Na beira do Velho Chico, onde as águas dançam com o tempo, vivia um povo antigo que conhecia os segredos da mata, do rio e dos cantos. Entre eles, havia um homem respeitado chamado Jurumbá. Era um cortador de caniço, conhecedor da antiga arte da pescaria com jereré. Sua filha, Camãna, era conhecida por sua beleza, mas muito mais por sua leveza e graça nos passos da pescaria.
Naquela época, com o rio farto e a mata ciliar espessa, a pescaria era como uma dança sagrada. Os homens abriam o caminho entre os caniços com cuidado, e as mulheres os seguiam com seus jererés em mãos. As crianças, cheias de alegria, pisavam o chão como se tocassem um tambor com os pés. Era uma dança de peixe, de gente, de espírito.
Camãna dançava como ninguém. Quando seus pés tocavam o solo, os peixes se agitavam, fugiam do esconderijo e caíam nas redes. Os mais velhos diziam que ela tinha o dom dos antigos, que sua alma se comunicava com o rio.
A cada nova pescaria, os pescadores cantavam:
"A Camãna bonita de Jurumbá
Olé Oi Lé Dchá
A Camãna bonita pisa de novo
Bis... Bis... Bis...
A Camãna bonita vamos pisar
Bis... Bis... Bis..."
O Toré nascia ali, no ritmo dos passos, no calor do sol e na força da tradição. Homens e mulheres formavam dois círculos, pisando como se estivessem sobre o caniço, como na pescaria ancestral. Era mais que dança: era reza, era memória viva.
Com o passar dos anos, as águas do Velho Chico diminuíram, a mata rareou e a pescaria quase desapareceu. Mas o canto, o Toré de Camãna, permaneceu. Tornou-se ritual. Tornou-se lembrança. Tornou-se resistência.
Hoje, quando os pés tocam a terra e as vozes se erguem no terreiro, Camãna dança de novo. E a memória de Jurumbá e sua filha vive em cada passo, em cada batida do maracá, em cada verso cantado:
"Cá byké widobae aí by Jurumbá
Chamar irmã bonita o pé dançar
Yahé Yané Bá
Voz de homem estar afiada ficar."
Que nunca se percam os cantos do Toré. Eles são as palavras dos antigos, as raízes de um povo, o coração da floresta e do rio.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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