terça-feira, 16 de junho de 2026

HERANÇA CULTURAL DOS ANTIGOS KARIRI: LÍNGUA, MEMÓRIA E SABERES DOS KARIRI-XOCÓ







FALSA FOLHA DE ROSTO

HERANÇA CULTURAL DOS ANTIGOS KARIRI

Língua, Memória e Saberes dos Kariri-Xocó





FOLHA DE ROSTO

HERANÇA CULTURAL DOS ANTIGOS KARIRI

Língua, Memória e Saberes dos Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO

Copyright © 2026 Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra destina-se à preservação, valorização e divulgação dos conhecimentos históricos, linguísticos e culturais relacionados aos antigos Kariri e aos atuais Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.





FICHA CATALOGRÁFICA

Kariri-Xocó, Nhenety.

Herança Cultural dos Antigos Kariri: Língua, Memória e Saberes dos Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.

Inclui referências bibliográficas.

Kariri. 2. Kariri-Xocó. 3. Cultura Indígena. 4. Línguas Indígenas. 5. História Indígena. 6. Patrimônio Cultural. I. Título.

CDD: 980.41



ISBN (Simbólico): 978-65-0000-001-0





PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 






DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri e Kariri-Xocó, homens, mulheres, anciãos e crianças que preservaram a memória de nosso povo mesmo diante das dificuldades impostas pela história.

Dedico também aos guardiões da tradição oral, aos mestres da cultura, aos contadores de histórias, aos cantadores, aos agricultores, pescadores, artesãos e a todos aqueles que mantiveram vivos os saberes transmitidos de geração em geração.

Que este trabalho seja uma homenagem à resistência e à permanência da identidade indígena no Vale do São Francisco.






AGRADECIMENTOS

Agradeço, em primeiro lugar, aos meus antepassados, cuja memória inspira esta pesquisa.

Aos anciãos Kariri-Xocó que compartilharam histórias, ensinamentos e experiências fundamentais para a construção desta obra.

Aos pesquisadores, missionários, linguistas, historiadores e antropólogos que registraram aspectos da cultura Kariri ao longo dos séculos, permitindo que parte desse patrimônio chegasse aos nossos dias.

Agradeço também à minha família, aos amigos, leitores e a todos aqueles que acreditam na importância da preservação da memória indígena.

Por fim, agradeço a Deus, fonte de vida, sabedoria e inspiração.






EPÍGRAFE

“Um povo que conhece sua história fortalece sua identidade; um povo que preserva sua memória garante a continuidade de sua existência.”

(Nhenety Kariri-Xocó)







PREFÁCIO

A presente obra constitui uma contribuição significativa para os estudos da história, da cultura e da memória dos povos Kariri do Nordeste brasileiro. Reunindo informações provenientes de documentos históricos, vocabulários missionários, pesquisas acadêmicas e tradições orais preservadas pelos Kariri-Xocó, o autor apresenta um amplo panorama dos conhecimentos ancestrais relacionados ao cotidiano, à linguagem, à alimentação, à agricultura, à religiosidade e às expressões culturais desse importante grupo indígena.

Mais do que um inventário de palavras e objetos, este livro representa um esforço de valorização da memória coletiva e de fortalecimento da identidade indígena, contribuindo para a preservação de saberes transmitidos ao longo de muitas gerações.






RESUMO

Esta obra apresenta um estudo sobre a herança cultural dos antigos Kariri, destacando aspectos relacionados à língua, cultura material, organização social, alimentação, agricultura, religiosidade, tecnologia tradicional e transmissão de conhecimentos. Com base em fontes históricas, linguísticas e orais, o trabalho busca registrar e preservar elementos da memória cultural que permanecem vivos entre os Kariri-Xocó do Baixo São Francisco. A pesquisa evidencia a continuidade histórica entre os antigos povos Kariri e seus descendentes contemporâneos, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural indígena brasileiro.

Palavras-chave: Kariri; Kariri-Xocó; memória cultural; língua indígena; patrimônio cultural.






ABSTRACT

This work presents a study on the cultural heritage of the ancient Kariri peoples, highlighting aspects related to language, material culture, social organization, food traditions, agriculture, spirituality, traditional technologies and knowledge transmission. Based on historical, linguistic and oral sources, the book aims to document and preserve elements of cultural memory that remain alive among the Kariri-Xocó people of the Lower São Francisco River region. The research demonstrates the historical continuity between the ancient Kariri nations and their contemporary descendants, contributing to the appreciation of Brazil's indigenous cultural heritage.

Keywords: Kariri; Kariri-Xocó; cultural memory; indigenous language; cultural heritage.






APRESENTAÇÃO

Este livro nasceu do desejo de contribuir para a preservação da memória dos antigos Kariri e para a valorização dos conhecimentos mantidos pelos Kariri-Xocó ao longo dos séculos. As páginas que seguem reúnem palavras, objetos, práticas culturais, formas de organização social e saberes tradicionais que constituem parte importante da herança cultural indígena do Vale do São Francisco.

Ao registrar esses elementos, busca-se não apenas preservar informações históricas, mas também fortalecer o reconhecimento da contribuição dos povos indígenas para a formação cultural do Brasil.






NOTA DO AUTOR

Esta obra não pretende esgotar o estudo sobre os Kariri. Pelo contrário, representa uma contribuição destinada a estimular novas pesquisas e ampliar o conhecimento sobre a história e a cultura desse povo.

Os termos aqui apresentados foram reunidos a partir de fontes históricas, registros linguísticos e memórias preservadas na tradição oral dos Kariri-Xocó.







MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci entre histórias.

Desde criança ouvi os relatos dos mais velhos sobre os antigos Kariri, os caminhos percorridos pelos ancestrais, os tempos das aldeias, das pescarias, das roças, das festas e das tradições transmitidas pela palavra.

Ao longo dos anos compreendi que cada história guardava uma parte da memória coletiva de nosso povo. Este livro é fruto desse aprendizado. É uma tentativa de reunir fragmentos de uma herança cultural construída ao longo de muitas gerações e preservada pelos Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas.







INTRODUÇÃO


A história dos povos Kariri ocupa lugar de destaque entre as tradições indígenas do Nordeste brasileiro. Distribuídos por extensas áreas do sertão e do vale do rio São Francisco, os diversos grupos Kariri desenvolveram formas próprias de organização social, sistemas de conhecimento, práticas econômicas, manifestações culturais e tradições linguísticas que marcaram profundamente a história regional.

Apesar das transformações decorrentes da colonização, muitos desses conhecimentos sobreviveram por meio da tradição oral e da memória coletiva, permanecendo vivos entre os Kariri-Xocó e outros descendentes das antigas nações Kariri.

Esta obra procura reunir parte desse patrimônio cultural, organizando-o em capítulos temáticos que abordam diferentes aspectos da vida material e simbólica dos antigos Kariri.





CAPÍTULO I – UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS E OBJETOS DO COTIDIANO

( Objetos utilizados na vida diária da aldeia )


A cultura material dos antigos Kariri constitui uma das mais importantes fontes para a compreensão de sua organização social, econômica e doméstica. O estudo desses utensílios, entretanto, encontra dificuldades devido ao processo de aldeamento promovido pelos missionários entre os séculos XVII e XVIII, quando diferentes grupos indígenas foram reunidos em uma mesma localidade, provocando transformações culturais e linguísticas. Apesar dessas limitações, os registros produzidos pelos missionários capuchinhos e jesuítas, especialmente por Luís Vincêncio Mamiani e Bernardo de Nantes, preservaram importantes informações sobre a língua e os costumes dos povos Kariri do sertão do rio São Francisco. Séculos mais tarde, os estudos realizados por Ferrari, aliados às memórias transmitidas pelos anciãos da Aldeia Kariri-Xocó, contribuíram para a preservação de conhecimentos tradicionais que poderiam ter sido esquecidos. Este capítulo apresenta alguns dos principais utensílios domésticos e objetos do cotidiano utilizados pelos antigos Kariri, evidenciando aspectos de sua tecnologia, adaptação ambiental e modo de vida. �
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Crobecá, a cuia, cuieira, na língua Kariri, vasilha feita do fruto da cabaça (Lagenaria siceraria), serve como prato partida ao meio ou vasilhame de guardar líquidos, mal, água etc...

Cramemú, o utensílio europeu caixa na língua Kariri, no Tupi passou a ser designada carameuá, objeto de madeira quadrangular ou retangular para guardar objeto (s).

Setu, o cesto ou balaio na língua Kariri, feito artesanalmente entrançado de cipó ou taquara, servindo para transportar utensílios.

Tinhé, a cesta em Kariri, feito de entrançado de cipó ou taquara, menor que o cesto, para transportar utensílios, com alça de cipó.

Dubé, o nome de aió em Kariri, feito artesanalmente entrançado de fibras de caroá ou palha de aricuri, servindo para transportar utensílios pessoais.

Bará, o nome de balaio grande em Kariri, feito artesanalmente entrançado de cipó ou taquara, servindo para transportar frutas, produção agrícola.

Winá, o abano em Kariri, feito artesanalmente entrançado de palha de aricuri, servindo para abanar o fogo de lenha ou a carvão.

Prebú, a cuia de coité em Kariri, vaso feito desse fruto maduro depois de esvaziado do miolo, servindo de prato vegetal natural.

Kiniki, a peneira em Kariri, utensílio de armação circular e uma tela de taquara entrançados, onde se passam substâncias transformadas em pequenos fragmentos, como farinha e cereais.

Buiú (vasilha para água), a vasilha de encher água cabaça ( Curcubita lagenaria ), a cabaça média de pescoço utilizada pelos nordestinos do sertão.

Kitsi, o nome de arca em Kariri, caixa grande, de madeira, com tampa plana, utilizada para guardar roupas, cofre, objetos etc.

Seby, a cadeira em Kariri, a peça de mobília com assento individual e de um encosto, com ou sem braços, trazidas pelos colonizadores.

Pycá, o banco em Kariri, a peça de mobília de assento para uma pessoa, geralmente produzidos em madeira pelos indígenas.

Waruá, o espelho em Kipeá língua Kariri, o objeto de superfície lisa polida, que refleti a luz e as imagens de pessoas, trazido pelos colonizadores.

Bududú, o nome de jirau em Kariri, do estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão e que serve para guardar utensílios.

Erú, o ralador em Kariri, um utensílio que serve para ralar vegetais em fragmentos  alimentícios, como côco, queijo etc....

Buhehó, o  alguidar em Kariri Kipeá, um recipiente redondo, feito de barro ou madeira, o colonizador trouxe o alguidar de metal.

Os utensílios domésticos e objetos do cotidiano dos antigos Kariri revelam muito mais do que simples instrumentos de uso diário. Eles expressam conhecimentos acumulados ao longo de gerações, demonstrando profundo domínio dos recursos naturais disponíveis no ambiente do sertão e das margens do rio São Francisco. Cestos, cuias, peneiras, arcas, jirais e recipientes diversos testemunham uma cultura material dinâmica, capaz de incorporar elementos indígenas e também objetos introduzidos pelos colonizadores europeus. O registro desses vocábulos tradicionais preserva parte significativa da memória linguística e cultural dos Kariri, permitindo que as novas gerações conheçam aspectos fundamentais da vida de seus antepassados. Dessa forma, o estudo desses objetos contribui não apenas para a valorização da história dos Kariri-Xocó, mas também para a preservação de um patrimônio cultural que continua vivo na memória coletiva do povo.





CAPÍTULO II – CERÂMICA KARIRI

(Produção cerâmica e recipientes de barro)


Entre os antigos Kariri, a cerâmica ocupava um papel fundamental na vida cotidiana, sendo uma das mais importantes manifestações da cultura material indígena. Produzidos principalmente pelas mulheres, os recipientes de barro eram utilizados no preparo, armazenamento e consumo dos alimentos, acompanhando as atividades domésticas e comunitárias das aldeias. O conhecimento necessário para selecionar a argila, modelar as peças, secá-las e queimá-las era transmitido de geração em geração, preservando técnicas ancestrais que garantiam a fabricação de objetos resistentes e adequados às necessidades do povo. Os nomes registrados no idioma Kariri revelam não apenas a função desses utensílios, mas também a riqueza linguística e cultural associada ao universo da cerâmica tradicional.

Runhú, a panela de barro em Kariri, objeto cerâmico utilitário que serve para cozer alimentos, feita pelas mulheres.

Aribá, o prato de barro em Kariri, objeto de barro da cerâmica utilitária que serve para comer os alimentos, feito pelas mulheres.

Bepi, o prato de barro pequeno em Kariri, objeto de barro da cerâmica utilitária que serve para comer os alimentos, feito pelas mulheres.

Ruño, o pote de barro Kariri, confeccionado pelas mulheres indígenas da Aldeia de Colégio, em Alagoas.

Bubehó, o forno, construção de tijolo e argila em forma de câmara com abertura frontal, aquecido com lenha para a queima da cerâmica.

A cerâmica Kariri representa muito mais do que simples utensílios domésticos. Ela testemunha conhecimentos tecnológicos desenvolvidos ao longo de muitas gerações, demonstrando a habilidade das mulheres indígenas na transformação dos recursos naturais em objetos essenciais para a sobrevivência e organização da vida comunitária. Os termos preservados na língua Kariri constituem importantes registros da memória ancestral, permitindo compreender aspectos do cotidiano, da alimentação e das práticas produtivas do povo. Assim, a cerâmica permanece como um patrimônio cultural de grande valor histórico, revelando a criatividade, a identidade e a continuidade dos saberes tradicionais Kariri ao longo do tempo.




CAPÍTULO III – TECELAGEM, FIBRAS E ARTESANATO

(Produção de fios, tecidos e redes)


A produção de fibras, fios, tecidos e redes ocupava papel fundamental na vida dos antigos Kariri. Muito além de simples atividades artesanais, a fiação e a tecelagem constituíam conhecimentos transmitidos entre gerações, permitindo a fabricação de utensílios indispensáveis ao cotidiano da aldeia. Do algodão cultivado nas roças às fibras extraídas de plantas nativas, homens e mulheres dominavam técnicas de transformação da matéria-prima em cordas, panos, redes de pesca e redes de dormir. Esses artefatos atendiam necessidades econômicas, domésticas, sociais e rituais, revelando a profunda relação dos Kariri com os recursos oferecidos pela natureza.

Buruhu, o fuso em Kariri, a pequena bobina de madeira utilizada para fiar manualmente o algodão, servindo para torcer e transformar as fibras em fios resistentes destinados à tecelagem.

Woncuró, o tear em Kariri, aparelho empregado na confecção de tecidos, redes, esteiras e outros artefatos produzidos a partir de fios de algodão e fibras vegetais.

Endi, o algodão (Gossypium barbadense L.) em Kariri, planta de fibras brancas utilizada na fabricação de fios, tecidos, redes e diversas peças de uso cotidiano.

Poponghi, a roca de fiar tradicional em Kariri, ferramenta utilizada na fiação manual para transformar as fibras de algodão em fios destinados à tecelagem.

Cruté, o pano em Kariri, resultado da transformação dos fios de algodão em tecidos empregados na confecção de vestimentas, redes e outros utensílios.

Muhé, a rede de pescar em Kariri, confeccionada com fios de algodão ou fibras vegetais, formando malhas utilizadas na captura de peixes e outros animais aquáticos.

Pité, a rede de dormir em Kariri, artefato confeccionado com fibras vegetais, cipós ou fios de algodão, utilizado para descanso, repouso e também em determinados rituais funerários.

Dzitu, a embira ou corda em Kariri, produzida a partir do entrecasco de árvores ou de fibras vegetais flexíveis, como o caroá e o tucum, sendo empregada para amarrações, transporte de cargas e diversas atividades do cotidiano.

A tradição da tecelagem entre os Kariri demonstra o elevado conhecimento que esse povo possuía sobre as fibras vegetais e o algodão nativo. A fabricação de fios, tecidos, redes e cordas permitia atender às necessidades da alimentação, do trabalho, da habitação e dos rituais comunitários. Mesmo diante das transformações históricas ocorridas ao longo dos séculos, a memória desses saberes permanece como parte do patrimônio cultural Kariri, testemunhando a criatividade, a adaptação ao ambiente e a continuidade de conhecimentos ancestrais transmitidos entre gerações.






CAPÍTULO IV – ADORNOS, VESTIMENTAS E IDENTIDADE

(Objetos corporais e ornamentação)


Os adornos corporais e as vestimentas constituem importantes elementos da identidade cultural dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os antigos Kariri, os ornamentos não possuíam apenas função estética, mas também expressavam pertencimento social, distinções de idade, gênero, experiências de vida e vínculos com o mundo espiritual. Produzidos a partir de matérias-primas encontradas na natureza, como sementes, penas, fibras vegetais, ossos, dentes e madeiras, esses objetos refletiam os conhecimentos tradicionais acumulados ao longo das gerações. Parte desses costumes permaneceu viva mesmo após o contato com os colonizadores europeus, que introduziram novos materiais e formas de vestimenta, incorporados gradualmente ao cotidiano indígena.

Tembetá, o adorno rígido utilizado no lábio inferior, geralmente de formato alongado, confeccionado em madeira, osso, pena ou espinho de grande porte.

Tereré, o adorno feminino entre os Kariri, formado por um cordão ornamentado com penugens coloridas de aves e fixado aos cabelos por meio de um pequeno palito.

Bebaté, o colar kariri utilizado no pescoço, confeccionado com cordões adornados por sementes, dentes de animais, ossos de peixes, garras, conchas ou pequenas pedras.

Ubadi, os brincos e botoques utilizados entre os Kariri Kipeá, tanto por homens quanto por mulheres, constituindo um costume tradicional de antiga origem.

Sasá, o nome dado à saia confeccionada com fibras de aricuri ou pindoba, utilizada como vestimenta da parte inferior do corpo por homens e mulheres.

Rocruté, termo empregado para designar qualquer tipo de roupa confeccionada com tecido, introduzida entre os Kariri após o contato com os colonizadores europeus.

Bukencré, a pintura corporal tradicional produzida a partir do fruto do urucuzeiro (Bixa orellana), caracterizada pela coloração vermelha intensa aplicada ao corpo.

Bukéké, o fruto do urucuzeiro (Bixa orellana), utilizado tanto como condimento alimentar quanto na preparação de tinturas destinadas à pintura corporal, registrado no vocabulário Dzubukuá.

Mé, o fruto do jenipapo (Genipa americana), cuja polpa fornece a substância utilizada na pintura corporal de tonalidade escura, registrada nos vocabulários Kipeá e Dzubukuá.

Os adornos e vestimentas dos antigos Kariri representam muito mais do que simples objetos de uso cotidiano. Eles constituem testemunhos materiais de uma rica tradição cultural, revelando formas próprias de expressão, beleza, identidade e relação com a natureza. A preservação desses conhecimentos contribui para a valorização da memória histórica dos povos Kariri e para o fortalecimento das heranças culturais que continuam presentes nas comunidades indígenas contemporâneas do Nordeste brasileiro.





CAPÍTULO V – MÚSICA, DANÇA E EXPRESSÕES CULTURAIS

(Instrumentos musicais e manifestações culturais)


A música, a dança, os cantos e as brincadeiras sempre ocuparam lugar de destaque na vida social e espiritual do povo Kariri. Muito além do entretenimento, essas manifestações constituíram importantes formas de comunicação, transmissão de conhecimentos, fortalecimento dos laços comunitários e preservação da memória ancestral. Os instrumentos musicais, os cantos tradicionais, os folguedos e as atividades lúdicas acompanharam diferentes momentos da vida coletiva, desde os rituais sagrados até as celebrações festivas e o cotidiano das aldeias. Por meio dessas expressões culturais, os Kariri mantiveram vivos seus valores, suas crenças e sua identidade ao longo das gerações.

Buibú – Instrumento musical dos Kariri, correspondente ao maracá, confeccionado com cabo de madeira e sementes de meru, formando uma espécie de chocalho indígena utilizado em cantos, danças e cerimônias tradicionais.

Badá – Instrumento confeccionado com pequena cabaça, utilizado pelos antigos Kariri do sertão nordestino em manifestações musicais e rituais.

Tçuiru – Instrumento de aviso utilizado pelos trabalhadores das quebradas, confeccionado com casco de tatu, conforme registro de Siqueira (1978, p. 238). Seu som servia para comunicação e sinalização em determinadas atividades coletivas.

Paiáwi – Cachimbo de pau ou barro em Kariri, utensílio para fumar confeccionado em madeira ou argila, tradicionalmente produzido pelos homens e utilizado em momentos sociais e cerimoniais.

Bybyté – Palheta de jogar em Kariri, espécie de espátula de madeira que, ao ser lançada e movimentada no ar, produz um som característico, descrito como grave e cavernoso.

Tsereró – Gaita em Kariri, instrumento musical confeccionado com embaúba (Cecropia angustifolia), empregado em cantos, danças e celebrações tradicionais, incluindo manifestações ligadas ao Toré.

Marãbohó – Cantigas em Kariri, composições musicais transmitidas oralmente de geração em geração, preservando histórias, ensinamentos, memórias coletivas e elementos da tradição cultural.

Serachichiá – Folguedos em Kariri, designação para festas populares e celebrações marcadas pela presença de música, dança, teatro e outras expressões culturais realizadas em datas específicas.

Benhekíé – Brincar em Kariri Kipeá, termo relacionado aos brinquedos, brincadeiras e atividades lúdicas que contribuíam para a socialização, o aprendizado e a transmissão de valores entre crianças e jovens.

Os instrumentos musicais, os cantos, os folguedos e as brincadeiras constituem importantes patrimônios da cultura Kariri, revelando aspectos fundamentais de sua organização social, espiritualidade e visão de mundo. Cada objeto, som e manifestação cultural carrega significados construídos ao longo de séculos de experiência coletiva, fortalecendo os vínculos entre as gerações. O registro desses elementos contribui para a valorização da memória ancestral e para a preservação da identidade cultural dos povos indígenas do Nordeste, permitindo que seus conhecimentos e tradições continuem vivos como parte da rica diversidade cultural brasileira.





CAPÍTULO VI – ALIMENTAÇÃO E CULINÁRIA KARIRI


(Preparação dos Alimentos e Comidas Tradicionais)


A alimentação tradicional dos povos Kariri constituiu, ao longo dos séculos, um dos principais elementos de preservação da identidade cultural e da sobrevivência coletiva. Baseada principalmente na mandioca, no milho, na caça, na pesca e na coleta de recursos naturais, a culinária Kariri desenvolveu técnicas próprias de preparo, conservação e consumo dos alimentos, transmitidas de geração em geração pela tradição oral. Com o contato com portugueses, missionários e outros povos, novos ingredientes e hábitos alimentares foram incorporados, sem que se perdessem as bases ancestrais da cultura alimentar indígena. Os vocábulos registrados na língua Kariri revelam a riqueza desse conhecimento, demonstrando a profunda relação entre alimentação, território, trabalho e memória cultural.

Saredu – o bolo de mandioca em Kariri, iguaria feita à base da massa de mandioca ou farinha, tradicionalmente preparada em versões doces.

Woudu – o bolo já assado em Kariri, preparado a partir da massa de mandioca ou farinha, geralmente de sabor natural.

Waraeró – o beiju de mandioca em Kariri, produzido a partir da massa prensada e assada, após o processo de fabricação da farinha.

Sekiki – o nome da carimã, farinha fina e seca de mandioca na língua Kariri, um dos principais alimentos da dieta indígena desde tempos imemoriais.

Cunubó – o pó ou farinha obtido pela moagem de grãos, raízes, sementes, nozes ou feijões, posteriormente seco ao calor para consumo.

Waredú – o bolo preparado com mandioca amassada, adoçado tradicionalmente com mel de abelha uruçu.

Cronhahá – o milho cozido em Kariri, preparado em panelas de barro com água e sal sobre o fogo de lenha.

Madzó – o milho assado em Kariri, preparado diretamente sobre as brasas da fogueira.

Creyá – assado em covas, técnica tradicional indígena utilizada para cozinhar carnes, raízes e tubérculos sob a terra aquecida.

Badzuru – o moquém em Kariri, grelha de madeira utilizada para assar e defumar carnes e peixes sobre o calor e a fumaça da fogueira.

Riné – a carne salgada em Kariri. Originalmente aplicada à carne bovina após a introdução do gado no sertão, a técnica passou a ser utilizada também na conservação de outros tipos de carne.

Bydzu – licor em Kariri, bebida doce preparada com frutas, ervas, mel ou outros elementos açucarados.

Nhupy – vinho de milho em Kariri, produzido por meio da fermentação natural do milho, prática conhecida entre diversos povos indígenas das Américas.

Yeru – o vinho de uva (Vitis vinifera), introduzido na região pelos missionários cristãos que atuaram entre os povos Kariri do vale do São Francisco.

A culinária Kariri representa muito mais do que um conjunto de alimentos e técnicas de preparo; ela constitui um patrimônio cultural que guarda conhecimentos ancestrais sobre agricultura, coleta, conservação e utilização dos recursos naturais. Os termos preservados na língua indígena revelam a importância da mandioca, do milho, das bebidas fermentadas e dos métodos tradicionais de cocção, como o moquém e os assados em covas. Ao registrar esses saberes, fortalece-se a memória histórica do povo Kariri e contribui-se para a valorização de uma herança cultural que continua presente na alimentação e na identidade dos povos indígenas do Nordeste brasileiro, especialmente daqueles que mantêm vivos os ensinamentos transmitidos por seus antepassados.






CAPÍTULO VII – AGRICULTURA E PRODUÇÃO DE ALIMENTOS


(Cultivo e trabalho agrícola)


Este capítulo aborda um dos pilares da vida dos antigos e atuais Kariri: a agricultura. Além de garantir a subsistência da comunidade, o cultivo da terra fortaleceu laços de solidariedade, cooperação e transmissão de conhecimentos entre gerações. As roças constituíram espaços de trabalho coletivo, onde homens, mulheres e jovens participavam do preparo da terra, do plantio e da colheita, frequentemente acompanhados por cantos de mutirão que marcavam o ritmo das atividades e reforçavam o sentimento de pertencimento ao grupo. Muitos desses saberes agrícolas permanecem vivos entre os Kariri-Xocó, preservando práticas ancestrais adaptadas às condições ambientais do Nordeste brasileiro.

Bechiéá, a roça em Kariri, área agrícola utilizada pela comunidade para o cultivo de alimentos destinados à subsistência familiar e coletiva. Cada povo organiza sua produção conforme seus conhecimentos tradicionais, técnicas de cultivo e necessidades culturais.

Bucunu, a roça que deu milho, sendo bu a espiga. Refere-se à área destinada ao cultivo do milho, uma das plantas alimentares mais importantes para os indígenas Kariri, utilizada na alimentação cotidiana e em diversas preparações tradicionais.

Uanhí, a lavoura em Kariri. Designa o trabalho de preparação da terra para o cultivo agrícola, incluindo a abertura das roças, o plantio e os cuidados necessários ao desenvolvimento das culturas.

Dehebá, o cavador em Kariri, instrumento de madeira com extremidade afilada ou laminar, utilizado para abrir covas na terra destinadas ao plantio de sementes e mudas.

Creyahé, a foice em Kariri, ferramenta agrícola de lâmina curva empregada no corte do mato, na limpeza das roças e na colheita de determinadas culturas.

Tasí, o nome da enxada em Kariri, ferramenta agrícola composta por cabo de madeira e lâmina metálica, utilizada para capinar, revolver a terra e auxiliar nos trabalhos de cultivo. Sua difusão entre os Kariri ocorreu após o contato com os colonizadores europeus, sendo incorporada às práticas agrícolas tradicionais.

A agricultura sempre representou muito mais do que uma simples atividade econômica para os Kariri. Por meio dela, consolidaram-se conhecimentos sobre os ciclos da natureza, as épocas de plantio e colheita, a seleção de sementes e o trabalho comunitário. As roças permaneceram como espaços de convivência, aprendizado e fortalecimento da identidade cultural, preservando tradições como os cantos de mutirão, que acompanham o esforço coletivo e celebram a união da comunidade. Ainda hoje, essas práticas constituem importante patrimônio cultural dos Kariri-Xocó, testemunhando a continuidade de saberes ancestrais transmitidos de geração em geração.






CAPÍTULO VIII – PLANTAS CULTIVADAS E FRUTOS

(Espécies vegetais utilizadas pelos Kariri)


As plantas cultivadas e os frutos sempre desempenharam papel fundamental na vida dos povos Kariri. Ao longo das gerações, o conhecimento sobre o plantio, o manejo e a utilização dos vegetais foi transmitido pela tradição oral, garantindo alimento, remédios naturais e recursos indispensáveis para a sobrevivência das famílias. Muitas dessas espécies eram cultivadas nas roças comunitárias e também nos quintais localizados nos fundos das casas, facilitando os cuidados diários e o acesso aos alimentos. Além de seu valor nutritivo, essas plantas fazem parte da identidade cultural Kariri, preservando sabores, costumes e saberes ancestrais que atravessaram os séculos.

Ibú/Masiché – Nome do milho (Zea mays), cereal amplamente utilizado na alimentação indígena. É consumido assado, cozido e empregado no preparo de diversas comidas tradicionais dos povos indígenas, incluindo os Kariri.

Muicú – Nome da mandioca (Manihot esculenta), uma das principais bases da alimentação nativa. É utilizada na produção de farinha, beiju, tapioca, bolos e também consumida cozida.

Ghinhé – Nome do feijão (Phaseolus vulgaris), importante alimento da culinária Kariri. É consumido sozinho ou acompanhado de carnes, verduras e tubérculos.

Eremú – Nome da abóbora (Cucurbita spp.), fruto da aboboreira utilizado na alimentação, tanto cozido quanto na preparação de doces.

Bacobá – Nome da banana (Musa × paradisiaca), amplamente utilizada na culinária. Seu nome possui relação etimológica com o tupi pa'kowa, frequentemente interpretado como “folha de enrolar”.

Behedzí – Nome da melancia (Citrullus lanatus), fruto originário da África e incorporado à alimentação indígena, incluindo a dos Kariri.

Obó – Nome do fruto do umbuzeiro (Spondias tuberosa), consumido ao natural e em preparações tradicionais como a embuzada, muito apreciada no sertão.

Ucrí – Nome da mangaba (Hancornia speciosa), fruto nativo do Nordeste, utilizado na produção de sucos, doces, sorvetes e outras bebidas.

Propwi – Nome do melão-de-são-caetano (Momordica charantia), planta utilizada como alimento em períodos de escassez e dificuldades enfrentadas pelas populações sertanejas, incluindo os Kariri.

Udjé ou Tudjeá – Nome dado aos legumes da roça em Kariri, abrangendo diversas plantas alimentícias herbáceas ou leguminosas, nativas ou introduzidas após o contato com os colonizadores.

Idzá – Nome genérico para fruta na língua Kariri, designando frutos ou infrutescências comestíveis, geralmente carnosos, suculentos e doces.

As espécies vegetais cultivadas pelos Kariri representam muito mais do que simples fontes de alimento. Elas constituem parte essencial da memória coletiva, dos conhecimentos agrícolas e das estratégias de adaptação ao ambiente do sertão nordestino. O cultivo em roças e quintais domésticos permitiu a preservação de variedades vegetais, sabores tradicionais e práticas herdadas dos antepassados. Dessa forma, o estudo dessas plantas e frutos contribui para valorizar a herança cultural Kariri e reforçar a importância da conservação dos saberes indígenas para as futuras gerações.





CAPÍTULO IX – CAÇA, PESCA E SOBREVIVÊNCIA

(Atividades de obtenção de alimentos)

Desde tempos imemoriais, a caça e a pesca constituíram atividades fundamentais para a subsistência dos povos Kariri. Muito além da obtenção de alimentos, essas práticas envolveram conhecimentos profundos sobre os ciclos da natureza, os hábitos dos animais, os períodos adequados para a captura e o uso sustentável dos recursos disponíveis. Entre os Kariri do Nordeste, tais atividades foram desenvolvidas com instrumentos próprios, construídos a partir dos materiais oferecidos pela floresta, pelos rios e pelas lagoas. Ainda hoje, parte desses conhecimentos é preservada e transmitida às novas gerações como patrimônio cultural e elemento de identidade indígena, mesmo diante das transformações ambientais ocorridas ao longo do tempo.

Sitó – A prática de caçar animais entre os Kariri, realizada nas matas, caatingas e campos abertos, utilizando instrumentos tradicionais adequados para esse fim.

Quixó – Armadilha destinada à captura de pequenos animais, utilizada pelos indígenas Kariri do Nordeste.

Cludimu – Covo de peixe, armadilha cilíndrica confeccionada com taboca, empregada na captura de pequenos peixes e camarões, muito utilizada pelos Kariri Dzubukuá.

Yaclaro – Nome do anzol em Kariri Dzubukuá, ferramenta utilizada para a captura de peixes, geralmente acompanhada de linha, vara e chumbada.

Yaentá – Vara de taquara (Bambusa vulgaris), utilizada pelos Kariri Kipeá juntamente com linha e anzol para a pesca em rios, lagoas e áreas alagadas.

Banahoya – Canoa kariri confeccionada a partir do tronco do guapuruvu (Schizolobium parahyba), utilizada na navegação, na pesca e nos deslocamentos pelos cursos d'água.

Ajoujo – Pequena embarcação formada pela união de madeiras leves em forma de balsa, empregada pelos Kariri para a travessia de rios e áreas inundadas.

A caça e a pesca permanecem presentes na memória cultural e nas práticas tradicionais dos Kariri-Xocó, sendo atividades realizadas de forma consciente e respeitando os períodos permitidos e o equilíbrio da natureza. Contudo, as transformações ocorridas no Rio São Francisco ao longo das últimas décadas, especialmente após a construção de barragens e usinas hidrelétricas, alteraram significativamente o volume das águas, afetando a reprodução dos peixes e reduzindo a disponibilidade de recursos pesqueiros. Mesmo diante dessas dificuldades, os conhecimentos sobre armadilhas, embarcações, técnicas de pesca e práticas de caça continuam sendo ensinados aos mais jovens, garantindo a continuidade de um patrimônio ancestral que fortalece a identidade cultural do povo Kariri e sua histórica relação com os ambientes naturais.





CAPÍTULO X – ARMAS E TECNOLOGIAS TRADICIONAIS

(Instrumentos de caça, defesa e trabalho)

Este capítulo é muito importante porque reúne os instrumentos que permitiram aos antigos Kariri garantir sua sobrevivência, proteger suas aldeias, realizar atividades de caça, pesca, coleta e trabalho cotidiano. Mais do que simples objetos, essas armas e tecnologias tradicionais representavam conhecimentos acumulados ao longo de muitas gerações, transmitidos pela tradição oral e aperfeiçoados pela observação da natureza. Fabricados com madeira, pedra, fibras vegetais, penas e outros recursos disponíveis no ambiente, esses instrumentos demonstram a criatividade, a habilidade técnica e a profunda relação dos Kariri com o território que habitavam. Muitos desses saberes permaneceram vivos ao longo do tempo e continuam presentes entre os Kariri-Xocó, preservados como expressão da memória ancestral, da identidade cultural e da produção artesanal contemporânea.
Redação

Iarú, o nome de flecha em Kariri, uma haste pontiaguda ornada com penas e seta, utilizada com o arco para ser arremessada durante a caça, a pesca e, em determinadas situações, para defesa.

Seridzé, o arco em Kariri, arma de madeira flexível e arqueada, utilizada para lançar flechas. Constituiu um dos principais instrumentos empregados na caça, na pesca e na proteção das aldeias.

Yaru, a bolsa para carregar iarú (flechas) em Kariri, confeccionada com fibras de caroá ou palhas de aricuri, utilizada pelos homens para transportar flechas durante deslocamentos, caçadas e expedições.

Tconcupy, o nome de maça ou clava em Kariri, formada por um pedaço de madeira robusta, mais volumosa em uma das extremidades, utilizada para ataque, defesa e também em algumas atividades de trabalho.

Bodzó, o machado em Kariri, ferramenta composta por cabo de madeira e lâmina de pedra polida, empregada no corte de lenha, derrubada de pequenas árvores e desbaste de troncos para diversas finalidades.

Cusucró, a pedra de fogo ou corisco em Kariri, utilizada tanto como instrumento cortante quanto para auxiliar na obtenção do fogo por meio do atrito ou do choque entre minerais apropriados.

Nupyté, o instrumento de produzir fogo em Kariri, podendo consistir em gravetos, pedras ou outros materiais empregados na geração do fogo tradicional, elemento indispensável para o preparo dos alimentos, iluminação, aquecimento e atividades coletivas da comunidade.

As armas e tecnologias tradicionais dos antigos Kariri constituíram importantes expressões de seu conhecimento sobre a natureza e de sua capacidade de adaptação aos diferentes ambientes do Nordeste. Arcos, flechas, machados, clavas e instrumentos para obtenção do fogo eram elementos fundamentais para a subsistência, a proteção e o trabalho diário. Entre os Kariri-Xocó da atualidade, muitos desses artefatos permanecem vivos na memória coletiva e na produção artesanal, assumindo funções culturais, educativas e artísticas. Por meio do artesanato, das apresentações culturais e do intercâmbio com visitantes e pesquisadores, esses objetos continuam transmitindo conhecimentos ancestrais, fortalecendo a identidade étnica e preservando a herança cultural do povo Kariri para as futuras gerações.





CAPÍTULO XI – ANIMAIS NA CULTURA KARIRI

(Fauna utilizada na alimentação e na convivência)

A relação dos povos Kariri com os animais sempre esteve ligada à sobrevivência, à alimentação, à caça, ao transporte e à convivência cotidiana. Antes da chegada dos europeus ao Nordeste, os Kariri utilizavam principalmente os recursos da fauna nativa da Caatinga, dos brejos, matas e rios da região, aproveitando a carne de mamíferos, aves e répteis obtidos por meio da caça tradicional. Com a colonização portuguesa, novos animais domésticos foram introduzidos, como cavalos, cães, bovinos, caprinos, ovinos, porcos e aves de terreiro. Ao longo dos séculos, esses animais passaram a integrar a vida das comunidades indígenas, sendo incorporados aos hábitos alimentares, às atividades econômicas e às formas de convivência social dos Kariri.

Murawó ou Murawô, o porco-do-mato ou caititu (Pecari tajacu), animal silvestre muito apreciado pelos Kariri, cuja carne era frequentemente preparada assada no moquém.

Bani, o mocó (Kerodon rupestris), roedor típico das regiões rochosas da Caatinga, utilizado tradicionalmente na alimentação dos indígenas Kariri.

Bucú, o cão caçador (Canis lupus familiaris), animal introduzido pelos colonizadores europeus e posteriormente adotado pelos Kariri como auxiliar na caça, na proteção das aldeias e na convivência cotidiana.

Sabucá, o galo (Gallus gallus domesticus), ave doméstica originária da Ásia e trazida pelos colonizadores, incorporada à criação doméstica e à alimentação.

Cabaru, o cavalo (Equus ferus caballus), introduzido pelos europeus durante o período colonial e amplamente utilizado pelos indígenas para transporte, deslocamentos e atividades de trabalho.

Curé, o porco doméstico (Sus scrofa domesticus), trazido pelos colonizadores e incorporado à alimentação dos Kariri Dzubukuá, sendo sua carne bastante apreciada.
Cabara, a cabra (Capra aegagrus hircus), animal doméstico introduzido pelos colonizadores, importante fonte de carne e leite para as comunidades do sertão.

Carneiró, a ovelha (Ovis aries), animal doméstico trazido pelos colonizadores, utilizado tanto para alimentação quanto para o aproveitamento da lã em atividades artesanais.

Cradzó, o gado bovino doméstico (Bos taurus), incluindo vacas, bois e novilhas, introduzido durante o período colonial e incorporado à economia e à alimentação das populações indígenas e sertanejas.

Crodzó, a carne bovina em língua Kariri, consumida assada, cozida ou preparada em diferentes formas culinárias, tornando-se parte dos hábitos alimentares após a introdução do gado pelos europeus.

Doyé, a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), maior roedor do mundo, encontrada nas margens de rios e lagoas, cuja carne era utilizada na alimentação dos Kariri Dzubukuá.

Poeba, o jacu (Penelope purpurascens), ave silvestre cuja carne era considerada uma importante fonte alimentar entre os indígenas Kariri.

Buké, o veado-catingueiro ou veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), animal caçado tradicionalmente pelos Kariri, sendo sua carne muito apreciada.

Sãmbá, o cágado de água doce, representado por espécies do grupo dos quelônios, cuja carne era utilizada na alimentação tradicional das comunidades indígenas.

A fauna sempre ocupou papel fundamental na formação da cultura material e alimentar dos povos Kariri. Os animais silvestres garantiram a subsistência das antigas aldeias por meio da caça e do conhecimento tradicional transmitido entre gerações. Com a chegada dos colonizadores, novas espécies domésticas foram incorporadas ao cotidiano indígena, ampliando as possibilidades de alimentação, transporte e criação. Dessa interação entre os recursos naturais nativos e os animais introduzidos durante o período colonial surgiu um conjunto de práticas que permanece presente na memória cultural dos Kariri, refletindo a capacidade de adaptação e preservação de seus costumes ao longo da história.






CAPÍTULO XII – HABITAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA ALDEIA


(Espaços de moradia e estruturas coletivas)

A habitação sempre ocupou papel fundamental na organização social dos povos Kariri. Mais do que simples abrigo, as moradias constituíam espaços de convivência, transmissão de conhecimentos, realização de atividades cotidianas e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. Nas aldeias tradicionais, as casas coletivas erguidas com materiais da própria floresta permitiam a convivência de diversas famílias em um mesmo ambiente, onde redes eram armadas para o descanso e fogueiras mantidas para o preparo dos alimentos, as conversas, as narrativas dos mais velhos e a preservação da memória ancestral. Mesmo diante das transformações ocorridas ao longo dos séculos, muitos elementos dessa tradição permanecem vivos na cultura Kariri-Xocó, reafirmando a continuidade dos costumes herdados dos antepassados.

Natíá, o nome da aldeia original em Kariri, designando a povoação indígena composta por erà (oca, maloca ou casa) construídas com madeira, barro e cobertura de palha, segundo os costumes tradicionais.

Ara ou Erà, a casa de barro Kariri, geralmente construída na técnica do pau a pique, com estrutura de madeira e paredes revestidas de barro, possuindo cobertura de palha de palmeira ou de outras folhagens disponíveis na região.

Dedí, a cerca de paus ou paliçada utilizada para proteger a aldeia contra invasões e animais. Com o passar do tempo, esse costume foi adaptado para a proteção das casas e quintais familiares.

Picriá, o nome de casarão em Kariri, empregado para designar as grandes residências construídas à maneira da sociedade não indígena, utilizando tijolos, cal e telhas cerâmicas.

Wanhercá, a fazenda de criação de gado na língua Kariri, formada por currais, pastagens, casas de trabalhadores e outras instalações rurais, difundidas na região desde o período colonial brasileiro.

Crayoté, o nome de cacimba em Kariri, consistindo em uma escavação realizada até alcançar o lençol freático, permitindo a obtenção de água para consumo humano e para as atividades domésticas.

Merebá, o nome de jirau para moquém em Kariri, formado por uma estrutura elevada de varas de madeira utilizada para assar, secar ou defumar carnes sobre o fogo, técnica tradicional amplamente empregada pelos povos indígenas.

As moradias e estruturas da aldeia expressam a profunda relação dos Kariri com a terra, a floresta e os recursos naturais disponíveis em seu território. Das antigas casas coletivas cobertas de palha aos jirais utilizados para o preparo dos alimentos, cada elemento revela formas de organização construídas ao longo de gerações. Mesmo com a incorporação de novas técnicas construtivas e influências externas, muitas práticas tradicionais continuam presentes no cotidiano das comunidades indígenas, preservando conhecimentos ancestrais e fortalecendo a identidade cultural do povo Kariri-Xocó. Dessa forma, a habitação permanece não apenas como espaço físico de moradia, mas também como lugar de memória, convivência, aprendizado e continuidade da tradição.






CAPÍTULO XIII – RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE

(Práticas Religiosas e Influências Cristãs)

A religiosidade do povo Kariri-Xocó constitui um dos pilares fundamentais de sua identidade cultural e histórica. Ao longo dos séculos, desde o período colonial, passando pelo Império e chegando à República, a comunidade manteve vivas muitas de suas crenças, rituais, conhecimentos tradicionais e formas próprias de compreender o mundo espiritual. O contato com missionários católicos, especialmente os capuchinhos, introduziu novos elementos religiosos que foram gradualmente incorporados ao cotidiano indígena. Entretanto, longe de substituir integralmente as antigas tradições, essas influências passaram a coexistir com práticas ancestrais, resultando em uma rica expressão de espiritualidade marcada pelo respeito, pela memória dos antepassados e pela valorização da diversidade cultural.

Crudzá, nome da cruz na língua Kariri. Evangelizados pelos missionários capuchinhos, os Dzubukuá adotaram a fé cristã simbolizada pela cruz, que passou a integrar o universo religioso da comunidade.

Dzu Tupã, a água benta em Kariri. Santificada pelo sacerdote, é utilizada no batismo, na bênção de pessoas, lugares e objetos, bem como na proteção espiritual contra os males.

Buibú, o maracá em Kariri Kipeá. Instrumento musical indígena, espécie de chocalho confeccionado de cabaça ou coité, utilizado em rituais, cantos e celebrações tradicionais.

Santoá, o nome de santo ou santa em Kariri. Refere-se às imagens sacras em esculturas ou quadros religiosos encontrados nas igrejas e também nas residências das famílias cristãs.

Warakidzã, o ritual das tradições. Representa a espiritualidade indígena, os conhecimentos transmitidos pelos ancestrais, os sonhos, os ensinamentos e as práticas sagradas presentes na cultura dos povos Kariri do sertão nordestino.

Torá, a dança do Toré. Consiste em bater os pés ao ritmo da música, realizar movimentos cerimoniais e prestar homenagens às pessoas e entidades celebradas, constituindo uma das mais importantes manifestações culturais e espirituais dos povos Kariri.

Piwonhé, a cerimônia de casamento em Kariri. Pode ocorrer tanto segundo os costumes religiosos cristãos introduzidos pelos missionários quanto de acordo com as tradições indígenas preservadas pela comunidade.

Tané, o nome do fumo (Nicotiana tabacum). De suas folhas é produzido o tabaco, elemento utilizado por diversos povos indígenas das Américas em práticas cerimoniais, espirituais e tradicionais.

Dzó, o remédio, mezinha ou cura em Kariri. Pode ser preparado a partir de raízes, folhas, cascas de árvores e outros elementos da natureza, envolvendo conhecimentos tradicionais e, muitas vezes, uma preparação de caráter ritualístico.

A trajetória religiosa dos Kariri-Xocó demonstra a capacidade de resistência, adaptação e preservação cultural de um povo que soube manter suas raízes mesmo diante de profundas transformações históricas. Embora tenham convivido por séculos com a influência do cristianismo, os Kariri-Xocó conservaram elementos essenciais de sua espiritualidade ancestral, transmitindo saberes, rituais e valores de geração em geração. Ao mesmo tempo, desenvolveram uma convivência respeitosa com as tradições religiosas trazidas por outros povos, construindo uma identidade marcada pelo diálogo cultural, pela tolerância e pelo fortalecimento contínuo de sua memória indígena.







CAPÍTULO XIV – CONTATOS CULTURAIS E OBJETOS INTRODUZIDOS PELOS COLONIZADORES


(Elementos incorporados após o contato colonial)


A história dos povos Kariri do Vale do São Francisco revela que o contato entre indígenas, europeus e africanos não resultou apenas na introdução de novos objetos, animais e tecnologias, mas também em processos de adaptação, ressignificação e integração cultural. Muitos elementos trazidos pelos colonizadores passaram a receber denominações nas línguas Kariri e foram incorporados ao cotidiano indígena conforme suas necessidades e formas próprias de viver. Assim, objetos europeus passaram a guardar utensílios nativos, animais introduzidos foram integrados à alimentação local mediante o uso de ingredientes e técnicas indígenas, e ferramentas estrangeiras ganharam novos significados dentro das práticas culturais tradicionais. Esse processo demonstra que as culturas não permaneceram isoladas, mas interagiram continuamente, produzindo novas configurações sociais e materiais ao longo dos séculos.

Carameú – O utensílio europeu conhecido como caixa. Em Kariri e em variantes influenciadas pelo Tupi, passou a ser designado carameuá, objeto de madeira quadrangular ou retangular utilizado para guardar objetos diversos.

Sabucá – O galo doméstico (Gallus gallus domesticus), ave originária da Ásia e introduzida pelos colonizadores. Foi adotado pelos indígenas como animal doméstico e incorporado à culinária local, frequentemente preparado com temperos e ingredientes nativos.

Cabaru – O cavalo (Equus ferus caballus), trazido pelos colonizadores e posteriormente adotado pelos indígenas para transporte, deslocamentos e atividades cotidianas.

Curé – O porco doméstico (Sus scrofa domesticus), introduzido pelos colonizadores. Sua carne tornou-se apreciada por diversos grupos Kariri, incluindo os Dzubukuá.

Cabara – Nome da cabra (Capra aegagrus hircus), animal doméstico trazido pelos colonizadores, importante fonte de carne e leite para a alimentação.

Carneiró – Nome da ovelha (Ovis aries), animal introduzido pelos colonizadores, utilizado para consumo de carne e aproveitamento da lã na tecelagem.

Cradzó – O gado bovino doméstico (Bos taurus), incluindo vacas e bois, introduzido durante o período colonial e incorporado às atividades econômicas e alimentares da região.

Yeru – O vinho de uva (Vitis vinifera), introduzido pelos missionários capuchinhos que atuaram entre os povos Kariri do São Francisco durante o período colonial.

Ibá – Nome de carro em Kariri, veículo dotado de rodas utilizado para o transporte de pessoas e cargas.

Tayú – Nome de dinheiro em Kariri, designando o sistema monetário composto por moedas e cédulas, introduzido pelos colonizadores.

Seby – A cadeira em Kariri, peça de mobiliário com assento individual e encosto, com ou sem braços, incorporada ao cotidiano após o contato colonial.

Waruá – O espelho em Kipeá, objeto de superfície polida que reflete a luz e as imagens, introduzido pelos colonizadores.

Sadá – Nome de espingarda em Kariri, podendo também designar qualquer instrumento capaz de produzir forte estampido ou estalo repentino.

Cráé – O alfange ou sabre de lâmina curta e curva na língua Kariri, arma utilizada durante o período colonial e introduzida pelos colonizadores.

Udzá – A faca encabada com lâmina de ferro na língua Kariri, introduzida pelos colonizadores. Antes disso, os indígenas utilizavam instrumentos confeccionados com pedra, osso e outros materiais cortantes disponíveis na natureza.

Wirapararã – A engenhoca ou aparelho rudimentar destinado à moagem da cana-de-açúcar para a fabricação do açúcar, tecnologia introduzida pelos colonizadores.

A incorporação desses objetos, animais, tecnologias e conceitos ao universo cultural Kariri não significou a substituição completa dos conhecimentos tradicionais indígenas. Ao contrário, muitos desses elementos foram reinterpretados e integrados às práticas já existentes, formando novas expressões culturais resultantes do encontro entre diferentes povos. Uma caixa europeia podia guardar artefatos indígenas; animais trazidos de outros continentes passaram a ser criados e preparados segundo costumes locais; ferramentas estrangeiras foram adaptadas às necessidades das comunidades. Dessa forma, a história dos Kariri demonstra que os contatos culturais produziram processos de transformação e continuidade, nos quais elementos indígenas, europeus e africanos se combinaram para construir uma rica herança cultural marcada pela diversidade, pela adaptação e pela permanente recriação das tradições.






CAPÍTULO XV – LINGUAGEM, MEMÓRIA E TRANSMISSÃO CULTURAL

(Termos relacionados à comunicação e ao conhecimento)

A linguagem constitui um dos mais importantes instrumentos de preservação da memória coletiva e de transmissão dos conhecimentos acumulados por um povo ao longo das gerações. Entre os povos Kariri, as palavras, os cantos, as narrativas, as brincadeiras, os festejos e as diversas formas de expressão cultural desempenharam papel fundamental na conservação da história, dos costumes, das crenças e das experiências compartilhadas pela comunidade. Muito antes da escrita se tornar comum na região, a tradição oral permitiu que saberes ancestrais fossem ensinados de pais para filhos, de anciãos para jovens, garantindo a continuidade da identidade cultural. Mesmo após o contato colonial, novos meios de comunicação e registro foram incorporados ao universo indígena, sem que desaparecessem as formas tradicionais de transmissão do conhecimento. Assim, linguagem, memória e cultura permaneceram intimamente ligadas na construção da herança histórica dos povos Kariri.

Tororã – O livro, a carta ou a notícia escrita. Segundo a interpretação onomatopaica presente na tradição linguística Kariri, relaciona-se à ideia da mensagem que chega e altera o estado de tranquilidade, trazendo informações, novidades ou acontecimentos.

Marãbohó – As cantigas em Kariri, composições musicais transmitidas oralmente de geração em geração, utilizadas em rituais, festividades, momentos de trabalho e na preservação das tradições culturais.

Benhekíé – O brincar, o brinquedo e a brincadeira, importantes formas de entretenimento, aprendizado e socialização entre as crianças e os jovens dos povos Kariri.

Pepé – Nome da peteca em Kariri, brinquedo de base arredondada confeccionado tradicionalmente com couro, fibras e penas, lançado ao ar em jogos e competições recreativas.

Woicrae – O brinquedo conhecido como “cavalo-de-pau” na língua Kariri, geralmente confeccionado com uma vergôntea de marmeleiro ou outro galho resistente, possuindo cabeça simulada e cabresto para as brincadeiras infantis.

Woicraebohó – O canto do vaqueiro que conduz o gado. Desenvolveu-se no contexto da pecuária sertaneja e passou a integrar as manifestações sonoras e culturais das populações indígenas e sertanejas ligadas aos antigos currais do Nordeste.

Serachichiá – As festas populares associadas ao folclore brasileiro, reunindo música, dança, teatro e celebrações comunitárias, incluindo manifestações como reisado, chegança, pastoril e outras festividades realizadas em épocas específicas do calendário cultural.

Ao longo desta obra foi possível percorrer uma ampla trajetória histórica, cultural e linguística dos povos Kariri, acompanhando aspectos relacionados à natureza, ao território, à organização social, às atividades econômicas, às crenças, aos contatos culturais e às formas de expressão do conhecimento.

Este capítulo final evidencia que a linguagem ocupa posição central nesse patrimônio, pois é por meio dela que os saberes são nomeados, organizados, preservados e transmitidos. As palavras registradas neste trabalho representam muito mais do que simples vocábulos: elas guardam memórias, experiências, visões de mundo e fragmentos da história de um povo que atravessou séculos de transformações sem perder suas raízes.

Assim, este estudo busca contribuir para a valorização da herança cultural dos povos Kariri, especialmente dos Kariri-Xocó e demais descendentes das antigas nações Kariri do Nordeste brasileiro. Ao reunir termos, significados, costumes e referências históricas, a obra reafirma a importância da memória coletiva como instrumento de resistência cultural, fortalecendo o reconhecimento das identidades indígenas e preservando conhecimentos que continuam vivos nas comunidades, nas narrativas, nos cantos, nas celebrações e na tradição oral. Dessa forma, encerra-se esta jornada com a convicção de que a cultura permanece viva sempre que sua história é lembrada, compartilhada e transmitida às futuras gerações.





SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Utensílios Domésticos e Objetos do Cotidiano
Capítulo II – Cerâmica Kariri
Capítulo III – Tecelagem, Fibras e Artesanato
Capítulo IV – Adornos, Vestimentas e Identidade
Capítulo V – Música, Dança e Expressões Culturais
Capítulo VI – Alimentação e Culinária Kariri
Capítulo VII – Agricultura e Produção de Alimentos
Capítulo VIII – Plantas Cultivadas e Frutos
Capítulo IX – Caça, Pesca e Sobrevivência
Capítulo X – Armas e Tecnologias Tradicionais
Capítulo XI – Animais na Cultura Kariri
Capítulo XII – Habitação e Organização da Aldeia
Capítulo XIII – Religiosidade e Espiritualidade
Capítulo XIV – Contatos Culturais e Objetos Introduzidos pelos Colonizadores
Capítulo XV – Linguagem, Memória e Transmissão Cultural
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







CONSIDERAÇÕES FINAIS

A herança cultural dos antigos Kariri permanece viva na memória coletiva, nas práticas tradicionais, na oralidade e nos costumes preservados pelos Kariri-Xocó e demais descendentes das antigas nações Kariri.

Ao reunir informações sobre objetos, técnicas, alimentos, palavras, rituais, formas de organização social e conhecimentos ancestrais, esta obra busca contribuir para a valorização de um patrimônio cultural construído ao longo de séculos.

Mais do que registrar o passado, este livro procura fortalecer a continuidade da memória indígena e reafirmar a importância dos povos originários na formação histórica e cultural do Brasil.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ANTUNES, Clóvis. Wakona-Kariri-Xukuru : aspectos sócio-antropológicos dos 
remanescentes indígenas de Alagoas. Maceió : UFAL, 1973. 

FERRARI, Alfonso Trujillo. Os contactos e as mudanças culturais dos Kariri. Sociologia, ago. São Paulo, 1956.

FERRARI, Alfonso Trujillo. Situação atual dos Kariri de Porto Real do Colégio. Sociologia, São Paulo, 19 ( 1 ) mar. 1957 .

IRAMINON, Manoel. Entrevista concedida ao autor. Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio (AL), 10 abr. 1990.

LOWIE, Robert. The cariri. In Steward, J.H. (Ed.) Handbook of south American Indians. Washington D.C., Smithsonian Institution, v. 1. 1946.

HOHENTHAL JR., W.D. 1960. "As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco". Revista do Museu Paulista, Nova Série, 12: 37-71. São Paulo.

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. As Origens Kariri-Xocó 1. Disponível em: 

MAMIANI, Luís Vincêncio (1699). Arte da gramática da língua brasílica da Nação Kiriri. Roma: Propaganda Fide. Edição digital. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. 

Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/. Acesso em: 29 jul. 2021.

NANTES, Bernardo de. Catecismo Indico da língua Kariris. Reimpressão da edição de 1709. Leipzig: B. G. Teubner, 1896.

NANTES, Martinho de. Relação de uma missão no rio São Francisco. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979. [1706] (Coleção Brasiliana, vol. 368 ).

SIQUEIRA, Baptista. Os Cariris do Nordeste. Livraria Editora Cátedra, 351 p .Rio de Janeiro 1978.

SUÍRA, Francisco Queiroz. Entrevista concedida ao autor. Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL, 22 fev. 1988.





SOBRE O AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Pesquisador independente, contador de histórias oral e escrita, dedica-se ao estudo da história, da cultura, da memória e das tradições dos povos indígenas do Nordeste brasileiro.

Autor de trabalhos voltados à preservação da memória cultural Kariri-Xocó, desenvolve pesquisas sobre tradição oral, patrimônio cultural, história indígena, linguística histórica e processos de transmissão dos saberes ancestrais.

Seu trabalho busca contribuir para a valorização das identidades indígenas e para a preservação dos conhecimentos herdados das antigas gerações.




              




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




quarta-feira, 10 de junho de 2026

DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ








FALSA FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Obra dedicada à preservação da memória histórica, territorial, cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó, reunindo relatos da tradição oral, documentos históricos, pesquisas bibliográficas e vivências comunitárias.

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO


Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

ISBN (Simbólico): 978-65-0000-001-1

1ª Edição – 2026





FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)

Kariri-Xocó, Nhenety.

Da Rua dos Índios à Fazenda Modelo: memórias do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.

Povos Indígenas do Nordeste. 2. Kariri-Xocó. 3. História Indígena. 4. Memória Social. 5. Territorialidade Indígena. 6. Cultura Tradicional. I. Título.

CDD: 980.41 CDU: 94(81)




ISBN (SIMBÓLICO)


ISBN: 978-65-0000-001-1





PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 








DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus antepassados Kariri, Xocó, Natú, Karapotó e demais ancestrais que caminharam pelas margens do Rio São Francisco, preservando a memória, a espiritualidade e a identidade de nosso povo. Dedico também aos anciões e anciãs que transmitiram seus conhecimentos através da palavra falada, aos meus pais, filhos, netos e às futuras gerações Kariri-Xocó, para que jamais esqueçam suas origens.





AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, aos antepassados, aos ancestrais e aos guardiões espirituais do Ouricuri, cuja presença acompanha a caminhada de nosso povo.


Agradeço aos anciões Kariri-Xocó que compartilharam suas lembranças, histórias e ensinamentos, permitindo que parte desta memória fosse preservada por escrito.

Agradeço aos pesquisadores, antropólogos, historiadores e instituições que contribuíram para a documentação da história indígena do Baixo São Francisco.


Agradeço à minha família, que sempre incentivou meu trabalho como contador de histórias oral e escrita.

Por fim, agradeço aos leitores que reconhecem a importância da memória indígena como patrimônio da humanidade.





EPÍGRAFE

"Enquanto houver memória, haverá caminho. Enquanto houver território, haverá povo. Enquanto houver povo, os ancestrais continuarão vivos entre nós."
— Nhenety Kariri-Xocó






PREFÁCIO 

Esta obra não pretende ser apenas uma narrativa histórica. Ela representa um exercício de memória coletiva construído a partir das lembranças dos anciões, dos documentos preservados ao longo do tempo e da experiência vivida pelo próprio autor.

Ao percorrer os caminhos que vão da antiga Rua dos Índios à atual Aldeia Kariri-Xocó da Fazenda Modelo, o leitor encontrará séculos de permanência indígena, resistência cultural e reconstrução territorial. Mais do que contar fatos, este livro busca registrar experiências humanas que continuam presentes na vida cotidiana da comunidade.





RESUMO

Este livro apresenta uma reconstrução histórica da trajetória do povo Kariri-Xocó, desde a formação da Missão de Colégio no século XVII até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó na Fazenda Modelo. A obra aborda os processos de territorialização, resistência, reorganização social, reconhecimento oficial, transformações econômicas, espiritualidade e preservação cultural. Fundamentada em fontes bibliográficas, documentos históricos, entrevistas e memórias comunitárias, a pesquisa evidencia a continuidade histórica dos Kariri-Xocó e sua contribuição para a formação cultural do Baixo São Francisco.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; memória indígena; território; história indígena; Ouricuri; Baixo São Francisco.





ABSTRACT

This book presents a historical reconstruction of the Kariri-Xocó people's trajectory, from the formation of the Colégio Mission in the seventeenth century to the consolidation of the Kariri-Xocó Village at Fazenda Modelo. The work discusses territorial processes, resistance, social reorganization, official recognition, economic transformations, spirituality and cultural preservation. Based on bibliographical sources, historical documents, interviews and community memories, the research highlights the historical continuity of the Kariri-Xocó people and their contribution to the cultural formation of the Lower São Francisco region.

Keywords: Kariri-Xocó; indigenous memory; territory; indigenous history; Ouricuri; Lower São Francisco.





APRESENTAÇÃO

A antiga Rua dos Índios constituiu um dos mais importantes espaços de permanência histórica do povo Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio. Sua formação está associada ao processo de reorganização urbana ocorrido após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763, quando numerosas famílias indígenas passaram a concentrar suas moradias naquela área da povoação. Ao longo das gerações, a Rua dos Índios tornou-se um verdadeiro centro de convivência comunitária, onde foram preservados laços familiares, conhecimentos tradicionais, práticas culturais e a memória coletiva do povo.

Em 1948, a denominação oficial foi alterada para Rua São Vicente, mas a antiga referência permaneceu viva na lembrança dos moradores indígenas. Mesmo diante das transformações urbanas e sociais ocorridas ao longo do tempo, a rua continuou sendo um importante símbolo da presença Kariri-Xocó na cidade. Somente em 1978, com a ocupação da Fazenda Modelo e a transferência gradual de diversas famílias para a nova aldeia, iniciou-se uma nova etapa da história comunitária.

Considerando o período compreendido entre a formação da Rua dos Índios, após 1763, e a mudança para a Fazenda Modelo, em 1978, verifica-se uma permanência histórica superior a duzentos anos. Essa longa trajetória evidencia a continuidade da presença indígena em Porto Real do Colégio e demonstra a capacidade de resistência, adaptação e preservação identitária dos Kariri-Xocó ao longo das gerações.

Dessa forma, a passagem da Rua dos Índios para a Fazenda Modelo não representou uma ruptura, mas a continuidade de uma história iniciada ainda nos tempos da antiga Aldeia de Colégio. Os dois espaços permanecem unidos pela memória, pelo parentesco e pelo sentimento de pertencimento que atravessa séculos da trajetória do povo Kariri-Xocó.





NOTA DO AUTOR

Este livro resulta de décadas de observação, pesquisa e convivência com os guardiões da memória Kariri-Xocó. Muitos acontecimentos aqui descritos foram transmitidos por familiares, anciões e lideranças indígenas, sendo posteriormente confrontados com documentos históricos e estudos acadêmicos.





MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci ouvindo histórias. Cresci entre as lembranças dos mais velhos, os relatos sobre a Rua dos Índios, o Ouricuri, a Colônia Indígena, a Fazenda Modelo e os tempos antigos do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos anos, compreendi que cada narrativa guardava fragmentos importantes de nossa história coletiva.
Desde 2006, venho registrando parte dessas memórias em meios digitais, especialmente por meio do Blog Kxnhenety. Este livro representa a continuidade desse trabalho de preservação da memória oral e escrita de meu povo.




SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – A Taba Original e a Formação da Missão Jesuítica (1661–1764)
Capítulo II – Da Missão ao Diretório: Transformações Territoriais e Administrativas (1759–1876)
Capítulo III – Resistência e Sobrevivência dos Kariri-Xocó (1876–1944)
Capítulo IV – O Reconhecimento Oficial dos Kariri-Xocó (1944–1967)
Capítulo V – Trabalho, Desenvolvimento e Novas Oportunidades (1968–1975)
Capítulo VI – FUNAI e a Nova Política Indigenista (1967–1974)
Capítulo VII – Da Rua São Vicente à Fazenda Modelo (1948–1978)
Capítulo VIII – Ouricuri: Centro Espiritual dos Kariri-Xocó
Capítulo IX – Memória, Território e Permanência
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







INTRODUÇÃO

A história do povo Kariri-Xocó atravessa mais de três séculos de transformações territoriais, políticas e culturais. Desde a formação da Missão de Colégio, em 1661, até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó contemporânea, diversas gerações enfrentaram deslocamentos, perdas territoriais, mudanças administrativas e desafios impostos pelas políticas indigenistas.

Apesar dessas transformações, a identidade coletiva permaneceu viva por meio da memória, da espiritualidade, dos vínculos familiares e da relação com o território ancestral. Esta obra busca reconstruir essa trajetória histórica em ordem cronológica, valorizando tanto os documentos escritos quanto as memórias preservadas pelos anciões.






CAPÍTULO I – A TABA ORIGINAL E A FORMAÇÃO DA MISSÃO JESUÍTICA (1661–1764)


A história do povo Kariri-Xocó no Baixo São Francisco está profundamente ligada ao processo de formação das missões indígenas organizadas pelos jesuítas durante o período colonial. A partir da segunda metade do século XVII, diferentes povos indígenas passaram a ser reunidos em aldeamentos missionários que buscavam promover a catequese, o controle territorial e a integração dos indígenas à sociedade colonial. Nesse contexto, a Missão de Colégio tornou-se um importante centro de convivência entre diversos grupos étnicos, constituindo as bases históricas, territoriais e culturais que contribuiriam para a formação do atual povo Kariri-Xocó. Este capítulo aborda a origem da antiga taba indígena, a instalação da missão jesuítica, a composição multiétnica da aldeia e os primeiros marcos da consolidação do território indígena.

Taba Original –  A Antiga Taba dos Kariri localizava-se no cimo da colina denominada Alto do Bode, às margens do Rio São Francisco, próxima à Lagoa Comprida. Em 1661, seus habitantes foram transferidos pelos missionários jesuítas para compor a recém-organizada Missão de Colégio.

Aldeia da Missão Jesuítica – O Surgimento da Missão de Colégio, iniciada com os Kariri provenientes da Aldeia Alto do Bode foram os primeiros indígenas incorporados à Missão de Colégio. A transferência, realizada em 1661, marcou o início da formação do aldeamento missionário na região.

Aldeia de Colégio – A missão constituiu um conglomerado étnico heterogêneo, reunindo diferentes grupos indígenas, entre eles os Natú, Chocó, Carapotó, Prakió e Nakonã, formando uma comunidade marcada pela convivência e interação cultural (PINTO, 1942, p. 172).

Primeira Migração Xocó – A Chegada dos Xocó à Missão, os registros históricos indicam que grupos Xocó provenientes da Aldeia Panema, localizada na região de Águas Belas, Pernambuco, iniciaram um processo migratório por volta de 1688. Em 1713, esses indígenas já eram encontrados na Missão de Colégio, fortalecendo a diversidade étnica do aldeamento.

Doação das Terras – A Concessão do Território Indígena, em 1º de janeiro de 1708, o governador da Capitania de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, concedeu aos índios das missões de Colégio e São Brás uma légua de largura por duas léguas de comprimento, formalizando juridicamente parte do território indígena e assegurando a posse coletiva das terras aldeadas.

Expulsão dos Jesuítas – O Fim da Administração Missionária, em 1759, por determinação da Coroa Portuguesa durante as reformas do Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos dos domínios portugueses. A medida encerrou a administração missionária da Aldeia de Colégio e inaugurou um novo período na história dos povos indígenas da região.

Leilão das Propriedades Jesuíticas – A Dispersão do Patrimônio Jesuítico, como consequência da expulsão dos religiosos, foram leiloadas em 1764 onze fazendas de gado pertencentes aos jesuítas da Missão de Colégio, alterando significativamente a estrutura econômica e fundiária construída ao longo do período missionário (LIMA, 2006, p. 16–17).

A formação da Missão de Colégio representou um momento decisivo na trajetória histórica dos povos indígenas do Baixo São Francisco. A reunião de diferentes grupos étnicos em um mesmo território, a atuação dos missionários jesuítas e a concessão oficial de terras criaram as bases de uma identidade coletiva que atravessaria os séculos. Embora a expulsão dos jesuítas tenha provocado profundas transformações na organização da aldeia, as memórias da antiga taba, da convivência entre os diversos povos indígenas e da luta pela preservação do território permaneceram vivas, constituindo parte fundamental da herança histórica e cultural do povo Kariri-Xocó.






CAPÍTULO II – DA MISSÃO AO DIRETÓRIO: TRANSFORMAÇÕES TERRITORIAIS E ADMINISTRATIVAS (1759–1876)


A segunda metade do século XVIII representou um período de profundas transformações para os povos indígenas do Baixo São Francisco. A expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, determinada pela política reformista do Marquês de Pombal, alterou significativamente a organização das antigas missões religiosas. Em seu lugar foi implantado o Diretório dos Índios, sistema administrativo que procurava integrar os indígenas à sociedade colonial portuguesa por meio de novas formas de controle político, econômico e territorial. Em Porto Real do Colégio, essas mudanças desencadearam um longo processo de reorganização urbana e administrativa que gradualmente reduziu os espaços ocupados pelos indígenas, transformando a antiga aldeia missionária em freguesia, vila e, posteriormente, cidade.

Aldeia do Diretório e as Diretorias dos Índios, após a expulsão dos jesuítas em 1759, a antiga Missão de Colégio passou a ser administrada por autoridades civis vinculadas às políticas do Diretório dos Índios, implantado na América Portuguesa a partir de 1757. Ao final do século XVIII, a aldeia encontrava-se sob a supervisão de diretores nomeados pelo governo, responsáveis pela administração da população indígena e de seus territórios. Esse modelo buscava substituir a influência missionária pelo controle estatal, promovendo a assimilação cultural dos indígenas e restringindo progressivamente sua autonomia tradicional. Ao longo do século XIX, a expansão da povoação e dos interesses econômicos locais contribuiu para a diminuição das terras indígenas, culminando na transformação da localidade em Vila de Porto Real do Colégio, em 1876.

Rua dos Índios, com o crescimento da povoação após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Porto Real do Colégio, em 1763, ocorreu uma reorganização dos espaços urbanos. Muitos indígenas passaram a residir em áreas periféricas da vila, formando o núcleo que ficou conhecido como Rua dos Índios. Durante mais de um século, essa rua constituiu um importante espaço de convivência e preservação da identidade indígena dentro do ambiente urbano. O nome tradicional permaneceu até 1948, quando foi oficialmente alterado para Rua São Vicente. Apesar da mudança administrativa, a memória da antiga Rua dos Índios continuou viva entre os moradores, permanecendo como símbolo da presença histórica do povo Kariri-Xocó. Em 1978, diversas famílias indígenas transferiram-se para a Fazenda Modelo, onde foi consolidada uma nova etapa da ocupação territorial da comunidade.

Transformação da Aldeia em Vila, a história administrativa de Porto Real do Colégio reflete as sucessivas transformações ocorridas desde o período missionário. A fase da Aldeia-Missão do Colégio estendeu-se aproximadamente de 1661 até a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763. Posteriormente, a localidade passou a integrar a estrutura das Diretorias dos Índios, vinculadas às reformas pombalinas. Em 1827, a freguesia foi reorganizada administrativamente, acompanhando as mudanças ocorridas durante o período imperial. Finalmente, em 1876, Porto Real do Colégio foi elevada à categoria de vila, consolidando sua condição de centro urbano regional. Décadas depois, em 1955, alcançaria a categoria de cidade.

Indígenas nas Ruas da Povoação, a formação urbana de Porto Real do Colégio ocorreu sobre o território da antiga aldeia indígena. Por essa razão, a presença dos indígenas não se restringia à Rua dos Índios. Famílias indígenas também habitavam diversas áreas da povoação, incluindo as ruas Clementino Dumont, Santa Cruz, da Aurora e do Cruzeiro. Com a criação do Posto Indígena, em 1944, muitas dessas famílias passaram a concentrar-se na Rua dos Índios, fortalecendo os laços comunitários e preservando práticas culturais e identitárias que resistiram às transformações urbanas e administrativas ocorridas ao longo dos séculos.

O período compreendido entre a expulsão dos jesuítas e a elevação de Porto Real do Colégio à condição de vila foi marcado por profundas mudanças na vida dos povos indígenas da região. A substituição da administração missionária pelo Diretório dos Índios introduziu novas formas de controle político e territorial, favorecendo a expansão da ocupação não indígena e reduzindo gradualmente os espaços tradicionalmente ocupados pelos Kariri-Xocó. Ao mesmo tempo em que a antiga aldeia se transformava em núcleo urbano, os indígenas eram deslocados para áreas cada vez mais periféricas, mantendo, contudo, sua identidade, memória e vínculos comunitários. A história desse período revela não apenas a formação da cidade, mas também a resistência contínua do povo Kariri-Xocó diante das transformações impostas pelo processo de urbanização e pelas políticas coloniais e imperiais que redefiniram o território ancestral.







CAPÍTULO III – RESISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DOS KARIRI-XOCÓ (1876–1944)

A extinção oficial dos aldeamentos indígenas em 1872 inaugurou um dos períodos mais difíceis da história dos Kariri-Xocó. Privados do reconhecimento legal de suas terras tradicionais e submetidos à expansão das propriedades rurais, os indígenas passaram a enfrentar profundas transformações sociais, econômicas e culturais. Entre 1876 e 1944, desenvolveram estratégias de resistência que garantiram sua sobrevivência coletiva, mantendo vínculos familiares, práticas culturais, conhecimentos tradicionais e a memória de pertencimento ao território ancestral. Mesmo diante da expropriação, da exploração do trabalho e da invisibilidade imposta pelo poder público, os Kariri-Xocó preservaram sua identidade, preparando o caminho para o futuro reconhecimento oficial de sua condição indígena.

Segunda Migração Xocó, nas décadas posteriores à extinção dos aldeamentos, ocorreu uma nova movimentação de famílias Xocó provenientes da Aldeia Ilha de São Pedro, localizada em Porto da Folha, Sergipe. Esse deslocamento consolidou a aproximação histórica entre Kariri e Xocó na antiga Aldeia de Colégio, já transformada na Vila de Porto Real do Colégio, em Alagoas. A chegada dessas famílias fortaleceu os laços de parentesco, ampliou a população indígena local e contribuiu para a preservação das tradições culturais compartilhadas pelos dois povos.

Trabalhadores de Alugado, com a perda das terras coletivas, muitos indígenas foram obrigados a sobreviver como trabalhadores alugados para fazendeiros da região. Entre 1876 e 1952, homens, mulheres e jovens exerceram diversas atividades rurais e serviços gerais em troca de baixos salários ou remuneração em produtos. Essa condição de dependência econômica representou uma das principais consequências da expropriação territorial, mas também revelou a capacidade de adaptação e resistência dos Kariri-Xocó diante das dificuldades impostas.

Gabriel Gonçalves de Oliveira, entre as figuras de destaque desse período encontra-se Gabriel Gonçalves de Oliveira (1853–1953), indígena reconhecido por seus conhecimentos tradicionais de cura e que alcançou posição de relativo destaque econômico na região. Tornando-se proprietário rural, utilizou sua influência para auxiliar e proteger diversas famílias Kariri e Xocó que enfrentavam condições de vulnerabilidade. Após o falecimento de sua primeira esposa, Luzia, uniu-se a Maria Matilde, que posteriormente daria continuidade à sua atuação de apoio aos indígenas.

Maria Matilde, após a morte de Gabriel Gonçalves, Maria Matilde permaneceu como importante referência para os Kariri-Xocó. Sua atuação foi marcada pela assistência às famílias indígenas e pela manutenção de relações de solidariedade em um período de grandes dificuldades. A memória de sua contribuição permaneceu viva entre os indígenas, especialmente durante os anos que antecederam a criação do Posto Indígena, em 1944, quando os Kariri-Xocó passaram a receber maior atenção das autoridades indigenistas.

Operários da Fábrica, a instalação de uma fábrica de beneficiamento de arroz na Rua dos Caboclos, em 1937, criou novas oportunidades de trabalho para a população indígena local. Muitos Kariri-Xocó passaram a atuar como operários na unidade industrial, desempenhando funções ligadas ao processamento e armazenamento da produção agrícola regional. A fábrica permaneceu em funcionamento até 1968, tornando-se uma importante fonte de renda para diversas famílias indígenas ao longo de várias décadas.

A Visita de Carlos Estevão, em 1935, o antropólogo e pesquisador Carlos Estevão de Oliveira visitou Porto Real do Colégio para realizar observações sobre a população indígena local. Durante sua permanência, conheceu a Rua dos Índios e a região da Rua do Ouricuri, então cercada por áreas de mata. Seus registros etnográficos documentaram a presença contínua dos descendentes dos antigos aldeamentos e contribuíram para fortalecer a compreensão sobre a permanência histórica dos Kariri-Xocó na região. Esses estudos tornaram-se importantes referências para os processos que culminariam no reconhecimento oficial dos indígenas e na instalação do Posto Indígena em 1944.

O período compreendido entre 1876 e 1944 representa uma fase de resistência silenciosa, porém decisiva, na trajetória dos Kariri-Xocó. Apesar da perda das terras tradicionais, da exploração do trabalho indígena e das tentativas de invisibilização de sua existência, o povo manteve vivas suas relações comunitárias, seus conhecimentos ancestrais e sua identidade cultural. A solidariedade de lideranças locais, a adaptação às novas formas de trabalho e os registros produzidos por pesquisadores como Carlos Estevão contribuíram para que a presença indígena permanecesse reconhecível. Assim, ao final desse ciclo histórico, os Kariri-Xocó demonstraram que a resistência não se expressa apenas por confrontos diretos, mas também pela capacidade de preservar a memória, a cultura e o sentimento de pertencimento ao longo das gerações, preparando o caminho para as conquistas territoriais e políticas das décadas seguintes.






CAPÍTULO IV - O RECONHECIMENTO OFICIAL DOS KARIRI-XOCÓ (1944–1967)


A década de 1940 marcou uma profunda transformação na história do povo Kariri-Xocó. Após séculos de resistência, invisibilidade administrativa e sucessivas perdas territoriais, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente reconhecidos pelo Estado brasileiro por meio das ações do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Esse reconhecimento inaugurou uma nova etapa de reorganização comunitária, caracterizada pela implantação de estruturas administrativas, educacionais e produtivas destinadas a integrar a comunidade indígena às políticas indigenistas da época. Entre 1944 e 1967, os Kariri-Xocó consolidaram importantes conquistas institucionais que fortaleceram sua permanência no território e contribuíram para a preservação de sua identidade coletiva.

Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em 1944, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente assistidos pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), por meio da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, marco do reconhecimento oficial da comunidade indígena pelo Estado brasileiro.

Escola Padre Alfredo Dâmaso, fundada em 1944 juntamente com o Posto Indígena, a Escola Padre Alfredo Dâmaso constituiu o primeiro estabelecimento de ensino voltado à comunidade indígena local. Em 1985, a instituição foi transferida para a Aldeia Kariri-Xocó, situada na Fazenda Modelo.

Colônia Indígena, em 1947, o Ministério da Agricultura destinou aos indígenas de Porto Real do Colégio uma área de aproximadamente 54 hectares para atividades agrícolas. A área passou a ser conhecida como Colônia Indígena, denominação que permaneceu na memória coletiva da comunidade.

Reforma das Casas de Palha, a grande enchente do Rio São Francisco, ocorrida em 1949, atingiu Porto Real do Colégio e a comunidade Kariri-Xocó. Em decorrência dos danos causados, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso promoveu a recuperação e reforma das moradias tradicionais de palha afetadas pela inundação.

Casa de Farinha, por volta de 1960, foi implantada uma Casa de Farinha na Colônia Indígena para atender ao beneficiamento da mandioca produzida pelas famílias Kariri-Xocó, fortalecendo a economia comunitária e a produção de alimentos.

O período compreendido entre 1944 e 1967 representa um marco fundamental na trajetória histórica dos Kariri-Xocó. A criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, a instalação da escola, a formação da Colônia Indígena, as melhorias habitacionais após a enchente de 1949 e a construção da Casa de Farinha evidenciam a presença crescente do Estado na vida comunitária. Embora inseridas dentro da política indigenista vigente, essas iniciativas também foram apropriadas pelos próprios indígenas como instrumentos de fortalecimento social, econômico e cultural. Assim, o reconhecimento oficial conquistado nesse período não significou apenas uma medida administrativa, mas um importante passo na reafirmação da existência histórica do povo Kariri-Xocó, preparando o caminho para as futuras lutas pela recuperação territorial, valorização cultural e afirmação de seus direitos coletivos.






CAPÍTULO V – TRABALHO, DESENVOLVIMENTO E NOVAS OPORTUNIDADES (1968–1975)


A partir do final da década de 1960, a região do Baixo São Francisco passou por importantes transformações econômicas impulsionadas por obras de infraestrutura, expansão agrícola e projetos de desenvolvimento regional. Essas mudanças abriram novas possibilidades de trabalho para o povo Kariri-Xocó, que passou a integrar de forma mais intensa o mercado de trabalho regional, atuando em obras de construção civil, serviços de engenharia, atividades agrícolas e projetos de irrigação. Embora muitos indígenas continuassem vinculados às práticas tradicionais de subsistência, esse período marcou uma crescente participação da comunidade em atividades assalariadas, contribuindo para a geração de renda e para novas experiências de inserção social e econômica.

COENG S/A – Em 1968, a empresa de engenharia e terraplanagem COENG S/A instalou sua sede operacional em Porto Real do Colégio, utilizando o antigo prédio da fábrica de arroz desativada, localizado na Rua São Vicente. Contratada para atuar nas obras de implantação da Rodovia BR-101, a empresa empregou diversos trabalhadores indígenas Kariri-Xocó, proporcionando uma das mais significativas oportunidades de trabalho assalariado da época.

CONSTRUTORA GUTIERREZ – Em 1969, a Construtora Andrade Gutierrez estabeleceu sua base de apoio na cidade, também utilizando as instalações da antiga fábrica de arroz na Rua São Vicente. Responsável por serviços relacionados à pavimentação da BR-101 e às obras da ponte sobre o Rio São Francisco, a empresa contratou numerosos trabalhadores Kariri-Xocó, ampliando a participação indígena nos grandes empreendimentos de infraestrutura que transformavam a região.

Usinas de Cana-de-açúcar – Entre 1972 e 1975, a expansão da atividade sucroalcooleira no Sul de Alagoas criou novas frentes de trabalho para os Kariri-Xocó. Muitos indígenas passaram a atuar no cultivo da cana-de-açúcar, realizando atividades como abertura de sulcos para plantio, capina, limpeza e manutenção dos canaviais, integrando-se temporariamente ao ciclo produtivo das usinas da região.

Projeto Itiúba – Implantado na várzea do Rio Itiúba, o Projeto Itiúba representou uma importante iniciativa de irrigação agrícola voltada para a produção de arroz. O projeto beneficiou cerca de 300 parceleiros com lotes irrigados, entre os quais aproximadamente 40 famílias Kariri-Xocó receberam parcelas de terra para cultivo, fortalecendo a agricultura familiar indígena e ampliando as possibilidades de geração de renda por meio da produção agrícola irrigada.

As experiências vividas pelos Kariri-Xocó entre 1968 e 1975 revelam um período de ampliação das oportunidades de trabalho e de integração econômica regional. A participação em obras rodoviárias, empreendimentos da construção civil, atividades ligadas às usinas de cana-de-açúcar e projetos de irrigação permitiu à comunidade diversificar suas fontes de sustento, sem abandonar sua identidade cultural e seus vínculos históricos com o território. Esse processo contribuiu para a construção de novas perspectivas de desenvolvimento, preparando o caminho para as transformações sociais e econômicas que marcariam as décadas seguintes.






CAPÍTULO VI – FUNAI E A NOVA POLÍTICA INDIGENISTA (1967–1974)


A criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em 1967, marcou uma importante mudança na política indigenista brasileira. O novo órgão passou a substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumindo a administração dos postos indígenas e redefinindo as ações do Estado junto aos povos originários. Na Aldeia Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, essa transição trouxe transformações na infraestrutura comunitária, na educação, na assistência social e na capacitação profissional. Embora muitas dificuldades permanecessem, esse período foi marcado por investimentos que modificaram o espaço físico da aldeia e ampliaram as oportunidades de formação para as novas gerações indígenas.

FUNAI, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão governamental criado em 1967 para substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumiu a administração do antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, inaugurando uma nova fase da política indigenista brasileira junto ao povo Kariri-Xocó.

Posto Indígena de Porto Real do Colégio, o antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso passou a ser denominado Posto Indígena de Porto Real do Colégio em 1969, já sob a administração da FUNAI. A mudança representou o início de uma nova etapa administrativa e institucional para a Aldeia Kariri-Xocó.

Reforma das Casas de Alvenaria, na Rua São Vicente, principal núcleo da aldeia na época, a FUNAI promoveu, em 1972, a reforma das fachadas das casas dos indígenas Kariri-Xocó, substituindo estruturas antigas por frentes construídas em alvenaria de tijolos.

Reforma e Ampliação da Escola, entre 1972 e 1973, a FUNAI realizou a reforma e ampliação da Escola Indígena, construindo três novas salas de aula, banheiros, muro de proteção e uma enfermaria, melhorando as condições de ensino e atendimento à comunidade.

Casa das Professoras, em 1973, a FUNAI construiu a Casa das Professoras na Rua São Vicente. A residência destinava-se às docentes que vinham de outras regiões e aldeias do Nordeste para atuar na educação das crianças Kariri-Xocó, oferecendo-lhes melhores condições de permanência na comunidade.

Escola de Corte e Costura, também em 1973, a FUNAI implantou um curso de corte e costura voltado para as jovens da aldeia. Para ministrar as aulas, foi contratada a indígena Fulni-ô Maria Amélia, que transmitiu conhecimentos técnicos e artesanais importantes para a formação das alunas.

Casa da Cerâmica Torneada, o prédio foi construída em 1974, estava localizada na Rua São Vicente. O espaço destinava-se ao ensino e à produção de peças de barro utilizando o torno de oleiro. Os artesãos indígenas aprenderam a confeccionar diversos objetos, como jarros, quartinhas, moringas, pratos e outros utensílios cerâmicos, fortalecendo as atividades artesanais da comunidade.

O período compreendido entre 1967 e 1974 representou uma fase de transição institucional para o povo Kariri-Xocó, marcada pela substituição do SPI pela FUNAI e pela implementação de novas ações governamentais na aldeia. As reformas habitacionais, a ampliação da escola, a construção de residências para professores e a criação de cursos profissionalizantes demonstram a tentativa de integrar educação, assistência e qualificação profissional às políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Embora ainda persistissem desafios relacionados à autonomia territorial e ao reconhecimento pleno dos direitos indígenas, essas iniciativas contribuíram para transformar o cotidiano da comunidade e prepararam o caminho para as mobilizações e conquistas que ocorreriam nas décadas seguintes.







CAPÍTULO VII – DA RUA SÃO VICENTE À FAZENDA MODELO (1948–1978)


Este capítulo aborda um dos momentos mais marcantes da história recente do povo Kariri-Xocó: a transição da antiga Rua dos Índios, local de residência de inúmeras gerações indígenas em Porto Real do Colégio, para a Fazenda Modelo, território que se tornaria a nova aldeia da comunidade. O período compreendido entre 1948 e 1978 representa a passagem entre dois espaços carregados de significados históricos e afetivos. De um lado, a Rua São Vicente, símbolo da permanência indígena no núcleo urbano da cidade; de outro, a Fazenda Modelo, que passou a representar a reconstrução territorial, cultural e comunitária dos Kariri-Xocó em sua luta pela reafirmação de sua identidade indígena.

Rua São Vicente – A antiga Rua dos Índios passou a ser denominada Rua São Vicente em 1948, recebendo o nome em referência à Usina São Vicente, importante empreendimento de beneficiamento de arroz da região. A mudança refletia o processo de modernização urbana e o fortalecimento das atividades econômicas ligadas ao desenvolvimento de Porto Real do Colégio.

Permanência dos Kariri-Xocó na Rua São Vicente – Mesmo após a mudança do nome da rua, muitas famílias Kariri-Xocó permaneceram vivendo no local onde seus antepassados residiam desde os primeiros tempos da formação de Porto Real do Colégio. O vínculo afetivo, histórico e cultural com a terra natal levou diversas famílias a continuarem na Rua São Vicente, mesmo quando começaram os movimentos de transferência para um novo território indígena.

Transferência para a Fazenda Modelo – Em 31 de outubro de 1978, os Kariri-Xocó ocuparam a Fazenda Modelo, marco fundamental da reorganização territorial da comunidade. A partir dessa data, teve início a mudança gradual das famílias da Rua São Vicente, situada na periferia urbana de Porto Real do Colégio, para a nova aldeia indígena, onde passaram a reconstruir suas moradias, fortalecer seus laços comunitários e reafirmar sua identidade étnica em um território próprio.

A passagem da Rua São Vicente para a Fazenda Modelo representou muito mais do que uma simples mudança de moradia. Esse processo simbolizou a retomada de um espaço coletivo capaz de assegurar melhores condições para a preservação da cultura, da memória e da organização social dos Kariri-Xocó. Embora a Rua São Vicente permanecesse como um lugar de profundas recordações e pertencimento, a ocupação da Fazenda Modelo marcou o início de uma nova etapa histórica, caracterizada pela reconstrução territorial e pelo fortalecimento da identidade indígena, consolidando as bases da atual Aldeia Kariri-Xocó.







CAPÍTULO VIII – OURICURI: CENTRO ESPIRITUAL DOS KARIRI-XOCÓ


Entre todos os espaços de referência da memória coletiva Kariri-Xocó, o Ouricuri ocupa lugar singular como território sagrado de espiritualidade, resistência e continuidade cultural. Muito mais que uma área de floresta preservada, o Ouricuri representa um elo permanente entre os vivos, os ancestrais e as forças da natureza presentes na cosmologia indígena. Ao longo dos séculos, mesmo diante das transformações políticas, territoriais e sociais ocorridas em Porto Real do Colégio, este espaço manteve-se como centro das práticas rituais, da transmissão dos conhecimentos tradicionais e da reafirmação da identidade étnica do povo Kariri-Xocó.

Aldeia Ouricuri, corresponde à antiga taba transferida do Alto do Bode em 1796, quando o Pajé Luduvico contava dezoito anos de idade. A mudança ocorreu em um contexto de expansão da ocupação colonial na região, após a elevação de Porto Real do Colégio à condição de Distrito em 1795. Com a aproximação dos núcleos urbanos e das atividades dos não indígenas, buscou-se um local mais afastado para garantir a continuidade dos rituais tradicionais e a preservação dos costumes ancestrais.

Rua do Ouricuri, após a transformação da Aldeia de Colégio em vila de Porto Real do Colégio, em 1876, diversas famílias indígenas passaram a residir nas proximidades da Floresta do Ouricuri, onde estabeleceram suas moradias e desenvolveram atividades agrícolas de subsistência. A localidade ficou conhecida como Rua do Ouricuri e permaneceu habitada por famílias Kariri-Xocó até 1952, quando muitas delas foram transferidas para a Colônia Indígena instalada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).

Os Rituais Tradicionais, na Floresta do Ouricuri realizam-se os rituais tradicionais que constituem uma das mais importantes expressões da cultura Kariri-Xocó. Essas cerimônias possuem dimensões espirituais, sociais e culturais, fortalecendo os vínculos entre as pessoas, a natureza, os ancestrais e os antepassados sagrados. Por meio dos cantos, danças, rezas, ensinamentos e práticas cerimoniais, os conhecimentos transmitidos pelas gerações anteriores permanecem vivos e atuantes na construção da identidade coletiva do povo.

A Preservação da Floresta Sagrada, a Floresta do Ouricuri constitui um patrimônio natural e cultural de valor inestimável para os Kariri-Xocó. Formada por remanescentes dos biomas Mata Atlântica e Caatinga, a área integra a Terra Indígena Kariri-Xocó e tem sido preservada por sucessivas gerações desde tempos anteriores ao contato com os missionários jesuítas, ocorrido em 1661. Além de sua importância espiritual, representa uma das últimas formações vegetais significativas existentes nos municípios de Porto Real do Colégio e São Brás, desempenhando papel fundamental na conservação da biodiversidade regional.

A história do Ouricuri revela a profunda relação entre território, espiritualidade e identidade do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos séculos, a floresta sagrada permaneceu como espaço de resistência cultural, preservação ambiental e fortalecimento dos laços ancestrais. Mesmo diante das mudanças impostas pela colonização, pela expansão urbana e pelas políticas indigenistas, o Ouricuri continuou sendo o coração espiritual da comunidade. Sua existência simboliza a permanência dos saberes tradicionais, da memória coletiva e da conexão sagrada que une os Kariri-Xocó aos seus antepassados e à natureza, assegurando a continuidade de uma herança cultural transmitida de geração em geração.






CAPÍTULO IX - MEMÓRIA, TERRITÓRIO E PERMANÊNCIA


O presente capítulo encerra a trajetória histórica apresentada neste livro, reunindo elementos que expressam a permanência do povo Kariri-Xocó ao longo das gerações. Após séculos de transformações territoriais, deslocamentos, resistências e reconstruções comunitárias, a memória coletiva permanece viva nas famílias, nos lugares de pertencimento, nos saberes tradicionais e nas narrativas transmitidas pelos mais velhos. Mais do que registrar acontecimentos, este capítulo busca destacar a continuidade histórica de um povo que preserva sua identidade cultural mesmo diante das mudanças ocorridas ao longo do tempo, reafirmando a importância da memória e do território como fundamentos da existência coletiva Kariri-Xocó.

A Rua São Vicente na Atualidade, ainda abriga numerosas famílias Kariri-Xocó, desde o antigo prédio do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso até diversos pontos ao longo da rua. Atualmente, os moradores indígenas convivem com famílias não indígenas, refletindo a dinâmica histórica de integração e convivência existente no município.

Descendentes Kariri-Xocó na Cidade, os descendentes indígenas encontram-se distribuídos por diversos bairros e ruas de Porto Real do Colégio. Em razão dos processos históricos de miscigenação e formação da população local, muitas famílias preservam vínculos ancestrais com os povos indígenas da região, constituindo parte importante da identidade cultural do município.

Formação da Aldeia Atual, o povo Kariri-Xocó foi constituído historicamente pela integração de diferentes grupos indígenas, entre eles Kariri, Natu, Xocó, Karapotó, Fulni-ô, Pankararu, Aconã, Tingui-Botó, Fulkaxó e Caxagó. Ao longo do tempo, parte desses grupos contribuiu para a formação de novas aldeias e comunidades indígenas em municípios de Alagoas e Sergipe, mantendo laços históricos e culturais entre si.

Patrimônio Histórico e Cultural, os espaços construídos ao longo da história, os lugares de memória, os conhecimentos tradicionais, as manifestações culturais e, sobretudo, os próprios anciões e detentores dos saberes constituem um patrimônio vivo que deve ser valorizado e preservado para as futuras gerações.

Memórias dos Anciões, os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos representam uma das mais importantes fontes da história do povo Kariri-Xocó. Seus relatos, experiências e ensinamentos devem ser ouvidos, registrados e incorporados à educação escolar indígena, fortalecendo a preservação da história, da arte, da espiritualidade e da identidade cultural do povo.

Ao concluir esta obra, compreende-se que a história do povo Kariri-Xocó não se limita aos acontecimentos do passado, mas continua presente na vida cotidiana de suas famílias, em seus territórios, em suas tradições e em sua memória coletiva. Cada geração recebeu dos seus antepassados a responsabilidade de preservar conhecimentos, valores e formas próprias de compreender o mundo. Assim, a permanência do povo Kariri-Xocó constitui um testemunho de resistência, adaptação e continuidade cultural. Que estas páginas contribuam para fortalecer a valorização da história indígena, inspirando as futuras gerações a manter vivas as memórias, os saberes e os vínculos que unem o povo Kariri-Xocó à sua ancestralidade e ao seu território.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

A caminhada apresentada neste livro demonstra que a história do povo Kariri-Xocó é marcada pela continuidade. Ao longo dos séculos, diferentes gerações preservaram conhecimentos, práticas culturais e formas próprias de compreender o mundo.

Da antiga taba do Alto do Bode à Fazenda Modelo, passando pela Missão de Colégio, pela Rua dos Índios, pela Colônia Indígena e pelo Ouricuri, os Kariri-Xocó construíram uma trajetória de resistência e permanência.

Que esta obra contribua para fortalecer a valorização da memória indígena, incentivar novas pesquisas e inspirar as futuras gerações a conhecer, preservar e transmitir os conhecimentos herdados de seus antepassados.







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SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Terra Indígena Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à pesquisa da memória indígena, da história regional e da preservação dos conhecimentos tradicionais de seu povo.
Desde 2006 desenvolve atividades de registro histórico e cultural por meio de publicações digitais e projetos de valorização da memória coletiva. É autor de diversos textos sobre a história, a cultura e as tradições dos povos indígenas do Baixo São Francisco, especialmente dos Kariri-Xocó.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó