quarta-feira, 1 de julho de 2026

BURUHÚÁ SAMY WIDÓBA: ARTESANATOS NA CULTURA DA SOBREVIVÊNCIA







FALSA FOLHA DE ROSTO

BURUHÚÁ SAMY WIDÓBA

ARTESANATOS NA CULTURA DA SOBREVIVÊNCIA

Nhenety Kariri-Xocó

Obra dedicada ao registro, preservação e valorização dos saberes artesanais, culturais e históricos do povo Kariri-Xocó, reunindo narrativas da tradição oral, memórias ancestrais e conhecimentos transmitidos entre gerações.

Porto Real do Colégio – Alagoas

2026






VERSO DA FOLHA DE ROSTO

Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
É permitida a reprodução parcial desta obra para fins educacionais, acadêmicos e culturais, desde que citada a fonte.
Primeira edição – 2026
Ficha Catalográfica (Modelo)
K18b
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Buruhúá Samy Widóba: Artesanatos na Cultura da Sobrevivência / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
120 p.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Cultura Indígena. 2. Kariri-Xocó. 3. Artesanato Indígena. 4. Tradição Oral. 5. Memória Ancestral. 6. Patrimônio Cultural.
CDD: 980.41






ISBN (Simbólico)

ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de organização editorial. A obtenção de ISBN oficial deverá ser realizada junto à Agência Brasileira do ISBN.)






PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.






ESCLARECIMENTO DO AUTOR

A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 






DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus Antepassados Kariri-Xocó, guardiões da memória ancestral, que preservaram os saberes do nosso povo através da palavra, do exemplo e da resistência.

Dedico também aos anciãos, mestres artesãos, homens, mulheres, jovens e crianças da comunidade Kariri-Xocó, que continuam mantendo viva a chama da cultura, da identidade e da tradição.

Que este livro seja uma homenagem àqueles que vieram antes de nós e um presente para aqueles que ainda virão.





AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente à Bechiantse, a Mãe Natureza, fonte de vida e inspiração.
Aos Tokenhé, os Antepassados, que deixaram os ensinamentos que sustentam nossa identidade cultural.

À comunidade Kariri-Xocó, aos guardiões da memória, aos mestres artesãos e aos parentes que compartilharam histórias, conhecimentos e experiências.

A todos os pesquisadores, educadores, estudantes e leitores interessados na valorização dos povos indígenas e na preservação das tradições ancestrais.






EPÍGRAFE

"Enquanto houver alguém para lembrar, ensinar e contar, a memória dos Antepassados continuará caminhando entre nós."
— Tradição Oral Kariri-Xocó






PREFÁCIO DO VOLUME

Este volume reúne conhecimentos relacionados aos artesanatos tradicionais do povo Kariri-Xocó, compreendidos não apenas como objetos materiais, mas como expressões vivas da memória ancestral.

Cada peça artesanal carrega histórias, ensinamentos, crenças e valores transmitidos ao longo das gerações.
Ao registrar esses saberes em forma escrita, busca-se fortalecer a preservação cultural e ampliar o conhecimento sobre a riqueza das tradições indígenas brasileiras, especialmente aquelas mantidas pelo povo Kariri-Xocó.






RESUMO


A obra Buruhúá Samy Widóba: Artesanatos na Cultura da Sobrevivência apresenta uma abordagem etnográfica, memorialística e cultural sobre os artesanatos tradicionais do povo Kariri-Xocó. Estruturado em oito capítulos, o livro reúne narrativas inspiradas na tradição oral, abordando a cultura indígena, os materiais utilizados na produção artesanal, adornos corporais, instrumentos musicais, objetos culturais e o papel do artesanato como instrumento de sobrevivência econômica e preservação identitária. O estudo destaca a importância da memória ancestral na continuidade dos conhecimentos tradicionais.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; Artesanato Indígena; Memória Ancestral; Tradição Oral; Cultura Indígena.





ABSTRACT


Buruhúá Samy Widóba: Handicrafts in the Culture of Survival presents an ethnographic, memorial and cultural approach to the traditional handicrafts of the Kariri-Xocó people. Organized into eight chapters, the book gathers narratives inspired by oral tradition, addressing indigenous culture, materials used in handicraft production, body ornaments, musical instruments, cultural objects and the role of handicrafts as instruments of economic survival and identity preservation. The study highlights the importance of ancestral memory in maintaining traditional knowledge.

Keywords: Kariri-Xocó; Indigenous Handicrafts; Ancestral Memory; Oral Tradition; Indigenous Culture.





APRESENTAÇÃO


Esta obra nasceu do desejo de registrar conhecimentos que, por muitas gerações, foram preservados pela tradição oral. O artesanato Kariri-Xocó constitui um importante patrimônio cultural, reunindo técnicas, símbolos e significados que expressam a relação do povo com a natureza, os ancestrais e a comunidade.






NOTA DO AUTOR


Os termos indígenas presentes nesta obra foram registrados conforme a tradição cultural e linguística preservada pelo povo Kariri-Xocó. As traduções apresentadas têm finalidade educativa e cultural, buscando aproximar o leitor dos significados transmitidos pelos guardiões da memória.






MEMÓRIA DO AUTOR


Sou Nhenety Kariri-Xocó, indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Cresci ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, aprendendo que a memória é um patrimônio tão importante quanto a própria terra.

Este livro representa parte de minha caminhada como contador de histórias, pesquisador da tradição oral e guardião da memória ancestral. Ao transformar narrativas orais em registros escritos, procuro contribuir para que os conhecimentos do nosso povo permaneçam vivos para as futuras gerações.






SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I - Samyba Uanieá: Cultura da Vida Indígena
Capítulo II - Sanéá Buruhúá: Materiais do Artesanato
Capítulo III - Dakloná Tsebu: Adornos da Cabeça
Capítulo IV - Dakloná Buiehoho: Adornos do Corpo
Capítulo V - Wonhé Sanéwon: Instrumentos de Tocar, Cantar Música
Capítulo VI - Canghité Samy: Coisas Boas da Cultura
Capítulo VII - Samy Widóba: Cultura da Sobrevivência
Capítulo VIII - Buruhúá Naticróraí: Artesanatos nas Cidades dos Brasileiros
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor






INTRODUÇÃO


Os artesanatos tradicionais ocupam lugar fundamental na história e na cultura dos povos indígenas. Entre os Kariri-Xocó, cada artefato produzido carrega significados que ultrapassam sua função material, tornando-se instrumento de transmissão cultural, fortalecimento identitário e preservação da memória coletiva.

Esta obra apresenta uma visão abrangente dos Buruhúá, destacando seus materiais, formas, usos e significados dentro da tradição Kariri-Xocó. Mais do que um catálogo de objetos, o livro constitui um testemunho da continuidade cultural de um povo que mantém viva sua herança ancestral.





CAPÍTULO I - SAMYBA UANIEÁ: CULTURA DA VIDA INDÍGENA


A Samyba Uanieá, a Cultura da Vida Indígena, representa o conjunto de conhecimentos, valores e tradições construídos pelos Tokenhé ao longo de incontáveis gerações. Mais do que um legado do passado, ela constitui um modo de compreender o mundo, de relacionar-se com a natureza e de fortalecer os laços que unem o Tseho à sua ancestralidade. Neste capítulo, percorremos os caminhos da memória para compreender como os ensinamentos ancestrais moldaram a identidade indígena e continuam orientando a vida coletiva até os dias atuais.

No princípio do Uché (Tempo), quando os caminhos da terra ainda guardavam os passos dos mais antigos, os Tokenhé (Antepassados) viviam em profunda harmonia com o nosso Tseho (Povo). Eram tempos em que o conhecimento era transmitido pela observação da natureza, pela palavra dos anciãos e pela convivência diária entre as gerações. Cada ensinamento recebido tornava-se uma semente destinada a florescer no coração daqueles que viriam depois.

Os Tokenhé conheciam os segredos dos rios, das matas e dos ventos. Sabiam identificar os sinais da chuva, o tempo da colheita e os caminhos dos animais. Em cada gesto existia um aprendizado e em cada experiência havia uma lição para a continuidade da vida. Assim, o conhecimento acumulado ao longo das gerações passou a orientar o modo de viver do Tseho, fortalecendo os laços de união e pertencimento.

Com o passar da Woroy (História), os ensinamentos dos ancestrais foram sendo preservados e transmitidos de pais para filhos, de avós para netos. Dessa longa caminhada nasceu a Samy (Cultura), formada por saberes, costumes, crenças, memórias e tradições que ajudaram o povo a compreender seu lugar no mundo. A cultura tornou-se um elo sagrado entre o passado, o presente e as futuras gerações.

Foi por meio da Samy que aprendemos a viver como Uanieá (Indígenas), respeitando a vida em todas as suas formas e reconhecendo a natureza como parte de nossa própria existência. A cultura ensinou o valor da coletividade, da partilha e da responsabilidade com tudo aquilo que sustenta a vida. Cada canto, cada história e cada tradição passou a representar a presença viva dos ancestrais entre nós.

Na Retsé (Floresta), onde os sons da natureza acompanham os dias e as noites, ergueu-se a nossa Natianie (Aldeia Indígena Tradicional), espaço de convivência, aprendizado e continuidade cultural. Ali, a memória dos Tokenhé permanece viva através das palavras, dos costumes e dos ensinamentos compartilhados. Dessa forma, a Cultura da Vida Indígena segue seu caminho através do Uché, preservando a identidade do Tseho e fortalecendo a ligação sagrada entre o povo, a terra e os ancestrais.

Assim, a Samyba Uanieá permanece como um patrimônio vivo que atravessa o Uché, preservando os ensinamentos recebidos dos Tokenhé e renovando-os em cada geração. Através da palavra, da convivência comunitária, das tradições e do respeito à natureza, o Tseho mantém viva sua identidade e sua ligação espiritual com a terra ancestral. Enquanto houver memória, pertencimento e compromisso com os saberes herdados, a Cultura da Vida Indígena continuará florescendo como fonte de força, sabedoria e continuidade para o povo e para aqueles que virão depois.




CAPÍTULO II - SANÉÁ BURUHÚÁ: MATERIAIS DO ARTESANATO


Antes mesmo de aprender a moldar os materiais da Natureza, os antigos Kariri-Xocó aprenderam a reconhecer que cada elemento existente no mundo possuía um espírito, uma origem e uma finalidade. As sementes, as penas, os ossos, o algodão e a cera não eram vistos apenas como recursos, mas como presentes oferecidos pela Bechiantse para auxiliar a vida do povo. Assim, os materiais utilizados na confecção dos Buruhúá nasceram de uma relação profunda de respeito, observação e reciprocidade com a terra e com todos os seres da criação, tornando o artesanato uma das mais antigas expressões da memória e da sabedoria ancestral.

Os antigos Tokenhé, os Antepassados do começo do mundo, ensinavam que a vida nasceu da Bechiantse, a Natureza, nossa grande Roça. Diziam que tudo o que existe vem da terra e para ela retorna. Foi a terra quem primeiro alimentou nossos avós, quem ofereceu água para matar a sede, plantas para curar os males e caminhos para orientar os passos do povo. Por isso, desde os tempos mais antigos, aprendemos a respeitar a Natureza como uma mãe generosa que sustenta todos os seres.

Quando os mais velhos caminhavam pela Retsé, a Floresta, não enxergavam apenas árvores e animais. Eles viam uma grande casa de ensinamentos deixada pelos Antepassados. Cada canto dos pássaros, cada folha balançando ao vento e cada semente caída ao chão carregava uma história. A floresta era uma escola viva onde crianças, jovens e adultos aprendiam a ouvir, observar e compreender os segredos do mundo.

Foi na Retsé que nossos ancestrais encontraram as Cópiné, as sementes das grandes Sutuá, as árvores que crescem fortes e profundas. Com paciência e sabedoria, recolhiam essas sementes para transformá-las em colares, pulseiras e adornos. Também recebiam das Ieendeá, as aves que voam pelos céus, as belas Songaá, penas coloridas que davam vida aos cocares e às peças cerimoniais. Cada semente e cada pena guardavam a força dos lugares de onde vieram.

Os Keríá, os animais da mata, também participavam dessa grande aliança entre os seres da criação. Dos Dzá, os dentes, e dos Meá, os ossos, surgiam peças carregadas de significado e memória. Nada era retirado sem necessidade e sem agradecimento. Os antigos ensinavam que cada animal possuía um espírito e que toda utilização deveria acontecer com respeito, para que a harmonia entre os povos da floresta permanecesse viva através das gerações.

Assim nasceram os Buruhúá, os artesanatos de nosso povo. O Setí, cordão feito do Endi, o algodão, unia as peças, enquanto a Samburá, a cera produzida pela Kati, a abelha, ajudava a protegê-las e fortalecê-las. Em cada artesanato estava presente um pedaço da terra, da floresta, das águas, dos pássaros, dos animais e das mãos de quem o confeccionou. Por isso, os Buruhúá não são apenas objetos. Eles são histórias vivas, carregam a voz dos Tokenhé e mantêm acesa a memória ancestral do povo Kariri-Xocó através do tempo.

Ainda hoje, os Buruhúá permanecem como testemunhos vivos da ligação sagrada entre o povo Kariri-Xocó e a Bechiantse. Cada colar, pulseira, cocar ou adorno conserva os ensinamentos recebidos dos Tokenhé, recordando que a Natureza é fonte de vida, conhecimento e identidade. Mais do que preservar técnicas artesanais, a continuidade desses saberes mantém viva a memória dos Antepassados, fortalece a cultura do povo e transmite às novas gerações o dever de honrar, proteger e respeitar os dons recebidos da terra, da floresta, das águas e de todos os seres que compartilham o mundo conosco.





CAPÍTULO III – DAKLONÁ TSEBU: ADORNOS DA CABEÇA


Os Antepassados Kariri-Xocó ensinavam que o corpo humano também guarda histórias. Cada adorno colocado sobre a cabeça, nos cabelos ou nas orelhas carregava ensinamentos recebidos dos mais velhos e transmitidos às novas gerações. Entre penas, fibras, cores e formas, os adornos revelavam valores, responsabilidades e sentimentos que fortaleciam a identidade do povo. Assim, o Dakloná Tsebu, os adornos da cabeça, tornou-se parte importante da memória ancestral, unindo beleza, sabedoria e pertencimento.

A noite cobria a aldeia e o brilho das estrelas iluminava os caminhos dos Antepassados, os mais velhos reuniam crianças, jovens e adultos ao redor da fogueira para contar as histórias do nosso povo. Era nesse momento que a memória caminhava de boca em boca, de coração em coração, ensinando que os adornos não eram simples enfeites, mas marcas vivas da identidade Kariri-Xocó.

Os anciãos diziam que o Tçambusebé, o cocar dos homens feito de Songaá, as penas sagradas da natureza, carregava a responsabilidade do comando e do cuidado com o Tseho, o povo. Quando um homem colocava o cocar sobre a cabeça, ele lembrava que deveria servir à comunidade com coragem, sabedoria e dedicação ao Sané, o trabalho. Assim, cada pena contava uma história de compromisso, honra e respeito pelos ensinamentos recebidos dos mais velhos.

As mulheres também ocupavam um lugar especial nessas narrativas. Os anciãos ensinavam que o Tereré, a tiara feminina, representava a beleza da arte, da criatividade e da força que habita o coração das mulheres da Natiá, a aldeia. Elas eram vistas como guardiãs da vida, das famílias e das tradições. Ao usar o Tereré, carregavam consigo a lembrança de que sua presença fortalece a união do povo e mantém viva a chama da cultura ancestral.

Havia ainda o Dakloeɲe, o brinco usado nas orelhas. Os mais velhos apontavam para ele e diziam: “Não basta falar, é preciso saber ouvir.” Por isso, o Dakloeɲe recordava a importância de escutar as palavras dos anciãos, os cantos tradicionais, os conselhos da família e as histórias guardadas pelo tempo. Quem aprende a ouvir a tradição nunca se afasta do caminho dos Antepassados.

E as mulheres traziam consigo também o Hebadu, o pau de cabelo, usado para cuidar dos cabelos e proporcionar bem-estar. Nas histórias contadas junto ao fogo, ele era lembrado como um instrumento de cuidado e respeito consigo mesma. Assim, o Tçambusebé, o Tereré, o Dakloeɲe e o Hebadu seguem atravessando gerações, não apenas como adornos, mas como páginas vivas da memória Kariri-Xocó, ensinando que a cultura permanece forte enquanto houver alguém para contar, alguém para ouvir e alguém para lembrar.

Desse modo, os adornos da cabeça permanecem como símbolos vivos da cultura Kariri-Xocó, preservando conhecimentos que atravessam o tempo e unem passado, presente e futuro. Mais do que objetos de uso cotidiano ou cerimonial, o Tçambusebé, o Tereré, o Dakloeɲe e o Hebadu representam a continuidade dos ensinamentos ancestrais, a valorização da identidade coletiva e o respeito pelos caminhos deixados pelos antigos Tokenhé. Enquanto esses adornos forem lembrados, confeccionados e utilizados pelas novas gerações, continuará viva a memória do povo Kariri-Xocó, como uma chama que nunca se apaga no coração da aldeia.




CAPÍTULO IV – DAKLONÁ BUIEHOHO: ADORNOS DO CORPO


Desde os tempos mais antigos, os Kariri-Xocó compreenderam que o corpo humano é também um espaço de memória, identidade e espiritualidade. Por essa razão, os adornos corporais foram criados não apenas para ornamentar, mas para expressar os ensinamentos herdados dos Tokenhé, os Antepassados do começo do mundo. Cada peça confeccionada com penas, fibras, ossos, sementes ou coco guarda significados profundos ligados à força, à proteção, ao trabalho, à coletividade e à relação harmoniosa com a natureza. Neste capítulo, percorremos os caminhos simbólicos dos Dakloná Buiehoho, os adornos do corpo, preservados pela tradição oral como marcas vivas da sabedoria ancestral Kariri-Xocó.

Escutem, filhos e filhas desta terra antiga. Aproximem-se do fogo e prestem atenção nas palavras que caminham desde o tempo dos nossos avós e dos avós dos nossos avós. Os adornos do corpo que usamos não nasceram para enfeitar apenas os olhos. Eles guardam ensinamentos, histórias e forças deixadas pelos Antepassados. Cada fio, cada pena, cada osso e cada fibra carregam uma lembrança daqueles que aprenderam a ouvir a voz da mata, dos animais, das águas e dos ventos.

Os antigos contavam que a Crodí, a força que sustenta o espírito e o corpo, vive no Dakloro, o adorno do braço. Feito com cordão de algodão e penas de aves, ele nos recorda que devemos ser firmes como a árvore que enfrenta as tempestades e livres como os pássaros que cruzam os céus. Quando o guerreiro, a mulher ou a criança colocavam o Dakloro, não vestiam apenas um adorno; vestiam a coragem dos que vieram antes e a responsabilidade de honrar o caminho do povo.

Também nos ensinaram sobre o Daklone, o colar que traz os dons dos Keriá, os animais. Nele repousam os Dzá, os dentes, e os Meá, os ossos, sinais das habilidades que a natureza compartilha com aqueles que sabem observar. Os velhos diziam que isso é Canghito, as boas coisas de poder. Não um poder para dominar, mas um poder para aprender, respeitar e viver em equilíbrio. Assim, cada animal se torna um mestre silencioso, ensinando ao povo os caminhos da sabedoria.

Olhem também para o Daklowõ, o adorno da perna. Ele é tecido com as fibras do Endi, o algodão, e lembra a resistência daqueles que caminham sem desistir. A terra pode ser dura, os caminhos podem ser longos, mas os pés seguem firmes quando o coração conhece suas raízes. E nas mãos está o Dakloysã, que nos fala do To, o poder que nasce do Sané, o trabalho coletivo. Nenhuma casa é erguida por uma só pessoa, nenhuma roça floresce pelas mãos de um único trabalhador. É o Tseho, o povo unido, que transforma o esforço em força e a força em futuro.

E antes que a fogueira se apague, guardem no coração a lição do Iwodokrow, o anel de coco. Seus pequenos círculos, os Iworópi, nos ensinam que ninguém vive separado do mundo. Somos parte de um círculo maior, ligado aos nossos parentes, aos nossos ancestrais, aos animais, às plantas, às águas e ao Grande Mistério da criação. Assim, os adornos do corpo permanecem vivos entre nós, não como objetos, mas como palavras sem voz que continuam contando, geração após geração, quem somos, de onde viemos e para onde devemos seguir.

Os Dakloná Buiehoho permanecem como testemunhos vivos da memória e da visão de mundo do povo Kariri-Xocó. Mais do que adornos corporais, eles representam a continuidade dos ensinamentos ancestrais, fortalecendo os laços entre as gerações e reafirmando a união entre seres humanos, natureza e espiritualidade. Em cada colar, bracelete, adorno de perna, enfeite de mão ou anel de coco, ecoam as vozes dos antigos que ensinaram a viver com coragem, respeito e coletividade. Enquanto esses saberes forem lembrados, confeccionados e transmitidos, a identidade Kariri-Xocó continuará florescendo como uma árvore de raízes profundas, sustentada pela força da memória e pelo orgulho de sua ancestralidade.




CAPÍTULO V - WONHÉ SANÉWON: INSTRUMENTOS DE TOCAR, CANTAR MÚSICA


Entre os Kariri-Xocó, a música é muito mais do que arte ou entretenimento. Ela constitui uma linguagem sagrada que une o povo aos seus ancestrais, aos Antepassados e às forças vivas da Natureza. Desde os tempos antigos, os sons acompanham os rituais, as celebrações, os ensinamentos e os momentos de recolhimento espiritual, transmitindo conhecimentos que atravessam gerações. Cada instrumento tradicional carrega uma história, uma origem e um ensinamento, revelando a profunda relação de respeito e reciprocidade que existe entre o povo e a Antse, a Mãe Natureza.

Quando a noite descia sobre a aldeia e o brilho da fogueira dançava nos rostos dos parentes, os mais velhos ensinavam que a música não nasceu das mãos humanas. Ela já existia muito antes de nós. Os sons moravam na Antse, a Natureza, escondidos entre as Sutuá, as árvores da floresta, caminhando com os Ieende, as aves, voando no Arankié 'Céu' sobre as Dzuá, as águas, e repousando silenciosamente sobre as Cró, as pedras. Quem aprende a ouvir com o coração descobre que toda a Terra canta.

Foi assim que nossos ancestrais aprenderam a fazer a Buibú, a maraca sagrada do Toré. Eles observaram o Uttihu, o fruto do Coité, árvore respeitada por guardar em seu ventre o som da criação. Quando o fruto amadurecia e era preparado com sabedoria, transformava-se em instrumento capaz de acompanhar o ritmo dos passos, despertando a memória dos antigos e guiando a dança do povo.

Também nasceu desse aprendizado o Badá, a flauta. Os velhos contam que a Taquara ensinou esse caminho. Flexível diante dos ventos, ela nunca se quebra facilmente, mostrando que a força verdadeira vive junto da moderação. Quando a flauta canta, sua voz lembra o sopro que percorre os campos e as margens do rio, levando mensagens que somente os espíritos da Natureza conseguem compreender por inteiro.

Há ainda o Tçuirú, o arremedo dos assobios das aves. Ele é feito da macia umburana, árvore que resiste aos tempos de seca e calor. Ao tocar o Tçuirú, os parentes imitam os cantos dos pássaros e recordam que os Keriá também são nossos professores. Cada chamado ecoa como uma conversa antiga entre os seres da floresta, fortalecendo os laços de respeito entre o povo e a Natureza.

E quando chega o momento mais solene do Toré, escuta-se o Buzo, a trombeta sagrada feita da umbaúba. Seu som profundo atravessa os caminhos da mata e se espalha pelo céu como a voz do trovão. Os antigos dizem que, nesse instante, a floresta inteira escuta. As árvores, os animais, as águas e as pedras reconhecem aquele chamado. Assim aprendemos que nossos instrumentos não são apenas objetos para tocar música: são parentes da Natureza, guardiões de sons ancestrais e pontes vivas entre o povo Kariri-Xocó, a Terra e os espíritos que caminham conosco desde o Tempo Antigo.

Assim, os instrumentos musicais Kariri-Xocó permanecem como tesouros vivos da memória coletiva, preservando ensinamentos que vieram dos antigos e continuam ecoando nas novas gerações. A Buibú, o Badá, o Tçuirú e o Buzo não apenas produzem sons, mas despertam lembranças, fortalecem a identidade do povo e renovam os vínculos com a Terra, os encantados e os ancestrais. Enquanto seus cantos ressoarem nos terreiros, nas matas e nos rituais do Toré, continuará viva a sabedoria que ensina que toda a criação possui voz e que ouvir a Natureza é também uma forma de aprender, respeitar e existir em harmonia com o mundo.




CAPÍTULO VI - CANGHITÉ SAMY: COISAS BOAS DA CULTURA


Antes que os mais velhos começassem suas histórias, ensinavam que a cultura de um povo não vive apenas nas palavras, mas também nos objetos, nos gestos, nos costumes e nas lembranças herdadas dos Antepassados. Cada elemento guardado pela tradição possui um significado profundo, pois carrega ensinamentos que fortalecem a identidade coletiva e mantêm viva a ligação entre as gerações. Entre os Kariri-Xocó, essas heranças são conhecidas como Canghité Samy, as coisas boas da cultura, tesouros que atravessam o tempo e continuam orientando o caminho do povo.

Quando os antigos se reuniam ao redor do fogo sagrado, durante o Sotikaí, contavam que existem caminhos que unem aquilo que nossos olhos veem àquilo que somente o espírito alcança. Diziam que a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional que vive sobre a terra, nunca esteve separada da Natiankié, a Aldeia Espiritual dos Antepassados que habita os céus. Entre esses dois mundos existe uma ligação invisível, construída pela memória, pela fé e pelos ensinamentos deixados pelos Tokenhé.

Os Anciãos ensinavam que um dos instrumentos mais sagrados dessa conexão era o Pawí, o cachimbo feito da madeira do Angico. Não era apenas um objeto, mas um mensageiro entre os mundos. Quando sua fumaça subia em direção ao céu, levava consigo as palavras, os pensamentos e os pedidos do povo. Por isso, seu significado era profundo: o Espírito que leva. Assim, a fumaça percorria os caminhos sagrados que unem a Natianie à Natiankié, aproximando os vivos daqueles que já haviam seguido para a morada dos Antepassados.

Mas os velhos contadores de histórias também lembravam que o Seridzé e a Iaru, o arco e a flecha, eram companheiros inseparáveis dos antigos. Com eles, os Tokenhé protegiam suas famílias, defendiam sua terra e garantiam o alimento necessário para a sobrevivência da comunidade. Cada arco construído e cada flecha preparada carregavam o conhecimento transmitido de geração em geração, fortalecendo o povo diante dos desafios da vida.

Contavam ainda que as vestes dos Antepassados eram feitas com os dons oferecidos pela própria natureza. A Sasá, a saia de palha, era confeccionada com as fibras do Aricuri, árvore abundante na Retsé, a floresta que alimenta o corpo e o espírito. Suas folhas, seus frutos e suas fibras eram presentes recebidos da terra, transformados pelas mãos habilidosas do povo em adornos, vestimentas e objetos de grande valor cultural.

Por isso, quando o fogo do Matikaí ilumina a noite e o Sotikaí reúne a comunidade ao seu redor, os ensinamentos antigos voltam a caminhar entre os vivos. O Pawí continua levando as mensagens ao mundo espiritual, o Seridzé e a Iaru recordam a coragem dos Tokenhé, e a Sasá feita do Aricuri mantém viva a memória daqueles que vieram antes de nós. Assim, a Natianie permanece unida à Natiankié, e as coisas boas da cultura seguem sendo guardadas, ensinadas e transmitidas para as futuras gerações.

Dessa forma, as coisas boas da cultura permanecem como pontes entre o passado, o presente e o futuro. Nos ensinamentos do Pawí, na força do Seridzé e da Iaru, na simplicidade da Sasá e nas histórias contadas ao redor do fogo sagrado, sobrevivem os saberes deixados pelos Antepassados. Enquanto esses conhecimentos forem lembrados, praticados e transmitidos às novas gerações, a memória dos Tokenhé continuará viva, fortalecendo a união entre a Natianie e a Natiankié e preservando a essência do povo Kariri-Xocó para os tempos que ainda virão.




CAPÍTULO VII - SAMY WIDÓBA: CULTURA DA SOBREVIVÊNCIA


Quando os mais velhos se sentam à sombra das árvores e começam a contar as histórias antigas, eles lembram que sobreviver nunca foi apenas vencer a fome ou atravessar tempos difíceis. Sobreviver sempre significou guardar a memória, proteger os ensinamentos dos Antepassados e manter acesa a chama da identidade do povo. A Samy Widóba, a Cultura da Sobrevivência, nasceu dessa sabedoria antiga, construída ao longo de muitas gerações que aprenderam a transformar desafios em aprendizado, dificuldades em força e esperança em caminho para o futuro.

Muito antes de existir o Uché Caraí, o Tempo do Branco, nossos antigos viviam de acordo com os ensinamentos da terra, das águas e dos Antepassados. O Amite, o alimento, vinha do trabalho coletivo, da caça, da pesca, dos frutos e das roças cultivadas com sabedoria. Mas os ventos da história trouxeram os Caraí, os colonizadores, e com eles chegou uma nova realidade. Era a Izutéba, a Nova Vida, cheia de mudanças, desafios e caminhos desconhecidos para o nosso povo.

Os mais velhos contam que, com o passar dos anos, aquilo que antes era abundante começou a se tornar raro. A Eicoré, a Escassez, passou a rondar as aldeias. As matas diminuíram, os territórios foram reduzidos e muitas famílias precisaram encontrar novas formas de garantir o sustento dos seus filhos. Foram tempos difíceis, em que a resistência precisou caminhar lado a lado com a Ubabani 'Esperança' .

Foi então que nossos parentes aprenderam a fortalecer a cultura da sobrevivência. Com suas próprias mãos passaram a Naté, trabalhar, produzindo o Buruhúá, os artesanatos que carregavam a memória dos ancestrais. Cada peça feita de madeira, palha, sementes ou barro não era apenas um objeto; era uma história viva, um ensinamento antigo transformado em trabalho digno para enfrentar as dificuldades do presente.

Ao mesmo tempo, o povo jamais abandonou seus cantos e suas tradições. Nas reuniões, festas e encontros entre comunidades, a Toráunie, a Dança Indígena, continuava a ecoar ao som do Toré, o Som Sagrado. O maracá chamava os parentes para o círculo, fortalecendo a união, a identidade e a amizade entre diferentes povos indígenas. Assim, a cultura não apenas sobrevivia, mas também se tornava uma ponte de aproximação e respeito.

E os anciãos ensinam que a verdadeira força dessa caminhada sempre esteve no Ucá, o Amor. Foi o amor pela família, pela comunidade, pela terra e pelos ensinamentos dos antepassados que permitiu ao povo seguir adiante. Dessa forma, entre desafios e conquistas, nasceu a Samy Widóba, a Cultura da Sobrevivência, mostrando que mesmo diante das maiores dificuldades, um povo que guarda sua memória e sua união jamais deixa de existir.

E assim, filhos e netos continuam ouvindo essas histórias para que nunca esqueçam de onde vieram. A Samy Widóba permanece viva em cada artesanato produzido, em cada canto entoado no Toré, em cada gesto de solidariedade entre parentes e em cada ensinamento transmitido pelos anciãos. Enquanto houver alguém para recordar, ensinar e praticar os valores deixados pelos Antepassados, a cultura da sobrevivência continuará caminhando junto ao povo, como um fogo sagrado que atravessa o tempo, ilumina o presente e prepara os passos das futuras gerações.




CAPÍTULO VIII - BURUHÚÁ NATICRÓRAÍ: ARTESANATOS NAS CIDADES DOS BRASILEIROS


Os mais antigos costumam reunir os mais jovens ao cair da tarde para recordar os caminhos percorridos por nossos parentes desde o tempo dos antepassados. Nessas conversas, eles ensinam que o povo Kariri-Xocó nunca viveu isolado do mundo ao redor. Assim como as águas do Opará encontram outros rios em sua caminhada, também nosso povo aprendeu a dialogar com diferentes povos e lugares. Entre essas histórias de encontros, destacam-se as viagens para as cidades dos brasileiros, onde o Buruhúá se tornou um importante mensageiro da cultura, da memória e da identidade de nossa gente.

Entre as margens do Opará e os caminhos da Terra Indígena Kariri-Xocó, existe a Natierácró, a nossa Aldeia Urbana, vizinha da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio. Desde tempos antigos, nossos parentes aprenderam a caminhar entre dois mundos: o da aldeia e o da cidade. Nessa convivência, fomos conhecendo novas formas de troca, amizade e partilha, sem jamais esquecer quem somos e de onde viemos.

Dizem os anciãos que, há muito tempo, chegavam até nosso povo os Atsemiucan, as pessoas que traziam coisas boas para vender e trocar. Vinham com utensílios, mantimentos e novidades que despertavam a curiosidade das famílias. Assim, pouco a pouco, nossos parentes também aprenderam a levar para fora da aldeia aquilo que produziam com as próprias mãos, transformando o saber ancestral em fonte de sustento e de encontro entre os povos.

Foi então que o Buruhúá, o artesanato Kariri-Xocó, ganhou caminhos cada vez mais distantes. Quando nossos jovens e nossos mestres viajavam para as Erátekié, as escolas dos brasileiros, levando consigo o canto, a dança e a força do Toré, também levavam colares, maracás, peças de madeira, sementes e outros trabalhos feitos com dedicação. Cada peça carregava um pouco da memória dos antepassados e contava, em silêncio, a história viva de nosso povo.

Em muitas dessas visitas, os brasileiros recebiam nossos artesanatos com respeito e alegria. Em retribuição, ofereciam Dipete Amiteá, doações de alimentos, e também Rocruté, roupas para ajudar as famílias da aldeia. Assim, as trocas iam além dos objetos. Eram gestos de amizade, solidariedade e reconhecimento, fortalecendo os laços construídos entre indígenas e não indígenas.

Por isso, os velhos costumam dizer que o Buruhúá é muito mais do que artesanato. Ele é uma ponte entre culturas, um mensageiro que atravessa estradas, cidades e fronteiras. Por onde passa, leva consigo a beleza dos saberes Kariri-Xocó e abre caminhos para novas amizades. Dessa forma, o Buruhúá continua unindo corações e mantendo viva a presença de nosso povo nas cidades dos brasileiros e pelo mundo afora.

A história vai sendo contada pelos guardiões da memória. Enquanto houver mãos para trançar sementes, esculpir a madeira, pintar os símbolos antigos e ensinar os mais novos, o Buruhúá continuará vivo. Cada peça produzida na aldeia carregará a voz dos ancestrais, a força do Opará e o orgulho de ser Kariri-Xocó. Por isso, quando um artesanato chega às cidades dos brasileiros, não leva apenas um objeto: leva uma parte da alma de nosso povo, que continua caminhando entre a Natierácró e a Naticróraí, preservando tradições, construindo amizades e mantendo acesa a chama da memória ancestral para as futuras gerações.






CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória apresentada nesta obra demonstra que os artesanatos Kariri-Xocó constituem muito mais do que expressões materiais da cultura. Eles representam a continuidade de conhecimentos transmitidos pelos Tokenhé, fortalecendo os vínculos entre memória, identidade e pertencimento.

Ao registrar esses saberes em forma escrita, buscamos contribuir para a valorização da cultura indígena, para o fortalecimento da memória coletiva e para a preservação de um patrimônio que continua vivo nas mãos, nas histórias e nos ensinamentos do povo Kariri-Xocó.





GLOSSÁRIO

Amite – Alimento.
Amiteá – Alimentos.
Antse – Natureza.
Atsemiucan – Vendedores ambulantes.
Arankié – Céu.
Badá – Flauta.
Bechiantse – Natureza a Roça
Buibú – Maraca, chocalho de ritmo.
Buruhúá – Artesanatos.
Buiehoho – Corpo.
Buzo – Trombeta do Toré.
Canghité – Coisas boas.
Canghito – Coisas boas de poder.
Caraí – Branco, colonizador.
Coité – Árvore da maraca.
Cópiné – Sementes.
Cró – Pedra.
Crodí – Força que sustenta o espírito.
Dakloná – Adornos.
Daklone – Colar adorno do pescoço.
Dakloeɲe – Brinco de penas.
Dakloro – Adorno do braço.
Dakloysã – Adorno das mãos, bracelete.
Daklowõ – Adorno das pernas.
Dipete – Doação.
Dzá – Dentes.
Dzuá – Águas.
Eicoré – Escassez.
Endi – Algodão.
Iaru – Flecha.
Ieendeá – Aves.
Iwodokrow – Anel de coco.
Iworópi – Pequenos círculos.
Izutéba – Nova Vida.
Hebadu – Pau de cabelo ornamento.
Kati – Abelha.
Keríá – Animais.
Maracá – Chocalho de coité ou cambuco.
Matikaí – Ritual do Aricuri.
Meá – Ossos.
Natiá –  Aldeia.
Natianie – Aldeia Indígena Tradicional.
Natiankié – Aldeia Espiritual Antepassada.
Natierácró – Aldeia urbana.
Naticróraí – Cidade dos brasileiros.
Opará – Rio São Francisco.
Pawí –  Cachimbo de pau.
Retsé – Floresta.
Samy – Cultura.
Samyba – Cultura da vida.
Samburá –  Cera de abelha.
Sané – Trabalho.
Sasá – Saia de palha de aricuri.
Seridzé – Arco.
Setí – Cordão de fio de algodão.
Songaá – Penas coloridas.
Sotikaí – Festa ao redor do fogo.
Sutuá – Árvores.
Taquara – Arbusto que estrai a vara.
Tçambusebé – Cocar dos homens.
Tçuirú – Arremedo, apito.
Tereré – Tiara de penas feminina.
To –  Poder.
Tokenhé – Antepassados.
Toráunie – Dança Indígena.
Toré – Ritual sagrado indígena.
Tsebu – Cabeça.
Tseho – Povo.
Uanieá – Indígenas.
Ucá – Amor.
Ubabani – Esperança.
Uché – Tempo.
Uttihu – Fruto, fruta.
Widóba – Sobrevivência.
Woroy – História.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/06/tokenhe-antoa-biheuche-os-antepassados.html?m=0 . Acesso 29 jun. 2026. 

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiankié: Visão Kariri Pós a Morte e Outras Tradições Antigas. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/natiankie-visao-kariri-pos-morte-e.html?m=0 . Acesso 28 jun. 2026. 

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Moradas Espirituais: Fusões de Mundos e Culturas. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/moradas-espirituais-fusoes-de-mundos-e.html?m=0 . Acesso 29 jun. 2026. 

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Crenças do Mundo Espiritual, Contos - Volume 12 - Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-kariri-xoco-crencas-do.html?m=0 . Acesso em: 30 jun. 2026. 





SOBRE O AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Atua como contador de histórias, pesquisador da tradição oral, escritor e divulgador da memória ancestral de seu povo.

É autor de diversos trabalhos voltados à preservação dos saberes indígenas, reunindo narrativas, pesquisas históricas, tradições espirituais, genealogias familiares e registros culturais fundamentados na tradição oral Kariri-Xocó.

Sua produção literária busca fortalecer a identidade indígena, valorizar a memória coletiva e contribuir para a preservação do patrimônio cultural dos povos originários do Brasil. 





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



 









domingo, 28 de junho de 2026

TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ: OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS KARIRI-XOCÓ







FALSA FOLHA DE ROSTO

TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ
OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó




FOLHA DE ROSTO

TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ
OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS KARIRI-XOCÓ
Narrativas dos Primeiros Tempos, da Criação, dos Antepassados Sagrados, dos conhecimentos ancestrais, da espiritualidade e da continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026




VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© Nhenety Kariri-Xocó, 2026.
Todos os direitos reservados.
Esta obra integra o esforço de valorização da memória ancestral, da tradição oral e do patrimônio cultural do povo Kariri-Xocó.





FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)

K18t
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
120 p.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Povos indígenas brasileiros.
Kariri-Xocó.
Mitologia indígena.
Narrativas ancestrais.
Tradição oral.
Cosmologia indígena.
CDD: 980.41



ISBN (SIMBÓLICO)

ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de estrutura editorial.)




PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 







DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus Antepassados Kariri-Xocó, guardiões da memória, da palavra e da sabedoria ancestral.

Dedico também aos anciãos que transmitiram histórias ao redor das fogueiras, aos mestres da tradição oral, às crianças que herdarão esse conhecimento e a todos aqueles que mantêm viva a identidade do nosso povo.







AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus familiares, aos mais velhos, aos mestres da cultura, aos guardiões da memória e a todos que contribuíram para a preservação dos conhecimentos ancestrais Kariri-Xocó.

Agradeço igualmente aos leitores, pesquisadores e amigos da cultura indígena que reconhecem a importância da tradição oral como patrimônio da humanidade.

Minha gratidão à Natureza, aos Antepassados e aos Ancestrais Sagrados que inspiraram esta caminhada literária.








EPÍGRAFE

"Enquanto a palavra ancestral continuar sendo contada, os Antepassados continuarão caminhando entre nós."
— Sabedoria tradicional Kariri-Xocó







PREFÁCIO DO VOLUME

Este livro reúne narrativas inspiradas na tradição oral e na memória cultural do povo Kariri-Xocó, apresentando uma visão simbólica dos Primeiros Tempos, da criação do mundo, dos conhecimentos ancestrais, dos artefatos, das práticas espirituais e da continuidade da vida indígena na atualidade.

Mais do que uma coletânea de histórias, esta obra representa um esforço de valorização da memória coletiva e do patrimônio cultural indígena, reafirmando a importância da oralidade como instrumento de preservação dos conhecimentos transmitidos entre as gerações.







RESUMO

A obra Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó apresenta um conjunto de narrativas fundamentadas na tradição oral, na memória ancestral e nos valores culturais do povo Kariri-Xocó. Ao longo de oito capítulos, são abordados temas relacionados à origem dos Antepassados Sagrados, à criação do mundo, aos adornos tradicionais, à agricultura, aos animais, à cerâmica, à espiritualidade, às celebrações comunitárias e à vida contemporânea do povo. O livro busca contribuir para a valorização da identidade indígena e para a preservação dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; ancestralidade; cosmologia indígena; memória cultural.






ABSTRACT

Tokenhé Antoá Bihéuché: The Sacred Ancestors of the First Kariri-Xocó Times presents a collection of narratives based on oral tradition, ancestral memory, and the cultural values of the Kariri-Xocó people. Through eight chapters, the book addresses the Sacred Ancestors, the creation of the world, traditional ornaments, agriculture, animals, pottery, spirituality, communal celebrations, and contemporary indigenous life. The work contributes to the preservation and appreciation of indigenous cultural heritage and ancestral knowledge.

Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; ancestry; indigenous cosmology; cultural memory.







APRESENTAÇÃO

As páginas que seguem conduzem o leitor a uma jornada pelos Primeiros Tempos, período sagrado em que os Antepassados caminharam próximos às forças criadoras do universo. Através da palavra escrita, procura-se preservar narrativas que durante gerações foram transmitidas pela oralidade, fortalecendo a identidade cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó.






SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos
Capítulo II – Ninoá Raddá Tokenhé Antoá: A Criação do Mundo pelos Antepassados Sagrados
Capítulo III – Daklonto Upuhto Antoá: Adornos do Avô Antepassado Sagrado
Capítulo IV – Canghité Bechié Keriá: Coisas Boas, Roça e os Animais
Capítulo V – Bunióto Ruñohú: Os Artefatos de Poder e a Cerâmica
Capítulo VI – Canghité Anhíantoá: Coisas Boas Espirituais
Capítulo VII – Sotikaí Netoá Tokenhé: Festa dos Agradecimentos aos Antepassados
Capítulo VIII – Hietçãdéba Moenahan: Nossa Vida Hoje
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







NOTA DO AUTOR

Esta obra foi escrita a partir do diálogo entre memória, tradição oral, pesquisa cultural e valorização dos conhecimentos indígenas. Não pretende substituir a riqueza da palavra falada, mas contribuir para sua preservação através do registro literário.







MEMÓRIA DO AUTOR

Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita, pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Ao longo dos anos tenho dedicado meus estudos à preservação da memória ancestral, registrando narrativas, tradições, manifestações culturais e conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.

Este livro nasce desse compromisso de fortalecer a identidade indígena e compartilhar com as novas gerações parte da riqueza cultural de nosso povo.






INTRODUÇÃO

Os povos indígenas preservam, através da oralidade, conhecimentos que atravessam gerações e conectam passado, presente e futuro. Entre os Kariri-Xocó, a memória ancestral permanece viva por meio das histórias narradas pelos mais velhos, dos cantos, das danças, dos rituais e dos ensinamentos transmitidos no cotidiano comunitário.

A presente obra reúne narrativas sobre os Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos, apresentando uma visão simbólica da criação do mundo, dos conhecimentos ancestrais e da continuidade da vida Kariri-Xocó. Trata-se de uma contribuição para a preservação da memória cultural e para o fortalecimento da identidade indígena.





CAPÍTULO I – TOKENHÉ ANTOÁ BIHÉUCHÉ: OS ANTEPASSADOS SAGRADOS DOS PRIMEIROS TEMPOS

Antes que os caminhos dos homens fossem conhecidos e antes que os nomes das famílias fossem pronunciados sobre a Terra, existia o tempo sagrado das origens. Era o Bihéuché, os Primeiros Tempos, quando os Antepassados Sagrados caminhavam próximos às forças criadoras do mundo e ensinavam os fundamentos da existência. As narrativas transmitidas pelos mais velhos guardaram a lembrança desses seres ancestrais, conhecidos como Tokenhé Antoá, cuja presença permanece viva na memória do povo Kariri-Xocó como fonte de sabedoria, identidade e ligação com o mundo espiritual.

No mundo antigo, a Terra ainda despertava para a existência e os caminhos do mundo começavam a ser traçados, viviam os Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados do povo Kariri-Xocó. Era o tempo chamado Bihéuché, os Primeiros Tempos, uma era envolta em mistério e sabedoria, quando os seres ancestrais caminhavam próximos das forças que davam equilíbrio à criação.

Os narradores do passado contavam que, naquele princípio, existiam Sumarãtó, os Dois Avôs, e Sumanike, as Duas Avós. Eles formavam a primeira grande família sagrada, guardiã dos conhecimentos que sustentariam a vida. Seus nomes atravessaram gerações e permaneceram vivos na memória do povo, sendo lembrados nas histórias transmitidas pelos mais velhos.

Entre os avôs estava Upuhto, o Avô do Vento, senhor das brisas, dos sopros e dos movimentos invisíveis que percorrem o mundo. Ao seu lado encontrava-se Duto, o Avô do Fogo, cuja força iluminava os caminhos e aquecia a existência. Juntos, representavam energias essenciais para a continuidade da vida e para a harmonia da criação.

Com as avós estava Nikedda, a Avó da Terra, fonte de fertilidade, abrigo e sustento para todos os seres. Com ela caminhava Dzúnike, a Avó da Água, senhora das chuvas, dos rios e das lagoas que alimentam a vida. Como mães ancestrais, elas protegiam o equilíbrio do mundo e ensinavam a importância do respeito às forças da natureza.

Dizem os guardiões da tradição que esses Antepassados Sagrados continuam vivendo na Natiankié, a Aldeia Espiritual dos Antepassados, situada no Arankié, o Céu. Lá permanecem reunidos como uma grande Antsetçoeyorã, família sagrada, observando seus descendentes e mantendo viva a ligação entre o mundo visível e o mundo espiritual. Por isso, suas histórias continuam sendo contadas, para que as novas gerações jamais esqueçam a origem dos Primeiros Tempos e a sabedoria deixada pelos Tokenhé Antoá.

Assim, os Tokenhé Antoá não pertencem apenas ao passado distante das narrativas ancestrais, mas continuam presentes na memória coletiva e na espiritualidade do povo Kariri-Xocó. Seus ensinamentos recordam que vento, fogo, terra e água são forças sagradas que sustentam a vida e unem os seres ao grande ciclo da criação. Ao preservar essas histórias, as gerações atuais mantêm viva a herança dos Primeiros Tempos, fortalecendo os laços com seus antepassados e reafirmando a continuidade de uma tradição que atravessa séculos, permanecendo guardada na palavra, na memória e no coração do povo.





CAPÍTULO II – NINOÁ RADDÁ TOKENHÉ ANTOÁ: A CRIAÇÃO DO MUNDO PELOS ANTEPASSADOS SAGRADOS

O surgimento dos povos, das matas e dos caminhos percorridos pelos ancestrais, existia apenas o tempo do grande mistério, quando os seres sagrados preparavam a ordem do mundo. Entre os Kariri-Xocó, a memória dessa origem foi transmitida de geração em geração pelos mais velhos, guardiões da palavra e do conhecimento ancestral. Esta narrativa sagrada relata como os Quatro Avô e Avó Primordiais deram forma ao universo, criando os elementos da natureza e estabelecendo a ligação profunda entre os seres humanos e todas as forças que sustentam a vida.

Nos tempos antigos, quando ainda não existiam as matas, os rios, os animais ou os seres humanos, somente os Sumarãtó e Sumanike, os Quatro Avô e Avó Sagrados, habitavam o grande mistério da existência. Eram eles os guardiões da criação e os portadores dos poderes que dariam forma ao mundo. Em seu pensamento sagrado nasceu a Ninoá, a grande criação que faria surgir todas as coisas conhecidas pelos povos da Terra.

Primeiro, Upuhto, o Avô do Vento, e Duto, o Avô do Fogo, elevaram seus poderes aos céus. De sua união surgiram as Batti, as estrelas brilhantes que passaram a iluminar a escuridão dos tempos primordiais. Cada estrela recebeu um lugar no firmamento para servir de guia aos seres que um dia caminhariam sobre a Terra, marcando os caminhos da noite e os ciclos do tempo.

Enquanto isso, Nikedda, a Avó da Terra, e Dzúnike, a Avó da Água, voltaram seus dons para o mundo que começava a nascer. De suas mãos sagradas surgiram as Ubuá, as plantas de muitas formas e utilidades. Em seguida cresceram as Retseá, as grandes florestas, repletas de vida, sombra e alimento. Por fim apareceram os Keriá, os animais, que passaram a povoar os campos, as matas, os rios e os céus.

Quando todas as coisas estavam em seus lugares e a criação encontrava-se harmoniosa, os Quatro Avô e Avó Sagrados decidiram dar origem àquele que cuidaria da obra criada. Assim nasceu Uanie, o indígena. Para formar seu corpo, Nikedda ofereceu a força da Terra; Dzúnike entregou o sangue que corre como os rios; Duto concedeu a energia que aquece e fortalece a vida; e Upuhto soprou a respiração que anima todos os seres.

Desde então, os Kariri-Xocó recordam que o ser humano carrega dentro de si os dons dos Quatro Antepassados Sagrados. O corpo pertence à Terra, o sangue pertence à Água, a energia pertence ao Fogo e a respiração pertence ao Vento. Por isso, viver em equilíbrio com a natureza é também honrar os Sumarãtó e Sumanike, pois cada elemento do mundo e cada pessoa guardam uma parte da sagrada criação realizada pelos Antepassados dos Primeiros Tempos.

No entanto, a Ninoá Raddá Tokenhé Antoá não é apenas uma história sobre o princípio de todas as coisas, mas também um ensinamento sobre a responsabilidade de viver em harmonia com a criação. Ao recordar que o corpo vem da Terra, o sangue da Água, a energia do Fogo e a respiração do Vento, os Kariri-Xocó reafirmam sua relação sagrada com a natureza e com os Antepassados dos Primeiros Tempos. Dessa forma, a memória da criação continua viva nas palavras, nos rituais e nos ensinamentos transmitidos entre as gerações, fortalecendo a identidade do povo e preservando a sabedoria deixada pelos Sumarãtó e Sumanike para todos os tempos.





CAPÍTULO III – DAKLONTO UPUHTO ANTOÁ: ADORNOS DO AVÔ ANTEPASSADO SAGRADO

Desde os Primeiros Tempos, os Antepassados ensinaram que os adornos não eram simples objetos de enfeite, mas marcas visíveis da aliança entre o povo, a natureza e os seres criadores. Cada pena, cada ornamento e cada instrumento carregava uma história recebida dos tempos sagrados, quando Upuhto, o Avô dos Ventos, caminhava entre os homens compartilhando sabedoria. Assim nasceram os Daklonto Upuhto Antoá, os adornos herdados do Avô Antepassado Sagrado, símbolos que preservam a memória dos ensinamentos antigos e reafirmam a identidade espiritual do povo Kariri-Xocó através das gerações.

No princípio quando a Terra ainda aprendia os caminhos dos homens e os homens aprendiam os caminhos da Terra, Upuhto, o Avô dos Ventos, caminhava entre seu povo espalhando ensinamentos. Sua presença era sentida na brisa suave das manhãs, no sopro forte das tempestades e no voo dos Ieende, os pássaros e aves que ele deixou como alimento e sustento para as gerações futuras. Cada ser criado por Upuhto possuía uma finalidade, e nada existia sem uma razão sagrada.

Conta a tradição que os Ieende não ofereciam apenas alimento. De suas penas coloridas e formas variadas surgiram os Dakloneá, os adornos que passaram a acompanhar os homens e mulheres em suas jornadas. Assim, aquilo que vinha do céu através do voo das aves transformava-se em beleza, identidade e ligação espiritual entre os vivos e os Antepassados dos Primeiros Tempos.

Entre esses adornos estava o Dakloro, usado nos braços para representar força, coragem e compromisso com a comunidade. Havia também o Dakloene, o adorno das orelhas, que simbolizava a capacidade de ouvir os ensinamentos dos mais velhos, os conselhos dos antepassados e os sinais da natureza. Cada peça carregava um significado que ultrapassava sua aparência material.

O Daklowõ, usado nas pernas, lembrava a importância de caminhar pelos caminhos corretos e honrar a memória ancestral. A Iaru, a flecha, e a Toriaru, a zarabatana, eram instrumentos de caça e sobrevivência, mas também símbolos da habilidade, da disciplina e da união entre o ser humano e os espíritos guardiões da floresta. Por meio delas, o povo aprendia que toda caça deveria ser realizada com respeito e gratidão.

Acima de todos os adornos destacava-se o Tçambusebé, o cocar sagrado, formado pelas penas dos Ieende. Mais do que um ornamento, ele representava proteção espiritual, sabedoria e conexão com Upuhto, o Avô dos Ventos. Quando usado em cerimônias e momentos importantes da vida coletiva, o Tçambusebé recordava que cada adorno herdado dos tempos antigos era uma marca viva da presença dos Antepassados, mantendo unidos o povo, a natureza e o mundo espiritual.

Dessa forma, os Daklonto Upuhto Antoá permanecem como herança viva dos Primeiros Tempos, transmitindo aos descendentes os valores da coragem, da escuta, da sabedoria, do respeito à natureza e da união comunitária. Em cada Dakloro, Dakloene, Daklowõ, Iaru, Toriaru e no sagrado Tçambusebé, continua presente a lembrança de Upuhto e dos Antepassados que moldaram o mundo conforme as leis da harmonia e do equilíbrio. Mais do que adornos, eles são testemunhos da memória ancestral Kariri-Xocó, guardando a ligação eterna entre os seres humanos, os Ieende, a Terra e o Grande Mistério que sustenta toda a criação.





CAPÍTULO IV – CANGHITÉ BECHIÉ KERIÁ: COISAS BOAS, ROÇA E OS ANIMAIS

Após aprenderem a viver em comunidade e estabelecerem os fundamentos da aldeia, os Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos, voltaram seus ensinamentos para aquilo que sustentaria a continuidade da vida: a relação respeitosa com a terra, as plantas e os animais. Neste capítulo, são narradas as origens da Bechié, a roça sagrada, das Cópiné, as sementes que alimentam o povo, e dos Keriá, os animais que compartilham o mundo criado pelos primeiros seres. São memórias ancestrais que revelam como o trabalho coletivo, a gratidão à natureza e o equilíbrio entre todos os seres tornaram-se valores fundamentais na formação do modo de viver Kariri-Xocó.

Os Tokenhé, nossos Antepassados Sagrados, caminhavam sobre a terra recém-organizada, reuniam-se ao redor do Buyê, a Grande Fogueira. Ali, sob o brilho das chamas e o céu estrelado, contavam os Woroyá, as histórias que guardavam a memória dos primeiros tempos. Era nesse círculo de sabedoria que os Uanieá aprendiam os Swbatekié, os conhecimentos transmitidos de geração em geração, fortalecendo os laços entre o povo, os espíritos e a natureza.

Depois de erguerem a Picriá, a grande casa coletiva, os Antepassados estabeleceram a Natiá, a aldeia onde as famílias viveriam em união. Aquele espaço tornou-se o centro da vida comunitária, onde todos compartilhavam trabalho, alimento, ensinamentos e celebrações. A aldeia crescia cercada pelos sons da floresta e pela presença constante dos seres que habitavam o mundo criado pelos primeiros tempos.

Com o passar das estações, os Tokenhé perceberam que era necessário ampliar os lugares de sustento. Assim, abriram uma nova clareira na Retsé, a floresta sagrada. Com respeito à terra, iniciaram a Bechié, a roça, preparando o solo para receber as sementes que garantiriam a vida do povo. Cada etapa era realizada com cuidado, pois sabiam que a terra era uma dádiva dos Antepassados e deveria ser tratada com gratidão.

Nas roças, foram plantadas as Cópiné, as sementes das boas plantas que alimentavam as famílias. Entre elas estavam o Masiche, o milho, e o Ghinhé, o feijão, além de muitas outras espécies cultivadas para sustentar a comunidade. Quando chegavam as chuvas e o tempo da colheita, a abundância era celebrada como um presente da terra e do trabalho coletivo, fortalecendo a união entre todos os moradores da aldeia.

Enquanto as roças cresciam, a Retsé permanecia cheia de vida. Nela habitavam os Keriá, os animais que compartilhavam o território com os seres humanos. Entre eles estavam o Buké, o veado do mato, o Suét, o tatu, e o Kaplan, o jabuti, além de muitas outras criaturas. Os Antepassados ensinavam que cada animal possuía seu lugar e sua importância no equilíbrio do mundo. Assim, a aldeia, a roça e a floresta formavam uma única família, unida pelos ensinamentos antigos e pelo respeito à vida em todas as suas formas.

Na tradição oral, os ensinamentos dos Antepassados permaneceram vivos na aldeia, na floresta e nas roças cultivadas pelas gerações que vieram depois. Os Tokenhé ensinaram que a abundância não nasce apenas da força das mãos, mas também do respeito pela terra, pelas sementes e pelos animais que compartilham a criação. Desde os primeiros tempos, a Bechié, a Retsé e os Keriá passaram a representar uma mesma teia de vida, sustentada pela harmonia entre os seres. Dessa forma, os conhecimentos transmitidos ao redor do Buyê continuaram iluminando o caminho do povo Kariri-Xocó, fortalecendo a memória ancestral e a responsabilidade de cuidar do mundo deixado pelos antigos.





CAPÍTULO V – BUNIÓTO RUÑOHÚ: OS ARTEFATOS DE PODER E A CERÂMICA

Neste capítulo adentramos um dos mais antigos legados deixados pelos Tokenhé Antoá Bihéuché, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos: os Bunióto, os artefatos de poder que uniam o mundo material ao espiritual. Entre esses conhecimentos destaca-se a Ruñohú, a arte da cerâmica, por meio da qual o barro da Antse, a Mãe Natureza, era transformado em instrumentos indispensáveis à vida cotidiana e aos rituais da comunidade. Mais do que simples objetos, essas peças guardavam ensinamentos, memórias e significados sagrados, tornando-se testemunhos da sabedoria ancestral transmitida aos Kariri-Xocó desde os tempos primordiais.

Os Antepassados Sagrados, conhecidos pelos antigo Kariri como Tokenhé, eles caminhavam entre as Atseá, as Pessoas, transmitindo muitos conhecimentos que garantiam a sobrevivência e a harmonia do povo com a Antse, a Natureza. Foi nesse tempo primordial que homens e mulheres aprenderam os caminhos necessários para viver, alimentar suas famílias e preservar as tradições que atravessariam as gerações.

Os homens receberam dos Tokenhé os ensinamentos da Uaplu, a arte da caça, e da Mydzé, a arte da pesca. Com habilidade, aprenderam a utilizar o Seridzé, o arco, instrumento que permitiam caçar os Keriá, os animais da mata, e capturar os Wãmyá, os peixes das águas com o Yaclaro, o anzol. Esses conhecimentos eram vistos como presentes sagrados, pois garantiam o alimento e fortaleciam a ligação entre o povo e os seres da natureza.

As mulheres, por sua vez, receberam um ensinamento igualmente importante: a arte da Ruñohú, a cerâmica. Com as mãos moldavam o barro retirado da terra, transformando-o em objetos úteis para a vida cotidiana. Assim surgiam a Runhú, a panela de barro onde os alimentos eram preparados; a Ruño, o pote para guardar água e mantimentos; e o Aribé, o prato utilizado nas refeições da comunidade.

Entre as peças produzidas, havia também a Buiú, a talha funerária destinada aos rituais de sepultamento. Nela eram depositados os mortos, seguindo costumes ancestrais que demonstravam respeito pela passagem da vida para o mundo espiritual. Essas talhas guardavam não apenas os corpos, mas também a memória daqueles que haviam retornado ao caminho dos Antepassados.

Os Tokenhé ensinaram que os Bunióto, os artefatos sagrados, possuíam diferentes formas de poder. Alguns carregavam força espiritual, conectando as pessoas aos mistérios do mundo invisível; outros ofereciam utilidade para as tarefas do dia a dia. A cerâmica reunia essas duas dimensões, pois servia à vida material e, ao mesmo tempo, participava dos rituais da memória e da ancestralidade. Assim, o barro transformado pelas mãos humanas tornou-se um símbolo da sabedoria deixada pelos Antepassados para as gerações futuras.

Nesse modo, os Bunióto Ruñohú permanecem na memória do povo Kariri-Xocó como herança viva dos Tokenhé. Em cada panela moldada, em cada pote destinado à água, em cada talha funerária preparada com respeito, encontra-se a presença dos ensinamentos ancestrais que orientaram a vida das primeiras gerações. A cerâmica tornou-se um elo entre passado, presente e futuro, preservando não apenas técnicas e conhecimentos, mas também a identidade, a espiritualidade e a memória coletiva do povo. Dessa forma, o barro transformado pelas mãos humanas continua a narrar a história sagrada daqueles que aprenderam com os Antepassados a viver em equilíbrio com a Natureza e com os mistérios do mundo invisível.





CAPÍTULO VI – CANGHITÉ ANHÍANTOÁ: COISAS BOAS ESPIRITUAIS

Após ensinarem ao Tseho os caminhos da sobrevivência, da agricultura, dos animais e da organização da vida comunitária, os Tokenhé compreenderam que a existência humana somente estaria completa quando também fosse fortalecida a dimensão espiritual. Assim, este capítulo narra o momento em que os Antepassados Sagrados entregaram ao povo os conhecimentos e objetos que permitiriam manter viva a comunicação com as forças sagradas da criação. São ensinamentos que transcendem o mundo material e revelam como a memória, a oração, a música, os cantos e as danças passaram a ocupar um lugar central na preservação da identidade e da espiritualidade dos primeiros Kariri-Xocó.

Quando a Natiá, a Aldeia primordial, já possuía os caminhos da vida, os ensinamentos da roça, os animais e tudo o que sustentava o povo, os Tokenhé, os Antepassados Sagrados, perceberam que ainda faltava algo essencial para completar a existência humana. O corpo já tinha alimento, a terra já oferecia seus frutos e as famílias conheciam os caminhos da sobrevivência. Contudo, era necessário fortalecer também o espírito, para que a ligação entre as Pessoas, a Natureza e os próprios Antepassados permanecesse viva através dos tempos.

Foi então que os Tokenhé reuniram os dons sagrados que receberam nos primeiros tempos e os entregaram ao Tseho, o Povo. Esses ensinamentos receberam o nome de Canghité Anhíantoá, as Coisas Boas Espirituais. Não eram objetos comuns, mas presentes carregados de sabedoria, memória e força ancestral, destinados a manter viva a harmonia entre o mundo visível e o mundo dos espíritos.

Entre esses dons estava o Pawí, o Cachimbo de Pau, usado para elevar pensamentos e intenções aos seres sagrados. Junto dele veio o Tané, o Fumo, que acompanhava momentos de oração, reflexão e respeito aos ensinamentos antigos. Os Antepassados ensinaram que esses elementos deveriam ser utilizados com reverência, pois eram pontes que aproximavam as pessoas da presença espiritual dos Tokenhé.

Também foram entregues o Buibú, a Maraca, e o Badá, a Flauta. Seus sons não serviam apenas para alegrar a aldeia, mas para despertar a memória dos primeiros tempos e reunir a comunidade em torno das tradições sagradas. Quando seus instrumentos ecoavam pelo território, homens, mulheres, crianças e anciãos recordavam os ensinamentos recebidos dos Antepassados e renovavam os laços que uniam todas as gerações.

Por fim, os Tokenhé ofereceram ao povo o Wonhé, os Cantos e Danças Sagradas. Então os Uanieá, os Indígenas, reuniram-se para celebrar aquele momento e entoaram o canto ancestral: “Wonhé Xá Tokenhé Atá, Xá Tokenhé Atá, Xá Tokenhé Atá; Xá Tokenhé, Teké Sá”, lembrando que os Antepassados caminham eternamente ao lado de seu povo e que novas gerações continuam nascendo para guardar e transmitir a herança sagrada recebida desde os primeiros tempos.

Desde então, o Canghité Anhíantoá permaneceu como um dos mais preciosos legados dos Tokenhé para as gerações futuras. O cachimbo, o fumo, a maraca, a flauta, os cantos e as danças sagradas tornaram-se expressões vivas da presença ancestral, renovando continuamente os laços entre os Uanieá, a Natureza e os espíritos dos primeiros tempos. Através dessas práticas, a memória dos Antepassados continua atravessando os séculos, ensinando que a verdadeira força de um povo não reside apenas em sua sobrevivência material, mas também na capacidade de preservar sua espiritualidade, sua tradição e sua conexão sagrada com aqueles que vieram antes.





CAPÍTULO VII – SOTIKAÍ NETOÁ TOKENHÉ: FESTA DOS AGRADECIMENTOS AOS ANTEPASSADOS

A vida dos antigos Uanieá era guiada pelo respeito aos ensinamentos recebidos dos Tokenhé, os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos. Cada colheita, cada caçada, cada pescaria e cada gesto de partilha eram vistos como heranças deixadas por aqueles que ensinaram a viver em harmonia com a terra, as águas e os seres da natureza. Para manter viva essa ligação sagrada entre as gerações, realizava-se a Sotikaí Netoá Tokenhé, uma celebração dedicada à gratidão, à memória e ao fortalecimento dos laços que uniam o povo aos seus ancestrais.

Desde os tempos antigos, os Uanieá, o povo indígena, mantinham viva a lembrança dos Tokenhé, os Antepassados Sagrados que haviam ensinado os caminhos da vida. Em sinal de respeito e gratidão por tudo o que haviam recebido, realizavam a Sotikaí Netoá Tokenhé, a grande Festa dos Agradecimentos aos Antepassados. Era um momento de união, memória e celebração, quando toda a comunidade se reunia para honrar aqueles que vieram antes.

Nos dias que antecediam a festa, homens, mulheres e jovens se organizavam para reunir os alimentos que seriam oferecidos durante a celebração. Na Bechié, a roça, muitos participavam da Curoté, a colheita dos Uanhí Tdjeá, recolhendo lavouras, legumes e tudo aquilo que a terra havia produzido com fartura. Cada fruto colhido era visto como uma dádiva deixada pelos ensinamentos dos antigos.

Enquanto alguns permaneciam nos campos, outros seguiam para a floresta em uma Uaplu, a caçada. Caminhavam pelos caminhos da mata observando os sinais da natureza e respeitando os espíritos que habitavam cada lugar. Ao mesmo tempo, grupos dirigiam-se aos rios e lagoas para a Mydzé, a pescaria, buscando peixes que também fariam parte do grande banquete comunitário.

Quando todos retornavam, a aldeia enchia-se de alegria. As Runhúá, as panelas, eram colocadas sobre o fogo, e os alimentos eram preparados com dedicação. Logo, as Aribé, os pratos, ficavam repletos de comidas variadas. Crianças, adultos e anciãos compartilhavam juntos a Amí, a comida, fortalecendo os laços de parentesco e amizade que uniam toda a comunidade.

Ao final da celebração, os agradecimentos eram expressos através do Wonhé, os cantos e danças sagradas, que ecoavam pela aldeia como uma homenagem aos Tokenhé. Os corpos ornamentados com Hibuyêwoho, a pintura corporal, refletiam a beleza e a espiritualidade daquele momento. Assim, a Sotikaí Netoá Tokenhé tornava-se mais do que uma festa: era a renovação da memória ancestral, da gratidão e da união entre os vivos, a natureza e os Antepassados Sagrados.

Ao longo dos tempos, a Sotikaí Netoá Tokenhé permaneceu como um símbolo da continuidade da vida e da força da memória ancestral. Por meio da partilha dos alimentos, dos cantos sagrados, das danças e das pinturas corporais, os Uanieá reafirmavam seu compromisso de preservar os ensinamentos recebidos dos Tokenhé. A festa ensinava que nenhum povo caminha sozinho, pois os passos do presente são guiados pela sabedoria daqueles que vieram antes. Assim, a celebração renovava a união entre a comunidade, a natureza e os Antepassados Sagrados, mantendo acesa a chama da tradição para as gerações futuras.





CAPÍTULO VIII – HIETÇÃDÉBA MOENAHAN: NOSSA VIDA HOJE

Os Kariri-Xocó atravessaram no tempo muitas transformações, enfrentaram desafios, acolheram novos conhecimentos e aprenderam a dialogar com diferentes mundos sem abandonar suas raízes. Hoje, vivemos em uma época marcada pela presença de tecnologias, meios de comunicação e recursos que aproximam povos e culturas. No entanto, mesmo diante dessas mudanças, permanecemos ligados à sabedoria dos nossos Antepassados Sagrados, que continuam orientando nossos caminhos. Este capítulo apresenta a vida atual do povo Kariri-Xocó, mostrando como tradição e modernidade caminham juntas na construção da nossa identidade coletiva.

Nos tempos atuais, o povo Kariri-Xocó convive com muitas das tecnologias e conhecimentos que chegaram por meio do contato com os Caraí, os não indígenas. Em nosso cotidiano utilizamos o Warudókli, a televisão, o Crametekié, o computador, a Piteiatekié, a internet, a Hinebakró, a energia elétrica, e os Tokliddaysã, os celulares. Essas ferramentas passaram a fazer parte da vida das famílias e ajudam na comunicação, no trabalho, nos estudos e na troca de conhecimentos com o mundo.

Também utilizamos os Rocruté, as roupas de pano, e viajamos por diferentes lugares utilizando o Ibáchi, os carros e ônibus. Assim como outros povos, aprendemos a conviver com as transformações trazidas pelo tempo, incorporando novos recursos que facilitam a vida diária. Essas mudanças fazem parte da caminhada dos povos e mostram a capacidade de adaptação diante das novas realidades.

Entretanto, mesmo vivendo em um mundo cada vez mais conectado, nunca deixamos de valorizar aquilo que recebemos dos nossos Antepassados. Nossa Samy, a cultura, continua viva em nossas aldeias, sendo ensinada às crianças e preservada pelos mais velhos. Os Uanhoá, os costumes tradicionais, permanecem orientando nossa forma de viver, fortalecendo os laços entre as famílias e a comunidade.

Entre as expressões mais importantes dessa herança está o Toráunie, a dança indígena, realizada através do Toré, o Som Sagrado da Flauta. Durante as celebrações, homens, mulheres, jovens e crianças se reúnem para cantar, dançar e recordar os ensinamentos transmitidos pelos antigos. O Toré continua sendo um elo entre o presente e a memória ancestral, renovando a identidade do povo a cada geração.

Além disso, mantemos viva a produção do Buruhúá, o artesanato, da Ruñohú, a cerâmica, e dos Dakloná, os adornos tradicionais. Essas expressões carregam histórias, saberes e símbolos que representam nossa origem. Mesmo após séculos de mudanças e desafios, jamais esquecemos quem somos. Seguimos caminhando entre o antigo e o novo, preservando a memória dos nossos Antepassados e afirmando com orgulho a identidade do povo Kariri-Xocó.

A história dos Tokenhé Antoá Bihéuché não pertence apenas ao passado, mas continua viva no presente e seguirá acompanhando as futuras gerações. Em cada canto do Toré, em cada peça de artesanato, em cada palavra ensinada aos mais jovens e em cada gesto de respeito à memória ancestral, permanece acesa a chama deixada pelos Primeiros Tempos. Vivemos em um mundo em constante transformação, mas seguimos firmes na preservação da nossa Samy e dos nossos Uanhoá, honrando aqueles que vieram antes de nós. Dessa forma, o povo Kariri-Xocó continua escrevendo sua própria história, caminhando entre o antigo e o novo, com orgulho de sua origem, força em sua identidade e confiança no futuro que ainda será construído pelos filhos e netos da nossa Nação.






CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao concluir esta jornada pelos Primeiros Tempos, percebemos que os Tokenhé Antoá Bihéuché permanecem vivos na memória, na espiritualidade e na identidade do povo Kariri-Xocó. Seus ensinamentos ultrapassam o tempo e continuam orientando as relações entre as pessoas, a natureza e o mundo espiritual.
Este livro não representa um ponto final, mas um convite para que novas gerações continuem registrando, preservando e compartilhando os conhecimentos ancestrais. Enquanto a memória permanecer viva, os Antepassados continuarão caminhando ao lado de seu povo.







GLOSSÁRIO 



Anhíantoá – Espíritos sagrados. 

Arankié – Céu. 

Antoá – Sagrados.

Antse – Natureza.

Antsetçoeyorã – Família da Natureza. 

Aribé – Prato de barro. 

Atseá – Pessoas. 

Badá – Flauta.

Batti – Estrelas, ano.

Bechié – Roça.

Bihéuché – Primeiros Tempos.

Buibú – Maraca.

Buké – O veado do mato. 

Bunióto – Artefatos de poder. 

Buiú – Urna funerária. 

Buyê – Grande Fogueira.

Canghité – Coisas boas.  

Caraí – Brancos, colonizadores. 

Cópiné – Sementes. 

Crametekié –Computador. 

Dakloneá – Os adornos. 

Dakloro – Adorno dos braços.

Dakloene – Adorno das orelhas, brincos.

Dakloná – Adornos tradicionais. 

Daklonto – Adornos de poder.

Daklowõ – Adorno das pernas. 

Duto – Avô do Fogo.

Dzúnike – Avó da Água.

Kaplan – Jabuti. 

Keriá – Animais.

Iaru – Flecha.

Ibáchi – Carros e ônibus. 

Ieende – Pássaro. 

Ghinhé – Feijão. 

Hibuyêwoho – Pintura corporal. 

Hinebakró – Energia elétrica. 

Masiche – Milho. 

Mydzé – Pesca, pescaria. 

Natiá – Aldeia.

Natiankié – Aldeia Espiritual dos Antepassados.

Netoá – Agradecimentos. 

Nikedda – Avó da Terra. 

Ninoá – A grande criação.

Pawí – Cachimbo de pau. 

Picriá – A grande casa coletiva. 

Piteiatekié – Internet. 

Retseá – Florestas.

Retsé – Floresta. 

Rocruté – Roupa de pano. 

Ruño – Pote de barro. 

Ruñohú – Cerâmica.

Runhú – Panela de barro. 

Samy – Cultura.

Seridzé – Arco. 

Sotikaí – Festa ao redor do fogo.

Suét –Tatu. 

Sumanike – Duas Avós.

Swbatekié – Conhecimento. 

Sumarãtó – Dois Avôs.

Tané – Fumo. 

Tçambusebé – Cocal de penas. 

Tokenhé – Antepassados.

Tokliddaysã – Telefone Celular. 

Toráunie – Dança indígena. 

Toriaru – Zarabatana. 

Toré – Som sagrado da flauta.

Tseho – Povo. 

Tdjeá – Lavouras e legumes. 

Uanhoá – Costumes tradicionais.

Uanie – Indígena. 

Uanieá – Indígenas. 

Uaplu – A arte da caça. 

Ubuá – Plantas. 

Upuhto – Avô do Vento.

Warudókli – Televisão. 

Wãmyá – Peixes. 

Wonhé – Cantos e danças sagradas.

Woroyá – Histórias.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Antsetçoeyorã, A Grande Família da Natureza. Disponível em: 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Bechiantse, Natureza é a Roça. Disponível em:


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiá, A Aldeia Original dos Kariri. Disponível em: 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Utudjekaraí, Os Donos das Frutas dos Brancos. Disponível em : 






SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é escritor, pesquisador da memória indígena, contador de histórias oral e escrita e membro do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Dedica-se ao registro da tradição oral, da história, da cultura e da ancestralidade de seu povo por meio de livros, pesquisas e publicações culturais.

Sua produção literária busca fortalecer a preservação dos conhecimentos indígenas e contribuir para a valorização da diversidade cultural brasileira, mantendo viva a memória dos Antepassados para as gerações presentes e futuras.




             




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



 


quinta-feira, 25 de junho de 2026

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE







FALSA FOLHA DE ROSTO

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE




FOLHA DE ROSTO

TORÉ KARIRI-XOCÓ: MEMÓRIA, CULTURA E ESPIRITUALIDADE
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© Nhenety Kariri-Xocó, 2026.
Todos os direitos reservados.
Obra dedicada à preservação da memória cultural, histórica e espiritual do povo Kariri-Xocó.





FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)

Kariri-Xocó, Nhenety.
Toré Kariri-Xocó: memória, cultura e espiritualidade / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.
xx p.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Povos indígenas. 2. Kariri-Xocó. 3. Toré. 4. Cultura indígena. 5. Memória oral. 6. Espiritualidade indígena.
CDD: 980.41




ISBN (SIMBÓLICO)

ISBN: 978-65-0000-000-0






PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.






ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 







DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri e Xocó, guardiões dos cantos, das histórias e dos caminhos que conduziram nosso povo através dos séculos. Dedico também às crianças, jovens e futuros guardiões da memória, para que jamais se apague a chama do conhecimento herdado dos antigos.







AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos ancestrais que preservaram os saberes transmitidos pela tradição oral. Aos anciãos e anciãs que compartilharam suas memórias, aos parentes Kariri-Xocó que mantêm viva a cultura do Toré e a todos aqueles que contribuíram para a construção desta obra.

Registro igualmente minha gratidão às ferramentas contemporâneas de pesquisa e escrita que auxiliaram na organização e preservação desses conhecimentos, permitindo que a memória ancestral alcance novas gerações.






EPÍGRAFE

"Enquanto houver quem cante o Toré, os ancestrais continuarão caminhando entre seu povo."
— Tradição Oral Kariri-Xocó







PREFÁCIO

O presente livro constitui um importante registro da memória cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó. Por meio dos cantos do Toré, o autor reúne narrativas, lembranças e conhecimentos preservados pela tradição oral, demonstrando como a cultura indígena permanece viva através das gerações.

Mais do que uma descrição de práticas culturais, esta obra apresenta uma visão de mundo construída pela relação entre comunidade, ancestralidade, natureza e espiritualidade. Cada capítulo representa um fragmento da memória coletiva transformado em registro escrito para fortalecer a preservação dos saberes tradicionais.







RESUMO

Esta obra apresenta um estudo descritivo sobre os principais cantos tradicionais do Toré Kariri-Xocó, abordando seus significados culturais, históricos e espirituais. Por meio da tradição oral, da memória coletiva e dos conhecimentos ancestrais, são analisados oito torés associados a diferentes momentos da vida comunitária, incluindo casamento, despedida dos mortos, celebração das vitórias, acolhimento de visitantes, colheitas, chuvas e devoções religiosas. O trabalho busca contribuir para a preservação da memória indígena e para a valorização do patrimônio cultural do povo Kariri-Xocó.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; Toré; Memória; Cultura Indígena; Espiritualidade.






ABSTRACT

This work presents a descriptive study of the main traditional Toré chants of the Kariri-Xocó people, addressing their cultural, historical and spiritual meanings. Through oral tradition, collective memory and ancestral knowledge, eight Toré chants associated with different moments of community life are analyzed, including marriage, funerary rites, celebrations of victories, welcoming ceremonies, harvests, rains and religious devotions. The work seeks to contribute to the preservation of Indigenous memory and to the appreciation of the cultural heritage of the Kariri-Xocó people.

Keywords: Kariri-Xocó; Toré; Memory; Indigenous Culture; Spirituality.






APRESENTAÇÃO

O Toré constitui uma das mais importantes expressões culturais dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os Kariri-Xocó, ele representa um patrimônio vivo que reúne música, dança, espiritualidade, memória e identidade coletiva.

Esta obra busca registrar parte desse patrimônio por meio de oito capítulos dedicados a diferentes modalidades de Toré preservadas na memória oral da comunidade.







SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Toré do Piwonhé: O Canto da Memória Ancestral
Capítulo II – Toré Wonhénhá: O Canto da Memória e da Despedida
Capítulo III – Toré Uide: Os Cantos da Vitória e da Resistência
Capítulo IV – Toré Wontseho Atseá: Os Cantos de Boas-Vindas e a Celebração da Fraternidade
Capítulo V – Toré Santoá Usarunghí: Entre a Fogueira e a Colheita na Tradição Kariri-Xocó
Capítulo VI – Toré Curoté: O Canto da Celebração na Fartura do Milho Verde
Capítulo VII – Toré Dzóá: O Canto das Chuvas e a Memória Ancestral das Águas
Capítulo VIII – Toré Hietçãdékiete: O Canto da Padroeira e o Encontro das Tradições Espirituais
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







NOTA DO AUTOR

Este livro foi elaborado a partir de pesquisas, memórias familiares, relatos de anciãos, experiências culturais e estudos desenvolvidos ao longo dos anos. Não pretende encerrar o conhecimento sobre o Toré, mas contribuir para sua valorização e preservação.






MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci entre histórias, cantos e lembranças preservadas pelos mais velhos do povo Kariri-Xocó. Desde a infância ouvi narrativas sobre os antigos troncos familiares, os encantados, os rituais e os acontecimentos que marcaram a trajetória de nossa comunidade.

Ao longo dos anos compreendi que registrar essas memórias significa fortalecer a identidade de nosso povo e garantir que os ensinamentos ancestrais permaneçam vivos para as futuras gerações.






INTRODUÇÃO

O Toré ocupa posição central na vida cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó. Presente em celebrações, cerimônias, momentos de passagem, acolhimentos e manifestações de fé, ele constitui uma importante forma de transmissão de conhecimentos ancestrais.

Este livro apresenta oito expressões do Toré preservadas pela tradição oral, buscando compreender seus significados históricos, simbólicos e comunitários.





CAPÍTULO I – TORÉ DO PIWONHÉ: O CANTO DA MEMÓRIA ANCESTRAL


O Toré do Piwonhé ocupa um lugar especial na tradição oral do povo Kariri-Xocó, reunindo canto, dança, espiritualidade e memória coletiva em uma única manifestação cultural. Transmitido pelos mais velhos às novas gerações, esse toré preserva ensinamentos ancestrais, lembranças dos antigos caminhos percorridos pelo povo e a profunda relação entre os seres humanos, a natureza e as forças sagradas que orientam a vida da comunidade. Ao longo deste capítulo, serão apresentados os relatos, significados e lembranças associados ao Toré do Piwonhé, destacando sua importância para a identidade cultural e para a continuidade das tradições Kariri-Xocó.

Na memória do povo Kariri-Xocó, o casamento representava um dos momentos mais importantes da vida comunitária. Antes de se unir à sua companheira, o rapaz precisava demonstrar que estava preparado para formar uma nova família. Para isso, com a ajuda dos parentes e do mutirão da aldeia, construía sua erá (casa) e mantinha sua bechiéá (roça), cultivando legumes e outros alimentos necessários ao sustento do futuro lar.

Somente depois de cumprir essas responsabilidades o jovem e a moça podiam realizar o piwonhé (casamento). A união não era vista apenas como um compromisso entre duas pessoas, mas como um acontecimento de interesse coletivo, pois fortalecia os laços da comunidade e garantia a continuidade do povo por meio das futuras gerações.

Marcado o grande dia, iniciava-se a festa no Toré. Ao redor da fogueira, homens, mulheres, crianças e anciãos cantavam, dançavam e celebravam durante toda a noite. O som dos maracás, as cantigas tradicionais e a presença dos familiares transformavam aquele momento em uma verdadeira cerimônia de alegria, união e reconhecimento social.

Quando a madrugada avançava e o novo dia surgia, a festa continuava na porta da casa recém-construída. Ali, diante de todos, o povo reconhecia oficialmente o casal como uma nova unidade familiar. Era também uma forma de desejar prosperidade, harmonia e muitos filhos que viessem fortalecer a comunidade e preservar as tradições ancestrais.

Após o encerramento do Toré, realizava-se uma grande partilha de alimentos produzidos na roça. Todos participavam da refeição coletiva e celebravam a abundância conquistada pelo trabalho comum. Em seguida, na presença dos pais e dos avós, o casal recebia as bênçãos dos mais velhos, levando consigo os ensinamentos, a proteção espiritual e os votos de uma vida longa e feliz dentro da comunidade Kariri-Xocó.

Mais do que um simples canto ritual, o Toré do Piwonhé representa um elo vivo entre passado, presente e futuro. Em cada passo da dança, em cada voz que entoa seus versos e em cada ensinamento transmitido pelos anciãos, permanecem guardadas as memórias e os valores que sustentam a existência do povo Kariri-Xocó. Sua preservação fortalece a identidade coletiva, reafirma o respeito aos ancestrais e garante que a sabedoria herdada continue iluminando os caminhos das futuras gerações, mantendo viva a história e a espiritualidade do povo.





CAPÍTULO II – TORÉ WONHÉNHÁ: O CANTO DA MEMÓRIA E DA DESPEDIDA


Entre os Kariri-Xocó, a morte não representa o fim da existência, mas a passagem para outra etapa da caminhada espiritual. Desde tempos antigos, os ensinamentos dos ancestrais orientam que cada pessoa deixa sua marca na comunidade por meio de suas ações, palavras e exemplos. Nesse contexto, o Toré Wonhénhá ocupa um lugar especial na tradição, pois reúne a memória coletiva, o respeito aos que partiram e a valorização do legado deixado por cada membro do povo. Por meio dos cantos sagrados, das narrativas compartilhadas e dos rituais de despedida, a comunidade reafirma seus vínculos com os antepassados e fortalece a continuidade de sua identidade cultural.

Na Cultura dos Kariri-Xocó, cada pessoa deixa suas marcas no caminho da vida. Desde o nascimento até os últimos dias, o homem ou a mulher constrói sua história por meio de suas ações, de seu trabalho e de sua convivência com a comunidade. Uns são lembrados como grandes pescadores das águas do Velho Chico, outros como caçadores habilidosos, agricultores dedicados, ceramistas talentosos ou guardiões das tradições. Essas histórias, chamadas de woroyá, permanecem vivas na memória do povo e ajudam a definir o legado de cada pessoa.

Quando chega o momento da partida e alguém encerra sua caminhada na Terra, a aldeia se reúne em respeito e lembrança. Durante a noite que antecede o sepultamento, a família acende uma fogueira diante da casa. O fogo ilumina a escuridão e reúne parentes, amigos e vizinhos ao redor de suas chamas, criando um espaço de memória e reflexão.

Ao redor da fogueira, começam os relatos sobre a vida daquele que partiu. São recordadas suas lutas, suas alegrias, seus ensinamentos e as contribuições que deixou para a comunidade. Cada palavra fortalece a lembrança de quem viveu entre seu povo e ajuda os mais jovens a compreenderem a importância de honrar os costumes herdados dos antepassados.

Com o amanhecer do novo dia, chega a hora da despedida final. Antes que o cortejo siga para o local do enterro, são entoados três cantos sagrados de Toré conhecidos como Wonhénhá, o Canto do Morto. As vozes ecoam pela aldeia, levando consigo o respeito, a gratidão e o reconhecimento pela trajetória daquele que cumpriu sua missão entre os seus.

Assim, o Toré Wonhénhá não representa apenas uma despedida, mas também uma celebração da memória. Por meio dos cantos e das histórias compartilhadas, a vida da pessoa continua presente no coração da comunidade. Dessa forma, os Kariri-Xocó reafirmam que ninguém parte sem deixar seus ensinamentos, e que a memória dos ancestrais permanece viva enquanto suas histórias continuarem sendo contadas.

O Toré Wonhénhá revela a profunda sabedoria dos Kariri-Xocó ao transformar a despedida em um momento de união, reflexão e preservação da memória ancestral. Ao redor da fogueira, nas histórias contadas e nos cantos entoados antes do sepultamento, permanece viva a certeza de que a trajetória de cada pessoa continua presente na lembrança de seu povo. Assim, o Wonhénhá não apenas honra aqueles que partiram, mas também ensina às novas gerações o valor da coletividade, da gratidão e da continuidade dos saberes tradicionais. Enquanto houver quem recorde e compartilhe essas histórias, os ancestrais permanecerão caminhando ao lado de seu povo, fortalecendo a identidade e a espiritualidade Kariri-Xocó.





CAPÍTULO III — TORÉ WIDE: OS CANTOS DA VITÓRIA E DA RESISTÊNCIA


O Toré Uide ocupa um lugar especial na memória e na tradição do povo Kariri-Xocó, pois reúne os cantos que celebram as conquistas alcançadas ao longo das gerações. Mais do que simples manifestações de alegria, esses cantos representam a gratidão coletiva diante das vitórias conquistadas pelo esforço, pela união e pela proteção dos ancestrais e encantados. Em cada época da história, o Toré Uide acompanhou os momentos de superação, renovando a esperança e fortalecendo o sentimento de pertencimento à comunidade.

O Canto da Vitória, não é um único canto, mas um conjunto de cantos comemorativos que acompanham as conquistas do povo ao longo do tempo. Desde os tempos mais antigos, os indígenas celebram seus momentos de alegria e realização através do toré. Cada vitória alcançada, grande ou pequena, torna-se motivo para reunir a comunidade em cantos, danças e agradecimentos, fortalecendo os laços entre as pessoas e a memória dos ancestrais.

Quando os caçadores retornavam trazendo alimento para suas famílias, quando as roças ofereciam boas colheitas ou quando uma nova aldeia era construída com o esforço coletivo, o povo reunia-se para festejar. Os maracás ecoavam pelo terreiro, os cantos se elevavam ao céu e os dançadores formavam o círculo sagrado do toré, celebrando a abundância e a união da comunidade.

Nas épocas de luta, o Toré Uide também marcava presença. Depois de enfrentar dificuldades, proteger o território ou superar desafios que surgiam pelo caminho, a comunidade celebrava sua resistência. A vitória não pertencia apenas a uma pessoa, mas a todos aqueles que haviam contribuído para o bem-estar e a continuidade do povo.

Com a passagem dos anos, novas formas de conquista surgiram. Além das vitórias relacionadas à caça, à agricultura e à organização da aldeia, passaram a ser comemoradas as conquistas dos direitos indígenas, a valorização da cultura tradicional, a preservação da identidade e o reconhecimento dos saberes ancestrais. Cada boa notícia tornava-se motivo para novos cantos e celebrações.

Assim, o Toré Uide permanece vivo através de diversos cantos de comemoração, transmitidos e recriados conforme as necessidades de cada geração. Embora os tempos mudem e as conquistas assumam novas formas, o sentimento continua o mesmo: celebrar a vitória, agradecer aos encantados e aos ancestrais e reafirmar a força coletiva do povo Kariri-Xocó.

Ao atravessar o tempo e chegar aos dias atuais, o Toré Uide continua sendo uma expressão viva da força do povo Kariri-Xocó. Seus cantos preservam a memória das conquistas antigas e celebram as vitórias do presente, lembrando que cada avanço alcançado é fruto da caminhada coletiva de muitas gerações. Assim, ao som dos maracás e dos passos no terreiro, o Toré Uide permanece reafirmando a resistência, a identidade cultural e a continuidade dos saberes ancestrais que sustentam a vida e a história do povo.





CAPÍTULO IV – TORÉ WONTSEHO ATSEÁ: OS CANTOS DE BOAS-VINDAS E A CELEBRAÇÃO DA FRATERNIDADE


Entre as diversas expressões culturais preservadas pelo povo Kariri-Xocó, o Toré Wontseho Atseá ocupa um lugar especial como manifestação de acolhimento, respeito e fortalecimento dos vínculos comunitários. Mais do que uma simples recepção aos visitantes, essa tradição reúne cantos, danças e ensinamentos transmitidos pelos ancestrais, revelando valores fundamentais da convivência coletiva. Ao longo das gerações, o Toré Wontseho Atseá tornou-se um importante símbolo da hospitalidade indígena, preservando memórias, reafirmando identidades e promovendo o encontro entre diferentes povos e culturas.

No povo Kariri-Xocó, existe uma antiga tradição chamada Toré Wontseho Atseá, os cantos de apresentação dedicados à chegada de visitantes. Desde os tempos mais antigos, quando parentes de outras aldeias se aproximavam, homens, mulheres, anciãos e crianças reuniam-se para cantar e dançar, demonstrando alegria, respeito e fraternidade. O som dos maracás e as vozes entoadas em conjunto anunciavam que os visitantes eram recebidos como parte de uma grande família.

Os mais velhos contam que esses cantos não serviam apenas para saudar quem chegava, mas também para fortalecer os laços entre os povos indígenas. Cada apresentação carregava mensagens de paz, amizade e reconhecimento mútuo. Ao redor do terreiro, os cantos ecoavam como um convite para a convivência harmoniosa, reafirmando a união entre comunidades que compartilhavam histórias, costumes e ancestrais.

Com o passar do tempo, os Kariri-Xocó passaram a receber também pessoas não indígenas, conhecidas tradicionalmente como caraí. A mesma cerimônia de acolhimento foi então estendida aos novos visitantes. Dessa forma, o Toré Wontseho Atseá tornou-se uma ponte entre culturas, preservando o respeito aos costumes ancestrais enquanto acolhia aqueles que chegavam de fora da aldeia.

Uma das narrativas mais lembradas pela tradição oral conta que o pajé Baltazar recebeu o imperador Dom Pedro II durante sua visita à aldeia, em 1859. Na ocasião, os cantos e danças do Toré Wontseho Atseá foram apresentados como sinal de boas-vindas e respeito. A memória desse encontro permaneceu viva entre as gerações, sendo transmitida pelos anciãos como um momento marcante da história do povo.

Ainda hoje, o Toré Wontseho Atseá continua vivo entre os Kariri-Xocó. Quando o povo visita escolas, participa de eventos culturais ou recebe amigos e autoridades na aldeia, os cantos de apresentação voltam a ecoar pelo terreiro. Muitos daqueles que participam do Toré afirmam que existe uma grande diferença entre apenas ouvir falar dessa tradição e vivenciá-la. Ao cantar, dançar e acompanhar o ritmo dos maracás, sentem a alegria dos homenageados e a força da união do grupo. Assim, o Toré permanece como uma expressão viva de acolhimento, respeito e memória ancestral, transmitindo conhecimentos que não se aprendem somente pelas palavras, mas também pela experiência compartilhada.

O Toré Wontseho Atseá permanece como uma das mais significativas heranças culturais do povo Kariri-Xocó, expressando por meio dos cantos e das danças a continuidade de saberes ancestrais que atravessam o tempo. Sua prática reafirma a importância da união, do respeito mútuo e da valorização da memória coletiva, fortalecendo tanto os laços internos da comunidade quanto as relações estabelecidas com outros povos e visitantes. Ao manter viva essa tradição, os Kariri-Xocó preservam não apenas uma forma de recepção, mas também um patrimônio cultural e espiritual que continua ensinando às novas gerações os princípios da fraternidade, da reciprocidade e da convivência harmoniosa.






CAPÍTULO V – TORÉ SANTOÁ USARUNGHÍ: ENTRE A FOGUEIRA E A COLHEITA NA TRADIÇÃO KARIRI-XOCÓ


Entre os Kariri-Xocó, os ciclos da natureza sempre estiveram profundamente ligados à vida espiritual e comunitária. Cada etapa do plantio e da colheita era acompanhada por rituais que fortaleciam os laços entre as famílias, a terra e os encantados guardiões da existência. Nesse contexto, surgiu uma das mais significativas expressões culturais do povo: o Toré Santoá Usarunghí, celebração que reúne elementos ancestrais e influências históricas incorporadas ao longo dos séculos, preservando a essência da identidade indígena e a memória coletiva da comunidade.

Toré Santoá Usarunghí. Entre os Kariri-Xocó, o tempo da colheita sempre foi marcado por celebrações que uniam a comunidade em torno da terra e de seus frutos. No período em que os legumes da roça alcançavam a maturação, os antigos Kariri realizavam um toré especial de agradecimento, reconhecendo a generosidade da natureza e renovando os laços de respeito com as forças espirituais que protegiam a vida do povo.

Era uma época de alegria e abundância. Homens, mulheres, crianças e anciãos reuniam-se para cantar, dançar e celebrar os alimentos que garantiriam o sustento das famílias. O toré ecoava pelos caminhos da aldeia como uma expressão de gratidão, marcando o ciclo da renovação e da continuidade da vida comunitária.

Com a chegada dos colonizadores portugueses, novas práticas religiosas passaram a fazer parte do cotidiano da região. Entre elas estava a tradição de acender fogueiras em homenagem a Santo Antônio, celebrado no dia 13 de junho. Ao longo do tempo, essa festividade tornou-se conhecida entre os não indígenas como a festa do santo associado às noivas e aos casamentos.

Os Kariri-Xocó, porém, não abandonaram suas antigas referências culturais. Em vez disso, incorporaram alguns elementos da nova tradição ao seu próprio universo simbólico. A fogueira passou a ser acesa juntamente com o toré, e Santo Antônio recebeu uma denominação própria na língua e na memória do povo, sendo chamado de Santoá Usarunghí.

Assim, nasceu o Toré Santoá Usarunghí, uma celebração que reúne heranças distintas em uma mesma experiência cultural. Ao redor da fogueira e ao som do toré, permanece viva a lembrança dos antigos tempos da maturação dos legumes da roça, enquanto a comunidade reafirma sua capacidade de preservar a memória ancestral e ressignificar influências externas sem perder sua identidade.

O Toré Santoá Usarunghí representa muito mais do que uma festividade associada à colheita ou à tradição da fogueira. Ele simboliza a capacidade histórica dos Kariri-Xocó de dialogar com diferentes influências culturais sem abandonar seus valores fundamentais. Ao manter vivo o toré como centro da celebração, o povo reafirma sua ligação com a terra, com os ancestrais e com os ensinamentos transmitidos de geração em geração. Dessa forma, a festa permanece como um importante patrimônio cultural, testemunhando a resistência, a continuidade e a renovação da identidade Kariri-Xocó ao longo do tempo.






CAPÍTULO VI – TORÉ CUROTÉ: O CANTO DA CELEBRAÇÃO NA FARTURA DO MILHO VERDE


Entre os diversos saberes transmitidos pelos antigos troncos Kariri, destacam-se as celebrações ligadas aos ciclos da natureza e à produção dos alimentos que garantiam a sobrevivência da comunidade. Muito além de uma simples atividade agrícola, o tempo da colheita era compreendido como um momento sagrado de agradecimento, partilha e fortalecimento dos laços coletivos. Nesse contexto surgiu o Toré Curoté, tradição ancestral associada ao milho verde, que atravessou gerações preservando memórias, ensinamentos e valores fundamentais da cultura Kariri.

Toré Curoté (Canto da Colheita). Muito antes da chegada dos missionários waré às terras indígenas do Baixo São Francisco, o povo Kariri celebrava os ciclos da natureza por meio de cantos, danças e rituais que fortaleciam a união da comunidade. Entre essas tradições estava o Toré Curoté, o “Canto da Colheita”, realizado no tempo em que o masiche erã (milho verde) alcançava o ponto ideal para ser colhido e compartilhado entre as famílias da aldeia.

Nessa época de abundância, homens, mulheres, jovens e crianças reuniam-se para agradecer pelos frutos oferecidos pela terra. O milho verde era colhido com alegria e preparado nas fogueiras comunitárias, espalhando seu aroma pela aldeia. O Toré acompanhava esse momento de fartura, transformando a colheita em uma celebração coletiva marcada por cantos, passos ritmados e expressões de gratidão aos encantados e às forças da natureza.

Com o passar do tempo, os missionários e colonizadores, conhecidos pelos indígenas como caraí, trouxeram novos elementos culturais e religiosos para a região. Entre eles estavam o Erantoá (Casa dos Santos, Igreja) e diversos kenhé (costumes) ligados às festividades cristãs. Essas mudanças passaram a fazer parte do cotidiano das comunidades indígenas, criando novas formas de convivência entre tradições ancestrais e práticas introduzidas pelos não indígenas.

Entre os costumes incorporados destacavam-se as Duantoá Okenerá, as fogueiras acesas diante das casas durante as festas dos santos, especialmente as celebrações dedicadas a São João. As chamas que iluminavam as noites festivas passaram a se somar às antigas práticas ligadas ao tempo da colheita, aproximando elementos de diferentes origens culturais em uma mesma celebração comunitária.

Assim, o Toré Curoté atravessou gerações sem perder seu significado essencial. O que começou como um canto dedicado à colheita do milho verde incorporou novos símbolos ao longo da história, mantendo viva a memória ancestral do povo Kariri. Até os dias de hoje, essa tradição recorda um tempo de fartura, união e respeito às heranças culturais que foram sendo tecidas ao longo dos séculos na vida da aldeia.

O Toré Curoté permanece como um importante testemunho da capacidade de resistência e adaptação cultural do povo Kariri ao longo dos séculos. Mesmo diante das transformações provocadas pelo contato com missionários, colonizadores e novas práticas religiosas, a essência da celebração continuou viva na memória coletiva da comunidade. Como expressão de gratidão pela fartura, de respeito aos encantados e de valorização da vida comunitária, o Canto da Colheita representa um elo entre passado e presente, reafirmando a identidade indígena e a continuidade dos conhecimentos ancestrais transmitidos de geração em geração.






CAPÍTULO VII – TORÉ DZÓÁ: O CANTO DAS CHUVAS E A MEMÓRIA ANCESTRAL DAS ÁGUAS


Neste capítulo, adentramos o universo sagrado do Toré Dzóá, o Canto das Chuvas, manifestação ancestral que expressa a profunda relação entre o povo Xocó e os ciclos da natureza. Inserido no tempo mítico dos antigos, quando a terra ainda guardava os passos primeiros dos ancestrais, este canto ritual revela não apenas uma celebração das águas, mas também um modo de compreender o mundo em harmonia com os sinais do céu, da lua e das estações. É nesse contexto de memória viva que o Toré Dzóá se apresenta como elo espiritual entre o passado e o presente, mantendo acesa a continuidade da tradição.

Toré Dzóá, o Canto das Chuvas, nasceu nos tempos antigos, quando ainda não existia Natierácró, a cidade dos não indígenas que hoje se encontra próxima da Natiá Aramurú, a aldeia onde viveram os Xocó. Naquele uché, o tempo dos ancestrais, a vida seguia o ritmo da natureza, e cada mudança das estações era acompanhada por cantos, danças e celebrações que fortaleciam a ligação entre o povo e os espíritos da terra.

Durante o período de Dzó Kayaku, a Lua da Chuva, os Xocó realizavam o Toré Dzóá. Era um momento especial em que os cantos ecoavam pelos caminhos da aldeia, agradecendo pelas águas que alimentavam os rios, as lagoas, as plantações e todos os seres vivos. O som dos maracás misturava-se ao cair da chuva, criando uma atmosfera sagrada que renovava a esperança e a fartura para toda a comunidade.

Com o passar dos anos, os caraí chegaram à região e estabeleceram a Missão Ilha São Pedro. Trouxeram consigo novas práticas religiosas, festas de santos e fogueiras que passaram a fazer parte do cotidiano local. Mesmo diante dessas mudanças, os Xocó mantiveram vivas muitas de suas tradições, guardando na memória coletiva os ensinamentos recebidos dos antigos e transmitindo-os às novas gerações.

Mais tarde, quando os Xocó migraram para a Aldeia de Colégio, onde viviam os Kariri, levaram consigo seus costumes, suas histórias e seus cantos sagrados. Entre essas tradições estava o Toré Dzóá, que continuou sendo realizado como expressão da identidade do povo e como lembrança dos tempos em que seus antepassados celebravam a chegada das chuvas em suas terras de origem.

Assim, as celebrações passaram a unir heranças de diferentes troncos ancestrais. No ciclo festivo de São João, os Kariri realizavam o Toré Santoá Usarunghí na abertura das comemorações, enquanto os Xocó encerravam o período festivo com o Toré Dzóá, o Canto das Chuvas. Dessa forma, os dois povos fortaleciam seus laços de parentesco e memória, preservando tradições que atravessaram gerações e continuam vivas no coração da comunidade.

Dessa forma, o Toré Dzóá permanece como expressão viva da resistência cultural e da espiritualidade do povo Xocó, atravessando mudanças históricas, deslocamentos territoriais e encontros com outros modos de vida sem perder sua essência. Ao unir canto, dança e memória, o ritual reafirma a importância das águas como fonte de vida e renovação, simbolizando também a permanência dos laços ancestrais que sustentam a identidade coletiva. Assim, o Canto das Chuvas segue ecoando no tempo, não apenas como lembrança do passado, mas como presença contínua que fortalece o espírito comunitário e a ligação sagrada com a terra.






CAPÍTULO VIII – TORÉ HIETÇÃDÉKIETE: O CANTO DA PADROEIRA E O ENCONTRO DAS TRADIÇÕES ESPIRITUAIS


O Toré Hietçãdékiete, conhecido como o Canto da Padroeira, inscreve-se na memória ancestral do povo Kariri como expressão de um tempo em que a espiritualidade tradicional e novas formas de devoção passaram a coexistir na aldeia. Nesse cenário histórico e simbólico, marcado pela presença dos waré e pela introdução da imagem de Hietçãdékiete, Nossa Senhora da Conceição, a comunidade passou a ressignificar seus rituais, integrando elementos da fé cristã ao universo do Toré, sem romper com a essência de sua identidade cultural. Assim, o canto da Padroeira emerge como um elo entre mundos espirituais, fortalecendo a continuidade da tradição e da memória coletiva.

Nas antigas eras, quando os Kariri viviam em sua Natianie, a aldeia tradicional cercada por águas, matas e caminhos ancestrais, a vida seguia o ritmo das estações, das colheitas e dos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos. O povo realizava seus rituais, fortalecia seus laços de parentesco e mantinha viva a memória de seus antepassados por meio dos cantos, das narrativas e do Toré.

Foi então que, durante o Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, no tempo das grandes chuvas de dezembro, chegaram às terras Kariri os waré, os padres missionários. Eles trouxeram novos costumes, novas palavras e uma imagem que seria acolhida pela comunidade. Essa imagem era Hietçãdékiete, Nossa Senhora da Conceição, que passou a ser reverenciada como Idzedete, a Madrinha e mãe espiritual protetora do povo.

Com a presença dos missionários, ergueu-se o Erantoá, a igreja que se tornou espaço de oração e encontro. Próximo a ela foi construído o Erátekié, o colégio dos padres jesuítas, onde se ensinavam novos conhecimentos religiosos e outras formas de aprendizado. Aos poucos, elementos da tradição indígena e da devoção cristã passaram a caminhar lado a lado na vida da aldeia, criando uma convivência simbólica entre diferentes formas de espiritualidade.

Nas noites iluminadas pela fé e pelas estrelas, durante o período das novenas dedicadas à Padroeira, o povo reunia-se em comunidade. Homens, mulheres, crianças e anciãos entoavam cânticos que misturavam devoção, gratidão e identidade cultural. Era nesses momentos que o Toré Hietçãdékiete ecoava pelos caminhos da aldeia, unindo gerações em torno da proteção da Madrinha espiritual.

Com o passar do tempo, o canto passou a ser transmitido entre gerações como parte viva da memória coletiva, preservando não apenas a devoção, mas também a história do encontro entre diferentes mundos espirituais. O Toré Hietçãdékiete tornou-se, assim, um símbolo de continuidade cultural, em que o sagrado indígena e o sagrado cristão dialogam dentro da vivência comunitária.

Dessa forma, o Toré Hietçãdékiete permanece como um dos mais significativos testemunhos da capacidade do povo Kariri de dialogar com diferentes tradições religiosas sem romper com suas raízes ancestrais. O Canto da Padroeira não representa apenas um ato de devoção, mas também um símbolo de união comunitária, resistência cultural e adaptação histórica. Ao ecoar nas novenas, nas reuniões e nas celebrações da aldeia, ele reafirma a presença viva da memória indígena, mostrando que a espiritualidade Kariri continua pulsando no tempo, entrelaçada à proteção da Madrinha e à força do Toré.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os cantos do Toré constituem muito mais do que manifestações artísticas ou religiosas. Eles representam formas de preservar a memória, transmitir conhecimentos e fortalecer a identidade coletiva do povo Kariri-Xocó.

Ao reunir os oito torés apresentados nesta obra, torna-se possível compreender a riqueza cultural e espiritual de uma tradição que atravessou séculos de transformações históricas sem perder sua essência. Cada canto guarda ensinamentos sobre a vida, a natureza, os ancestrais, a coletividade e a resistência cultural.

Assim, este livro busca contribuir para a valorização da memória indígena, reafirmando a importância de preservar os conhecimentos tradicionais como patrimônio vivo das presentes e futuras gerações.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 




KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiá Buyõ Dzéá — Aldeia de Muitos Nomes. Disponível em: 

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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Pedi Nhenetí Krotseba — Crer com Tradição na Resistência. Disponível em: 

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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroia Wontseré – História dos Grupos de Toré. Disponível em: 

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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Teudiokié Honéá Uanieá, A Luta Pelos Direitos Indígenas. Disponível em: 

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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Ibenhete Onhantoá – As Imagens dos Santos na Parede. Disponível em: 

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KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Duantoá Okenerá – As Fogueiras dos Santos nas Portas. Disponível em: 

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SOBRE O AUTOR

Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador indígena, contador de histórias, escritor e guardião da memória cultural de seu povo. Pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas, dedica-se à preservação da tradição oral, da história indígena, dos sobrenomes ancestrais, da espiritualidade, da cultura e da identidade dos povos originários do Baixo São Francisco.
Por meio de pesquisas, narrativas e publicações, busca registrar conhecimentos transmitidos pelos anciãos e contribuir para que as futuras gerações mantenham vivos os ensinamentos herdados dos antigos troncos familiares e dos guardiões da memória coletiva.




              





Autor: Nhenety Kariri-Xocó