O objetivo é contribuir para que as novas gerações conheçam suas raízes, valorizem a palavra dos mais velhos e compreendam a importância da educação para a continuidade histórica do povo Kariri-Xocó.
MEMÓRIA DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó apresenta-se nesta obra como autor comprometido com o registro e a transmissão da memória ancestral de seu povo.
Sua proposta parte da compreensão de que a palavra dos mais velhos constitui um patrimônio de conhecimentos, experiências e ensinamentos que precisa continuar circulando entre as gerações. As narrativas sobre os antepassados, os lugares tradicionais, as mudanças vividas pela comunidade e os processos de resistência ajudam a compreender a trajetória histórica Kariri-Xocó.
A elaboração deste livro representa uma contribuição à educação escolar indígena, aproximando os conhecimentos da tradição oral dos conteúdos de História, Geografia e língua. A intenção é oferecer às crianças e aos jovens oportunidades de aprender a partir da experiência de sua própria comunidade.
Nota biográfica: recomenda-se que esta seção seja complementada pelo autor com sua trajetória pessoal, seus mestres e anciãos de referência, suas experiências de pesquisa e revitalização linguística e suas contribuições culturais, conforme desejar tornar públicas essas informações.
APRESENTAÇÃO PEDAGÓGICA
A escola é um espaço de aprendizagem, convivência e transmissão de conhecimentos. Quando a história da comunidade está presente no currículo, os estudantes podem compreender melhor sua identidade e reconhecer a importância dos antepassados na formação do presente.
A proposta pedagógica deste livro considera a oralidade, a investigação histórica, a observação do território e a produção artística como caminhos de aprendizagem.
O professor poderá organizar rodas de conversa, convidar pessoas autorizadas pela comunidade, realizar pesquisas familiares, comparar fotografias antigas e atuais e desenvolver atividades de representação cartográfica.
O estudante será incentivado a formular perguntas, ouvir com atenção, identificar fontes de informação e apresentar suas descobertas por meio de textos, desenhos, mapas, exposições e produções audiovisuais.
A aprendizagem deverá respeitar os diferentes ritmos escolares, as particularidades culturais e os conhecimentos que não podem ser divulgados fora de seus contextos tradicionais.
INTRODUÇÃO
A história dos povos indígenas constitui parte fundamental da história do Brasil. Muito antes da chegada dos europeus, os povos originários já habitavam diferentes regiões do território, organizavam suas comunidades, desenvolviam conhecimentos ambientais, produziam alimentos, estabeleciam relações entre povos e transmitiam seus saberes por meio da oralidade.
No Baixo São Francisco, a história indígena está profundamente relacionada ao rio Opará, às lagoas, às matas, aos caminhos, às aldeias e às experiências de diferentes povos. Esses espaços representam ambientes de vida, trabalho, circulação, memória e continuidade cultural.
O povo Kariri-Xocó preserva conhecimentos transmitidos por gerações e mantém uma relação histórica com seu território. As narrativas dos anciãos registram experiências de ancestralidade, transformações sociais, deslocamentos, resistência e fortalecimento comunitário.
Ao longo da colonização, muitos povos indígenas enfrentaram imposições religiosas, políticas linguísticas, deslocamentos territoriais e mudanças em suas formas de organização. Entretanto, também desenvolveram estratégias de resistência, preservaram conhecimentos e continuaram transmitindo suas tradições.
Este livro propõe estudar esses processos partindo da realidade Kariri-Xocó e ampliando a análise para a história regional e nacional. Dessa maneira, os estudantes poderão compreender que o presente é resultado de acontecimentos, escolhas, conflitos, conquistas e experiências acumuladas ao longo do tempo.
A proposta pedagógica valoriza a tradição oral como fonte de conhecimento, articulando-a à pesquisa documental, à cartografia e ao estudo da legislação. O propósito não é substituir uma fonte por outra, mas criar oportunidades para que os estudantes compreendam diferentes formas de registrar e interpretar a história.
OBJETIVO GERAL
Promover o conhecimento da história, da língua, da memória e da cultura do povo Kariri-Xocó, fortalecendo a identidade indígena, o respeito à ancestralidade, a compreensão do território e o reconhecimento dos direitos dos povos originários.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
* Valorizar os anciãos como guardiões da memória e dos conhecimentos tradicionais.
* Desenvolver habilidades de escuta, registro e interpretação de narrativas orais.
* Compreender as noções de passado, presente, futuro e transformação histórica.
* Reconhecer a presença dos povos indígenas antes da colonização europeia.
* Investigar as transformações territoriais e culturais no Baixo São Francisco.
* Conhecer processos históricos de resistência indígena.
* Valorizar a língua Kariri-Xocó e os esforços comunitários de revitalização linguística.
* Relacionar a história local à história nacional.
* Conhecer os direitos indígenas reconhecidos pela Constituição Federal de 1988.
* Desenvolver atividades de pesquisa, produção artística e comunicação educativa.
SUMÁRIO
Falsa folha de rosto
Folha de rosto
Verso da folha de rosto
Ficha catalográfica
ISBN - Simbólico
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do autor
Memória do autor
Apresentação pedagógica
Introdução
Sumário
Sessão I — Anos Iniciais (1º ao 5º Ano)
Unidade 1 — Uché Woroy Tokli: Tempo da História Oral
Renghe Dzeye Kaiahoho: Anciãos Guardiões do Passado
Atividade: Mural dos Nossos Ancestrais
Unidade 2 — Bihéuché Radá: Os Primeiros Tempos do Indígena na Terra
Uché Beté Anran Karaí: Tempo da Chegada do Homem Branco
Atividade: Teatro de Sombras
Sessão II — Anos Finais ( 6⁰ ao 9⁰ Ano )
Unidade 3 — Waré Cró Radamu Opará: Colonização, Missões e Resistência no Baixo São Francisco
Iaboe Woroyá Idzeá Tsehoá: Mistura Histórica de Muitos Povos
Aiby Natianie dó Naticróraí: De Aldeia Indígena à Cidade dos Brancos
Nhaehí Iworó Nunú Crodí Peró: Resgate e Revitalização da Língua
Atividade: Análise de Fonte Histórica
Unidade 4 — Woroy Yetsoeho Watidatè Uanieá: História Republicana e Exclusão Indígena
Toklane Mŷcrisãsaí Soñe Keñe: Marcos das Décadas de 1960 e 1970
Izuté Uché Natiáche: Novo Tempo Aldeia Nova Kariri-Xocó
Direitos indígenas e Constituição de 1988
Atividade: Mini-documentário ou podcast
Parte pedagógica
Metodologia de ensino
Avaliação da aprendizagem
Plano de aula 1 — História oral e anciãos
Plano de aula 2 — Ancestralidade e território
Plano de aula 3 — Colonização e resistência
Plano de aula 4 — Território e direitos indígenas
Considerações finais
Glossário
Referências bibliográficas
Sobre o autor
SEÇÃO I — ANOS INICIAIS (1º AO 5º ANO)
Eixo temático: tempo vivido, memória familiar, passado e presente, ancestralidade e introdução à história indígena regional.
UNIDADE 1 — UCHÉ WOROY TOKLI: TEMPO DA HISTÓRIA ORAL
Na Buyê, a Grande Fogueira, os Toá, nossos Avôs, reuniam a comunidade para transmitir as Woroyá, histórias dos primeiros tempos da criação do mundo. Suas vozes narravam a criação realizada por Sonsé, junto aos Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados, cujas memórias atravessavam as gerações. Os Sumarãtó, os Dois Avôs Sagrados, Upuhtoá, o Avô do Vento, e Dutoá, o Avô do Fogo, deram origem às Batti, as estrelas do firmamento. As Sumanike, as Duas Avós Sagradas, Nikedda, a Avó da Terra, e Dzúnike, a Avó da Água, fizeram nascer as Ubuá, plantas das grandes florestas. Da união sagrada desses elementos nasceu Uanie, o Indígena, formado pela Terra, pela Água, pelo Fogo e pelo Vento, forças da criação. Os Toá ensinavam que a humanidade pertence à natureza e está ligada a todos os seres do universo. A Terra sustenta, a Água alimenta, o Fogo aquece e ilumina, e o Vento movimenta a vida. Por meio das Woroyá, os anciãos transmitiam saberes, ensinando o respeito aos antepassados e à natureza. Cada narrativa preservava a identidade e a espiritualidade, fortalecendo a união e a memória da comunidade. Na Buyê, crianças, jovens e adultos aprendiam a escutar, reconhecendo na palavra dos mais velhos a força ancestral. Assim, o UCHÉ WOROY TOKLI, Tempo da História Oral, mantém viva a sabedoria dos antepassados Kariri-Xocó. Enquanto houver quem conte e quem escute essas histórias, a chama ancestral continuará iluminando as novas gerações.
Conceitos históricos
* Memória individual e coletiva.
* Sujeito histórico.
* Fontes orais.
* Passado, presente e futuro.
* Transmissão de conhecimentos entre gerações.
RENGHE DZEYE KAIAHOHO: ANCIÃOS GUARDIÕES DO PASSADO
Na tradição oral dos Kariri-Xocó, os Worobü Woroyá, os contadores de histórias, são nossos Toá, os avôs e as avós, as pessoas mais Rengheá, mais velhas da Natiá, a aldeia, reconhecidas como Bewó Renghe, o Tronco Velho, Dubuherí Samy, o Mestre da Cultura, e Dzeye Kaiahoho, os Guardiões do Passado. São eles que, de Atseuróché atseuróché, de geração em geração, preservam e transmitem o Swbatekié, os conhecimentos acumulados no Uchéba, o tempo vivido na Radá, a Terra, junto ao seu Tseho, o povo. Os anciãos e as anciãs são raízes vivas da comunidade, atuando como ceramistas, artesãos, pescadores, agricultores e detentores de tantos outros saberes, pois todos carregam na memória e na palavra as Woroyá, as histórias que mantêm viva a identidade ancestral. Eu mesmo, Nhenety, sou um desses anciãos, e meu nome significa “Ser Lembrado, Tradição”, uma missão que carrego na alma e na palavra, aprendida com outros anciãos que deixaram profundas marcas em nossa história e memória: os saudosos Suíra, Nidé, Iraminõn, Ireçê e Candará, cujos ensinamentos permanecem vivos em nossa caminhada. Assim, a palavra dos mais velhos é como um tronco antigo de raízes profundas, que sustenta os galhos das novas gerações, pois enquanto houver quem conte, quem escute e quem transmita, a memória dos Kariri-Xocó continuará florescendo de geração em geração, guardando os ensinamentos dos antepassados e fortalecendo a continuidade de nosso povo na Radá, nossa Terra ancestral.
Objetivos de aprendizagem
* Reconhecer a importância dos anciãos na preservação da história.
* Identificar a oralidade como forma de transmissão de conhecimentos.
* Conhecer lembranças da família e da comunidade.
* Desenvolver a escuta respeitosa e o diálogo entre gerações.
Atividade prática: Mural dos Nossos Ancestrais
Os estudantes conversarão com familiares sobre lembranças da infância, brincadeiras antigas, formas de trabalho, mudanças nas moradias e acontecimentos importantes da comunidade. Com autorização, poderão levar fotografias ou produzir desenhos para montar um mural coletivo.
Cada registro deverá conter uma legenda simples, identificando a pessoa ou o acontecimento, o período aproximado e a origem da informação.
Produção artística
Criação de um mural ilustrado com o título “A Palavra dos Nossos Ancestrais”, acompanhado de desenhos, legendas e palavras da língua Kariri-Xocó validadas pela comunidade.
Avaliação
O professor observará a participação, a escuta respeitosa, a capacidade de reconhecer fontes orais e a organização de lembranças em sequência temporal. Nenhum estudante deverá ser obrigado a apresentar informações familiares ou fotografias pessoais.
UNIDADE 2 — BIHÉUCHÉ UANIEÁ RADÁ: OS PRIMEIROS TEMPOS DO INDÍGENA NA TERRA
Contam os nossos anciãos que, muito antes das caravelas chegarem, nossos antepassados já habitavam a Radá Uanieá, Terra Indígena, um Radda, Mundo, Iworó, redondo, coberto pelo Arankié, Céu, iluminado pelo Ukie, Sol, e pela Kayaku, Lua, com suas Battiá, Estrelas. Existiam as Retséá, Florestas, os Keríá, Animais, os Wãmyá, Peixes, e o grandioso Opará, onde viviam muitos Tsehoá, Povos, como Kariri, Xocó, Karapotó, Natú e Aconã, entre tantos outros. Cada povo possuía sua Natiá, Aldeia, organizada sob a orientação do Nanhe, chefe político, e do Bidzamu, pajé e guardião espiritual. Na Antse, Natureza, em Ibiróá, ambos os lados do grande Iwo, Rio, nossos antepassados cultivavam as Bechiéá, Roças, pescavam, fabricavam cerâmicas, produziam artesanatos e realizavam suas festas tradicionais. Assim, compartilhavam conhecimentos, transmitiam histórias aos mais jovens e preservavam os ensinamentos ancestrais. A terra fornecia o alimento, as águas sustentavam a vida e os anciãos guardavam a memória de cada povo. Esse era o nosso tempo ancestral, quando nossas comunidades já possuíam cultura, organização, espiritualidade e identidade. Antes das caravelas cruzarem o mar, nossa história já existia, enraizada na terra, fortalecida pelos antepassados e mantida viva pela tradição oral.
Conceitos históricos e geográficos
* Tempo ancestral e tempo cronológico.
* Presença indígena anterior à colonização.
* Território, paisagem e ambiente.
* Organização das comunidades.
* Relação entre povos, rios e recursos naturais.
UCHÉ BETÉ ANRAN KARAÍ: TEMPO DA CHEGADA DO HOMEM BRANCO
Nos Uché Tokenhé, Tempo dos Antepassados, nosso Tseho, Povo Kariri, vivia nesta Dhaera, Região, habitando suas Natiá, Aldeias, mantendo vivas suas tradições e sua língua. Nosso povo conhecia os caminhos das águas, as matas e os ciclos da lua, transmitindo seus saberes pela tradição oral. Certo dia, chegou uma Urobi, Notícia, à Buyê, Grande Fogueira, anunciando que o Anran Karaí, Homem Branco, havia chegado a um Undé Maní, Lugar Longe, chamado Kûá, Baía do Mar. Segundo nossa memória, isso aconteceu na Içá Kayaku, Lua das Formigas, em abril de 1500. No Batti, Ano, de 1501, os Anran Karaí chegaram ao Opará, nosso grande rio, durante a Puruá Kayaku, Lua das Flores, conforme o Ucheatti Kayaku, Calendário Lunar. Eles atravessaram o Aindzu, Mar, numa Ubáye Cruté, Grande Canoa de Pano, e visitaram a Natiá Uolidze Opará, Aldeia na Foz do Rio. Ali foram recebidos pelo nosso Nanhe, Chefe Cacique, chamado Tarobá. Com a chegada dos estrangeiros, começaram novas relações e transformações na vida dos povos originários. Pelo Uchébatti Santoá, Calendário dos Santos, dos Karaí, o nome Opará passou a ser chamado Rio São Francisco. Assim começou o Worobu Uché Karaí, Novo Tempo dos Brancos, marcado por mudanças na história de nosso povo. Entretanto, Opará permanece na memória ancestral como símbolo de vida, identidade e resistência cultural. Contar essa história é manter acesa a Buyê, Grande Fogueira, transmitindo às novas gerações os conhecimentos dos antepassados, para que a língua, a tradição oral e a memória do povo Kariri continuem vivas através dos tempos.
Objetivos de aprendizagem
* Reconhecer que a história indígena antecede a chegada dos europeus.
* Localizar o rio São Francisco e compreender sua importância histórica e geográfica.
* Identificar relações entre território, alimentação, trabalho e cultura.
* Distinguir narrativas orais de outras fontes históricas.
Atividade prática: Teatro de Sombras
Os estudantes organizarão uma apresentação inspirada em uma narrativa de origem autorizada pelos detentores dos conhecimentos comunitários. Poderão utilizar silhuetas de papel, desenhos, tecidos e iluminação para representar a paisagem, os elementos naturais e a transmissão de histórias.
Produção artística
Elaboração de um mapa ilustrado do território e dos elementos naturais presentes na narrativa, sem identificar lugares restritos ou sagrados.
Avaliação
O professor verificará a compreensão da anterioridade histórica dos povos indígenas, a identificação dos elementos territoriais e a capacidade de expressar conhecimentos por meio da arte.
SEÇÃO II — ANOS FINAIS (6º AO 9º ANO)
Eixo temático: colonização, análise de fontes históricas, transformações territoriais, resistência, história nacional e direitos indígenas.
UNIDADE 3 — WARÉ CRO RADAMU OPARÁ: COLONIZAÇÃO, MISSÕES E RESISTÊNCIA NO BAIXO SÃO FRANCISCO
No Radamu Opará, o Baixo São Francisco, habitavam diversos Tsehoá, os Povos originários, entre eles os Kariri da Dzurichi, Lagoa Comprida, os Karapotó do rio Tibiri, os Aconã do rio Traipú, os Xocó do rio Ipanema, além dos Natú e Tupinambá do litoral. Esses povos viviam de acordo com seus costumes, suas crenças e suas tradições ancestrais, mantendo uma profunda ligação com os rios, as matas, as lagoas e o Aindzu, o Mar. Com a chegada dos Waré, os Padres jesuítas e capuchinhos, começaram novas transformações. Eles fundaram a Tupãsy Marãe'ỹba Rekogaba, a Missão de Nossa Senhora da Conceição, construindo a Erantoá, Igreja, e o Erátekié, Colégio, para ensinar a religião cristã, a partir de 4 de maio de 1661. Enquanto isso, os Karaí, os Brancos, estabeleceram fazendas de criação de gado, como a Wanheré Cradzó, Fazenda de Gado, denominada Urubumirim. Os Uanieá, os Indígenas, passaram a conhecer novos Kenhéá, Costumes, como usar Rocruté, roupas de pano, e falar Nunú Peró, a Língua Portuguesa. Também foram introduzidos o Crikié, as orações cristãs, e novas formas de moradia, com pequenas Erá, Casas, organizadas em Woderáehó, Ruas retas e alinhadas. Nesse período, o Nanhe, Cacique, perdeu espaço para a autoridade do Capitão-Mor, enquanto o Bidzamu, Pajé, enfrentou a influência religiosa do Waré, o Padre. Novos alimentos chegaram às comunidades, como Abati-uaupé, Arroz, e Bacobá, Banana, além de Behedzí, Melancia, Riné, Carne Salgada, e Meretá, Ferro. Também foram introduzidos animais domésticos, conhecidos como Keríerá, entre eles o Curé, Porco, o Igaborou, Cavalo, e o Cradzó, Boi. Chegaram ainda o Wathõ, Bode, e a Erintuca, Ovelha, modificando o cotidiano. Essas mudanças transformaram a alimentação, o trabalho, a moradia e a organização social. Entretanto, os povos indígenas enfrentaram imposições religiosas e culturais, procurando preservar seus conhecimentos, suas crenças e suas tradições ancestrais. A memória dos antepassados permaneceu viva na oralidade e nos ensinamentos comunitários, fortalecendo a identidade dos povos originários do Radamu Opará. Assim, essa história recorda as mudanças, as resistências e a continuidade cultural, reafirmando a importância de preservar a memória e os saberes do povo Kariri-Xocó.
Conceitos históricos
* Colonização.
* Missões religiosas e aldeamentos.
* Imposição cultural.
* Resistência indígena.
* Transformações territoriais.
* Continuidade cultural.
Objetivos de aprendizagem
* Compreender o papel das missões religiosas na história regional.
* Identificar mudanças na ocupação territorial e na organização comunitária.
* Analisar criticamente fontes produzidas no período colonial.
* Reconhecer estratégias indígenas de resistência e preservação cultural.
Atividade prática: análise de fonte histórica
Os estudantes poderão analisar documentos, mapas ou relatos históricos sobre a região do Baixo São Francisco, observando quem produziu cada fonte, em que contexto e com qual finalidade.
Em seguida, compararão as informações com narrativas orais autorizadas, registrando semelhanças, diferenças e questões que precisam de investigação.
IABOE WOROYÁ IDZEÁ TSEHOÁ: MISTURA HISTÓRICA DE MUITOS POVOS
Conta a tradição oral que, ao longo do Opará, o grande Rio São Francisco, e de seus Iwoá, os afluentes, existiam várias Tupãsy, missões religiosas onde diferentes povos indígenas construíram parte de suas histórias. Em Urubumirim, na Aldeia de Colégio, viviam Kariri, Karapotó e Aconã; em Jaciobá, na região de Pão de Açúcar, estavam os Romari e Xocó, em Alagoas. Mais adiante, em Pacatuba, encontravam-se os Natú e Caxagó, enquanto na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, viviam os Aramuru e, posteriormente, os Xocó, em Sergipe. Naqueles tempos, cada missão enfrentava dificuldades que afetavam a sobrevivência das comunidades, levando muitos indígenas a migrar em busca de terras, alimentos e melhores condições de vida. Assim, os caminhos das águas tornaram-se caminhos de encontros, mudanças e resistência. A Aldeia de Colégio destacou-se por receber numerosos grupos étnicos, entre eles Kariri, Karapotó, Aconã, Xocó, Natú, Caxagó, Fulni-ô, Pankararu e tantos outros povos que chegaram ao longo das gerações. Cada grupo trouxe consigo suas lembranças, seus costumes, suas palavras, suas crenças e seus conhecimentos ancestrais. Nesse movimento histórico, os Xocó chegaram em número expressivo, contribuindo significativamente para a formação étnica e cultural do povo Kariri-Xocó. Dessa maneira, a história de nossa gente foi sendo construída por diferentes raízes que se encontraram às margens do Opará. Os mais velhos guardam na memória essas passagens, transmitindo aos mais jovens a lembrança dos antepassados. E assim compreendemos que nossa identidade é fruto de uma longa caminhada de encontros, migrações, união e resistência, na qual muitos povos contribuíram para manter viva a memória ancestral e a continuidade da cultura Kariri-Xocó.
Atividade
Produzir um painel intitulado “As Raízes Históricas do Povo Kariri-Xocó”, identificando encontros, deslocamentos e contribuições culturais documentadas ou registradas pela tradição oral.
AIBY NATIANIE DÓ NATICRÓRAÍ: DE ALDEIA INDÍGENA À CIDADE DOS BRANCOS
Contam os nossos antigos que, no ano de 1759, os Waré “Padres Jesuítas” foram expulsos do Brasil pelo Namorcaraí Peró “Rei de Portugal”, dando início a um novo tempo de mudanças para os povos indígenas, com a criação do Honédi Aiby Uanieá “Diretório dos Índios”. Naquele Uché “Tempo”, nossas Natiá “Aldeias” passaram a viver sob novas regras, que proibiam Toklikli Nunuá “Línguas Indígenas” e obrigavam os povos a falar somente o Peró “Português”. Nos Erátekié “Colégios”, foram introduzidos os Kenhéá “Costumes” e a Samy “Cultura” dos Karaí “Brancos”, enquanto os ensinamentos dos antepassados enfrentavam tempos difíceis para continuar vivos. Ao longo do Opará “Rio São Francisco”, muitas Natiá “Aldeias” foram transformadas em Naticróbeá “Povoações, vilas e cidades” ribeirinhas, modificando a organização de nossos territórios e o modo de viver das comunidades indígenas. Nossos parentes, que antes habitavam o centro das povoações, foram afastados para a periferia, passando a ocupar a Woderáehó Uanie “Rua dos Índios”, como testemunho das mudanças impostas à vida de nosso povo. Em 1795, nossa Naticróraí “Povoação” recebeu o nome de Króeránaí “Porto Real do Colégio”, denominação formada pelas palavras Kariri-Xocó Cródzu “Porto”, Namorcaraí “Real” e Erátekié “Colégio”. Assim, a antiga aldeia foi sendo transformada em povoação sob a influência das autoridades e dos costumes dos Karaí. Mais tarde, vieram as Honédiá Aiby Uanieá “Diretorias dos Índios”, que permaneceram até a criação da Vila de Porto Real do Colégio, em 7 de julho de 1876. Dessa maneira, nossos ancestrais testemunharam a transformação de suas terras e aldeias, enfrentando proibições, deslocamentos e mudanças culturais. Contudo, a memória dos antigos continua viva na palavra, na tradição oral e na identidade de nosso povo, que guarda a história do Opará e transmite às novas gerações a lembrança de como uma aldeia indígena se transformou na cidade dos Karaí, sem apagar as raízes profundas de nossa ancestralidade
Atividade
Construir uma linha do tempo com os principais acontecimentos da formação de Porto Real do Colégio, comparando a memória oral com fontes documentais disponíveis.
NHAEHÍ IWORÓ NUNÚ CRODÍ PERÓ: RESGATE, REVITALIZAÇÃO E CIRCULAÇÃO DA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ DIANTE DA PREDOMINÂNCIA DO PORTUGUÊS
Contam os nossos anciãos que, mesmo com a transformação da Natiá, Aldeia, em Naticróbeá, Cidade, o povo Kariri-Xocó continuou preservando seus Kenhéá, Costumes, e suas Nhenetíá, Tradições. No Matikay, Ritual do Ouricuri, no Toré, com seus cantos e danças, no Wontyrõ, Mutirão, na Sitó, Caçada, e na Mydzé, Pesca, permaneceram vivos os ensinamentos dos antepassados. Com o passar do tempo, a língua portuguesa ganhou espaço na vida cotidiana, mas muitas palavras ancestrais continuaram guardadas na memória dos mais velhos. Nos séculos XVII e XVIII, missionários como Mamiani e Nantes produziram registros escritos relacionados às línguas da família Kariri, deixando fontes históricas para o estudo desse patrimônio linguístico. Em 1984, os anciãos Manoel Iraminõn e Nhenety iniciaram o resgate de palavras lembradas pela comunidade, buscando fortalecer a herança linguística do povo. Cada palavra recuperada era como uma semente plantada no coração da cultura, trazendo lembranças e conhecimentos dos antepassados. No século XXI, Indiane Crudzá e Kawran deram continuidade ao trabalho de revitalização junto com Nhenety, contribuindo para transmitir esses conhecimentos às novas gerações. Em 2025, Elizabete Suzart desenvolveu um trabalho de doutorado sobre o Dicionário Cultural Kariri-Xocó, ampliando os caminhos de registro, estudo e valorização dessa memória. Assim, entre a oralidade, a escrita e as práticas culturais, o povo Kariri-Xocó continua sua caminhada de resistência e afirmação identitária diante da predominância do português. Os anciãos ensinam que cada palavra indígena guarda uma história, um sentimento e uma maneira própria de compreender o mundo. Por isso, resgatar, registrar, ensinar e fazer circular a língua significa manter viva a voz dos antepassados, fortalecer a identidade Kariri-Xocó e transmitir aos jovens a riqueza de sua herança cultural. Enquanto houver memória, ensinamento e vontade de aprender, as palavras ancestrais continuarão circulando entre as gerações, mantendo viva a cultura e abrindo caminhos para o futuro.
