FALSA FOLHA DE ROSTO
BURUHÚÁ SAMY WIDÓBA
ARTESANATOS NA CULTURA DA SOBREVIVÊNCIA
Nhenety Kariri-Xocó
Obra dedicada ao registro, preservação e valorização dos saberes artesanais, culturais e históricos do povo Kariri-Xocó, reunindo narrativas da tradição oral, memórias ancestrais e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
É permitida a reprodução parcial desta obra para fins educacionais, acadêmicos e culturais, desde que citada a fonte.
Primeira edição – 2026
Ficha Catalográfica (Modelo)
K18b
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Buruhúá Samy Widóba: Artesanatos na Cultura da Sobrevivência / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
120 p.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Cultura Indígena. 2. Kariri-Xocó. 3. Artesanato Indígena. 4. Tradição Oral. 5. Memória Ancestral. 6. Patrimônio Cultural.
CDD: 980.41
ISBN (Simbólico)
ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de organização editorial. A obtenção de ISBN oficial deverá ser realizada junto à Agência Brasileira do ISBN.)
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra aos meus Antepassados Kariri-Xocó, guardiões da memória ancestral, que preservaram os saberes do nosso povo através da palavra, do exemplo e da resistência.
Dedico também aos anciãos, mestres artesãos, homens, mulheres, jovens e crianças da comunidade Kariri-Xocó, que continuam mantendo viva a chama da cultura, da identidade e da tradição.
Que este livro seja uma homenagem àqueles que vieram antes de nós e um presente para aqueles que ainda virão.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à Bechiantse, a Mãe Natureza, fonte de vida e inspiração.
Aos Tokenhé, os Antepassados, que deixaram os ensinamentos que sustentam nossa identidade cultural.
À comunidade Kariri-Xocó, aos guardiões da memória, aos mestres artesãos e aos parentes que compartilharam histórias, conhecimentos e experiências.
A todos os pesquisadores, educadores, estudantes e leitores interessados na valorização dos povos indígenas e na preservação das tradições ancestrais.
EPÍGRAFE
"Enquanto houver alguém para lembrar, ensinar e contar, a memória dos Antepassados continuará caminhando entre nós."
— Tradição Oral Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
Este volume reúne conhecimentos relacionados aos artesanatos tradicionais do povo Kariri-Xocó, compreendidos não apenas como objetos materiais, mas como expressões vivas da memória ancestral.
Cada peça artesanal carrega histórias, ensinamentos, crenças e valores transmitidos ao longo das gerações.
Ao registrar esses saberes em forma escrita, busca-se fortalecer a preservação cultural e ampliar o conhecimento sobre a riqueza das tradições indígenas brasileiras, especialmente aquelas mantidas pelo povo Kariri-Xocó.
RESUMO
A obra Buruhúá Samy Widóba: Artesanatos na Cultura da Sobrevivência apresenta uma abordagem etnográfica, memorialística e cultural sobre os artesanatos tradicionais do povo Kariri-Xocó. Estruturado em oito capítulos, o livro reúne narrativas inspiradas na tradição oral, abordando a cultura indígena, os materiais utilizados na produção artesanal, adornos corporais, instrumentos musicais, objetos culturais e o papel do artesanato como instrumento de sobrevivência econômica e preservação identitária. O estudo destaca a importância da memória ancestral na continuidade dos conhecimentos tradicionais.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; Artesanato Indígena; Memória Ancestral; Tradição Oral; Cultura Indígena.
ABSTRACT
Buruhúá Samy Widóba: Handicrafts in the Culture of Survival presents an ethnographic, memorial and cultural approach to the traditional handicrafts of the Kariri-Xocó people. Organized into eight chapters, the book gathers narratives inspired by oral tradition, addressing indigenous culture, materials used in handicraft production, body ornaments, musical instruments, cultural objects and the role of handicrafts as instruments of economic survival and identity preservation. The study highlights the importance of ancestral memory in maintaining traditional knowledge.
Keywords: Kariri-Xocó; Indigenous Handicrafts; Ancestral Memory; Oral Tradition; Indigenous Culture.
APRESENTAÇÃO
Esta obra nasceu do desejo de registrar conhecimentos que, por muitas gerações, foram preservados pela tradição oral. O artesanato Kariri-Xocó constitui um importante patrimônio cultural, reunindo técnicas, símbolos e significados que expressam a relação do povo com a natureza, os ancestrais e a comunidade.
NOTA DO AUTOR
Os termos indígenas presentes nesta obra foram registrados conforme a tradição cultural e linguística preservada pelo povo Kariri-Xocó. As traduções apresentadas têm finalidade educativa e cultural, buscando aproximar o leitor dos significados transmitidos pelos guardiões da memória.
MEMÓRIA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Cresci ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, aprendendo que a memória é um patrimônio tão importante quanto a própria terra.
Este livro representa parte de minha caminhada como contador de histórias, pesquisador da tradição oral e guardião da memória ancestral. Ao transformar narrativas orais em registros escritos, procuro contribuir para que os conhecimentos do nosso povo permaneçam vivos para as futuras gerações.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I - Samyba Uanieá: Cultura da Vida Indígena
Capítulo II - Sanéá Buruhúá: Materiais do Artesanato
Capítulo III - Dakloná Tsebu: Adornos da Cabeça
Capítulo IV - Dakloná Buiehoho: Adornos do Corpo
Capítulo V - Wonhé Sanéwon: Instrumentos de Tocar, Cantar Música
Capítulo VI - Canghité Samy: Coisas Boas da Cultura
Capítulo VII - Samy Widóba: Cultura da Sobrevivência
Capítulo VIII - Buruhúá Naticróraí: Artesanatos nas Cidades dos Brasileiros
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
INTRODUÇÃO
Os artesanatos tradicionais ocupam lugar fundamental na história e na cultura dos povos indígenas. Entre os Kariri-Xocó, cada artefato produzido carrega significados que ultrapassam sua função material, tornando-se instrumento de transmissão cultural, fortalecimento identitário e preservação da memória coletiva.
Esta obra apresenta uma visão abrangente dos Buruhúá, destacando seus materiais, formas, usos e significados dentro da tradição Kariri-Xocó. Mais do que um catálogo de objetos, o livro constitui um testemunho da continuidade cultural de um povo que mantém viva sua herança ancestral.
CAPÍTULO I - SAMYBA UANIEÁ: CULTURA DA VIDA INDÍGENA
A Samyba Uanieá, a Cultura da Vida Indígena, representa o conjunto de conhecimentos, valores e tradições construídos pelos Tokenhé ao longo de incontáveis gerações. Mais do que um legado do passado, ela constitui um modo de compreender o mundo, de relacionar-se com a natureza e de fortalecer os laços que unem o Tseho à sua ancestralidade. Neste capítulo, percorremos os caminhos da memória para compreender como os ensinamentos ancestrais moldaram a identidade indígena e continuam orientando a vida coletiva até os dias atuais.
No princípio do Uché (Tempo), quando os caminhos da terra ainda guardavam os passos dos mais antigos, os Tokenhé (Antepassados) viviam em profunda harmonia com o nosso Tseho (Povo). Eram tempos em que o conhecimento era transmitido pela observação da natureza, pela palavra dos anciãos e pela convivência diária entre as gerações. Cada ensinamento recebido tornava-se uma semente destinada a florescer no coração daqueles que viriam depois.
Os Tokenhé conheciam os segredos dos rios, das matas e dos ventos. Sabiam identificar os sinais da chuva, o tempo da colheita e os caminhos dos animais. Em cada gesto existia um aprendizado e em cada experiência havia uma lição para a continuidade da vida. Assim, o conhecimento acumulado ao longo das gerações passou a orientar o modo de viver do Tseho, fortalecendo os laços de união e pertencimento.
Com o passar da Woroy (História), os ensinamentos dos ancestrais foram sendo preservados e transmitidos de pais para filhos, de avós para netos. Dessa longa caminhada nasceu a Samy (Cultura), formada por saberes, costumes, crenças, memórias e tradições que ajudaram o povo a compreender seu lugar no mundo. A cultura tornou-se um elo sagrado entre o passado, o presente e as futuras gerações.
Foi por meio da Samy que aprendemos a viver como Uanieá (Indígenas), respeitando a vida em todas as suas formas e reconhecendo a natureza como parte de nossa própria existência. A cultura ensinou o valor da coletividade, da partilha e da responsabilidade com tudo aquilo que sustenta a vida. Cada canto, cada história e cada tradição passou a representar a presença viva dos ancestrais entre nós.
Na Retsé (Floresta), onde os sons da natureza acompanham os dias e as noites, ergueu-se a nossa Natianie (Aldeia Indígena Tradicional), espaço de convivência, aprendizado e continuidade cultural. Ali, a memória dos Tokenhé permanece viva através das palavras, dos costumes e dos ensinamentos compartilhados. Dessa forma, a Cultura da Vida Indígena segue seu caminho através do Uché, preservando a identidade do Tseho e fortalecendo a ligação sagrada entre o povo, a terra e os ancestrais.
Assim, a Samyba Uanieá permanece como um patrimônio vivo que atravessa o Uché, preservando os ensinamentos recebidos dos Tokenhé e renovando-os em cada geração. Através da palavra, da convivência comunitária, das tradições e do respeito à natureza, o Tseho mantém viva sua identidade e sua ligação espiritual com a terra ancestral. Enquanto houver memória, pertencimento e compromisso com os saberes herdados, a Cultura da Vida Indígena continuará florescendo como fonte de força, sabedoria e continuidade para o povo e para aqueles que virão depois.
CAPÍTULO II - SANÉÁ BURUHÚÁ: MATERIAIS DO ARTESANATO
Antes mesmo de aprender a moldar os materiais da Natureza, os antigos Kariri-Xocó aprenderam a reconhecer que cada elemento existente no mundo possuía um espírito, uma origem e uma finalidade. As sementes, as penas, os ossos, o algodão e a cera não eram vistos apenas como recursos, mas como presentes oferecidos pela Bechiantse para auxiliar a vida do povo. Assim, os materiais utilizados na confecção dos Buruhúá nasceram de uma relação profunda de respeito, observação e reciprocidade com a terra e com todos os seres da criação, tornando o artesanato uma das mais antigas expressões da memória e da sabedoria ancestral.
Os antigos Tokenhé, os Antepassados do começo do mundo, ensinavam que a vida nasceu da Bechiantse, a Natureza, nossa grande Roça. Diziam que tudo o que existe vem da terra e para ela retorna. Foi a terra quem primeiro alimentou nossos avós, quem ofereceu água para matar a sede, plantas para curar os males e caminhos para orientar os passos do povo. Por isso, desde os tempos mais antigos, aprendemos a respeitar a Natureza como uma mãe generosa que sustenta todos os seres.
Quando os mais velhos caminhavam pela Retsé, a Floresta, não enxergavam apenas árvores e animais. Eles viam uma grande casa de ensinamentos deixada pelos Antepassados. Cada canto dos pássaros, cada folha balançando ao vento e cada semente caída ao chão carregava uma história. A floresta era uma escola viva onde crianças, jovens e adultos aprendiam a ouvir, observar e compreender os segredos do mundo.
Foi na Retsé que nossos ancestrais encontraram as Cópiné, as sementes das grandes Sutuá, as árvores que crescem fortes e profundas. Com paciência e sabedoria, recolhiam essas sementes para transformá-las em colares, pulseiras e adornos. Também recebiam das Ieendeá, as aves que voam pelos céus, as belas Songaá, penas coloridas que davam vida aos cocares e às peças cerimoniais. Cada semente e cada pena guardavam a força dos lugares de onde vieram.
Os Keríá, os animais da mata, também participavam dessa grande aliança entre os seres da criação. Dos Dzá, os dentes, e dos Meá, os ossos, surgiam peças carregadas de significado e memória. Nada era retirado sem necessidade e sem agradecimento. Os antigos ensinavam que cada animal possuía um espírito e que toda utilização deveria acontecer com respeito, para que a harmonia entre os povos da floresta permanecesse viva através das gerações.
Assim nasceram os Buruhúá, os artesanatos de nosso povo. O Setí, cordão feito do Endi, o algodão, unia as peças, enquanto a Samburá, a cera produzida pela Kati, a abelha, ajudava a protegê-las e fortalecê-las. Em cada artesanato estava presente um pedaço da terra, da floresta, das águas, dos pássaros, dos animais e das mãos de quem o confeccionou. Por isso, os Buruhúá não são apenas objetos. Eles são histórias vivas, carregam a voz dos Tokenhé e mantêm acesa a memória ancestral do povo Kariri-Xocó através do tempo.
Ainda hoje, os Buruhúá permanecem como testemunhos vivos da ligação sagrada entre o povo Kariri-Xocó e a Bechiantse. Cada colar, pulseira, cocar ou adorno conserva os ensinamentos recebidos dos Tokenhé, recordando que a Natureza é fonte de vida, conhecimento e identidade. Mais do que preservar técnicas artesanais, a continuidade desses saberes mantém viva a memória dos Antepassados, fortalece a cultura do povo e transmite às novas gerações o dever de honrar, proteger e respeitar os dons recebidos da terra, da floresta, das águas e de todos os seres que compartilham o mundo conosco.
CAPÍTULO III – DAKLONÁ TSEBU: ADORNOS DA CABEÇA
Os Antepassados Kariri-Xocó ensinavam que o corpo humano também guarda histórias. Cada adorno colocado sobre a cabeça, nos cabelos ou nas orelhas carregava ensinamentos recebidos dos mais velhos e transmitidos às novas gerações. Entre penas, fibras, cores e formas, os adornos revelavam valores, responsabilidades e sentimentos que fortaleciam a identidade do povo. Assim, o Dakloná Tsebu, os adornos da cabeça, tornou-se parte importante da memória ancestral, unindo beleza, sabedoria e pertencimento.
A noite cobria a aldeia e o brilho das estrelas iluminava os caminhos dos Antepassados, os mais velhos reuniam crianças, jovens e adultos ao redor da fogueira para contar as histórias do nosso povo. Era nesse momento que a memória caminhava de boca em boca, de coração em coração, ensinando que os adornos não eram simples enfeites, mas marcas vivas da identidade Kariri-Xocó.
Os anciãos diziam que o Tçambusebé, o cocar dos homens feito de Songaá, as penas sagradas da natureza, carregava a responsabilidade do comando e do cuidado com o Tseho, o povo. Quando um homem colocava o cocar sobre a cabeça, ele lembrava que deveria servir à comunidade com coragem, sabedoria e dedicação ao Sané, o trabalho. Assim, cada pena contava uma história de compromisso, honra e respeito pelos ensinamentos recebidos dos mais velhos.
As mulheres também ocupavam um lugar especial nessas narrativas. Os anciãos ensinavam que o Tereré, a tiara feminina, representava a beleza da arte, da criatividade e da força que habita o coração das mulheres da Natiá, a aldeia. Elas eram vistas como guardiãs da vida, das famílias e das tradições. Ao usar o Tereré, carregavam consigo a lembrança de que sua presença fortalece a união do povo e mantém viva a chama da cultura ancestral.
Havia ainda o Dakloeɲe, o brinco usado nas orelhas. Os mais velhos apontavam para ele e diziam: “Não basta falar, é preciso saber ouvir.” Por isso, o Dakloeɲe recordava a importância de escutar as palavras dos anciãos, os cantos tradicionais, os conselhos da família e as histórias guardadas pelo tempo. Quem aprende a ouvir a tradição nunca se afasta do caminho dos Antepassados.
E as mulheres traziam consigo também o Hebadu, o pau de cabelo, usado para cuidar dos cabelos e proporcionar bem-estar. Nas histórias contadas junto ao fogo, ele era lembrado como um instrumento de cuidado e respeito consigo mesma. Assim, o Tçambusebé, o Tereré, o Dakloeɲe e o Hebadu seguem atravessando gerações, não apenas como adornos, mas como páginas vivas da memória Kariri-Xocó, ensinando que a cultura permanece forte enquanto houver alguém para contar, alguém para ouvir e alguém para lembrar.
Desse modo, os adornos da cabeça permanecem como símbolos vivos da cultura Kariri-Xocó, preservando conhecimentos que atravessam o tempo e unem passado, presente e futuro. Mais do que objetos de uso cotidiano ou cerimonial, o Tçambusebé, o Tereré, o Dakloeɲe e o Hebadu representam a continuidade dos ensinamentos ancestrais, a valorização da identidade coletiva e o respeito pelos caminhos deixados pelos antigos Tokenhé. Enquanto esses adornos forem lembrados, confeccionados e utilizados pelas novas gerações, continuará viva a memória do povo Kariri-Xocó, como uma chama que nunca se apaga no coração da aldeia.
CAPÍTULO IV – DAKLONÁ BUIEHOHO: ADORNOS DO CORPO
Desde os tempos mais antigos, os Kariri-Xocó compreenderam que o corpo humano é também um espaço de memória, identidade e espiritualidade. Por essa razão, os adornos corporais foram criados não apenas para ornamentar, mas para expressar os ensinamentos herdados dos Tokenhé, os Antepassados do começo do mundo. Cada peça confeccionada com penas, fibras, ossos, sementes ou coco guarda significados profundos ligados à força, à proteção, ao trabalho, à coletividade e à relação harmoniosa com a natureza. Neste capítulo, percorremos os caminhos simbólicos dos Dakloná Buiehoho, os adornos do corpo, preservados pela tradição oral como marcas vivas da sabedoria ancestral Kariri-Xocó.
Escutem, filhos e filhas desta terra antiga. Aproximem-se do fogo e prestem atenção nas palavras que caminham desde o tempo dos nossos avós e dos avós dos nossos avós. Os adornos do corpo que usamos não nasceram para enfeitar apenas os olhos. Eles guardam ensinamentos, histórias e forças deixadas pelos Antepassados. Cada fio, cada pena, cada osso e cada fibra carregam uma lembrança daqueles que aprenderam a ouvir a voz da mata, dos animais, das águas e dos ventos.
Os antigos contavam que a Crodí, a força que sustenta o espírito e o corpo, vive no Dakloro, o adorno do braço. Feito com cordão de algodão e penas de aves, ele nos recorda que devemos ser firmes como a árvore que enfrenta as tempestades e livres como os pássaros que cruzam os céus. Quando o guerreiro, a mulher ou a criança colocavam o Dakloro, não vestiam apenas um adorno; vestiam a coragem dos que vieram antes e a responsabilidade de honrar o caminho do povo.
Também nos ensinaram sobre o Daklone, o colar que traz os dons dos Keriá, os animais. Nele repousam os Dzá, os dentes, e os Meá, os ossos, sinais das habilidades que a natureza compartilha com aqueles que sabem observar. Os velhos diziam que isso é Canghito, as boas coisas de poder. Não um poder para dominar, mas um poder para aprender, respeitar e viver em equilíbrio. Assim, cada animal se torna um mestre silencioso, ensinando ao povo os caminhos da sabedoria.
Olhem também para o Daklowõ, o adorno da perna. Ele é tecido com as fibras do Endi, o algodão, e lembra a resistência daqueles que caminham sem desistir. A terra pode ser dura, os caminhos podem ser longos, mas os pés seguem firmes quando o coração conhece suas raízes. E nas mãos está o Dakloysã, que nos fala do To, o poder que nasce do Sané, o trabalho coletivo. Nenhuma casa é erguida por uma só pessoa, nenhuma roça floresce pelas mãos de um único trabalhador. É o Tseho, o povo unido, que transforma o esforço em força e a força em futuro.
E antes que a fogueira se apague, guardem no coração a lição do Iwodokrow, o anel de coco. Seus pequenos círculos, os Iworópi, nos ensinam que ninguém vive separado do mundo. Somos parte de um círculo maior, ligado aos nossos parentes, aos nossos ancestrais, aos animais, às plantas, às águas e ao Grande Mistério da criação. Assim, os adornos do corpo permanecem vivos entre nós, não como objetos, mas como palavras sem voz que continuam contando, geração após geração, quem somos, de onde viemos e para onde devemos seguir.
Os Dakloná Buiehoho permanecem como testemunhos vivos da memória e da visão de mundo do povo Kariri-Xocó. Mais do que adornos corporais, eles representam a continuidade dos ensinamentos ancestrais, fortalecendo os laços entre as gerações e reafirmando a união entre seres humanos, natureza e espiritualidade. Em cada colar, bracelete, adorno de perna, enfeite de mão ou anel de coco, ecoam as vozes dos antigos que ensinaram a viver com coragem, respeito e coletividade. Enquanto esses saberes forem lembrados, confeccionados e transmitidos, a identidade Kariri-Xocó continuará florescendo como uma árvore de raízes profundas, sustentada pela força da memória e pelo orgulho de sua ancestralidade.
CAPÍTULO V - WONHÉ SANÉWON: INSTRUMENTOS DE TOCAR, CANTAR MÚSICA
Entre os Kariri-Xocó, a música é muito mais do que arte ou entretenimento. Ela constitui uma linguagem sagrada que une o povo aos seus ancestrais, aos Antepassados e às forças vivas da Natureza. Desde os tempos antigos, os sons acompanham os rituais, as celebrações, os ensinamentos e os momentos de recolhimento espiritual, transmitindo conhecimentos que atravessam gerações. Cada instrumento tradicional carrega uma história, uma origem e um ensinamento, revelando a profunda relação de respeito e reciprocidade que existe entre o povo e a Antse, a Mãe Natureza.
Quando a noite descia sobre a aldeia e o brilho da fogueira dançava nos rostos dos parentes, os mais velhos ensinavam que a música não nasceu das mãos humanas. Ela já existia muito antes de nós. Os sons moravam na Antse, a Natureza, escondidos entre as Sutuá, as árvores da floresta, caminhando com os Ieende, as aves, voando no Arankié 'Céu' sobre as Dzuá, as águas, e repousando silenciosamente sobre as Cró, as pedras. Quem aprende a ouvir com o coração descobre que toda a Terra canta.
Foi assim que nossos ancestrais aprenderam a fazer a Buibú, a maraca sagrada do Toré. Eles observaram o Uttihu, o fruto do Coité, árvore respeitada por guardar em seu ventre o som da criação. Quando o fruto amadurecia e era preparado com sabedoria, transformava-se em instrumento capaz de acompanhar o ritmo dos passos, despertando a memória dos antigos e guiando a dança do povo.
Também nasceu desse aprendizado o Badá, a flauta. Os velhos contam que a Taquara ensinou esse caminho. Flexível diante dos ventos, ela nunca se quebra facilmente, mostrando que a força verdadeira vive junto da moderação. Quando a flauta canta, sua voz lembra o sopro que percorre os campos e as margens do rio, levando mensagens que somente os espíritos da Natureza conseguem compreender por inteiro.
Há ainda o Tçuirú, o arremedo dos assobios das aves. Ele é feito da macia umburana, árvore que resiste aos tempos de seca e calor. Ao tocar o Tçuirú, os parentes imitam os cantos dos pássaros e recordam que os Keriá também são nossos professores. Cada chamado ecoa como uma conversa antiga entre os seres da floresta, fortalecendo os laços de respeito entre o povo e a Natureza.
E quando chega o momento mais solene do Toré, escuta-se o Buzo, a trombeta sagrada feita da umbaúba. Seu som profundo atravessa os caminhos da mata e se espalha pelo céu como a voz do trovão. Os antigos dizem que, nesse instante, a floresta inteira escuta. As árvores, os animais, as águas e as pedras reconhecem aquele chamado. Assim aprendemos que nossos instrumentos não são apenas objetos para tocar música: são parentes da Natureza, guardiões de sons ancestrais e pontes vivas entre o povo Kariri-Xocó, a Terra e os espíritos que caminham conosco desde o Tempo Antigo.
Assim, os instrumentos musicais Kariri-Xocó permanecem como tesouros vivos da memória coletiva, preservando ensinamentos que vieram dos antigos e continuam ecoando nas novas gerações. A Buibú, o Badá, o Tçuirú e o Buzo não apenas produzem sons, mas despertam lembranças, fortalecem a identidade do povo e renovam os vínculos com a Terra, os encantados e os ancestrais. Enquanto seus cantos ressoarem nos terreiros, nas matas e nos rituais do Toré, continuará viva a sabedoria que ensina que toda a criação possui voz e que ouvir a Natureza é também uma forma de aprender, respeitar e existir em harmonia com o mundo.
CAPÍTULO VI - CANGHITÉ SAMY: COISAS BOAS DA CULTURA
Antes que os mais velhos começassem suas histórias, ensinavam que a cultura de um povo não vive apenas nas palavras, mas também nos objetos, nos gestos, nos costumes e nas lembranças herdadas dos Antepassados. Cada elemento guardado pela tradição possui um significado profundo, pois carrega ensinamentos que fortalecem a identidade coletiva e mantêm viva a ligação entre as gerações. Entre os Kariri-Xocó, essas heranças são conhecidas como Canghité Samy, as coisas boas da cultura, tesouros que atravessam o tempo e continuam orientando o caminho do povo.
Quando os antigos se reuniam ao redor do fogo sagrado, durante o Sotikaí, contavam que existem caminhos que unem aquilo que nossos olhos veem àquilo que somente o espírito alcança. Diziam que a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional que vive sobre a terra, nunca esteve separada da Natiankié, a Aldeia Espiritual dos Antepassados que habita os céus. Entre esses dois mundos existe uma ligação invisível, construída pela memória, pela fé e pelos ensinamentos deixados pelos Tokenhé.
Os Anciãos ensinavam que um dos instrumentos mais sagrados dessa conexão era o Pawí, o cachimbo feito da madeira do Angico. Não era apenas um objeto, mas um mensageiro entre os mundos. Quando sua fumaça subia em direção ao céu, levava consigo as palavras, os pensamentos e os pedidos do povo. Por isso, seu significado era profundo: o Espírito que leva. Assim, a fumaça percorria os caminhos sagrados que unem a Natianie à Natiankié, aproximando os vivos daqueles que já haviam seguido para a morada dos Antepassados.
Mas os velhos contadores de histórias também lembravam que o Seridzé e a Iaru, o arco e a flecha, eram companheiros inseparáveis dos antigos. Com eles, os Tokenhé protegiam suas famílias, defendiam sua terra e garantiam o alimento necessário para a sobrevivência da comunidade. Cada arco construído e cada flecha preparada carregavam o conhecimento transmitido de geração em geração, fortalecendo o povo diante dos desafios da vida.
Contavam ainda que as vestes dos Antepassados eram feitas com os dons oferecidos pela própria natureza. A Sasá, a saia de palha, era confeccionada com as fibras do Aricuri, árvore abundante na Retsé, a floresta que alimenta o corpo e o espírito. Suas folhas, seus frutos e suas fibras eram presentes recebidos da terra, transformados pelas mãos habilidosas do povo em adornos, vestimentas e objetos de grande valor cultural.
Por isso, quando o fogo do Matikaí ilumina a noite e o Sotikaí reúne a comunidade ao seu redor, os ensinamentos antigos voltam a caminhar entre os vivos. O Pawí continua levando as mensagens ao mundo espiritual, o Seridzé e a Iaru recordam a coragem dos Tokenhé, e a Sasá feita do Aricuri mantém viva a memória daqueles que vieram antes de nós. Assim, a Natianie permanece unida à Natiankié, e as coisas boas da cultura seguem sendo guardadas, ensinadas e transmitidas para as futuras gerações.
Dessa forma, as coisas boas da cultura permanecem como pontes entre o passado, o presente e o futuro. Nos ensinamentos do Pawí, na força do Seridzé e da Iaru, na simplicidade da Sasá e nas histórias contadas ao redor do fogo sagrado, sobrevivem os saberes deixados pelos Antepassados. Enquanto esses conhecimentos forem lembrados, praticados e transmitidos às novas gerações, a memória dos Tokenhé continuará viva, fortalecendo a união entre a Natianie e a Natiankié e preservando a essência do povo Kariri-Xocó para os tempos que ainda virão.
CAPÍTULO VII - SAMY WIDÓBA: CULTURA DA SOBREVIVÊNCIA
Quando os mais velhos se sentam à sombra das árvores e começam a contar as histórias antigas, eles lembram que sobreviver nunca foi apenas vencer a fome ou atravessar tempos difíceis. Sobreviver sempre significou guardar a memória, proteger os ensinamentos dos Antepassados e manter acesa a chama da identidade do povo. A Samy Widóba, a Cultura da Sobrevivência, nasceu dessa sabedoria antiga, construída ao longo de muitas gerações que aprenderam a transformar desafios em aprendizado, dificuldades em força e esperança em caminho para o futuro.
Muito antes de existir o Uché Caraí, o Tempo do Branco, nossos antigos viviam de acordo com os ensinamentos da terra, das águas e dos Antepassados. O Amite, o alimento, vinha do trabalho coletivo, da caça, da pesca, dos frutos e das roças cultivadas com sabedoria. Mas os ventos da história trouxeram os Caraí, os colonizadores, e com eles chegou uma nova realidade. Era a Izutéba, a Nova Vida, cheia de mudanças, desafios e caminhos desconhecidos para o nosso povo.
Os mais velhos contam que, com o passar dos anos, aquilo que antes era abundante começou a se tornar raro. A Eicoré, a Escassez, passou a rondar as aldeias. As matas diminuíram, os territórios foram reduzidos e muitas famílias precisaram encontrar novas formas de garantir o sustento dos seus filhos. Foram tempos difíceis, em que a resistência precisou caminhar lado a lado com a Ubabani 'Esperança' .
Foi então que nossos parentes aprenderam a fortalecer a cultura da sobrevivência. Com suas próprias mãos passaram a Naté, trabalhar, produzindo o Buruhúá, os artesanatos que carregavam a memória dos ancestrais. Cada peça feita de madeira, palha, sementes ou barro não era apenas um objeto; era uma história viva, um ensinamento antigo transformado em trabalho digno para enfrentar as dificuldades do presente.
Ao mesmo tempo, o povo jamais abandonou seus cantos e suas tradições. Nas reuniões, festas e encontros entre comunidades, a Toráunie, a Dança Indígena, continuava a ecoar ao som do Toré, o Som Sagrado. O maracá chamava os parentes para o círculo, fortalecendo a união, a identidade e a amizade entre diferentes povos indígenas. Assim, a cultura não apenas sobrevivia, mas também se tornava uma ponte de aproximação e respeito.
E os anciãos ensinam que a verdadeira força dessa caminhada sempre esteve no Ucá, o Amor. Foi o amor pela família, pela comunidade, pela terra e pelos ensinamentos dos antepassados que permitiu ao povo seguir adiante. Dessa forma, entre desafios e conquistas, nasceu a Samy Widóba, a Cultura da Sobrevivência, mostrando que mesmo diante das maiores dificuldades, um povo que guarda sua memória e sua união jamais deixa de existir.
E assim, filhos e netos continuam ouvindo essas histórias para que nunca esqueçam de onde vieram. A Samy Widóba permanece viva em cada artesanato produzido, em cada canto entoado no Toré, em cada gesto de solidariedade entre parentes e em cada ensinamento transmitido pelos anciãos. Enquanto houver alguém para recordar, ensinar e praticar os valores deixados pelos Antepassados, a cultura da sobrevivência continuará caminhando junto ao povo, como um fogo sagrado que atravessa o tempo, ilumina o presente e prepara os passos das futuras gerações.
CAPÍTULO VIII - BURUHÚÁ NATICRÓRAÍ: ARTESANATOS NAS CIDADES DOS BRASILEIROS
Os mais antigos costumam reunir os mais jovens ao cair da tarde para recordar os caminhos percorridos por nossos parentes desde o tempo dos antepassados. Nessas conversas, eles ensinam que o povo Kariri-Xocó nunca viveu isolado do mundo ao redor. Assim como as águas do Opará encontram outros rios em sua caminhada, também nosso povo aprendeu a dialogar com diferentes povos e lugares. Entre essas histórias de encontros, destacam-se as viagens para as cidades dos brasileiros, onde o Buruhúá se tornou um importante mensageiro da cultura, da memória e da identidade de nossa gente.
Entre as margens do Opará e os caminhos da Terra Indígena Kariri-Xocó, existe a Natierácró, a nossa Aldeia Urbana, vizinha da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio. Desde tempos antigos, nossos parentes aprenderam a caminhar entre dois mundos: o da aldeia e o da cidade. Nessa convivência, fomos conhecendo novas formas de troca, amizade e partilha, sem jamais esquecer quem somos e de onde viemos.
Dizem os anciãos que, há muito tempo, chegavam até nosso povo os Atsemiucan, as pessoas que traziam coisas boas para vender e trocar. Vinham com utensílios, mantimentos e novidades que despertavam a curiosidade das famílias. Assim, pouco a pouco, nossos parentes também aprenderam a levar para fora da aldeia aquilo que produziam com as próprias mãos, transformando o saber ancestral em fonte de sustento e de encontro entre os povos.
Foi então que o Buruhúá, o artesanato Kariri-Xocó, ganhou caminhos cada vez mais distantes. Quando nossos jovens e nossos mestres viajavam para as Erátekié, as escolas dos brasileiros, levando consigo o canto, a dança e a força do Toré, também levavam colares, maracás, peças de madeira, sementes e outros trabalhos feitos com dedicação. Cada peça carregava um pouco da memória dos antepassados e contava, em silêncio, a história viva de nosso povo.
Em muitas dessas visitas, os brasileiros recebiam nossos artesanatos com respeito e alegria. Em retribuição, ofereciam Dipete Amiteá, doações de alimentos, e também Rocruté, roupas para ajudar as famílias da aldeia. Assim, as trocas iam além dos objetos. Eram gestos de amizade, solidariedade e reconhecimento, fortalecendo os laços construídos entre indígenas e não indígenas.
Por isso, os velhos costumam dizer que o Buruhúá é muito mais do que artesanato. Ele é uma ponte entre culturas, um mensageiro que atravessa estradas, cidades e fronteiras. Por onde passa, leva consigo a beleza dos saberes Kariri-Xocó e abre caminhos para novas amizades. Dessa forma, o Buruhúá continua unindo corações e mantendo viva a presença de nosso povo nas cidades dos brasileiros e pelo mundo afora.
A história vai sendo contada pelos guardiões da memória. Enquanto houver mãos para trançar sementes, esculpir a madeira, pintar os símbolos antigos e ensinar os mais novos, o Buruhúá continuará vivo. Cada peça produzida na aldeia carregará a voz dos ancestrais, a força do Opará e o orgulho de ser Kariri-Xocó. Por isso, quando um artesanato chega às cidades dos brasileiros, não leva apenas um objeto: leva uma parte da alma de nosso povo, que continua caminhando entre a Natierácró e a Naticróraí, preservando tradições, construindo amizades e mantendo acesa a chama da memória ancestral para as futuras gerações.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória apresentada nesta obra demonstra que os artesanatos Kariri-Xocó constituem muito mais do que expressões materiais da cultura. Eles representam a continuidade de conhecimentos transmitidos pelos Tokenhé, fortalecendo os vínculos entre memória, identidade e pertencimento.
Ao registrar esses saberes em forma escrita, buscamos contribuir para a valorização da cultura indígena, para o fortalecimento da memória coletiva e para a preservação de um patrimônio que continua vivo nas mãos, nas histórias e nos ensinamentos do povo Kariri-Xocó.
GLOSSÁRIO
Amite – Alimento.
Amiteá – Alimentos.
Antse – Natureza.
Atsemiucan – Vendedores ambulantes.
Arankié – Céu.
Badá – Flauta.
Bechiantse – Natureza a Roça
Buibú – Maraca, chocalho de ritmo.
Buruhúá – Artesanatos.
Buiehoho – Corpo.
Buzo – Trombeta do Toré.
Canghité – Coisas boas.
Canghito – Coisas boas de poder.
Caraí – Branco, colonizador.
Coité – Árvore da maraca.
Cópiné – Sementes.
Cró – Pedra.
Crodí – Força que sustenta o espírito.
Dakloná – Adornos.
Daklone – Colar adorno do pescoço.
Dakloeɲe – Brinco de penas.
Dakloro – Adorno do braço.
Dakloysã – Adorno das mãos, bracelete.
Daklowõ – Adorno das pernas.
Dipete – Doação.
Dzá – Dentes.
Dzuá – Águas.
Eicoré – Escassez.
Endi – Algodão.
Iaru – Flecha.
Ieendeá – Aves.
Iwodokrow – Anel de coco.
Iworópi – Pequenos círculos.
Izutéba – Nova Vida.
Hebadu – Pau de cabelo ornamento.
Kati – Abelha.
Keríá – Animais.
Maracá – Chocalho de coité ou cambuco.
Matikaí – Ritual do Aricuri.
Meá – Ossos.
Natiá – Aldeia.
Natianie – Aldeia Indígena Tradicional.
Natiankié – Aldeia Espiritual Antepassada.
Natierácró – Aldeia urbana.
Naticróraí – Cidade dos brasileiros.
Opará – Rio São Francisco.
Pawí – Cachimbo de pau.
Retsé – Floresta.
Samy – Cultura.
Samyba – Cultura da vida.
Samburá – Cera de abelha.
Sané – Trabalho.
Sasá – Saia de palha de aricuri.
Seridzé – Arco.
Setí – Cordão de fio de algodão.
Songaá – Penas coloridas.
Sotikaí – Festa ao redor do fogo.
Sutuá – Árvores.
Taquara – Arbusto que estrai a vara.
Tçambusebé – Cocar dos homens.
Tçuirú – Arremedo, apito.
Tereré – Tiara de penas feminina.
To – Poder.
Tokenhé – Antepassados.
Toráunie – Dança Indígena.
Toré – Ritual sagrado indígena.
Tsebu – Cabeça.
Tseho – Povo.
Uanieá – Indígenas.
Ucá – Amor.
Ubabani – Esperança.
Uché – Tempo.
Uttihu – Fruto, fruta.
Widóba – Sobrevivência.
Woroy – História.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/06/tokenhe-antoa-biheuche-os-antepassados.html?m=0 . Acesso 29 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiankié: Visão Kariri Pós a Morte e Outras Tradições Antigas. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/natiankie-visao-kariri-pos-morte-e.html?m=0 . Acesso 28 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Moradas Espirituais: Fusões de Mundos e Culturas. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/09/moradas-espirituais-fusoes-de-mundos-e.html?m=0 . Acesso 29 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Crenças do Mundo Espiritual, Contos - Volume 12 - Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-kariri-xoco-crencas-do.html?m=0 . Acesso em: 30 jun. 2026.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Atua como contador de histórias, pesquisador da tradição oral, escritor e divulgador da memória ancestral de seu povo.
É autor de diversos trabalhos voltados à preservação dos saberes indígenas, reunindo narrativas, pesquisas históricas, tradições espirituais, genealogias familiares e registros culturais fundamentados na tradição oral Kariri-Xocó.
Sua produção literária busca fortalecer a identidade indígena, valorizar a memória coletiva e contribuir para a preservação do patrimônio cultural dos povos originários do Brasil.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó





