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terça-feira, 13 de maio de 2025

SONSÉ, DEUS O ANTIGO ANTEPASSADO






 Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do rio São Francisco, em Porto Real do Colégio, Alagoas, o tempo corria diferente. O canto dos pássaros, o sussurro das folhas e o maracá sagrado preenchiam os dias de quem ali vivia em comunhão com a mata e os saberes antigos.


Certa manhã, chegou um visitante. Era o professor Luiz Sávio, homem de fala mansa e olhos curiosos, vindo da Universidade Federal de Alagoas. Trazia no coração um respeito sincero pela cultura dos povos originários. Ao me encontrar, estendeu a mão e disse com gratidão:


— Nhenety, falei com o pajé e recebi permissão para visitar a floresta sagrada do Ouricuri, onde se encontra a aldeia ancestral. Você pode nos acompanhar?


Assenti com o coração aberto. Caminhamos juntos pelas veredas da mata. Cada passo do professor era de descoberta, e seus olhos brilhavam ao tocar com os sentidos o mundo vivo que nos rodeava. Sentiu-se conectado com algo maior, como se uma memória adormecida despertasse em sua alma.


Depois de um tempo em silêncio, ele me olhou com respeito e perguntou:


— Nhenety... o ritual do Ouricuri é um segredo?


— Sim, professor — respondi com serenidade.


Ele hesitou, mas continuou:


— E o ritual dos Kariri-Xocó... tem Cristo?


Sorri com os olhos e, com o cuidado que a tradição exige, respondi:


— Professor, é um segredo. Mas posso lhe contar o que é permitido.


Fitei o céu entre as copas das árvores e continuei:


— Sim, tem Cristo. Mas não com esse nome. O Cristo dos brancos usa roupa, tem cabelos claros, barba, nasceu entre os hebreus. Para nós, o nome de Deus é Sonsé, o que está acima do mundo, o nosso mais antigo avô. Ele é nativo. Usa pintura no corpo, tem cocal de penas coloridas, canta toré com maracá, fala nossa língua e dança com o vento da mata.


Fiz uma pausa, olhando para o professor, que escutava com o coração aberto.


— Para os brancos, Deus é branco. Para os africanos, Deus é negro. Para nós, indígenas, Deus é da floresta. É como o Sol. Ele brilha sobre todos, mas cada povo o chama por um nome diferente. É o mesmo Sol, é o mesmo Deus.


O professor se comoveu. Seus olhos estavam úmidos, e ele me abraçou com força e ternura.


— Nhenety, gratidão por compartilhar algo tão bonito. Essa visita à floresta valeu cada passo. Aprendi muito mais do que imaginava.


E assim, daquele dia em diante, tornamo-nos grandes amigos. Escrevemos juntos artigos, livros, e abrimos caminhos de diálogo entre os saberes da academia e os saberes ancestrais. Tudo isso, guiados pela luz de Sonsé, o Antigo Avô, que fala em todos os idiomas do mundo — até mesmo no silêncio da mata.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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