Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do rio São Francisco, em Porto Real do Colégio, Alagoas, o tempo corria diferente. O canto dos pássaros, o sussurro das folhas e o maracá sagrado preenchiam os dias de quem ali vivia em comunhão com a mata e os saberes antigos.
Certa manhã, chegou um visitante. Era o professor Luiz Sávio, homem de fala mansa e olhos curiosos, vindo da Universidade Federal de Alagoas. Trazia no coração um respeito sincero pela cultura dos povos originários. Ao me encontrar, estendeu a mão e disse com gratidão:
— Nhenety, falei com o pajé e recebi permissão para visitar a floresta sagrada do Ouricuri, onde se encontra a aldeia ancestral. Você pode nos acompanhar?
Assenti com o coração aberto. Caminhamos juntos pelas veredas da mata. Cada passo do professor era de descoberta, e seus olhos brilhavam ao tocar com os sentidos o mundo vivo que nos rodeava. Sentiu-se conectado com algo maior, como se uma memória adormecida despertasse em sua alma.
Depois de um tempo em silêncio, ele me olhou com respeito e perguntou:
— Nhenety... o ritual do Ouricuri é um segredo?
— Sim, professor — respondi com serenidade.
Ele hesitou, mas continuou:
— E o ritual dos Kariri-Xocó... tem Cristo?
Sorri com os olhos e, com o cuidado que a tradição exige, respondi:
— Professor, é um segredo. Mas posso lhe contar o que é permitido.
Fitei o céu entre as copas das árvores e continuei:
— Sim, tem Cristo. Mas não com esse nome. O Cristo dos brancos usa roupa, tem cabelos claros, barba, nasceu entre os hebreus. Para nós, o nome de Deus é Sonsé, o que está acima do mundo, o nosso mais antigo avô. Ele é nativo. Usa pintura no corpo, tem cocal de penas coloridas, canta toré com maracá, fala nossa língua e dança com o vento da mata.
Fiz uma pausa, olhando para o professor, que escutava com o coração aberto.
— Para os brancos, Deus é branco. Para os africanos, Deus é negro. Para nós, indígenas, Deus é da floresta. É como o Sol. Ele brilha sobre todos, mas cada povo o chama por um nome diferente. É o mesmo Sol, é o mesmo Deus.
O professor se comoveu. Seus olhos estavam úmidos, e ele me abraçou com força e ternura.
— Nhenety, gratidão por compartilhar algo tão bonito. Essa visita à floresta valeu cada passo. Aprendi muito mais do que imaginava.
E assim, daquele dia em diante, tornamo-nos grandes amigos. Escrevemos juntos artigos, livros, e abrimos caminhos de diálogo entre os saberes da academia e os saberes ancestrais. Tudo isso, guiados pela luz de Sonsé, o Antigo Avô, que fala em todos os idiomas do mundo — até mesmo no silêncio da mata.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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