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quarta-feira, 14 de maio de 2025

TDZICUTÉ, A MULHER RAPOUSA

 






Naqueles tempos em que a aldeia começou a ser chamada de cidade, tudo mudou. As terras foram divididas com cercas e papéis, e nasceu Porto Real do Colégio. Os indígenas ficaram sem chão, sem proteção, e o sofrimento se espalhou feito fumaça no vento.


Dizia o velho Cacique Cícero Irecé, em conversa com o senhor Germídio, que a cidade nasceu mal-assombrada. Era como se as almas da mata e do rio tivessem se revoltado. Mas o que mais assombrava mesmo era a história de Kasturina — uma mulher indígena valente, sábia como o luar sobre o rio.


Dizem que, de tanta dor e revolta por ver sua terra sendo tomada pelos brancos, Kasturina aprendeu com os saberes indígenas a mudar de forma. Quando o sol se escondia e as primeiras estrelas nasciam, ela se transformava em raposa. Sim, uma raposa grande, de olhos de brasa e uivo que cortava a alma. Seu grito atravessava a cidade, gelando o sangue dos invasores.


As pessoas trancavam portas cedo, temendo cruzar com a fera. Muitos homens armados saíam à caça da tal raposa, mas quando pensavam estar perto, ela já havia sumido, uivando em outra rua. Era como vento entre árvores — impossível de pegar.


O senhor Germídio contava que, certa vez, um homem viu a transformação. Kasturina, de pé no terreiro, ergueu os braços à lua e sua pele virou pêlo, seu corpo virou fera. Diziam os antigos: isso aconteceu porque tomaram as terras dos índios, e a terra não aceita ser ferida sem reagir.


O tempo passou. Kasturina envelheceu. Quando partiu para o mundo dos ancestrais, a raposa nunca mais foi vista. A cidade dormiu em paz pela primeira vez. Mas os brancos aprenderam, ou fingiram aprender, a respeitar o povo da terra.


Hoje, os descendentes de Kasturina vivem em paz, numa rua que virou aldeia dentro da cidade. Mas todos sabem: essas terras têm dono. E quem ousar esquecê-lo, poderá ouvir, certa noite, um uivo distante, vindo do coração da mata...





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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