Antes do tempo dos brancos, quando o mundo era novo e o silêncio reinava nas matas, o povo Kariri-Xocó já sabia: o Rio Opará tem dono. Não é dono como os homens pensam — com cercas e títulos. É dono verdadeiro, feito de força e espírito, nascido das entranhas da Terra e batizado pelas águas grandes.
Chamam-no de Camurupim, o Senhor do Fundo, o Rei das Locas. Ele não é apenas um peixe, mas um ser encantado, que dorme em camas de pedra e veste anzóis como coroas de guerra. Habita os lugares fundos do São Francisco, onde só a luz da lua se atreve a tocar, e onde a água canta uma canção que poucos entendem.
Aqui, no porto das canoas da Aldeia Kariri-Xocó, ele é visto ao amanhecer. Quando o Sol ainda boceja, Camurupim emerge, rompe a superfície com sua cauda prateada, gira nas águas como um feiticeiro e avisa: "Este rio tem guardião!"
As crianças param de brincar, os velhos calam, os banhistas se afastam. O rio se faz mistério.
Foi Miraguaia, velho pescador da aldeia, quem teve coragem de descer ao fundo, junto ao pé de um ingá. Queria só buscar uns camarõezinhos para isca. Mas, ao chegar na loca, viu. Lá estava o Camurupim — imenso, imóvel, dormindo como um chefe ancestral. Sua cabeça resplandecia com luzes misteriosas. Eram anzóis... muitos! Brilhavam como estrelas de metal, adornando sua fronte como troféus roubados dos homens.
— Cada anzol é uma história de quem tentou vencê-lo — sussurrou Miraguaia.
Hoje, os pescadores usam iscas coloridas de alumínio, que dançam como peixinhos falsos. Mas Camurupim é sabedor antigo. Ele quebra a linha, arranca a armadilha e a leva como troféu, zombando dos homens que se acham maiores que o rio.
Depois daquele mergulho, Miraguaia nunca mais foi o mesmo. Disse que quando subiu à tona, o rio se revoltou. O Camurupim sacudiu as águas com fúria, como se dissesse: “Aqui mando eu!”
Camurupim mora onde o canal da lagoa encontra o Opará, onde as piabas ainda brincam entre pedras. Mas agora o rio chora. Está secando. A areia cobre as locas sagradas. E o Senhor do Fundo se foi. Ninguém mais o viu.
Talvez tenha partido para os reinos ocultos das águas escuras, onde os homens não ousam cavar, onde o tempo ainda dança devagar.
Mas um dia, quando o povo lembrar que rio é sagrado, que peixe é parente, e que anzol não fere só escamas, talvez então o Camurupim retorne. E com ele, o rio será novamente canto, morada, vida.
Até lá, sonhemos. E cuidemos do que resta. Pois o Senhor do Opará não morre — ele apenas espera.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó


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