Atividade prática
Os estudantes organizarão um pequeno caderno de vocabulário, com palavras autorizadas, seus significados, exemplos de uso e indicação da pessoa ou fonte que compartilhou o conhecimento.
A grafia e a pronúncia deverão ser confirmadas por pessoas reconhecidas pela comunidade como conhecedoras da língua.
UNIDADE 4 — WOROY YETSOEHO WATIDATÈ APAGE UANIEÁ: HISTÓRIA REPUBLICANA DO BRASIL COM EXCLUSÃO INDÍGENA
Contam os antigos que, no dia 7 de julho de 1876, durante o período do Namorcaraí Watidatè, Reino do Brasil, foi criado Króeránaí, atual Porto Real do Colégio, e os Tsehoá Uanieá, Povos Indígenas perderam suas terras, lagoas e espaços tradicionais, restando a Retsé Matikay, a Floresta do Ouricuri, e a Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios. Em 1889, começou o período do Watidatè Yetsoeho, o Brasil República, mas os indígenas continuaram enfrentando a exclusão e lutando pelo reconhecimento de seus direitos. Os Kariri-Xocó preservaram suas tradições e resistiram às mudanças que ameaçavam sua existência. Em 1944, foi fundado o Cunhenhé Uanieá Claixiúa-lhá, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, ligado ao Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Claixiúa-lhá era o nome pelo qual os indígenas Fulni-ô, de Águas Belas, Pernambuco, chamavam o padre Alfredo Dâmaso, o grande defensor dos povos nativos do Nordeste. Na Rua dos Índios, foram criadas a Erátekié, a escola, e a Erádzó, a enfermaria, contribuindo para o atendimento da comunidade. A enchente do Rio Opará de 1949, danificou as Erapyupé "Casa de Palha de Arroz" dos Kariri, o Posto do Indígena ordenou a reforma para novas residências de Eraháebé "Casas de Taipa e Telha". Em 1947, foram adquiridas terras para a Baté-jú Uanieá, a Colônia Indígena, destinadas ao plantio das roças e à produção de alimentos. A inauguração da Iuwó Merata "Estrada de Ferro" com a chegada do Ibámeraipu "Trem" na cidade em 1950. Assim, entre perdas territoriais e conquistas, os Kariri-Xocó continuaram defendendo sua cultura, sua dignidade e seus direitos. Como contam os anciãos, a memória dos antepassados permanece viva na palavra, na terra e na Floresta do Ouricuri, ensinando às novas gerações que a história de um povo jamais deve ser esquecida.
Conceitos históricos
* República e cidadania.
* Exclusão e resistência indígena.
* Transformações territoriais.
* Memória coletiva.
* Direitos constitucionais.
Objetivos de aprendizagem
* Relacionar a história local às mudanças políticas do Brasil.
* Reconhecer os impactos das transformações territoriais na vida comunitária.
* Investigar memórias familiares e acontecimentos da história recente.
* Compreender a importância dos direitos indígenas.
TOKLANE MŶCRISÃSAÍ SOÑE KEÑE: MARCOS DAS DÉCADAS DE 1960 E 1970
Na Mŷcrisãsaí "Década" em Yâ Ikirã Soñe "1960", um novo tempo chegou para o povo Kariri-Xocó, trazendo mudanças que marcaram a memória da comunidade. Em 1966, a Rua dos Índios recebeu uma grande novidade, a Hinebakró "Energia elétrica" iluminando as casas e transformando a vida das famílias. No ano seguinte, em 1967, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi extinto, dando lugar à Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A outra década seguinte Yâ Ikirã Keñe "1970", novas transformações começaram a aparecer na região, com a pavimentação da Iuwóiró "Rodovia" , da BR 101 que facilitou a passagem de pessoas e o transporte de mercadorias. Em 1972, a FUNAI realizou reformas nas antigas Eraháebé "Casa de Taipa e Telha"; substituindo-as por outras Eracróunhá "Casa de Pedra e Tijolo", além de ampliar a escola e a casa das professoras. Na cidade, chegaram o Benheokli "Telefone de disco" e o Warudókli "Televisor", novidades que aproximaram as famílias de outras formas de comunicação e informação. Nesse mesmo ano, foi inaugurada a Uocró Idabacrú "Ponte sobre o rio Opará ", importante ligação entre as margens e os caminhos do povo. Porém, entre tantas mudanças, um acontecimento ficou profundamente guardado na lembrança dos anciãos: a saída da comunidade da tradicional Woderáehó Uanie "Rua dos Índios" para a Wanheré Uanhícó "Fazenda Sementeira", onde nasceu a nova aldeia Kariri-Xocó. No dia 31 de outubro de 1978, as famílias iniciaram uma nova etapa de sua história, levando consigo seus costumes, suas lembranças, suas raízes e a força de seus antepassados. Assim, os marcos dessas duas décadas representam não apenas mudanças nas moradias, na educação, na comunicação e nos caminhos, mas também um período de transformação na vida coletiva. Os anciãos continuam contando essas histórias para que os filhos, netos e futuras gerações compreendam que cada mudança deixou suas marcas na memória do povo. A história da Rua dos Índios e da Fazenda Sementeira permanece viva na tradição oral Kariri-Xocó, como testemunho de resistência, continuidade cultural e pertencimento ao território ancestral.
Atividade
Os estudantes poderão construir uma linha do tempo com depoimentos autorizados, fotografias antigas e atuais e documentos sobre as mudanças vividas pela comunidade entre as décadas de 1960 e 1970.
IZUTÉ UCHÉ NATIÁCHE: NOVO TEMPO ALDEIA NOVA KARIRI-XOCÓ
Na tradição oral do povo Kariri-Xocó, contamos que Izuté Uché Natiáche, o Novo Tempo da Aldeia Nova, representa uma caminhada de conquistas, resistência e transformação coletiva, construída ao longo das décadas de Yâmadê Tañe (1980), Yâmadê Biñe (1990), Tayâ (2000), Tayâ Bâkri (2010) e Tayâpri (2020). Na década de 1980, surgiu o Bypeddá, campo de futebol, seguido, em 1981, pelo conjunto de lyadê Bâkri, com 110 casas, pela instalação do Cunhenhé Uanieá, Posto Indígena da FUNAI, e pela Erátekié Uanieá, Escola Indígena; em 1985, foi construído outro conjunto habitacional, com Pribâ, 25 casas. Na década de 1990, chegaram importantes melhorias para a comunidade, como a Erádékan, Polo Base de Saúde, a Eráandzi, Farmácia, e a Pitédzu, Rede Hidráulica, acompanhada da Eraibáme Dzu, Estação de Água Tratada, além do conjunto Tapribâ, com 45 casas. Nos anos 2000, um novo marco educacional foi estabelecido com a construção da Erátekié Uanieá, Escola Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, fortalecendo o ensino e a valorização dos conhecimentos ancestrais. Na década de 2010, iniciou-se um novo Erádékan, Polo Base de Saúde, foram construídas 100 casas no conjunto lyadê, outras 200 unidades residenciais das Tadê e mais 50 casas em lyapa, no Cercado Grande, além da reforma da Pitéhine, Rede de Energia Elétrica. Já na década de 2020, a aldeia vivencia mais uma transformação com a implantação do Radacró, calçamento de pedras de paralelepípedo, melhorando as condições de circulação e a infraestrutura comunitária. Assim, cada obra, cada moradia, cada escola e cada serviço representa uma parte da memória viva do povo Kariri-Xocó, testemunhando o esforço das gerações que lutaram por melhores condições de vida sem abandonar suas raízes, sua identidade e seus saberes tradicionais. Na voz dos mais velhos, essas conquistas não são apenas construções materiais, mas marcas de uma história coletiva transmitida de geração em geração, na qual o passado orienta o presente e fortalece o futuro. Izuté Uché Natiáche é, portanto, a memória de um novo tempo, em que o desenvolvimento da Aldeia Nova Kariri-Xocó caminha junto com a ancestralidade, a união comunitária e a continuidade da cultura indígena para as futuras gerações.
