sexta-feira, 6 de março de 2026

DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ






FALSA FOLHA DE ROSTO

(Primeira página interna)



DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, 

GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ 


Guardião e Mestres dos Saberes do Opará

Autor

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO

(geralmente página em branco)

Esta página permanece intencionalmente em branco.



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)


DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ 


Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas

Brasil

2026


VERSO DA FOLHA DE ROSTO


(Ficha editorial e catalográfica simplificada)

© 2026

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra reúne contos inspirados na tradição oral, na memória cultural e nos saberes ancestrais do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes das margens do Rio São Francisco, conhecido ancestralmente como Opará.

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, sem autorização do autor.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Título: Dzenhéá Duboheriá, Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará

Local: Porto Real do Colégio – AL

Ano: 2026

Tema:

Cultura indígena brasileira — tradição oral — povo Kariri-Xocó — memória cultural — Rio São Francisco (Opará).



APRESENTAÇÃO


O livro “Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará” reúne narrativas inspiradas na tradição cultural do povo Kariri-Xocó, habitantes das margens do grande rio Opará, conhecido na geografia brasileira como Rio São Francisco.

Nesta obra, o autor Nhenety Kariri-Xocó transforma memórias, ensinamentos e experiências da vida comunitária em contos que revelam a riqueza dos saberes tradicionais transmitidos ao longo das gerações.

As histórias apresentam personagens que representam diferentes formas de conhecimento presentes na cultura indígena: o mestre da cerâmica, o mestre dos balaios, o mestre da canoa, o mestre da pescaria, o mestre do Toré e outros guardiões da memória cultural da aldeia.

Esses personagens não são apenas figuras narrativas; eles simbolizam papéis fundamentais dentro da organização social e espiritual do povo Kariri-Xocó. Cada um deles carrega saberes ligados à terra, ao rio, à floresta e à convivência comunitária.

Ao registrar essas narrativas, o autor contribui para a preservação da tradição oral indígena, transformando histórias que antes circulavam principalmente na palavra falada em um documento cultural acessível a leitores de diferentes lugares.

A obra também revela a profunda relação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, rio que ao longo da história tem sido fonte de alimento, caminho de encontros e espaço sagrado de memória.

Mais do que uma coletânea de contos, este livro é um testemunho cultural que reafirma a importância da diversidade de saberes presentes nas culturas indígenas do Brasil.



DEDICATÓRIA


Dedico este livro aos ancestrais do povo Kariri-Xocó,

que ensinaram a escutar o rio Opará e a respeitar os caminhos da natureza.

Dedico também às crianças e jovens da aldeia,

para que continuem aprendendo, guardando e transmitindo os saberes do nosso povo.

Que cada história aqui contada seja como uma canoa sobre o rio:

levando a memória dos antigos para as gerações que ainda virão.



AGRADECIMENTOS


Agradeço, em primeiro lugar, aos anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó, guardiões da memória e dos saberes transmitidos através da palavra e da convivência.

Agradeço às comunidades indígenas que mantêm viva a tradição oral, fonte de inspiração para estas narrativas.

Agradeço também às instituições culturais e educacionais que valorizam a preservação da história e da identidade dos povos originários.

Meu reconhecimento especial às crianças e jovens da aldeia, que continuam escutando as histórias dos mais velhos e mantendo viva a cultura do nosso povo.

Por fim, agradeço ao Opará, o grande rio São Francisco, que há séculos acompanha, alimenta e guarda a história do povo Kariri-Xocó.



PREFÁCIO


Este livro nasce do encontro entre a memória ancestral e a palavra escrita. Durante muitos séculos, os saberes dos povos indígenas foram transmitidos principalmente pela oralidade: histórias contadas ao redor da fogueira, ensinamentos passados pelos anciãos e experiências vividas no cotidiano da aldeia.

Entre o povo Kariri-Xocó, que habita as margens do grande rio São Francisco — conhecido ancestralmente como Opará, o rio-mar — a memória coletiva sempre encontrou formas de permanecer viva. Nos cantos do Toré, nas práticas de pesca, nos trabalhos da roça, na arte do artesanato e nos rituais comunitários, os conhecimentos foram sendo preservados e renovados geração após geração.

Os contos reunidos neste livro apresentam figuras simbólicas fundamentais dentro dessa tradição: os Dzenhéá ou Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres dos saberes. Cada um deles representa um campo de conhecimento que sustenta a vida do povo Kariri-Xocó: a natureza, a cultura, a educação, a cura, a produção artesanal, a pesca, a navegação e as manifestações espirituais.

Mais do que simples narrativas, estas histórias são fragmentos de memória cultural. Elas revelam como os saberes tradicionais continuam dialogando com o presente, resistindo às mudanças do tempo e reafirmando a identidade de um povo.

Assim, “Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará” convida o leitor a percorrer os caminhos da tradição Kariri-Xocó, onde cada ensinamento nasce da relação profunda entre o ser humano, a natureza e o espírito dos ancestrais.



INTRODUÇÃO


O OPARÁ E O POVO KARIRI-XOCÓ


O rio São Francisco, chamado pelos povos originários de Opará, é um dos mais importantes rios do Brasil. Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, suas margens já eram habitadas por diversos povos indígenas que encontravam em suas águas alimento, caminhos de deslocamento e inspiração espiritual.

Entre esses povos estão os Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada às terras da atual região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas. Ao longo dos séculos, mesmo diante de processos de colonização, missões religiosas, mudanças políticas e transformações culturais, o povo Kariri-Xocó manteve viva grande parte de seus saberes tradicionais.

A vida comunitária desse povo sempre esteve conectada aos ciclos da natureza. O rio, as roças, as matas e os animais formam um sistema de convivência que orienta práticas de trabalho, alimentação, espiritualidade e organização social.

Dentro dessa estrutura cultural surgem figuras importantes responsáveis pela preservação do conhecimento: os Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres de saberes específicos. São pessoas que, por experiência e reconhecimento da comunidade, se tornam responsáveis por ensinar e transmitir práticas fundamentais para a continuidade da cultura.

Entre esses saberes estão o cultivo da terra, o artesanato, a construção de canoas, a pescaria, os cantos do Toré, a medicina tradicional e a produção de utensílios essenciais para o cotidiano da aldeia.

Os contos apresentados nesta obra reúnem personagens inspirados nesses mestres e guardiões, demonstrando que cada conhecimento tradicional representa um elo entre passado, presente e futuro.

Ao registrar essas narrativas, o autor contribui para fortalecer a memória cultural do povo Kariri-Xocó, permitindo que leitores de diferentes lugares conheçam um pouco mais sobre os saberes que nascem às margens do grande Opará.



SUMÁRIO


Falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Apresentação 

Dedicatória

Agradecimentos

Introdução – O Opará e o povo Kariri-Xocó

Prefácio 

Prólogo 

Contos ( 01 a 11 )

01. Dzenhéá Antse – Guardião da Natureza

02. Dzenhéá Samyá – Guardião da Memória e Cultura

03. Duboheriá – Guardiões do Saber

04. Dzenuandzoá – Guardião da Cura

05. Dzenu Katiantse – Guardião das Abelhas

06. Duboheridé Ruñohú – A Mestra da Cerâmica

07. Duboruhúá – Os Mestres do Artesanato

08. Duboeretuá – O Mestre dos Balaios

09. Duboheri Torá – Canto do Mestre do Toré

10. Duboherubá – O Mestre da Canoa

11. Duboheri Mydzé – O Mestre da Pescaria


Conclusão

Glossário

Referências

Nota sobre o autor

Sobre a obra



PRÓLOGO


Antes das cidades, antes das estradas e antes do barulho das máquinas, havia o silêncio profundo do Opará.

O grande rio corria livre entre as matas e as aldeias, carregando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Cada curva do rio guardava um ensinamento, cada pedra escondia uma memória, cada árvore conhecia o nome dos antigos.

Entre o povo Kariri-Xocó, os saberes nunca viveram apenas nas palavras escritas. Eles caminharam na fala dos mais velhos, nos gestos de quem trabalha a terra, na habilidade de quem constrói uma canoa, no canto de quem puxa o Toré e na paciência de quem aprende a pescar respeitando o tempo do rio.

Esses saberes pertencem aos Dzenhéá, os guardiões, e aos Duboheriá, os mestres que mantêm viva a memória do povo.

Cada um deles carrega um conhecimento que não está apenas nas mãos ou na voz, mas também no espírito da comunidade.

Este livro reúne histórias inspiradas nesses mestres e guardiões. São narrativas que falam de trabalho, de tradição, de resistência cultural e da profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará.

Assim, antes que o primeiro conto comece, é importante lembrar: estas histórias não pertencem apenas ao papel.

Elas pertencem à memória viva de um povo.



CONTOS ( 01 a 11 )



01. DZENHÉÁ/DZENUÁ ANTSE – OS GUARDIÕES DA NATUREZA





Na Radá, a Terra viva dos Uanieá, indígenas que existia numa Natiá, aldeia onde tudo respirava junto: as pessoas, as árvores, as águas e os animais. Ali, diziam os anciãos, a Antse, a Natureza, havia moldado o Radda, o Mundo, com a força do Ukie, o Sol, iluminando a Hine do Cayápri, o Dia.


Quando o Uché, o Tempo, se movia, surgiam o Tidzebæ, o Relâmpago, as Arankedzoá, as Nuvens, e então vinha o Dzo, a Chuva, descendo para alimentar as Dzuá, as Águas, que corriam até a Ebedzú, a Fonte sagrada do Iwo Opará, o grande Rio São Francisco.


Foi nesse lugar que vivia Ynori, um jovem curioso, que sonhava em se tornar um Dzenuá Antse, um Guardião da Natureza. Ele sabia que não bastava querer: era preciso aprender com quem escutava os seres da floresta.


Certa noite de Kaia, quando a Kaiaku, a Lua, iluminava o Aranke, no céu e as Batiá, estrelas que brilhavam, Ynori sentou-se ao lado do ancião Vovô Irecê, guardião dos Woroyá, as histórias antigas.


— Vovô, perguntou o jovem,


— por que tantos Keríá, animais desapareceram de nossas Retséá, florestas?


Irecê suspirou fundo, como quem chama a memória da Terra.


— Quando os colonizadores chegaram, eles esqueceram que Antse, a natureza tem espírito. Derrubaram as florestas, calaram muitos Keríá. Hoje, eles vivem mais nas Nhenetíá, nas tradições, e nas Woroyá, histórias que contamos.


E então o ancião começou a nomear os ausentes, como quem chama seus espíritos:


Inhiconete, a Preguiça; Hamoklekle e Rõti, as Onças; Murawó, o Porco-do-mato; Dziku, o Bugio; Kukryt, a Anta; Pãn, a Arara; Krêre, o Papagaio; Imbuam, a Seriema…


Cada nome fazia o fogo estalar, como se os Keríá escutassem.


— Mas nem tudo se perdeu, continuou Irecê.


— Os Dzenuá Antse ainda caminham entre nós.


No dia seguinte, Ynori foi levado à floresta por Anaiê, uma anciã que conversava com os pequenos seres. Ela mostrou o Ibozoim, o Sonhim, a Kati, a Abelha trabalhadora, o Munim, o Grilo cantor, e até o Myghy, o Caramujo paciente.


— Todo ser tem Ba, Vida, disse Anaiê.


— Até o menor Axum, a Formiga, sustenta o mundo.


Mais adiante, perto das águas, aprenderam sobre a Nieɲi, a Cobra guardiã dos caminhos, o Klimi, a Lontra das Dzuá, águas e o Hazú, o Tamanduá silencioso. Anaiê explicou que proteger também era não caçar, não destruir, saber esperar.


— A Boregor, a Caipora, ainda protege os Keríá Uaplu, disse ela.


— Hoje, só caçamos quando a Antse, natureza permite, e apenas em extrema necessidade.


Ao entardecer, Ynori viu Gongá o sabiá cantar, o Xáj, picapau bater o bico no tronco e o Xõn, urubu circular no alto, limpando o mundo. Ele compreendeu, então, que ser Dzenuá Antse não era lutar contra a natureza, mas caminhar com ela.


Naquela noite, olhando a Kaiaku, lua refletida no Aindzu, o Mar distante, Ynori fez seu juramento silencioso:


guardar as florestas, respeitar os Keríá, ouvir os anciãos e ensinar aos mais novos.


E assim, dizem os Woroyá, que todo Kariri-Xocó pode se tornar um Dzenuá Antse, desde que escute a Antse, respeite o Uché e cuide do Radda como quem cuida da própria alma.




02. DZENHÉÁ/DZENUÁ SAMYÁ, OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA E DA CULTURA





Naquele fim de tarde, quando o vento atravessava a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri, o velho Nhamuã caminhava lentamente entre as árvores. Seus passos eram firmes, mas leves, como quem não pisa no chão, e sim na lembrança dos ancestrais. Nhamuã era conhecido entre os Kariri-Xocó como Dzenu Woroy, o Guardião da História.


Ao seu lado seguiam dois jovens aprendizes: Amoãny, atenta como o voo do gavião, e Kanamã, curioso como as águas do rio que nunca cessam de perguntar à terra por onde passam.


Nhamuã parou diante de um tronco antigo, marcado pelo tempo, e ali se sentou. Com a voz serena, iniciou o ensinamento:


— Meus filhos, antes de tudo, precisam saber que o Nordeste foi o primeiro chão pisado pelos colonizadores, mas também o primeiro a sentir a dor do contato. Muitos povos perderam suas línguas, seus cantos, seus costumes… alguns quase desapareceram como fumaça ao vento.


Amoãny abaixou a cabeça, respeitoso. Kanamã, com os olhos brilhando, perguntou:


— Mas por que nós ainda estamos aqui, Nhamuã?


O velho sorriu, como quem guarda o segredo do mundo.


— Porque aprendemos a resistir. Sobreviver não foi fácil. Foram séculos de estratégia, amor ao povo e fidelidade à memória. Ser Kariri-Xocó é carregar o tempo dentro do peito.


Nhamuã então tocou o chão com a palma da mão e continuou:


— Entre nós existem os Dzenuye ou Dzenuá, os Guardiões. São eles que mantêm vivo aquilo que o tempo tenta apagar.


E, um a um, foi nomeando, como quem convoca espíritos antigos:


— Há o Dzenu Samy, Guardião da Memória e da Cultura.


— O Dzenu Woroy, Guardião da História.


— O Dzenu Woroyé, Guardião dos Contos e das Fábulas.


— O Dzenukaá, Guardião dos Cantos.


— O Dzenu Torá, Guardião da Dança.


— O Dzenu Toré, o Guardião Soprador.


— O Dzenu Uaɲoá, Guardião dos Costumes.


— O Dzenu Nhenetíá, Guardião das Tradições.


— E o Dzenu Amíudé, Guardião da Culinária.


Cada nome parecia ecoar entre as árvores, como se a floresta respondesse em silêncio.


— Manter os uaɲo, os costumes — prosseguiu Nhamuã — é um ato de amor ao povo. Assim como preservar o nhenetíá, nossas tradições. Viver onde viveram nossos pais, nossos parentes e nossos ancestrais nos dá equilíbrio, harmonia e paz de espírito.


Kanamã respirou fundo e sentiu o cheiro da terra úmida, misturado à fumaça distante do fogo comunitário.


— É por isso que dançamos o toré? — perguntou.


— Sim — respondeu o velho. — É por isso que cantamos, pescamos juntos, partilhamos a comida, celebramos os mutirões e entramos na floresta sagrada. Tudo isso é memória viva passando de geração em geração.


O sol começava a se esconder. Nhamuã levantou-se lentamente.


— Um dia, Amoãny… Kanamã… vocês também serão Dzenuyeá. E quando esse dia chegar, lembrem-se: guardar a história não é apenas contar o passado, mas proteger o espírito do povo para o futuro.


Os dois jovens permaneceram em silêncio, sentindo que naquele instante haviam recebido algo maior que palavras: haviam recebido a missão.


E assim, na Retséantoá, a memória continuou viva.



03. DUBOHERIÁ E DUBOHERIDÉÁ – OS GUARDIÕES DO SABER NO OPARÁ





À margem esquerda do grande Opará, onde o rio fala com as pedras e o vento atravessa as Retséá, as florestas vivia o povo Kariri do grupo linguístico Dzubukuá. Sua Natiá, aldeia repousava entre as águas da Dzurichi Lagoa Comprida e as florestas antigas, lugar onde o tempo não corria — caminhava.


Ali moravam Duboheriá, o Mestre do Saber, e Duboheridéá, a Mestra da Palavra Viva. Não usavam paredes nem livros de pedra. Seus ensinamentos nasciam da terra, do rio, do fogo e da memória. As crianças sentavam-se em roda, e os Subatekié, conhecimento, Nhenetí, tradição fluíam como canto antigo, passando de geração em geração.


— Aprender é escutar o espírito da terra, dizia Duboheriá, enquanto traçava sinais na areia.


— Ensinar é manter vivo o que não pode morrer, completava Duboheridéá, com a voz calma das avós do mundo.


Mas um dia, o silêncio da floresta foi cortado por vozes estranhas. Chegaram os Waréá, padres vestidos de preto, trazendo cruzes e palavras novas. Com eles vieram os Caraí, brancos, os Peró, portugueses como diziam os Tupinambás. No alto do Boêdo, onde antes se ouvia apenas o canto dos pássaros, ergueram a Erantoá, a casa dos santos, e logo depois o Erátekié, o colégio dos jesuítas.


Os ensinamentos mudaram.


Os Duboheriá e as Duboheridéá foram silenciados. Seus lugares passaram a ser ocupados por vozes que não conheciam o Opará nem falavam com os espíritos da floresta. As Erácró, casas de pedras  cresceram, transformando a antiga Natiá, aldeia tradicional numa Naticróraí — a aldeia de pedra dos brancos.


Com o tempo, veio o Império, depois a República. Os Kariri foram empurrados para fora do centro, vivendo agora na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Sem proteção, sem terra, sem direito — mas ainda com memória.


As Duboheridéá, mestras envelheceram, mas nunca deixou de ensinar. À noite, reunia as crianças e sussurrava histórias proibidas, como sementes escondidas no chão seco. 


Em 1944, algo mudou. O Estado reconheceu novamente os indígenas. Surgiu o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso. Na Rua dos Índios nasceu a Escola dos Kariri. Mas ainda não era tempo de retorno completo: os professores vinham de fora, ensinavam sem ouvir.


Só em 1973 as primeiras professoras indígenas cruzaram os portões da escola. Duboheridéá já não caminhava, mas sorriu quando soube. Na década de 1980, o número cresceu. O saber começava a voltar para casa.


Em 1999, a educação indígena foi reconhecida segundo sua própria cultura, arte, língua e história. O que antes era sussurro voltou a ser voz.


E em 2006, a escola recebeu o nome do Pajé Francisco Queiroz Suíra. Ali, finalmente, os professores e professoras eram do próprio povo Kariri-Xocó.


Naquele dia, dizem que o vento passou diferente sobre a Lagoa Comprida.


Duboheriá, agora espírito da memória, falou ao rio:


— Voltamos.


Hoje, o saber ancestral caminha novamente pela escola:


Duboherí Worobü ensina os números como caminhos,


Dubosamy ensina cultura como raiz,


Doboherí Nunúanie faz a língua nativa florescer,


Duboherí Subantse revela os segredos da natureza,


Dubohé Hibuyê faz do corpo movimento sagrado.


E assim, no Opará, o ensino voltou a ser o que sempre foi:


memória viva, palavra ancestral e continuidade do povo.



04. DZENUANDZOÁ, GUARDIÕES DA CURA NATIVA





No Brasil, terra de muitos povos, muitas línguas e muitas memórias, vivem os Kariri-Xocó, guardiões antigos do chão, da palavra e do espírito. Na aldeia, quando o sol nasce lento sobre o rio São Francisco e o vento passa conversando com as árvores, há sempre alguém que procura a casa do Pajé, o Bidzamu, aquele que escuta o invisível. Outros vão aos Atseáde, “Pessoas que Rezam”, os rezadores e rezadeiras, e também aos Atseandzoá, “Pessoas que Curam”, os curadores.


Na Aldeia Kariri, antigamente, e depois na Aldeia Kariri-Xocó, passaram várias gerações de pajés, rezadores, rezadeiras e curadores.


Entre os pajés estiveram: Pedro Lolaço, Ludovico, Baltazar, Manoel Paulo, Manoel Joaquim (Dunga), Francisco Suíra e Júlio Suíra.


Entre os rezadores, rezadeiras e curadores estiveram: Gravié, Matildes, Iria, Marieta, Kandará, Maria Véia, Frederico e Kênede.


Todos eles são Dzenuandzoá, os Guardiões da Cura.


São assim reconhecidos:


Bidzanuandzo – Pajé, Guardião da Cura;


Dzenude – Guardião da Reza;


Dzenuandzoá – Guardiões da Cura.


Naquela manhã, enquanto o Pajé preparava sua Dzó, a mesinha sagrada onde repousam os remédios da floresta, aproximou-se Ynorá, jovem da aldeia, curiosa e respeitosa. Ela observava em silêncio o movimento lento das mãos do Pajé, que maceravam folhas do Uanrandzi, remédio ensinado pelos ancestrais.


— Vovô Suíra, — disse ela em voz baixa — por que tanta gente vem de longe até sua casa?


O Pajé levantou os olhos, fundos como a mata do Ouricuri, e sorriu com a paciência de quem já ouvira aquela pergunta muitas vezes.


— Eles não vêm só atrás da cura do corpo, Ynorá. Vêm buscar a cura do espírito. O que dói por dentro, muitas vezes, não se resolve com remédio da cidade.


Ela se aproximou mais.


— E quem lhe ensinou tudo isso?


O Pajé suspirou, olhando para o chão batido da casa.


— Foi a floresta, foram os antepassados, foram meus avós e os avós deles. Nada disso é só meu. Eu apenas guardo e repasso. O saber não tem dono; é do povo.


Do lado de fora, chegavam pessoas da cidade, dos povoados vizinhos e até de outros estados do Brasil. Todos entravam com respeito, cabeça baixa e coração aberto. Ali, na casa simples do Pajé Suíra, encontravam silêncio, palavra certa e a força invisível da tradição.


À noite, quando o ritual acontecia na floresta sagrada do Ouricuri, todos os Kariri-Xocó se reuniam. O fogo aceso iluminava os rostos, e o Pajé conduzia o ritual com firmeza e humildade. Ninguém interrompia. Todos sabiam: ali falava o Guardião.


Ynorá, sentada entre os mais velhos, compreendeu então que o Pajé não era apenas um curador, mas um elo vivo entre passado, presente e futuro. Um guardião da cura, da memória e da identidade de seu povo.


E assim, enquanto houver floresta, palavra e respeito, o Bidzanuandzo continuará caminhando entre os Kariri-Xocó, curando corpos, acalmando espíritos e, junto aos outros Dzenuandzoá — Guardiões da Cura — mantendo viva a chama ancestral.



05. DZENU KATIANTSE – O GUARDIÃO DAS ABELHAS NATIVAS





Na Terra Indígena Kariri-Xocó, onde a vida caminha entre dois mundos, estendem-se os ecossistemas que nossos antigos nomearam com sabedoria. De um lado, a Retséaraí, a Floresta Branca da Caatinga; do outro, a Retsé Aindzu, a Floresta do Mar, a Mata Atlântica. Entre elas, como coração que ainda pulsa apesar das feridas, resiste a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri.


As cidades do Baixo São Francisco, às margens do Rio Opará, avançaram no passado como fogo sem dono, devastando florestas e silenciando cantos antigos. Restaram poucas áreas — e nelas, a memória dos seres que sustentavam a vida.


Entre esses seres estavam as Katiá, as abelhas. Não quaisquer abelhas, mas as Katiantse, abelhas nativas sem ferrão, guardadas na tradição oral como se fossem parentes próximos.


— Vovô, por que o senhor fala com tanto cuidado quando diz o nome delas? — perguntou certa vez um menino, sentado à sombra de um ouricuri.


O velho ancião Baca, de olhar profundo como a terra antiga, sorriu antes de responder:


— Porque nome é espírito, meu neto. Quando digo Jandaíra, Uruçu, Tiúba, Mandaçaia, Manduri, Jataí ou Arapuá, eu chamo quem sustenta a floresta.


Baca era conhecido como o Dzenu Katiantse, o Guardião das Abelhas Nativas. Em seu quintal viviam cortiços de Uruçu, Tiúba e Mandaçaia. Ele não as possuía — apenas cuidava.


— Elas trabalham sem ferir ninguém, dizia o ancião, enquanto observava o voo delicado das abelhas.


— E o que elas fazem, vovô?


— Elas acordam as Purúá, respondeu, apontando para as flores da floresta. Sem elas, a Retsé adoece.


As abelhas polinizavam as flores, e as flores sustentavam a vida. Assim era o equilíbrio.


Com o tempo, Baca partiu para o mundo dos espíritos ancestrais. Mas o guardião não morreu — apenas se multiplicou.


Hoje ainda existem Dzenuá Katiantse. Um deles é Nhãbojô, sobrinho de Baca, que aprendeu com o tio o silêncio, a paciência e o respeito pelos seres pequenos. O outro é Kaynamã, conhecedor profundo da Arapuá, a abelha redonda.


— O mel dela não é doce como o das outras, explicou Kaynamã a uma jovem artesã.


— Então por que cuidamos dela?


— Porque sua cera ensina nossas mãos a lembrar quem somos.


Mas nem tudo permaneceu em equilíbrio. Com a chegada dos colonizadores, vieram também as Eíraetémaîu, as abelhas estrangeiras bravas. Com ferrão e agressividade, elas tomaram espaço, atacaram as nativas, feriram pessoas e animais.


— Essas abelhas não conhecem a floresta, lamentou Nhãbojô.


— Elas não pedem licença, completou Kaynamã.


Muitas Katiantse desapareceram. Outras resistem em segredo, escondidas em troncos antigos, aguardando o tempo da volta.


Hoje, o povo Kariri-Xocó guarda uma esperança viva.


— Vamos trazer de volta nossas abelhas, diz o mais velho ao redor do fogo.


— Como faremos isso? — pergunta uma criança.


— Pedindo ajuda aos parentes que ainda guardam colmeias. E ensinando aos mais novos que cuidar da floresta é cuidar de nós mesmos.


E assim, enquanto houver quem conte essa história, o Dzenu Katiantse continuará caminhando invisível pela Retsé, protegendo as abelhas, as flores e o futuro.



06. DUBOHERIDÉ RUÑOHÚ – A MESTRA DA CERÂMICA





Na aldeia Kariri-Xocó, o barro sempre falou pelas mãos das mulheres.


Chamavam essa arte de Ruñohú, a cerâmica que, por séculos, sustentou a economia da comunidade e guardou a memória do povo no formato de potes, panelas, pratos e talhas. Cada peça carregava o sopro da terra, o fogo do tempo e a sabedoria das anciãs.


Mas os anos passaram, e as Dubobunhá, as Mestras do Barro, foram envelhecendo. Poucas mãos jovens se aproximavam do barreiro, e a tradição começou a silenciar.


Numa tarde quieta, a jovem Saynã, ainda Tibudina — moça em tempo de aprender — percebeu a tristeza da avó Soyá, sentada à sombra, olhando o chão como quem escuta a terra chorar.


— Vovó Soyá, por que estás tão triste? — perguntou a neta.


A anciã suspirou fundo antes de responder:


— Estou triste, minha neta, porque as Ruñohú estão ficando velhas. Não vejo mais Tibudina interessada em aprender. Assim, a tradição do barro pode morrer.


Saynã sentiu o peso daquelas palavras. Aproximou-se da avó e disse com firmeza:


— Não fique triste, vovó. Eu vou aprender. E vou chamar as outras moças da aldeia para aprender comigo.


O rosto de Soyá se iluminou num sorriso antigo, daqueles que só quem carrega muitas luas conhece.


— Sim, minha neta. Vocês darão continuidade à tradição do barro. É um caminho longo, mas vale a pena. Nossas esperanças estão nas Tibudina.


No dia seguinte, ainda cedo, Soyá chamou Saynã e as outras moças.


— Vamos buscar o barro.


Pegaram o Tasípi, a enxada pequena, e o Bará, o balaio. Caminharam até o Bunhakuá, o barreiro onde nasce a argila, o bunhá. Ali cavaram o barro — Kla dó bunhá — colocaram o barro seco no balaio — Andé ti crá bunhá anra bará — e seguiram de volta para a Erá, a casa.


— Agora começa o verdadeiro trabalho, disse Soyá.


Prepararam o barro — Diteri dó bunhá — quebraram os torrões — Pedabó bunhá crærù — molharam com água — Curaempá dehó dzu — e amassaram com areia e cinza — Poroné bunhá dehó bydi andé ketci. Formaram o bolo de barro — Küdi bunhá — até ficar pronto para trabalhar — Pidé prihy aiby naté.


As mãos jovens aprenderam a sentir o tempo do barro.


Nasceram Sacrí, o pote Ruño, a panela Runhú, o prato Aribé e a grande talha Buhú, que os parentes Tupi chamam Igaçaba. Usaram o Prebúde, capeador de coité; a argila amarela Tawá; e a semente de Mucunã para alisar as peças, como ensinavam as antigas.


Depois de secas ao sol — Kuedi crá canghité bunhá andé banhe — as peças foram levadas ao forno, o Bubehó. O fogo foi preparado — Diteri dó isú anra bunhá bubehó — e a queima começou ao cair da tarde, atravessando a noite, enquanto o fogo conversava com o barro.


Só depois do esfriar veio o momento de retirar as peças, fortes e vivas.


— Pronto, minha neta, disse Soyá. Vocês aprenderam. A cerâmica mantém viva a tradição e também gera renda para o nosso povo.


Saynã sorriu e perguntou:


— E depois, vovó?


— Depois levamos a cerâmica para as cidades próximas ao rio Opará, respondeu a anciã. Lá fazemos Taiutará: trocas e vendas com os Caraí. Trazemos galinha, farinha, crueira de mandioca, vestidos, fumo e dinheiro.


Saynã olhou para as peças, para as mãos das moças e para a avó.


Naquele dia, a tradição não apenas sobreviveu.


Ela renasceu.


E o barro, mais uma vez, falou.



07. DUBORUHÚÁ – OS MESTRES DOS ARTESANATOS





Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, o tempo caminhava ao ritmo do rio São Francisco e da memória dos antigos. A partir dos anos de 1990, uma nova força passou a sustentar muitas famílias: o Buruhúá, o artesanato tradicional, herança viva das mãos e dos saberes ancestrais.


Foi nesse tempo que Yakoá, rapaz recém-casado, sentiu o peso da responsabilidade crescer em seu peito. Precisava encontrar um meio de sustentar sua casa sem se afastar da cultura de seu povo. Pensando nisso, decidiu procurar Kaikurú, um dos artesãos mais respeitados da aldeia.


Ao encontrá-lo, Yakoá falou com humildade:


— Kaikurú, o senhor é o Duboruhúá, Mestre dos Artesanatos. Gostaria de aprender essa arte para melhorar minha renda.


O velho Kaikurú sorriu com serenidade, como quem carrega muitas histórias nos olhos, e respondeu:


— Yakoá, sou apenas um Duboruhú, Mestre de Artesanato. Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, existem muitos em nossa aldeia. Cada um guarda um saber. Posso lhe ensinar a minha arte, pois sou Duboredzé Benhekié, Mestre de Arco e Flecha de Brinquedo, que faço para vender.


Kaikurú então passou a ensinar não apenas com palavras, mas com memória. Disse a Yakoá que na aldeia existiam muitos mestres:


Havia os Dubodaklon, Mestres dos Adornos:


— o Dakloro, adorno do braço;


— o Dakloeɲe, brinco;


— o Dakloɲe, colar;


— o Daklowõ, adorno da perna.


Havia também o Duboawí, Mestre do Cachimbo de Pau;


o Duboriaru, Mestre da Zarabatana, chamada Toriaru;


o Dubouibú, Mestre do Maracá;


Duboebaté "Mestre do Colar de sementes, dentes de animais, ossos de peixe, garras ou pedrinhas";


o Duboheri Tçambusebé, Mestre do Cocal


e o Duboasá, Mestre da Saia de Palha.


— Existem muitos Duboheri, Mestres — concluiu Kaikurú —, mas todos eles formam os Duboruhúá, os Mestres dos Artesanatos.


Yakoá ouviu com atenção e respeito. Seu coração se encheu de entendimento.


— Agora compreendo, grande mestre Kaikurú. Muito obrigado por me mostrar os saberes vivos de nossa aldeia.


Kaikurú então falou com firmeza e carinho:


— Diante de tudo o que ouviu, cabe a você escolher qual caminho seguirá dentro de nossa arte e cultura.


Após um breve silêncio, Yakoá respondeu decidido:


— Grande mestre Kaikurú, desejo aprender a confeccionar o Toriaru, a Zarabatana. Quem sabe, um dia, eu possa me tornar um Duboheri, até alcançar o caminho de Duboriaru, Mestre da Zarabatana.


O ancião assentiu com aprovação:


— Fez uma boa escolha. Procure Akinoã, o ancião Duboriaru. Ele lhe ensinará a confeccionar e a manejar o Toriaru.


 Aprendendo essa arte, você encontrará sustento e dignidade, pois quem trabalha com a cultura nunca caminha sozinho.


Yakoá agradeceu profundamente. Dias depois, procurou Akinoã. Aprendeu com paciência, respeito e dedicação. Suas mãos passaram a compreender o silêncio da madeira, o sopro do vento e o equilíbrio do gesto.


Com o tempo, alcançou seu objetivo. Passou a viver de sua arte, sustentando-se com o trabalho honesto e com o amor à sua vocação, mantendo viva a sabedoria ancestral do povo Kariri-Xocó.


E assim, na aldeia, os saberes continuaram a caminhar de geração em geração, como o rio que nunca deixa de correr.



08. DUBOERETUÁ, O MESTRE DOS BALAIOS





A aldeia despertava lentamente sob o sopro do tempo novo. A globalização chegava como vento estranho, trazendo consigo objetos de plástico, metal e palavras apressadas. Mesmo assim, entre os Kariri-Xocó, havia coisas que o tempo não conseguia levar. Certos costumes permaneciam firmes como raízes antigas fincadas na terra.


Entre esses costumes estava o Setu, o balaio. Não era apenas um objeto. Era símbolo de fartura, de trabalho coletivo, de respeito à terra. Dentro dele iam os frutos da roça, os alimentos colhidos na floresta, a certeza de que a vida seguia seu curso natural. E, na aldeia, havia um homem que guardava esse saber como quem guarda um segredo sagrado: Duboeretuá, o Mestre dos Balaios.


A aproximação do Curuté Kayaku, a Lua da Colheita, anunciava que julho estava às portas. As espigas de masiche (milho) já se inclinavam maduras, o ghinhé (feijão) esperava ser colhido, e a bechiéá (roça) pedia mãos cuidadosas.


Foi então que o jovem Aponã, com o olhar curioso dos que caminham entre dois mundos, se aproximou do tio.


— Tio Akyná — disse ele —, vou à cidade comprar sacos de nylon para colher o milho e o feijão.


O velho Akyná ergueu os olhos com calma. O rosto carregava o tempo, mas também a memória dos ancestrais.


— Não, Aponã — respondeu com firmeza serena. — Esses sacos não me agradam. São artificiais, não conversam com a terra, eles representam a ganância capitalista de produção desenfreada. 


Fez uma pausa, como quem escuta o silêncio antes de continuar.


— Eu gosto mesmo é do Setu, do balaio que simboliza a fartura. Nasci e me criei nessa tradição. Para esta colheita, vou encomendar os Setu e os Bará ao senhor Nhãnoá, o grande Duboeretuá, Mestre dos Balaios.


E assim foi feito.


Quando chegou o dia da colheita, os caminhos da roça se encheram de passos e cantos. Os Bará, grandes balaios entrançados de cipó e taquara, carregavam masiche, ghinhé, muicú (mandioca) e idzá (frutas). Eram fortes, resistentes, feitos para sustentar não apenas alimentos, mas histórias.


Os Setu, menores, guardavam utensílios e pequenos objetos do cotidiano. E havia também a Tinhé, a cesta mais delicada, com alça de cipó, que repousava no ombro como extensão do corpo. Cada peça tinha sua função, seu espírito, sua palavra silenciosa.


Tudo aquilo saíra das mãos de Duboeretuá. Suas mãos conheciam o tempo certo do cipó, o modo correto do entrançado, o respeito necessário para transformar matéria viva em objeto de uso. Ele não fazia balaios apenas por encomenda; fazia por compromisso com os que vieram antes e com os que ainda virão.


Mesmo com tantas mudanças culturais, a tradição resistia. Os balaios ainda eram feitos, ainda circulavam na aldeia, ainda carregavam a colheita e o sentido da vida comunitária.


E enquanto houvesse alguém que lembrasse, alguém que ensinasse, e alguém que escolhesse o balaio em vez do nylon, a tradição permaneceria viva — entrançada como cipó, forte como taquara, eterna como a memória do povo Kariri-Xocó.



09. DUBOHERI TORÁ – CANTO DO MESTRE DO TORÉ





Na terra de Porto Real do Colégio, onde o rio escuta e a mata responde, vive o Toré, conjunto de cantos, danças e instrumentais do povo Kariri-Xocó. Certo dia, as crianças Mayra e Nakã se aproximaram do avô Suré e perguntaram em voz curiosa: “Vovô, como é o Toré? Por que as pessoas daqui gostam tanto de cantar e dançar? Sempre foi assim? E o teu nome, o que quer dizer?” 


O velho Suré respirou fundo, olhou a grande roda da aldeia e começou a cantar-falar: “Escutem bem, meus netos. O Toré significa o Som Sagrado da Flauta. É o sopro do Buzo, trombeta feita da Ubaúba, que traz a sonoridade que imita o trovão de Tupã, nosso Deus, por isso é som sagrado.” 


A comunidade respondeu em coro: “É som sagrado, é voz do trovão, é Tupã falando no sopro do Toré.” Suré continuou: “Meu nome, Suré, quer dizer Soprador de Toré, tocador, soprador de flauta ou buzo.


Quando eu era jovem, iniciei como tocador de flauta nos Ka, os cantos, e no Torá, as danças. Hoje sou Duboheri Torá, Mestre do Toré, Kawonhé, puxador de canto, aquele que inicia com Ebayasi, os assobios que chamam a dança e acordam a grande roda.” 


O narrador então diz que o Ebayasi ecoa no ar e o povo responde: “Ebayasi, Ebayasi, o Toré vai começar.” Suré segue contando: “Antigamente, antes dos brancos chegarem, cantávamos o Toré com Rouanie, a roupa indígena. 


O corpo era canto: Bukencré "Pintura Corporal"; Sasá, a saia de palha; Daklotsebu Songaá, o cocar de penas; Dakloro, adorno do braço; Dakloeɲe, o brinco; Dakloɲe, o colar; e Daklowõ, o adorno da perna.” 


Mayra e Nakã perguntam com voz triste: “E por que não é sempre assim, vovô?” Suré responde: “Porque os jesuítas proibiram nossos costumes e tradições, tentaram calar o Toré. Mas ele não morreu.” A comunidade afirma forte: “O Toré não morreu, o Toré resistiu.” 


Suré então explica: “Para não perder nossa tradição, passamos a cantar o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, vestes trazidas pelo colonizador. Na Dzó Kayaku, lua da chuva de junho, com a colheita do Masichi Erã, o milho verde, cantamos o Torá Rocruté para comemorar Santo Antônio, São João e São Pedro, nas fogueiras da aldeia.” 


O narrador diz que na Iworoyé, a grande roda, o povo acende o Buyê mó torá Toré, a fogueira para dançar, e ali, nos intervalos, são assados milho verde, carne e peixe para alimentar o povo durante os festejos. Suré continua: “O Toré é cantado em muitas ocasiões: no Torá Diparí, o Toré do morto, nos despedimos de quem partiu; no Torá Curoté, agradecemos à Mãe Terra pela colheita; no Torá Sacrí, damos boas-vindas à criança que nasce; e no Torá Piwonhé, abençoamos o casamento dos recém-casados.” 


Mayra e Nakã perguntam com alegria: “Então o Toré é tudo, vovô?” E Suré responde firme: “Sim, meus netos. O Toré é nossa história cantada, é memória viva, é resistência do povo Kariri-Xocó.” O narrador encerra dizendo que no Batti, final de ano, na Pehó Kayaku, lua da enxurrada de dezembro, havia um grande Toré na festa de Nossa Senhora da Conceição, cantado a noite inteira até o dia amanhecer, enquanto a comunidade canta em uníssono: “Toré vive, Toré resiste, Toré é Kariri-Xocó.”



10. DUBOHERUBÁ – O MESTRE DA CANOA





O Rio São Francisco, que os antigos chamam de Opará, corria como uma serpente viva, guardando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Desde as nascentes até a foz no Aindzu, o grande Mar, o rio era caminho, alimento e espírito. Era por ele que as aldeias se reconheciam como irmãs.


Na Natiá, a aldeia assentada à beira do Opará, vivia o velho Duboherubá Mhoácy conhecido por todos como o Mestre da Canoa. Seus cabelos já eram da cor da lua cheia, e suas mãos traziam os calos do tempo, marcas de quem conversava com a madeira antes de transformá-la em Ubá.


— A canoa não nasce do machado, dizia ele ao jovem Iruan, seu aprendiz.


— Ela nasce do respeito à árvore e ao rio.


Iruan escutava atento enquanto o mestre tocava o tronco escolhido, pedindo licença aos espíritos da mata. Para os Kariri, a canoa não era apenas transporte. Em Tupi, chamavam-na Ubá; entre os Kariri, Banahoya. Era extensão do corpo humano sobre a água.


Defronte à aldeia ficava o Ubacródzu, o Porto das Canoas. Ali repousavam as Ubáydzéá, canoas de pescaria que deslizavam silenciosas nas madrugadas. Algumas levavam os homens ao mydzéá, a pescaria; outras seguiam para as sitóá, as caçadas; muitas carregavam os frutos das Bechiéá, as roças que sustentavam a vida do povo.


O velho Duboherubá lembrava do tempo em que o rio era estrada viva.


— O Opará conhece nossos passos, dizia. Ele sabe quem somos.


Com chegada dos portugueses, surgiram novas canoas, maiores, cobertas de pano. Os indígenas as chamaram de Ubácruté, as canoas de pano. Elas mudaram o comércio, levaram mercadorias e trouxeram outras formas de viver. A mais famosa foi a Canindé, imensa, capaz de carregar mil e duzentos sacos de arroz. Para muitos, ela parecia um bicho grande navegando lentamente pelo rio.


Mas o tempo, como a água, não para.


Quando a BR-101 foi construída, em 1970, o silêncio começou a ocupar o Opará. As canoas foram ficando paradas, o porto esvaziou, e muitos Mestres da Canoa seguiram para a Natiantoá, a Aldeia Sagrada, onde moram os ancestrais.


Certa tarde, Iruan perguntou ao velho mestre:


— E quando o senhor se for, quem fará as canoas?


Duboherubá sorriu, olhando o rio.


— Enquanto houver quem escute o Opará, haverá Duboherubá.


— Você será um deles.


Hoje, poucos Duboheriá, Mestres da nova geração, ainda conversam com a madeira e com o rio. Mas cada canoa que nasce carrega dentro de si a memória dos antigos, o sopro dos ancestrais e a certeza de que o Opará jamais esquecerá seu povo.


E assim, sempre que uma Ubá toca a água, o rio reconhece:


a história continua.



11. DUBOHERI MYDZÉ – O MESTRE DA PESCARIA





O Rio São Francisco, o grande Opará, corria manso naquela manhã, refletindo o céu como um espelho antigo. Suas águas guardavam segredos profundos, histórias de ancestrais e o movimento silencioso dos Wãmyá, os peixes que sustentam a vida do povo Kariri-Xocó. Às suas margens, Anamy trabalhava com calma, moldando varas e fibras para construir seus Pãri, os artifícios de pesca herdados dos mais velhos.


De repente, chegaram rapazes e moças alunos da Escola Indígena, entre eles Tanawany e Kawrã, atentos a cada gesto do pescador. O som do rio misturava-se ao riso dos alunos e ao canto distante das aves. De repente, Tanawany olhou e disse, com os olhos brilhando:


— Olá seu Anamy o Senhor é o Duboheri Wãmy, o Mestre dos Peixes!


Anamy sorriu com ternura, sem parar o trabalho, e respondeu com voz serena:


— Não, moça. Os verdadeiros mestres dos peixes são Ipupiara, o Ser que surge das águas profundas, o Negro D’Água, e Yara, a Mãe D’Água, guardiã do Opará. Eu sou apenas Duboheri Mydzé, o Mestre da Pesca, porque trabalho, faço Naté, e respeito os saberes que nos foram ensinados.


Curioso, Kawrã se aproximou ainda mais e perguntou:


— Anamy quais são esses Pãri que o senhor faz?


Anamy apoiou as mãos no joelho e começou a ensinar, como quem acende uma fogueira de conhecimento:


— São muitos, rapaz . Temos o Cuvú, feito de vara, afunilado para guiar o peixe. O Pari, uma esteira que prende o peixe na lagoa. O Iarú, a flecha; o Seridzé, o arco; o Cludimu, covo cilíndrico de taboca para pequenos peixes e camarões. Há também o Yaclaro, o anzol com linha e chumbada; a Yaentá, a vara de pescar; o Puçá, para os camarões; o Jereré, em forma de arco; e o Muhé, a grande rede feita de algodão ou fibra de tucum.


Os alunos ouviam em silêncio, sentindo que aquelas palavras não eram apenas nomes, mas caminhos antigos.


— Na pescaria — continuou Anamy — usamos o Matapi, a armadilha; a Mupunga, para espantar o peixe com a batição da água; o Setu, para juntar os Wãmyá; e o Ubáydzé, nossa canoa, que repousa no Ubacródzuá, o porto das canoas. Tudo isso faz parte do Piratýpe, a linguagem e o sistema de conhecimento da pesca.


Antes de lançar qualquer armadilha no rio, Anamy fechou os olhos por um instante. Os estudantes da escola aprenderam que aquele silêncio era sagrado.


— O Mydzé, o pescador, sempre pede proteção e autorização à Yara, a dona espiritual dos peixes — explicou. — Para agradá-la, plantamos Masichi, o milho, e Ghinhé, o feijão, para que ela coma ainda verde, à beira do Opará. As Mydzédzí, as mulheres pescadoras, fazem o mesmo, mas com o Ipupiara.


O rio pareceu responder com um leve movimento, como se tivesse escutado.


Anamy concluiu, olhando para os alunos:


— Seguindo esses Subatekié, esses conhecimentos, nunca faltará peixe no Opará. É assim que nosso povo mantém a vida e guarda a memória.


Tanawany e Kawrã compreenderam, naquele instante, que o Duboheri Mydzé não era apenas um pescador. Era guardião de saberes, ponte entre os ancestrais, os espíritos das águas e as gerações que ainda viriam.


E o Opará continuou a correr, levando consigo a história viva do povo Kariri-Xocó.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



CONCLUSÃO


As histórias reunidas neste livro revelam muito mais do que narrativas sobre personagens da aldeia. Elas representam fragmentos vivos da memória cultural do povo Kariri-Xocó, preservados ao longo das gerações por meio da tradição oral.

Cada conto apresenta figuras simbólicas fundamentais dentro da vida comunitária: os Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres de saberes. Esses personagens expressam conhecimentos construídos ao longo do tempo na convivência com a natureza, com o rio Opará e com os ensinamentos dos ancestrais.

Nas histórias surgem mestres do artesanato, da pesca, da canoa, dos balaios, da cerâmica, da cura e dos cantos do Toré. Todos eles representam diferentes caminhos de aprendizado que sustentam a vida coletiva e a identidade cultural do povo Kariri-Xocó.

Ao registrar essas narrativas em forma escrita, o autor realiza um gesto importante: transformar a memória oral em documento cultural, permitindo que essas histórias possam alcançar novas gerações e leitores de diferentes lugares.

Assim como o rio Opará continua seu curso atravessando o tempo, os saberes aqui apresentados também seguem seu caminho, renovando-se na palavra, na prática e na memória coletiva.

Que estas histórias sirvam como convite ao respeito, à escuta e à valorização das culturas indígenas que continuam vivas no Brasil.



GLOSSÁRIO


(Palavras e expressões presentes nos contos)

Aindzu – O grande mar.

Banahoya – Nome usado entre os Kariri para canoa.

Bará – Balaio grande utilizado para transportar colheitas.

Bechiéá – Roça, área de plantio.

Batti – Tempo ou ciclo do ano.

Bukencré – Pintura corporal indígena.

Buyê mó torá – Fogueira usada nas celebrações do Toré.

Cuvú – Armadilha de pesca feita com varas.

Cludimu – Covo cilíndrico usado para capturar pequenos peixes e camarões.

Daklotsebu Songaá – Cocar de penas.

Dzenhéá ou Dzenuá – Guardião ou protetor de determinado saber ou elemento da natureza.

Ebayasi – Assobio usado para iniciar os cantos do Toré.

Ghinhé – Feijão.

Iworoyé – Grande roda ou círculo da comunidade.

Ka – Cantos tradicionais.

Kawonhé – Puxador de canto do Toré.

Masiche / Masichi – Milho.

Muhé – Grande rede de pesca.

Mydzé – Pescador.

Naté – Trabalho ou prática de pesca.

Opará – Nome ancestral do rio São Francisco.

Pãri – Artifícios ou armadilhas tradicionais de pesca.

Piratýpe – Sistema de conhecimento da pescaria tradicional.

Rouanie – Vestimenta indígena tradicional.

Setu – Balaio ou cesto utilizado no cotidiano.

Subatekié – Conjunto de ensinamentos ou conhecimentos tradicionais.

Torá / Toré – Conjunto de cantos, danças e rituais do povo Kariri-Xocó.

Ubá – Canoa.

Ubacródzu – Porto das canoas.

Wãmyá – Peixes.



REFERÊNCIAS CULTURAIS


ALBUQUERQUE, Marcos. Os povos indígenas do Nordeste brasileiro: história e resistência. Recife: Editora Universitária, 2007.


CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012.


MELATTI, Júlio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2007.


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SILVA, Aracy Lopes da. História dos povos indígenas no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Memória oral do povo Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – Alagoas.



NOTA SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil. Contador de histórias na tradição oral e escrita, dedica-se ao registro e à valorização da memória cultural de seu povo.

Seu trabalho reúne narrativas inspiradas nos saberes ancestrais transmitidos pelos mais velhos da aldeia, abordando temas como espiritualidade indígena, tradição oral, práticas culturais e relação com a natureza.

Por meio de textos, contos e pesquisas culturais, busca fortalecer a identidade indígena e contribuir para a preservação dos conhecimentos tradicionais das comunidades originárias.

Também compartilha parte de suas produções em seu blog cultural, voltado à divulgação da história e da cultura indígena.



SOBRE A OBRA


Dzenuá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará é uma coletânea de contos inspirados na memória cultural do povo Kariri-Xocó.

As narrativas apresentam personagens que representam diferentes conhecimentos tradicionais da comunidade: guardiões da natureza, mestres da cerâmica, da pescaria, do artesanato, da construção de canoas e dos cantos sagrados do Toré.

Cada conto revela aspectos da relação profunda entre o povo Kariri-Xocó, o rio Opará e os saberes transmitidos pelos ancestrais.

Mais do que histórias, esta obra é um registro cultural que busca preservar e compartilhar a riqueza da tradição indígena brasileira.



CONTRACAPA / ORELHA DO LIVRO


Nas margens do grande rio Opará, onde a água guarda a memória dos ancestrais e a terra sustenta a vida da comunidade, vivem os Dzenhéá e os Duboheriá — guardiões e mestres dos saberes do povo Kariri-Xocó.

Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó apresenta uma série de contos inspirados na tradição oral de sua comunidade, revelando histórias de mestres que preservam conhecimentos ancestrais transmitidos ao longo de gerações.

Entre as narrativas, o leitor encontrará o mestre da cerâmica, o mestre da pescaria, o mestre dos balaios, o mestre da canoa e o mestre do Toré, personagens que representam diferentes dimensões da cultura indígena e da relação profunda entre o ser humano, a natureza e o sagrado.

Cada conto revela um fragmento da memória coletiva do povo Kariri-Xocó, mostrando como os saberes tradicionais continuam vivos na prática cotidiana, na espiritualidade e na convivência comunitária.

Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará é um convite para conhecer histórias que atravessam o tempo e reafirmam a força da cultura indígena brasileira.



PALAVRA DO AUTOR


Escrever este livro foi como caminhar novamente pelas trilhas da memória de meu povo.

Cada história aqui registrada nasce das lembranças, das conversas com os mais velhos, das observações da vida na aldeia e da relação profunda que o povo Kariri-Xocó mantém com o rio Opará, com a terra e com os ensinamentos dos ancestrais.

Durante muito tempo, esses saberes foram transmitidos principalmente pela tradição oral, nas rodas de conversa, nas festas culturais, nas atividades da roça, da pesca e das práticas comunitárias. Ao transformar essas memórias em contos escritos, procurei preservar um pouco dessa riqueza cultural para que ela possa chegar também às novas gerações.

Os personagens que aparecem nestas histórias representam mestres e guardiões do conhecimento tradicional. São pessoas que, por meio de seu trabalho e de sua sabedoria, mantêm vivos os ensinamentos recebidos dos antigos.

Este livro não é apenas uma obra literária. É também um gesto de respeito à memória de meu povo e um convite para que mais pessoas conheçam a cultura Kariri-Xocó.

Assim como o rio Opará segue seu caminho ao longo do tempo, espero que estas histórias também possam continuar sua jornada, levando consigo a voz, a memória e os saberes de nossa comunidade.

Nhenety Kariri-Xocó



MODELO DE REGISTRO EDITORIAL DO LIVRO


(Este é um modelo padrão usado em publicações)

Título:

Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará

Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Edição:

1ª edição

Ano de publicação:

2026

Local de publicação:

Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil

Direitos autorais:

© 2026 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio ou forma sem autorização do autor, exceto para citações em trabalhos acadêmicos ou resenhas, desde que indicada a fonte.



MODELO DE ISBN


O ISBN (International Standard Book Number) é o número internacional que identifica um livro.

Formato padrão:

ISBN: 978-65-XXXX-XXXX-X


Importante:

Esse número precisa ser registrado oficialmente na Agência Brasileira do ISBN, ligada à Câmara Brasileira do Livro.

Atualmente o registro é feito pelo site oficial:

https://isbn.org.br⁠�






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






quinta-feira, 5 de março de 2026

UCHÉTÉ IWORÓ, O TEMPO GIRA AS COISAS VEM






1. FALSA FOLHA DE ROSTO

UCHÉTÉ IWORÓ

O TEMPO GIRA AS COISAS VEM


Contos do Povo Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó



2. VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Obra literária composta por contos de tradição oral e memória cultural do povo indígena Kariri-Xocó, organizada e escrita por Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita.

Os contos apresentados nesta obra foram originalmente publicados no blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com

Esta obra reúne narrativas que dialogam com o tempo, a memória, a natureza, o alimento, o trabalho e a resistência do povo Kariri-Xocó do rio Opará.



3. FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)

UCHÉTÉ IWORÓ

O TEMPO GIRA AS COISAS VEM


Contos do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026



4. FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)


Ficha catalográfica simplificada (depois pode ser adaptada por bibliotecário).

N972u

Kariri-Xocó, Nhenety 

Uchété Iworó: o tempo gira as coisas vem : contos do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, natureza, alimentação tradicional, trabalho comunitário e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do baixo rio São Francisco.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Contos tradicionais

Memória cultural indígena

CDD: 869.93



5. DEDICATÓRIA


Dedico este livro ao meu povo Kariri-Xocó, guardião do rio Opará, da terra e da memória.

Dedico também aos anciãos e anciãs, que ensinaram que a palavra é semente e que a história só vive quando é contada.

E às novas gerações, para que nunca esqueçam que o tempo gira, mas a memória permanece.



6. AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente à Raddadé, a Mãe Terra, que sustenta a vida de todos os povos.

Aos anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó, que guardaram a memória e a transmitiram de geração em geração.

À minha comunidade, que mantém viva a tradição do Toré, da roça, da pesca, da cerâmica e da palavra contada ao redor da fogueira.

Aos leitores que se aproximam desta obra com respeito, buscando compreender a riqueza da cultura indígena.



7. EPÍGRAFE


"Enquanto houver quem conte e quem escute,

o tempo do nosso povo nunca será esquecido."

— Sabedoria Kariri-Xocó



8. SUMÁRIO 


Prefácio

Apresentação

Introdução


CONTOS  ( 01 a 10 )


01. Kayáuché Batti – O Tempo que Caminha com a Lua; 


02. Amiteá Uanhoá Tseho – O Saber da Comida Kariri; 


03. Uché Wongheré – O Tempo da Pobreza; 


04. Naté Bechiéá  – Trabalho na Roça;


05. Uché Uttihuá – O Tempo das Frutas; 


06. Uché Amite Eicoré – Tempo do Alimento Escasso; 


07. Woroy Eráye – A História da Casa Grande; 


08. Dipete Amiteá – A Doação de Alimentos; 


09. Uanienaté – O Tempo e as Vocações do Povo;


10. Benheokli Benheye, O Telefone Orelhão. 


Glossário Kariri-Xocó

Apêndices

Sobre a Obra

Dados Biográficos do Autor

Referências culturais



9. PREFÁCIO 


O livro “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” apresenta ao leitor um conjunto de contos profundamente enraizados na tradição cultural do povo indígena Kariri-Xocó, habitante das margens do rio Opará, no baixo São Francisco.

As narrativas reunidas por Nhenety Kariri-Xocó dialogam com uma tradição milenar de transmissão de conhecimento por meio da oralidade. Cada conto funciona como uma memória viva, na qual o tempo não é apenas uma medida cronológica, mas um ciclo ligado à natureza, à lua, às estações e à vida coletiva da aldeia.

Ao narrar histórias sobre o calendário lunar, a alimentação tradicional, o trabalho na roça, o tempo das frutas, a escassez e a resistência do povo, o autor preserva e compartilha saberes ancestrais que muitas vezes não estão registrados em livros.

Assim, esta obra não é apenas um livro de contos, mas também um registro cultural, histórico e simbólico da experiência indígena Kariri-Xocó.



10. APRESENTAÇÃO


Esta obra reúne dez contos de autoria de Nhenety Kariri-Xocó, originalmente publicados em seu blog.


As histórias são inspiradas nas memórias, ensinamentos e experiências culturais do povo Kariri-Xocó, que vive às margens do rio Opará, no estado de Alagoas.


Os contos apresentam personagens, situações e conhecimentos ligados à vida cotidiana da aldeia, como:


o calendário lunar indígena


o saber tradicional da alimentação


o trabalho coletivo na roça


os tempos de fartura e de escassez


a memória histórica do povo


Cada narrativa busca preservar a tradição da história contada ao redor da fogueira, prática fundamental na transmissão do conhecimento entre gerações.



11. INTRODUÇÃO



Na cultura indígena, o tempo não é apenas contado — ele é vivido, observado e sentido.

Entre o povo Kariri-Xocó, o tempo se manifesta no movimento da lua, na subida do rio, no amadurecimento das frutas e no trabalho coletivo da comunidade. Cada ciclo traz ensinamentos e memórias que orientam a vida do povo.

O título desta obra, “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, expressa essa compreensão circular do tempo, em que passado, presente e futuro caminham juntos.

Os contos aqui reunidos são narrativas que nascem da tradição oral e da observação da vida cotidiana. Eles registram experiências de resistência cultural, sabedoria ancestral e relação sagrada com a natureza.

Ao reunir esses textos em forma de livro, o autor busca contribuir para a valorização da literatura indígena brasileira e para a preservação da memória cultural do povo Kariri-Xocó.



12. CONTOS  ( 01 a 10 )



01. KAYÁUCHÉ BATTI – O TEMPO QUE CAMINHA COM A LUA 




 


Inamarú aprendeu cedo que o tempo não se conta com números, mas com sinais. Foi Inamarú, o mais velho da aldeia, quem lhe ensinou a ouvir o céu e a terra, a perceber quando a lua fala e quando o rio responde. Sentados à beira do Opará, sob o canto distante das cigarras, o velho iniciou mais uma vez o ensinamento do Kayáuché Batti, o Calendário do Tempo Lunar do povo Kariri-Xocó.


— Escuta, Tanoãny, disse Inamarú, apontando para o céu ainda pálido. — Nosso Radda Uanie, o Mundo Indígena, não nasce dos meses do homem branco. Ele nasce da lua, do vento, da chuva e do alimento.


Na Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, o povo se reúne. É tempo do Akryte, o caju maduro, e dos Tidzebæ, os relâmpagos que riscam o céu como mensagens dos antepassados. Inamarú lembrava-se das danças, do cheiro da mata e do silêncio respeitoso antes do ritual.


Quando chega a Mydzé Kayaku, a Lua dos Peixes, o rio se agita. É a piracema, a subida dos peixes, e também o tempo do Buruhúá, quando as mãos dos artesãos trabalham sem descanso. Inamarú sorria ao ver Tanoãny observando as redes sendo lançadas e os cestos sendo trançados.


Na Uanhí Kayaku, a Lua da Lavoura, a terra é aberta com cuidado. Planta-se Masiche, o milho, e Ghinhé, o feijão. Já na Içá Kayaku, a Lua das Tanajuras, as formigas alçam voo para formar novos mundos sob a terra, ensinando que recomeçar é parte da vida.


A Siné Kayaku, a Lua Escura, traz respeito e atenção. As cobras aparecem, e com elas o aviso de que mudanças caminham. Logo depois vem a Dzó Kayaku, a Lua da Chuva. O som das Dzóá cai sobre a aldeia, e o milho verde alimenta corpos e histórias.


Na Curuté Kayaku, Lua da Colheita, o milho e o feijão secaram. É tempo de colher, comer e trocar. A Cunhí Kayaku, Lua do Frio, cobre a terra de neblina e prepara o solo para descansar sob o sol que retorna.


Quando o calor chega com a Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, inicia-se o Naté Ruñohú, o trabalho cerâmico. As mãos moldam o barro, como os antigos ensinaram. Na Puruá Kayaku, Lua das Flores, os ventos correm livres e as Cattiá, as abelhas, fazem o mel entre as árvores em flor.


Na Bunhawí Kayaku, a Lua da Cerâmica, na Ubacródzu, a Canoa do Porto, os potes e panelas são queimados no fogo certo, prontos para ganhar o mundo. Por fim, chega a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. O Opará sobe, trazendo força e lembrança, fechando o ciclo do tempo.


Inamarú silenciou. Tanoãny olhou para o céu e compreendeu: o tempo não termina, apenas se transforma. Enquanto houver lua, rio e palavra, o Kayáuché Batti continuará caminhando com o povo Kariri-Xocó.


E assim, o ensinamento seguiu, de ouvido a ouvido, de geração a geração.



02. AMITEÁ UANHOÁ TSEHO – O SABER DA COMIDA KARIRI





Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.


Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.


— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.


Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.


Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.


— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.


À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.


— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.


Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.


Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.


Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.


E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.



03. UCHÉ WONGHERÉ – O TEMPO DA POBREZA





A fogueira ardia mansa no centro da aldeia. As chamas dançavam como espíritos antigos, lançando sombras nas paredes de barro das casas. As crianças se achegavam, os mais velhos sentavam em silêncio. Era tempo de escuta.


Neêperé, a anciã, ajeitou o manto sobre os ombros marcados pelos anos e chamou com a voz calma:


— Indaiá, venha mais perto, minha neta. Hoje vou falar do Uché Wongheré, o tempo da pobreza… para que você nunca esqueça.


Indaiá sentou-se aos pés da avó, os olhos atentos, enquanto o povo se aproximava. Quando Neêperé falava, era como se a própria terra respirasse.


— Houve um tempo — começou ela — em que os Uanieá, nosso povo indígena, viviam em harmonia com a Antse, a Natureza. A Radda, a Terra, nos dava sustento. Da Retsé, a Floresta, vinham os alimentos, os remédios, os ensinamentos. Havia fartura todos os dias, e o coração do povo era leve.


O fogo estalou, como se confirmasse aquelas palavras antigas.


— Mas então veio outro Uché, outro tempo… o tempo da chegada dos Caraí, os brancos. Vieram os Peró, os portugueses, junto com os missionários. Criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, reunindo indígenas sob regras que não eram as nossas.


Neêperé fez uma pausa. Seus olhos marejaram, mas a voz seguiu firme.


— Anos depois, aquela aldeia deixou de ser aldeia. A Woroby, a notícia, chegou dura: a Natiá havia se tornado Naticróraí, um povoado de brancos, uma cidade. Diziam que agora ali viviam os Uanaraí, caboclos, mistura de indígenas e brancos. Mas para nós… foi o começo da perda.


Indaiá apertou a mão da avó.


— Os Uanieá perderam seus Honéá, seus direitos sobre a Radda, a Terra. Foi uma grande Dzeyá, uma tristeza profunda. Começou nosso Unu, o sofrimento. A Ami, a fome, entrou na aldeia como um vento frio que não vai embora.


Algumas pessoas ao redor abaixaram a cabeça. Outras deixaram cair silenciosas Pocú, lágrimas antigas.


— Fomos empurrados para a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Ali, muitos homens começaram a Wodó, a se embebedar, tentando calar a dor. O Tseho, o povo, adoeceu, caiu em Canghikié, estado de doença do corpo e da alma.


A anciã respirou fundo antes de continuar.


— Muitos partiram para o Naté Wanheré, trabalhar nas fazendas dos brancos. As Tetsiá, as mulheres, foram levadas para as Erácaraí, as casas dos brancos, como domésticas. Era Arancreru, vergonhoso. Vestíamos Roruréá, roupas velhas, e vivíamos na Wongheré, a pobreza.


O silêncio pesou, quebrado apenas pelo som do fogo.


Então Neêperé ergueu o olhar, firme como tronco antigo.


— Mas, minha neta, escute bem: mesmo na dor, nunca perdemos a Coram, a esperança. Depois de muitos anos de sofrimento, o povo entendeu que precisava Teudiokié Honéá, lutar pelos seus direitos.


Ela sorriu, suave.


— Essa é a nossa história. Foi assim quando a Natiá, a aldeia, virou Naticróraí, a cidade dos brancos. Mas também foi assim que aprendemos a resistir, a lembrar quem somos e a ensinar aos mais novos.


Neêperé acariciou os cabelos de Indaiá.


— Enquanto houver quem conte e quem escute, nosso tempo não será esquecido.


A fogueira continuou acesa. E a memória também.



04. NATÉ BECHIÉÁ – TRABALHO NA ROÇA





Naquela noite clara, sob o céu costurado de estrelas, a fogueira ardia no centro da Natiá, a Aldeia. O fogo estalava como se também quisesse contar histórias. Em roda, sentados sobre a terra firme, estavam os anrotseá, os anciãos, com seus olhos profundos voltados tanto para as chamas quanto para o passado.


O velho pajé Suíra passou a mão lenta pela barba branca e falou com voz mansa, mas firme. Era tempo de bechiéá, o trabalho na roça. A lua já anunciava o Uanhí Kayaku — a Lua da Lavoura, no mês de março. Irecê, atento ao céu e à terra, confirmou: era o período do tçate retsé, o cortar do mato, feito com a creyahé, a foice que abre caminho para o plantio.


Ynorá, sentada perto da fogueira, escutava em silêncio. Aprendia que, depois do mato cortado, vinha a coivara, o queimar do mato seco, para que a terra se tornasse uanhídda — terra boa para lavoura, viva e pronta para receber a semente.


Dias depois, a aldeia despertou com o som do mutirão. Homens, mulheres, jovens e velhos se reuniram para roçar o mato, arrancar tocos e preparar a coivara. Era o trabalho coletivo de entreajuda, onde ninguém ficava sozinho.


Na manhã seguinte, os anraná pegaram a tasí, a enxada, e começaram a cavar a terra. As tetsiá, com mãos sábias, plantaram masiche (milho), ghinhé (feijão), eremú (abóbora), muicú (mandioca) e endi (algodão). Nos arredores da Natiá, as mulheres também plantaram bacobá (banana), behedzí (melancia), propwi (melão-de-são-caetano) e tané (fumo). Cada semente lançada era um gesto de fé no futuro.


Quando o sol já se inclinava no céu, o Wontyrõ  "mutirão" chegou ao fim. Então foi servido o Amíuyõ, a comida coletiva de muitos. O alimento partilhado aquecia o corpo, e a presença reunida aquecia o espírito.


Foi nesse momento que o pajé Suíra se levantou. O silêncio se fez. Ele agradeceu a todos por manterem viva a tradição, mas sua voz carregava preocupação. Disse que, a cada batti — a cada ano — via menos gente nos mutirões. Falou das ibaranúá, as motos; do ibápohduá, o automóvel; e do tokliddaysã, o telefone celular, que aos poucos afastavam as pessoas da roça e da convivência.


— A agricultura é a base de nossa alimentação — disse ele. — Nossos produtos são puros, livres de contaminação. Eles trazem saúde para o corpo e para o espírito. Podemos usar a tecnologia, sim, mas nunca abandonar nossa tradição e nossa cultura.


As palavras do velho pajé tocaram fundo. Um a um, todos concordaram. Prometeram continuar o bechiéá, o trabalho na roça, como os antigos ensinaram.


Passado algum tempo, chegou a Curuté Kayaku — a Lua da Colheita, no mês de julho. A aldeia se reuniu novamente em grande mutirão. A terra respondeu generosa: colheram muito milho, feijão, abóbora e melancia. A fartura encheu os cestos e os corações.


À noite, a comunidade celebrou em um grande Toré. Os pés batiam a terra, os cantos subiam ao céu, e todos agradeceram à Raddadé, a Mãe Terra, pela abundância da grande roça comunitária. A fogueira, mais uma vez, iluminava rostos felizes — e a tradição seguia viva, passada de geração em geração.



05. UCHÉ UTTIHUÁ – O TEMPO DAS FRUTAS





Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.


Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.


Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.


Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.


— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.


— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.


O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.


Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.


— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.


As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.


Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.


Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.


E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.



06. UCHÉ AMITE EICORÉ – TEMPO DE ALIMENTO ESCASSO





Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.


Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.


— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.


Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.


Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.


— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.


Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.


Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.


— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.


No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.


Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.


Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:


— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?


O ancião sorria, olhando o fogo dançar.


— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.


Marú completava, olhando para a nova geração:


— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.


E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.



07. WOROY ERÁYE – A HISTÓRIA DA CASA GRANDE





A Casa Grande sempre esteve ali, silenciosa e atenta, como se guardasse em suas paredes a respiração antiga da terra. Chamávamos de Eráye ou Picriá e ela não era apenas uma casa: era um marco, um sinal de mudança, um ponto de travessia na história do povo Kariri-Xocó.


A história da Fazenda Sementeira é muito antiga. Ao longo do tempo, aquela propriedade teve vários nomes e diferentes sedes administrativas, acompanhando os interesses dos brancos e do Estado. O prédio da Casa Grande, como sede principal, correspondeu apenas a uma das fases dessa longa história de ocupação e transformação do território indígena.


Quando, em 1978, retomamos a Fazenda Modelo — conhecida também como Sementeira — a Casa Grande deixou de ser sede de fazenda para tornar-se abrigo de muitas vidas. Funcionários da CODEVASF foram retirados, e nós, indígenas Kariri-Xocó, ocupamos as construções que ali existiam: casarões antigos, galpões, cocheiras, escola, casas de funcionários. Quem não encontrou teto, ergueu barracas. A terra nos recebia novamente.


A Casa Grande tornou-se lar de vinte e duas famílias. Cada porta, cada canto, cada alpendre guardava uma história. Ali viveram Alírio e Maria de Lourdes, Ivete e Antônio Cruz, Luiza Tenório e família, Arnaldo e Chica, Zé Brinquinho e Especília, Helena Tenório e Lucineide, Mané Galo e Ianí, Antônio Tenório e Landa, Gena e Zeire, Dinalva e Juarez, Zé Tenório e Givalda, Gergina e família, Gringo e Antônia, Maria Vermelha e Miguel Suíra, o cacique Cícero e Anália, Zé Gatinho e Eurides, Paulo Nunes e Maria Véia, Zé Taré e Antônia. Havia ainda Zefina, Vera, Roselita e Euda — famílias do coração, unidas pelos filhos e pela convivência.


Eu, Nhenety, morei ali com minha família. Por isso conto essa história.


A Casa Grande era cheia de vida. Os mais velhos contavam histórias ao cair da noite, enquanto os adultos saíam para pescar nas lagoas fartas. Nos fundos, o alpendre se enchia de fogos de lenha acesos, e tudo era repartido: comida, palavra, silêncio. À noite, redes armadas, lençóis no chão, esteiras e tapetes acolhiam corpos cansados, mas esperançosos.


Em 1979, veio a grande enchente. Ficamos ilhados. Os meninos saíam para colher mangas nas margens do Rio São Francisco, que parecia não ter fim. O alimento enviado pelo governo chegou e amenizou a fome por alguns dias, mas foi a união que nos sustentou.


Atrás da Casa Grande ficava a Dzurichi, a Lagoa Comprida. Ali pescávamos e plantávamos arroz. Suas águas banhavam o Hechi Wathõ, o Alto do Bode, morro sagrado onde antes existira a Natianie, a antiga aldeia indígena tradicional. A terra falava conosco, mesmo quando não percebíamos.


Outro fato importante sobre o local da Casa Grande me foi contado pela velha índia Mareinha. Um dia, ela me disse assim:


— Olha, Nhenety, esse lugar onde hoje fica a Casa Grande foi, no final do século XVIII, morada do Pajé Ludovico. A casinha do pajé era coberta com casca de jatobá. Depois que ele morreu, anos mais tarde, os brancos tomaram o local.


Essa palavra ficou guardada em mim como semente, mostrando que, antes das paredes de tijolo, ali já existia morada de saber, reza e cura.


Durante a enchente, os jovens que estudavam no Ginásio São Francisco, na cidade, pediram ao prefeito uma canoa para atravessar o rio e não perder as aulas. Eu estava entre eles. Ao voltar da escola, eu, Lenoir, Zé Birrinha e Dijalma fazíamos mingau de milho com leite em pó. Era nosso jantar, simples e compartilhado.


Quando as águas baixaram, surgiu uma superpopulação de preás nos arredores. Davi e meu irmão Antônio fizeram aratacas. Pegamos muitos. Nossas mães preparavam cozidos e carnes moqueadas — comida boa, lembrança viva até hoje.


Lembro também de 1980, quando Jaime trouxe um toca-discos. No alpendre da Casa Grande dançamos ao som da música popular brasileira. A alegria também fazia parte da luta.


Certo dia, perguntei a Miguel Suíra:


— Miguel, o senhor sabe quando essa Casa Grande foi construída?


Ele respondeu com calma:


— Sei sim, Nhenety. Trabalhei aqui como servente de pedreiro, fazendo a argamassa. Essa casa foi construída em 1960 para ser sede da Fazenda Escola. Funcionou até 1978 como Fazenda Modelo. Nós, Kariri-Xocó, fomos a mão de obra dessa fazenda por décadas.


Agradeci. A Casa Grande, então, ganhou mais uma camada de memória.


Quando a terra foi conquistada, fizemos um Toré na Casa Grande. Antônio Tinga puxou o canto. Gente de todas as casas chegou para celebrar. Foi um momento forte, daqueles que não se esquecem.


Em 1981, chegou o projeto das 110 casas. Cada família deveria fabricar dez mil tijolos, queimar, trabalhar na construção. O governo fornecia cimento, madeira e telhas. Assim nasceu a Nova Aldeia. Em 1982, as casas ficaram prontas. As famílias deixaram a Casa Grande, que passou a ser sede do Posto Indígena Kariri-Xocó até 2003.


Depois disso, outras famílias ali viveram: Esso e Rita, Vânio e Cil, Galego e esposa, Mudinha e esposa, Zé Van e esposa, Vânia de Zeire e esposo, Ara e filhos. A Casa Grande continuou acolhendo.


Hoje, a Eráye é a Creche Tia Marieta. Nela, crianças pequenas aprendem a dar os primeiros passos na vida. Onde antes houve luta, hoje há riso. Onde houve enchente, hoje há futuro.


A Casa Grande permanece.


Não como ruína, mas como memória viva, fazendo novas histórias nascerem todos os dias.



08. DIPETE AMITEÁ – A DOAÇÃO DE ALIMENTOS





No Uchécrá, o Tempo da Seca, quando a terra rachava e o vento levantava o pó fino das estradas, e também nas Pehóá, o Tempo das Enchentes, quando o Opará, o grande Rio São Francisco, crescia e cobria as margens, havia uma cena que se repetia como um ritual silencioso.


Desde cedo, ainda com o sol baixo, os Uanieá — os indígenas — formavam fila diante da escola, na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Cada pessoa trazia consigo um Setu, o cesto, vazio por fora, mas cheio de esperança por dentro. Não havia pressa. Havia espera. E na espera, a dignidade.


O governo federal, tentando aliviar a Wongheré, a pobreza trazida pelas calamidades da natureza, realizava a Dipete Amiteá, a Doação de Alimentos. Não era fartura, mas era sustento. Não era escolha, mas era sobrevivência. A doação alcançava os indígenas e também as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, todas dependentes do humor do rio e do céu.


Os mais velhos lembravam bem das grandes cheias. Falavam dos anos como quem conta marcas no corpo da terra: 1979, 1985, 1992… depois 2007, 2020, 2022, 2023. Cada data trazia consigo histórias de água invadindo casas, de noites acordadas, de silêncio e medo. Mas já era outro tempo: os Kariri-Xocó estavam na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, terra de retomada, resistência e recomeço.


Era na Eráye, também chamada Picriá, a Casa Grande, que a fila se formava. Ali, onde antes mandava o poder do não indígena, agora se reunia o povo. Um a um, os Setu se enchiam: Dzurósa, o café; Takuare'êku'i, o açúcar; Ghinhé, o feijão; Sekiche, a farinha de milho; Riné, a carne salgada; Sekiki, a farinha de mandioca. Alimentos simples, mas carregados de valor.


As pessoas saíam dali com o peso do cesto nos braços e um alívio no peito. Havia sorrisos contidos, palavras baixas, olhares de gratidão. Aquela Dipete Amiteá garantia que os filhos comeriam, que a panela fumegaria ao menos por alguns dias, que a vida seguiria apesar das dificuldades.


E assim, entre a seca e a enchente, entre a espera e a partilha, o povo Kariri-Xocó seguia caminhando. Porque mais do que alimentos, aquela fila ensinava algo antigo: resistir juntos é também uma forma de viver.



09. UANIENATÉ – O TEMPO E AS VOCAÇÕES DO POVO





O sol já caminhava lento sobre a aldeia quando dois anciãos, Tanawã e Ibaná, sentaram-se à sombra generosa de uma velha árvore. O vento leve trazia o cheiro da terra e o som distante das crianças brincando. Ali, naquele instante simples, o Uché, o Tempo, parecia escutar atento.


Tanawã olhou ao redor, como quem conversa também com os espíritos antigos, e começou a falar. Sua voz carregava a memória dos povos indígenas e dos costumes que atravessaram gerações.


— Desde os tempos mais antigos — disse ele — nossos parentes vivem do que a terra, o rio e a mata oferecem. Caçamos, pescamos, fazemos artesanato, cuidamos da roça. As mulheres moldam a cerâmica com as mãos e com o coração, outros constroem ocas, canoas e utensílios. Assim sempre foi entre os Kariri-Xocó. Tudo nasce do Itse, a Pessoa, e do Naté, o Trabalho, que sustenta a família e fortalece a comunidade. Alguns se tornam Duboheri, Mestres do saber, e outras, Duboheridé, Mestras da tradição.


Ibaná, que escutava atento, balançou a cabeça em concordância e tomou a palavra, como quem organiza os fios da memória.


— Pelo que conheço — disse ele — as profissões, os Uanienatéá, dos nossos parentes indígenas, na vida tradicional, o Nhenety, são muitas e cheias de significado. Há o Itsemydzé, o pescador e a pescadora; o Itsesitó, o caçador; o Itsenatédda, agricultor da terra sagrada; o Itsebekati, aquele que coleta o mel; o Duboruhú, mestre do artesanato; a Duboheridé Ruñohú, mestra da cerâmica; o Duboerá, mestre da oca; o Duboherubá, mestre da canoa; e o Itseandri, a pessoa do remédio, guardião da cura.


Enquanto falava, Ibaná percebeu que Madysã, sentado ali por perto, ouvia tudo em silêncio respeitoso. Então se virou para ele e perguntou:


— E você, Madysã, que hoje trabalha como farmacêutico no Posto de Saúde da aldeia, o que pensa de tudo isso?


Madysã respirou fundo antes de responder. Seus olhos traziam o brilho de quem caminha entre dois mundos.


— É verdade, meus parentes — disse ele com calma. — O mundo está mudando. Algumas profissões tradicionais tomaram novas formas, porque muitos de nós estão estudando. A profissionalização chegou às aldeias, mas não levou embora nossa essência.


Ele continuou, com a voz firme:


— Os Duboheriá, os Mestres de antes, hoje também são professores que estudaram, mas continuam ensinando com o espírito do povo. Eu mesmo estudei para ser farmacêutico e continuo sendo Itseandri, Pessoa do Remédio. No Posto de Saúde da Aldeia Kariri-Xocó, trabalham indígenas como dentistas, enfermeiras, agentes de saúde, motoristas. São novos caminhos, mas todos nascem do mesmo tronco.


O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles. O vento passou outra vez pelas folhas da árvore, como se aprovasse aquelas palavras. Tanawã sorriu, Ibaná fechou os olhos por um instante, e Madysã sentiu que o Tempo, o Uché, seguia seu curso — levando adiante as tradições, agora caminhando junto com os novos saberes.


E assim, entre passado e presente, o povo Kariri-Xocó continuou tecendo suas vocações, mantendo viva a memória e abrindo caminhos para o futuro.



10. BENHEOKLI BENHEYE, O TELEFONE ORELHÃO





No começo da década de 1970, quando o tempo ainda caminhava devagar pelas ruas de Colégio, chegou uma voz diferente à cidade. Não era canto de pássaro nem chamado de feira. Era fio, era campainha, era novidade. A TELESA, telefonia de Alagoas, instalou sua Eraibáme — a estação — na Rua da Aurora. Ali, pela primeira vez, o som distante atravessava o espaço e chegava inteiro ao ouvido.


Foi nesse tempo que os Kariri-Xocó conheceram o telefone, ainda vivendo na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. O aparelho parecia coisa de outro mundo: falava sem corpo, viajava sem pés. A voz saía de longe e pousava ali, dentro da sala, como se fosse visita invisível.


Os anos correram como o rio Opará. O povo Kariri-Xocó já vivia na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, quando, duas décadas depois, uma nova transformação chegou. Em 2002, a Telemar Norte Leste S.A. fincou nas aldeias um objeto redondo, pesado e resistente: o Benheokli Benheye — o telefone orelhão.


Não era mais preciso entrar em prédio nem pedir licença. O telefone agora morava na rua, sob o sol e a chuva, esperando quem tivesse algo a dizer. Para falar, usava-se um cartão, passado com cuidado, quase como um ritual. Cada ligação era pensada, medida, respeitada.


O Benheye virou marco. Por ele se chamava ajuda para a saúde, se resolvia viagem, se avisava chegada, se buscava remédio, se matava saudade. A aldeia passou a conversar com outras aldeias, com cidades distantes, com o mundo que antes parecia longe demais.


Havia orelhões espalhados pelos caminhos da comunidade: na Escola Estadual Indígena, no Posto Indígena Kariri-Xocó, na Associação Indígena Comunitária Kariri-Xocó. Os números eram decorados como nomes de parentes. E quando alguém precisava ligar, formava-se fila. Gente esperando, gente ouvindo pedaços de conversa, gente respeitando o tempo do outro.


Todo mundo queria usar a novidade. Falar com quem estava longe. Resolver coisa de trabalho, de estudo, de vida. O orelhão virou ponto de encontro, de expectativa, de silêncio atento.


Hoje, o Benheokli Benheye quase não se vê mais. Mas permanece vivo na memória da comunidade, como símbolo de um tempo em que a tecnologia chegou devagar, foi aprendida coletivamente e serviu, acima de tudo, para aproximar pessoas.


E assim, entre fios, cartões e vozes distantes, o telefone orelhão entrou para a história do povo Kariri-Xocó — não como objeto, mas como lembrança partilhada.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



13. APÊNDICES


Antes da escrita existir entre nós, já existiam as histórias.


Os mais velhos se reuniam ao redor das casas, nas margens do rio ou nas noites iluminadas pela lua, e contavam acontecimentos do passado para que os mais jovens conhecessem o caminho de seus ancestrais.


Assim, cada história era também um ensinamento.


As histórias falavam da terra, do rio, das dificuldades enfrentadas pelo povo, das alegrias da comunidade e das mudanças trazidas pelo tempo.


Hoje, essas narrativas continuam vivas.


Neste livro, as histórias caminham da tradição oral para a escrita, mantendo viva a memória do povo Kariri-Xocó.


Porque o tempo gira.


E quando o tempo gira, as histórias voltam.



14. GLOSSÁRIO 



Este glossário reúne algumas palavras da língua e do universo cultural Kariri-Xocó presentes nos contos do livro, permitindo ao leitor compreender melhor os significados culturais e simbólicos dessas expressões.


Amite – alimento, comida.

Benheokli Benheye – telefone orelhão.

Bohé – coletividade, partilha entre as pessoas da comunidade.

Dzóá – chuvas.

Dzurióá – lagoas.

Dzurichi – lagoa comprida.

Eráye / Picriá – Casa Grande.

Ibámeraipu – trem.

Itse – pessoa.

Naté – trabalho.

Natiá – Aldeia.

Nhenetí – tradições culturais do povo.

Opará – rio São Francisco.

Pehóá – tempo das enchentes.

Raddadé – Mãe Terra.

Samy – cultura.

Setu – cesto utilizado para carregar alimentos.

Sitó – caça.

Toré – Ritual sagrado de dança e canto indígena.

Tudenhé – tempo passado, tempos antigos.

Uanéá / Uanieá – indígena, pessoa indígena.

Uché – tempo.

Uchécrá – tempo da seca.

Wanheré Uanhícó – Fazenda Sementeira.

Woderáehó Uanieá – Rua dos Índios.

Wontyrõ – Mutirão comunitário.



15. DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, originário de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do rio Opará (São Francisco).

Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à preservação e divulgação da memória cultural de seu povo por meio da literatura, da pesquisa cultural e da produção de textos publicados em seu blog.

Suas narrativas abordam temas como tradição indígena, alimentação ancestral, calendário lunar, agricultura tradicional e resistência cultural.

Blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com



16. SOBRE A OBRA



“Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” é uma coletânea de contos inspirados na tradição oral e na experiência cultural do povo Kariri-Xocó.

A obra apresenta histórias que retratam diferentes tempos vividos pela comunidade: tempos de fartura, de escassez, de trabalho, de celebração e de memória.

Cada conto revela aspectos da relação do povo com a natureza, com a terra e com o rio Opará, mantendo viva a herança cultural transmitida pelos anciãos.



17. ORELHA DO LIVRO


Nas margens do rio Opará, o tempo não é contado apenas pelos relógios. Ele se revela no nascer da lua, na colheita da roça, no amadurecimento das frutas e nas histórias contadas ao redor da fogueira.

Em “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que preservam a memória e os saberes de seu povo.

As narrativas conduzem o leitor por diferentes momentos da vida na aldeia, revelando ensinamentos sobre natureza, alimento, trabalho coletivo e resistência cultural.

Mais do que histórias, este livro é um convite para ouvir a voz de um povo que mantém viva sua tradição por meio da palavra.


“Enquanto o tempo gira, as histórias continuam caminhando com o povo.”






Autor: Nhenety Kariri-Xocó