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quinta-feira, 15 de maio de 2025

MARUANDA, O Vigilante da Terra

 






Em tempos antigos, quando a floresta ainda falava com os ventos e os rios sussurravam os nomes dos antigos espíritos, as terras do Baixo São Francisco eram morada dos povos Caeté, Romariz, Kariri, Karapotó, Aconã, Natu, Caxagó, Xocó e muitos outros.


Mas a paz dessas terras foi quebrada com a chegada dos bandeirantes. Eles vieram com armas e ganância, trazendo guerra e destruição. Tribos inteiras foram massacradas. Da morte, restaram os sobreviventes. E aos sobreviventes, vieram os padres jesuítas. Não traziam espadas, mas palavras e cruzes. Queriam ensinar um “Deus civilizado” e apagar a memória viva da terra. Proibiram as línguas nativas, os cantos sagrados, os rituais do Toré. A fé dos antigos teria de ser escondida.


Mesmo perseguidos, os indígenas não esqueceram suas raízes. Em segredo, refugiavam-se na mata. No alto da colina, limpavam um terreiro, acendiam o silêncio e dançavam o Toré sob as bênçãos dos antepassados. Ali, cantavam, oravam, e mantinham viva a chama do Ouricuri – sua religião ancestral.


Para proteger o ritual, escolheram Maruanda, um jovem guerreiro de olhos atentos, como guardião. Sempre que o povo se reunia, era ele quem vigiava, firme, sentado sobre a pedra de um juazeiro. Sua missão era sagrada: alertar sobre qualquer aproximação dos padres.


Por muitos e muitos ciclos da lua, o Toré aconteceu sem interrupção. Maruanda jamais falhou.


Mas, em certa noite, um vento frio e suave acariciou a mata. A brisa embalou Maruanda sob a sombra generosa do juazeiro. Seus olhos se fecharam... e ele adormeceu. Foi nesse instante que os padres chegaram. Surpreenderam o povo em ritual. Maruanda foi o primeiro a ser preso. Todos os outros foram levados ao Colégio, onde sofreram castigos por desobedecer às ordens da Igreja.


Mais tarde, libertos, os anciãos reuniram o povo. Não houve ódio, apenas ensinamento. Chamaram Maruanda e disseram:


— Por teu descuido, sofremos. Mas disso faremos memória, não com rancor, mas com canto.


E, formando o círculo sagrado, deram-se as mãos e entoaram:


"Oi tinga lê lê, oi lêlê hewa há, oi vadiando Maruanda..."


No canto, a lembrança: Maruanda vadiou, dormiu, e o povo sofreu. Mas também a esperança: todo povo da Terra tem o direito de viver sua fé, sem perseguição.


Desde então, nas noites em que o Toré dança lembramos os antepassados, ainda se ouve a canção. Não como acusação, mas como ensinamento. E Maruanda, o vigilante da Terra, vive agora nos ventos da mata, sempre desperto.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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