Direitos indígenas e Constituição Federal de 1988
A Constituição Federal de 1988 representa um marco no reconhecimento dos direitos dos povos indígenas no Brasil.
O artigo 231 reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam e protege suas organizações sociais, costumes, línguas, crenças e tradições.
O artigo 232 reconhece aos indígenas, suas comunidades e organizações legitimidade para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, com a intervenção do Ministério Público nos termos constitucionais.
O estudo desses artigos permite compreender que os direitos indígenas são resultado de longas histórias de resistência, mobilização e reivindicação. A participação específica das lideranças Kariri-Xocó na Assembleia Nacional Constituinte deverá ser documentada com depoimentos autorizados e fontes históricas verificáveis.
Atividade prática: mini-documentário ou podcast
Os estudantes poderão produzir um registro audiovisual ou sonoro sobre a história recente da comunidade.
Etapas:
* Escolher um tema relacionado à memória territorial, à escola, às moradias ou às conquistas comunitárias.
* Preparar perguntas para lideranças, anciãos e moradores que desejem participar.
* Solicitar autorização para entrevistas e gravações.
* Registrar as informações com respeito à fala e à vontade das pessoas entrevistadas.
* Comparar os depoimentos com documentos e fotografias autorizados.
* Apresentar o trabalho à comunidade antes de qualquer divulgação pública.
METODOLOGIA DE ENSINO
A história de baixo para cima
A metodologia parte da realidade Kariri-Xocó para compreender a história regional e nacional. Em vez de iniciar exclusivamente por acontecimentos europeus, o percurso pedagógico começa pela comunidade, pelos conhecimentos dos anciãos, pelo território e pelas experiências das famílias.
A proposta valoriza:
* a oralidade como fonte de conhecimento;
* a investigação histórica e geográfica;
* o diálogo entre gerações;
* a pesquisa comunitária;
* a produção artística;
* o estudo da língua;
* a compreensão dos direitos indígenas.
Estratégias metodológicas
Rodas de conversa: promovem a escuta e o compartilhamento de conhecimentos.
Entrevistas: permitem registrar memórias com autorização e identificação das fontes.
Linhas do tempo: organizam acontecimentos e mudanças ao longo dos anos.
Mapas comunitários: representam lugares de memória, caminhos e transformações territoriais, respeitando os locais restritos.
Análise documental: desenvolve a capacidade de investigar autoria, contexto e finalidade de diferentes fontes.
Produções artísticas: favorecem a expressão de conhecimentos por meio de desenhos, pinturas, dramatizações e registros audiovisuais.
AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM
A avaliação será contínua, formativa e adequada à etapa escolar.
O professor observará a capacidade do estudante de:
* reconhecer os anciãos como fontes de conhecimento;
* identificar diferenças entre passado e presente;
* interpretar narrativas orais;
* relacionar acontecimentos ao território;
* compreender processos de colonização e resistência;
* valorizar a língua e a cultura Kariri-Xocó;
* analisar documentos e comparar informações;
* reconhecer os direitos indígenas;
* participar das atividades com respeito e responsabilidade.
Podem ser utilizados portfólios, registros escritos, desenhos, mapas, apresentações orais, murais, entrevistas e produções audiovisuais.
A avaliação deverá considerar o processo de aprendizagem, sem exigir que os estudantes revelem informações familiares ou conhecimentos tradicionais que não possam ser compartilhados.
PLANO DE AULA 1 — ANOS INICIAIS
Tema: UCHÉ WOROY TOKLI — Tempo da História Oral.
Público-alvo: 3º ano do Ensino Fundamental.
Duração: duas aulas de 50 minutos.
Objetivos
* Reconhecer a tradição oral como forma de transmissão de conhecimentos.
* Valorizar os anciãos como guardiões da memória.
* Identificar acontecimentos do passado e do presente.
* Produzir registros artísticos sobre a memória comunitária.
Materiais
Cartolina, papel kraft, lápis de cor, folhas, fotografias autorizadas, desenhos e caderno de registro.
Desenvolvimento passo a passo
1ª etapa — Acolhida (10 minutos)
O professor perguntará quem costuma contar histórias na família e o que os estudantes aprendem com as pessoas mais velhas.
2ª etapa — Escuta da narrativa (15 minutos)
Será realizada a leitura do texto UCHÉ WOROY TOKLI. Os estudantes serão convidados a ouvir com atenção e compartilhar suas impressões.
3ª etapa — Conversa orientada (10 minutos)
O professor explicará que a história pode ser transmitida pela fala, pela escrita, por fotografias, por objetos e por outros registros.
4ª etapa — Produção individual (25 minutos)
Cada estudante fará um desenho relacionado a uma lembrança familiar ou comunitária. Quem preferir poderá criar uma história ilustrada sem utilizar informações pessoais.
5ª etapa — Construção do mural (25 minutos)
A turma organizará as produções em um mural coletivo, com legendas e referências temporais simples.
6ª etapa — Socialização (15 minutos)
Os estudantes apresentarão suas produções e conversarão sobre a importância de escutar e respeitar os mais velhos.
Avaliação
Serão observadas a participação, a escuta respeitosa, a capacidade de identificar fontes de memória e a compreensão de passado e presente.
PLANO DE AULA 2 — ANOS INICIAIS
Tema: Os primeiros tempos do povo indígena na terra.
Público-alvo: 5º ano do Ensino Fundamental.
Duração: duas aulas de 50 minutos.
Objetivos
* Compreender que os povos indígenas já possuíam história antes da colonização.
* Identificar elementos geográficos importantes para a vida comunitária.
* Relacionar território, cultura e memória.
* Desenvolver habilidades básicas de representação cartográfica.
Desenvolvimento
1ª etapa: leitura compartilhada do texto BIHÉUCHÉ UANIEÁ RADÁ.
2ª etapa: localização do rio São Francisco em um mapa da região.
3ª etapa: discussão sobre a importância dos rios, das matas e dos caminhos para as comunidades.
4ª etapa: elaboração de um mapa ilustrado com elementos naturais e lugares de memória autorizados.
5ª etapa: apresentação dos mapas, com explicação das escolhas feitas pelos estudantes.
Avaliação
O professor observará se os estudantes compreendem a anterioridade histórica dos povos indígenas e conseguem relacionar território, ambiente e memória.
PLANO DE AULA 3 — ANOS FINAIS
Tema: Colonização, missões religiosas e resistência indígena.
Público-alvo: 7º ano do Ensino Fundamental.
Duração: três aulas de 50 minutos.
Objetivos
* Compreender as transformações decorrentes da colonização.
* Analisar criticamente documentos históricos.
* Reconhecer a resistência indígena às imposições culturais.
* Comparar fontes escritas e relatos orais.
Desenvolvimento
Aula 1 — Contextualização histórica
Leitura do texto sobre as missões religiosas no Baixo São Francisco e discussão sobre as mudanças provocadas pela colonização.
Aula 2 — Análise de fontes
Os grupos examinarão documentos ou mapas históricos, identificando autoria, data, finalidade e visão de mundo presente no material.
Aula 3 — Comparação e apresentação
Os estudantes compararão os documentos com narrativas orais autorizadas e elaborarão um painel sobre transformações, resistências e permanências culturais.
Avaliação
Serão avaliadas a capacidade de analisar fontes, formular perguntas, reconhecer diferentes perspectivas históricas e fundamentar conclusões.
PLANO DE AULA 4 — ANOS FINAIS
Tema: Memória da Aldeia Nova, território e direitos indígenas.
Público-alvo: 9º ano do Ensino Fundamental.
Duração: quatro aulas de 50 minutos.
Objetivos
* Investigar acontecimentos da história recente Kariri-Xocó.
* Construir uma linha do tempo comunitária.
* Compreender os artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988.
* Produzir um podcast ou mini-documentário com responsabilidade ética.
Desenvolvimento
Aula 1 — Pesquisa histórica
Os estudantes formularão perguntas sobre as mudanças na aldeia e identificarão fontes que possam ajudar a respondê-las.
Aula 2 — Direitos indígenas
A turma estudará os artigos 231 e 232 da Constituição, relacionando-os à história dos povos indígenas.
Aula 3 — Entrevistas
Serão realizadas entrevistas autorizadas ou analisados depoimentos previamente aprovados para uso pedagógico.
Aula 4 — Produção final
Os estudantes editarão o material, revisarão as informações e apresentarão o resultado à turma ou à comunidade, conforme as autorizações concedidas.
Avaliação
O professor considerará a qualidade das perguntas, a utilização responsável das fontes, a compreensão dos direitos indígenas e a clareza da produção final.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O livro Woroy Crodíba Tseho — História e Resistência do Povo Kariri-Xocó propõe um caminho educativo fundamentado na memória, na oralidade, na identidade cultural e no respeito ao território ancestral.
Ao conhecer as narrativas dos anciãos, os estudantes compreendem que a história de seu povo não se limita aos acontecimentos registrados nos documentos oficiais. Ela também vive nas lembranças familiares, nos conhecimentos tradicionais, nas práticas culturais, nos nomes dos lugares e nas experiências de resistência.
O estudo da colonização, das transformações territoriais e dos direitos indígenas permite relacionar a história local aos acontecimentos regionais e nacionais, desenvolvendo uma compreensão crítica da sociedade brasileira.
A valorização da língua Kariri-Xocó constitui outro elemento essencial da obra. Registrar palavras, compreender seus significados e transmiti-las às novas gerações são ações que contribuem para a continuidade cultural.
Este livro deve permanecer aberto à revisão, ao diálogo e à participação comunitária. A conferência de datas, acontecimentos, grafias e informações históricas fortalecerá sua qualidade pedagógica, enquanto a validação dos conhecimentos tradicionais assegurará o respeito à memória coletiva.
Que esta obra contribua para aproximar a escola da comunidade, fortalecer a identidade Kariri-Xocó e manter viva a palavra dos antepassados.
GLOSSÁRIO DA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ
A
Abati-uaupé — Arroz.
Aiby Uanieá — De Indígenas.
Aindzu — Mar.
Anran Karaí — Homem Branco.
Antse — Natureza.
Arankié — Céu.
B
Batti — Estrela, ano.
Battiá — Estrelas.
Batti, Yâ Ikirã — Ano de 1960, conforme a expressão contextual apresentada nos textos.
Bacobá — Banana.
Baté-jú Uanieá — Colônia Indígena.
Bechiéá — Roças.
Behedzí — Melancia.
Bewó Renghe — Tronco Velho.
Bidzamu — Pajé; guardião espiritual.
Bihéuché Uanieá Radá — Os primeiros tempos do indígena na Terra.
Batti, Ucheatti Kayaku — Calendário lunar, conforme a expressão contextual do texto.
Buyê — Grande Fogueira; espaço de reunião e transmissão da tradição oral.
Bypeddá — Campo de futebol.
C
Claixiúa-lhá — Nome pelo qual os indígenas Fulni-ô chamavam o padre Alfredo Dâmaso.
Cradzó — Boi.
Crikié — Orações cristãs.
Cródzu — Porto.
Curé — Porco.
Cunhenhé Uanieá — Posto Indígena.
Cunhenhé Uanieá Claixiúa-lhá — Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.
D
Dhaera — Região.
Dubuherí Samy — Mestre da Cultura.
Dutoá — Avô do Fogo.
Dzeye Kaiahoho — Guardiões do Passado.
Dzúnike — Avó da Água.
Dzurichi — Lagoa Comprida.
E
Eraandzi (Eráandzi) — Farmácia.
Eraibáme Dzu — Estação de Água Tratada.
Eracróunhá — Casa de Pedra e Tijolo.
Erádékan — Polo Base de Saúde.
Erádzó — Enfermaria.
Erá — Casa.
Eraháebé — Casa de Taipa e Telha.
Erapyupé — Casa de Palha de Arroz.
Erátekié — Colégio; escola, conforme o contexto.
Erátekié Uanieá — Escola Indígena.
Erantoá — Igreja.
Erintuca — Ovelha.
I
Iaboe Woroyá Idzeá Tsehoá — Mistura Histórica de Muitos Povos.
Ibiróá — Ambos os lados.
Igaborou — Cavalo.
Içá Kayaku — Lua das Formigas.
Iraminõn — O "Mel especial". Nome de ancião citado na tradição oral e na história do resgate linguístico.
Ireçê — O que ‘vem da corrente da água’.
Nome de ancião citado na memória ancestral.
Iuwó Merata — Estrada de Ferro.
Iuwóiró — Rodovia.
Iworó — Redondo.
Iwo — Rio.
Iwoá — Afluentes.
Izuté Uché Natiáche — Novo Tempo da Aldeia Nova.
H
Honédi Aiby Uanieá, Diretório dos Índios.
Honédi — Diretório.
K
Karaí — Brancos.
Kariri-Xocó Cródzu — Porto, expressão apresentada no contexto da formação do nome Porto Real do Colégio.
Kayaku — Lua.
Kenhéá — Costumes.
Keríá — Animais.
Keríerá — Animais domésticos.
Króeránaí — Porto Real do Colégio.
Kûá — Baía do Mar.
M
Matikay — Ritual do Ouricuri.
Meretá — Ferro.
Mŷcrisãsaí — Década.
Mydzé — Pesca.
N
Namorcaraí — Rei; aparece também na expressão Namorcaraí Peró, Rei de Portugal, e na expressão Namorcaraí Watidatè, Reino do Brasil.
Natiá — Aldeia.
Natiá Uolidze Opará — Aldeia na Foz do Rio.
Naticróbeá — Povoações, vilas e cidades.
Naticróraí — Povoação.
Natianie Dó Naticróraí — De Aldeia Indígena à Cidade dos Brancos, conforme o título apresentado no texto.
Nanhe — Chefe político; cacique.
Nhenetíá — Tradições.
Nikedda — Avó da Terra.
Namorcaraí Watidatè — Reino do Brasil.
Nunú Peró — Língua Portuguesa.
O
Opará — Rio São Francisco; nome ancestral do grande rio.
P
Peró — Português.
Pitédzu — Rede Hidráulica.
Pitéhine — Rede de Energia Elétrica.
Pribâ — Conjunto habitacional de 25 casas, conforme o texto.
Puruá Kayaku — Lua das Flores.
R
Radá — Terra.
Radacró — Calçamento de pedras de paralelepípedo.
Radamu Opará — Baixo São Francisco.
Radda — Mundo.
Rengheá — Mais velhos.
Renghe Dzeye Kaiahoho — Anciãos Guardiões do Passado, conforme o título do capítulo.
Retséá — Florestas.
Retsé Matikay — Floresta do Ouricuri.
Riné — Carne Salgada.
Rocruté — Roupas de pano.
S
Samy — Cultura.
Sitó — Caçada.
Sonsé — Criador; aquele a quem o texto atribui a criação do mundo.
Sumarãtó — Os Dois Avôs Sagrados.
Sumanike — As Duas Avós Sagradas.
Swbatekié — Conhecimentos acumulados.
T
Tadê — Nome do conjunto residencial mencionado no texto.
Tayâ — Década de 2000, conforme a nomenclatura temporal apresentada.
Tayâ Bâkri — Década de 2010, conforme a nomenclatura temporal apresentada.
Tayâpri — Década de 2020, conforme a nomenclatura temporal apresentada.
Tokuane (Uanie) — Indígena; a forma efetivamente registrada nos textos é Uanie.
Toklikli Nunuá — Línguas Indígenas.
Toá — Avôs; pessoas mais velhas que transmitem ensinamentos ancestrais.
Tokenhé Antoá — Antepassados Sagrados.
Tseho — Povo.
Tsehoá — Povos.
Tupãsy — Missão religiosa, conforme o contexto apresentado.
Tupãsy Marãe'ỹba Rekogaba — Missão de Nossa Senhora da Conceição.
U
Ubáye Cruté — Grande Canoa de Pano.
Ubuá — Plantas das grandes florestas.
Ucheatti Kayaku — Calendário Lunar.
Uché — Tempo.
Uchéba — Tempo vivido.
Uché Beté Anran Karaí — Tempo da Chegada do Homem Branco.
Uché Tokenhé — Tempo dos Antepassados.
Uché Woroy Tokli — Tempo da História Oral.
Uchebatti Santoá — Calendário dos Santos.
Uanie — Indígena.
Uanieá — Indígenas.
Uanieá Radá — Terra Indígena, conforme a expressão apresentada no texto.
Undé Maní — Lugar Longe.
Upuhtoá — Avô do Vento.
Urobi — Notícia.
Uocró Idabacrú — Ponte sobre o Rio Opará.
Urubumirim — Nome histórico de uma fazenda e localidade mencionado no texto.
W
Wanheré Cradzó — Fazenda de Gado.
Wanheré Uanhícó — Fazenda Sementeira.
Waré — Padres jesuítas e capuchinhos, conforme o contexto do texto.
Warudókli — Televisor.
Wathõ — Bode.
Watidatè — Brasil.
Watidatè Yetsoeho — Brasil República.
Woderáehó — Ruas retas e alinhadas.
Woderáehó Uanie — Rua dos Índios.
Wontyrõ — Mutirão.
Worobü Woroyá — Contadores de histórias.
Worobu Uché Karaí — Novo Tempo dos Brancos.
Woroyá — Histórias; narrativas transmitidas pela tradição oral.
Woroy Crodíba Tseho — História e Resistência do Povo.
Woroy Yetsoeho Watidatè Apage Uanieá — História Republicana do Brasil com a Exclusão Indígena.
Wãmyá — Peixes.
Y
Yâ Ikirã Keñe — Década de 1970.
Yâ Ikirã Soñe — Década de 1960.
Yâmadê Biñe — Década de 1990.
Yâmadê Tañe — Década de 1980.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Especialmente artigos 231 e 232. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm?utm_source=chatgpt.com . Acesso em: 20 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Brasília, DF: Presidência da República.
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BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CEB nº 5, de 22 de junho de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica.
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SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é apresentado nesta obra como autor comprometido com a preservação e a transmissão da memória ancestral de seu povo. Seu trabalho busca valorizar a tradição oral, os conhecimentos dos mais velhos, a história territorial e a importância da língua e da cultura Kariri-Xocó para as novas gerações.
Por meio desta proposta pedagógica, o autor pretende contribuir para que professores e estudantes conheçam a história de sua comunidade, reconheçam a importância dos antepassados e compreendam os processos de resistência e continuidade cultural.
Sua trajetória biográfica, suas experiências comunitárias, suas contribuições para o registro linguístico e suas referências ancestrais poderão ser ampliadas nesta seção com informações fornecidas ou aprovadas pelo próprio autor.
ORIENTAÇÕES PARA A VERSÃO DEFINITIVA DO LIVRO
Antes da publicação, recomenda-se:
* Revisar a grafia, a pronúncia e os significados dos termos Kariri-Xocó com pessoas indicadas pela comunidade.
* Conferir datas, acontecimentos, nomes de instituições e informações territoriais em fontes históricas.
* Validar os textos de tradição oral com seus detentores, respeitando conhecimentos restritos.
* Completar os dados da biografia do autor conforme sua vontade.
* Providenciar a ficha catalográfica definitiva e um ISBN válido, caso a obra seja publicada formalmente.
* Revisar as atividades pedagógicas com professores e representantes da educação escolar indígena.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó



