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quarta-feira, 10 de junho de 2026

DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ








FALSA FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Obra dedicada à preservação da memória histórica, territorial, cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó, reunindo relatos da tradição oral, documentos históricos, pesquisas bibliográficas e vivências comunitárias.

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO


Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

ISBN (Simbólico): 978-65-0000-001-1

1ª Edição – 2026





FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)

Kariri-Xocó, Nhenety.

Da Rua dos Índios à Fazenda Modelo: memórias do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.

Povos Indígenas do Nordeste. 2. Kariri-Xocó. 3. História Indígena. 4. Memória Social. 5. Territorialidade Indígena. 6. Cultura Tradicional. I. Título.

CDD: 980.41 CDU: 94(81)




ISBN (SIMBÓLICO)


ISBN: 978-65-0000-001-1





PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 








DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus antepassados Kariri, Xocó, Natú, Karapotó e demais ancestrais que caminharam pelas margens do Rio São Francisco, preservando a memória, a espiritualidade e a identidade de nosso povo. Dedico também aos anciões e anciãs que transmitiram seus conhecimentos através da palavra falada, aos meus pais, filhos, netos e às futuras gerações Kariri-Xocó, para que jamais esqueçam suas origens.





AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, aos antepassados, aos ancestrais e aos guardiões espirituais do Ouricuri, cuja presença acompanha a caminhada de nosso povo.


Agradeço aos anciões Kariri-Xocó que compartilharam suas lembranças, histórias e ensinamentos, permitindo que parte desta memória fosse preservada por escrito.

Agradeço aos pesquisadores, antropólogos, historiadores e instituições que contribuíram para a documentação da história indígena do Baixo São Francisco.


Agradeço à minha família, que sempre incentivou meu trabalho como contador de histórias oral e escrita.

Por fim, agradeço aos leitores que reconhecem a importância da memória indígena como patrimônio da humanidade.





EPÍGRAFE

"Enquanto houver memória, haverá caminho. Enquanto houver território, haverá povo. Enquanto houver povo, os ancestrais continuarão vivos entre nós."
— Nhenety Kariri-Xocó






PREFÁCIO 

Esta obra não pretende ser apenas uma narrativa histórica. Ela representa um exercício de memória coletiva construído a partir das lembranças dos anciões, dos documentos preservados ao longo do tempo e da experiência vivida pelo próprio autor.

Ao percorrer os caminhos que vão da antiga Rua dos Índios à atual Aldeia Kariri-Xocó da Fazenda Modelo, o leitor encontrará séculos de permanência indígena, resistência cultural e reconstrução territorial. Mais do que contar fatos, este livro busca registrar experiências humanas que continuam presentes na vida cotidiana da comunidade.





RESUMO

Este livro apresenta uma reconstrução histórica da trajetória do povo Kariri-Xocó, desde a formação da Missão de Colégio no século XVII até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó na Fazenda Modelo. A obra aborda os processos de territorialização, resistência, reorganização social, reconhecimento oficial, transformações econômicas, espiritualidade e preservação cultural. Fundamentada em fontes bibliográficas, documentos históricos, entrevistas e memórias comunitárias, a pesquisa evidencia a continuidade histórica dos Kariri-Xocó e sua contribuição para a formação cultural do Baixo São Francisco.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; memória indígena; território; história indígena; Ouricuri; Baixo São Francisco.





ABSTRACT

This book presents a historical reconstruction of the Kariri-Xocó people's trajectory, from the formation of the Colégio Mission in the seventeenth century to the consolidation of the Kariri-Xocó Village at Fazenda Modelo. The work discusses territorial processes, resistance, social reorganization, official recognition, economic transformations, spirituality and cultural preservation. Based on bibliographical sources, historical documents, interviews and community memories, the research highlights the historical continuity of the Kariri-Xocó people and their contribution to the cultural formation of the Lower São Francisco region.

Keywords: Kariri-Xocó; indigenous memory; territory; indigenous history; Ouricuri; Lower São Francisco.





APRESENTAÇÃO

A antiga Rua dos Índios constituiu um dos mais importantes espaços de permanência histórica do povo Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio. Sua formação está associada ao processo de reorganização urbana ocorrido após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763, quando numerosas famílias indígenas passaram a concentrar suas moradias naquela área da povoação. Ao longo das gerações, a Rua dos Índios tornou-se um verdadeiro centro de convivência comunitária, onde foram preservados laços familiares, conhecimentos tradicionais, práticas culturais e a memória coletiva do povo.

Em 1948, a denominação oficial foi alterada para Rua São Vicente, mas a antiga referência permaneceu viva na lembrança dos moradores indígenas. Mesmo diante das transformações urbanas e sociais ocorridas ao longo do tempo, a rua continuou sendo um importante símbolo da presença Kariri-Xocó na cidade. Somente em 1978, com a ocupação da Fazenda Modelo e a transferência gradual de diversas famílias para a nova aldeia, iniciou-se uma nova etapa da história comunitária.

Considerando o período compreendido entre a formação da Rua dos Índios, após 1763, e a mudança para a Fazenda Modelo, em 1978, verifica-se uma permanência histórica superior a duzentos anos. Essa longa trajetória evidencia a continuidade da presença indígena em Porto Real do Colégio e demonstra a capacidade de resistência, adaptação e preservação identitária dos Kariri-Xocó ao longo das gerações.

Dessa forma, a passagem da Rua dos Índios para a Fazenda Modelo não representou uma ruptura, mas a continuidade de uma história iniciada ainda nos tempos da antiga Aldeia de Colégio. Os dois espaços permanecem unidos pela memória, pelo parentesco e pelo sentimento de pertencimento que atravessa séculos da trajetória do povo Kariri-Xocó.





NOTA DO AUTOR

Este livro resulta de décadas de observação, pesquisa e convivência com os guardiões da memória Kariri-Xocó. Muitos acontecimentos aqui descritos foram transmitidos por familiares, anciões e lideranças indígenas, sendo posteriormente confrontados com documentos históricos e estudos acadêmicos.





MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci ouvindo histórias. Cresci entre as lembranças dos mais velhos, os relatos sobre a Rua dos Índios, o Ouricuri, a Colônia Indígena, a Fazenda Modelo e os tempos antigos do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos anos, compreendi que cada narrativa guardava fragmentos importantes de nossa história coletiva.
Desde 2006, venho registrando parte dessas memórias em meios digitais, especialmente por meio do Blog Kxnhenety. Este livro representa a continuidade desse trabalho de preservação da memória oral e escrita de meu povo.




SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – A Taba Original e a Formação da Missão Jesuítica (1661–1764)
Capítulo II – Da Missão ao Diretório: Transformações Territoriais e Administrativas (1759–1876)
Capítulo III – Resistência e Sobrevivência dos Kariri-Xocó (1876–1944)
Capítulo IV – O Reconhecimento Oficial dos Kariri-Xocó (1944–1967)
Capítulo V – Trabalho, Desenvolvimento e Novas Oportunidades (1968–1975)
Capítulo VI – FUNAI e a Nova Política Indigenista (1967–1974)
Capítulo VII – Da Rua São Vicente à Fazenda Modelo (1948–1978)
Capítulo VIII – Ouricuri: Centro Espiritual dos Kariri-Xocó
Capítulo IX – Memória, Território e Permanência
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







INTRODUÇÃO

A história do povo Kariri-Xocó atravessa mais de três séculos de transformações territoriais, políticas e culturais. Desde a formação da Missão de Colégio, em 1661, até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó contemporânea, diversas gerações enfrentaram deslocamentos, perdas territoriais, mudanças administrativas e desafios impostos pelas políticas indigenistas.

Apesar dessas transformações, a identidade coletiva permaneceu viva por meio da memória, da espiritualidade, dos vínculos familiares e da relação com o território ancestral. Esta obra busca reconstruir essa trajetória histórica em ordem cronológica, valorizando tanto os documentos escritos quanto as memórias preservadas pelos anciões.






CAPÍTULO I – A TABA ORIGINAL E A FORMAÇÃO DA MISSÃO JESUÍTICA (1661–1764)


A história do povo Kariri-Xocó no Baixo São Francisco está profundamente ligada ao processo de formação das missões indígenas organizadas pelos jesuítas durante o período colonial. A partir da segunda metade do século XVII, diferentes povos indígenas passaram a ser reunidos em aldeamentos missionários que buscavam promover a catequese, o controle territorial e a integração dos indígenas à sociedade colonial. Nesse contexto, a Missão de Colégio tornou-se um importante centro de convivência entre diversos grupos étnicos, constituindo as bases históricas, territoriais e culturais que contribuiriam para a formação do atual povo Kariri-Xocó. Este capítulo aborda a origem da antiga taba indígena, a instalação da missão jesuítica, a composição multiétnica da aldeia e os primeiros marcos da consolidação do território indígena.

Taba Original –  A Antiga Taba dos Kariri localizava-se no cimo da colina denominada Alto do Bode, às margens do Rio São Francisco, próxima à Lagoa Comprida. Em 1661, seus habitantes foram transferidos pelos missionários jesuítas para compor a recém-organizada Missão de Colégio.

Aldeia da Missão Jesuítica – O Surgimento da Missão de Colégio, iniciada com os Kariri provenientes da Aldeia Alto do Bode foram os primeiros indígenas incorporados à Missão de Colégio. A transferência, realizada em 1661, marcou o início da formação do aldeamento missionário na região.

Aldeia de Colégio – A missão constituiu um conglomerado étnico heterogêneo, reunindo diferentes grupos indígenas, entre eles os Natú, Chocó, Carapotó, Prakió e Nakonã, formando uma comunidade marcada pela convivência e interação cultural (PINTO, 1942, p. 172).

Primeira Migração Xocó – A Chegada dos Xocó à Missão, os registros históricos indicam que grupos Xocó provenientes da Aldeia Panema, localizada na região de Águas Belas, Pernambuco, iniciaram um processo migratório por volta de 1688. Em 1713, esses indígenas já eram encontrados na Missão de Colégio, fortalecendo a diversidade étnica do aldeamento.

Doação das Terras – A Concessão do Território Indígena, em 1º de janeiro de 1708, o governador da Capitania de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, concedeu aos índios das missões de Colégio e São Brás uma légua de largura por duas léguas de comprimento, formalizando juridicamente parte do território indígena e assegurando a posse coletiva das terras aldeadas.

Expulsão dos Jesuítas – O Fim da Administração Missionária, em 1759, por determinação da Coroa Portuguesa durante as reformas do Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos dos domínios portugueses. A medida encerrou a administração missionária da Aldeia de Colégio e inaugurou um novo período na história dos povos indígenas da região.

Leilão das Propriedades Jesuíticas – A Dispersão do Patrimônio Jesuítico, como consequência da expulsão dos religiosos, foram leiloadas em 1764 onze fazendas de gado pertencentes aos jesuítas da Missão de Colégio, alterando significativamente a estrutura econômica e fundiária construída ao longo do período missionário (LIMA, 2006, p. 16–17).

A formação da Missão de Colégio representou um momento decisivo na trajetória histórica dos povos indígenas do Baixo São Francisco. A reunião de diferentes grupos étnicos em um mesmo território, a atuação dos missionários jesuítas e a concessão oficial de terras criaram as bases de uma identidade coletiva que atravessaria os séculos. Embora a expulsão dos jesuítas tenha provocado profundas transformações na organização da aldeia, as memórias da antiga taba, da convivência entre os diversos povos indígenas e da luta pela preservação do território permaneceram vivas, constituindo parte fundamental da herança histórica e cultural do povo Kariri-Xocó.






CAPÍTULO II – DA MISSÃO AO DIRETÓRIO: TRANSFORMAÇÕES TERRITORIAIS E ADMINISTRATIVAS (1759–1876)


A segunda metade do século XVIII representou um período de profundas transformações para os povos indígenas do Baixo São Francisco. A expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, determinada pela política reformista do Marquês de Pombal, alterou significativamente a organização das antigas missões religiosas. Em seu lugar foi implantado o Diretório dos Índios, sistema administrativo que procurava integrar os indígenas à sociedade colonial portuguesa por meio de novas formas de controle político, econômico e territorial. Em Porto Real do Colégio, essas mudanças desencadearam um longo processo de reorganização urbana e administrativa que gradualmente reduziu os espaços ocupados pelos indígenas, transformando a antiga aldeia missionária em freguesia, vila e, posteriormente, cidade.

Aldeia do Diretório e as Diretorias dos Índios, após a expulsão dos jesuítas em 1759, a antiga Missão de Colégio passou a ser administrada por autoridades civis vinculadas às políticas do Diretório dos Índios, implantado na América Portuguesa a partir de 1757. Ao final do século XVIII, a aldeia encontrava-se sob a supervisão de diretores nomeados pelo governo, responsáveis pela administração da população indígena e de seus territórios. Esse modelo buscava substituir a influência missionária pelo controle estatal, promovendo a assimilação cultural dos indígenas e restringindo progressivamente sua autonomia tradicional. Ao longo do século XIX, a expansão da povoação e dos interesses econômicos locais contribuiu para a diminuição das terras indígenas, culminando na transformação da localidade em Vila de Porto Real do Colégio, em 1876.

Rua dos Índios, com o crescimento da povoação após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Porto Real do Colégio, em 1763, ocorreu uma reorganização dos espaços urbanos. Muitos indígenas passaram a residir em áreas periféricas da vila, formando o núcleo que ficou conhecido como Rua dos Índios. Durante mais de um século, essa rua constituiu um importante espaço de convivência e preservação da identidade indígena dentro do ambiente urbano. O nome tradicional permaneceu até 1948, quando foi oficialmente alterado para Rua São Vicente. Apesar da mudança administrativa, a memória da antiga Rua dos Índios continuou viva entre os moradores, permanecendo como símbolo da presença histórica do povo Kariri-Xocó. Em 1978, diversas famílias indígenas transferiram-se para a Fazenda Modelo, onde foi consolidada uma nova etapa da ocupação territorial da comunidade.

Transformação da Aldeia em Vila, a história administrativa de Porto Real do Colégio reflete as sucessivas transformações ocorridas desde o período missionário. A fase da Aldeia-Missão do Colégio estendeu-se aproximadamente de 1661 até a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763. Posteriormente, a localidade passou a integrar a estrutura das Diretorias dos Índios, vinculadas às reformas pombalinas. Em 1827, a freguesia foi reorganizada administrativamente, acompanhando as mudanças ocorridas durante o período imperial. Finalmente, em 1876, Porto Real do Colégio foi elevada à categoria de vila, consolidando sua condição de centro urbano regional. Décadas depois, em 1955, alcançaria a categoria de cidade.

Indígenas nas Ruas da Povoação, a formação urbana de Porto Real do Colégio ocorreu sobre o território da antiga aldeia indígena. Por essa razão, a presença dos indígenas não se restringia à Rua dos Índios. Famílias indígenas também habitavam diversas áreas da povoação, incluindo as ruas Clementino Dumont, Santa Cruz, da Aurora e do Cruzeiro. Com a criação do Posto Indígena, em 1944, muitas dessas famílias passaram a concentrar-se na Rua dos Índios, fortalecendo os laços comunitários e preservando práticas culturais e identitárias que resistiram às transformações urbanas e administrativas ocorridas ao longo dos séculos.

O período compreendido entre a expulsão dos jesuítas e a elevação de Porto Real do Colégio à condição de vila foi marcado por profundas mudanças na vida dos povos indígenas da região. A substituição da administração missionária pelo Diretório dos Índios introduziu novas formas de controle político e territorial, favorecendo a expansão da ocupação não indígena e reduzindo gradualmente os espaços tradicionalmente ocupados pelos Kariri-Xocó. Ao mesmo tempo em que a antiga aldeia se transformava em núcleo urbano, os indígenas eram deslocados para áreas cada vez mais periféricas, mantendo, contudo, sua identidade, memória e vínculos comunitários. A história desse período revela não apenas a formação da cidade, mas também a resistência contínua do povo Kariri-Xocó diante das transformações impostas pelo processo de urbanização e pelas políticas coloniais e imperiais que redefiniram o território ancestral.







CAPÍTULO III – RESISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DOS KARIRI-XOCÓ (1876–1944)

A extinção oficial dos aldeamentos indígenas em 1872 inaugurou um dos períodos mais difíceis da história dos Kariri-Xocó. Privados do reconhecimento legal de suas terras tradicionais e submetidos à expansão das propriedades rurais, os indígenas passaram a enfrentar profundas transformações sociais, econômicas e culturais. Entre 1876 e 1944, desenvolveram estratégias de resistência que garantiram sua sobrevivência coletiva, mantendo vínculos familiares, práticas culturais, conhecimentos tradicionais e a memória de pertencimento ao território ancestral. Mesmo diante da expropriação, da exploração do trabalho e da invisibilidade imposta pelo poder público, os Kariri-Xocó preservaram sua identidade, preparando o caminho para o futuro reconhecimento oficial de sua condição indígena.

Segunda Migração Xocó, nas décadas posteriores à extinção dos aldeamentos, ocorreu uma nova movimentação de famílias Xocó provenientes da Aldeia Ilha de São Pedro, localizada em Porto da Folha, Sergipe. Esse deslocamento consolidou a aproximação histórica entre Kariri e Xocó na antiga Aldeia de Colégio, já transformada na Vila de Porto Real do Colégio, em Alagoas. A chegada dessas famílias fortaleceu os laços de parentesco, ampliou a população indígena local e contribuiu para a preservação das tradições culturais compartilhadas pelos dois povos.

Trabalhadores de Alugado, com a perda das terras coletivas, muitos indígenas foram obrigados a sobreviver como trabalhadores alugados para fazendeiros da região. Entre 1876 e 1952, homens, mulheres e jovens exerceram diversas atividades rurais e serviços gerais em troca de baixos salários ou remuneração em produtos. Essa condição de dependência econômica representou uma das principais consequências da expropriação territorial, mas também revelou a capacidade de adaptação e resistência dos Kariri-Xocó diante das dificuldades impostas.

Gabriel Gonçalves de Oliveira, entre as figuras de destaque desse período encontra-se Gabriel Gonçalves de Oliveira (1853–1953), indígena reconhecido por seus conhecimentos tradicionais de cura e que alcançou posição de relativo destaque econômico na região. Tornando-se proprietário rural, utilizou sua influência para auxiliar e proteger diversas famílias Kariri e Xocó que enfrentavam condições de vulnerabilidade. Após o falecimento de sua primeira esposa, Luzia, uniu-se a Maria Matilde, que posteriormente daria continuidade à sua atuação de apoio aos indígenas.

Maria Matilde, após a morte de Gabriel Gonçalves, Maria Matilde permaneceu como importante referência para os Kariri-Xocó. Sua atuação foi marcada pela assistência às famílias indígenas e pela manutenção de relações de solidariedade em um período de grandes dificuldades. A memória de sua contribuição permaneceu viva entre os indígenas, especialmente durante os anos que antecederam a criação do Posto Indígena, em 1944, quando os Kariri-Xocó passaram a receber maior atenção das autoridades indigenistas.

Operários da Fábrica, a instalação de uma fábrica de beneficiamento de arroz na Rua dos Caboclos, em 1937, criou novas oportunidades de trabalho para a população indígena local. Muitos Kariri-Xocó passaram a atuar como operários na unidade industrial, desempenhando funções ligadas ao processamento e armazenamento da produção agrícola regional. A fábrica permaneceu em funcionamento até 1968, tornando-se uma importante fonte de renda para diversas famílias indígenas ao longo de várias décadas.

A Visita de Carlos Estevão, em 1935, o antropólogo e pesquisador Carlos Estevão de Oliveira visitou Porto Real do Colégio para realizar observações sobre a população indígena local. Durante sua permanência, conheceu a Rua dos Índios e a região da Rua do Ouricuri, então cercada por áreas de mata. Seus registros etnográficos documentaram a presença contínua dos descendentes dos antigos aldeamentos e contribuíram para fortalecer a compreensão sobre a permanência histórica dos Kariri-Xocó na região. Esses estudos tornaram-se importantes referências para os processos que culminariam no reconhecimento oficial dos indígenas e na instalação do Posto Indígena em 1944.

O período compreendido entre 1876 e 1944 representa uma fase de resistência silenciosa, porém decisiva, na trajetória dos Kariri-Xocó. Apesar da perda das terras tradicionais, da exploração do trabalho indígena e das tentativas de invisibilização de sua existência, o povo manteve vivas suas relações comunitárias, seus conhecimentos ancestrais e sua identidade cultural. A solidariedade de lideranças locais, a adaptação às novas formas de trabalho e os registros produzidos por pesquisadores como Carlos Estevão contribuíram para que a presença indígena permanecesse reconhecível. Assim, ao final desse ciclo histórico, os Kariri-Xocó demonstraram que a resistência não se expressa apenas por confrontos diretos, mas também pela capacidade de preservar a memória, a cultura e o sentimento de pertencimento ao longo das gerações, preparando o caminho para as conquistas territoriais e políticas das décadas seguintes.






CAPÍTULO IV - O RECONHECIMENTO OFICIAL DOS KARIRI-XOCÓ (1944–1967)


A década de 1940 marcou uma profunda transformação na história do povo Kariri-Xocó. Após séculos de resistência, invisibilidade administrativa e sucessivas perdas territoriais, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente reconhecidos pelo Estado brasileiro por meio das ações do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Esse reconhecimento inaugurou uma nova etapa de reorganização comunitária, caracterizada pela implantação de estruturas administrativas, educacionais e produtivas destinadas a integrar a comunidade indígena às políticas indigenistas da época. Entre 1944 e 1967, os Kariri-Xocó consolidaram importantes conquistas institucionais que fortaleceram sua permanência no território e contribuíram para a preservação de sua identidade coletiva.

Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em 1944, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente assistidos pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), por meio da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, marco do reconhecimento oficial da comunidade indígena pelo Estado brasileiro.

Escola Padre Alfredo Dâmaso, fundada em 1944 juntamente com o Posto Indígena, a Escola Padre Alfredo Dâmaso constituiu o primeiro estabelecimento de ensino voltado à comunidade indígena local. Em 1985, a instituição foi transferida para a Aldeia Kariri-Xocó, situada na Fazenda Modelo.

Colônia Indígena, em 1947, o Ministério da Agricultura destinou aos indígenas de Porto Real do Colégio uma área de aproximadamente 54 hectares para atividades agrícolas. A área passou a ser conhecida como Colônia Indígena, denominação que permaneceu na memória coletiva da comunidade.

Reforma das Casas de Palha, a grande enchente do Rio São Francisco, ocorrida em 1949, atingiu Porto Real do Colégio e a comunidade Kariri-Xocó. Em decorrência dos danos causados, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso promoveu a recuperação e reforma das moradias tradicionais de palha afetadas pela inundação.

Casa de Farinha, por volta de 1960, foi implantada uma Casa de Farinha na Colônia Indígena para atender ao beneficiamento da mandioca produzida pelas famílias Kariri-Xocó, fortalecendo a economia comunitária e a produção de alimentos.

O período compreendido entre 1944 e 1967 representa um marco fundamental na trajetória histórica dos Kariri-Xocó. A criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, a instalação da escola, a formação da Colônia Indígena, as melhorias habitacionais após a enchente de 1949 e a construção da Casa de Farinha evidenciam a presença crescente do Estado na vida comunitária. Embora inseridas dentro da política indigenista vigente, essas iniciativas também foram apropriadas pelos próprios indígenas como instrumentos de fortalecimento social, econômico e cultural. Assim, o reconhecimento oficial conquistado nesse período não significou apenas uma medida administrativa, mas um importante passo na reafirmação da existência histórica do povo Kariri-Xocó, preparando o caminho para as futuras lutas pela recuperação territorial, valorização cultural e afirmação de seus direitos coletivos.






CAPÍTULO V – TRABALHO, DESENVOLVIMENTO E NOVAS OPORTUNIDADES (1968–1975)


A partir do final da década de 1960, a região do Baixo São Francisco passou por importantes transformações econômicas impulsionadas por obras de infraestrutura, expansão agrícola e projetos de desenvolvimento regional. Essas mudanças abriram novas possibilidades de trabalho para o povo Kariri-Xocó, que passou a integrar de forma mais intensa o mercado de trabalho regional, atuando em obras de construção civil, serviços de engenharia, atividades agrícolas e projetos de irrigação. Embora muitos indígenas continuassem vinculados às práticas tradicionais de subsistência, esse período marcou uma crescente participação da comunidade em atividades assalariadas, contribuindo para a geração de renda e para novas experiências de inserção social e econômica.

COENG S/A – Em 1968, a empresa de engenharia e terraplanagem COENG S/A instalou sua sede operacional em Porto Real do Colégio, utilizando o antigo prédio da fábrica de arroz desativada, localizado na Rua São Vicente. Contratada para atuar nas obras de implantação da Rodovia BR-101, a empresa empregou diversos trabalhadores indígenas Kariri-Xocó, proporcionando uma das mais significativas oportunidades de trabalho assalariado da época.

CONSTRUTORA GUTIERREZ – Em 1969, a Construtora Andrade Gutierrez estabeleceu sua base de apoio na cidade, também utilizando as instalações da antiga fábrica de arroz na Rua São Vicente. Responsável por serviços relacionados à pavimentação da BR-101 e às obras da ponte sobre o Rio São Francisco, a empresa contratou numerosos trabalhadores Kariri-Xocó, ampliando a participação indígena nos grandes empreendimentos de infraestrutura que transformavam a região.

Usinas de Cana-de-açúcar – Entre 1972 e 1975, a expansão da atividade sucroalcooleira no Sul de Alagoas criou novas frentes de trabalho para os Kariri-Xocó. Muitos indígenas passaram a atuar no cultivo da cana-de-açúcar, realizando atividades como abertura de sulcos para plantio, capina, limpeza e manutenção dos canaviais, integrando-se temporariamente ao ciclo produtivo das usinas da região.

Projeto Itiúba – Implantado na várzea do Rio Itiúba, o Projeto Itiúba representou uma importante iniciativa de irrigação agrícola voltada para a produção de arroz. O projeto beneficiou cerca de 300 parceleiros com lotes irrigados, entre os quais aproximadamente 40 famílias Kariri-Xocó receberam parcelas de terra para cultivo, fortalecendo a agricultura familiar indígena e ampliando as possibilidades de geração de renda por meio da produção agrícola irrigada.

As experiências vividas pelos Kariri-Xocó entre 1968 e 1975 revelam um período de ampliação das oportunidades de trabalho e de integração econômica regional. A participação em obras rodoviárias, empreendimentos da construção civil, atividades ligadas às usinas de cana-de-açúcar e projetos de irrigação permitiu à comunidade diversificar suas fontes de sustento, sem abandonar sua identidade cultural e seus vínculos históricos com o território. Esse processo contribuiu para a construção de novas perspectivas de desenvolvimento, preparando o caminho para as transformações sociais e econômicas que marcariam as décadas seguintes.






CAPÍTULO VI – FUNAI E A NOVA POLÍTICA INDIGENISTA (1967–1974)


A criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em 1967, marcou uma importante mudança na política indigenista brasileira. O novo órgão passou a substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumindo a administração dos postos indígenas e redefinindo as ações do Estado junto aos povos originários. Na Aldeia Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, essa transição trouxe transformações na infraestrutura comunitária, na educação, na assistência social e na capacitação profissional. Embora muitas dificuldades permanecessem, esse período foi marcado por investimentos que modificaram o espaço físico da aldeia e ampliaram as oportunidades de formação para as novas gerações indígenas.

FUNAI, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão governamental criado em 1967 para substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumiu a administração do antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, inaugurando uma nova fase da política indigenista brasileira junto ao povo Kariri-Xocó.

Posto Indígena de Porto Real do Colégio, o antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso passou a ser denominado Posto Indígena de Porto Real do Colégio em 1969, já sob a administração da FUNAI. A mudança representou o início de uma nova etapa administrativa e institucional para a Aldeia Kariri-Xocó.

Reforma das Casas de Alvenaria, na Rua São Vicente, principal núcleo da aldeia na época, a FUNAI promoveu, em 1972, a reforma das fachadas das casas dos indígenas Kariri-Xocó, substituindo estruturas antigas por frentes construídas em alvenaria de tijolos.

Reforma e Ampliação da Escola, entre 1972 e 1973, a FUNAI realizou a reforma e ampliação da Escola Indígena, construindo três novas salas de aula, banheiros, muro de proteção e uma enfermaria, melhorando as condições de ensino e atendimento à comunidade.

Casa das Professoras, em 1973, a FUNAI construiu a Casa das Professoras na Rua São Vicente. A residência destinava-se às docentes que vinham de outras regiões e aldeias do Nordeste para atuar na educação das crianças Kariri-Xocó, oferecendo-lhes melhores condições de permanência na comunidade.

Escola de Corte e Costura, também em 1973, a FUNAI implantou um curso de corte e costura voltado para as jovens da aldeia. Para ministrar as aulas, foi contratada a indígena Fulni-ô Maria Amélia, que transmitiu conhecimentos técnicos e artesanais importantes para a formação das alunas.

Casa da Cerâmica Torneada, o prédio foi construída em 1974, estava localizada na Rua São Vicente. O espaço destinava-se ao ensino e à produção de peças de barro utilizando o torno de oleiro. Os artesãos indígenas aprenderam a confeccionar diversos objetos, como jarros, quartinhas, moringas, pratos e outros utensílios cerâmicos, fortalecendo as atividades artesanais da comunidade.

O período compreendido entre 1967 e 1974 representou uma fase de transição institucional para o povo Kariri-Xocó, marcada pela substituição do SPI pela FUNAI e pela implementação de novas ações governamentais na aldeia. As reformas habitacionais, a ampliação da escola, a construção de residências para professores e a criação de cursos profissionalizantes demonstram a tentativa de integrar educação, assistência e qualificação profissional às políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Embora ainda persistissem desafios relacionados à autonomia territorial e ao reconhecimento pleno dos direitos indígenas, essas iniciativas contribuíram para transformar o cotidiano da comunidade e prepararam o caminho para as mobilizações e conquistas que ocorreriam nas décadas seguintes.







CAPÍTULO VII – DA RUA SÃO VICENTE À FAZENDA MODELO (1948–1978)


Este capítulo aborda um dos momentos mais marcantes da história recente do povo Kariri-Xocó: a transição da antiga Rua dos Índios, local de residência de inúmeras gerações indígenas em Porto Real do Colégio, para a Fazenda Modelo, território que se tornaria a nova aldeia da comunidade. O período compreendido entre 1948 e 1978 representa a passagem entre dois espaços carregados de significados históricos e afetivos. De um lado, a Rua São Vicente, símbolo da permanência indígena no núcleo urbano da cidade; de outro, a Fazenda Modelo, que passou a representar a reconstrução territorial, cultural e comunitária dos Kariri-Xocó em sua luta pela reafirmação de sua identidade indígena.

Rua São Vicente – A antiga Rua dos Índios passou a ser denominada Rua São Vicente em 1948, recebendo o nome em referência à Usina São Vicente, importante empreendimento de beneficiamento de arroz da região. A mudança refletia o processo de modernização urbana e o fortalecimento das atividades econômicas ligadas ao desenvolvimento de Porto Real do Colégio.

Permanência dos Kariri-Xocó na Rua São Vicente – Mesmo após a mudança do nome da rua, muitas famílias Kariri-Xocó permaneceram vivendo no local onde seus antepassados residiam desde os primeiros tempos da formação de Porto Real do Colégio. O vínculo afetivo, histórico e cultural com a terra natal levou diversas famílias a continuarem na Rua São Vicente, mesmo quando começaram os movimentos de transferência para um novo território indígena.

Transferência para a Fazenda Modelo – Em 31 de outubro de 1978, os Kariri-Xocó ocuparam a Fazenda Modelo, marco fundamental da reorganização territorial da comunidade. A partir dessa data, teve início a mudança gradual das famílias da Rua São Vicente, situada na periferia urbana de Porto Real do Colégio, para a nova aldeia indígena, onde passaram a reconstruir suas moradias, fortalecer seus laços comunitários e reafirmar sua identidade étnica em um território próprio.

A passagem da Rua São Vicente para a Fazenda Modelo representou muito mais do que uma simples mudança de moradia. Esse processo simbolizou a retomada de um espaço coletivo capaz de assegurar melhores condições para a preservação da cultura, da memória e da organização social dos Kariri-Xocó. Embora a Rua São Vicente permanecesse como um lugar de profundas recordações e pertencimento, a ocupação da Fazenda Modelo marcou o início de uma nova etapa histórica, caracterizada pela reconstrução territorial e pelo fortalecimento da identidade indígena, consolidando as bases da atual Aldeia Kariri-Xocó.







CAPÍTULO VIII – OURICURI: CENTRO ESPIRITUAL DOS KARIRI-XOCÓ


Entre todos os espaços de referência da memória coletiva Kariri-Xocó, o Ouricuri ocupa lugar singular como território sagrado de espiritualidade, resistência e continuidade cultural. Muito mais que uma área de floresta preservada, o Ouricuri representa um elo permanente entre os vivos, os ancestrais e as forças da natureza presentes na cosmologia indígena. Ao longo dos séculos, mesmo diante das transformações políticas, territoriais e sociais ocorridas em Porto Real do Colégio, este espaço manteve-se como centro das práticas rituais, da transmissão dos conhecimentos tradicionais e da reafirmação da identidade étnica do povo Kariri-Xocó.

Aldeia Ouricuri, corresponde à antiga taba transferida do Alto do Bode em 1796, quando o Pajé Luduvico contava dezoito anos de idade. A mudança ocorreu em um contexto de expansão da ocupação colonial na região, após a elevação de Porto Real do Colégio à condição de Distrito em 1795. Com a aproximação dos núcleos urbanos e das atividades dos não indígenas, buscou-se um local mais afastado para garantir a continuidade dos rituais tradicionais e a preservação dos costumes ancestrais.

Rua do Ouricuri, após a transformação da Aldeia de Colégio em vila de Porto Real do Colégio, em 1876, diversas famílias indígenas passaram a residir nas proximidades da Floresta do Ouricuri, onde estabeleceram suas moradias e desenvolveram atividades agrícolas de subsistência. A localidade ficou conhecida como Rua do Ouricuri e permaneceu habitada por famílias Kariri-Xocó até 1952, quando muitas delas foram transferidas para a Colônia Indígena instalada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).

Os Rituais Tradicionais, na Floresta do Ouricuri realizam-se os rituais tradicionais que constituem uma das mais importantes expressões da cultura Kariri-Xocó. Essas cerimônias possuem dimensões espirituais, sociais e culturais, fortalecendo os vínculos entre as pessoas, a natureza, os ancestrais e os antepassados sagrados. Por meio dos cantos, danças, rezas, ensinamentos e práticas cerimoniais, os conhecimentos transmitidos pelas gerações anteriores permanecem vivos e atuantes na construção da identidade coletiva do povo.

A Preservação da Floresta Sagrada, a Floresta do Ouricuri constitui um patrimônio natural e cultural de valor inestimável para os Kariri-Xocó. Formada por remanescentes dos biomas Mata Atlântica e Caatinga, a área integra a Terra Indígena Kariri-Xocó e tem sido preservada por sucessivas gerações desde tempos anteriores ao contato com os missionários jesuítas, ocorrido em 1661. Além de sua importância espiritual, representa uma das últimas formações vegetais significativas existentes nos municípios de Porto Real do Colégio e São Brás, desempenhando papel fundamental na conservação da biodiversidade regional.

A história do Ouricuri revela a profunda relação entre território, espiritualidade e identidade do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos séculos, a floresta sagrada permaneceu como espaço de resistência cultural, preservação ambiental e fortalecimento dos laços ancestrais. Mesmo diante das mudanças impostas pela colonização, pela expansão urbana e pelas políticas indigenistas, o Ouricuri continuou sendo o coração espiritual da comunidade. Sua existência simboliza a permanência dos saberes tradicionais, da memória coletiva e da conexão sagrada que une os Kariri-Xocó aos seus antepassados e à natureza, assegurando a continuidade de uma herança cultural transmitida de geração em geração.






CAPÍTULO IX - MEMÓRIA, TERRITÓRIO E PERMANÊNCIA


O presente capítulo encerra a trajetória histórica apresentada neste livro, reunindo elementos que expressam a permanência do povo Kariri-Xocó ao longo das gerações. Após séculos de transformações territoriais, deslocamentos, resistências e reconstruções comunitárias, a memória coletiva permanece viva nas famílias, nos lugares de pertencimento, nos saberes tradicionais e nas narrativas transmitidas pelos mais velhos. Mais do que registrar acontecimentos, este capítulo busca destacar a continuidade histórica de um povo que preserva sua identidade cultural mesmo diante das mudanças ocorridas ao longo do tempo, reafirmando a importância da memória e do território como fundamentos da existência coletiva Kariri-Xocó.

A Rua São Vicente na Atualidade, ainda abriga numerosas famílias Kariri-Xocó, desde o antigo prédio do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso até diversos pontos ao longo da rua. Atualmente, os moradores indígenas convivem com famílias não indígenas, refletindo a dinâmica histórica de integração e convivência existente no município.

Descendentes Kariri-Xocó na Cidade, os descendentes indígenas encontram-se distribuídos por diversos bairros e ruas de Porto Real do Colégio. Em razão dos processos históricos de miscigenação e formação da população local, muitas famílias preservam vínculos ancestrais com os povos indígenas da região, constituindo parte importante da identidade cultural do município.

Formação da Aldeia Atual, o povo Kariri-Xocó foi constituído historicamente pela integração de diferentes grupos indígenas, entre eles Kariri, Natu, Xocó, Karapotó, Fulni-ô, Pankararu, Aconã, Tingui-Botó, Fulkaxó e Caxagó. Ao longo do tempo, parte desses grupos contribuiu para a formação de novas aldeias e comunidades indígenas em municípios de Alagoas e Sergipe, mantendo laços históricos e culturais entre si.

Patrimônio Histórico e Cultural, os espaços construídos ao longo da história, os lugares de memória, os conhecimentos tradicionais, as manifestações culturais e, sobretudo, os próprios anciões e detentores dos saberes constituem um patrimônio vivo que deve ser valorizado e preservado para as futuras gerações.

Memórias dos Anciões, os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos representam uma das mais importantes fontes da história do povo Kariri-Xocó. Seus relatos, experiências e ensinamentos devem ser ouvidos, registrados e incorporados à educação escolar indígena, fortalecendo a preservação da história, da arte, da espiritualidade e da identidade cultural do povo.

Ao concluir esta obra, compreende-se que a história do povo Kariri-Xocó não se limita aos acontecimentos do passado, mas continua presente na vida cotidiana de suas famílias, em seus territórios, em suas tradições e em sua memória coletiva. Cada geração recebeu dos seus antepassados a responsabilidade de preservar conhecimentos, valores e formas próprias de compreender o mundo. Assim, a permanência do povo Kariri-Xocó constitui um testemunho de resistência, adaptação e continuidade cultural. Que estas páginas contribuam para fortalecer a valorização da história indígena, inspirando as futuras gerações a manter vivas as memórias, os saberes e os vínculos que unem o povo Kariri-Xocó à sua ancestralidade e ao seu território.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

A caminhada apresentada neste livro demonstra que a história do povo Kariri-Xocó é marcada pela continuidade. Ao longo dos séculos, diferentes gerações preservaram conhecimentos, práticas culturais e formas próprias de compreender o mundo.

Da antiga taba do Alto do Bode à Fazenda Modelo, passando pela Missão de Colégio, pela Rua dos Índios, pela Colônia Indígena e pelo Ouricuri, os Kariri-Xocó construíram uma trajetória de resistência e permanência.

Que esta obra contribua para fortalecer a valorização da memória indígena, incentivar novas pesquisas e inspirar as futuras gerações a conhecer, preservar e transmitir os conhecimentos herdados de seus antepassados.







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SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Terra Indígena Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à pesquisa da memória indígena, da história regional e da preservação dos conhecimentos tradicionais de seu povo.
Desde 2006 desenvolve atividades de registro histórico e cultural por meio de publicações digitais e projetos de valorização da memória coletiva. É autor de diversos textos sobre a história, a cultura e as tradições dos povos indígenas do Baixo São Francisco, especialmente dos Kariri-Xocó.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó




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