quarta-feira, 11 de março de 2026

THYDEWÁ SAMYSÃ CORAM, NA CULTURA DIGITAL DA ESPERANÇA






FALSA FOLHA DE ROSTO

THYDEWÁ SAMYSÃ CORAM

NA CULTURA DIGITAL DA ESPERANÇA

VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Este livro reúne narrativas que nascem da experiência vivida nas aldeias indígenas do Nordeste brasileiro, especialmente entre o povo Kariri-Xocó, às margens do rio Opará.

Os contos apresentam momentos marcantes da caminhada indígena no encontro entre tradição ancestral e tecnologias digitais, destacando iniciativas culturais, educativas e comunicacionais que fortaleceram a identidade e a voz dos povos originários.



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)

THYDEWÁ SAMYSÃ CORAM

NA CULTURA DIGITAL DA ESPERANÇA


Contos sobre memória, tecnologia e resistência cultural indígena.

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Arapiraca – Alagoas

Brasil



FICHA CATALOGRÁFICA


(Modelo utilizado em bibliotecas e editoras)


Nhenety Kariri-Xocó


Thydewá Samysã Coram: na cultura digital da esperança /


Nhenety Kariri-Xocó. — Brasil, 2026.


Livro de contos que narram experiências culturais indígenas relacionadas à comunicação digital, memória coletiva, educação intercultural e fortalecimento das identidades indígenas no Nordeste brasileiro.


Inclui glossário.


ISBN: (a ser atribuído futuramente caso publicado oficialmente)


Assuntos:


Povos indígenas — Brasil


Cultura indígena — Nordeste brasileiro


Comunicação digital indígena


Literatura indígena contemporânea


Memória cultural indígena


Tradição oral indígena


CDD — 980.41 (História dos povos indígenas da América)



DEDICATÓRIA


Dedico este livro aos anciãos e anciãs de meu povo Kariri-Xocó, guardiões da memória e da palavra antiga.

Dedico também às crianças indígenas, que hoje caminham entre dois mundos — o da tradição e o da tecnologia — levando adiante a esperança da continuidade cultural.



AGRADECIMENTOS


Agradeço aos parentes e amigos que caminharam juntos na construção dessas experiências coletivas.

À ONG Thydêwá, que acreditou na força da palavra indígena e ajudou a abrir caminhos para que nossas vozes atravessassem as aldeias e chegassem ao mundo.

Aos povos irmãos Pataxó Hãhãhãe, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá, Truká e Kiriri, que compartilharam saberes, cantos e histórias nessa jornada.

Aos professores, mestres da cultura, crianças e jovens que fizeram da tecnologia um instrumento de fortalecimento da identidade indígena.



EPÍGRAFE


"A tradição não morre quando encontra novos caminhos.

Ela apenas aprende novas formas de caminhar."

— Sabedoria das margens do Opará



SUMÁRIO


Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor

Contos ( 01 a 10 )

01 — Uanieá Ubi Uanieá — Índios na Visão dos Índios.

02 — Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line.

03 — Cunhenhéá Samy — Os Pontos de Cultura.

04 — Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas. 

05 — Kaie Pitéibá — O Diário na Rede em Bordo.

06 — Wipokié Aindzu — Atravessando o Mar.

07 — Samyonhé Wonhéá Torá — Gravação dos Cantos de Toré.

08 — Tokliddaysã Uanieá — Celulares Indígenas.

09 — PUTOB — A Rede que Virou Risada.

10 — Buruhú Idzebae — Arte Eletrônica Indígena.

Apêndices

Mapa Cultural das Aldeias

Linha do Tempo da Cultura Digital Indígena

Manifesto da Cultura Digital Indígena

Glossário

Significado Histórico da Obra 

Dados Biográficos do Autor

Sobre a Obra

Orelha do Livro 

Canto Final do Opará



PREFÁCIO


Este livro nasce do encontro entre dois rios: o rio da tradição e o rio da tecnologia.

Durante muito tempo acreditou-se que os povos indígenas pertenciam apenas ao passado. Porém, ao longo das últimas décadas, comunidades indígenas demonstraram que tradição e modernidade não são caminhos opostos, mas trilhas que podem caminhar lado a lado.

Nas páginas desta obra, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que revelam como a cultura indígena encontrou novas formas de expressão por meio da escrita, da fotografia, da internet e da produção audiovisual.

Os contos reunidos aqui não são apenas histórias. São testemunhos de um tempo em que jovens indígenas passaram a contar suas próprias narrativas, registrar suas memórias e dialogar com o mundo digital sem abandonar suas raízes.

Mais do que um livro de contos, esta obra é um registro da esperança cultural indígena na era digital.



APRESENTAÇÃO


A cultura indígena brasileira sempre foi transmitida principalmente pela oralidade. As histórias eram contadas ao redor das fogueiras, nas margens dos rios e nas rodas de convivência das aldeias.

Com o passar do tempo, novas ferramentas surgiram: câmeras, computadores, redes digitais e plataformas de comunicação.

Essas tecnologias, quando apropriadas pelos próprios povos indígenas, tornaram-se instrumentos poderosos de preservação cultural e afirmação identitária.

Este livro apresenta alguns momentos dessa caminhada, narrados em forma de contos inspirados em experiências reais vividas nas comunidades indígenas do Nordeste brasileiro.



INTRODUÇÃO HISTÓRICA


A Cultura Digital Indígena no Brasil


Durante séculos, os povos indígenas foram retratados principalmente como parte do passado da história brasileira. Essa visão ignorava a vitalidade e a capacidade de transformação dessas culturas.


A partir das últimas décadas do século XX e do início do século XXI, um fenômeno importante começou a ganhar força: a apropriação das tecnologias digitais por comunidades indígenas.


Computadores, câmeras de vídeo, gravadores digitais, internet e telefones celulares passaram a ser utilizados como instrumentos de registro cultural, educação e comunicação.


Esse movimento ficou conhecido por alguns pesquisadores como cultura digital indígena.


Nesse contexto, diversos projetos surgiram em diferentes regiões do Brasil com o objetivo de estimular o protagonismo indígena na produção de conteúdos culturais e educativos.


Entre essas iniciativas destacam-se:


projetos de literatura indígena produzida por jovens e crianças,


redes de comunicação digital entre comunidades indígenas,


produção de vídeos e documentários realizados pelos próprios indígenas,


registros sonoros de cantos tradicionais,


criação de blogs e portais de comunicação indígena.


Essas experiências demonstraram que as tecnologias digitais não representam necessariamente uma ruptura com as tradições culturais. Pelo contrário, podem funcionar como ferramentas de preservação e transmissão de conhecimentos ancestrais.


Ao utilizar câmeras, celulares e redes digitais, muitos povos indígenas passaram a registrar seus próprios rituais, histórias, cantos e saberes, criando novos arquivos de memória coletiva.


Nesse processo, a comunicação digital tornou-se também um território cultural.


Assim como os povos indígenas defendem seus territórios físicos, passaram também a ocupar os territórios simbólicos da informação e da comunicação.


O livro “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança” insere-se nesse movimento histórico.


As narrativas reunidas nesta obra apresentam experiências vividas por comunidades indígenas que decidiram utilizar a tecnologia como instrumento de fortalecimento cultural.


Mais do que registrar acontecimentos, os contos mostram como tradição e inovação podem caminhar juntas.


Dessa forma, a obra torna-se também um documento importante da história recente da comunicação indígena no Brasil.



PALAVRA DO AUTOR


Eu nasci às margens do Opará, o rio que muitos conhecem como São Francisco.

Desde criança aprendi que as histórias são como água: quando param de correr, desaparecem.

Por isso sempre procurei contar o que ouvi dos mais velhos e o que vivi junto ao meu povo.

Com o tempo percebi que as histórias também poderiam viajar por novos caminhos: livros, fotografias, vídeos e, mais tarde, pela internet.

Foi assim que nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo, onde as palavras passaram a navegar pelo mundo digital.

Este livro reúne algumas dessas memórias transformadas em contos.

Não são apenas lembranças pessoais.

São pedaços da caminhada coletiva de muitos povos indígenas que decidiram ocupar também os territórios da comunicação e da tecnologia.

Se estas histórias chegarem a outras pessoas e ajudarem a compreender melhor a riqueza das culturas indígenas, então o arco digital terá cumprido seu caminho.



CONTOS ( 01 a 10 )


01. UANIEÁ UBI UANIEÁ, ÍNDIOS NA VISÃO DOS ÍNDIOS





No ano em que o mundo virou o número e chamou de dois mil, algo antigo voltou a respirar entre os povos. Não foi projeto apenas, nem livro apenas. Foi escuta.


A Thydêwá ONG que significa Esperança da Terra, no qual Sebastian, Nhenety são  membros, chegou como quem acende uma fogueira no centro da aldeia e disse, sem impor:


— Agora são vocês que vão falar, escrever sua próprias histórias, fotografar. Assim nasceu Índios na Visão dos Índios.


Um nome que não veio pronto, mas brotou da como raiz que insiste em viver mesmo depois de tanta terra remexida.


As mãos que escreveram eram pequenas e jovens, mas carregavam histórias grandes. Crianças e jovens Pataxó Hâhãhãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká sentaram para contar o que sabiam, o que viam, o que sentiam. Escreveram sobre cidadania, direitos humanos, ecologia, diversidade cultural — mas, sem saber, escreviam também sobre dignidade.


Nós, mais velhos, caminhávamos junto.


Não como donos da palavra, mas como parentes que ajudam a segurar o papel, a organizar o caminho, a proteger a voz para que ela não fosse silenciada outra vez. A história era deles. Sempre foi.


Os livros ganharam pernas.


As palavras saíram das aldeias e foram visitar cidades, escolas, salas cheias de espanto. Sebastian, Nhenety, Limbo e tantos outros parentes acompanharam essas crianças e jovens, apresentando não uma cultura congelada, mas viva, falada por quem a vive.


Os Kariri-Xocó posteriormente na revitalização da língua dão o nome essa iniciativa anos depois segunda a tradução como Uanieá Ubi Uanieá "Índios na Visão dos Índios, não é apenas uma coleção de livros mas, muito mais. A aventura iniciou como uma colecao e foi crescendo como cresce uma floresta... foi se diversificando e dando frutos... Uma floresta que segue viva ate hoje.


Quem ouvia estranhava.


Quem escrevia se reconhecia.


Entre os Kariri-Xocó, cada palavra escrita ajudava a levantar a língua que o tempo tentou calar. Nomear o mundo novamente era um ato de retomada. Era dizer, com firmeza: ninguém mais falará por nós sem nos ouvir.


Na atualização poderíamos dizer: Uanieá Ubi Uanieá "Indígenas na Visão Indígena" porque são os nativos do Brasil não é da Índia país asiático. 


Foi o primeiro passo de muitos escritores indígenas que ainda eram crianças, mas já sabiam que sua história merecia existir no papel.


Ali começou um tempo novo, a Thydêwá com Sebastian Gerlic apoia a Revitalização da Língua Kariri-Xocó junto a Escolinha Subatekié Nunú com amigos externos. 


O tempo em que o nativo se vê com seus próprios olhos.



02. PITÉ UANIEÁ PITEIATEKIÉ, REDE ÍNDIOS ON-LINE





Naquele tempo em que o mundo ainda caminhava mais devagar nas aldeias, quando o canto do pássaro era o aviso da manhã e a palavra corria de boca em boca, algo novo começou a se anunciar no horizonte. Não veio pelo vento nem pelo rio, mas por fios finos, quase invisíveis, que atravessavam cidades, serras e sertões.


Foi assim que os povos Kariri-Xocó, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Pataxó-Hãhãhãe decidiram se encontrar — não num terreiro comum, mas num espaço ainda desconhecido. Um portal. Uma porta aberta para o diálogo entre etnias, saberes e sonhos. Era o ano de 2004, e a aliança nascia com o propósito de fortalecer culturas, trocar experiências e afirmar cidadania em tempos de mudança.


A semente dessa ideia foi plantada pela ONG Thydêwá, que deu nome ao sonho: Índios On-Line. Com apoio e parcerias que vinham de longe — ministérios, programas culturais e patrocinadores — o portal cresceu e foi reconhecido como Ponto de Cultura Viva, pulsando saber ancestral em linguagem digital.


Quando a Internet chegou às aldeias, não foi apenas uma máquina que entrou. Entrou o espanto, a curiosidade, o medo e a coragem. Entrou a possibilidade de falar com o mundo sem sair da terra. Entrou o desafio de manter viva a língua, agora também escrita em telas.


Anos depois, os Kariri-Xocó batizaram aquele caminho novo com palavras próprias, nascidas da língua e do pensamento ancestral: Pité Uanieá Piteiatekié, Rede Índios On-Line. 


A Rede Índios On-Line.


Pité era rede.


Iabae, juntar.


Subatekié, conhecimento.


Crametekié, a caixa do saber — o computador.


Assim, a Internet ganhou alma indígena: a rede de juntar conhecimento.


Hoje, muita coisa mudou. O que antes era novidade virou costume. A conexão cabe no bolso, ilumina a sala, fala pela televisão. Mas aquele primeiro momento ficou marcado na memória das aldeias como um tempo de travessia — quando o saber antigo encontrou o novo caminho e decidiu caminhar junto, sem se perder de si.


Porque rede não é só fio.


Rede é gente.


Rede é palavra que circula.


Rede é cultura viva que não se cala.



03. CUNHENHÉÁ SAMY, OS PONTOS DE CULTURA





Quando o tempo ainda caminhava de mãos dadas com a memória, a comunidade Kariri-Xocó começou a perceber que a cultura também precisava de cuidado, como se cuida de uma roça antiga ou de um rio que ensina a pescar. Foi assim que surgiram os Pontos de Cultura — não como prédios ou papéis, mas como lugares vivos de encontro.


Ao longo dos anos a Thydêwá ONG atuou nos Pontos de Cultura Índios On-Line e o PCI - Ponto de Cultura Indígena e a Associação Comunitária Indígena Bom Sucesso Kariri-Xocó no Ponto de Cultura Horizonte Circular. 


Os mais velhos diziam que cada Ponto era um fogo aceso no meio da aldeia. O primeiro clarão veio em 2005, quando a Rede Índios On-Line chegou como Pité Uanieá Piteiatekié, abrindo caminhos para que a palavra indígena atravessasse o mundo sem perder o chão. Depois, em 2009, o Horizonte Circular — Ubíniworó — ensinou que o saber não anda em linha reta, mas gira, volta, escuta e retorna mais forte. Em 2011, o coração bateu mais alto com o Ponto de Cultura Indígena Cunhenhéá Samy Uanie, Ponto de Cultura Indígena, onde a língua e a memória passaram a caminhar juntas. 


Na Erátekié Uanie, a Escola Indígena, os saberes antigos entraram pela porta da frente. Vieram os Dubuheríá Samy, Mestres da Cultura, trazendo histórias guardadas no peito. O Duboheri Mydzé, Mestre da Pescaria, ensinava a ler o rio como quem lê um livro antigo. Os Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, moldavam a tradição com as mãos, enquanto a Duboheridé Ruñohú, Mestra da Cerâmica, conversava com o barro como quem conversa com um parente.


Os jovens recebiam Pohiesawa, a câmera de vídeo, e Waruaerã, a câmera fotográfica. Com elas, aprenderam que a tecnologia também pode ser parente da tradição. Registravam cantos, gestos, histórias e risos. À noite, na praça da comunidade, as imagens ganhavam vida no projetor, e o passado se sentava ao lado do presente para olhar o futuro.


Assim, os Pontos de Cultura aproximaram os anciãos dos alunos, os contadores de histórias dos professores, a aldeia da escola. Não deixaram apenas registros ou projetos concluídos, mas um legado de saberes, onde a língua Kariri-Xocó voltou a respirar nas palavras, nos olhos e na escuta das novas gerações.


E até hoje, quem caminha pela comunidade sabe: ali existem pontos invisíveis, marcados não no mapa, mas na memória viva do povo.



04. WONHÉ SAMYÁ UANIEÁ, CANTANDO AS CULTURAS INDÍGENAS





No Batti, ano de 2003, quando o vento soprava histórias antigas pelas margens do Opará, algo novo começou a nascer nas aldeias.


A ONG Thydêwá, com o patrocínio do BNDS através do Programa de Apoio a Crianças e Jovens em Situação de Risco Social, trouxe não apenas um projeto — trouxe um reencontro. Chamava-se Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas.


Não era apenas cantar. Era lembrar. Era acordar a memória adormecida nas vozes das Inghéá, as crianças que carregavam no peito a batida do maracá e o ritmo da terra.


Mais de três mil e quinhentas crianças das comunidades Pataxó HãHãHãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká reuniram-se em roda, cada povo trazendo seu canto, sua dança, sua história guardada no tempo.


As Duboheridéá — as professoras — e o Duboherí Nhenety, junto com Sebastian, conduziam as rodas como quem acende fogueiras. Mas quem fazia o fogo crescer eram as próprias crianças.


Nos ensaios, os pés marcavam o chão como quem escreve no barro.


As mãos batiam no compasso da ancestralidade.


As vozes ecoavam além das aldeias.


Não falavam apenas de música.


Falavam de Cidadania.


Falavam de Direitos Humanos.


Falavam de Ecologia.


Falavam da Diversidade Cultural que forma o verdadeiro Brasil.


O primeiro grande encontro aconteceu na aldeia Kariri-Xocó. Os Etçamyá — parentes de outros povos — chegaram trazendo pinturas no corpo e alegria no olhar. A Erátekié Uanie — Escola Indígena — tornou-se casa de todos.


Ali, os cantos se misturaram como rios que se encontram.


E daquele encontro nasceu algo que poderia atravessar o tempo:


o Tonranran — o livro Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas — e o Craiwonpiwon — o CD com os cantos que agora podiam viajar para além das aldeias.


Mas o maior fruto não estava no papel nem no disco.


Estava nas crianças que descobriram que sua cultura não era passado.


Era presente.


Era futuro.


Era força.


E assim, naquele Batti de 2003, as vozes indígenas cantaram juntas — não para pedir espaço — mas para lembrar ao Brasil que sempre estiveram aqui.


E continuam cantando.



05. KAIE PITÉIBÁ — O DIÁRIO NA REDE EM BORDO





Nas margens do sagrado Opará, o velho rio que os não indígenas chamam de São Francisco, a água não corre apenas — ela conversa.


O Opará lembra.


Ele viu passar gerações Kariri-Xocó. Viu crianças se tornarem anciãos. Viu histórias nascerem ao redor da fogueira. E foi ele quem primeiro ouviu a voz de Nhenety.


Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, vivia o Worobü Woroyá Toklikli — o Contador de Histórias Oral. Seu nome era Nhenety, que significa tradição, ser lembrado.


Desde cedo, os mais velhos diziam: — Esse menino carrega memória nos olhos.


Quando Nhenety narrava as histórias dos antigos, o vento parecia diminuir para escutar. As crianças sentavam ao seu redor. Jovens, pesquisadores e estudantes vinham de longe para ouvir sobre os Kariri-Xocó e os povos do Baixo São Francisco.


Mas um dia o próprio Opará percebeu algo diferente no ar.


No ano de 2004, chegaram à aldeia fios invisíveis. Chamavam-se Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line. Junto veio a Piteiatekié — Internet — e o Crametekié — Computador.


Alguns temeram que a máquina silenciasse a palavra.


Mas naquela noite, sentado à beira do rio, Nhenety escutou o sussurro das águas:


— A tradição não morre quando muda de forma. Ela apenas encontra novos caminhos.


Foi então que, em 2007, ele deu nome ao novo tempo: Seridsã — o Arco Digital.


Se antes o arco lançava flechas, agora lançaria palavras.


Se antes a canoa deslizava pelas águas do Opará, agora navegaria pelas águas invisíveis da rede.


Nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo.


Cada texto publicado era como uma oferenda ao rio. Cada conto era uma reza escrita. Cada cordel era uma flecha lançada para além das fronteiras.


O blog KX Nhenety tornou-se canoa digital.


KX de Kariri-Xocó.


Nhenety, o guardião da memória.


E o Opará sorriu.


Porque entendeu que agora as histórias não viajariam apenas pelo vento, mas também pela luz.


E assim, tradição e tecnologia passaram a caminhar juntas, como dois pés na mesma trilha.


Enquanto o rio correr, enquanto houver palavra, o Kaie Pitéibá continuará navegando.



06. WIPOKIÉ AINDZU — ATRAVESSANDO O MAR





No Tudenhé, no tempo antigo que mora na memória dos mais velhos, muitos Caraí, brancos cruzaram o Aindzu, grande mar e chegaram às nossas Radá, terra. Vieram em navios altos como montanhas flutuantes, trazendo bandeiras, mapas e promessas que o vento levou.


Mas o Radda Iworó, mundo gira como o Toré.


E chegou o Uché dos Uanieá, Tempo dos Indígenas.


Chegou o tempo em que os filhos da Radá, terra  decidiram conhecer o Radda Saidzá — o mundo deles. Não para conquistar, não para tomar, mas para cantar, ensinar e lembrar que a terra tem espírito.


Assim começou Wipokié Aindzu Yeemerãkié — atravessando o mar de avião.


Quando o pássaro de ferro cortou as Arankedzoá, nuvens pela primeira vez, os corações bateram como maracás. Não era fuga. Era retorno de dignidade. Era intercâmbio de mundos.


No ano de 2003, e depois em 2005, a ONG Thydêwá abriu Woré Arankedzoá, caminhos do céu. Sete prefeituras, o CISA, o MDH e a RELACS ajudaram a tecer essa ponte invisível entre continentes. Cinco indígenas atravessaram o Aindzu, oceano e pousaram nas Mair Naticróraí da França.


A Turnê chamava-se Índios na França.


Levaram Buruhúá, artesanatos feitos com mãos que conhecem a madeira e a fibra como parentes.


Levaram Dakloná, adornos que brilhavam como o sol sobre o rio.


Levaram Wonhé — os Cantos do Toré — que ecoaram além-mar


Quando chegaram a Paris, olharam para o alto e viram a grande estrutura de ferro tocar o céu. O povo de lá a chamava de Torre Eiffel.


Mas eles sorriram.


— Yebewó Meratá — disseram.


O Grande Tronco de Ferro.


E naquele instante, a torre deixou de ser apenas monumento. Tornou-se árvore de outro território.


Os cantos do Toré dançaram sob o céu francês. O mar já não era distância. Era ponte.


Em 2018, novo voo rasgou as nuvens rumo à Radá Ingueré — a Terra dos Ingleses. Com apoio do Fundo de Cultura da Bahia e acolhimento da Universidade de Leeds, os Uanieá chegaram ao Reino Unido.


Lá, entre prédios antigos e ruas de pedra, ergue-se um relógio que marca as horas do mundo. O povo de lá o chama de Big Ben.


Mas os indígenas olharam para ele com outro entendimento.


— Yeiwouché — disseram.


O Grande Relógio, Roda do Tempo.


Enquanto o sino ecoava sobre Londres, marcando o tempo oficial dos impérios, os filhos da Radá sentiam outro tempo pulsar dentro de si — o tempo do Toré, o tempo da memória, o tempo da ancestralidade.


O Yeiwouché marcava horas.


Lá, na terra da névoa, o Toré também encontrou espaço.


Nas viagens participaram Tibiriçá, Ayrá, Atyá, Mayá, Tawanã, Xumalhá, Aranawí — filhos das etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pataxó-Hãhãhãe. Não iam como visitantes silenciosos. Iam como povos vivos.


Mostraram que o Nordeste brasileiro pulsa em canto, artesanato e memória.


Mostraram que a cultura não é passado — é presença.


No Tudenhé, os Caraí atravessaram o mar para chegar às nossas Radá.


Agora, no Uché dos Uanieá, somos nós que atravessamos.


Não como vencidos.


Mas como cantadores de mundos.


Porque Wipokié Aindzu não é apenas atravessar o mar.


É atravessar o tempo.


É transformar distância em diálogo.


É lembrar ao mundo que a cultura indígena não ficou na história — ela voa.


E quando o avião pousa, o Toré continua dançando dentro do peito.



07. SAMYONHÉ WONHÉÁ TORÁ, GRAVAÇÃO DOS CANTOS DE TORÉ





No Uché Tudenhé — o Tempo Passado — o Wonhéá Torá, cantos sagrados vivia guardado onde nenhum vento apaga e nenhuma chuva leva: na Samy Bohé, a Memória Social do povo.


Não existia Cramycá Bydimerakró, caixa com chip.


Não havia botão para apertar.


O som morava no peito.


A gravação era feita no coração das Atseá, pessoas, 


Os Duboheâra, Mestres do Canto, ensinavam olhando nos olhos.


O ritmo nascia no chão batido.


O Toré ecoava nas noites claras, e cada criança aprendia ouvindo, repetindo, sentindo.


Mas o Barae Uché — o Novo Tempo — chegou como vento diferente.


Veio trazendo novidades que brilhavam como estrela moderna.


Chegou a ONG Thydêwá, trazendo junto o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.


E disseram:


— Vamos registrar o que já vive há séculos.


— Vamos guardar no Iworó, disco, aquilo que já mora na alma.


Então a comunidade se reuniu.


Chamaram os Duboheâra e as Atseá, mestres e pessoas:


Seregé, Soyré, Nhenety, Wiriçá, Geriçá, Taréiçá, Kayanã, Eruanã, Wrwray, Anoráya, Ynoraya, Iraçá, Kayane, Suirana e Wyrayane.


Cada nome era um som.


Cada voz era uma raiz.


Gravaram o Craiwonpiwon — o CD Kariri-Xocó Canta Toré.


Gravaram também o Craiwopewa — o DVD Toré Som Sagrado.


Não era apenas tecnologia.


Era memória atravessando o tempo.


Na Bechiéá de Wiriçá, o parente generoso que abriu sua roça como quem abre o coração, levaram Amí, Uttihu e Riné, comida, carne e frutas.


Fizeram Buyê mó torá Toré — acenderam a fogueira.


E ali, sob o céu testemunha, o Toré foi dançado como sempre foi.


O fogo iluminava os corpos.


O canto iluminava o espírito.


A câmera registrava.


Mas o verdadeiro registro continuava sendo feito na Samy Bohé.


Foram dois mil Iworó espalhando o canto sagrado.


E quando o vídeo foi exibido na praça da aldeia, diante da comunidade reunida, não era apenas uma tela que brilhava —


Era o povo vendo a si mesmo.


Era o passado conversando com o futuro.


Era o Uché Tudenhé abraçando o Barae Uché.


E assim ficou gravado:


Não apenas no disco.


Não apenas na imagem.


Mas na eternidade da cultura.


O Wonhéá Torá continua.


Vive na memória.


Vive na tecnologia.


Vive no povo.


E enquanto houver fogueira acesa e voz que cante,


o Toré jamais se apagará.



08. TOKLIDDAYSÃ UANIEÁ, CELULARES INDÍGENAS





Na Woderáehó Uanieá “Rua dos Índios”, quando o vento ainda soprava histórias nas portas de madeira e as crianças corriam livres entre as casas simples, o mundo era outro.


Ali, na Atseuróché “Geração X”, o som que atravessava o tempo vinha do Benheokli — o “Telefone de disco, analógico”. Cada número girado parecia um pequeno ritual. O clique giratório era como um maracá mecânico chamando vozes distantes.


O Benheokli não era apenas um aparelho. Era ponte. Era espera. Era saudade que se escutava no fio.


Mas o tempo corre como o Opará, e as gerações mudam como as margens do rio.


Quando o povo já morava na Wanheré Uanhí “Fazenda Sementeira”, surgiu o Tokliddaysã — o “Telefone Celular”. Era a Atseuróché “Geração Y / Millennials”. O mundo já cabia na palma da mão. As mensagens viajavam invisíveis pelo ar, como espíritos leves cruzando o céu.


O que antes precisava de fio, agora voava.


E então, na Atseuróché “Geração Z”, algo ainda mais bonito floresceu.


No ano de 2009, a Thydêwá, formada por indígenas de diferentes etnias aliados a não indígenas, idealizou um projeto que unia tradição e tecnologia: Tokliddaysã Uanieá — “Celulares Indígenas”.


O objetivo não era apenas usar o aparelho.


Era contar histórias.


Era registrar memórias.


Era fortalecer identidades.


Nascia ali uma nova forma de oralidade: a imagem em movimento feita pela própria aldeia.


Sessenta indígenas foram formados na produção de celumetragens — curtas-metragens gravados pelo Tokliddaysã. Cada vídeo era uma flecha digital lançada ao mundo.


E tudo se conectava à Pité Uanieá Piteiatekié — “Rede Índios On-Line”, que expandia saberes pelo Brasil afora e criava presença no território virtual.


Assim surgiu também o canal Índios On-Line no YouTube, onde a palavra indígena ganhou tela, voz e autonomia.


A Aldeia Kariri-Xocó participou desse movimento com orgulho.


Os jovens Nhenety e Ayrá foram contemplados. Receberam seus Tokliddaysã como instrumentos de memória e futuro.


Outros parentes também caminharam juntos nesse projeto:


os Tupinambá,


os Pankararú,


os Pataxó-Hãhãhãe


e os Pataxó.


Não era apenas tecnologia.


Era retomada.


Se antes o Benheokli levava a voz pelo fio,


agora o Tokliddaysã levava a identidade pelo mundo.


A língua Kariri-Xocó, revitalizada, ganhou nova morada:


a tela iluminada.


O que era invisível passou a ser visto.


O que era silenciado passou a narrar.


O que era memória tornou-se arquivo vivo.


E assim, entre o som giratório do disco antigo


e o toque suave da tela sensível,


o povo Kariri-Xocó segue escrevendo sua história —


agora também em pixels.


Porque tradição não é passado.


É raiz que aprende a florescer em qualquer tempo.



09. PUTOB, A REDE QUE VIROU RISADA





Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do velho Opará, havia um tempo em que o artesanato era silêncio e espera. As mãos sabiam fazer, mas o mundo ainda não sabia ver.


As mulheres trançavam fibras como quem tecia histórias antigas. Os homens entalhavam madeira como quem desenhava espíritos da mata. As crianças aprendiam observando, pois ali a arte não era ensinada — era herdada no sopro da convivência.


Foi então que chegou uma notícia trazida pelo vento da tecnologia.


A ONG Thydêwá anunciava um projeto que uniria povos distantes por um mesmo fio: Kariri-Xocó, Pankararu, Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá de Olivença. O nome soava leve e forte ao mesmo tempo: Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato.


RISADA.


Alguns sorriram ao ouvir.


— Se é RISADA, que traga alegria — disse um ancião.


E trouxe.


A rede não era feita de cipó, mas de conexões invisíveis. Não era armada entre árvores, mas estendida pela internet. Uma loja virtual nasceu como uma nova oca coletiva, onde os artesanatos não apenas eram vendidos, mas apresentados com dignidade, história e identidade.


Não era comércio comum.


Era troca.


Era articulação.


Era partilha de saberes.


Cada peça carregava mais do que matéria: carregava território, memória, luta e pertencimento.


Com o passar dos anos, o projeto deixou de ser apenas apoio externo e começou a se transformar em autonomia. As comunidades aprenderam a lidar com os novos meios tecnológicos como quem aprende um novo instrumento, sem abandonar o tambor antigo.


A rede cresceu, mas não perdeu sua raiz.


Falava-se então:


— Se RISADA é o nome em português, como seria em nossa língua?


Reuniram-se os guardiões da palavra. Pensaram. Traduziram não apenas letras, mas sentidos.


E nasceu PUTOB – Pité Uanieá Totsouka Buruhúá.


Pité — Rede.


Uanieá — Indígena.


Totsouka — Arte, gente que Inventa com amor


Buruhúá — Artesanato 


Não era apenas tradução.


Era reafirmação.


Assim, a RISADA virou PUTOB.


E PUTOB não era só projeto.


Era declaração de que o povo que inventa, inventa junto.


A rede que antes era silêncio tornou-se voz.


A voz tornou-se venda justa.


A venda tornou-se valorização.


E no meio de tudo isso, havia algo maior que o lucro:


a permanência da cultura.


Hoje, quando alguém acessa aquela loja virtual, talvez veja apenas colares, cestarias, esculturas. Mas quem conhece a história sabe: ali não se compra apenas arte.


Compra-se continuidade.


E toda vez que uma peça encontra novo caminho, ecoa na aldeia uma certeza antiga:


A rede está viva.


A invenção continua.


E o povo segue criando — coletivamente.



10. BURUHÚ IDZEBAE – ARTE ELETRÔNICA





Dizem os mais velhos que antes mesmo do Uché Caraí — o Tempo do Homem Branco — a Idzebae Antse já riscava o Aranke, céu.


A eletricidade natural não nasceu dos fios.


Ela nasceu do relâmpago.


Nas Arankedzoá, as nuvens dançavam pesadas sobre o mundo recém-criado. Quando o céu rasgava em clarão, os Uanieá, indígenas, sabiam: era o Radda, mundo, respirando luz. Aquele brilho atravessava o medo e iluminava o escuro das noites antigas. Era o primeiro anúncio de que a energia sempre esteve ali, pulsando entre o céu e a terra.


O tempo passou.


Veio o Uché Caraí, tempo do homem branco.


E com ele, outra luz — a Hinebakró, luz elétrica. Não mais caída do céu em trovão, mas conduzida por fios invisíveis que entraram na Natiá. A aldeia acendeu lâmpadas, e as sombras começaram a contar novas histórias.


Logo chegaram os Hineidzebae, eletrônicos.


Primeiro o Warudókli, televisor que trazia imagens de mundos distantes dentro de uma caixa brilhante. Depois o Pohiesawa, câmera de vídeo que capturava memórias. O Cramycá Samyonhé, gravador guardava vozes. O Craiwonpiwon, CD Player e o Craiwopewa,  DVD Player cantavam músicas redondas. A Cramenunhí, geladeira conservava o alimento. O Crametekié, computador abriu portas para universos invisíveis.


E então surgiu a Nikiékliwahi — inteligência que parecia pensar.


Alguns estranharam. Outros temeram.


Mas os jovens observaram com olhos atentos.


Foi quando a ONG Thydêwá chegou trazendo algo diferente: não apenas máquinas, mas propósito.


Nascia o Projeto AEI — Arte Eletrônica Indígena.


Entre os Kariri-Xocó, o nome ganhou outro espírito:


BHU — Buruhú, Hineidzebae, Uanie.


Arte. Eletrônica. Indígena.


Não era tecnologia contra tradição.


Era tradição atravessando a tecnologia.


Nas aldeias Kariri-Xocó e Karapotó, em Alagoas; Pankararú, em Pernambuco; Xokó, em Sergipe; Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Pataxó, na Bahia, algo começou a despertar.


O Pité Mydzé — Rede de Pescar — virou pulsação digital.


O Niú Bydimerakró — Raiz do Chip — gravou o som do maracá, transformando o eco ancestral em onda sonora que viajava pelo mundo.


O Hé Neieta — Árvore dos Desejos — ensinou que o que vem da natureza também pode florescer na tela.


E entre os Kariri-Xocó ecoou a frase que atravessava os cabos invisíveis:


Su Pidéá Netçónu — Eles estão escutando.


Os jovens perceberam que a arte do povo não precisava ficar presa à memória do vento. Ela podia correr pelos fios, viajar pelos satélites, atravessar oceanos digitais.


O relâmpago que antes iluminava as nuvens agora brilhava nas telas.


Mas sua origem continuava a mesma.


A Idzebae Antse nunca deixou o Aranke.


Apenas encontrou novos caminhos para descer até a terra.


E assim, entre trovões antigos e cliques modernos, o povo seguiu criando.


Porque o Buruhú não depende do tempo.


Ele apenas se transforma.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




APÊNDICES



Apêndice A — Sobre a ONG Thydêwá


A Thydêwá é uma organização que atua junto a povos indígenas do Nordeste brasileiro, apoiando iniciativas culturais, educacionais e tecnológicas voltadas ao fortalecimento das identidades originárias.


Ao longo das últimas décadas, a organização colaborou com diversos projetos que estimularam o protagonismo indígena na comunicação, na produção cultural e na revitalização linguística.


Entre essas iniciativas destacam-se:


Índios na Visão dos Índios


Rede Índios On-Line


Pontos de Cultura Indígena


Celulares Indígenas


Arte Eletrônica Indígena


Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato


Esses projetos contribuíram para ampliar a presença dos povos indígenas no campo da comunicação digital e na produção de conhecimento a partir de suas próprias perspectivas.



MAPA CULTURAL DAS ALDEIAS MENCIONADAS NA OBRA


As narrativas reunidas neste livro refletem experiências vividas em diferentes territórios indígenas do Nordeste brasileiro. Ao longo dos projetos culturais e das iniciativas de comunicação digital, várias aldeias e povos participaram de encontros, oficinas e intercâmbios culturais.


Esses territórios formam uma rede de colaboração que ajudou a fortalecer a comunicação indígena e a preservação da memória cultural.


Entre os povos e territórios mencionados nas experiências narradas encontram-se:


Povo Kariri-Xocó


Localização: Porto Real do Colégio, Alagoas


Território situado às margens do rio Opará (São Francisco).


Nesse território ocorreram importantes registros de cantos tradicionais, projetos culturais e iniciativas de comunicação digital indígena.


Povo Xucuru-Kariri


Localização: Palmeira dos Índios, Alagoas


Comunidade conhecida por sua forte tradição cultural e participação em encontros de articulação indígena.


Povo Pankararú


Localização: Sertão de Pernambuco


Povo reconhecido por suas manifestações culturais e rituais tradicionais que também passaram a ser registrados em mídias digitais.


Povo Truká


Localização: Ilha de Assunção, Cabrobó, Pernambuco


Comunidade situada no rio São Francisco, participante de intercâmbios culturais e projetos de comunicação indígena.


Povo Kiriri


Localização: Norte da Bahia


Povo com forte tradição cultural e presença em iniciativas de educação e cultura indígena.


Povo Tupinambá


Localização: Sul da Bahia


Comunidade que participou de redes de articulação cultural indígena.


Povo Pataxó Hãhãhãe


Localização: Sul da Bahia


Importante presença em movimentos de fortalecimento da cultura indígena.


Povo Fulni-ô


Localização: Águas Belas, Pernambuco


Povo conhecido pela preservação de sua língua tradicional e forte identidade cultural.


Esses territórios, espalhados entre Alagoas, Pernambuco e Bahia, formam uma rede cultural que, ao longo dos anos, participou de projetos que uniram tradição, educação e tecnologia.



LINHA DO TEMPO DA CULTURA DIGITAL INDÍGENA


Séculos anteriores


Durante muitos séculos, a transmissão dos conhecimentos indígenas ocorreu principalmente por meio da oralidade, dos cantos rituais, das narrativas dos anciãos e das práticas comunitárias.


A memória cultural era preservada através das gerações.


Década de 1990


Com o avanço das tecnologias digitais no Brasil, algumas organizações e instituições começaram a desenvolver projetos voltados ao uso da tecnologia em contextos educativos e culturais.


Essas iniciativas abriram caminho para experiências envolvendo comunidades indígenas.


Início dos anos 2000


Projetos culturais começaram a levar computadores, câmeras digitais e gravadores de áudio para algumas aldeias indígenas.


Essas ferramentas passaram a ser utilizadas para:


registrar cantos tradicionais


produzir vídeos culturais


documentar rituais e festas


registrar narrativas dos anciãos


Surgimento das redes digitais indígenas


Com a expansão da internet no Brasil, surgiram iniciativas voltadas à criação de redes de comunicação indígena, permitindo a troca de informações entre diferentes comunidades.


Essas redes ajudaram a fortalecer a articulação cultural e política entre povos indígenas.


Projetos culturais indígenas digitais


Durante esse período, diversos projetos culturais passaram a incentivar jovens indígenas a utilizar tecnologias digitais para produzir conteúdos culturais.


Entre as atividades desenvolvidas estavam:


produção de vídeos


registros fotográficos


gravações de cantos tradicionais


criação de blogs e páginas na internet


comunicação digital entre aldeias


Cultura digital nas aldeias


Com a popularização dos telefones celulares e da internet móvel, a comunicação digital tornou-se cada vez mais presente nas comunidades indígenas.


Essas tecnologias passaram a ser utilizadas para:


divulgar manifestações culturais


registrar eventos e encontros indígenas


compartilhar experiências entre povos


fortalecer identidades culturais


Cultura digital indígena contemporânea


Hoje, muitos povos indígenas utilizam a tecnologia digital como instrumento de:


preservação cultural


comunicação intercultural


produção artística


registro histórico


educação indígena


Assim, a cultura digital tornou-se um novo território de expressão das identidades indígenas.



MANIFESTO DA CULTURA DIGITAL INDÍGENA


A Palavra Antiga nos Caminhos do Futuro


Durante muitos séculos, os povos indígenas guardaram sua memória por meio da palavra falada, dos cantos sagrados, das danças rituais e das histórias contadas pelos anciãos.


A tradição caminhou através da voz humana.


Ao redor das fogueiras, nas margens dos rios, nas casas comunitárias e nos caminhos da floresta, as histórias foram transmitidas de geração em geração.


Assim se preservou a memória dos povos.


Assim continuaram vivos os conhecimentos antigos.


Hoje, novos caminhos surgem diante de nós.


As tecnologias digitais, os computadores, as câmeras, os celulares e as redes de comunicação abriram novos territórios para a palavra indígena.


Essas ferramentas não substituem a tradição.


Elas ampliam os caminhos da memória.


Quando um canto tradicional é gravado, ele atravessa o tempo.


Quando uma história é escrita ou publicada, ela alcança outros povos e outros lugares.


Quando uma fotografia registra um momento da comunidade, ela guarda uma parte da vida coletiva.


Assim nasce a cultura digital indígena.


Não como abandono da tradição, mas como continuação dela.


Os povos indígenas sempre foram criadores de cultura.


Criaram cantos, grafismos, rituais, histórias e modos de viver em harmonia com a terra.


Agora também criam imagens, textos, vídeos e registros digitais.


A cultura continua viva.


A palavra antiga agora também caminha pelos caminhos da internet.


Este livro é parte dessa caminhada.


Ele registra momentos em que tradição e tecnologia se encontraram nas aldeias.


Momentos em que jovens e anciãos compartilharam saberes, utilizando novas ferramentas para preservar antigas memórias.


A cultura indígena não pertence apenas ao passado.


Ela continua presente e seguirá existindo no futuro.


Nos cantos de Toré.


Nas histórias contadas às crianças.


Nas danças que celebram a vida.


E também nos arquivos digitais, nas redes de comunicação e nas páginas escritas que guardam a memória dos povos.


Assim afirmamos:


A cultura indígena continua viva.


E agora também caminha pelos territórios da comunicação digital.


Pelos povos indígenas do Brasil


Pelas gerações que virão


Pela memória que continua viva


✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó

Margens do rio Opará



GLOSSÁRIO

(termos presentes nos contos)


Aindzu – mar, oceano.

Arankedzoá – nuvens.

Aranke – céu.

Atseá – pessoas da comunidade.

Buruhú – arte.

Crametekié – computador.

Cramycá – caixa, aparelho.

Craiwonpiwon – CD.

Craiwopewa – DVD.

Dakloná – adornos indígenas.

Duboherí – mestre da cultura.

Hineidzebae – aparelhos eletrônicos.

Idzebae – eletricidade.

Iworó – disco.

Kaie Pitéibá – diário na rede.

Natiá – aldeia.

Opará – rio São Francisco.

Pité – rede.

Pité Uanieá Piteiatekié – Rede Índios On-Line.

Pohiesawa – câmera de vídeo.

PUTOB – Rede Indígena de Arte e Artesanato.

Radá – terra.

Radda Iworó – mundo.

Samy Bohé – memória social.

Tokliddaysã – telefone celular.

Toré – ritual sagrado indígena.

Uanieá – indígena.

Uché – tempo.

Wonhé – canto.



SIGNIFICADO HISTÓRICO DA OBRA


O livro “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança” registra uma etapa importante desse processo.


As narrativas reunidas na obra documentam experiências vividas por comunidades indígenas que participaram das primeiras iniciativas de comunicação digital nas aldeias.


Esses relatos mostram como tradição e tecnologia podem caminhar juntas, criando novas formas de preservar e compartilhar a memória cultural indígena.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da aldeia localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas, às margens do rio Opará (São Francisco).


Contador de histórias oral e escrita, Nhenety dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo e à divulgação das experiências indígenas relacionadas à educação, à comunicação e à cultura digital.


Participou de diversas iniciativas culturais e educativas voltadas à valorização das culturas indígenas, incluindo projetos ligados à produção literária, audiovisual e digital.


Seu trabalho busca fortalecer a tradição ancestral por meio de novas linguagens, mostrando que a cultura indígena continua viva e em constante transformação.



SOBRE A OBRA


Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança reúne dez contos inspirados em experiências reais vividas por comunidades indígenas do Nordeste brasileiro no início do século XXI.


As narrativas revelam momentos marcantes do encontro entre tradição ancestral e tecnologias contemporâneas, mostrando como povos indígenas passaram a utilizar ferramentas digitais para registrar suas histórias, fortalecer suas identidades e dialogar com o mundo.


Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho da presença indígena na construção de novas formas de comunicação e expressão cultural.



ORELHA DO LIVRO


Este livro apresenta histórias que nascem da memória viva das aldeias e atravessam os caminhos da tecnologia.


Entre fogueiras ancestrais e telas digitais, Nhenety Kariri-Xocó narra episódios que revelam como povos indígenas do Nordeste brasileiro passaram a ocupar também os territórios da comunicação contemporânea.


Projetos culturais, redes digitais, gravações de cantos tradicionais, produção audiovisual e iniciativas de intercâmbio cultural aparecem aqui transformados em contos que unem realidade e narrativa poética.


Cada página mostra que tradição e inovação não são opostas: caminham juntas.


Ao transformar experiências coletivas em literatura, o autor constrói uma obra que registra um momento importante da história recente das culturas indígenas no Brasil.


Um livro sobre memória, identidade e esperança.



CANTO FINAL DO OPARÁ


Quando o sol começa a se esconder atrás das serras e o vento da tarde toca as águas do Opará, o rio continua sua caminhada silenciosa.


Ele já viu muitas gerações passarem.


Viu povos antigos cantarem às suas margens.


Viu crianças correrem na areia branca.


Viu histórias nascerem nas rodas de conversa ao redor das fogueiras.


O Opará sempre escutou a palavra dos povos.


E guardou essas palavras em sua correnteza.


Hoje, novas vozes também atravessam o mundo.


São vozes que caminham pelas ondas invisíveis da comunicação.


Palavras que viajam por fios, sinais e redes.


Mas a essência continua a mesma.


A palavra que nasce da memória.


A história que nasce da experiência.


O canto que nasce do coração da comunidade.


Assim como o rio continua seu caminho até encontrar o mar, as histórias também continuam sua viagem.


Elas seguem pelas páginas dos livros.


Pelas telas iluminadas.


Pelos arquivos da memória.


E também pelos caminhos da tradição.


Este livro é como uma pequena canoa colocada nas águas do Opará.


Nele viajam histórias, cantos, memórias e sonhos.


Que essas palavras continuem navegando.


Que encontrem novos leitores.


Que cheguem às mãos das futuras gerações.


E que nunca deixem de lembrar:


A cultura indígena continua viva.


Assim como o rio.


Assim como a memória.


Assim como o canto que ecoa nas margens do Opará.


✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó

Margens do rio Opará



ESTE LIVRO FOI ESCRITO ÀS MARGENS DO OPARÁ


Este livro foi escrito às margens do Opará, o grande rio que atravessa territórios e memórias.


Foi ali, entre as águas que correm antigas e as vozes que continuam vivas na comunidade, que nasceram muitas das histórias aqui reunidas.


Nas rodas de conversa, nos encontros entre parentes, nas viagens entre aldeias e nos momentos de observação da vida coletiva, surgiram as lembranças que deram origem a estas narrativas.


Algumas histórias foram vividas.


Outras foram escutadas dos anciãos.


Outras nasceram da convivência com os projetos culturais que aproximaram tradição e tecnologia nas aldeias.


Assim como o rio segue seu caminho levando águas para muitos lugares, estas histórias também seguem viagem.


Elas caminham agora pelas páginas deste livro, pela memória dos leitores e pelos caminhos da cultura digital.


Que estas palavras continuem navegando.


Que alcancem novas gerações.


E que nunca se esqueça que a cultura indígena continua viva, renovando-se a cada tempo.


✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio — Alagoas

Margens do Opará

Brasil



QUARTA CAPA


Entre as águas antigas do Opará e as redes invisíveis da internet, surgem histórias que revelam novos caminhos da cultura indígena.


Em “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança”, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos inspirados em experiências reais vividas por comunidades indígenas do Nordeste brasileiro no início do século XXI.


Ao longo das narrativas, tradição e tecnologia caminham juntas.


Cantos rituais são registrados em gravações digitais.


Celulares tornam-se instrumentos de comunicação entre aldeias.


Projetos culturais conectam jovens indígenas a novos territórios de conhecimento.


Este livro mostra que a cultura indígena continua viva, reinventando-se e ocupando também os espaços da comunicação contemporânea.


Mais do que um livro de histórias, esta obra é um testemunho de memória, resistência cultural e esperança.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





terça-feira, 10 de março de 2026

NAMYTSEIBA DAMYATSEITO SERVIÇO NO TRANSPORTE DE CARGA E PESSOAS






FALSA FOLHA DE ROSTO


NAMYTSEIBA DAMYATSEITO

Serviço no Transporte de Carga e Pessoas

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Este livro reúne contos inspirados na memória oral do povo indígena Kariri-Xocó e nas histórias do Baixo São Francisco.

A obra apresenta diferentes formas de transporte utilizadas ao longo do tempo: caminhos percorridos a pé, canoas que atravessavam o rio Opará, carros de boi, cavalos de carga, carroças, trens, aviões, ônibus-ambulatório, automóveis e mototáxis.

Mais do que falar sobre meios de transporte, os contos revelam modos de vida, trabalho e resistência cultural.



FOLHA DE ROSTO


NAMYTSEIBA DAMYATSEITO

SERVIÇO NO TRANSPORTE DE CARGA E PESSOAS


Contos da memória Kariri-Xocó sobre caminhos, rios e transportes do Baixo São Francisco

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026



FICHA CATALOGRÁFICA (modelo)


Kariri-Xocó, Nhenety.

Namytseiba Damyatseito: serviço no transporte de carga e pessoas / Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos que registra a memória cultural e histórica dos meios de transporte utilizados pelos povos do Baixo São Francisco, especialmente pela comunidade indígena Kariri-Xocó.

Inclui narrativas sobre caminhos ancestrais, canoas, carros de boi, tropas de cavalos, carroças, trem, campo de aviação, ônibus-ambulatório, automóveis e mototáxis.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

História do transporte regional

Memória oral

CDD: 398.20981

CDU: 82-34



DEDICATÓRIA


Dedico este livro ao meu povo Kariri-Xocó,

que mantém viva a memória dos caminhos da terra e das águas.

Dedico também aos meus ancestrais,

que caminharam antes de nós pelas trilhas do Radda,

atravessaram o Opará em canoas

e ensinaram que cada caminho carrega uma história.



AGRADECIMENTOS


Agradeço aos mais velhos da Aldeia Kariri-Xocó, que guardam e compartilham as histórias do nosso povo.

Agradeço às gerações que viveram os tempos dos caminhos de terra, das canoas do rio, dos carros de boi e das carroças.

Agradeço também aos leitores que reconhecem a importância da memória indígena e valorizam a tradição oral como parte fundamental da história do Brasil.



EPÍGRAFE


“Os caminhos da terra ensinam que a vida não é apenas chegar.

É aprender enquanto caminhamos.”

— Sabedoria indígena



SUMÁRIO


Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Contos ( 01 a 10 )

01. Wóatse Itohiquiete — O Caminhar do Viajante

02. Namytse Ubácruté — O Serviço da Canoa de Passageiros

03. Uché Ibádzó — No Tempo do Carro de Boi

04. Igaborou Damy — O Cavalo de Carga

05. Namytse Ibákabaru — Serviço da Carroça de Cavalo

06. Anramy Eraibáme — Os Estivadores da Estação

07. Merá Yeemerãkié — O Campo da Aviação

08. Ibáchiddá Pidékan — O Ônibus-Ambulatório nas Aldeias

09. Natéibá Itoibápoiete — Motorista de Automóvel de Passageiros

10. Namytse Ibaranú Natiá — O Serviço de Mototáxi na Aldeia

Palavra do Autor

Apêndices

Glossário

Dados Biográficos do Autor

Sobre a Obra

Orelha do Livro 



PREFÁCIO



A literatura indígena contemporânea tem desempenhado um papel fundamental na preservação da memória histórica e cultural dos povos originários do Brasil. Obras produzidas por autores indígenas não apenas ampliam o campo literário nacional, mas também oferecem novas perspectivas sobre história, território e identidade.


O livro “Namytseiba Damyatseito — Serviço no Transporte de Carga e Pessoas”, de Nhenety Kariri-Xocó, insere-se nesse movimento de valorização da memória e da tradição oral transformada em narrativa escrita. A obra apresenta uma série de contos que registram as transformações históricas nos modos de transporte utilizados no território do Baixo São Francisco, especialmente na região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, onde vive o povo Kariri-Xocó.


Mais do que narrativas sobre meios de locomoção, os textos revelam a profunda relação entre território, cultura e experiência cotidiana. Cada conto apresenta uma etapa da história regional: o caminhar ancestral pelas trilhas da terra, as travessias em canoas pelo rio Opará, o uso de carros de boi e cavalos de carga, a chegada da ferrovia, a presença de aviões, o surgimento do transporte rodoviário e, mais recentemente, a introdução do mototáxi nas aldeias.


Ao narrar essas transformações, o autor constrói um verdadeiro registro etno-histórico, no qual memória oral, linguagem indígena e experiência comunitária se entrelaçam. O uso de termos da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos também representa um importante gesto de preservação linguística, reforçando a dimensão cultural e identitária da obra.



APRESENTAÇÃO


Os contos reunidos neste livro nasceram da observação, da memória e das histórias contadas entre gerações.

Cada narrativa revela um momento diferente da história do transporte no território Kariri-Xocó: o caminhar ancestral, as travessias do rio Opará, os carros de boi, os cavalos de carga, a chegada do trem, o campo de aviação, o ônibus-ambulatório, os automóveis e os mototáxis.

Esses meios de transporte não são apenas máquinas ou animais de trabalho. São parte da vida das pessoas, da economia local e da organização das comunidades.



INTRODUÇÃO


O deslocamento sempre fez parte da vida humana.

Antes das estradas asfaltadas e dos motores, os povos indígenas já conheciam profundamente os caminhos da terra e das águas.

No território do Baixo São Francisco, esses caminhos conectavam aldeias, cidades, roças, feiras e portos. Por eles circulavam alimentos, mercadorias, histórias e saberes.

Este livro busca registrar essas experiências por meio da literatura, preservando memórias que fazem parte da história do povo Kariri-Xocó.



PALAVRA DO AUTOR


Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias do meu povo.

Escrevo porque a memória precisa continuar caminhando.

Os contos deste livro nasceram das histórias ouvidas entre os mais velhos da aldeia, das lembranças do rio Opará e dos caminhos que ligavam aldeia, cidade e sertão.

Ao escrever estas narrativas, busco preservar parte da memória do meu povo, para que as novas gerações possam conhecer os caminhos que nos trouxeram até aqui.



CONTOS ( 01 a 10 )



01. WÓATSE ITOHIQUIETE, O CAMINHAR DO VIAJANTE





O Radda, o Mundo, sempre esteve aberto como um grande corpo vivo. Nele se estendem os Iuwóá, os Caminhos, traçados não apenas pela terra, mas pelo sopro do tempo e pela passagem das Atseá, as Pessoas. Caminhos que atravessam as Retséá, as Florestas profundas, onde os Kerítséá, Animais Silvestres, conhecem cada sombra e cada cheiro. Caminhos que acompanham as Dzuá, as Águas correntes, por onde os Wãmyá, Peixes, seguem seus percursos antigos. Caminhos que se erguem até os Arankeá, os Céus, onde os Ieendeá, Pássaros, riscam rotas invisíveis com suas asas.


Houve um Uché, um Tempo antigo, em que o Mundo ainda não conhecia os inventos do homem. Não existiam Ibá, Carros de ferro e fumaça. Não havia Ubá, Canoas talhadas para vencer as águas, nem Yeemerãkié, Aviões que cortam os céus. Nesse tempo primeiro, o corpo era o próprio transporte, e as Atseá, pessoas caminhavam com os Biá, os Pés, sentindo a pele da terra, o calor do chão e a aspereza das pedras.


O Itohiquiete, o Viajante, aprendia desde cedo que caminhar era mais que ir — era escutar. Escutar o vento que falava com as folhas, o silêncio das matas, o chamado distante dos rios. Pela floresta ele seguia, subindo Siririté, as Serras, com o coração firme e as pernas confiantes. Cada passo era uma conversa com os ancestrais, cada trilha guardava histórias deixadas por quem passara antes.


O viajante caminhava para Eriwí, Visitar os Etçamyá, Parentes, nas Natiá, Aldeias espalhadas pelo território vivo. Assim foi por milênios, de geração em geração. As Biá, Pernas humanas, levavam sonhos, notícias, cantos e saudades. Levavam também o saber de que todo lugar alcançado tinha um motivo, e todo motivo nascia do espírito.


Os caminhos nunca foram apenas linhas na terra. Alguns conduzem às Bechiéá, as Roças, onde o alimento brota do cuidado. Outros levam às Sitoá, as Caçadas, onde o respeito ao animal é lei antiga. Há os que seguem para as Mydzéá, as Pescarias, onde a água ensina paciência. E há ainda os caminhos invisíveis, aqueles que conduzem ao entendimento e à memória.


Tudo depende do sentido da busca. Pois caminhar, no Radda, o mundo nunca foi apenas chegar a um Undéá, um Lugar. Caminhar sempre foi descobrir quem somos enquanto seguimos adiante.



02. NAMYTSE UBÁCRUTÉ – O SERVIÇO DA CANOA DE PASSAGEIROS





O Opará corria largo e paciente, como quem guarda segredos antigos. Suas águas sabiam os nomes dos ventos, das margens e dos homens. Muito antes do ronco dos motores e do asfalto quente das estradas, era nele que vivia o Namytse, o serviço silencioso e constante que unia pessoas, mercadorias e destinos.


As Ubácruté, canoas de pano, deslizavam sobre o rio como se fossem extensão da própria água. Não havia pressa. Havia tempo. Tempo de observar o céu, de sentir o balanço manso da travessia, de ouvir histórias contadas em voz baixa enquanto a canoa cortava o espelho do Opará. Eram elas que ligavam as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, levando gente, arroz, farinha, sonhos e notícias.


No Baixo São Francisco, a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá era mais que caminho: era rotina de vida. Por séculos, a canoa foi o único meio possível, a ponte viva entre Alagoas e Sergipe. Crianças, trabalhadores, comerciantes, anciãos — todos confiavam seus passos às mãos firmes dos canoeiros, que conheciam o rio como quem conhece o próprio corpo.


Em Colégio, ainda repousa o Radamy Cródzu, o Porto de Baixo. Ali, o chão guarda marcas invisíveis de sacas descarregadas, de pés descalços, de despedidas e reencontros. Dali partiam mercadorias das fábricas de beneficiamento de arroz e dali também partiam pessoas, rumo à outra margem, rumo a outros destinos que o rio permitia alcançar.


Mas o tempo mudou o curso das coisas. Na década de 1970, a estrada chegou com sua promessa de rapidez. A BR-101 rasgou o país de Norte a Sul, e o que era água virou pó. A navegação das canoas foi silenciando, pouco a pouco. O Namytse perdeu passageiros, e as Ubácruté passaram a esperar mais do que navegar.


Ainda assim, o Opará não esqueceu. O rio continua correndo, guardando na memória das águas o som dos remos, o ranger da madeira, as vozes que cruzavam de uma margem à outra. Quem escuta com atenção ainda pode ouvir: a canoa não morreu — ela apenas repousa na lembrança viva do povo que aprendeu a atravessar o mundo sobre as águas.


A Ubácruté, canoa de pano era também chamada de Ubácruté Itohiquiete, canoa dos viajantes que levavam pessoas do litora até o sertão subindo e descendo o Opará, elas não desapareceram, algumas resiste ao tempo com novas configurações. 



03. UCHÉ IBÁDZÓ — NO TEMPO DO CARRO DE BOI





Houve um tempo antigo, um Uché em que o mundo caminhava devagar, no mesmo ritmo do sol e dos passos do boi. Naquele tempo, os Caraí, os homens brancos, chamaram o grande rio de Rio dos Currais.


Mas os Kariris, atentos ao sentido das coisas, logo compreenderam de outro modo e passaram a chamá-lo de Iwo Dedíá, o Rio dos Currais, porque foi exatamente nesse tempo que o Cradzó, o boi, chegou às margens do Opará.


Era um tempo de mudança.


Os indígenas passaram a viver na Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde os missionários ergueram o Erátekié, o Colégio dos Jesuítas. Ali, entre rezas, sinos e ensinamentos, tentavam introduzir a cultura cristã nos costumes trazidos pelos Peró, os portugueses. Mas a terra, silenciosa e paciente, continuava ensinando do seu próprio jeito.


Com a construção das Erácró, as Casas de Pedra, chegou também um novo modo de caminhar sobre o chão. Os colonizadores trouxeram um transporte pesado, de madeira rangente e passos lentos. Os Kariris deram-lhe nome, como sempre fizeram com tudo o que passa a existir: Ibádzó.


Ibá, o carro.


Cradzó, o boi.


Assim nasceu o nome que atravessaria gerações.


O Ibádzó tornou-se parte da vida cotidiana. Era ele quem levava o fruto do trabalho da terra: o Masiche, o milho dourado; o Geɲe, o feijão miúdo; os Uanhí, grãos e cereais; e o Abati-uaupé, o arroz que alimentava o corpo e a esperança. Rangendo, lento, paciente, o carro de boi cruzava caminhos de barro, puxando não apenas colheitas, mas histórias.


O tempo seguiu seu curso, como o rio. Séculos passaram. O Ibádzó resistiu ao esquecimento e chegou aos tempos mais próximos, aqueles que ainda moram na lembrança dos mais velhos. Muitos recordam Teipó, o indígena cuidador do carro de boi da senhora Maria Matildes.


Dizem que até o ano de 1944 ele ainda conduzia o Ibádzó, com mãos firmes e olhos atentos, como quem guarda um saber antigo.


Hoje, a Aldeia já não possui mais um Ibádzó. O silêncio tomou o lugar do rangido das rodas. Mas, por todo o Opará e pelo Nordeste do Brasil, a tradição do Carro de Boi ainda respira. Vive nas festas, nos caminhos de terra, na memória dos povos e no coração daqueles que sabem que certas coisas não morrem — apenas caminham mais devagar.


E assim, no compasso do boi e da madeira, o tempo continua passando.



04. IGABOROU DAMY, O CAVALO DE CARGA





No tempo em que o mundo andava devagar, quando ainda não existiam os Ibápohduá, os automóveis barulhentos, nem o Ibámeraipu, o trem de ferro cortando distâncias, os Iuwóá Radda — caminhos de terra — eram as veias abertas do Opará. Por elas passava a vida, marcada pelo som ritmado dos cascos e pelo ranger das cargas bem amarradas.


Era o tempo dos Igaborouá Damy, os cavalos de carga. Animais fortes, pacientes, que conheciam o caminho melhor que muito cristão. Sobre seus lombos seguia o sustento, a esperança e o trabalho de muitos povos. Onde hoje corre pressa, antes caminhava o tropeirismo — o vai-e-vem silencioso das mercadorias conduzidas por tropas de homens e cavalos.


Os Kariri chamavam aquele movimento de Bohé Anraná Igaborou, o grupo de homens de cavalos. Eles partiam em Itohiquiete, longas viagens, levando Damyá, as cargas, rumo às Naticróraí, as cidades espalhadas pelo interior do Brasil. O sol queimava a pele, a poeira grudava no suor, mas ninguém reclamava: o caminho era duro, porém conhecido.


Na Aldeia Kariri-Xocó, os mais velhos ainda contam, com voz mansa e olhos longe, sobre o indígena Gravié, tropeiro de respeito e curador. Dizem que ele falava pouco, mas seus cavalos entendiam tudo. Depois dele, seu sobrinho Profírio seguiu o mesmo rumo, já no começo do século XX, mantendo viva a lida antiga de transportar o mundo no lombo dos animais.


Até perto de 1970, não havia estrada de asfalto naquela região. O que existia era a estrada antiga, de barro vermelho e pedra solta, onde o transporte seguia no passo do cavalo. Cada viagem era um risco, cada chegada, uma vitória.


Às quintas-feiras, na Eisdembé, a Feira da Rua de Porto Real do Colégio, a cena se repetia como um ritual. Os matutos do interior chegavam cansados e famintos. Jantavam na casa de Indaiá, indígena acolhedora, enquanto na frente da casa se formava um mar de cavalos amarrados, respirando fundo após a jornada. Na sexta-feira cedo, as mercadorias seguiam para o centro da cidade, onde viravam troca, sustento e história.


Hoje, o asfalto cobre os antigos caminhos, e os cavalos quase não passam mais. Mas quem escuta com atenção ainda ouve, no fundo da terra, o som dos cascos dos Igaborouá Damy, lembrando que antes da pressa existia o passo, antes do motor existia o fôlego, e antes do esquecimento existia a memória.


E ela continua viva, contada de boca em boca, como deve ser.



05. NAMYTSE IBÁKABARU, SERVIÇO DA CARROÇA DE CAVALO





Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, o rangido da Ibákabaru, carroça de Cavalo, já cortava o silêncio da manhã. Era um som conhecido, quase um chamado. Madeira cansada, ferro antigo e o passo firme do cavalo anunciavam que o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça estava em movimento.


Desde o início do Brasil República, entre os Kariri-Xocó, o Ibákeríá — transporte de animais — seguia sendo mais que trabalho: era modo de viver. A carroça carregava Damy, mas também levava histórias, palavras trocadas na estrada, promessas de sustento e dignidade. Cada Natéibáruá, carroceiro conhecia o caminho pelo cheiro da terra e pela inclinação do animal.


No tempo em que a Iuwó Merata, estrada de ferro começou a rasgar Porto Real do Colégio, em meados do século XX, a cidade pulsava diferente. O apito distante do trem misturava-se ao bater dos cascos, e o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça cresceu como cresce rio em tempo de cheia. Onde havia obra, havia carroça; onde havia peso, havia braço e cavalo dispostos.


Lá embaixo, no Cródzu Radamy, Porto de Baixo  o movimento nunca dormia. As Ubácruté, canoas de panos balançavam presas à margem, as Eyemérata, balsa deslizavam lentas, e hoje, onde passam as Ubadzúpui, lanchas antes o barro guardava marcas profundas de rodas e pegadas. A carga ia e vinha, e a carroça era o elo entre a água e a terra.


A prefeitura chamava os carroceiros para o serviço pesado: obra, limpeza, Kenké Dimy. O lixo da cidade, que ninguém queria ver, seguia na Ibákabaru, conduzido com respeito. Era trabalho duro, mas honesto. Trabalho que ensinava que tudo tem lugar e destino.


Com o tempo, chegaram os Ibápohduá, os automóveis que vieram velozes, cheios de barulho e fumaça, e aos poucos empurraram a carroça para a beira da estrada da memória. O serviço diminuiu na cidade, e até na Aldeia Kariri-Xocó — que teve o maior comboio nos anos 1980 — o silêncio começou a ocupar o espaço do rangido.


Mas quem viveu aquele tempo sabe: enquanto houver lembrança, a Ibákabaru continua andando. Em cada história contada, em cada palavra antiga preservada, o cavalo ainda puxa, a roda ainda gira, e o Namytse não se perde.


Porque há serviços que não acabam.


Apenas viram memória.



06. ANRAMY ERAIBÁME, OS ESTIVADORES DA ESTAÇÃO





O Ibámeraipu, o trem, chegou a Porto Real do Colégio como quem anuncia um novo tempo. Era meados do século XX, e o apito da Maria-Fumaça ecoou pelas margens do Opará, chamando o povo para ver, ouvir e sentir a Eraibáme, nascer. A estação foi inaugurada em dia de festa: bandeirolas ao vento, autoridades de paletó engomado, crianças correndo, mulheres de vestido simples e olhos curiosos. O chão parecia tremer de alegria.


Pela Iuwó Merata, a estrada de ferro, vinham diferentes Ibámeraipu. Havia o trem Maria-Fumaça, cuspindo fumaça preta como nuvem de chuva; o Ibámeraipu Itohiquiete, trazendo passageiros, histórias e novidades; e o Ibámeraipu Damy, pesado, lento, carregado de riqueza bruta e suor humano. Cada chegada era um acontecimento, cada parada, um pequeno ritual.


Com o trem, a região despertou. O comércio cresceu, turistas começaram a aparecer e a Eraibáme virou lugar de trabalho e encontro. Entre os homens que ali labutavam estavam os Anramy, os estivadores — muitos deles indígenas, filhos da terra, acostumados ao peso da vida e à força dos braços. Eles conheciam o ritmo do trem, o tempo da carga e o silêncio que precede o esforço.


Do Ibámeraipu Damy desciam sacas e mais sacas: Uanhí, grãos e cereais; Masiche, o milho dourado; Cromera, minério de ferro pesado como destino; Sekiraê, o açúcar branco que adoçava terras distantes. Os Anramy carregavam tudo nos ombros, passo firme, suor escorrendo, levando as sacas até o Carnaúba, o armazém que guardava o coração econômico daquele tempo.


Naqueles dias, o trem cortava a cidade de Porto Real do Colégio como um rio de ferro. Depois, seguia até as margens do Opará, onde parava e esperava. Ali, sobre a Eyemé Merata, a balsa de ferro, atravessava o rio rumo a Propriá, em Sergipe. O trem parecia aprender a navegar, respeitando as águas antigas do Velho Chico.


O trabalho na estação marcou gerações. Ficou gravado nas mãos calejadas, nas costas curvadas, nas histórias contadas ao entardecer. Mas o tempo, como o próprio Ibámeraipu, não para. Em dezembro de 1972, com a inauguração da Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, o trem mudou sua rota. A Eraibáme silenciou aos poucos.


Ainda assim, para quem viveu aquele tempo, nada se perdeu. A estação continua viva na memória do povo, no eco distante do apito e na lembrança dos Anramy Eraibáme — os estivadores que sustentaram, com força e dignidade, a passagem do trem pela história de Porto Real do Colégio.



07. MERÁ YEEMERÃKIÉ, O CAMPO DA AVIAÇÃO





Conto inspirado em memórias de Porto Real do Colégio


Naquele tempo em que a Iuwó Merata, a Estrada de Ferro, cortava a terra de Porto Real do Colégio como um risco firme no mapa do destino, o lado leste da cidade ganhou também um outro sinal de progresso: o Merá Yeemerãkié, o Campo de Aviação.


Era um campo largo, de chão batido e horizonte aberto, feito para receber Yeemerãkié — aviões bimotores pequenos, barulhentos, que chegavam como aves metálicas vindas de longe. Ali pousavam os Dubonaté, técnicos e mestres de obras, homens de fala apressada e olhar atento, e às vezes também os Nanheá, autoridades do governo, que vinham observar, mandar e partir.


Não havia asfalto, nem marcas pintadas no chão. O que mandava ali era o vento. No centro do campo erguia-se o Crupuhami, a biruta: um pano preso a uma vara alta, que dançava ao sopro invisível do ar e ensinava aos pilotos o caminho seguro da descida. Para nós, crianças e curiosos, aquele pano era um sinal mágico — quando se movia, algo estava para acontecer.


E acontecia.


Quando um Yeemerãkié surgia no céu, dando voltas lentas como quem escolhe o lugar exato para tocar a terra, a notícia corria mais rápida que o vento. Nós largávamos tudo: a conversa, a brincadeira, o descanso. Corríamos em bando até o campo, mantendo distância, mas com os olhos arregalados e o coração acelerado. O ronco dos motores fazia o chão vibrar e parecia anunciar que o mundo lá de fora estava nos visitando.


O campo não era só terra plana; era portal. Ali pousavam novidades, ideias, promessas de mudança. Mas o tempo, como sempre, não pousa — ele passa.


Quando começou a construção da Iuwóiró, a rodovia de asfalto, estrada preta que riscou o chão com outra lógica, o Merá Yeemerãkié começou a encolher. Um pedaço aqui, outro ali, até que o silêncio foi tomando o lugar do ronco dos motores. Depois veio a Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, e com ela o fim definitivo do campo.


No início da década de 1970, o Merá Yeemerãkié já não recebia mais aviões. Restou a terra, a memória e o vento — que ainda sopra, mesmo sem biruta para indicar seu caminho.


E quem viveu aquele tempo sabe: houve um dia em que o céu descia até o chão de Porto Real do Colégio, e nós corríamos para ver.



08. IBÁCHIDDÁ PIDÉKAN, O ÔNIBUS-AMBULATÓRIO NAS ALDEIAS





Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, havia um dia esperado como quem espera a chuva depois da seca. Não vinha anunciado por sino nem por papel escrito, mas pelo som distante do motor que fazia o coração bater diferente. Era o Ibáchiddá Pidékan, o ônibus do Funrural, que surgia levantando poeira e esperança.


Desde 1971, ele chegava como um parente viajante, trazendo dentro de si remédios, instrumentos, vozes de cuidado e a promessa de alívio. Onde não havia posto de saúde nem casa de médico, o governo fazia rodar o socorro sobre rodas. O ônibus era branco, com faixas verde-lima, cores que se destacavam na paisagem da aldeia como sinal de vida.


Quando estacionava em frente à escola, o tempo parecia desacelerar. Homens, mulheres, crianças e anciãos se organizavam em fila, cada um carregando sua dor, seu medo ou apenas a necessidade de ser visto. O atendimento durava três dias, e nesses dias a aldeia respirava diferente.


O médico era o Dr. Rovérsio, homem de fala firme e mãos que examinavam com atenção. O dentista, Dr. Mário, trazia o som do motorzinho que assustava as crianças, mas também levava embora dores antigas. Dentro do ônibus, o espaço era pequeno, mas o cuidado era grande. Ali, muitos descobriram que sua dor tinha nome e tratamento.


Com o tempo, nosso povo se mudou para a nova Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo. Mesmo assim, o Ibáchiddá Pidékan continuou vindo, ficava defronte à Eráye "Casa Grande", atendendo os indígenas até meados da década de 1980.


Era antes do SUS, antes de acontecer a redemocratização, quando a saúde ainda vinha em passos lentos, mas vinha, fiel como o curso do rio, até a Aldeia Kariri-Xocó, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas. 


Para nós, aquele ônibus não era só ambulatório. Era sinal de que ainda existíamos aos olhos do mundo. Trouxe alívio aos corpos, mas também esperança aos espíritos. Em cada partida, deixava saudade; em cada chegada, renovava a confiança de que viver valia a pena.


Hoje, quando a memória chama, ainda é possível ouvir o motor chegando na Woderáehó Uanieá, Rua dos Índios e ver, entre poeira e sol, o ônibus branco e verde-lima trazendo consigo o cuidado que atravessou gerações.



09. NATÉIBÁ ITOIBÁPOIETE, MOTORISTA DE AUTOMÓVEL DE PASSAGEIROS





Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, já se ouvia o ronco discreto do Ibápohduá cortando a estrada de barro batido. Era assim todos os dias. O Namytse, o Serviço de Passageiros, começava cedo entre a Aldeia Kariri-Xocó e a cidade de Porto Real do Colégio, seguindo até Propriá, em Sergipe, levando gente, histórias e sonhos apertados no banco traseiro.


Natéibá Itoibápoiete, motorista de automóvel segurava o volante com firmeza e respeito. Não era apenas um motorista: era conhecedor dos caminhos, das curvas da estrada e das necessidades do povo. Sabia quem ia para vender, quem ia para consultar médico, quem ia apenas visitar parente distante. Cada passageiro carregava um motivo, e ele carregava todos.


Na aldeia havia outros como ele — homens e mulheres que transformaram o automóvel e a Ibáchiddá, a topic ou van, em instrumento de sobrevivência. Na cidade também havia transporte, mas quando o carro saía direto da Aldeia Kariri-Xocó para Propriá, o valor mudava. Custava Yeendéar, dez reais, dez tayu, a nota onde a arara vermelha parecia observar tudo com olhos atentos, como guardiã do trajeto.


Alguns preferiam o caminho das águas. As Ubauipú Itohiquiete, lanchas dos viajantes, deslizavam pelo rio por um preço menor, três reais apenas. Mas nem sempre o rio estava manso, e nem todos confiavam nele. A estrada, apesar de poeira e buracos, também contava suas histórias.


Enquanto dirigia, Natéibá, motorista pensava no quanto o tempo havia mudado. Antes, poucas opções. Agora, novos meios, novas profissões. O volante nas mãos indígenas era mais do que trabalho: era autonomia, era futuro, era comida na mesa e dignidade dentro de casa.


Quando o carro parava e os passageiros desciam, ficava no ar um silêncio breve, quebrado apenas pelo vento e pelo canto distante de um pássaro. Natéibá desligava o motor, respirava fundo e sorria. Sabia que no dia seguinte estaria ali de novo, ligando o Ibápohduá, conduzindo pessoas, conectando aldeia, cidade, estrada e rio — como quem tece, pouco a pouco, a própria sobrevivência.



10. NAMYTSE IBARANÚ NATIÁ, O SERVIÇO DE MOTOTÁXI NA ALDEIA





Dizem que a primeira Ibaranú, a “Moto”, chegou à Natiá, a Aldeia, como coisa estranha, barulhenta, levantando poeira e curiosidade. Era década de 1960, tempo em que os Kariri-Xocó ainda moravam na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, na Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio. A máquina veio trazida por um forasteiro, e seu ronco ecoou diferente entre as casas, como um bicho novo aprendendo a respirar naquele chão antigo.


No começo, poucos se aproximavam. Uns olhavam de longe, outros riam, outros desconfiavam. A moto parecia não entender os passos da aldeia, nem o silêncio da terra. Mas o tempo, esse velho ensinador, tratou de aproximar homem e máquina.


Em 1989, quando a FUNAI comprou uma moto para a vigilância da Terra Indígena, a Ibaranú deixou de ser apenas novidade. Passou a ser ferramenta, aliada, extensão do corpo que protege o território. Foi aí que os Kariri-Xocó começaram a conhecer melhor aquele meio de transporte, sentindo no vento do caminho uma nova possibilidade de ir e vir.


Na década de 1990, nasceu de vez o Namytse Ibaranú Natiá, o Serviço de Mototáxi na Aldeia. A moto passou a levar gente, histórias, recados e sonhos. Levava indígenas da aldeia para a cidade e trazia de volta sacolas, remédios, notícias e esperanças. Levava também quem precisava seguir viagem para outras cidades, cruzando estradas que antes eram longas demais a pé.


O Tayu, o dinheiro, era simples e justo: Yeendeçó, cinco reais. Na nota, a figura da Ieende-ku-homoechi, a garça-branca-de-pescoço-comprido, parecia observar tudo em silêncio, como quem sabe que aquele pagamento não comprava só a corrida, mas também a confiança entre quem leva e quem é levado.


Hoje, na aldeia, existem em média vinte mototáxis ou mais. Eles transportam indígenas e não-indígenas pela cidade e pelos povoados circunvizinhos. Quanto maior a distância, maior o valor — porque o caminho também cansa, e a estrada tem suas exigências.


Assim, pouco a pouco, os Kariri-Xocó vão se adaptando às novas opções de trabalho. A tecnologia chega, mas não apaga a tradição. Ela aprende a conviver com ela. A Ibaranú já não é mais estranha: é parte da paisagem, como o sol da manhã, como o pó da estrada, como o chamado de quem precisa ir — e de quem sempre sabe voltar.



Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



APÊNDICES


Sugestões para incluir:

• Fotografias antigas do Porto de Baixo

• Registros da estação ferroviária

• Imagens das capas dos contos

• Mapas do Baixo São Francisco



MAPA CULTURAL DOS TRANSPORTES DO OPARÁ





Memória Viva dos Caminhos do Povo Kariri-Xocó


Ao longo das margens do Opará — nome ancestral do Rio São Francisco — o povo Kariri-Xocó construiu caminhos de sobrevivência, resistência e cultura. Muito antes das estradas modernas, os percursos eram feitos a pé, em trilhas abertas pela sabedoria da terra e pela orientação das águas.


Este Mapa Cultural dos Transportes do Opará apresenta uma jornada visual e histórica que percorre diferentes tempos: dos caminhos ancestrais às navegações tradicionais, das rotas coloniais às ferrovias, até os meios de transporte contemporâneos que hoje conectam comunidades e territórios.


Mais do que um registro cartográfico, esta obra é um instrumento de memória viva. Cada imagem revela modos de deslocamento que também são formas de relação com o território, com o rio e com a identidade de um povo que continua a caminhar entre tradição e futuro.


Este mapa convida o leitor a percorrer esses caminhos e a reconhecer que o transporte, para os povos originários, nunca foi apenas deslocamento — mas também cultura, história e pertencimento.


Uma homenagem à memória do Opará e à sabedoria do povo Kariri-Xocó.



ESTRUTURA DO MAPA:


🌿 1 — Caminhos ancestrais


caminhada indígena


trilhas da floresta


🚣 2 — Transporte nas águas


canoas Ubácruté


travessias do Opará


🐂 3 — Transporte colonial


carro de boi


tropas de cavalos


🐎 4 — Transporte regional


carroças


tropeirismo


🚂 5 — Era da ferrovia


estação ferroviária


estivadores


balsa ferroviária


✈ 6 — Campo de aviação


aviões bimotores


🚌 7 — Transporte social


ônibus-ambulatório do Funrural


🚗 8 — Transporte rodoviário


automóveis


vans


🏍 9 — Transporte contemporâneo


mototáxi indígena


📖 Esse mapa funciona como síntese visual do livro, mostrando que a obra percorre uma história completa do transporte regional.



GLOSSÁRIO KARIRI-XOCÓ



Abati-uaupé — arroz.

Anramy — estivadores, trabalhadores de carga.

Arankeá — céus.

Atseá — pessoas, seres humanos.

Bechiéá — roças ou plantações.

Biá — pés ou pernas humanas.

Bohé Anraná Igaborou — grupo de homens cavaleiros.

Carnaúba — armazém de carga.

Cradzó — boi.

Cródzu Radamy — Porto de Baixo.

Crupuhami — biruta usada em campo de aviação.

Cromera — minério de ferro.

Damy — carga, mercadoria.

Damyá — cargas transportadas.

Dubonaté — técnicos ou trabalhadores especializados.

Dzuá — águas, rios.

Eraibáme — estação ferroviária.

Erátekié — colégio ou espaço de ensino.

Erácró — casas de pedra.

Eráye — casa grande.

Eisdembé — feira pública.

Etçamyá — parentes.

Eyemé Merata — balsa ferroviária.

Geɲe — feijão.

Ibá — carro ou veículo.

Ibábárú / Ibákabaru — carroça de cavalo.

Ibáchiddá — ônibus ou veículo coletivo.

Ibáchiddá Pidékan — ônibus-ambulatório.

Ibádzó — carro de boi.

Ibápohduá — automóvel.

Ibámeraipu — trem ou locomotiva.

Igaborou — cavalo.

Igaborou Damy — cavalo de carga.

Ieendeá — pássaros.

Ieende-ku-homoechi — garça branca.

Itohiquiete — viajante.

Iuwóá — caminhos.

Iuwó Merata — estrada de ferro.

Iuwóiró — rodovia ou estrada asfaltada.

Kerítséá — animais silvestres.

Masiche — milho.

Merá Yeemerãkié — campo de aviação.

Namytse — serviço ou atividade de transporte.

Natéibá — condutor ou motorista.

Naticróbeá — cidades ribeirinhas.

Naticróraí — cidade.

Natiá — aldeia.

Opará — rio São Francisco.

Radda — mundo.

Sekiraê — açúcar.

Siririté — serras ou montanhas.

Uanhí — grãos ou cereais.

Ubá — canoa.

Ubácruté — canoa de pano.

Ubauipú — lancha.

Uocró Idabacrú — ponte sobre o rio.

Wãmyá — peixes.

Woderáehó Uanieá — Rua dos Índios.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio, Alagoas, às margens do rio São Francisco.

Contador de histórias orais e escritas, dedica-se ao registro da memória cultural indígena por meio de textos, contos e pesquisas históricas publicadas em seu blog.

Seu trabalho busca preservar a tradição, a língua e os saberes ancestrais do povo Kariri-Xocó.



SOBRE A OBRA


Namytseiba Damyatseito reúne contos que narram a evolução dos meios de transporte utilizados no território do Baixo São Francisco ao longo do tempo.

A obra apresenta desde os caminhos percorridos a pé até os serviços modernos de mototáxi, mostrando como cada forma de transporte transformou a vida das comunidades.

Ao registrar essas histórias, o livro contribui para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó.



ORELHA DO LIVRO


Entre trilhas da floresta, travessias do rio Opará e estradas de barro percorridas por carros de boi e cavalos, o leitor é convidado a viajar pela memória do povo Kariri-Xocó.

Em Namytseiba Damyatseito, Nhenety Kariri-Xocó transforma lembranças e histórias orais em literatura, registrando as formas de transporte que conectaram aldeias, cidades e pessoas ao longo do tempo.

Com linguagem sensível e profunda ligação com a tradição indígena, o autor apresenta uma obra que preserva a memória cultural e revela a riqueza da experiência histórica do Baixo São Francisco.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó