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quarta-feira, 21 de maio de 2025

PRIMEIRA REVISÃO DA PUBLICAÇÃO "O GAMELA É UMA LÍNGUA MACRO-JÊ MISTA"

 

Em Novembro do ano passado, publiquei uma lista de etimologia das palavras do Gamela de Viana, argumentando sua origem em línguas como o Akuwẽ e o Cayapó do Sul, aqui trago uma revisão de algumas etimologias, baseadas nos conhecimentos atuais, e também um comentário extra sobre a relação dessa língua com outras línguas:


tatá 'fogo' < do Tupi t-atá 'fogo'


purú 'pênis' < Possivelmente do Cayapó do Sul impu 'pênis' ou do Xavante puru 'jorrar'


sebú 'vagina' < do Cayapó do Sul inzé 'vulva' + pió 'chato', compare a evolução do Timbira haka-pó 'beiço chato' > Acobú 'endônimo Gamela'


katú-brohó 'negro' < do Timbira pro 'cinza' com extensão visarga (-hV, ou seja pro > bro > broh > broho)


katú-koyaká 'branco' < do Jê Setentrional *kə ‘pele’ + *jaka ‘branco’


Obs.: katú provavelmente do Jê Setentrional *kato ‘nascer, sair’, se não, cognato do Xerente katu-ze ‘mistura’


múisi 'genro' < do Timbira ëmpyjë 'irmão da esposa'


kokeáto 'pote' < descendente do Jê Setentrional *ŋgôj ‘panela’ + *kato ‘acender, cozinhar’


kutubé 'cabaça' < do Jê Setentrional kukon 'cabaça' + Cayapó do Sul pê 'cuia'


tamarána 'porrete' < do Tupi


kasapó 'faca' < *kəc ‘faca’ + *po ‘achatado’


yopopó 'onça' < do Cayapó do Sul iampampé/iompampé 'gato'


kokói 'macaco' < igual ao Timbira


pohoné 'cavalo' < cognato do Xavante pone ‘veado-mateiro’, com extensão visarga (-hV, assim po-ne > poh-ne > poho-né)


azutí 'gado' < do Jê Setentrional *acə-ti ‘veado mateiro’


kurëká 'galinha' < Cognato do Panará kotita 'galinha'


kyoipé 'árvore' < Possivelmente cognatos do Panará kâ 'comprido' + Cayapó do Sul pêr 'madeira'


anéno 'tabaco' < do Cayapó do Sul arena 'tabaco'


birizu 'pimenta' < do Jê Setentrional *bər-cy ‘pimenta


Notem que a revisão fez o vocabulário pender fortemente para uma origem no Cayapó do Sul, apesar de eu declarar essa origem *no* C. do Sul, creio que seja mais viável interpretarmos essas semelhanças como características de uma população em comum que divergiu em tempos primordiais, note que é um grupo de falantes cujo foi influenciado pela área de convergência local, visto que tendem a extender as codas, coisa que se assemelha diretamente ao Akuwẽ, e difere-se do Jê de Goyaz (Cayapó do Sul e o Jê Setentrional), que não extender as codas completamente, deixando-as com vogais eco fracas ao invés de vogais completas.


De certa forma, é possível argumentar que o Gamela é um relativo distante do Wakonã, infelizmente, não sobraram frases da língua Acobú para compararmos, mas temos a evidência, fora do lado lexical, de uma aplicação gramatical em ação da língua Gamela de Codó, que pode-nos dar uma pista de sua relação.


O único cacique Gamela que conhecemos por nome é o cacique Bertrotopama, cujo a primeira parte é pouco reconhecível e ainda estou em debate na minha cabeça se continuo com a etimologia que dei (comparei com o Puri dos registros de Torrezão: apérto 'lagartixa') ou se proponho outra palavra, mas o que tenho total confiança é o uso das três partículas to-pa-ma, cujo reconheci na época como uma estrutura de adjetivização cognata do Puri-Coroado to pa-ma.


Mas não somente isso, noto um padrão que remonta arcaismos Jê, pois a palavra composta katú brohó está usando da extensão de coda como uma marcação de não finitude, ou seja, traduzindo, está pegando a palavra *bró 'cinza' e criando brohó 'acinzentado, acinzentar, acinzentando', nesse contexto sendo o primeiro significado de 'acinzentado', portanto: katú brohó 'pessoa acinzentada'.




Autor da matéria: Ari Suã Kariri 




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