1 INTRODUÇÃO
A terra, enquanto espaço produtivo e simbólico, constituiu elemento central na organização das sociedades humanas. Desde a Antiguidade clássica até o Brasil, as grandes propriedades rurais moldaram estruturas econômicas e sociais. No caso brasileiro, sua consolidação esteve associada às contribuições indígenas e africanas, frequentemente invisibilizadas pela historiografia tradicional¹.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 Estruturas agrárias na Antiguidade
Na Grécia Antiga, a produção agrícola sustentava a pólis². Pequenas e médias propriedades garantiam a autonomia alimentar das cidades-estado.
Posteriormente, na Roma Antiga, consolidaram-se os latifundia³, grandes propriedades voltadas à produção comercial. Essas unidades abasteciam a cidade de Roma e dependiam amplamente do trabalho escravo⁴.
2.2 A reorganização fundiária medieval
Com a fragmentação do Império Romano, a terra tornou-se o principal elemento de poder político e econômico. O sistema feudal estruturou-se em torno dos feudos⁵, compostos por terras do senhor e parcelas cultivadas por servos.
Ao redor dessas unidades produtivas surgiram vilas e burgos⁶, embriões do renascimento urbano europeu.
2.3 A formação das fazendas no Brasil e a contribuição indígena
Quando os portugueses chegaram ao território americano, encontraram sociedades indígenas com sistemas agrícolas consolidados⁷. Técnicas como o cultivo da mandioca e o uso da coivara⁸ foram incorporadas à economia colonial.
Os povos originários também desempenharam papel fundamental na abertura de caminhos, na orientação geográfica e na adaptação da produção agrícola ao clima tropical.
2.4 A matriz africana na consolidação das fazendas
A economia açucareira, mineradora e cafeeira estruturou-se com base no trabalho de africanos escravizados⁹. Contudo, esses grupos trouxeram conhecimentos agrícolas, metalúrgicos e culturais que marcaram profundamente a formação da sociedade brasileira¹⁰.
As fazendas tornaram-se espaços de resistência cultural¹¹, onde práticas religiosas, musicais e alimentares africanas foram preservadas e transformadas.
2.5 A transição rural-urbana no Brasil
No século XIX, com a expansão cafeeira em regiões como São Paulo e Minas Gerais, consolidou-se o capital agrícola que financiaria ferrovias e núcleos urbanos¹².
A cidade brasileira formou-se como espaço multicultural, resultado da interação entre matrizes europeias, indígenas e africanas.
2.6 Povos do Nordeste e do Vale do São Francisco: territorialidade, fazendas e formação urbana
No Nordeste colonial, especialmente na região do Vale do Rio São Francisco, a formação das fazendas esteve diretamente relacionada aos processos de ocupação territorial, expansão pecuária e reorganização dos povos indígenas locais.
O Vale do São Francisco constituiu eixo estratégico de interiorização da colonização portuguesa, articulando o litoral açucareiro com o sertão pecuarista. A pecuária expandiu-se ao longo do rio como atividade complementar ao açúcar, fornecendo carne, couro e animais de tração para os engenhos.
Nesse contexto, a formação de fazendas no interior nordestino não ocorreu em território vazio, mas sobre espaços tradicionalmente ocupados por diversos povos indígenas¹³. Entre esses povos destacam-se os grupos Kariri, que habitavam extensas áreas do sertão e do baixo São Francisco.
2.6.1 A Fazenda Urubumirim e a formação de Porto Real do Colégio
Segundo MATA (1989; 2014), a colonização da região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, está vinculada à formação da Fazenda Urubumirim, datada de 1675. Essa fazenda tornou-se núcleo estruturante da ocupação territorial na área, integrando-se ao movimento de expansão agropecuária no baixo São Francisco.
A implantação da fazenda articulava:
Exploração pecuária;
Controle territorial;
Catequese e política indigenista colonial;
Consolidação de estruturas administrativas.
A região também foi marcada pela presença de missões religiosas, que atuaram na reorganização dos povos indígenas locais sob o modelo colonial¹⁴. A dinâmica entre fazenda, missão e aldeamento configurou uma nova organização territorial.
Contudo, conforme demonstra MATA (2014), o processo não significou desaparecimento cultural, mas transformação e resistência. O povo Kariri-Xocó manteve estratégias de afirmação identitária e continuidade territorial mesmo diante da integração forçada ao sistema colonial.
2.6.2 Estrutura social e econômica no Vale do São Francisco
As fazendas do Vale do São Francisco apresentavam características específicas:
Predominância da pecuária extensiva;
Uso de mão de obra indígena e posteriormente africana;
Formação de redes comerciais fluviais;
Surgimento de núcleos populacionais ao redor das propriedades.
O rio São Francisco funcionava como via de circulação econômica e cultural¹⁵, conectando diferentes regiões do Nordeste. Ao redor das fazendas surgiam capelas, armazéns e povoados que, gradualmente, evoluíam para vilas e municípios.
A formação de Porto Real do Colégio insere-se nesse contexto histórico, em que a fazenda não era apenas unidade produtiva, mas núcleo de reorganização territorial e social.
3 CONCLUSÃO
A evolução das grandes propriedades rurais demonstra continuidade estrutural desde a Antiguidade até o Brasil. Entretanto, no contexto brasileiro, a formação das cidades foi resultado de um processo multicultural e assimétrico.
Reconhecer as contribuições indígenas e africanas permite compreender a urbanização brasileira não apenas como fenômeno econômico, mas como construção histórica marcada por resistência, adaptação e síntese cultural.
A análise histórica evidencia que as grandes propriedades rurais exerceram papel central na formação das cidades desde a Antiguidade. No entanto, no Brasil — e particularmente no Nordeste e no Vale do São Francisco — esse processo esteve profundamente vinculado à territorialidade indígena e à presença africana.
A Fazenda Urubumirim, fundada em 1675, representa exemplo concreto da transformação do espaço indígena em unidade produtiva colonial, ao mesmo tempo em que revela processos de resistência e continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.
Dessa forma, compreender a formação urbana de Porto Real do Colégio e de outras localidades nordestinas implica reconhecer a fazenda como espaço de disputa, adaptação e permanência histórica.
NOTAS DE RODAPÉ
¹ A historiografia tradicional priorizou a perspectiva europeia, reduzindo o protagonismo indígena e africano.
² Pólis: cidade-estado grega caracterizada por autonomia política e econômica.
³ Latifundia: grandes propriedades rurais romanas destinadas à produção comercial em larga escala.
⁴ O trabalho escravo em Roma era resultado, sobretudo, das guerras de expansão territorial.
⁵ Feudo: unidade territorial da sociedade medieval baseada na posse senhorial da terra.
⁶ Burgos: núcleos urbanos que surgiram próximos a castelos ou rotas comerciais medievais.
⁷ Antes da colonização, povos indígenas já praticavam agricultura diversificada e manejo ambiental sustentável.
⁸ Coivara: técnica agrícola indígena baseada na queima controlada da vegetação para fertilização do solo.
⁹ O tráfico atlântico trouxe milhões de africanos para o Brasil entre os séculos XVI e XIX.
¹⁰ Muitos saberes agrícolas africanos foram fundamentais para o sucesso da produção açucareira e cafeeira.
¹¹ Resistência cultural refere-se à preservação de práticas religiosas, linguísticas e comunitárias mesmo sob regime de opressão.
¹² A expansão ferroviária brasileira esteve diretamente ligada à economia cafeeira do século XIX.
¹³ O sertão nordestino era habitado por diversos grupos indígenas antes da expansão colonial portuguesa.
¹⁴ As missões religiosas tinham como objetivo catequizar e integrar os povos indígenas ao sistema colonial.
¹⁵ O Rio São Francisco foi importante eixo econômico, cultural e estratégico na interiorização do Brasil colonial.
REFERÊNCIAS
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.
FINLEY, Moses I. A economia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.
MATA, Vera Lúcia Calheiros da. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. 2014. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó






