domingo, 22 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO ANTROPONÍMICA DA PENÍNSULA IBÉRICA: PROCESSOS HISTÓRICOS, LINGUÍSTICOS E CULTURAIS NA ORIGEM DOS SOBRENOMES







RESUMO



O presente artigo analisa a formação antroponímica da Península Ibérica a partir de uma perspectiva histórica, linguística e cultural, considerando os processos de ocupação e miscigenação que moldaram a constituição dos sobrenomes portugueses e espanhóis. Com base em estudos onomásticos e historiográficos, investiga-se a contribuição de povos ibero-celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e judeus sefarditas na consolidação do sistema nominativo hereditário. Argumenta-se que os sobrenomes ibéricos constituem registros históricos vivos, refletindo transformações sociais, religiosas e políticas desde a Antiguidade até a expansão ultramarina.

Palavras-chave: Antroponímia. Onomástica. Península Ibérica. História Medieval. Sobrenomes.



1 INTRODUÇÃO


A antroponímia, ramo da onomástica dedicado ao estudo dos nomes próprios de pessoas, constitui importante instrumento para a compreensão das dinâmicas históricas e culturais de uma sociedade.

No caso da Península Ibérica, a formação dos sobrenomes está diretamente associada aos processos de conquista, colonização, reorganização política e imposição religiosa que marcaram a região ao longo de mais de dois mil anos.

Segundo Machado (2003), os sobrenomes portugueses resultam de um processo gradual de fixação ocorrido entre os séculos XII e XV, quando os nomes patronímicos, toponímicos e ocupacionais passaram a ser transmitidos hereditariamente. Esse processo, contudo, possui raízes muito anteriores, remontando às matrizes culturais pré-romanas e à posterior romanização.

Dessa forma, compreender a origem dos sobrenomes ibéricos implica reconstruir uma linha do tempo histórica que integra linguística, política e religião.



2 MATRIZES PRÉ-ROMANAS: IDENTIDADE E TERRITÓRIO (até 218 a.C.)


Antes da conquista romana, a Península era habitada por iberos, celtas e lusitanos. Essas populações organizavam-se em estruturas tribais e utilizavam nomes individuais, frequentemente associados a atributos físicos, qualidades guerreiras ou vínculos territoriais.

De acordo com Saraiva (2007), a identidade pré-romana estava fortemente ligada ao espaço geográfico e à organização clânica. Essa ligação territorial explica a permanência de raízes toponímicas que posteriormente se fixariam como sobrenomes, como:

Silva (floresta)

Castro (fortificação)

Lima (rio)

Rocha

Costa

Esses nomes, embora consolidados apenas na Idade Média, possuem substrato linguístico anterior à romanização.


3 A ROMANIZAÇÃO E A ESTRUTURA NOMINAL LATINA (218 a.C. – século V)


A incorporação da Península ao Império Romano introduziu o sistema nominal tripartido (praenomen, nomen e cognomen). A romanização consolidou o latim vulgar como base linguística das futuras línguas ibéricas.

Machado (2003) destaca que muitos sobrenomes portugueses derivam de cognomina latinos ou de adaptações medievais desses nomes. Exemplos incluem:

Martins (derivado de Martius, ligado a Marte)

Pereira (associado à árvore pereira)

Ferreira (relacionado ao ferro e à atividade metalúrgica)

A romanização não apenas transformou a língua, mas também institucionalizou registros administrativos e eclesiásticos que favoreceram a posterior fixação dos sobrenomes.


4 OS POVOS GERMÂNICOS E O SISTEMA PATRONÍMICO (séculos V–VIII)


Com a queda de Roma, instalaram-se na Península povos germânicos, como suevos e visigodos, culminando na formação do Reino Visigótico.

Segundo Saraiva (2007), os visigodos mantiveram estruturas administrativas romanas, mas introduziram nomes germânicos que posteriormente foram latinizados. A principal contribuição foi o fortalecimento do modelo patronímico, caracterizado pelos sufixos:

-es (Portugal)

-ez (Espanha)

-iz

Esses sufixos indicam filiação, significando “filho de”. Exemplos:

Fernandes (filho de Fernando)

Gonçalves (filho de Gonçalo)

Henriques (filho de Henrique)

Nunes (filho de Nuno)

Esse modelo tornou-se dominante durante a Idade Média e permanece estruturante na onomástica ibérica.


5 AL-ANDALUS E A INFLUÊNCIA ISLÂMICA (711–1492)


A invasão muçulmana de 711 estabeleceu o território denominado Al-Andalus. Durante séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram sob diferentes regimes políticos.

A influência árabe na língua portuguesa é amplamente reconhecida. Conforme Tavani (1990), o contato linguístico favoreceu a incorporação de vocábulos e estruturas fonéticas árabes.

Na antroponímia, destacam-se:

Prefixo “Al-” (artigo definido árabe), como em Almeida e Albuquerque

Nomes ligados a profissões, como Haddad (ferreiro)

Topônimos como Medina

A presença islâmica contribuiu para a diversidade nominativa e cultural da região.


6 A RECONQUISTA E A FIXAÇÃO HEREDITÁRIA DOS SOBRENOMES (séculos VIII–XV)


A Reconquista Cristã consolidou os reinos ibéricos, entre eles o Reino de Portugal.

Nesse período, segundo Machado (2003), ocorre a fixação hereditária dos sobrenomes, inicialmente entre a nobreza e, gradualmente, entre camadas populares. A Igreja Católica desempenhou papel decisivo ao exigir registros batismais e matrimoniais, fortalecendo a estabilidade nominativa.

Sobrenomes tornaram-se instrumentos jurídicos, fiscais e sociais.


7 JUDEUS SEFARDITAS E CONVERSÕES FORÇADAS (séculos XV–XVI)


Com a instituição da Inquisição Espanhola em 1478, muitos judeus sefarditas converteram-se ao cristianismo.

Wolff e Wolff (1988) explicam que, nesse contexto, judeus convertidos (cristãos-novos) adotaram sobrenomes associados à natureza e localidades para evitar perseguições. Exemplos incluem:

Oliveira

Carvalho

Cardoso

Pinheiro

Leão

Toledo

Esses sobrenomes foram posteriormente levados às colônias americanas.


8 EXPANSÃO ULTRAMARINA E TRANSPLANTE ANTROPONÍMICO (séculos XVI–XVIII)


A expansão marítima portuguesa difundiu os sobrenomes ibéricos para África, Ásia e América. No Brasil colonial, a estrutura patronímica e toponímica foi mantida, mas passou a conviver com nomes indígenas e africanos.

Esse encontro gerou novos processos de miscigenação nominativa, ampliando o alcance histórico da antroponímia ibérica.


9 CONSIDERAÇÕES FINAIS


A formação antroponímica da Península Ibérica é resultado de um processo cumulativo, no qual cada período histórico deixou marcas estruturais nos sobrenomes atuais. Da herança territorial pré-romana à romanização, das contribuições germânicas à influência islâmica e judaica, observa-se uma construção identitária plural.

Os sobrenomes ibéricos constituem, portanto, arquivos históricos vivos, revelando camadas sucessivas de identidade, poder e adaptação cultural.



10 REFLEXÃO DO AUTOR: IDENTIDADE COMO TRAVESSIA HISTÓRICA


Ao concluir esta análise sobre a formação antroponímica da Península Ibérica, compreende-se que o estudo dos sobrenomes não se limita à investigação etimológica ou histórica. Trata-se também de uma reflexão sobre identidade e memória.

Carrego em meu nome os sobrenomes Nunes e Oliveira. O primeiro, de natureza patronímica, consolidou-se durante o período do Reino Visigótico, quando os sufixos "-es" passaram a indicar filiação, significando “filho de”. O segundo, de origem toponímica e ligado à árvore mediterrânica da oliveira, possui raízes latinas estruturadas no contexto do Império Romano e foi amplamente difundido na sociedade ibérica medieval, inclusive durante o período da Inquisição Espanhola, quando muitos cristãos-novos adotaram sobrenomes associados à natureza.

Entretanto, minha identidade primeira é indígena, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Essa ancestralidade antecede a colonização europeia e representa uma memória histórica originária do território brasileiro.

A coexistência desses elementos não constitui contradição, mas sobreposição histórica. O Brasil formou-se a partir de encontros complexos entre povos indígenas, europeus e africanos. Os sobrenomes ibéricos chegaram como parte de uma estrutura administrativa e religiosa colonial, mas foram ressignificados ao longo do tempo em uma sociedade marcada por resistência cultural e permanência identitária.

Assim, o nome torna-se um arquivo histórico vivo. Ele narra deslocamentos, imposições, adaptações e permanências. Contudo, a identidade transcende o registro nominal. O estudo da antroponímia ibérica, portanto, não é apenas uma investigação histórica, mas também uma oportunidade de compreender como as camadas do passado continuam presentes na constituição do sujeito contemporâneo.



REFERÊNCIAS



FAURE, Sabina; RIBEIRO, José Pedro. Dicionário de Sobrenomes Portugueses. Lisboa: Editorial Presença, 2007.


MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2003. 3 v.


SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. 25. ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 2007.


TAVANI, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1990.


WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Portugal. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Judaicos, 1988.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



FORMANDO AS PRIMEIRAS PALAVRAS EM KARIRI






(Da Sílabas ao Sentido Cultural)




🌱 Introdução


A palavra é mais do que som.

A palavra é memória.


A palavra é pensamento organizado.

A palavra é identidade.


Na língua Kariri-Xocó, cada sílaba carrega um sopro ancestral. Quando juntamos sílabas, não estamos apenas formando palavras — estamos reconstruindo caminhos culturais, fortalecendo a tradição oral e revitalizando nossa herança linguística.


Aprender a formar palavras é aprender a pensar no próprio idioma do povo.



🎯 Objetivos da Aula


Transformar sílabas em palavras completas.


Trabalhar o significado cultural das palavras.


Reforçar a identidade linguística Kariri-Xocó.


Introduzir leitura simples e consciente.



📚 Formação das Primeiras Palavras



1️⃣ BARÁ


Separação silábica: BA – RÁ

Significado cultural:

Balaio — utensílio feito de cipó onde se transportam frutas, peixes e a produção agrícola.

Contexto cultural:

O BARÁ representa trabalho coletivo, agricultura, pesca e subsistência tradicional. Ele é símbolo de organização e cuidado com o alimento.



2️⃣ KAYA


Separação silábica: KA – YA

Significado cultural:

Noite — período noturno sob domínio de Kayaku, a Lua.

Contexto cultural:

A noite é tempo de descanso, de histórias ao redor do fogo, de escuta dos mais velhos e de conexão espiritual com a natureza.



3️⃣ NHANI


Separação silábica: NHA – NI

Significado cultural:

Sal — substância utilizada na alimentação, trazida pelos colonizadores.

Contexto cultural:

A palavra permite ensinar também história. O NHANI representa o contato intercultural e as transformações alimentares após a colonização.



4️⃣ BUIBÚ


Separação silábica: BUI – BÚ

Significado cultural:

Cabaça — utilizada para fazer o maracá, instrumento sagrado do Toré.

Contexto cultural:

O BUIBÚ carrega espiritualidade. É som, é ritmo, é ritual. Está presente nas cerimônias e na força do Toré.



5️⃣ TSEHO


Separação silábica: TSE – HO

Significado cultural:

Gente — o povo, a comunidade.

Contexto cultural:

TSEHO é coletivo. Não é apenas indivíduo. É pertencimento, aldeia, família ampliada.



✏️ Exercício Prático


1️⃣ Separe em sílabas:

BARÁ → ______

KAYA → ______

NHANI → ______

BUIBÚ → ______

TSEHO → ______



2️⃣ Leia em voz alta


Pronuncie pausadamente cada sílaba e depois una os sons.


3️⃣ Copie no caderno


Escreva cada palavra três vezes.


4️⃣ Crie uma frase simples


Exemplos:

O BARÁ está cheio de frutas.

A KAYA chegou com a luz da Lua.

O TSEHO dança o Toré com o BUIBÚ.




🌿 Conclusão



Formar palavras é reconstruir caminhos.

Cada sílaba aprendida fortalece a identidade do povo Kariri-Xocó.


A língua vive quando é falada, escrita e ensinada.


Ensinar as primeiras palavras é plantar as primeiras sementes da continuidade cultural.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






sábado, 21 de fevereiro de 2026

AS PRIMEIRAS SÍLABAS EM KARIRI: O SOM QUE FORMA A PALAVRA






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú


🌿 Introdução


Depois de conhecer o Alfabeto Kariri, iniciamos uma nova etapa do letramento: a formação das primeiras sílabas.

A sílaba é o encontro entre o sopro da vogal e a força da consoante.

É nela que o som ganha corpo.

É nela que nasce a palavra.

Ensinar sílabas em Kariri é ensinar ritmo, identidade e continuidade cultural.


🌱 1. Revisando as Vogais


Antes de formar sílabas, reforçamos os sons das vogais:


A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI

A criança precisa ouvir, repetir e sentir o som.


Primeiro o ouvido aprende. Depois a mão escreve.


🌊 2. Primeiras Combinações Silábicas

Começamos com consoantes simples.


Com B:


BA – BE – BI – BO – BU

BUI


Observe como o som muda quando encontramos o UI.


Aqui o som desliza, ele caminha.


Com K:

KA – KE – KI – KO – KU

O K representa também o som do C e do Qu.


É importante que a criança perceba que o som é mais importante que a letra isolada.


Com T:


TA – TE – TI – TO – TU


Depois introduzimos:


TS A – TS E – TS I – TS O – TS U

Aqui começa a percepção dos sons compostos.


🌿 3. Sons Específicos da Língua Kariri


Agora introduzimos elementos próprios da Nunú.


Tx (som de “tchau”)


TXA – TXE – TXI – TXO – TXU

Nh (som semelhante ao ñ espanhol)

NHA – NHE – NHI – NHO – NHU


Aqui a criança percebe que nossa língua possui sons que o português não possui da mesma forma.


Isso fortalece identidade linguística.


🔥 4. A Sílabas Formam Cultura


Depois das sílabas, começamos a formar palavras simples e culturais.


Exemplos didáticos:


BA + RA

KA + YA

NHA + NA


Cada palavra deve ter significado dentro da realidade do povo.


O letramento indígena precisa nascer do território.


🌺 Metodologia Recomendada

Pronunciar lentamente

Repetição coletiva

Repetição individual

Escrita no ar com o dedo

Escrita no caderno


Som → Sílaba → Palavra → Sentido

🌄 Conclusão


Quando a criança aprende BA, ela não aprende apenas uma combinação de letras.


Ela aprende que o som pode ser unido.

Que a união cria palavra.


Que a palavra cria pensamento.

E que o pensamento mantém viva a Nunú.


Assim seguimos:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.

( Vamos aprender nossa língua )




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






LETRAMENTO DO ALFABETO KARIRI






Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú

(Vamos Saber Nossa Língua)



🌿 Introdução


O letramento do Alfabeto Kariri representa um novo tempo para o povo Kariri-Xocó. A escrita não substitui a oralidade, mas a fortalece. Cada letra é um território sonoro, cada som é memória ancestral.


Ensinar o alfabeto é plantar identidade.



🌱 O Alfabeto Kariri


A língua Kariri possui 28 letras:


18 consoantes e 10 vogais.


Vogais:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Consoantes:


B – Tx – D – Dj – Ds – Dz – G – K – L – M – N – Nh – P – R – S – Ts – T – V



O ensino começa pelos sons, depois pelas sílabas, e então pelas palavras que carregam cultura.



🌊 Metodologia de Letramento


Oralidade primeiro


Reconhecimento sonoro


Associação com imagens culturais


Formação de sílabas


Leitura de palavras do cotidiano indígena



🌱 1ª ETAPA – DESPERTAR SONORO (ANTES DA ESCRITA)


Antes de ensinar letras, ensine sons.



🎶 1. Roda de escuta


Pronuncie cada vogal lentamente:



A – E – EI – I – IU – O – OE – OI – U – UI


Peça que repitam em coro.


Depois, individualmente.



Trabalhe especialmente os sons que não existem no português (como IU e OE).



📌 Aqui o foco não é a grafia, é o ouvido.



🌿 2ª ETAPA – VOGAIS PRIMEIRO (Base do Letramento)



Comece pelas vogais, pois são o coração da língua.



Sugestão de sequência didática:


Aula 1 – Vogais simples:


A – E – I – O – U



Trabalhar:


Som isolado


Palavra exemplo


Desenho associado


Pronúncia comparativa com o português


Aula 2 – Vogais compostas:


EI – IU – OE – OI – UI


Aqui você pode:


Mostrar que são “vogais que caminham juntas”


Fazer comparação sonora (ex: EI como Bananeira; OI como Oiticica)


📌 Trabalhe muito o IU, explicando que é um som único, como você já descreveu — semelhante ao I grosso do Tupi.




🌾 3ª ETAPA – CONSOANTES EM BLOCOS


Não apresente as 18 de uma vez. Divida por famílias sonoras:



Bloco 1 – Sons simples


B – D – G – K – L – M – N – P – R – S – T – V



Depois:



Bloco 2 – Sons compostos


Dj – Dz – Ds – Nh – Tx – Ts



🌊 4ª ETAPA – SÍLABAS (Construção Gradual)



Após vogais dominadas:


Exemplo:


BA – BE – BI – BO – BU


KA – KE – KI – KO – KU



Depois introduza:


BUI (Bwj)


DJA


TXA



Aqui começa a alfabetização real.



🔥 5ª ETAPA – PALAVRAS SIGNIFICATIVAS


Nunca ensine palavras neutras. Ensine palavras culturais.



Exemplo:


Opará (Rio São Francisco)


Kayaku / Kadjaku


Naticrórai


Pahankó



Isso fortalece identidade.



🌳 METODOLOGIA INDÍGENA DE LETRAMENTO



Sugestão baseada na pedagogia intercultural:


Oralidade primeiro


Som antes da letra


Letra antes da sílaba


Sílabas antes de textos


Textos com significado cultural



📚 MATERIAL DIDÁTICO SIMPLES PARA INÍCIO



Você pode criar:


Cartões com letras grandes


Cartões com sílabas


Cartazes das vogais


Um pequeno livreto ilustrado


Exemplo de estrutura inicial:



Capa:



“Aprendendo o Alfabeto Kariri”


1ª página – Vogais


2ª página – Consoantes simples


3ª página – Consoantes compostas


4ª página – Sílabas


5ª página – Primeiras palavras



🌄 PROPOSTA DE PRIMEIRO MÊS



Semana 1 → Vogais simples


Semana 2 → Vogais compostas


Semana 3 → Consoantes simples


Semana 4 → Formação de sílabas



🌺 ELEMENTO FUNDAMENTAL



Ensinar que:



Tx é som de “tchau”


Nh é semelhante ao ñ espanhol


Dj é som de “Django”


Y possui função dupla (vogal IU / som Dj dependendo da posição)


Explique sempre com exemplos falados.



🌞 UMA FRASE PEDAGÓGICA PARA INICIAR A AULA



Você pode começar dizendo:


“Nossa língua é nosso território sonoro. Cada letra é um passo na memória do nosso povo.”



🌺 Conclusão



Letrar em Kariri é reconectar gerações.


É dizer às crianças:


Bocuwiá Uné Hietãdé Nunú.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

AERÃUBÍ RADÁNUNÚ: O MAPEAMENTO DA TERRITORIALIDADE NA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ






1. Introdução


O território indígena ultrapassa a dimensão geográfica e jurídica. Para o povo Kariri-Xocó, a territorialidade está profundamente vinculada à língua, à memória histórica e à relação espiritual com o espaço. O conceito de Aerãubí Radánunú — mapeamento da territorialidade na língua Kariri-Xocó — expressa essa compreensão ampliada, na qual cada palavra constitui um marco geográfico, histórico e cultural.


Este estudo apresenta uma análise descritiva da territorialidade Kariri-Xocó a partir de sua própria nomenclatura tradicional, destacando elementos geográficos, históricos, ambientais e socioculturais, bem como os impactos das transformações ocorridas após a chegada dos colonizadores.


2. Fundamentação Histórica e Identitária


A etimologia do nome Kariri-Xocó revela sua conexão com o território. “Ka” significa cantar; “Ri”, derivado de Rihu, significa lagoa ( Dzurió ); e “Xocó” refere-se ao pássaro Socó, ave característica das lagoas. Assim, o nome do povo associa-se diretamente ao ambiente lacustre e à prática cultural do canto, evidenciando a integração entre identidade e natureza.


Na Woroy (história tradicional), registra-se que os Waréá (padres) retiraram os indígenas da Natianie (aldeia tradicional), estabelecendo a Naticróraí, povoado que posteriormente se consolidou como cidade. Esse deslocamento marca um momento significativo de reorganização espacial e social, mas não rompeu os vínculos simbólicos com a Radá Nhenetí (terra tradicional).


3. Delimitação Territorial Tradicional


A Radá Nhenetí localiza-se às margens do Rio São Francisco, denominado na língua Kariri-Xocó como Opará.


Os limites tradicionais são descritos da seguinte forma:


Oeste: onde o Ukie Dzunú (sol) se põe;

Norte: Siririté da Maraba (serra);


Leste: Boêdo da Dzurió Tasí (morro da Lagoa da Enxada);


Sul: a cidade de Porto Real do Colégio.

Dentro da Terra Indígena encontram-se importantes referências ambientais e culturais:


Dzurió Curéá (Lagoa dos Porcos);

Dzurióchi (Lagoa Comprida);

Pohó Itiúba (Várzea da Canoa);

Retsé Matkaí (Floresta do Ouricuri);

Natiá (Aldeia).


Esses espaços constituem marcos ecológicos e simbólicos do território.


4. Transformações Territoriais e Impactos


Parte do território encontra-se homologada, enquanto outra parte ainda aguarda regularização. Nas áreas ocupadas externamente surgiram as Wanheréá Caraí (fazendas dos brancos), as Erácró (casas de alvenaria) e povoados como Tibirí, Tapera e Girau.


Com a expansão não indígena, a Antse (natureza) sofreu modificações significativas. A construção de hidrelétricas — denominadas Maecrótçawoá, “cerca de pedra que corta o rio” — alterou o fluxo do Opará.


Destaca-se também a construção da ponte rodoviária sobre o Rio São Francisco, na década de 1970, elemento que intensificou a integração viária regional.


Essas intervenções representaram mudanças estruturais no ambiente físico e no modo de vida tradicional, impactando práticas culturais, econômicas e espirituais.


5. Estrutura Sociocultural Atual


Na Aldeia encontram-se instituições que articulam tradição e contemporaneidade:


Erantoá (igreja, casa dos santos);

Erátekié Uanie (escola indígena);

Iabaerá (conjuntos residenciais);

Hinebakró (poste de luz elétrica);

Bypeddá (campo de jogar).


A fauna e a biodiversidade da mata Retsé permanecem componentes essenciais da territorialidade, incluindo espécies como cobra (Nieɲi), lontra (Klimi), gato-do-mato (Poió Retsé) e tamanduá (Hazú), reforçando a relação entre língua, ecologia e cosmovisão.


6. A Territorialidade como Linguagem


O Opará ocupa papel central na Samy (cultura) Kariri-Xocó. Ele não é apenas recurso natural, mas eixo estruturante da identidade coletiva.


O conceito de Aerãubí Radánunú demonstra que o território é também um sistema linguístico. A língua organiza o espaço, nomeia a natureza e consolida a memória histórica. Assim, a preservação linguística configura-se como instrumento de resistência territorial.


7. Conclusão


O mapeamento da territorialidade Kariri-Xocó evidencia que território não se restringe à demarcação física ou jurídica. Ele é constituído por narrativas, significados e expressões linguísticas que perpetuam a identidade coletiva.


A língua Kariri-Xocó funciona como cartografia cultural, na qual cada termo representa um marco espacial e histórico. Manter viva essa língua é assegurar a continuidade da Radá Nhenetí e da Samy do povo.


O Aerãubí Radánunú, portanto, não é apenas um conceito, mas um método de preservação identitária e territorial.




Referências Bibliográficas


BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.


FUNAI – Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Povos indígenas no Brasil: Terras indígenas e processos de demarcação. Brasília: FUNAI, 2023.


KARIRI-XOCÓ, Nnhenety. O devir de tradicionalista: “o guardião da língua e da tradição KX” In: Fórum de debate: Bilinguismo indígena no Brasil. Universidade do Estado da Bahia. Evento online, 17 mai. 2022. Vídeo (1h28). Disponível em: 

https://www.youtube.com/watch?v=RRXWZr27Ax4&t=58s. Acesso em: 2 jun. 2024.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Undea Boighy Opará: o caminho das águas. Blog Kx Nhenety, 2026. Disponível em: https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/undea-boighy-opara-o-caminho-das-aguas.html�. Acesso em: 10 fev. 2026.


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Undea Aiby Radda: os lugares da terra. Blog Kx Nhenety, 2026. Disponível em: https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/undea-aiby-radda-os-lugares-da-terra.html�. Acesso em: 10 fev. 2026.


RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. O artigo definido e os numerais na língua Kirirí: Vocabulários Português-Kirirí e Kirirí-Português In: Revista Brasileira de Linguística Antropológica.Volume 4, Número 2, dezembro de 2012, p. 169-235.


SIQUEIRA, Baptista. Os Cariris do Nordeste. Livraria Editora Cátedra, 351, p. Rio de Janeiro 1978. Disponível em:

https://www.researchgate.net/publication/311749746_PROCESSO_DE_INVISIBILIDADE_DOS_INDIOS_KARIRI_NOS_SERTOES_DOS_CARIRIS_NOVOS_NA_SEGUNDA_METADE_DO_SECULO_XIX.. Acesso em 10 set. 2018.


SUZART, Elizabete Costa. Fórum de Debates: Bilinguismo indígena no Brasil / organizado por Elizabete Costa Suzart [Evento online]. Canal Pós-Crítica UNEB. Tirocínio Docente I (17 mai. A 07 jul. 2022). Universidade do Estado da Bahia, Campus II - Alagoinhas Bahia, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLzluw2pRSkGdP5dalduPmf6ekcV2WXL. 

___________________. Ressonância da pragmática dos signos ancestrais no movimento bilíngue Kariri-Xocó: por um outro dicionário In: Anais Seminário Interlinhas – Universidade Estadual da Bahia (Campus II): Fábrica de Letras, v. 9, n. 1 e 2 (2021) 733-758 p. Disponível em:

https://www.revistas.uneb.br/index.php/asipc/article/view/16123. Acesso em 03 jun. 2024. 

____________________. Kariri-Xocó: Arquivos e Práticas por uma cultura bilíngue / 

Elizabete Costa Suzart; orientador Prof. Dr. Osmar Moreira dos Santos. Dissertação para obtenção ao título de mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural.Universidade do Estado da Bahia – UNEB (Campus II-Alagoinhas-BA). 2020. 200p. il. Disponível em: https://www.poscritica.uneb.br/wp-content/uploads/2025/03/Suzart-Elizabete-Costa.pdf. Acesso em 26 mai. 2025.


SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Alagoinhas, 2025. 



RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.





Autores: Nhenety Kariri-Xocó, Formador, Orientadoras, Professores da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra. 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

WIPOKIÉ AINDZU — ATRAVESSANDO O MAR






No Tudenhé, no tempo antigo que mora na memória dos mais velhos, muitos Caraí, brancos cruzaram o Aindzu, grande mar e chegaram às nossas Radá, terra. Vieram em navios altos como montanhas flutuantes, trazendo bandeiras, mapas e promessas que o vento levou.


Mas o Radda Iworó, mundo gira como o Toré.

E chegou o Uché dos Uanieá, Tempo dos Indígenas.

Chegou o tempo em que os filhos da Radá, terra  decidiram conhecer o Radda Saidzá — o mundo deles. Não para conquistar, não para tomar, mas para cantar, ensinar e lembrar que a terra tem espírito.


Assim começou Wipokié Aindzu Yeemerãkié — atravessando o mar de avião.


Quando o pássaro de ferro cortou as Arankedzoá, nuvens pela primeira vez, os corações bateram como maracás. Não era fuga. Era retorno de dignidade. Era intercâmbio de mundos.


No ano de 2003, e depois em 2005, a ONG Thydêwá abriu Woré Arankedzoá, caminhos do céu. Sete prefeituras, o CISA, o MDH e a RELACS ajudaram a tecer essa ponte invisível entre continentes. Cinco indígenas atravessaram o Aindzu, oceano e pousaram nas Mair Naticróraí da França.


A Turnê chamava-se Índios na França.

Levaram Buruhúá, artesanatos feitos com mãos que conhecem a madeira e a fibra como parentes.


Levaram Dakloná, adornos que brilhavam como o sol sobre o rio.


Levaram Wonhé — os Cantos do Toré — que ecoaram além-mar.


Quando chegaram a Paris, olharam para o alto e viram a grande estrutura de ferro tocar o céu. O povo de lá a chamava de Torre Eiffel.


Mas eles sorriram.

— Yebewó Meratá — disseram.

O Grande Tronco de Ferro.


E naquele instante, a torre deixou de ser apenas monumento. Tornou-se árvore de outro território.


Os cantos do Toré dançaram sob o céu francês. O mar já não era distância. Era ponte.


Em 2018, novo voo rasgou as nuvens rumo à Radá Ingueré — a Terra dos Ingleses. Com apoio do Fundo de Cultura da Bahia e acolhimento da Universidade de Leeds, os Uanieá chegaram ao Reino Unido.


Lá, entre prédios antigos e ruas de pedra, ergue-se um relógio que marca as horas do mundo. O povo de lá o chama de Big Ben.

Mas os indígenas olharam para ele com outro entendimento.


— Yeiwouché — disseram.

O Grande Relógio, Roda do Tempo.


Enquanto o sino ecoava sobre Londres, marcando o tempo oficial dos impérios, os filhos da Radá sentiam outro tempo pulsar dentro de si — o tempo do Toré, o tempo da memória, o tempo da ancestralidade.


O Yeiwouché marcava horas.


Lá, na terra da névoa, o Toré também encontrou espaço.


Nas viagens participaram Tibiriçá, Ayrá, Atyá, Mayá, Tawanã, Xumalhá, Aranawí — filhos das etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pataxó-Hãhãhãe. Não iam como visitantes silenciosos. Iam como povos vivos.


Mostraram que o Nordeste brasileiro pulsa em canto, artesanato e memória.

Mostraram que a cultura não é passado — é presença.


No Tudenhé, os Caraí atravessaram o mar para chegar às nossas Radá.

Agora, no Uché dos Uanieá, somos nós que atravessamos.


Não como vencidos.

Mas como cantadores de mundos.

Porque Wipokié Aindzu não é apenas atravessar o mar.


É atravessar o tempo.

É transformar distância em diálogo.

É lembrar ao mundo que a cultura indígena não ficou na história — ela voa.


E quando o avião pousa, o Toré continua dançando dentro do peito.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







SAMYONHÉ WONHÉÁ TORÁ, GRAVAÇÃO DOS CANTOS DE TORÉ






No Uché Tudenhé — o Tempo Passado — o Wonhéá Torá, cantos sagrados vivia guardado onde nenhum vento apaga e nenhuma chuva leva: na Samy Bohé, a Memória Social do povo.


Não existia Cramycá Bydimerakró, caixa com chip.


Não havia botão para apertar.

O som morava no peito.


A gravação era feita no coração das Atseá, pessoas, 

Os Duboheâra, Mestres do Canto, ensinavam olhando nos olhos.

O ritmo nascia no chão batido.


O Toré ecoava nas noites claras, e cada criança aprendia ouvindo, repetindo, sentindo.


Mas o Barae Uché — o Novo Tempo — chegou como vento diferente.

Veio trazendo novidades que brilhavam como estrela moderna.


Chegou a ONG Thydêwá, trazendo junto o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.


E disseram:

— Vamos registrar o que já vive há séculos.

— Vamos guardar no Iworó, disco, aquilo que já mora na alma.


Então a comunidade se reuniu.

Chamaram os Duboheâra e as Atseá, mestres e pessoas:

Seregé, Soyré, Nhenety, Wiriçá, Geriçá, Taréiçá, Kayanã, Eruanã, Wrwray, Anoráya, Ynoraya, Iraçá, Kayane, Suirana e Wyrayane.


Cada nome era um som.

Cada voz era uma raiz.

Gravaram o Craiwonpiwon — o CD Kariri-Xocó Canta Toré.


Gravaram também o Craiwopewa — o DVD Toré Som Sagrado.


Não era apenas tecnologia.

Era memória atravessando o tempo.

Na Bechiéá de Wiriçá, o parente generoso que abriu sua roça como quem abre o coração, levaram Amí, Uttihu e Riné, comida, carne e frutas.


Fizeram Buyê mó torá Toré — acenderam a fogueira.


E ali, sob o céu testemunha, o Toré foi dançado como sempre foi.


O fogo iluminava os corpos.

O canto iluminava o espírito.


A câmera registrava.

Mas o verdadeiro registro continuava sendo feito na Samy Bohé.


Foram dois mil Iworó espalhando o canto sagrado.


E quando o vídeo foi exibido na praça da aldeia, diante da comunidade reunida, não era apenas uma tela que brilhava —

Era o povo vendo a si mesmo.

Era o passado conversando com o futuro.

Era o Uché Tudenhé abraçando o Barae Uché.


E assim ficou gravado:

Não apenas no disco.

Não apenas na imagem.

Mas na eternidade da cultura.

O Wonhéá Torá continua.


Vive na memória.

Vive na tecnologia.

Vive no povo.


E enquanto houver fogueira acesa e voz que cante,

o Toré jamais se apagará.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó