Cosmogonia Kariri-Xocó e o Diálogo com a Matéria Escura do Universo
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre o mito de criação Kariri-Xocó, intitulado “O Carvão da Eternidade chamado Rabynhiu”, onde Sonsé, o Deus criador, sopra as cinzas sagradas de mundos extintos para formar novos universos. A partir dessa narrativa ancestral, busca-se estabelecer um diálogo com conceitos da cosmologia contemporânea, especialmente a matéria escura, que representa mais de 90% da massa do universo. A análise recorre a autores clássicos da mitologia e antropologia, como Mircea Eliade, Claude Lévi-Strauss, Ailton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro, bem como a aportes científicos sobre a estrutura cósmica.
Palavras-chave: Rabynhiu, Kariri-Xocó, cosmologia indígena, matéria escura, mitopoética.
1. Introdução
As cosmologias indígenas constituem formas singulares de compreender a origem e o funcionamento do universo, estabelecendo vínculos profundos entre o homem, a natureza e o sagrado. Este artigo propõe um estudo do mito Kariri-Xocó sobre a criação cíclica dos mundos, em que Sonsé sopra a cinza preta — Rabynhiu — para dar origem a novas estrelas e mundos. Ao mesmo tempo, pretende-se propor uma reflexão intercultural, colocando em diálogo essa narrativa com o conceito científico de matéria escura, elemento invisível, mas essencial, na formação do cosmos segundo a astrofísica contemporânea.
2. Desenvolvimento
2.1 O mito de Rabynhiu: a cinza preta do mundo
No seio da tradição Kariri-Xocó, Rabynhiu representa a cinza sagrada que resta de um mundo após o fim de seu ciclo. Sonsé, o Deus criador, recolhe essa cinza e, com seu sopro divino, reacende o fogo das estrelas, gerando um novo universo. Este mito expressa uma visão de tempo cíclico e de renovação permanente, na qual a destruição não significa fim, mas transformação. Conforme Mircea Eliade (2001), mitos cosmogônicos desempenham papel central ao situar o ser humano no cosmos, conferindo sentido à existência por meio da repetição dos atos primordiais.
2.2 A estrutura mítica e a ideia de transformação
A análise estrutural do mito de Rabynhiu, à luz de Claude Lévi-Strauss (2004), revela a oposição fundamental entre destruição e criação, mediada pela figura de Sonsé como operador de transformação. O mito também reforça o princípio do perspectivismo ameríndio, descrito por Eduardo Viveiros de Castro (2002), no qual todas as formas de existência compartilham uma essência comum, transformando-se ao longo do tempo e dos ciclos cósmicos.
2.3 A cinza preta e a matéria escura: aproximações simbólicas
Na cosmologia científica, mais de 90% do universo é composto por matéria escura e energia escura — componentes que não emitem luz, mas cuja existência é inferida a partir de seus efeitos gravitacionais (RUBIN, 1980; KRAUSS, 2012). Essa substância invisível molda a estrutura do cosmos, sendo responsável pela formação das galáxias e pela coesão do universo. Assim como Rabynhiu, a matéria escura permanece oculta, mas é imprescindível para a emergência de novos sistemas estelares.
Essa aproximação simbólica sugere que, assim como Sonsé sopra a cinza preta para criar estrelas, a matéria escura fornece a estrutura invisível que sustenta e permite a criação cósmica. A energia contida na matéria escura, embora ainda não plenamente compreendida, corresponde à força oculta que mantém o universo em constante movimento e expansão.
2.4 O diálogo intercultural: cosmologia Kariri-Xocó e ciência contemporânea
O encontro entre a narrativa mítica e a cosmologia científica não visa reduzir o mito a uma explicação científica, mas reconhecer diferentes formas de conhecimento sobre a origem do universo. Conforme Ailton Krenak (2019), os saberes indígenas oferecem outras epistemologias, fundamentais para repensar a relação entre humanidade e cosmos. A mitopoética de Rabynhiu expressa uma verdade simbólica sobre a continuidade da vida, que ressoa, de modo análogo, nas descobertas sobre a matéria escura e os ciclos cósmicos.
3. Considerações Finais
O mito de Rabynhiu evidencia a riqueza e a profundidade do pensamento cosmológico Kariri-Xocó, no qual a destruição e a criação são processos interligados, mediados pela cinza preta sagrada. O diálogo com a cosmologia contemporânea, especialmente com a ideia de matéria escura, permite estabelecer pontes simbólicas entre saberes ancestrais e científicos, ressaltando a importância de valorizar e respeitar as cosmologias indígenas.
Este estudo reforça que, embora com linguagens e métodos distintos, tanto o mito quanto a ciência procuram compreender a origem e o funcionamento do universo, evidenciando a potência da diversidade epistemológica para enriquecer nossa visão de mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno: arquétipos e repetição. São Paulo: Palas Athena, 2001.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KRAUSS, Lawrence M. A física da matéria escura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
RUBIN, Vera C. Dark Matter in the Universe. Scientific American, 1980.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
Por: Nhenety Kariri-Xocó & ChatGPT, no dia 21 de maio de 2025 e a capa do cordel no dia 22 de maio de 2025.

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