domingo, 1 de fevereiro de 2026

PIWONHÉ IEENDEÁ – A REPRODUÇÃO DAS AVES






Antigamente, quando o Opará ainda conversava com o céu em águas largas e mansas, o Baixo São Francisco se tornava caminho de asas. Era tempo de anúncio, tempo sagrado. As Parari, ligeiras e numerosas, riscavam o firmamento em grandes revoadas. Os mais antigos as chamavam de Arribaçã, e diziam que sua chegada era sinal de fartura, de renovação da vida.


O céu escurecia de movimento, e o som das asas parecia um canto coletivo, um chamado antigo que vinha de longe para cumprir o ciclo da reprodução. Elas pousavam, descansavam, procriavam, e depois partiam, deixando no ar a lembrança de sua passagem.


Junto delas vinham outras parentes do vento. A Pukûa-tinga, a Rolinha-cinzenta, chegava em bandos numerosos, mas diferente das Parari, permanecia mais tempo. Fazia morada, observava o chão, escutava a mata. Seu canto fino atravessava as manhãs como um fio invisível ligando céu e terra.


Na Terra Indígena Kariri-Xocó, entre Porto Real do Colégio e São Brás, a mata do Ouricuri ainda guarda esse segredo vivo. Ali, a Caatinga respira diversidade. Entre galhos retorcidos e folhas resistentes, muitas espécies de aves fazem sua morada, conhecendo cada sombra, cada fruto, cada silêncio.


Na Várzea do Itiúba, onde a terra se deixa inundar pelas águas do rio, a vida se multiplica o ano inteiro. As aves aquáticas conhecem bem esse território. O Socó-Yobi, o Socó azul, caminha lento pelas margens. A Guaraúna, ave carão, anuncia sua presença com voz forte. Marrecas e paturis deslizam sobre a água como se fossem parte do próprio rio, cumprindo ali o mistério eterno da reprodução.


Para o indígena, tudo isso não é apenas paisagem. É convivência. É parentesco. Viver com a natureza é respeitar o tempo de cada ser, é proteger a flora e a fauna, porque na cultura Kariri-Xocó os Keríá — os Animais — não são apenas criaturas: são seres sagrados, guardiões do equilíbrio e geradores da vida.


Assim, quando uma ave cruza o céu do Opará, ela não passa sozinha. Leva consigo a memória dos antigos, o espírito da terra e a certeza de que, enquanto houver respeito, o ciclo continuará.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




NAMYTSE IBARANÚ NATIÁ, O SERVIÇO DE MOTOTÁXI NA ALDEIA






Dizem que a primeira Ibaranú, a “Moto”, chegou à Natiá, a Aldeia, como coisa estranha, barulhenta, levantando poeira e curiosidade. Era década de 1960, tempo em que os Kariri-Xocó ainda moravam na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, na Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio. A máquina veio trazida por um forasteiro, e seu ronco ecoou diferente entre as casas, como um bicho novo aprendendo a respirar naquele chão antigo.


No começo, poucos se aproximavam. Uns olhavam de longe, outros riam, outros desconfiavam. A moto parecia não entender os passos da aldeia, nem o silêncio da terra. Mas o tempo, esse velho ensinador, tratou de aproximar homem e máquina.


Em 1989, quando a FUNAI comprou uma moto para a vigilância da Terra Indígena, a Ibaranú deixou de ser apenas novidade. Passou a ser ferramenta, aliada, extensão do corpo que protege o território. Foi aí que os Kariri-Xocó começaram a conhecer melhor aquele meio de transporte, sentindo no vento do caminho uma nova possibilidade de ir e vir.


Na década de 1990, nasceu de vez o Namytse Ibaranú Natiá, o Serviço de Mototáxi na Aldeia. A moto passou a levar gente, histórias, recados e sonhos. Levava indígenas da aldeia para a cidade e trazia de volta sacolas, remédios, notícias e esperanças. Levava também quem precisava seguir viagem para outras cidades, cruzando estradas que antes eram longas demais a pé.


O Tayu, o dinheiro, era simples e justo: Yeendeçó, cinco reais. Na nota, a figura da Ieende-ku-homoechi, a garça-branca-de-pescoço-comprido, parecia observar tudo em silêncio, como quem sabe que aquele pagamento não comprava só a corrida, mas também a confiança entre quem leva e quem é levado.


Hoje, na aldeia, existem em média vinte mototáxis ou mais. Eles transportam indígenas e não-indígenas pela cidade e pelos povoados circunvizinhos. Quanto maior a distância, maior o valor — porque o caminho também cansa, e a estrada tem suas exigências.


Assim, pouco a pouco, os Kariri-Xocó vão se adaptando às novas opções de trabalho. A tecnologia chega, mas não apaga a tradição. Ela aprende a conviver com ela. A Ibaranú já não é mais estranha: é parte da paisagem, como o sol da manhã, como o pó da estrada, como o chamado de quem precisa ir — e de quem sempre sabe voltar.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó