RESUMO
O presente artigo analisa a formação antroponímica da Península Ibérica a partir de uma perspectiva histórica, linguística e cultural, considerando os processos de ocupação e miscigenação que moldaram a constituição dos sobrenomes portugueses e espanhóis. Com base em estudos onomásticos e historiográficos, investiga-se a contribuição de povos ibero-celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e judeus sefarditas na consolidação do sistema nominativo hereditário. Argumenta-se que os sobrenomes ibéricos constituem registros históricos vivos, refletindo transformações sociais, religiosas e políticas desde a Antiguidade até a expansão ultramarina.
Palavras-chave: Antroponímia. Onomástica. Península Ibérica. História Medieval. Sobrenomes.
1 INTRODUÇÃO
A antroponímia, ramo da onomástica dedicado ao estudo dos nomes próprios de pessoas, constitui importante instrumento para a compreensão das dinâmicas históricas e culturais de uma sociedade.
No caso da Península Ibérica, a formação dos sobrenomes está diretamente associada aos processos de conquista, colonização, reorganização política e imposição religiosa que marcaram a região ao longo de mais de dois mil anos.
Segundo Machado (2003), os sobrenomes portugueses resultam de um processo gradual de fixação ocorrido entre os séculos XII e XV, quando os nomes patronímicos, toponímicos e ocupacionais passaram a ser transmitidos hereditariamente. Esse processo, contudo, possui raízes muito anteriores, remontando às matrizes culturais pré-romanas e à posterior romanização.
Dessa forma, compreender a origem dos sobrenomes ibéricos implica reconstruir uma linha do tempo histórica que integra linguística, política e religião.
2 MATRIZES PRÉ-ROMANAS: IDENTIDADE E TERRITÓRIO (até 218 a.C.)
Antes da conquista romana, a Península era habitada por iberos, celtas e lusitanos. Essas populações organizavam-se em estruturas tribais e utilizavam nomes individuais, frequentemente associados a atributos físicos, qualidades guerreiras ou vínculos territoriais.
De acordo com Saraiva (2007), a identidade pré-romana estava fortemente ligada ao espaço geográfico e à organização clânica. Essa ligação territorial explica a permanência de raízes toponímicas que posteriormente se fixariam como sobrenomes, como:
Silva (floresta)
Castro (fortificação)
Lima (rio)
Rocha
Costa
Esses nomes, embora consolidados apenas na Idade Média, possuem substrato linguístico anterior à romanização.
3 A ROMANIZAÇÃO E A ESTRUTURA NOMINAL LATINA (218 a.C. – século V)
A incorporação da Península ao Império Romano introduziu o sistema nominal tripartido (praenomen, nomen e cognomen). A romanização consolidou o latim vulgar como base linguística das futuras línguas ibéricas.
Machado (2003) destaca que muitos sobrenomes portugueses derivam de cognomina latinos ou de adaptações medievais desses nomes. Exemplos incluem:
Martins (derivado de Martius, ligado a Marte)
Pereira (associado à árvore pereira)
Ferreira (relacionado ao ferro e à atividade metalúrgica)
A romanização não apenas transformou a língua, mas também institucionalizou registros administrativos e eclesiásticos que favoreceram a posterior fixação dos sobrenomes.
4 OS POVOS GERMÂNICOS E O SISTEMA PATRONÍMICO (séculos V–VIII)
Com a queda de Roma, instalaram-se na Península povos germânicos, como suevos e visigodos, culminando na formação do Reino Visigótico.
Segundo Saraiva (2007), os visigodos mantiveram estruturas administrativas romanas, mas introduziram nomes germânicos que posteriormente foram latinizados. A principal contribuição foi o fortalecimento do modelo patronímico, caracterizado pelos sufixos:
-es (Portugal)
-ez (Espanha)
-iz
Esses sufixos indicam filiação, significando “filho de”. Exemplos:
Fernandes (filho de Fernando)
Gonçalves (filho de Gonçalo)
Henriques (filho de Henrique)
Nunes (filho de Nuno)
Esse modelo tornou-se dominante durante a Idade Média e permanece estruturante na onomástica ibérica.
5 AL-ANDALUS E A INFLUÊNCIA ISLÂMICA (711–1492)
A invasão muçulmana de 711 estabeleceu o território denominado Al-Andalus. Durante séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram sob diferentes regimes políticos.
A influência árabe na língua portuguesa é amplamente reconhecida. Conforme Tavani (1990), o contato linguístico favoreceu a incorporação de vocábulos e estruturas fonéticas árabes.
Na antroponímia, destacam-se:
Prefixo “Al-” (artigo definido árabe), como em Almeida e Albuquerque
Nomes ligados a profissões, como Haddad (ferreiro)
Topônimos como Medina
A presença islâmica contribuiu para a diversidade nominativa e cultural da região.
6 A RECONQUISTA E A FIXAÇÃO HEREDITÁRIA DOS SOBRENOMES (séculos VIII–XV)
A Reconquista Cristã consolidou os reinos ibéricos, entre eles o Reino de Portugal.
Nesse período, segundo Machado (2003), ocorre a fixação hereditária dos sobrenomes, inicialmente entre a nobreza e, gradualmente, entre camadas populares. A Igreja Católica desempenhou papel decisivo ao exigir registros batismais e matrimoniais, fortalecendo a estabilidade nominativa.
Sobrenomes tornaram-se instrumentos jurídicos, fiscais e sociais.
7 JUDEUS SEFARDITAS E CONVERSÕES FORÇADAS (séculos XV–XVI)
Com a instituição da Inquisição Espanhola em 1478, muitos judeus sefarditas converteram-se ao cristianismo.
Wolff e Wolff (1988) explicam que, nesse contexto, judeus convertidos (cristãos-novos) adotaram sobrenomes associados à natureza e localidades para evitar perseguições. Exemplos incluem:
Oliveira
Carvalho
Cardoso
Pinheiro
Leão
Toledo
Esses sobrenomes foram posteriormente levados às colônias americanas.
8 EXPANSÃO ULTRAMARINA E TRANSPLANTE ANTROPONÍMICO (séculos XVI–XVIII)
A expansão marítima portuguesa difundiu os sobrenomes ibéricos para África, Ásia e América. No Brasil colonial, a estrutura patronímica e toponímica foi mantida, mas passou a conviver com nomes indígenas e africanos.
Esse encontro gerou novos processos de miscigenação nominativa, ampliando o alcance histórico da antroponímia ibérica.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A formação antroponímica da Península Ibérica é resultado de um processo cumulativo, no qual cada período histórico deixou marcas estruturais nos sobrenomes atuais. Da herança territorial pré-romana à romanização, das contribuições germânicas à influência islâmica e judaica, observa-se uma construção identitária plural.
Os sobrenomes ibéricos constituem, portanto, arquivos históricos vivos, revelando camadas sucessivas de identidade, poder e adaptação cultural.
10 REFLEXÃO DO AUTOR: IDENTIDADE COMO TRAVESSIA HISTÓRICA
Ao concluir esta análise sobre a formação antroponímica da Península Ibérica, compreende-se que o estudo dos sobrenomes não se limita à investigação etimológica ou histórica. Trata-se também de uma reflexão sobre identidade e memória.
Carrego em meu nome os sobrenomes Nunes e Oliveira. O primeiro, de natureza patronímica, consolidou-se durante o período do Reino Visigótico, quando os sufixos "-es" passaram a indicar filiação, significando “filho de”. O segundo, de origem toponímica e ligado à árvore mediterrânica da oliveira, possui raízes latinas estruturadas no contexto do Império Romano e foi amplamente difundido na sociedade ibérica medieval, inclusive durante o período da Inquisição Espanhola, quando muitos cristãos-novos adotaram sobrenomes associados à natureza.
Entretanto, minha identidade primeira é indígena, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Essa ancestralidade antecede a colonização europeia e representa uma memória histórica originária do território brasileiro.
A coexistência desses elementos não constitui contradição, mas sobreposição histórica. O Brasil formou-se a partir de encontros complexos entre povos indígenas, europeus e africanos. Os sobrenomes ibéricos chegaram como parte de uma estrutura administrativa e religiosa colonial, mas foram ressignificados ao longo do tempo em uma sociedade marcada por resistência cultural e permanência identitária.
Assim, o nome torna-se um arquivo histórico vivo. Ele narra deslocamentos, imposições, adaptações e permanências. Contudo, a identidade transcende o registro nominal. O estudo da antroponímia ibérica, portanto, não é apenas uma investigação histórica, mas também uma oportunidade de compreender como as camadas do passado continuam presentes na constituição do sujeito contemporâneo.
REFERÊNCIAS
FAURE, Sabina; RIBEIRO, José Pedro. Dicionário de Sobrenomes Portugueses. Lisboa: Editorial Presença, 2007.
MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2003. 3 v.
SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. 25. ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 2007.
TAVANI, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1990.
WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Portugal. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Judaicos, 1988.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó






