FALSA FOLHA DE ROSTO
TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ
OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó
FOLHA DE ROSTO
TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ
OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS KARIRI-XOCÓ
Narrativas dos Primeiros Tempos, da Criação, dos Antepassados Sagrados, dos conhecimentos ancestrais, da espiritualidade e da continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
© Nhenety Kariri-Xocó, 2026.
Todos os direitos reservados.
Esta obra integra o esforço de valorização da memória ancestral, da tradição oral e do patrimônio cultural do povo Kariri-Xocó.
FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
K18t
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
120 p.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Povos indígenas brasileiros.
Kariri-Xocó.
Mitologia indígena.
Narrativas ancestrais.
Tradição oral.
Cosmologia indígena.
CDD: 980.41
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de estrutura editorial.)
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra aos meus Antepassados Kariri-Xocó, guardiões da memória, da palavra e da sabedoria ancestral.
Dedico também aos anciãos que transmitiram histórias ao redor das fogueiras, aos mestres da tradição oral, às crianças que herdarão esse conhecimento e a todos aqueles que mantêm viva a identidade do nosso povo.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus familiares, aos mais velhos, aos mestres da cultura, aos guardiões da memória e a todos que contribuíram para a preservação dos conhecimentos ancestrais Kariri-Xocó.
Agradeço igualmente aos leitores, pesquisadores e amigos da cultura indígena que reconhecem a importância da tradição oral como patrimônio da humanidade.
Minha gratidão à Natureza, aos Antepassados e aos Ancestrais Sagrados que inspiraram esta caminhada literária.
EPÍGRAFE
"Enquanto a palavra ancestral continuar sendo contada, os Antepassados continuarão caminhando entre nós."
— Sabedoria tradicional Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
Este livro reúne narrativas inspiradas na tradição oral e na memória cultural do povo Kariri-Xocó, apresentando uma visão simbólica dos Primeiros Tempos, da criação do mundo, dos conhecimentos ancestrais, dos artefatos, das práticas espirituais e da continuidade da vida indígena na atualidade.
Mais do que uma coletânea de histórias, esta obra representa um esforço de valorização da memória coletiva e do patrimônio cultural indígena, reafirmando a importância da oralidade como instrumento de preservação dos conhecimentos transmitidos entre as gerações.
RESUMO
A obra Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó apresenta um conjunto de narrativas fundamentadas na tradição oral, na memória ancestral e nos valores culturais do povo Kariri-Xocó. Ao longo de oito capítulos, são abordados temas relacionados à origem dos Antepassados Sagrados, à criação do mundo, aos adornos tradicionais, à agricultura, aos animais, à cerâmica, à espiritualidade, às celebrações comunitárias e à vida contemporânea do povo. O livro busca contribuir para a valorização da identidade indígena e para a preservação dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; ancestralidade; cosmologia indígena; memória cultural.
ABSTRACT
Tokenhé Antoá Bihéuché: The Sacred Ancestors of the First Kariri-Xocó Times presents a collection of narratives based on oral tradition, ancestral memory, and the cultural values of the Kariri-Xocó people. Through eight chapters, the book addresses the Sacred Ancestors, the creation of the world, traditional ornaments, agriculture, animals, pottery, spirituality, communal celebrations, and contemporary indigenous life. The work contributes to the preservation and appreciation of indigenous cultural heritage and ancestral knowledge.
Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; ancestry; indigenous cosmology; cultural memory.
APRESENTAÇÃO
As páginas que seguem conduzem o leitor a uma jornada pelos Primeiros Tempos, período sagrado em que os Antepassados caminharam próximos às forças criadoras do universo. Através da palavra escrita, procura-se preservar narrativas que durante gerações foram transmitidas pela oralidade, fortalecendo a identidade cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos
Capítulo II – Ninoá Raddá Tokenhé Antoá: A Criação do Mundo pelos Antepassados Sagrados
Capítulo III – Daklonto Upuhto Antoá: Adornos do Avô Antepassado Sagrado
Capítulo IV – Canghité Bechié Keriá: Coisas Boas, Roça e os Animais
Capítulo V – Bunióto Ruñohú: Os Artefatos de Poder e a Cerâmica
Capítulo VI – Canghité Anhíantoá: Coisas Boas Espirituais
Capítulo VII – Sotikaí Netoá Tokenhé: Festa dos Agradecimentos aos Antepassados
Capítulo VIII – Hietçãdéba Moenahan: Nossa Vida Hoje
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
NOTA DO AUTOR
Esta obra foi escrita a partir do diálogo entre memória, tradição oral, pesquisa cultural e valorização dos conhecimentos indígenas. Não pretende substituir a riqueza da palavra falada, mas contribuir para sua preservação através do registro literário.
MEMÓRIA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita, pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Ao longo dos anos tenho dedicado meus estudos à preservação da memória ancestral, registrando narrativas, tradições, manifestações culturais e conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
Este livro nasce desse compromisso de fortalecer a identidade indígena e compartilhar com as novas gerações parte da riqueza cultural de nosso povo.
INTRODUÇÃO
Os povos indígenas preservam, através da oralidade, conhecimentos que atravessam gerações e conectam passado, presente e futuro. Entre os Kariri-Xocó, a memória ancestral permanece viva por meio das histórias narradas pelos mais velhos, dos cantos, das danças, dos rituais e dos ensinamentos transmitidos no cotidiano comunitário.
A presente obra reúne narrativas sobre os Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos, apresentando uma visão simbólica da criação do mundo, dos conhecimentos ancestrais e da continuidade da vida Kariri-Xocó. Trata-se de uma contribuição para a preservação da memória cultural e para o fortalecimento da identidade indígena.
CAPÍTULO I – TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ: OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS
Antes que os caminhos dos homens fossem conhecidos e antes que os nomes das famílias fossem pronunciados sobre a Terra, existia o tempo sagrado das origens. Era o Bihéuché, os Primeiros Tempos, quando os Antepassados Sagrados caminhavam próximos às forças criadoras do mundo e ensinavam os fundamentos da existência. As narrativas transmitidas pelos mais velhos guardaram a lembrança desses seres ancestrais, conhecidos como Tokenhé Antoá, cuja presença permanece viva na memória do povo Kariri-Xocó como fonte de sabedoria, identidade e ligação com o mundo espiritual.
No mundo antigo, a Terra ainda despertava para a existência e os caminhos do mundo começavam a ser traçados, viviam os Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados do povo Kariri-Xocó. Era o tempo chamado Bihéuché, os Primeiros Tempos, uma era envolta em mistério e sabedoria, quando os seres ancestrais caminhavam próximos das forças que davam equilíbrio à criação.
Os narradores do passado contavam que, naquele princípio, existiam Sumarãtó, os Dois Avôs, e Sumanike, as Duas Avós. Eles formavam a primeira grande família sagrada, guardiã dos conhecimentos que sustentariam a vida. Seus nomes atravessaram gerações e permaneceram vivos na memória do povo, sendo lembrados nas histórias transmitidas pelos mais velhos.
Entre os avôs estava Upuhto, o Avô do Vento, senhor das brisas, dos sopros e dos movimentos invisíveis que percorrem o mundo. Ao seu lado encontrava-se Duto, o Avô do Fogo, cuja força iluminava os caminhos e aquecia a existência. Juntos, representavam energias essenciais para a continuidade da vida e para a harmonia da criação.
Com as avós estava Nikedda, a Avó da Terra, fonte de fertilidade, abrigo e sustento para todos os seres. Com ela caminhava Dzúnike, a Avó da Água, senhora das chuvas, dos rios e das lagoas que alimentam a vida. Como mães ancestrais, elas protegiam o equilíbrio do mundo e ensinavam a importância do respeito às forças da natureza.
Dizem os guardiões da tradição que esses Antepassados Sagrados continuam vivendo na Natiankié, a Aldeia Espiritual dos Antepassados, situada no Arankié, o Céu. Lá permanecem reunidos como uma grande Antsetçoeyorã, família sagrada, observando seus descendentes e mantendo viva a ligação entre o mundo visível e o mundo espiritual. Por isso, suas histórias continuam sendo contadas, para que as novas gerações jamais esqueçam a origem dos Primeiros Tempos e a sabedoria deixada pelos Tokenhé Antoá.
Assim, os Tokenhé Antoá não pertencem apenas ao passado distante das narrativas ancestrais, mas continuam presentes na memória coletiva e na espiritualidade do povo Kariri-Xocó. Seus ensinamentos recordam que vento, fogo, terra e água são forças sagradas que sustentam a vida e unem os seres ao grande ciclo da criação. Ao preservar essas histórias, as gerações atuais mantêm viva a herança dos Primeiros Tempos, fortalecendo os laços com seus antepassados e reafirmando a continuidade de uma tradição que atravessa séculos, permanecendo guardada na palavra, na memória e no coração do povo.
CAPÍTULO II – NINOÁ RADDÁ TOKENHÉ ANTOÁ: A CRIAÇÃO DO MUNDO PELOS ANTEPASSADOS SAGRADOS
O surgimento dos povos, das matas e dos caminhos percorridos pelos ancestrais, existia apenas o tempo do grande mistério, quando os seres sagrados preparavam a ordem do mundo. Entre os Kariri-Xocó, a memória dessa origem foi transmitida de geração em geração pelos mais velhos, guardiões da palavra e do conhecimento ancestral. Esta narrativa sagrada relata como os Quatro Avô e Avó Primordiais deram forma ao universo, criando os elementos da natureza e estabelecendo a ligação profunda entre os seres humanos e todas as forças que sustentam a vida.
Nos tempos antigos, quando ainda não existiam as matas, os rios, os animais ou os seres humanos, somente os Sumarãtó e Sumanike, os Quatro Avô e Avó Sagrados, habitavam o grande mistério da existência. Eram eles os guardiões da criação e os portadores dos poderes que dariam forma ao mundo. Em seu pensamento sagrado nasceu a Ninoá, a grande criação que faria surgir todas as coisas conhecidas pelos povos da Terra.
Primeiro, Upuhto, o Avô do Vento, e Duto, o Avô do Fogo, elevaram seus poderes aos céus. De sua união surgiram as Batti, as estrelas brilhantes que passaram a iluminar a escuridão dos tempos primordiais. Cada estrela recebeu um lugar no firmamento para servir de guia aos seres que um dia caminhariam sobre a Terra, marcando os caminhos da noite e os ciclos do tempo.
Enquanto isso, Nikedda, a Avó da Terra, e Dzúnike, a Avó da Água, voltaram seus dons para o mundo que começava a nascer. De suas mãos sagradas surgiram as Ubuá, as plantas de muitas formas e utilidades. Em seguida cresceram as Retseá, as grandes florestas, repletas de vida, sombra e alimento. Por fim apareceram os Keriá, os animais, que passaram a povoar os campos, as matas, os rios e os céus.
Quando todas as coisas estavam em seus lugares e a criação encontrava-se harmoniosa, os Quatro Avô e Avó Sagrados decidiram dar origem àquele que cuidaria da obra criada. Assim nasceu Uanie, o indígena. Para formar seu corpo, Nikedda ofereceu a força da Terra; Dzúnike entregou o sangue que corre como os rios; Duto concedeu a energia que aquece e fortalece a vida; e Upuhto soprou a respiração que anima todos os seres.
Desde então, os Kariri-Xocó recordam que o ser humano carrega dentro de si os dons dos Quatro Antepassados Sagrados. O corpo pertence à Terra, o sangue pertence à Água, a energia pertence ao Fogo e a respiração pertence ao Vento. Por isso, viver em equilíbrio com a natureza é também honrar os Sumarãtó e Sumanike, pois cada elemento do mundo e cada pessoa guardam uma parte da sagrada criação realizada pelos Antepassados dos Primeiros Tempos.
No entanto, a Ninoá Raddá Tokenhé Antoá não é apenas uma história sobre o princípio de todas as coisas, mas também um ensinamento sobre a responsabilidade de viver em harmonia com a criação. Ao recordar que o corpo vem da Terra, o sangue da Água, a energia do Fogo e a respiração do Vento, os Kariri-Xocó reafirmam sua relação sagrada com a natureza e com os Antepassados dos Primeiros Tempos. Dessa forma, a memória da criação continua viva nas palavras, nos rituais e nos ensinamentos transmitidos entre as gerações, fortalecendo a identidade do povo e preservando a sabedoria deixada pelos Sumarãtó e Sumanike para todos os tempos.
CAPÍTULO III – DAKLONTO UPUHTO ANTOÁ: ADORNOS DO AVÔ ANTEPASSADO SAGRADO
Desde os Primeiros Tempos, os Antepassados ensinaram que os adornos não eram simples objetos de enfeite, mas marcas visíveis da aliança entre o povo, a natureza e os seres criadores. Cada pena, cada ornamento e cada instrumento carregava uma história recebida dos tempos sagrados, quando Upuhto, o Avô dos Ventos, caminhava entre os homens compartilhando sabedoria. Assim nasceram os Daklonto Upuhto Antoá, os adornos herdados do Avô Antepassado Sagrado, símbolos que preservam a memória dos ensinamentos antigos e reafirmam a identidade espiritual do povo Kariri-Xocó através das gerações.
No princípio quando a Terra ainda aprendia os caminhos dos homens e os homens aprendiam os caminhos da Terra, Upuhto, o Avô dos Ventos, caminhava entre seu povo espalhando ensinamentos. Sua presença era sentida na brisa suave das manhãs, no sopro forte das tempestades e no voo dos Ieende, os pássaros e aves que ele deixou como alimento e sustento para as gerações futuras. Cada ser criado por Upuhto possuía uma finalidade, e nada existia sem uma razão sagrada.
Conta a tradição que os Ieende não ofereciam apenas alimento. De suas penas coloridas e formas variadas surgiram os Dakloneá, os adornos que passaram a acompanhar os homens e mulheres em suas jornadas. Assim, aquilo que vinha do céu através do voo das aves transformava-se em beleza, identidade e ligação espiritual entre os vivos e os Antepassados dos Primeiros Tempos.
Entre esses adornos estava o Dakloro, usado nos braços para representar força, coragem e compromisso com a comunidade. Havia também o Dakloene, o adorno das orelhas, que simbolizava a capacidade de ouvir os ensinamentos dos mais velhos, os conselhos dos antepassados e os sinais da natureza. Cada peça carregava um significado que ultrapassava sua aparência material.
O Daklowõ, usado nas pernas, lembrava a importância de caminhar pelos caminhos corretos e honrar a memória ancestral. A Iaru, a flecha, e a Toriaru, a zarabatana, eram instrumentos de caça e sobrevivência, mas também símbolos da habilidade, da disciplina e da união entre o ser humano e os espíritos guardiões da floresta. Por meio delas, o povo aprendia que toda caça deveria ser realizada com respeito e gratidão.
Acima de todos os adornos destacava-se o Tçambusebé, o cocar sagrado, formado pelas penas dos Ieende. Mais do que um ornamento, ele representava proteção espiritual, sabedoria e conexão com Upuhto, o Avô dos Ventos. Quando usado em cerimônias e momentos importantes da vida coletiva, o Tçambusebé recordava que cada adorno herdado dos tempos antigos era uma marca viva da presença dos Antepassados, mantendo unidos o povo, a natureza e o mundo espiritual.
Dessa forma, os Daklonto Upuhto Antoá permanecem como herança viva dos Primeiros Tempos, transmitindo aos descendentes os valores da coragem, da escuta, da sabedoria, do respeito à natureza e da união comunitária. Em cada Dakloro, Dakloene, Daklowõ, Iaru, Toriaru e no sagrado Tçambusebé, continua presente a lembrança de Upuhto e dos Antepassados que moldaram o mundo conforme as leis da harmonia e do equilíbrio. Mais do que adornos, eles são testemunhos da memória ancestral Kariri-Xocó, guardando a ligação eterna entre os seres humanos, os Ieende, a Terra e o Grande Mistério que sustenta toda a criação.
CAPÍTULO IV – CANGHITÉ BECHIÉ KERIÁ: COISAS BOAS, ROÇA E OS ANIMAIS
Após aprenderem a viver em comunidade e estabelecerem os fundamentos da aldeia, os Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos, voltaram seus ensinamentos para aquilo que sustentaria a continuidade da vida: a relação respeitosa com a terra, as plantas e os animais. Neste capítulo, são narradas as origens da Bechié, a roça sagrada, das Cópiné, as sementes que alimentam o povo, e dos Keriá, os animais que compartilham o mundo criado pelos primeiros seres. São memórias ancestrais que revelam como o trabalho coletivo, a gratidão à natureza e o equilíbrio entre todos os seres tornaram-se valores fundamentais na formação do modo de viver Kariri-Xocó.
Os Tokenhé, nossos Antepassados Sagrados, caminhavam sobre a terra recém-organizada, reuniam-se ao redor do Buyê, a Grande Fogueira. Ali, sob o brilho das chamas e o céu estrelado, contavam os Woroyá, as histórias que guardavam a memória dos primeiros tempos. Era nesse círculo de sabedoria que os Uanieá aprendiam os Swbatekié, os conhecimentos transmitidos de geração em geração, fortalecendo os laços entre o povo, os espíritos e a natureza.
Depois de erguerem a Picriá, a grande casa coletiva, os Antepassados estabeleceram a Natiá, a aldeia onde as famílias viveriam em união. Aquele espaço tornou-se o centro da vida comunitária, onde todos compartilhavam trabalho, alimento, ensinamentos e celebrações. A aldeia crescia cercada pelos sons da floresta e pela presença constante dos seres que habitavam o mundo criado pelos primeiros tempos.
Com o passar das estações, os Tokenhé perceberam que era necessário ampliar os lugares de sustento. Assim, abriram uma nova clareira na Retsé, a floresta sagrada. Com respeito à terra, iniciaram a Bechié, a roça, preparando o solo para receber as sementes que garantiriam a vida do povo. Cada etapa era realizada com cuidado, pois sabiam que a terra era uma dádiva dos Antepassados e deveria ser tratada com gratidão.
Nas roças, foram plantadas as Cópiné, as sementes das boas plantas que alimentavam as famílias. Entre elas estavam o Masiche, o milho, e o Ghinhé, o feijão, além de muitas outras espécies cultivadas para sustentar a comunidade. Quando chegavam as chuvas e o tempo da colheita, a abundância era celebrada como um presente da terra e do trabalho coletivo, fortalecendo a união entre todos os moradores da aldeia.
Enquanto as roças cresciam, a Retsé permanecia cheia de vida. Nela habitavam os Keriá, os animais que compartilhavam o território com os seres humanos. Entre eles estavam o Buké, o veado do mato, o Suét, o tatu, e o Kaplan, o jabuti, além de muitas outras criaturas. Os Antepassados ensinavam que cada animal possuía seu lugar e sua importância no equilíbrio do mundo. Assim, a aldeia, a roça e a floresta formavam uma única família, unida pelos ensinamentos antigos e pelo respeito à vida em todas as suas formas.
Na tradição oral, os ensinamentos dos Antepassados permaneceram vivos na aldeia, na floresta e nas roças cultivadas pelas gerações que vieram depois. Os Tokenhé ensinaram que a abundância não nasce apenas da força das mãos, mas também do respeito pela terra, pelas sementes e pelos animais que compartilham a criação. Desde os primeiros tempos, a Bechié, a Retsé e os Keriá passaram a representar uma mesma teia de vida, sustentada pela harmonia entre os seres. Dessa forma, os conhecimentos transmitidos ao redor do Buyê continuaram iluminando o caminho do povo Kariri-Xocó, fortalecendo a memória ancestral e a responsabilidade de cuidar do mundo deixado pelos antigos.
CAPÍTULO V – BUNIÓTO RUÑOHÚ: OS ARTEFATOS DE PODER E A CERÂMICA
Neste capítulo adentramos um dos mais antigos legados deixados pelos Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos: os Bunióto, os artefatos de poder que uniam o mundo material ao espiritual. Entre esses conhecimentos destaca-se a Ruñohú, a arte da cerâmica, por meio da qual o barro da Antse, a Mãe Natureza, era transformado em instrumentos indispensáveis à vida cotidiana e aos rituais da comunidade. Mais do que simples objetos, essas peças guardavam ensinamentos, memórias e significados sagrados, tornando-se testemunhos da sabedoria ancestral transmitida aos Kariri-Xocó desde os tempos primordiais.
Os Antepassados Sagrados, conhecidos pelos antigo Kariri como Tokenhé, eles caminhavam entre as Atseá, as Pessoas, transmitindo muitos conhecimentos que garantiam a sobrevivência e a harmonia do povo com a Antse, a Natureza. Foi nesse tempo primordial que homens e mulheres aprenderam os caminhos necessários para viver, alimentar suas famílias e preservar as tradições que atravessariam as gerações.
Os homens receberam dos Tokenhé os ensinamentos da Uaplu, a arte da caça, e da Mydzé, a arte da pesca. Com habilidade, aprenderam a utilizar o Seridzé, o arco, instrumento que permitiam caçar os Keriá, os animais da mata, e capturar os Wãmyá, os peixes das águas com o Yaclaro, o anzol. Esses conhecimentos eram vistos como presentes sagrados, pois garantiam o alimento e fortaleciam a ligação entre o povo e os seres da natureza.
As mulheres, por sua vez, receberam um ensinamento igualmente importante: a arte da Ruñohú, a cerâmica. Com as mãos moldavam o barro retirado da terra, transformando-o em objetos úteis para a vida cotidiana. Assim surgiam a Runhú, a panela de barro onde os alimentos eram preparados; a Ruño, o pote para guardar água e mantimentos; e o Aribé, o prato utilizado nas refeições da comunidade.
Entre as peças produzidas, havia também a Buiú, a talha funerária destinada aos rituais de sepultamento. Nela eram depositados os mortos, seguindo costumes ancestrais que demonstravam respeito pela passagem da vida para o mundo espiritual. Essas talhas guardavam não apenas os corpos, mas também a memória daqueles que haviam retornado ao caminho dos Antepassados.
Os Tokenhé ensinaram que os Bunióto, os artefatos sagrados, possuíam diferentes formas de poder. Alguns carregavam força espiritual, conectando as pessoas aos mistérios do mundo invisível; outros ofereciam utilidade para as tarefas do dia a dia. A cerâmica reunia essas duas dimensões, pois servia à vida material e, ao mesmo tempo, participava dos rituais da memória e da ancestralidade. Assim, o barro transformado pelas mãos humanas tornou-se um símbolo da sabedoria deixada pelos Antepassados para as gerações futuras.
Nesse modo, os Bunióto Ruñohú permanecem na memória do povo Kariri-Xocó como herança viva dos Tokenhé. Em cada panela moldada, em cada pote destinado à água, em cada talha funerária preparada com respeito, encontra-se a presença dos ensinamentos ancestrais que orientaram a vida das primeiras gerações. A cerâmica tornou-se um elo entre passado, presente e futuro, preservando não apenas técnicas e conhecimentos, mas também a identidade, a espiritualidade e a memória coletiva do povo. Dessa forma, o barro transformado pelas mãos humanas continua a narrar a história sagrada daqueles que aprenderam com os Antepassados a viver em equilíbrio com a Natureza e com os mistérios do mundo invisível.
CAPÍTULO VI – CANGHITÉ ANHÍANTOÁ: COISAS BOAS ESPIRITUAIS
Após ensinarem ao Tseho os caminhos da sobrevivência, da agricultura, dos animais e da organização da vida comunitária, os Tokenhé compreenderam que a existência humana somente estaria completa quando também fosse fortalecida a dimensão espiritual. Assim, este capítulo narra o momento em que os Antepassados Sagrados entregaram ao povo os conhecimentos e objetos que permitiriam manter viva a comunicação com as forças sagradas da criação. São ensinamentos que transcendem o mundo material e revelam como a memória, a oração, a música, os cantos e as danças passaram a ocupar um lugar central na preservação da identidade e da espiritualidade dos primeiros Kariri-Xocó.
Quando a Natiá, a Aldeia primordial, já possuía os caminhos da vida, os ensinamentos da roça, os animais e tudo o que sustentava o povo, os Tokenhé, os Antepassados Sagrados, perceberam que ainda faltava algo essencial para completar a existência humana. O corpo já tinha alimento, a terra já oferecia seus frutos e as famílias conheciam os caminhos da sobrevivência. Contudo, era necessário fortalecer também o espírito, para que a ligação entre as Pessoas, a Natureza e os próprios Antepassados permanecesse viva através dos tempos.
Foi então que os Tokenhé reuniram os dons sagrados que receberam nos primeiros tempos e os entregaram ao Tseho, o Povo. Esses ensinamentos receberam o nome de Canghité Anhíantoá, as Coisas Boas Espirituais. Não eram objetos comuns, mas presentes carregados de sabedoria, memória e força ancestral, destinados a manter viva a harmonia entre o mundo visível e o mundo dos espíritos.
Entre esses dons estava o Pawí, o Cachimbo de Pau, usado para elevar pensamentos e intenções aos seres sagrados. Junto dele veio o Tané, o Fumo, que acompanhava momentos de oração, reflexão e respeito aos ensinamentos antigos. Os Antepassados ensinaram que esses elementos deveriam ser utilizados com reverência, pois eram pontes que aproximavam as pessoas da presença espiritual dos Tokenhé.
Também foram entregues o Buibú, a Maraca, e o Badá, a Flauta. Seus sons não serviam apenas para alegrar a aldeia, mas para despertar a memória dos primeiros tempos e reunir a comunidade em torno das tradições sagradas. Quando seus instrumentos ecoavam pelo território, homens, mulheres, crianças e anciãos recordavam os ensinamentos recebidos dos Antepassados e renovavam os laços que uniam todas as gerações.
Por fim, os Tokenhé ofereceram ao povo o Wonhé, os Cantos e Danças Sagradas. Então os Uanieá, os Indígenas, reuniram-se para celebrar aquele momento e entoaram o canto ancestral: “Wonhé Xá Tokenhé Atá, Xá Tokenhé Atá, Xá Tokenhé Atá; Xá Tokenhé, Teké Sá”, lembrando que os Antepassados caminham eternamente ao lado de seu povo e que novas gerações continuam nascendo para guardar e transmitir a herança sagrada recebida desde os primeiros tempos.
Desde então, o Canghité Anhíantoá permaneceu como um dos mais preciosos legados dos Tokenhé para as gerações futuras. O cachimbo, o fumo, a maraca, a flauta, os cantos e as danças sagradas tornaram-se expressões vivas da presença ancestral, renovando continuamente os laços entre os Uanieá, a Natureza e os espíritos dos primeiros tempos. Através dessas práticas, a memória dos Antepassados continua atravessando os séculos, ensinando que a verdadeira força de um povo não reside apenas em sua sobrevivência material, mas também na capacidade de preservar sua espiritualidade, sua tradição e sua conexão sagrada com aqueles que vieram antes.
CAPÍTULO VII – SOTIKAÍ NETOÁ TOKENHÉ: FESTA DOS AGRADECIMENTOS AOS ANTEPASSADOS
A vida dos antigos Uanieá era guiada pelo respeito aos ensinamentos recebidos dos Tokenhé, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos. Cada colheita, cada caçada, cada pescaria e cada gesto de partilha eram vistos como heranças deixadas por aqueles que ensinaram a viver em harmonia com a terra, as águas e os seres da natureza. Para manter viva essa ligação sagrada entre as gerações, realizava-se a Sotikaí Netoá Tokenhé, uma celebração dedicada à gratidão, à memória e ao fortalecimento dos laços que uniam o povo aos seus ancestrais.
Desde os tempos antigos, os Uanieá, o povo indígena, mantinham viva a lembrança dos Tokenhé, os Antepassados Sagrados que haviam ensinado os caminhos da vida. Em sinal de respeito e gratidão por tudo o que haviam recebido, realizavam a Sotikaí Netoá Tokenhé, a grande Festa dos Agradecimentos aos Antepassados. Era um momento de união, memória e celebração, quando toda a comunidade se reunia para honrar aqueles que vieram antes.
Nos dias que antecediam a festa, homens, mulheres e jovens se organizavam para reunir os alimentos que seriam oferecidos durante a celebração. Na Bechié, a roça, muitos participavam da Curoté, a colheita dos Uanhí Tdjeá, recolhendo lavouras, legumes e tudo aquilo que a terra havia produzido com fartura. Cada fruto colhido era visto como uma dádiva deixada pelos ensinamentos dos antigos.
Enquanto alguns permaneciam nos campos, outros seguiam para a floresta em uma Uaplu, a caçada. Caminhavam pelos caminhos da mata observando os sinais da natureza e respeitando os espíritos que habitavam cada lugar. Ao mesmo tempo, grupos dirigiam-se aos rios e lagoas para a Mydzé, a pescaria, buscando peixes que também fariam parte do grande banquete comunitário.
Quando todos retornavam, a aldeia enchia-se de alegria. As Runhúá, as panelas, eram colocadas sobre o fogo, e os alimentos eram preparados com dedicação. Logo, as Aribé, os pratos, ficavam repletos de comidas variadas. Crianças, adultos e anciãos compartilhavam juntos a Amí, a comida, fortalecendo os laços de parentesco e amizade que uniam toda a comunidade.
Ao final da celebração, os agradecimentos eram expressos através do Wonhé, os cantos e danças sagradas, que ecoavam pela aldeia como uma homenagem aos Tokenhé. Os corpos ornamentados com Hibuyêwoho, a pintura corporal, refletiam a beleza e a espiritualidade daquele momento. Assim, a Sotikaí Netoá Tokenhé tornava-se mais do que uma festa: era a renovação da memória ancestral, da gratidão e da união entre os vivos, a natureza e os Antepassados Sagrados.
Ao longo dos tempos, a Sotikaí Netoá Tokenhé permaneceu como um símbolo da continuidade da vida e da força da memória ancestral. Por meio da partilha dos alimentos, dos cantos sagrados, das danças e das pinturas corporais, os Uanieá reafirmavam seu compromisso de preservar os ensinamentos recebidos dos Tokenhé. A festa ensinava que nenhum povo caminha sozinho, pois os passos do presente são guiados pela sabedoria daqueles que vieram antes. Assim, a celebração renovava a união entre a comunidade, a natureza e os Antepassados Sagrados, mantendo acesa a chama da tradição para as gerações futuras.
CAPÍTULO VIII – HIETÇÃDÉBA MOENAHAN: NOSSA VIDA HOJE
Os Kariri-Xocó atravessaram no tempo muitas transformações, enfrentaram desafios, acolheram novos conhecimentos e aprenderam a dialogar com diferentes mundos sem abandonar suas raízes. Hoje, vivemos em uma época marcada pela presença de tecnologias, meios de comunicação e recursos que aproximam povos e culturas. No entanto, mesmo diante dessas mudanças, permanecemos ligados à sabedoria dos nossos Antepassados Sagrados, que continuam orientando nossos caminhos. Este capítulo apresenta a vida atual do povo Kariri-Xocó, mostrando como tradição e modernidade caminham juntas na construção da nossa identidade coletiva.
Nos tempos atuais, o povo Kariri-Xocó convive com muitas das tecnologias e conhecimentos que chegaram por meio do contato com os Caraí, os não indígenas. Em nosso cotidiano utilizamos o Warudókli, a televisão, o Crametekié, o computador, a Piteiatekié, a internet, a Hinebakró, a energia elétrica, e os Tokliddaysã, os celulares. Essas ferramentas passaram a fazer parte da vida das famílias e ajudam na comunicação, no trabalho, nos estudos e na troca de conhecimentos com o mundo.
Também utilizamos os Rocruté, as roupas de pano, e viajamos por diferentes lugares utilizando o Ibáchi, os carros e ônibus. Assim como outros povos, aprendemos a conviver com as transformações trazidas pelo tempo, incorporando novos recursos que facilitam a vida diária. Essas mudanças fazem parte da caminhada dos povos e mostram a capacidade de adaptação diante das novas realidades.
Entretanto, mesmo vivendo em um mundo cada vez mais conectado, nunca deixamos de valorizar aquilo que recebemos dos nossos Antepassados. Nossa Samy, a cultura, continua viva em nossas aldeias, sendo ensinada às crianças e preservada pelos mais velhos. Os Uanhoá, os costumes tradicionais, permanecem orientando nossa forma de viver, fortalecendo os laços entre as famílias e a comunidade.
Entre as expressões mais importantes dessa herança está o Toráunie, a dança indígena, realizada através do Toré, o Som Sagrado da Flauta. Durante as celebrações, homens, mulheres, jovens e crianças se reúnem para cantar, dançar e recordar os ensinamentos transmitidos pelos antigos. O Toré continua sendo um elo entre o presente e a memória ancestral, renovando a identidade do povo a cada geração.
Além disso, mantemos viva a produção do Buruhúá, o artesanato, da Ruñohú, a cerâmica, e dos Dakloná, os adornos tradicionais. Essas expressões carregam histórias, saberes e símbolos que representam nossa origem. Mesmo após séculos de mudanças e desafios, jamais esquecemos quem somos. Seguimos caminhando entre o antigo e o novo, preservando a memória dos nossos Antepassados e afirmando com orgulho a identidade do povo Kariri-Xocó.
A história dos Tokenhé Antoá Bihéuché não pertence apenas ao passado, mas continua viva no presente e seguirá acompanhando as futuras gerações. Em cada canto do Toré, em cada peça de artesanato, em cada palavra ensinada aos mais jovens e em cada gesto de respeito à memória ancestral, permanece acesa a chama deixada pelos Primeiros Tempos. Vivemos em um mundo em constante transformação, mas seguimos firmes na preservação da nossa Samy e dos nossos Uanhoá, honrando aqueles que vieram antes de nós. Dessa forma, o povo Kariri-Xocó continua escrevendo sua própria história, caminhando entre o antigo e o novo, com orgulho de sua origem, força em sua identidade e confiança no futuro que ainda será construído pelos filhos e netos da nossa Nação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao concluir esta jornada pelos Primeiros Tempos, percebemos que os Tokenhé Antoá Bihéuché permanecem vivos na memória, na espiritualidade e na identidade do povo Kariri-Xocó. Seus ensinamentos ultrapassam o tempo e continuam orientando as relações entre as pessoas, a natureza e o mundo espiritual.
Este livro não representa um ponto final, mas um convite para que novas gerações continuem registrando, preservando e compartilhando os conhecimentos ancestrais. Enquanto a memória permanecer viva, os Antepassados continuarão caminhando ao lado de seu povo.
GLOSSÁRIO
Anhíantoá – Espíritos sagrados.
Arankié – Céu.
Antoá – Sagrados.
Antse – Natureza.
Antsetçoeyorã – Família da Natureza.
Aribé – Prato de barro.
Atseá – Pessoas.
Badá – Flauta.
Batti – Estrelas, ano.
Bechié – Roça.
Bihéuché – Primeiros Tempos.
Buibú – Maraca.
Buké – O veado do mato.
Bunióto – Artefatos de poder.
Buiú – Urna funerária.
Buyê – Grande Fogueira.
Canghité – Coisas boas.
Caraí – Brancos, colonizadores.
Cópiné – Sementes.
Crametekié –Computador.
Dakloneá – Os adornos.
Dakloro – Adorno dos braços.
Dakloene – Adorno das orelhas, brincos.
Dakloná – Adornos tradicionais.
Daklonto – Adornos de poder.
Daklowõ – Adorno das pernas.
Duto – Avô do Fogo.
Dzúnike – Avó da Água.
Kaplan – Jabuti.
Keriá – Animais.
Iaru – Flecha.
Ibáchi – Carros e ônibus.
Ieende – Pássaro.
Ghinhé – Feijão.
Hibuyêwoho – Pintura corporal.
Hinebakró – Energia elétrica.
Masiche – Milho.
Mydzé – Pesca, pescaria.
Natiá – Aldeia.
Natiankié – Aldeia Espiritual dos Antepassados.
Netoá – Agradecimentos.
Nikedda – Avó da Terra.
Ninoá – A grande criação.
Pawí – Cachimbo de pau.
Picriá – A grande casa coletiva.
Piteiatekié – Internet.
Retseá – Florestas.
Retsé – Floresta.
Rocruté – Roupa de pano.
Ruño – Pote de barro.
Ruñohú – Cerâmica.
Runhú – Panela de barro.
Samy – Cultura.
Seridzé – Arco.
Sotikaí – Festa ao redor do fogo.
Suét –Tatu.
Sumanike – Duas Avós.
Swbatekié – Conhecimento.
Sumarãtó – Dois Avôs.
Tané – Fumo.
Tçambusebé – Cocal de penas.
Tokenhé – Antepassados.
Tokliddaysã – Telefone Celular.
Toráunie – Dança indígena.
Toriaru – Zarabatana.
Toré – Som sagrado da flauta.
Tseho – Povo.
Tdjeá – Lavouras e legumes.
Uanhoá – Costumes tradicionais.
Uanie – Indígena.
Uanieá – Indígenas.
Uaplu – A arte da caça.
Ubuá – Plantas.
Upuhto – Avô do Vento.
Warudókli – Televisão.
Wãmyá – Peixes.
Wonhé – Cantos e danças sagradas.
Woroyá – Histórias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Antsetçoeyorã, A Grande Família da Natureza. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/o-conto-da-grande-familia-da-natureza.html?m=0 . Acesso em: 27 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Bechiantse, Natureza é a Roça. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/bechiantse-natureza-e-roca.html?m=0 . Acesso em: 27 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiá, A Aldeia Original dos Kariri. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/natia-aldeia-original-dos-kariri.html?m=0 . Acesso em: 27 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Utudjekaraí, Os Donos das Frutas dos Brancos. Disponível em :
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/utudjekarai-os-donos-das-frutas-dos.html?m=0 . Acesso em: 28 jun. 2026.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é escritor, pesquisador da memória indígena, contador de histórias oral e escrita e membro do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Dedica-se ao registro da tradição oral, da história, da cultura e da ancestralidade de seu povo por meio de livros, pesquisas e publicações culturais.
Sua produção literária busca fortalecer a preservação dos conhecimentos indígenas e contribuir para a valorização da diversidade cultural brasileira, mantendo viva a memória dos Antepassados para as gerações presentes e futuras.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó




