segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CUNHENHÉÁ SAMY, OS PONTOS DE CULTURA






Quando o tempo ainda caminhava de mãos dadas com a memória, a comunidade Kariri-Xocó começou a perceber que a cultura também precisava de cuidado, como se cuida de uma roça antiga ou de um rio que ensina a pescar. Foi assim que surgiram os Pontos de Cultura — não como prédios ou papéis, mas como lugares vivos de encontro.


Ao longo dos anos a Thydêwá ONG atuou nos Pontos de Cultura Índios On-Line e o PCI - Ponto de Cultura Indígena e a Associação Comunitária Indígena Bom Sucesso Kariri-Xocó no Ponto de Cultura Horizonte Circular. 


Os mais velhos diziam que cada Ponto era um fogo aceso no meio da aldeia. O primeiro clarão veio em 2005, quando a Rede Índios On-Line chegou como Pité Uanieá Piteiatekié, abrindo caminhos para que a palavra indígena atravessasse o mundo sem perder o chão. Depois, em 2009, o Horizonte Circular — Ubíniworó — ensinou que o saber não anda em linha reta, mas gira, volta, escuta e retorna mais forte. Em 2011, o coração bateu mais alto com o Ponto de Cultura Indígena Cunhenhéá Samy Uanie, Ponto de Cultura Indígena, onde a língua e a memória passaram a caminhar juntas. 


Na Erátekié Uanie, a Escola Indígena, os saberes antigos entraram pela porta da frente. Vieram os Dubuheríá Samy, Mestres da Cultura, trazendo histórias guardadas no peito. O Duboheri Mydzé, Mestre da Pescaria, ensinava a ler o rio como quem lê um livro antigo. Os Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, moldavam a tradição com as mãos, enquanto a Duboheridé Ruñohú, Mestra da Cerâmica, conversava com o barro como quem conversa com um parente.


Os jovens recebiam Pohiesawa, a câmera de vídeo, e Waruaerã, a câmera fotográfica. Com elas, aprenderam que a tecnologia também pode ser parente da tradição. Registravam cantos, gestos, histórias e risos. À noite, na praça da comunidade, as imagens ganhavam vida no projetor, e o passado se sentava ao lado do presente para olhar o futuro.


Assim, os Pontos de Cultura aproximaram os anciãos dos alunos, os contadores de histórias dos professores, a aldeia da escola. Não deixaram apenas registros ou projetos concluídos, mas um legado de saberes, onde a língua Kariri-Xocó voltou a respirar nas palavras, nos olhos e na escuta das novas gerações.


E até hoje, quem caminha pela comunidade sabe: ali existem pontos invisíveis, marcados não no mapa, mas na memória viva do povo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó






PITÉ UANIEÁ PITEIATEKIÉ, REDE ÍNDIOS ON-LINE






Naquele tempo em que o mundo ainda caminhava mais devagar nas aldeias, quando o canto do pássaro era o aviso da manhã e a palavra corria de boca em boca, algo novo começou a se anunciar no horizonte. Não veio pelo vento nem pelo rio, mas por fios finos, quase invisíveis, que atravessavam cidades, serras e sertões.


Foi assim que os povos Kariri-Xocó, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Pataxó-Hãhãhãe decidiram se encontrar — não num terreiro comum, mas num espaço ainda desconhecido. Um portal. Uma porta aberta para o diálogo entre etnias, saberes e sonhos. Era o ano de 2004, e a aliança nascia com o propósito de fortalecer culturas, trocar experiências e afirmar cidadania em tempos de mudança.


A semente dessa ideia foi plantada pela ONG Thydêwá, que deu nome ao sonho: Índios On-Line. Com apoio e parcerias que vinham de longe — ministérios, programas culturais e patrocinadores — o portal cresceu e foi reconhecido como Ponto de Cultura Viva, pulsando saber ancestral em linguagem digital.


Quando a Internet chegou às aldeias, não foi apenas uma máquina que entrou. Entrou o espanto, a curiosidade, o medo e a coragem. Entrou a possibilidade de falar com o mundo sem sair da terra. Entrou o desafio de manter viva a língua, agora também escrita em telas.


Anos depois, os Kariri-Xocó batizaram aquele caminho novo com palavras próprias, nascidas da língua e do pensamento ancestral: Pité Uanieá Piteiatekié, Rede Índios On-Line. 


A Rede Índios On-Line.

Pité era rede.

Iabae, juntar.

Subatekié, conhecimento.

Crametekié, a caixa do saber — o computador.


Assim, a Internet ganhou alma indígena: a rede de juntar conhecimento.


Hoje, muita coisa mudou. O que antes era novidade virou costume. A conexão cabe no bolso, ilumina a sala, fala pela televisão. Mas aquele primeiro momento ficou marcado na memória das aldeias como um tempo de travessia — quando o saber antigo encontrou o novo caminho e decidiu caminhar junto, sem se perder de si.

Porque rede não é só fio.


Rede é gente.

Rede é palavra que circula.

Rede é cultura viva que não se cala.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





domingo, 8 de fevereiro de 2026

UANIEÁ UBI UANIEÁ, ÍNDIOS NA VISÃO DOS ÍNDIOS






No ano em que o mundo virou o número e chamou de dois mil, algo antigo voltou a respirar entre os povos. Não foi projeto apenas, nem livro apenas. Foi escuta.

A Thydêwá chegou como quem acende uma fogueira no centro da aldeia e disse, sem impor:


— Agora são vocês que vão falar, escrever sua próprias histórias, fotografar. Assim nasceu Índios na Visão dos Índios.


Um nome que não veio pronto, mas brotou da como raiz que insiste em viver mesmo depois de tanta terra remexida.


As mãos que escreveram eram pequenas e jovens, mas carregavam histórias grandes. Crianças e jovens Pataxó Hâhãhãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká sentaram para contar o que sabiam, o que viam, o que sentiam. Escreveram sobre cidadania, direitos humanos, ecologia, diversidade cultural — mas, sem saber, escreviam também sobre dignidade.


Nós, mais velhos, caminhávamos junto.

Não como donos da palavra, mas como parentes que ajudam a segurar o papel, a organizar o caminho, a proteger a voz para que ela não fosse silenciada outra vez. A história era deles. Sempre foi.


Os livros ganharam pernas.


As palavras saíram das aldeias e foram visitar cidades, escolas, salas cheias de espanto. Sebastian, Nhenety, Limbo e tantos outros parentes acompanharam essas crianças e jovens, apresentando não uma cultura congelada, mas viva, falada por quem a vive.


Os Kariri-Xocó posteriormente na revitalização da língua dão o nome essa iniciativa anos depois segunda a tradução como Uanieá Ubi Uanieá "Índios na Visão dos Índios, não é apenas uma coleção de livros mas, muito mais. A aventura iniciou como uma colecao e foi crescendo como cresce uma floresta... foi se diversificando e dando frutos... Uma floresta que segue viva ate hoje.



Quem ouvia estranhava.

Quem escrevia se reconhecia.

Entre os Kariri-Xocó, cada palavra escrita ajudava a levantar a língua que o tempo tentou calar. Nomear o mundo novamente era um ato de retomada. Era dizer, com firmeza: ninguém mais falará por nós sem nos ouvir.


Na atualização poderíamos dizer: Uanieá Ubi Uanieá "Indígenas na Visão Indígena" porque são os nativos do Brasil não é da Índia país asiático. 

Foi o primeiro passo de muitos escritores indígenas que ainda eram crianças, mas já sabiam que sua história merecia existir no papel.


Ali começou um tempo novo, a Thydêwá com Sebastian Gerlic apoia a Revitalização da Língua Kariri-Xocó junto a Escolinha Subatekié Nunú com amigos externos. 

O tempo em que o nativo se vê com seus próprios olhos.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



BENHEOKLI BENHEYE, O TELEFONE ORELHÃO






No começo da década de 1970, quando o tempo ainda caminhava devagar pelas ruas de Colégio, chegou uma voz diferente à cidade. Não era canto de pássaro nem chamado de feira. Era fio, era campainha, era novidade. A TELESA, telefonia de Alagoas, instalou sua Eraibáme — a estação — na Rua da Aurora. Ali, pela primeira vez, o som distante atravessava o espaço e chegava inteiro ao ouvido.


Foi nesse tempo que os Kariri-Xocó conheceram o telefone, ainda vivendo na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. O aparelho parecia coisa de outro mundo: falava sem corpo, viajava sem pés. A voz saía de longe e pousava ali, dentro da sala, como se fosse visita invisível.


Os anos correram como o rio Opará. O povo Kariri-Xocó já vivia na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, quando, duas décadas depois, uma nova transformação chegou. Em 2002, a Telemar Norte Leste S.A. fincou nas aldeias um objeto redondo, pesado e resistente: o Benheokli Benheye — o telefone orelhão.


Não era mais preciso entrar em prédio nem pedir licença. O telefone agora morava na rua, sob o sol e a chuva, esperando quem tivesse algo a dizer. Para falar, usava-se um cartão, passado com cuidado, quase como um ritual. Cada ligação era pensada, medida, respeitada.


O Benheye virou marco. Por ele se chamava ajuda para a saúde, se resolvia viagem, se avisava chegada, se buscava remédio, se matava saudade. A aldeia passou a conversar com outras aldeias, com cidades distantes, com o mundo que antes parecia longe demais.


Havia orelhões espalhados pelos caminhos da comunidade: na Escola Estadual Indígena, no Posto Indígena Kariri-Xocó, na Associação Indígena Comunitária Kariri-Xocó. Os números eram decorados como nomes de parentes. E quando alguém precisava ligar, formava-se fila. Gente esperando, gente ouvindo pedaços de conversa, gente respeitando o tempo do outro.


Todo mundo queria usar a novidade. Falar com quem estava longe. Resolver coisa de trabalho, de estudo, de vida. O orelhão virou ponto de encontro, de expectativa, de silêncio atento.


Hoje, o Benheokli Benheye quase não se vê mais. Mas permanece vivo na memória da comunidade, como símbolo de um tempo em que a tecnologia chegou devagar, foi aprendida coletivamente e serviu, acima de tudo, para aproximar pessoas.


E assim, entre fios, cartões e vozes distantes, o telefone orelhão entrou para a história do povo Kariri-Xocó — não como objeto, mas como lembrança partilhada.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

NAMYTSE IBÁKABARU, SERVIÇO DA CARROÇA DE CAVALO






Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, o rangido da Ibákabaru, carroça de Cavalo, já cortava o silêncio da manhã. Era um som conhecido, quase um chamado. Madeira cansada, ferro antigo e o passo firme do cavalo anunciavam que o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça estava em movimento.


Desde o início do Brasil República, entre os Kariri-Xocó, o Ibákeríá — transporte de animais — seguia sendo mais que trabalho: era modo de viver. A carroça carregava Damy, mas também levava histórias, palavras trocadas na estrada, promessas de sustento e dignidade. Cada Natéibáruá, carroceiro conhecia o caminho pelo cheiro da terra e pela inclinação do animal.


No tempo em que a Iuwó Merata, estrada de ferro começou a rasgar Porto Real do Colégio, em meados do século XX, a cidade pulsava diferente. O apito distante do trem misturava-se ao bater dos cascos, e o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça cresceu como cresce rio em tempo de cheia. Onde havia obra, havia carroça; onde havia peso, havia braço e cavalo dispostos.


Lá embaixo, no Cródzu Radamy, Porto de Baixo  o movimento nunca dormia. As Ubácruté, canoas de panos balançavam presas à margem, as Eyemérata, balsa deslizavam lentas, e hoje, onde passam as Ubadzúpui, lanchas antes o barro guardava marcas profundas de rodas e pegadas. A carga ia e vinha, e a carroça era o elo entre a água e a terra.


A prefeitura chamava os carroceiros para o serviço pesado: obra, limpeza, Kenké Dimy. O lixo da cidade, que ninguém queria ver, seguia na Ibákabaru, conduzido com respeito. Era trabalho duro, mas honesto. Trabalho que ensinava que tudo tem lugar e destino.


Com o tempo, chegaram os Ibápohduá, os automóveis que vieram velozes, cheios de barulho e fumaça, e aos poucos empurraram a carroça para a beira da estrada da memória. O serviço diminuiu na cidade, e até na Aldeia Kariri-Xocó — que teve o maior comboio nos anos 1980 — o silêncio começou a ocupar o espaço do rangido.


Mas quem viveu aquele tempo sabe: enquanto houver lembrança, a Ibákabaru continua andando. Em cada história contada, em cada palavra antiga preservada, o cavalo ainda puxa, a roda ainda gira, e o Namytse não se perde.

Porque há serviços que não acabam.

Apenas viram memória.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

WÓATSE ITOHIQUIETE, O CAMINHAR DO VIAJANTE






O Radda, o Mundo, sempre esteve aberto como um grande corpo vivo. Nele se estendem os Iuwóá, os Caminhos, traçados não apenas pela terra, mas pelo sopro do tempo e pela passagem das Atseá, as Pessoas. Caminhos que atravessam as Retséá, as Florestas profundas, onde os Kerítséá, Animais Silvestres, conhecem cada sombra e cada cheiro. Caminhos que acompanham as Dzuá, as Águas correntes, por onde os Wãmyá, Peixes, seguem seus percursos antigos. Caminhos que se erguem até os Arankeá, os Céus, onde os Ieendeá, Pássaros, riscam rotas invisíveis com suas asas.


Houve um Uché, um Tempo antigo, em que o Mundo ainda não conhecia os inventos do homem. Não existiam Ibá, Carros de ferro e fumaça. Não havia Ubá, Canoas talhadas para vencer as águas, nem Yeemerãkié, Aviões que cortam os céus. Nesse tempo primeiro, o corpo era o próprio transporte, e as Atseá caminhavam com os Biá, os Pés, sentindo a pele da terra, o calor do chão e a aspereza das pedras.


O Itohiquiete, o Viajante, aprendia desde cedo que caminhar era mais que ir — era escutar. Escutar o vento que falava com as folhas, o silêncio das matas, o chamado distante dos rios. Pela floresta ele seguia, subindo Siririté, as Serras, com o coração firme e as pernas confiantes. Cada passo era uma conversa com os ancestrais, cada trilha guardava histórias deixadas por quem passara antes.


O viajante caminhava para Eriwí, Visitar os Etçamyá, Parentes, nas Natiá, Aldeias espalhadas pelo território vivo. Assim foi por milênios, de geração em geração. As Biá, Pernas humanas, levavam sonhos, notícias, cantos e saudades. Levavam também o saber de que todo lugar alcançado tinha um motivo, e todo motivo nascia do espírito.


Os caminhos nunca foram apenas linhas na terra. Alguns conduzem às Bechiéá, as Roças, onde o alimento brota do cuidado. Outros levam às Sitoá, as Caçadas, onde o respeito ao animal é lei antiga. Há os que seguem para as Mydzéá, as Pescarias, onde a água ensina paciência. E há ainda os caminhos invisíveis, aqueles que conduzem ao entendimento e à memória.

Tudo depende do sentido da busca. Pois caminhar, no Radda, o mundo nunca foi apenas chegar a um Undéá, um Lugar. Caminhar sempre foi descobrir quem somos enquanto seguimos adiante.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





NATÉIBÁ ITOIBÁPOIETE, MOTORISTA DE AUTOMÓVEL DE PASSAGEIROS






Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, já se ouvia o ronco discreto do Ibápohduá cortando a estrada de barro batido. Era assim todos os dias. O Namytse, o Serviço de Passageiros, começava cedo entre a Aldeia Kariri-Xocó e a cidade de Porto Real do Colégio, seguindo até Propriá, em Sergipe, levando gente, histórias e sonhos apertados no banco traseiro.


Natéibá Itoibápoiete, motorista de automóvel segurava o volante com firmeza e respeito. Não era apenas um motorista: era conhecedor dos caminhos, das curvas da estrada e das necessidades do povo. Sabia quem ia para vender, quem ia para consultar médico, quem ia apenas visitar parente distante. Cada passageiro carregava um motivo, e ele carregava todos.


Na aldeia havia outros como ele — homens e mulheres que transformaram o automóvel e a Ibáchiddá, a topic ou van, em instrumento de sobrevivência. Na cidade também havia transporte, mas quando o carro saía direto da Aldeia Kariri-Xocó para Propriá, o valor mudava. Custava Yeendéar, dez reais, dez tayu, a nota onde a arara vermelha parecia observar tudo com olhos atentos, como guardiã do trajeto.


Alguns preferiam o caminho das águas. As Ubauipú Itohiquiete, lanchas dos viajantes, deslizavam pelo rio por um preço menor, três reais apenas. Mas nem sempre o rio estava manso, e nem todos confiavam nele. A estrada, apesar de poeira e buracos, também contava suas histórias.


Enquanto dirigia, Natéibá, motorista pensava no quanto o tempo havia mudado. Antes, poucas opções. Agora, novos meios, novas profissões. O volante nas mãos indígenas era mais do que trabalho: era autonomia, era futuro, era comida na mesa e dignidade dentro de casa.


Quando o carro parava e os passageiros desciam, ficava no ar um silêncio breve, quebrado apenas pelo vento e pelo canto distante de um pássaro. Natéibá desligava o motor, respirava fundo e sorria. Sabia que no dia seguinte estaria ali de novo, ligando o Ibápohduá, conduzindo pessoas, conectando aldeia, cidade, estrada e rio — como quem tece, pouco a pouco, a própria sobrevivência.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó