FALSA FOLHA DE ROSTO (VERSO)
Obra integrante do acervo virtual bibliográfico de Nhenety Kariri-Xocó, dedicada ao estudo, valorização e preservação das cosmovisões e culturas dos povos indígenas da América do Sul, com ênfase nas tradições orais, espiritualidade e resistência histórica.
FOLHA DE ROSTO
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Título: Cosmovisão e Cultura dos Povos Indígenas XVI
Subtítulo: Coletânea do Acervo Virtual Bibliográfico
Volume: 16
Local: Porto Real do Colégio – AL
Ano: (colocar o ano de publicação)
FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
(Pode ser colocada no verso da folha de rosto)
K18c
Kariri-Xocó, Nhenety.
Cosmovisão e cultura dos povos indígenas XVI: coletânea do acervo virtual bibliográfico / Nhenety Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
Volume 16.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-00000-16-0
Povos indígenas – Brasil.
Cosmovisão indígena.
Cultura Guarani.
Mitologia amazônica.
Espiritualidade indígena.
CDD: 980.41
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN: 978-65-00000-16-0
Observação: Este ISBN é simbólico para organização do acervo.
Para publicação oficial, pode ser solicitado na Câmara Brasileira do Livro.
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
DEDICATÓRIA
À memória dos ancestrais, guardiões da palavra sagrada,
e aos povos originários que mantêm viva a chama da tradição.
AGRADECIMENTOS
Aos sábios antigos, às comunidades indígenas e aos estudiosos que contribuíram para a preservação e difusão dos conhecimentos aqui apresentados.
EPÍGRAFE
“A palavra é a alma que caminha.”
— Tradição Guarani
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN ( Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Sumário
Apresentação
Introdução Geral
Desenvolvimento dos Capítulos
Capítulo 1 - Jurupari: o Legislador Sagrado dos Povos Indígenas
Capítulo 2 - A Origem e a Cosmovisão dos Guarani
Capítulo 3 - A Origem de Tupã Mirim e a Primeira Aldeia do Mundo
Capítulo 4 - Yvymara’eỹ: A Terra Sem Males na Cosmovisão Guarani
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL
O presente volume, intitulado Cosmovisão e Cultura dos Povos Indígenas XVI, integra a coletânea do Acervo Virtual Bibliográfico de Nhenety Kariri-Xocó, constituindo-se como parte de um projeto contínuo de valorização, registro e difusão dos saberes ancestrais dos povos originários.
Este trabalho nasce do encontro entre a tradição oral e a pesquisa acadêmica, reunindo narrativas, análises e interpretações que evidenciam a complexidade das cosmovisões indígenas, especialmente no que se refere às culturas amazônicas e guarani. Ao longo dos capítulos, são abordadas temáticas fundamentais como a espiritualidade, a organização social, os sistemas simbólicos e os processos históricos de resistência frente às transformações impostas pela colonização.
Mais do que uma coletânea de textos, esta obra representa um instrumento de preservação da memória cultural, reafirmando o valor dos conhecimentos indígenas como formas legítimas de produção de saber. A figura de Jurupari, a estrutura cosmológica guarani, a origem mítica de Tupã Mirim e a concepção da Terra Sem Males revelam não apenas narrativas tradicionais, mas sistemas filosóficos profundamente enraizados na relação entre ser humano, natureza e espiritualidade.
A proposta deste acervo virtual é ampliar o acesso ao conhecimento indígena, promovendo o diálogo entre diferentes formas de pensamento e contribuindo para a construção de uma sociedade mais consciente da diversidade cultural que a constitui. Nesse sentido, o blog do autor configura-se como um espaço de partilha, reflexão e continuidade da palavra ancestral, onde o passado e o presente se entrelaçam na construção de novos caminhos.
Ao registrar e organizar esses saberes em formato acadêmico, reafirma-se o compromisso com a valorização das identidades indígenas, reconhecendo sua importância não apenas como herança histórica, mas como fonte viva de ensinamentos para o mundo contemporâneo.
Assim, esta obra convida o leitor a percorrer caminhos de escuta, respeito e aprendizado, onde cada narrativa se apresenta como um elo entre gerações, fortalecendo a permanência e a dignidade dos povos originários.
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – AL
2026
INTRODUÇÃO GERAL DO VOLUME
Este volume integra a coletânea do acervo bibliográfico de Nhenety Kariri-Xocó, reunindo estudos voltados à compreensão das cosmovisões indígenas, com destaque para os povos amazônicos e guarani. A obra propõe uma abordagem descritiva, cronológica e interpretativa, valorizando tanto as fontes acadêmicas quanto a tradição oral.
Ao longo dos capítulos, são exploradas figuras míticas, estruturas cosmológicas, espiritualidade, organização social e os impactos da colonização sobre os sistemas simbólicos indígenas. O livro busca contribuir para a valorização do pensamento indígena como forma legítima de conhecimento, ressaltando sua importância histórica, cultural e filosófica.
DESENVOLVIMENTO DOS CAPÍTULOS
CAPÍTULO 1
JURUPARI O LEGISLADOR SAGRADO DOS POVOS INDÍGENAS
1. Introdução
Jurupari representa uma das figuras mais significativas da mitologia indígena amazônica, especialmente entre os povos Tukano, Baniwa, Desana, Piratapuia e Tariana, situados na região do Alto Rio Negro. Trata-se de um legislador mítico, associado à origem das leis sociais, dos ritos de passagem e das práticas espirituais masculinas. Conforme aponta Fernandes (2015), Jurupari desempenha o papel de mediador entre o mundo espiritual e humano, instituindo regras que estruturam a vida coletiva.
A chegada dos missionários jesuítas aos territórios indígenas, sobretudo entre os séculos XVII e XVIII, resultou em conflitos culturais profundos. Os jesuítas interpretaram o culto a Jurupari como demoníaco, destruindo instrumentos sagrados, perseguindo líderes espirituais e impondo valores cristãos nas aldeias (SILVA, 2011). Este artigo propõe uma análise descritiva e cronológica sobre a figura de Jurupari, suas tradições e a tentativa de apagamento por meio da ação colonizadora.
2. Origem Mitológica
Segundo Galvão (1976), Jurupari teria nascido do Sol e de uma mulher virgem, sendo dotado de uma missão divina: instaurar ordem no mundo e estabelecer normas sociais e espirituais. A mitologia o apresenta como portador da palavra sagrada, cuja voz se manifesta por meio das flautas rituais que levam seu nome. Para os povos do Alto Rio Negro, sua presença é sentida nos rituais masculinos, nos quais os homens reproduzem e reverenciam sua autoridade ancestral.
Nimuendajú (1952) relata que a narrativa sobre o nascimento de Jurupari possui variantes entre os diferentes grupos étnicos da região, mas todas convergem na ideia de que ele trouxe as leis da convivência e introduziu os segredos espirituais masculinos.
3. Tradições Instituídas por Jurupari
Dentre as tradições instituídas por Jurupari, destacam-se:
Os ritos de passagem da infância à vida adulta;
A definição de códigos morais e sociais;
A delimitação dos papéis de gênero;
O uso exclusivo das flautas sagradas pelos homens;
A prática do segredo ritual e o isolamento das mulheres durante os ritos.
Cunha (2002) afirma que esses ritos são fundamentais para a coesão social dos grupos indígenas, pois reforçam os vínculos entre os membros da comunidade e a ancestralidade. A transgressão às normas impostas por Jurupari era, e ainda é, considerada uma grave violação espiritual.
4. Perseguição Jesuítica e a Demonização de Jurupari
Durante o processo de colonização, os missionários jesuítas empenharam-se em destruir o culto de Jurupari, classificando-o como superstição demoníaca. Artionka Silva (2011) evidencia que os jesuítas confiscaram e queimaram os instrumentos sagrados, proibiram os rituais de iniciação e catequizaram lideranças espirituais, com o objetivo de consolidar a fé cristã nas aldeias. A narrativa cristã passou a associar Jurupari ao diabo, deturpando completamente seu significado simbólico.
Como destaca Fernandes (2015), esse processo de demonização constituiu-se como uma forma de colonização da espiritualidade indígena, o que resultou em sérias perdas culturais, mas também em formas de resistência e adaptação dos ritos nativos.
5. Considerações Finais
Apesar da intensa repressão histórica e das tentativas sistemáticas de apagar os cultos indígenas, o mito de Jurupari sobrevive, ressignificado em muitos contextos amazônicos contemporâneos. Em várias comunidades, as flautas de Jurupari continuam sendo utilizadas em rituais secretos, mantendo vivas as tradições ancestrais.
Segundo Cunha (2002), a figura de Jurupari tornou-se símbolo de resistência, identidade e preservação cultural. Os ritos e ensinamentos associados a ele reforçam o pertencimento social e o respeito às leis da natureza, que são centrais para a cosmovisão dos povos indígenas do Alto Rio Negro. A permanência desse legado revela a força das memórias coletivas frente às adversidades coloniais.
Autor: NhenetyKariri-Xocó
CAPÍTULO 2
A ORIGEM E A COSMOVISÃO DOS GUARANI
Introdução
Os povos Guarani constituem uma das mais antigas e expressivas etnias indígenas da América do Sul. Sua presença se estende por regiões do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, onde desenvolveram uma cultura marcada por uma visão cosmológica profunda e complexa. A história dos Guarani, anterior à chegada dos europeus, está ligada às migrações de troncos linguísticos Tupi-Guarani e à construção de uma espiritualidade centrada na busca por equilíbrio entre o mundo físico e espiritual.
Este trabalho apresenta uma breve cronologia da origem dos Guarani, destacando os principais períodos até o contato com os colonizadores europeus. Em seguida, explora-se a estrutura cósmica dos Guarani Chiripá, as moradas espirituais e os seres que regem os céus. Por fim, examina-se a corporalidade entre os Guarani Mbyá, especialmente os estágios da alma e sua relação com a saúde, além dos ambientes culturais da Terra e o ideal sagrado da Terra sem mal (yvy marã e’ỹ).
Origem dos Guarani: Cronologia e a Estrutura Cósmica
Antes de Cristo (a.C.):
c. 3.000 a.C. – Os antepassados dos Guarani pertenciam à macrofamília Tupi-Guarani, que se desenvolveu na região amazônica (atualmente entre o Peru, Bolívia e Brasil).
c. 2.000–1.000 a.C. – Migrações gradativas dos proto-Tupi-Guarani rumo ao sul (regiões do atual Mato Grosso do Sul, Paraguai, Argentina e sul do Brasil), formando diversas etnias com base em troncos linguísticos.
c. 500 a.C. – Formação de aldeias horticultoras semi-sedentárias, com base na agricultura da mandioca, milho e batata-doce.
Depois de Cristo (d.C.):
Séculos I–XII d.C. – Estruturação cultural dos Guarani ancestrais, com consolidação de seus mitos de origem, organização social, práticas espirituais e linguísticas distintas. Os Guarani se espalham pelas bacias do Prata e do Paraguai.
Séculos XIII–XV d.C. – A presença Guarani se estende por grandes áreas da América do Sul: regiões dos atuais Paraguai, sul e sudeste do Brasil, Bolívia e Argentina, desenvolvendo rica mitologia e prática xamânica.
Século XVI (a partir de 1500) – Contatos com os europeus, especialmente os espanhóis e portugueses. Inicialmente, os Guarani estabelecem alianças, mas depois sofrem com a colonização, reduções jesuíticas e escravidão.
Estrutura Cósmica dos Guarani Chiripá
Os Guarani Chiripá (ou Nhandeva) possuem uma cosmovisão vertical e estratificada, onde o mundo é dividido em camadas celestes e subterrâneas, unidas pela presença do ser humano como mediador espiritual. Há um constante diálogo entre o plano visível e o invisível, com forte ênfase na palavra sagrada (ñe'ẽ).
Camadas celestes e moradas espirituais:
Yvágapy – Céu mais próximo da Terra.
Yvá tenonde – Morada de seres sagrados que ajudam os xamãs.
Yvá mbyte – Céu intermediário, onde vivem espíritos de sabedoria.
Yvá katú – Região das entidades superiores.
Yvá pytã – Céu vermelho, morada dos deuses protetores da palavra.
Yvá porã – Morada dos mortos justos.
Yvá marangatú – Céu sagrado, onde vive Ñamandu Ru Ete, a divindade máxima.
Hierarquia espiritual:
Ñamandu Ru Ete – Criador supremo, ser da luz e da palavra primordial.
Karaí, Jakaira, Tupã, Nhanderuvusu – Entidades secundárias associadas aos elementos (fogo, vento, água, sabedoria).
Xamãs (karai) – Mediadores humanos entre os mundos; acessam os céus por meio do canto sagrado e do sonho (karai rekove).
Interligação entre mundos:
A interligação ocorre por meio do canto sagrado (ayvu), da oração (mborai), e do uso de plantas ritualísticas.
Os sonhos e visões revelam caminhos espirituais entre os planos.
Corporalidade Guarani Mbyá: Estágios da Alma e a Saúde.
Os Mbyá Guarani compreendem a pessoa como constituída por vários aspectos da alma, que interagem com o corpo físico e espiritual:
Aña – Espírito ou energia negativa que pode invadir o corpo e causar doenças. Deve ser expulso por meio de rituais de cura.
Angá – Alma individual, que pode se desprender durante o sonho ou doença. Se não retorna, pode levar à morte.
Ñe'ẽ – Palavra-alma, força vital presente na fala sagrada. Manifesta a essência do ser.
Akã – Cabeça como centro da percepção espiritual e emocional.
Pytũ – Energia vital da noite, associada ao equilíbrio dos ciclos.
Saúde e cura:
A saúde é equilíbrio espiritual. A doença surge da quebra de harmonia entre corpo, alma e ambiente.
A cura é conduzida pelo xamã (oporaíva) com cantos, ervas, fumaça ritual, jejuns e banhos.
Ambientes Culturais e o Paraíso Terrestre Guarani
Os Guarani Mbyá e Chiripá acreditam que o mundo foi criado com base em um projeto ideal (yvy marã e’ỹ) – a Terra sem mal, onde não há dor nem morte.
Ambientes culturais:
Aldeia (tekoha) – Espaço sagrado e comunitário. Centro da vida coletiva e espiritual.
Opy – Casa de reza ou templo, onde o xamã lidera cantos e rituais. É o elo com o plano divino.
Floresta (ka’aguy) – Lugar da sabedoria e morada de espíritos. Fonte de alimento, medicina e ensinamento espiritual.
Yvy marã e’ỹ – Paraíso terrestre, onde os justos viverão em plenitude. A caminhada espiritual dos Guarani visa reencontrar esse lugar por meio da prática do bem, da música sagrada e da palavra justa.
Considerações Finais
A trajetória histórica e espiritual dos Guarani revela uma civilização profundamente conectada com as forças do cosmos e da natureza. Desde suas origens nas florestas da Amazônia até sua expansão por territórios ao sul do continente, os Guarani mantiveram uma cosmovisão que valoriza a palavra sagrada, os cantos rituais e o equilíbrio entre o corpo, a alma e o mundo invisível.
A estrutura celeste dos Guarani Chiripá, com seus múltiplos céus e entidades hierárquicas, revela uma sofisticada compreensão do universo espiritual. Da mesma forma, a corporalidade dos Guarani Mbyá, com suas concepções de alma, saúde e cura, expressa uma forma de medicina espiritual que integra o indivíduo à comunidade e à terra. Os ambientes culturais, como a aldeia, a floresta e a casa de reza, simbolizam espaços sagrados onde se busca viver o bem e reencontrar a Terra sem mal – um ideal que ultrapassa a noção de paraíso e se manifesta como um caminho ético, espiritual e coletivo.
Com isso, entende-se que a sabedoria Guarani, longe de pertencer apenas ao passado, representa um legado de profundo valor simbólico, ético e ecológico para o presente.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CAPÍTULO 3
A ORIGEM DE TUPÃ MIRIM E A PRIMEIRA ALDEIA DO MUNDO
Introdução
No mundo espiritual dos Guarani, o tempo não é contado em anos, mas em ciclos de revelações e criações. Suas tradições orais guardam um saber antigo, transmitido pelos ñanderu kuery (os antigos pais espirituais), e descrevem a origem do mundo a partir de camadas celestes e dimensões sagradas, nas quais habitam seres de luz e espírito.
O Mundo Espiritual e a Estrutura Cosmogônica
Segundo a cosmovisão Guarani, o universo é estruturado em sete céus ou planos superiores, chamados yvá tenonde (céu primeiro) e yvá tenondete (céu verdadeiro anterior a tudo), entre outros. No mais alto deles vive Nhamandu Ru Eté, o Pai Verdadeiro, o ser de sabedoria, luz e palavra sagrada (Ñe’ê), criador da essência de todas as coisas.
De Nhamandu emanam outros seres de luz: Karaí (fogo), Jakairá (ar), Tupã (trovão) e Tupã Mirim, considerado um espírito jovem, vindo das camadas luminosas mais baixas, como um reflexo da potência criadora de Tupã, mas com uma missão mais próxima da criação do cotidiano da vida humana.
A Vinda de Tupã Mirim à Terra
Tupã Mirim desceu à Terra em um tempo primordial — um tempo sem data, anterior à contagem dos séculos. Segundo algumas narrativas simbólicas, ele veio trazido pelo som do trovão leve, nos primeiros raios da alvorada do mundo, para ajudar na formação dos espaços humanos.
Enquanto Tupã traçou os grandes movimentos da criação — as águas, os ventos, o trovão, a terra — Tupã Mirim cuidou das pequenas harmonias, como a forma das árvores, a dança dos insetos, o som dos pássaros e o ritmo das aldeias. Foi ele quem ensinou os primeiros cânticos cerimoniais e ajudou a fundar a primeira opy (casa sagrada), centro espiritual das comunidades Guarani.
A Formação da Primeira Aldeia do Mundo
A primeira aldeia do mundo, segundo os Guarani, foi formada após a descida dos espíritos celestes à terra sagrada (Yvy Marã ey) — a Terra sem mal. Tupã Mirim, como um guia espiritual juvenil, ajudou a moldar os caminhos e os ciclos da vida nas aldeias, mostrando onde plantar, onde cantar, onde celebrar. Sua função era ligar o céu à terra, sendo o elo entre o que é eterno e o que é cotidiano.
Essa aldeia mítica não tem uma localização geográfica exata, mas na espiritualidade guarani ela permanece viva no coração de cada comunidade tradicional que preserva o caminho antigo (guata porã).
Cronologia Aproximada da Presença Guarani
Embora o tempo mítico não tenha datas fixas, os estudos arqueológicos indicam que os antepassados dos Guarani já habitavam a região da bacia do rio Paraná-Paraguai e partes do atual Brasil há pelo menos 4.000 a 5.000 anos a.C., com formações culturais proto-guarani. A organização de aldeias estruturadas com elementos culturais reconhecíveis como guarani pode ter ocorrido entre 2.000 a.C. e 1.000 a.C..
Portanto, a origem simbólica de Tupã Mirim e da primeira aldeia guarani poderia ser situada, respeitando o caráter mítico e espiritual da tradição, como algo que “aconteceu antes do tempo ser tempo”, mas que, em uma conexão histórica, coincide com o surgimento das primeiras aldeias tupis-guaranis no sul da Amazônia e regiões adjacentes.
Conclusão
Tupã Mirim é, para os Guarani, um espírito criador de delicadezas, que ajudou a trazer à Terra os elementos da convivência, da música, do sonho e da harmonia. Sua presença marca o ponto de encontro entre os céus e a vida humana, sendo essencial na formação da primeira aldeia como espaço sagrado e educativo. Na visão guarani, sua atuação permanece viva, sempre presente na infância, na memória dos anciãos, e nos cantos que ecoam entre os povos originários.
Considerações finais
A presença de Tupã Mirim na espiritualidade Guarani revela uma visão de mundo onde tudo está interligado: céu, terra, canto, memória e natureza. Sua origem não se limita ao tempo linear, pois está enraizada no tempo mítico e sagrado, anterior à própria história. Entender a trajetória de Tupã Mirim é compreender a importância da oralidade, da espiritualidade e da sabedoria ancestral dos povos originários. Sua missão não foi apenas a criação da aldeia, mas a fundação dos princípios éticos e espirituais que ainda orientam o viver Guarani. Preservar essa memória é manter viva a essência de um povo que continua resistindo com dignidade, canto e fé.
Autor: NhenetyKariri-Xocó
CAPÍTULO 4
YVYMARA'EỸ A TERRA SEM MALES NA COSMOVISÃO GUARANI
1. Introdução
A cultura guarani possui uma das mais sofisticadas e poéticas visões de mundo entre os povos indígenas da América do Sul. Central à sua espiritualidade está a ideia de Yvymara’eỹ, a Terra Sem Males — um espaço de plenitude, paz e pureza, concebido como destino espiritual ideal para os que seguem os ensinamentos divinos. A presente pesquisa descritiva propõe explorar as moradas espirituais guarani, a posição hierárquica de Yvymara’eỹ e sua representação como território vivo, com aldeias, animais, natureza sagrada e o mar mítico Oparachu. Também se examina sua presença simbólica e concreta nas práticas contemporâneas guarani.
2. A Hierarquia das Moradas Espirituais Guarani
A cosmovisão guarani compreende o universo como múltiplos planos de existência. O primeiro deles é Yvy Tenonde, a Terra Primeira, onde habitam os humanos e onde se inicia a caminhada espiritual. Acima dela está Yvy Pyaú, a Terra Renovada, estágio de transição e purificação. Entre essas e os planos superiores situam-se as Yvy Renda, moradas intermediárias habitadas por espíritos ancestrais e seres guardiões.
O acesso aos planos elevados se dá pelo Yvága Rape, o Caminho do Céu, construído por meio de cantos (purahéi), orações (ñembo’e), danças (jeroky) e conduta justa. No topo da hierarquia está Yvymara’eỹ, mundo espiritual ideal, livre de morte, mentira e sofrimento.
3. A Terra Sem Males: Natureza, Povo e Simbolismo
Yvymara’eỹ não é um conceito abstrato, mas uma realidade espiritual plena. É descrita como uma terra com aldeias sagradas, onde vivem os ancestrais e os seres que atingiram o estado de pureza. Suas casas são construções de sabedoria e luz. A natureza é exuberante: florestas sagradas, frutos eternos, águas vivas e um ambiente onde a harmonia é absoluta.
Os animais desse mundo são seres espirituais: onças, aves, serpentes e veados reluzentes, símbolos de sabedoria, força e proteção. Eles não são temidos, mas reverenciados como companheiros dos habitantes espirituais.
O mundo de Yvymara’eỹ é cercado pelo mar Oparachu, um oceano mítico de águas doces, que protege a Terra Sem Males e conecta os mundos. Apenas os espiritualmente preparados podem atravessá-lo, guiados por cânticos e visões.
4. Atualidade e Continuidade Espiritual
A ideia de Yvymara’eỹ permanece viva entre os Guarani atuais. Não é somente um destino pós-morte, mas um ideal de vida coletiva e espiritual que orienta suas práticas cotidianas. Em cada canto sagrado, em cada dança cerimonial e nas formas de cultivo, convivência e resistência, os Guarani atualizam a memória dessa terra perfeita. A busca por Yvymara’eỹ está presente nos deslocamentos físicos das aldeias (retomadas territoriais) e na construção simbólica de espaços de cura e harmonia dentro das comunidades.
5. Considerações Finais
A Terra Sem Males é, para os Guarani, um símbolo poderoso de harmonia e verdade. Sua concepção como um mundo pleno, habitado por seres espirituais, envolto por florestas e mares sagrados, revela uma visão do cosmos baseada na ética da convivência, da escuta e da verdade. Mais do que uma crença, Yvymara’eỹ é um caminho vivido e sonhado. Compreender essa cosmologia é reconhecer a profundidade do pensamento indígena e valorizar sua contribuição para o entendimento da existência humana em conexão com a terra e o sagrado.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CONCLUSÃO GERAL DO VOLUME
A presente obra evidencia a profundidade das cosmovisões indígenas, especialmente entre os povos amazônicos e guarani, revelando sistemas complexos de organização espiritual, social e simbólica. As narrativas sobre Jurupari, Tupã Mirim e a Terra Sem Males demonstram que o pensamento indígena articula ética, natureza e espiritualidade de forma integrada.
Mesmo diante das pressões históricas da colonização, essas tradições permanecem vivas, adaptando-se e resistindo. Assim, este volume reafirma a importância da valorização dos saberes originários como patrimônios fundamentais da humanidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GERAIS (ABNT)
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CLOASTRE, Pierre. O pensamento Guarani: sua lógica, sua teologia, sua relação com o mundo. São Paulo: Loyola, 2001.
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FERNANDES, Nelson. O mito de Jurupari e a cosmologia dos povos do Alto Rio Negro. Manaus: EDUA, 2015.
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LOPES DA SILVA, Aracy; GRUPIONI, Luís D. M. Povos indígenas no Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2000.
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MELIÁ, Bartomeu. O Guarani: experiência religiosa e cultura missioneira. São Paulo: Loyola, 1986.
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MELIÁ, Bartomeu. O povo guarani: uma leitura da palavra. São Paulo: Loyola, 2006.
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REFERÊNCIAS DOS ARTIGOS DO ACERVO
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Jurupari o Legislador Sagrado dos Povos Indígenas. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/04/jurupari-o-legislador-sagrado-dos-povos.html?m=0 . Acesso em: 16 abr. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. A Origem e a Cosmovisão dos Guarani. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/04/a-origem-e-cosmovisao-dos-guarani.html?m=0 . Acesso em: 16 abr. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. A Origem de Tupã Mirim e a Primeira Aldeia do Mundo. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/a-origem-de-tupa-mirim-e-primeira.html?m=0 . Acesso em: 16 abr. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Ywymara'eỹ, A Terra Sem Males na Cosmovisão Guarani. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/yvymaraey-terra-sem-males-na-cosmovisao.html?m=0 . Acesso em: 16 abr. 2026.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador, escritor e contador de histórias, pertencente ao povo indígena Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio (AL). Dedica-se à preservação da memória, cultura e espiritualidade dos povos originários por meio da escrita e da tradição oral.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

















