segunda-feira, 24 de agosto de 2026

PEÇA TEATRAL, CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO






Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Autor:
Nhenety Kariri-Xocó





1. FALSA FOLHA DE ROSTO

PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio — Alagoas
Brasil
2026




2. FOLHA DE ROSTO

PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Obra dramatúrgica de caráter histórico-cultural dedicada à preservação da memória indígena de Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco.

Porto Real do Colégio — Alagoas
2026




3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra integra a produção literária, histórica e cultural de Nhenety Kariri-Xocó e foi concebida como registro dramatúrgico de memória, tradição oral e identidade cultural.

É permitida a utilização da obra para fins educativos, culturais e comunitários, desde que preservados a autoria, o título da obra e o devido reconhecimento ao autor.

A representação pública da peça deverá respeitar os elementos culturais Kariri-Xocó nela apresentados, especialmente aqueles relacionados ao Toré, aos maracás, à memória dos antepassados e aos conhecimentos tradicionais.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Título: Peça Teatral Chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio
Natureza: Peça teatral histórico-cultural
Ano: 2026
Local de referência: Porto Real do Colégio — Alagoas — Brasil




4. FICHA CATALOGRÁFICA

Nhenety Kariri-Xocó

Peça teatral chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio: peça teatral histórico-cultural em memória dos Kariri / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.

Obra teatral histórico-cultural.

Teatro histórico.

História indígena.

Kariri-Xocó.

Porto Real do Colégio.

Rio São Francisco — Opará.

Memória e tradição oral.

D. Pedro II.

Cultura indígena.

Dramaturgia.

CDD: 869.2
CDU: 82-2

Ficha catalográfica em caráter editorial simbólico, destinada à organização desta edição.




5. ISBN — SIMBÓLICO

ISBN: 978-65-00000-00-0

ISBN simbólico utilizado exclusivamente para composição editorial e organização preliminar desta obra. Não representa registro oficial de ISBN.




6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.




7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR

A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 




8. DEDICATÓRIA

Dedico esta peça teatral aos meus antepassados Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da memória, da cultura e da vida às margens do Opará.

Dedico aos anciãos e anciãs que conservaram histórias que não foram escritas, mas permaneceram vivas na voz do povo.

Dedico às crianças e aos jovens de Porto Real do Colégio, para que possam conhecer, representar e transmitir às futuras gerações as memórias de sua terra.

Dedico também ao Opará, nosso grande Rio São Francisco, testemunha silenciosa de tantos caminhos, encontros, partidas e acontecimentos.

Que esta obra seja mais uma canoa de memória navegando pelas águas do tempo.

Nhenety Kariri-Xocó





9. AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos meus antepassados, cuja presença permanece viva na memória, na palavra, na cultura e na identidade do povo Kariri-Xocó.

Agradeço aos anciãos, mestres da tradição, contadores de histórias, mulheres, homens, crianças e jovens que mantêm viva a cultura indígena de Porto Real do Colégio.

Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, espaço de pertencimento e fonte permanente de inspiração para esta obra.

Agradeço ao Opará — Rio São Francisco —, presença fundamental na história e na vida dos povos que habitam suas margens.

Agradeço a todos aqueles que, por meio da oralidade, da pesquisa, da literatura, da memória familiar e da convivência comunitária, contribuem para que acontecimentos do passado continuem sendo conhecidos pelas novas gerações.

Agradeço especialmente aos leitores, educadores, estudantes, artistas e grupos culturais que possam levar esta peça aos palcos e aos espaços de aprendizagem.

Que cada apresentação seja também um ato de preservação da memória.




10. EPÍGRAFE

“O rio leva as águas para o mar;
o povo leva a memória para o futuro.”

Nhenety Kariri-Xocó





11. PREFÁCIO DO VOLUME

Uma peça teatral pode nascer para o palco, mas algumas histórias pedem para permanecer também nas páginas de um livro.

Esta obra nasce desse desejo de preservar uma memória histórica e cultural relacionada à chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio, em 16 de outubro de 1859.

O acontecimento é aqui apresentado por meio da linguagem teatral, permitindo que personagens históricos, indígenas, moradores, autoridades e o próprio Opará dialoguem diante do leitor e, posteriormente, diante do público.

A dramaturgia transforma a memória em presença.

O que aconteceu no passado deixa de ser apenas uma data distante e passa a possuir voz, movimento, silêncio, música, personagens e cena.

Nesta peça, o Opará assume uma função simbólica especial. Ele é rio e testemunha; caminho e memória; paisagem e personagem.

Suas águas atravessam o tempo e permitem estabelecer uma ligação entre o acontecimento histórico e as gerações que continuam contando essa história.

A obra também procura valorizar a presença indígena na narrativa, colocando em destaque personagens como Pedro Lolaço, Manoel Baltazar e seu filho Manoel Paulo, além das crianças Martinha e João Pereira Pirigipe e dos demais nomes preservados pela tradição oral.

Assim, este volume não pretende ser apenas um texto teatral.

Pretende ser também um instrumento de memória.

Um livro que possa ser lido, estudado, encenado e transmitido.

Um livro que possa chegar às escolas, às comunidades, aos espaços culturais e aos lugares onde a memória de um povo continua sendo contada.





12. RESUMO

Peça Teatral Chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio é uma obra dramatúrgica histórico-cultural de Nhenety Kariri-Xocó que apresenta, em linguagem teatral, a chegada do Imperador D. Pedro II a Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco —, em 16 de outubro de 1859.

A narrativa acompanha os preparativos da comunidade para a recepção da comitiva imperial, a chegada de D. Pedro II e da Imperatriz Dona Teresa Cristina, a participação das autoridades locais, a visita à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a demonstração de arco e flecha realizada por Manoel Baltazar e a apresentação do Toré pelos indígenas.

A peça também procura preservar os nomes associados à memória daquele acontecimento e destaca a importância da tradição oral como instrumento de transmissão histórica.

O Opará é apresentado como personagem simbólico e guardião da memória, acompanhando o desenvolvimento da narrativa desde o prólogo até o epílogo.

A obra articula história, dramaturgia, oralidade, identidade indígena e memória coletiva, propondo que a representação teatral seja também uma forma de preservar e transmitir conhecimentos às novas gerações.

Palavras-chave: Teatro histórico; Kariri-Xocó; Porto Real do Colégio; Opará; Rio São Francisco; memória indígena; tradição oral; D. Pedro II; cultura indígena.





13. ABSTRACT

The Play The Arrival of D. Pedro II in Porto Real do Colégio is a historical-cultural theatrical work by Nhenety Kariri-Xocó that presents, through dramatic language, the arrival of Emperor D. Pedro II in Porto Real do Colégio, on the banks of the Opará — São Francisco River — on October 16, 1859.

The narrative follows the preparations of the community for the reception of the imperial delegation, the arrival of Emperor D. Pedro II and Empress Teresa Cristina, the participation of local authorities, the visit to the Church of Our Lady of the Conception, the bow-and-arrow demonstration by Manoel Baltazar, and the Toré performed by the Indigenous people.

The play also seeks to preserve the names associated with the memory of that event and emphasizes oral tradition as an important means of historical transmission.

The Opará is presented as a symbolic character and guardian of memory, accompanying the narrative from the prologue to the epilogue.

The work brings together history, drama, oral tradition, Indigenous identity and collective memory, proposing theatrical performance as another means of preserving and transmitting knowledge to future generations.

Keywords: Historical theater; Kariri-Xocó; Porto Real do Colégio; Opará; São Francisco River; Indigenous memory; oral tradition; D. Pedro II; Indigenous culture.






14. APRESENTAÇÃO

Este livro apresenta uma peça teatral construída a partir da memória histórica e cultural relacionada à chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio.

A escolha da linguagem teatral não é casual.

O teatro permite que a memória seja vista, ouvida e vivenciada.

Uma data pode ser lida.

Uma história pode ser contada.

Mas uma história representada no palco ganha corpo.

Os personagens caminham, conversam, lembram, recebem visitantes, celebram, partem e deixam para trás uma memória que poderá ser novamente apresentada pelas novas gerações.

Nesta obra, o passado é conduzido pelo Narrador e acompanhado pelo Opará, personagem simbólico que representa o grande Rio São Francisco e sua capacidade de testemunhar a passagem do tempo.

A presença indígena ocupa lugar central na narrativa.

A recepção do Imperador não é apresentada somente como acontecimento da história política do Brasil, mas como acontecimento vivido em uma comunidade indígena situada às margens do Opará.

O arco e a flecha, o Toré, os maracás, os nomes dos participantes e a memória transmitida oralmente tornam-se elementos fundamentais da dramaturgia.

Dessa maneira, a peça procura estabelecer uma ponte entre o passado e o presente.

Entre os que viveram.

Os que lembraram.

Os que contaram.

E os que hoje continuam contando.





15. NOTA DO AUTOR

Escrever esta peça é também uma forma de caminhar pela memória.

A história de um povo não está somente nos documentos oficiais.

Ela está nas histórias contadas pelos mais velhos, nos nomes preservados pelas famílias, nas lembranças transmitidas entre gerações e nos lugares que continuam testemunhando a passagem do tempo.

Porto Real do Colégio possui uma relação profunda com o Opará.

O rio está presente na paisagem, na vida, na história e na memória de seu povo.

Por isso, nesta peça, o Opará recebe voz.

Ele representa a continuidade.

Enquanto pessoas passam, gerações mudam e acontecimentos se tornam antigos, o rio permanece correndo.

Assim também acontece com a memória.

Quando alguém conta uma história, ela continua vivendo.

Esta peça foi concebida para que a chegada de D. Pedro II possa ser apresentada não somente como acontecimento histórico, mas como narrativa cultural.

O palco torna-se, portanto, um espaço de encontro entre passado e presente.




16. MEMÓRIA DO AUTOR

Minha trajetória como contador de histórias está ligada à memória do meu povo.

Desde as histórias transmitidas pela oralidade até as experiências de pesquisa, escrita e produção cultural, compreendi que contar uma história também é uma maneira de proteger aquilo que não queremos esquecer.

O nome Nhenety está ligado a essa caminhada de contar, registrar e compartilhar histórias.

A literatura tornou-se uma ferramenta para transformar a memória oral em palavra escrita sem deixar de reconhecer que a oralidade continua sendo uma das grandes guardiãs dos conhecimentos tradicionais.

Esta peça nasce dentro dessa perspectiva.

Ela procura aproximar o teatro da memória indígena e da história de Porto Real do Colégio.

Ao colocar no palco personagens históricos e personagens simbólicos, busco criar uma narrativa que possa ser apresentada por diferentes gerações.

O teatro pode ser realizado por jovens.

Pode ser apresentado pelos mais velhos.

Pode reunir crianças, estudantes, artistas, professores e integrantes da comunidade.

E, sobretudo, pode fazer com que uma história seja novamente ouvida.

É nesse sentido que esta obra participa da minha caminhada como contador de histórias e guardião da memória cultural.





17. INTRODUÇÃO

No ano de 1859, uma visita imperial marcou a história de Porto Real do Colégio.

Em 16 de outubro daquele ano, D. Pedro II chegou à povoação acompanhado de sua comitiva, incluindo a Imperatriz Dona Teresa Cristina.

A visita ocorreu no contexto da viagem realizada pelo Imperador pelas regiões banhadas pelo Rio São Francisco.

Para a comunidade de Colégio, aquele acontecimento passou a integrar uma memória que atravessou gerações.

A presente peça procura transformar essa memória em dramaturgia.

Seu ponto de partida é a chegada.

Mas seu tema maior é a memória.

Por isso, o espetáculo começa com o Opará falando.

O rio não é apenas o lugar onde a história acontece.

Ele é apresentado como testemunha do acontecimento.

A partir do anúncio da chegada, a narrativa acompanha os preparativos realizados pela comunidade, a participação das autoridades locais, a chegada da comitiva imperial, a passagem pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a demonstração de arco e flecha de Manoel Baltazar e o Toré iniciado por seu filho Manoel Paulo.

O texto também recupera nomes preservados na tradição oral, incluindo Manoel Paulo, João Xavier Botó, Vicente Ferreira Botó, Manoel Roberto Poité, Rosa Ferreira Botó, Luzia de Oliveira, Maria Pirigipe e Maria Tomazia.

Duas crianças aparecem de maneira especial: Martinha, apresentada como menina de onze anos, e João Pereira Pirigipe, menino de doze anos.

A presença dessas crianças possui significado simbólico.

Elas representam a continuidade.

São personagens que permitem imaginar como a memória de um grande acontecimento poderia atravessar gerações.

A peça chega finalmente à despedida.

O vapor Humaitá segue pelo Opará.

A comitiva parte.

Mas a memória permanece.

O rio continua correndo.

E a história continua sendo contada.

É nesse ponto que a dramaturgia encontra sua finalidade maior:

preservar a memória por meio da palavra, da cena e da transmissão entre gerações.




18. SUMÁRIO

1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN – Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Peça
18. Introdução
19. Peça Teatral
20. Personagens
21. Prólogo – O Opará Guarda a Memória
Ato I – A Notícia da Chegada
Ato II – O Aviso a Baltazar
Ato III – A Comitiva Imperial
Ato IV – A Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Ato V – A Flecha de Baltazar
Ato VI – O Toré
Ato VII – Os Nomes que Ficaram
Ato VIII – A Despedida 
Ato IX – A Memória de 16 de Outubro
22. Epílogo – O Rio Continua
23. Nota de Encenação
24. Frase Final para o Programa
25. Considerações Finais
26. Fonte da Narrativa
27. Sobre o Autor: Nhenety Kariri-Xocó



19. PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

PEÇA TEATRAL HISTÓRICO-CULTURAL EM MEMÓRIA DOS KARIRI

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

20. PERSONAGENS

NARRADOR(A) — apresenta os acontecimentos e conduz a história.

OPARÁ — representa simbolicamente o Rio São Francisco e a memória das águas.

D. PEDRO II — Imperador do Brasil.

DONA TERESA CRISTINA — Imperatriz.

MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS — Presidente da Província de Alagoas.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS — Diretor Parcial do Aldeamento de Colégio.

PEDRO LOLAÇO — capitão indígena.

MANOEL BALTAZAR — chefe indígena.

PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO — vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

MANOEL PAULO — FILHO DE BALTAZAR — indígena adulto que inicia o Toré.

MARTINHA — menina indígena de 11 anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE — menino indígena de 12 anos.

CORO — indígenas, moradores, autoridades e integrantes da comitiva.

21. PRÓLOGO

O Opará Guarda a Memória

[Palco em meia-luz. Ouve-se suavemente o som das águas do Rio São Francisco. O CORO permanece ao fundo.]


NARRADOR(A):

Estamos em Porto Real do Colégio.

É o ano de 1859.

Às margens do grande Rio São Francisco, o Opará, vivia o povo indígena de Colégio.

Naquele tempo, o Aldeamento de Colégio havia um Diretor Parcial.

E naquele ano chegou uma notícia que movimentou toda a povoação.


[O OPARÁ entra lentamente.]

OPARÁ:

Eu sou o Opará.

Rio de muitas histórias.

Por minhas águas passam embarcações, pessoas e acontecimentos.

E há dias que o tempo não consegue apagar.

Um desses dias foi 16 de outubro de 1859.

Naquele dia...

o Imperador do Brasil chegou a Porto Real do Colégio.

[Som suave de águas.]


NARRADOR(A):

E assim começou uma visita que seria lembrada por muitas gerações.




ATO I — A NOTÍCIA DA CHEGADA




[ JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS: O DIRETOR PARCIAL entra acompanhado de alguns integrantes do CORO.]

NARRADOR(A):

O Diretor Parcial do Aldeamento de Colégio recebeu a notícia:

D. Pedro II havia chegado a Penedo, em Alagoas.

O Imperador visitaria cidades, povoados e aldeias às margens do Opará.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

O Imperador está vindo para Porto Real do Colégio.

Precisamos preparar a recepção.

Chamem o capitão Pedro Lolaço.

[Entra PEDRO LOLAÇO.]

PEDRO LOLAÇO:

Senhor Diretor.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Pedro Lolaço, vá até a Rua dos Índios.

Avise ao chefe indígena Baltazar que o Imperador está chegando.

Ele deverá participar da comitiva de recepção.

PEDRO LOLAÇO:

Sim, senhor.

Vou imediatamente.

[PEDRO LOLAÇO sai.]

OPARÁ:

A notícia correu pela aldeia.

E logo todos começaram a esperar a chegada.




ATO II — O AVISO A BALTAZAR




[Cena representando a Rua dos Índios. MANOEL BALTAZAR está com alguns indígenas.]

[Entra PEDRO LOLAÇO.]

PEDRO LOLAÇO:

Baltazar!

MANOEL BALTAZAR:

O que aconteceu, Pedro Lolaço?

PEDRO LOLAÇO:

O Diretor mandou avisar:

D. Pedro II está vindo para Porto Real do Colégio.

MANOEL BALTAZAR:

O Imperador?

PEDRO LOLAÇO:

Sim.

Ele virá com sua comitiva.

MANOEL BALTAZAR:

Então devemos receber a todos com respeito.

Vamos preparar o povo.

CORO:

O Imperador está chegando!

MANOEL BALTAZAR:

Nossa gente estará presente.

OPARÁ:

E eu também.

Porque uma grande visita estava chegando pelas minhas águas.




ATO III — A COMITIVA IMPERIAL




[Som de vapor e máquina. O CORO representa a população reunida.]

NARRADOR(A):

A comitiva imperial chegou.

Com D. Pedro II estavam a Imperatriz Dona Teresa Cristina, o Presidente da Província de Alagoas, Manuel Pinto de Souza Dantas, e outras autoridades do Império.

[Entram D. PEDRO II, DONA TERESA CRISTINA, MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS e integrantes da COMITIVA.]

[ JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS  aproxima-se.]

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Sejam bem-vindos a Porto Real do Colégio!

Sejam bem-vindos, Majestade, Imperatriz e membros da comitiva imperial.

D. PEDRO II:

Agradeço a recepção.

É uma satisfação chegar a Porto Real do Colégio.

DONA TERESA CRISTINA:

É uma bela terra às margens do São Francisco.

MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS:

Uma recepção calorosa.

CORO:

Sejam bem-vindos!

OPARÁ:

A comitiva chegou.

E o povo estava pronto para receber seus visitantes.




ATO IV — A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO



[Todos se dirigem para o espaço que representa a igreja.]

NARRADOR(A):

Logo após a chegada, a comitiva imperial dirigiu-se à Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Ali seria celebrada a missa.

[Entra PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO.]

PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO:

Sejam todos bem-vindos.

Que este momento seja celebrado com respeito e fé.

[D. PEDRO II e DONA TERESA CRISTINA permanecem em posição de oração.]

NARRADOR(A):

O Padre Manoel Pires de Carvalho, vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, ministrou a missa.

[Breve pausa.]

OPARÁ:

Depois da oração...

a comitiva voltou para o espaço da praça.

E ali aconteceria um momento que ficaria na memória.




ATO V — A FLECHA DE BALTAZAR




[Espaço aberto representando a praça. Um mourão ou alvo cenográfico é colocado.]

NARRADOR(A):

No meio da praça, D. Pedro II chamou o chefe indígena Baltazar.

D. PEDRO II:

Baltazar.

Gostaria de ver sua habilidade com o arco e a flecha.

MANOEL BALTAZAR:

Sim, Majestade.

D. PEDRO II:

Então demonstre sua habilidade.

[MANOEL BALTAZAR prepara o arco.]

NARRADOR(A):

Baltazar preparou seu arco.

A praça ficou em silêncio.

Todos olharam para o alvo.

[Breve silêncio.]

NARRADOR(A):

Baltazar lançou a flecha.

[Efeito teatral seguro. A flecha cenográfica atinge o mourão.]

CORO:

Ah!

[Reação de alegria.]

D. PEDRO II:

Muito bem!

MANOEL BALTAZAR:

Obrigado, Majestade.

[D. PEDRO II volta-se para o povo.]

D. PEDRO II:

Viva os Índios de Porto Real do Colégio!

CORO E POVO:

Viva!

D. PEDRO II:

Viva!

CORO E POVO:

Viva!

TODOS:

VIVA OS ÍNDIOS DE PORTO REAL DO COLÉGIO!

[Maracás.]

OPARÁ:

E aquele grito ficou guardado nas minhas águas.




ATO VI — O TORÉ




[MANOEL BALTAZAR chama seu filho Manoel Paulo.]

MANOEL BALTAZAR:

Meu filho, Manoel Paulo!

Venha. É hora de iniciar o Toré.

Entra MANOEL PAULO, FILHO DE BALTAZAR.]

MANOEL PAULO:

Sim, meu pai.

[Os indígenas se organizam.]

NARRADOR(A):

Baltazar ordenou a seu filho Manoel Paulo, já adulto, que iniciasse o Toré com os indígenas.

Os maracás começaram a soar.

[O Toré é iniciado conforme orientação dos mestres e detentores da tradição Kariri-Xocó.]

CORO:

O Toré começou.

O povo se reuniu.

A memória se levantou.

[A dança continua brevemente.]

DONA TERESA CRISTINA:

Que bela manifestação!

D. PEDRO II:

É uma recepção muito especial.

OPARÁ:

Aquele momento também seria lembrado.

Porque os nomes daqueles que cantaram e dançaram ficaram guardados na tradição oral.





ATO VII — OS NOMES QUE FICARAM




[O Toré diminui lentamente. O NARRADOR fica à frente.]

NARRADOR(A):

Os mais velhos ainda preservam os nomes daqueles que participaram daquele dia memorável.

[Cada nome pode ser chamado por um integrante do CORO.]

CORO:

Manoel Paulo!

João Xavier Botó!

Vicente Ferreira Botó!

Manoel Roberto Poité!

Rosa Ferreira Botó!

Luzia de Oliveira!

Maria Pirigipe!

Maria Tomazia!

NARRADOR(A):

E havia também crianças.

MARTINHA:

Meu nome era Martinha.

Eu tinha apenas onze anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

Eu era João Pereira Pirigipe.

Tinha doze anos.

CORO:

Onze anos.

Doze anos.

Crianças que também ficaram na memória.

NARRADOR(A):

Seus nomes atravessaram o tempo.

De geração em geração.

OPARÁ:

Porque aquilo que um povo guarda...

não desaparece facilmente.






ATO VIII — A DESPEDIDA




[Som do vapor.]

NARRADOR(A):

A comitiva imperial ficou feliz com a recepção calorosa dos indígenas de Porto Real do Colégio e de toda a população.

Mas a viagem precisava continuar.

O vapor Humaitá aguardava.

D. PEDRO II:

Agradeço a todos pela recepção.

DONA TERESA CRISTINA:

Levarei comigo a lembrança deste lugar.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Porto Real do Colégio agradece a presença de Vossas Majestades.

MANOEL BALTAZAR:

Que tenham uma boa viagem.

PEDRO LOLAÇO:

Que o caminho pelo Opará seja tranquilo.

CORO:

Boa viagem!

OPARÁ:

O vapor Humaitá subiu novamente pelo Rio São Francisco.

A comitiva seguiria para outras povoações e aldeias do Opará.

[Som de vapor aumentando.]






ATO IX — A MEMÓRIA DE 16 DE OUTUBRO




[O palco fica mais silencioso.]

NARRADOR(A):

O Imperador partiu.

O vapor seguiu pelo rio.

Mas a história ficou.

Na tradição oral de Porto Real do Colégio, permaneceu a lembrança daquele dia:

16 de outubro de 1859.

MANOEL BALTAZAR:

A flecha ficou na memória.

MARTINHA:

Os nomes ficaram na memória.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

O Toré ficou na memória.

PEDRO LOLAÇO:

A chegada ficou na memória.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

A recepção ficou na memória.

OPARÁ:

E eu continuei correndo.

Levando as águas...

e guardando as histórias.

EPÍLOGO

O RIO CONTINUA

[Todos os personagens retornam ao palco.]

NARRADOR(A):

Passaram-se os anos.

Passaram-se as gerações.

Mas a visita de D. Pedro II continuou sendo contada.

CORO:

De geração em geração!

NARRADOR(A):

Porque a memória de um povo não vive somente nos livros.

Vive também na palavra.

Na lembrança.

Na tradição.

Na voz dos mais velhos.

E na escuta dos jovens.

MARTINHA:

Eu tinha onze anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

Eu tinha doze.

MANOEL BALTAZAR:

E naquele dia a flecha acertou o mourão.

CORO:

E o Imperador gritou:

D. PEDRO II:

VIVA OS ÍNDIOS DE PORTO REAL DO COLÉGIO!

TODOS:

VIVA!

VIVA!

VIVA!

[Maracás.]

OPARÁ:

Eu sou o Opará.

Eu vi a chegada.

Eu vi a recepção.

Eu ouvi o Toré.

Eu ouvi o grito.

E continuo correndo...

levando comigo a memória daquele dia.

NARRADOR(A):

16 de outubro de 1859.

Uma data guardada pela tradição oral de Porto Real do Colégio.

Uma história que atravessou gerações.

CORO:

Enquanto houver quem conte...

a memória continuará viva!

TODOS:

ENQUANTO O OPARÁ CORRER...

A MEMÓRIA CONTINUARÁ VIVA!

[Maracás.]

[Breve momento final de Toré, conforme orientação dos mestres e detentores da tradição.]

[As luzes diminuem lentamente.]


FIM



22. NOTA DE ENCENAÇÃO

Esta versão foi construída a partir da narrativa histórica simplificada de Nhenety Kariri-Xocó, privilegiando a sequência dos acontecimentos e facilitando sua apresentação por jovens e integrantes da comunidade.

O OPARÁ pode ser representado por um único jovem ou por um pequeno grupo, utilizando tecidos azuis, movimentos corporais e iluminação para sugerir as águas do Rio São Francisco.

A chegada do vapor Humaitá não necessita de uma embarcação cenográfica. Pode ser representada por som de máquina a vapor, iluminação, movimento dos atores e efeitos sonoros.

A cena do arco e flecha de Manoel Baltazar deve utilizar exclusivamente recursos teatrais seguros: flecha cenográfica, alvo preparado e efeito sonoro ou luminoso.

O Toré deve ser conduzido pelos próprios mestres, anciãos e detentores da tradição Kariri-Xocó, respeitando os cantos, maracás, movimentos e demais elementos culturais apropriados para apresentação pública.

Os integrantes do CORO podem representar simultaneamente indígenas da aldeia, moradores de Porto Real do Colégio, integrantes da comitiva imperial e outras pessoas presentes na recepção.

A duração pode variar aproximadamente entre 25 e 35 minutos, dependendo do tempo destinado ao Toré, à missa representada cenicamente e às transições.



23. FRASE FINAL PARA O PROGRAMA

“O rio leva as águas para o mar; o povo leva a memória para o futuro.”

Nhenety Kariri-Xocó




24. FONTE DA NARRATIVA

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. O Imperador e o Opará: D. Pedro II Entre os Kariri de Porto Real do Colégio. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/07/o-imperador-e-o-opara-d-pedro-ii-entre.html?m=0 . 




25. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos ao final desta peça, mas não ao final da história.

A chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio, em 16 de outubro de 1859, pertence a um tempo distante. Entretanto, os acontecimentos do passado continuam encontrando caminhos para chegar ao presente. Um desses caminhos é a memória.

Nesta obra, a memória encontrou o teatro.

As personagens caminharam pela cena, as autoridades chegaram, a comunidade se preparou, o Imperador e a Imperatriz foram recebidos, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi visitada, o arco e a flecha de Manoel Baltazar foram apresentados e o Toré marcou a presença indígena naquele momento histórico.

Mas, acima de tudo, a peça procurou mostrar que a história não é formada somente por grandes autoridades ou acontecimentos registrados em documentos.

Ela também é construída pelas pessoas que estavam ali.

Pelos homens e mulheres da comunidade.

Pelos indígenas que participaram daquele encontro.

Pelas crianças que representam a continuidade das gerações.

Pelos nomes que permaneceram guardados na memória.

Pelas vozes dos que contaram aquilo que ouviram de seus antepassados.

Por isso, esta dramaturgia procura estabelecer uma conversa entre a história documentada e a memória cultural.

O Opará ocupa, nesse percurso, um lugar especial.

Suas águas testemunharam a passagem da comitiva imperial, mas também testemunharam muitas outras histórias antes e depois daquele acontecimento. O rio permanece enquanto as gerações passam.

Ele representa, portanto, a continuidade.

Quando o vapor Humaitá parte e a comitiva desaparece no horizonte, a história não termina.

O rio continua.

A comunidade continua.

A cultura continua.

A memória continua.

É justamente nessa continuidade que o teatro encontra sua força.

Uma peça pode ser apresentada hoje e novamente daqui a muitos anos. Cada geração poderá assumir os personagens, interpretar suas falas e reconstruir, por meio da cena, uma passagem da história de Porto Real do Colégio.

Assim, esta obra pode servir como instrumento de leitura, pesquisa, educação, representação artística e transmissão cultural.

Que crianças e jovens possam encontrar nestas páginas uma porta para conhecer o passado.

Que educadores possam utilizar o teatro como instrumento de aprendizagem.

Que artistas possam transformar estas palavras em presença no palco.

Que os mais velhos possam reconhecer nelas o valor da memória.

E que a comunidade possa continuar contando sua própria história.

A memória não pertence somente ao passado.

Ela pertence também ao futuro.

Quando uma geração conta uma história para outra, estabelece-se uma ponte entre os tempos.

Esta peça pretende ser uma dessas pontes.

Uma ponte entre o acontecimento de 1859 e o presente.

Entre a história escrita e a tradição oral.

Entre o palco e a comunidade.

Entre os antepassados e as novas gerações.

E, sobretudo, entre o povo e sua memória.

Que o Opará continue correndo.

Que os maracás continuem anunciando a presença da cultura.

Que o Toré continue sendo expressão de identidade e pertencimento.

Que os nomes dos antepassados continuem sendo lembrados.

E que esta obra possa contribuir, ainda que modestamente, para que a história de Porto Real do Colégio e a memória dos povos indígenas que vivem às margens do Opará permaneçam vivas.

Porque enquanto houver alguém para contar,

a história continuará caminhando.

E enquanto o povo guardar sua memória,

nenhuma história verdadeiramente desaparecerá.

Nhenety Kariri-Xocó





26. SOBRE O AUTOR

NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor e produtor cultural ligado à memória, à cultura e aos saberes do povo Kariri-Xocó.

Sua trajetória literária nasce da oralidade e do compromisso com a preservação das histórias transmitidas entre gerações.

Em seu trabalho, a palavra escrita dialoga com a memória dos antepassados, com a tradição oral, com a cultura indígena e com a paisagem histórica de Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco.

Como contador de histórias, Nhenety compreende a narrativa como instrumento de preservação cultural.

Contar uma história significa, para ele, manter viva uma memória e possibilitar que aquilo que foi recebido dos mais velhos possa alcançar as novas gerações.

Sua produção reúne diferentes formas literárias e culturais, incluindo contos, fábulas, cordéis, narrativas históricas, textos sobre cultura indígena e obras voltadas à valorização da memória Kariri-Xocó.

Em sua escrita, nomes de pessoas, lugares, acontecimentos, costumes, conhecimentos tradicionais e lembranças familiares tornam-se elementos de uma literatura comprometida com a identidade e com a continuidade cultural.

A presente obra representa mais uma etapa dessa caminhada.

Ao transformar a chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio em uma peça teatral, Nhenety aproxima a história do palco e possibilita que uma memória do século XIX seja novamente apresentada às gerações do presente.

Sua dramaturgia procura unir pesquisa, oralidade, imaginação cênica e memória cultural, sem perder de vista a importância dos conhecimentos transmitidos pelos antepassados.

O Opará — Rio São Francisco — aparece frequentemente como elemento fundamental de sua visão narrativa.

Para além de sua dimensão geográfica, o rio representa caminho, testemunho, vida, território e continuidade.

É nesse espaço de memória que sua escrita encontra parte importante de sua inspiração.

Como autor e contador de histórias, Nhenety também acredita na importância de registrar as narrativas para que elas possam circular entre escolas, comunidades, leitores, pesquisadores, artistas e novas gerações.

Sua produção literária constitui, assim, uma forma de documentação cultural e de valorização da memória indígena.

Seu trabalho procura afirmar que os povos indígenas não são apenas personagens da história: são também narradores, autores, guardiões e produtores de suas próprias memórias.

Nesta peça teatral, essa perspectiva encontra expressão por meio da cena.

Os personagens históricos dialogam com personagens simbólicos; o passado conversa com o presente; e o Opará transforma-se em testemunha da passagem do tempo.

A obra de Nhenety Kariri-Xocó permanece, dessa maneira, vinculada a uma missão maior:

contar para preservar, escrever para lembrar e transmitir para que a memória continue viva.

Nhenety Kariri-Xocó

Contador de Histórias — Escritor — Guardião da Memória Cultural

Porto Real do Colégio — Alagoas — Brasil





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



 



segunda-feira, 17 de agosto de 2026

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA VERSÃO AMPLIADA





1. FALSA FOLHA DE ROSTO

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA

VERSÃO AMPLIADA

Nhenety Kariri-Xocó

Uma narrativa de memória, tradição oral, saberes ancestrais, vida comunitária e respeito à Mãe-Terra.




2. FOLHA DE ROSTO

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA
VERSÃO AMPLIADA

Nhenety Kariri-Xocó

Obra de literatura de tradição oral e memória cultural Kariri-Xocó, dedicada à preservação dos ensinamentos dos antigos e à valorização dos saberes coletivos transmitidos entre gerações.

Porto Real do Colégio – Alagoas
Brasil




3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra integra o conjunto de produções literárias e culturais de Nhenety Kariri-Xocó, voltadas à memória, à história, à cultura, aos saberes tradicionais e à valorização da identidade indígena.

A narrativa de SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA apresenta uma construção literária inspirada na tradição oral, nos conhecimentos ancestrais e na relação comunitária com as águas, a mata, os animais, as árvores, os alimentos e a Mãe-Terra.

A reprodução desta obra, total ou parcial, para fins comerciais, deverá respeitar os direitos autorais do autor. A utilização para fins educativos e culturais deverá preservar a autoria e a integridade do conteúdo.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Título: SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA
Local: Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil
Ano: 2026





4. FICHA CATALOGRÁFICA

KARIRI-XOCÓ, Nhenety.

SitohoYé, a caçada coletiva: versão ampliada / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.

Obra de literatura de tradição oral, memória cultural e saberes ancestrais.

Literatura indígena.

Tradição oral.

Memória ancestral.

Cultura Kariri-Xocó.

Caçada coletiva.

Saberes tradicionais.

Vida comunitária.

Relação com a natureza.

Educação intergeracional.

Mãe-Terra.

CDD – Classificação Decimal de Dewey:
398.2 – Literatura folclórica e tradição oral

CDU – Classificação Decimal Universal:
398 – Folclore e tradição popular

Nota: Ficha catalográfica apresentada em caráter editorial simbólico para esta edição.





5. ISBN (SIMBÓLICO)

ISBN SIMBÓLICO: 978-65-00000-00-0

Numeração apresentada exclusivamente para fins de organização editorial e identificação simbólica desta edição. Não substitui um ISBN oficial atribuído pela agência competente.




6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.



7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR

A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 





8. DEDICATÓRIA

Dedico esta história às crianças que se aproximam da fogueira para escutar a voz dos antigos.

Aos jovens que procuram compreender os caminhos deixados pelos antepassados.

Aos anciãos e guardiões da memória que mantêm vivas as palavras recebidas de outras gerações.

Dedico também ao povo Kariri-Xocó, às famílias, aos pescadores, caçadores, agricultores, artesãos, contadores de histórias e a todos aqueles que carregam conhecimentos que não foram escritos em livros, mas permanecem vivos na memória e na prática cotidiana.

Dedico, enfim, à Mãe-Terra, às águas do Opará, às matas, aos animais, às árvores e a todos os seres que participam da grande teia da vida.

Que SITOHOYÉ continue ensinando que um povo é mais forte quando seus conhecimentos caminham juntos.





9. AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos antepassados, cuja memória permanece presente nas palavras, nos costumes, nos ensinamentos e nos caminhos percorridos pelo povo.

Agradeço aos anciãos, mestres da oralidade e guardiões dos conhecimentos transmitidos de geração em geração.

Agradeço às crianças e aos jovens, que representam a continuidade da memória e recebem a responsabilidade de levar adiante aquilo que aprenderam.

Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, espaço vivo de cultura, resistência, espiritualidade, convivência e transmissão de saberes.

Agradeço às águas do Opará, às matas e à Mãe-Terra, que inspiram tantas histórias e ensinam silenciosamente aqueles que sabem observar.

Agradeço também a todos que valorizam a literatura indígena e compreendem que contar uma história pode ser uma forma de preservar uma memória.




10. EPÍGRAFE

“Ninguém é tão forte sozinho quanto um povo unido.”

Nhenety Kariri-Xocó





11. PREFÁCIO DO VOLUME

Há histórias que nascem para divertir, outras para ensinar, e algumas que cumprem as duas funções ao mesmo tempo.

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA, em sua versão ampliada, pertence a esse último caminho. A narrativa apresenta uma jornada em que a busca pelo alimento transforma-se em uma grande escola de conhecimentos. Cada participante possui uma habilidade, uma percepção e uma maneira própria de compreender a natureza.

Pirapotã conhece as águas. Itawaçú conhece as árvores e os frutos. Muiratã conhece o voo das aves. Candará sabe interpretar as pegadas. Natirã reconhece o caminho do mel.

Nenhum desses saberes é apresentado como superior ao outro. Ao contrário, eles se completam.

A história mostra que a comunidade não depende de um único conhecimento. Sua força nasce da diversidade dos saberes e da capacidade de colocá-los a serviço de todos.

Por isso, SITOHOYÉ ultrapassa a ideia de uma simples caçada. É uma metáfora da própria vida comunitária.

A caminhada dos caçadores torna-se uma caminhada de aprendizagem. A floresta transforma-se em livro. As águas tornam-se ensinamento. As pegadas tornam-se escrita. O mel transforma-se em símbolo de partilha. E a fogueira torna-se o lugar onde a memória encontra o futuro.

Esta versão ampliada pretende preservar justamente esse ensinamento: o conhecimento somente permanece verdadeiramente vivo quando é compartilhado.




12. RESUMO

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA apresenta uma narrativa de tradição oral inspirada nos ensinamentos ancestrais sobre a vida comunitária, a busca coletiva por alimento e o respeito à natureza.

A história acompanha um grupo de caçadores que parte da aldeia durante um período de escassez. Orientados pelos anciãos, eles realizam uma jornada na qual cada integrante demonstra um conhecimento específico.

Pirapotã revela os segredos das águas; Itawaçú encontra os frutos nas árvores; Muiratã conhece o voo das aves; Candará interpreta as pegadas deixadas pelos animais; e Natirã descobre o mel escondido na mata.

Ao retornarem à aldeia, os alimentos são repartidos entre todos. A experiência demonstra que a fartura não depende de uma única pessoa, mas da união de diferentes habilidades.

A narrativa valoriza a tradição oral, a transmissão intergeracional dos saberes, a cooperação, a partilha, o respeito à Mãe-Terra e a preservação da memória cultural.

Palavras-chave: SITOHOYÉ; Kariri-Xocó; tradição oral; memória ancestral; caçada coletiva; saberes tradicionais; natureza; comunidade; partilha; Mãe-Terra.




13. ABSTRACT

SITOHOYÉ, THE COLLECTIVE HUNT – EXPANDED VERSION presents an oral tradition narrative inspired by ancestral teachings about community life, collective food gathering, cooperation and respect for nature.

The story follows a group of hunters who leave their village during a period of scarcity. Guided by the elders, they undertake a journey in which each participant demonstrates a specific form of knowledge.

Pirapotã understands the secrets of the waters; Itawaçú finds fruits in the trees; Muiratã knows the flight of birds; Candará interprets animal tracks; and Natirã discovers honey hidden in the forest.

When they return to the village, the food is shared among everyone. The experience demonstrates that abundance does not depend on a single person, but on the union of different skills.

The narrative values oral tradition, intergenerational transmission of knowledge, cooperation, sharing, respect for Mother Earth and the preservation of cultural memory.

Keywords: SITOHOYÉ; Kariri-Xocó; oral tradition; ancestral memory; collective hunt; traditional knowledge; nature; community; sharing; Mother Earth.





14. APRESENTAÇÃO

Esta versão ampliada de SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA nasceu do desejo de ampliar uma narrativa originalmente dedicada à memória de uma prática coletiva e transformá-la em uma obra que pudesse carregar, com maior profundidade, seus ensinamentos.

A caçada apresentada na história não deve ser compreendida apenas como uma atividade destinada à obtenção de alimento. Dentro da narrativa, ela representa uma experiência coletiva de conhecimento.

Cada integrante conhece uma parte da natureza.

Um conhece a água.

Outro conhece as árvores.

Outro conhece as aves.

Outro conhece as pegadas.

Outro reconhece o mel.

Quando esses conhecimentos se encontram, a comunidade se fortalece.

Assim, a história também fala sobre educação. Os antigos não precisavam reunir as crianças em uma sala para ensinar. A floresta era uma escola. O rio era uma escola. A caminhada era uma escola. A observação dos animais era uma escola. A própria convivência era uma escola.

SITOHOYÉ é, portanto, uma história sobre aprender juntos.





15. NOTA DO AUTOR

Escrever sobre saberes ancestrais exige responsabilidade.

Esta obra não pretende apresentar a natureza como simples depósito de recursos para serem retirados. Ao contrário, procura mostrar uma relação de respeito, equilíbrio e reciprocidade.

Na narrativa, os caçadores recebem orientações para não destruir, não desperdiçar e não matar por brincadeira. Retiram somente o necessário e retornam à comunidade para repartir aquilo que encontraram.

Essa dimensão é essencial para compreender o sentido simbólico de SITOHOYÉ.

A caçada coletiva representa a união dos conhecimentos e a responsabilidade coletiva diante da vida.

A história também foi construída em linguagem narrativa, procurando preservar a atmosfera da oralidade: a fogueira, os anciãos, as crianças, os ensinamentos e a transmissão da palavra.

Que esta obra seja recebida como uma contribuição à preservação da memória e como uma ponte entre os conhecimentos dos antigos e as novas gerações.

Nhenety Kariri-Xocó





16. MEMÓRIA DO AUTOR

A memória de um povo não vive somente nos documentos.

Ela também vive na palavra dos mais velhos, nos nomes, nos caminhos, nos lugares, nas histórias contadas ao redor da fogueira, nos conhecimentos sobre as águas, nas formas de reconhecer os animais, nas plantas, nos alimentos e nos modos de viver em comunidade.

Como contador de histórias e guardião de memórias, Nhenety Kariri-Xocó procura transformar essas experiências em narrativas que possam alcançar outras gerações.

A literatura torna-se, assim, uma ferramenta de preservação.

A história escrita não substitui a oralidade. Ela ajuda a registrar uma parte daquilo que a oralidade carrega, criando uma nova possibilidade de circulação da memória.

Em SITOHOYÉ, essa preocupação aparece na própria estrutura da narrativa: um ancião conta, uma criança escuta, a experiência é lembrada e o ensinamento continua.

A memória somente permanece viva quando encontra quem a escute.





17. APRESENTAÇÃO DA OBRA

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA está organizada como uma narrativa de tradição oral dividida em quatorze etapas.

A primeira parte apresenta a voz dos antigos e prepara a comunidade para escutar a história.

Em seguida, surge o período de escassez, a reunião dos anciãos e o chamado para a caçada coletiva.

A jornada passa então pelos conhecimentos de Pirapotã, Itawaçú, Muiratã, Candará e Natirã.

O retorno à aldeia conduz à grande partilha, quando todos compreendem que a fartura foi resultado da união.

Os capítulos finais transformam a experiência em ensinamento, destacando a transmissão do conhecimento entre gerações.

A obra encerra-se reafirmando que SITOHOYÉ continua vivo enquanto houver quem conte, quem escute e quem pratique o princípio da união.





18. INTRODUÇÃO

Toda comunidade possui conhecimentos que não pertencem exclusivamente a uma pessoa.

Eles são construídos ao longo do tempo e transmitidos de geração em geração.

O conhecimento de observar uma água, reconhecer um rastro, identificar uma árvore, compreender o comportamento de uma ave ou encontrar o caminho do mel pode parecer simples para quem observa de fora. Entretanto, para quem aprendeu com os antigos, cada um desses conhecimentos representa anos de experiência, observação e convivência com a natureza.

É nesse universo que se encontra SITOHOYÉ.

A narrativa parte de uma situação de necessidade: a aldeia enfrenta a escassez. Diante da dificuldade, os antigos não escolhem o caminho da separação. Eles escolhem a união.

A decisão de realizar uma caçada coletiva representa uma resposta comunitária à dificuldade.

A partir desse momento, a floresta transforma-se em território de aprendizagem.

Cada personagem apresenta uma competência. Cada competência contribui para o objetivo comum.

A história demonstra, portanto, que o conhecimento não precisa ser igual para todos. Ele precisa ser compartilhado.

A grande lição de SITOHOYÉ está justamente aí:

diferentes saberes podem formar uma única força quando colocados a serviço da comunidade.





19. SUMÁRIO

1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN – Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Obra
18. Introdução
19. Sumário
20. Corpo da Obra
Parte I – A Voz dos Ancestrais
1. A Voz dos Antigos
2. Quando a Fome Chegou à Aldeia
3. A Fogueira dos Anciãos
4. O Chamado do SitohoYé
Parte II – A Caminhada do Conhecimento
5. O Amanhecer da Partida
6. Pirapotã e o Segredo das Águas
7. Itawaçú e as Árvores Carregadas
8. Muiratã e o Voo das Aves
9. Cadará e a Escrita das Pegadas
10. Natirã e o Ouro das Abelhas
Parte III – A Força do Coletivo
11. O Caminho de Volta
12. A Grande Partilha
13. O Ensinamento que Ficou
14. O Saber que Caminha de Geração em 21. Geração
22. Considerações Finais
23. Glossário
24. Referências Bibliográficas
25. Sobre o Autor





20. CORPO DA OBRA





1. A VOZ DOS ANTIGOS




Cheguem mais perto da fogueira, crianças, jovens e guardiões da memória, porque hoje vamos escutar uma história que nasceu nos tempos antigos, quando o povo aprendia com o rio, com a mata, com os animais, com as árvores e com os ensinamentos dos antepassados. Esta é a história de SITOHOYÉ, a Caçada Coletiva, um costume em que ninguém caminhava sozinho, porque cada pessoa possuía um saber e cada saber tinha seu lugar dentro da comunidade. Escutem com atenção, pois quando os antigos contam uma história, não estão apenas lembrando o passado: estão deixando uma palavra para o futuro.



2. QUANDO A FOME CHEGOU À ALDEIA




Escutem, crianças e jovens, porque esta é uma história que os antigos contavam quando a noite chegava e a fogueira iluminava os rostos do nosso povo. Houve um tempo em que a aldeia atravessou uma grande escassez. As panelas tinham pouca comida, os peixes não apareciam como antes e a caça parecia ter desaparecido pelos caminhos da mata. O povo olhava para o céu, para o rio e para a floresta, pedindo que a vida voltasse a ser generosa. Mas os antigos sabiam que, quando a dificuldade chega, o povo não deve se separar. É justamente nesse momento que deve se juntar.



3. A FOGUEIRA DOS ANCIÃOS




Naquela noite, os anciãos se aproximaram da fogueira sagrada. O fogo crepitava e suas chamas subiam como se conversassem com os espíritos dos antepassados. O pajé permaneceu em silêncio por algum tempo, escutando o vento que passava entre as árvores. Depois levantou sua voz e chamou o cacique e a comunidade.

— Meus filhos, quando a aldeia sente fome, nenhum braço pode ficar parado e nenhum conhecimento deve ser esquecido.

Todos ficaram atentos.

O pajé então falou sobre os ensinamentos recebidos dos antigos e lembrou que havia um costume que poderia reunir os conhecimentos de todos.



4. O CHAMADO DO SITOHOYÉ




— Amanhã faremos SITOHOYÉ, a caçada coletiva — anunciou o pajé.

Os mais velhos explicaram que SITOHOYÉ não era apenas uma busca por alimento. Era uma caminhada de conhecimento. Cada pessoa tinha uma habilidade diferente, e o alimento seria encontrado quando todos colocassem seus dons a serviço da comunidade.

O cacique então escolheu os homens e jovens mais preparados para aquela missão. Antes de partir, receberam as orientações dos anciãos: caminhar com respeito, não destruir a mata, não matar por brincadeira e retirar da natureza somente aquilo que fosse necessário.

Assim ensinavam os antigos: a floresta não é somente lugar de caça; é também lugar de ensinamento.



5. O AMANHECER DA PARTIDA




Quando o primeiro clarão apareceu no céu, os caçadores já estavam preparados. A aldeia ainda dormia quando eles começaram a caminhada. Levavam seus arcos, suas flechas e seus instrumentos de trabalho. Mas, acima de tudo, levavam os ensinamentos dos antepassados.

Antes de entrar na mata, pararam por um instante.

O cacique olhou para os companheiros e disse:

— Hoje ninguém caminhará sozinho. O conhecimento de um será o caminho do outro.

E entraram na floresta.

A mata estava silenciosa. Os pássaros observavam do alto das árvores, os pequenos animais escondiam-se entre as folhas e o vento carregava os cheiros da terra. Para quem não conhecia aqueles caminhos, tudo parecia silêncio. Para os caçadores, porém, a floresta estava falando.



6. PIRAPOTÃ E O SEGREDO DAS ÁGUAS




Primeiro chegaram ao rio. As águas do Opará corriam tranquilas, refletindo a luz do amanhecer. Os homens olharam para a superfície, mas nenhum peixe apareceu.

Então Pirapotã aproximou-se da margem.

Ele observou a correnteza, o movimento das águas e as pedras escondidas.

— Não procurem somente onde os olhos alcançam — disse. — Há peixes que vivem onde a água é profunda.

Pirapotã mergulhou.

Desapareceu por alguns instantes nas águas da Mãe-Terra e depois voltou trazendo surubins, niquins e curimatãs.

Os companheiros sorriram.

Naquele momento compreenderam uma lição: quem conhece a natureza enxerga aquilo que os olhos dos outros não conseguem ver.



7. ITAWAÇÚ E AS ÁRVORES CARREGADAS




A caminhada continuou. Mais adiante, encontraram árvores cheias de frutos. Goiabas maduras apareciam entre as folhas, pitangas vermelhas brilhavam ao sol e cachos de aricuri balançavam com o vento.

Mas os frutos estavam altos.

Itawaçú olhou para cima e sorriu.

— Deixem que eu converse com as árvores.

E começou a subir.

Seus pés encontravam apoio nos galhos, suas mãos seguravam os troncos e seu corpo parecia conhecer cada movimento. Logo desapareceu entre as folhas.

Pouco depois, começou a lançar os frutos para os companheiros que estavam embaixo.

Quando desceu, havia alimento suficiente para encher os cestos.

Os antigos diziam: cada pessoa possui um caminho para servir ao seu povo.



8. MUIRATÃ E O VOO DAS AVES




Perto de um lago, uma grande revoada surgiu no céu. Nambus, marrecas e patos selvagens voavam de um lado para outro.

Os caçadores pararam.

Muiratã preparou seu arco.

Não correu. Não gritou. Não assustou as aves.

Apenas permaneceu imóvel, esperando o momento certo.

Seu olhar acompanhava o movimento do céu.

Então puxou a corda do arco.

A flecha partiu.

Depois outra.

A caça foi feita com precisão e sem desperdício.

Muiratã recolheu as aves e disse:

— A flecha deve alimentar a comunidade, não alimentar a vaidade do caçador.

Essa palavra ficou guardada no coração dos companheiros.



9. CANDARÁ E A ESCRITA DAS PEGADAS




Mais adiante, Candará parou repentinamente.

Os outros continuaram alguns passos, mas perceberam que ele não os acompanhava.

Candará estava olhando para o chão.

— O que você encontrou? — perguntou um dos companheiros.

Ele respondeu:

— A mata escreveu uma história aqui.

Apontou para uma pequena marca no barro.

Era uma pegada.

Depois mostrou outra.

E outra.

Candará sabia ler aqueles sinais como quem lia um livro. Descobriu por onde haviam passado cutias, preás e tatus. Seguiram as trilhas com paciência e encontraram os animais.

A caça foi realizada com cuidado.

Então Candará ensinou:

— Quem aprende a ler as pegadas aprende a escutar a floresta.



10. NATIRÃ E O OURO DAS ABELHAS




Quando o sol já estava alto, Natirã levantou a cabeça.

Sentiu um perfume no ar.

— Esperem.

Todos pararam.

Ele caminhou lentamente seguindo o cheiro das flores.

Depois de algum tempo, encontrou uma colmeia escondida entre as árvores.

O mel brilhava dentro dela.

Os caçadores se aproximaram com cuidado. Sabiam que as abelhas também tinham sua morada e seu trabalho. Retiraram apenas uma parte do mel, preservando a colmeia.

Quando provaram aquele alimento doce, Natirã sorriu.

— A floresta alimenta aqueles que sabem respeitar sua casa.

O mel foi guardado para ser repartido com toda a aldeia.



11. O CAMINHO DE VOLTA




Depois de vários dias, os caçadores começaram a retornar.

Seus cestos estavam cheios de peixes, frutas, aves, caça e mel.

Mas ninguém dizia:

— Eu consegui!

Diziam:

— Nós conseguimos.

Porque Pirapotã havia encontrado os peixes.

Itawaçú havia alcançado os frutos.

Muiratã havia encontrado as aves.

Candará havia lido as pegadas.

Natirã havia encontrado o mel.

E todos haviam caminhado juntos.

A fartura não nasceu de uma única habilidade.

Nasceu da união de muitas habilidades.



12. A GRANDE PARTILHA




Quando os caçadores chegaram à aldeia, as crianças correram para recebê-los. As mulheres prepararam as panelas. Os anciãos sorriram. A fogueira foi novamente acesa.

Os alimentos foram colocados diante de todos.

Peixes.

Frutas.

Aves.

Caça.

Mel.

Mas antes de comer, o pajé levantou-se.

— Não agradeçamos somente aos caçadores — disse. — Agradeçamos também à água, à mata, às árvores, aos animais, às abelhas, aos antepassados e à força que fez todos caminharem juntos.

Então começaram os cantos.

O maracá acompanhou o ritmo.

Os pés marcaram o chão.

A aldeia celebrou a vida.

E a comida foi repartida entre todos.



13. O ENSINAMENTO QUE FICOU




Quando a noite ficou profunda, as crianças se aproximaram dos anciãos.

Uma delas perguntou:

— Por que vocês chamam isso de SITOHOYÉ?

O ancião sorriu e respondeu:

— Porque SITOHOYÉ não é somente caçar. É saber que ninguém possui todos os conhecimentos, mas cada pessoa possui algo que pode oferecer ao seu povo.

Então apontou para a fogueira.

— Vejam o fogo. Uma única brasa pode se apagar. Mas muitas brasas juntas mantêm a fogueira acesa.

Foi assim que os antigos ensinaram.

SITOHOYÉ é a força do coletivo.

É o pescador oferecendo seu conhecimento das águas.

É o caçador conhecendo os rastros.

É o arqueiro conhecendo o voo das aves.

É aquele que sobe às árvores conhecendo os frutos.

É aquele que sente o perfume do mel escondido na mata.

E é toda a comunidade transformando diferentes saberes em uma única força.

Desde então, quando alguém perguntava aos antigos qual era a maior riqueza de um povo, eles respondiam:

— Não é aquilo que uma pessoa consegue fazer sozinha. É aquilo que todos conseguem construir quando caminham juntos.

E assim SITOHOYÉ permaneceu vivo na memória, passando de boca em boca, de ancião para criança, de geração para geração, como ensinamento dos antepassados.


14. O SABER QUE CAMINHA DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO




E assim terminou aquela jornada, mas o ensinamento de SITOHOYÉ nunca terminou. A caçada voltou para a memória do povo como lembrança de que a vida comunitária se fortalece quando cada pessoa oferece seu conhecimento em benefício de todos. O peixe encontrado nas águas, o fruto colhido na árvore, a ave alcançada pela flecha, o rastro descoberto na terra e o mel encontrado na mata tornaram-se símbolos de uma mesma verdade: a força de um povo está na união de seus saberes, na partilha de seus alimentos e no respeito à Mãe-Terra. Por isso, enquanto houver uma criança para escutar, um ancião para contar e uma fogueira para reunir a comunidade, SITOHOYÉ continuará caminhando entre as gerações, levando consigo a voz dos antepassados e ensinando que ninguém é tão forte sozinho quanto um povo unido.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó



21. CONSIDERAÇÕES FINAIS

SITOHOYÉ termina como terminou a jornada dos caçadores: com a compreensão de que ninguém constrói a fartura sozinho.

A história começou com a escassez, mas terminou com a abundância.

Começou com a preocupação de uma aldeia e terminou com a celebração de toda uma comunidade.

No caminho, cada personagem ofereceu aquilo que sabia fazer.

Pirapotã ensinou a observar as águas.

Itawaçú ensinou a alcançar aquilo que estava nas árvores.

Muiratã ensinou a conhecer o voo das aves.

Candará ensinou a interpretar os sinais deixados no chão.

Natirã ensinou a reconhecer o caminho do mel.

Mas o ensinamento maior não pertence a nenhum deles isoladamente.

Ele pertence ao coletivo.

SITOHOYÉ ensina que os conhecimentos podem ser diferentes, mas não precisam estar separados. Quando são reunidos, tornam-se uma força capaz de alimentar, proteger e fortalecer a comunidade.

A grande partilha representa o ponto mais importante da narrativa.

O alimento encontrado não pertence ao caçador que o encontrou.

Ele pertence à comunidade.

Da mesma forma, o conhecimento recebido dos antepassados não deve ficar escondido. Deve caminhar.

De ancião para adulto.

De adulto para jovem.

De jovem para criança.

De geração em geração.

Enquanto essa transmissão continuar, a história permanecerá viva.

Enquanto houver uma fogueira, haverá lugar para a palavra.

Enquanto houver crianças dispostas a escutar, haverá futuro para a memória.

E enquanto um povo permanecer unido, SITOHOYÉ continuará ensinando que a maior riqueza não está naquilo que uma pessoa possui sozinha, mas naquilo que uma comunidade consegue construir quando todos caminham juntos.




22. GLOSSÁRIO

SITOHOYÉ – Nome dado, nesta narrativa, à caçada coletiva; representa também a união de diferentes conhecimentos em benefício da comunidade.

Opará – Nome utilizado na tradição Kariri-Xocó para o Rio São Francisco.

Pajé – Liderança espiritual e guardião de conhecimentos tradicionais, conforme o contexto cultural apresentado na narrativa.

Cacique – Liderança comunitária.

Maracá – Instrumento tradicional utilizado em práticas culturais e espirituais indígenas.

Mãe-Terra – Expressão utilizada na obra para representar a Terra como fonte de vida, alimento e existência.

Caçada coletiva – Atividade realizada em grupo, na qual diferentes conhecimentos e habilidades são reunidos para alcançar um objetivo comum.

Tradição oral – Forma de transmissão de conhecimentos, histórias, ensinamentos e memórias por meio da palavra falada e da convivência entre gerações.

Anciãos – Pessoas reconhecidas pela experiência, memória e conhecimento acumulado ao longo da vida.

Saberes ancestrais – Conhecimentos recebidos das gerações anteriores e preservados por meio da prática, da memória e da transmissão cultural.

Partilha – Ato de dividir os alimentos, conhecimentos e benefícios entre os membros da comunidade.

Comunidade – Coletividade formada por pessoas que compartilham território, relações, conhecimentos, responsabilidades e formas de vida.

Antepassados – Gerações anteriores lembradas como fonte de ensinamentos e memória.

Fogueira – Elemento simbólico da narrativa associado ao encontro, à escuta, à transmissão da memória e à palavra dos antigos.




23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Saberes e Fazeres – Volume 14 – Coletânea. 2025.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. SitohoYé, A Caçada Coletiva. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/sitohoye-cacada-coletiva.html?m=0. Acesso em: 11 ago. 2026.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Saberes e Fazeres. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroy-historia-kariri-xoco-saberes-e.html?m=0. Acesso em: 11 ago. 2026.


Observação editorial: as referências acima correspondem às fontes indicadas pelo autor para esta versão ampliada.





24. SOBRE O AUTOR

NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor e produtor cultural indígena, dedicado à preservação da memória, da história, da cultura e dos saberes do povo Kariri-Xocó.

Seu trabalho reúne narrativas, contos, fábulas, cordéis, textos históricos, registros culturais e produções voltadas à valorização da identidade indígena.

Como contador de histórias, compreende a palavra como instrumento de transmissão da memória. Para ele, contar uma história significa estabelecer uma ponte entre aqueles que viveram antes, aqueles que vivem agora e aqueles que ainda virão.

Sua produção literária procura registrar conhecimentos relacionados à comunidade, à ancestralidade, à natureza, à espiritualidade, às tradições, à língua, às famílias, ao território e às experiências históricas do povo Kariri-Xocó.

Em suas obras, a literatura não é apenas criação. É também memória, resistência, educação e continuidade cultural.

SITOHOYÉ, A CAÇADA COLETIVA – VERSÃO AMPLIADA integra esse caminho de preservação, apresentando uma história na qual os conhecimentos individuais se transformam em força coletiva.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Atuação: Escritor, contador de histórias e produtor cultural indígena
Povo: Kariri-Xocó
Brasil





25. ENCERRAMENTO DA OBRA

SITOHOYÉ continua caminhando.

Caminha nas palavras dos anciãos.

Caminha na escuta das crianças.

Caminha pelos caminhos da mata.

Caminha nas águas do Opará.

Caminha nos frutos das árvores.

Caminha no voo das aves.

Caminha nas pegadas dos animais.

Caminha no mel das abelhas.

Caminha na fumaça da fogueira.

E caminha, sobretudo, no coração daqueles que compreenderam o ensinamento dos antigos:

quando cada pessoa oferece o seu saber, o conhecimento de todos se transforma em força para o povo.

SITOHOYÉ — A CAÇADA COLETIVA.

Uma história que nasce no passado, vive no presente e caminha para o futuro.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó