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quarta-feira, 14 de maio de 2025

YARA, A Mãe D’Água do Rio

 






Na beira do velho Rio São Francisco, onde as águas sussurram segredos antigos às pedras e às canoas, morava Poitébo, um pescador de fala mansa e coração atento. Não era apenas por sorte que sua tarrafa voltava sempre cheia de peixe: Poitébo sabia que, ali, por trás da correnteza e das moitas de ingá, morava Yara, a Mãe D’Água.


Os mais velhos já ensinavam: quem quer tirar do rio, tem que dar ao rio. E Poitébo aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, que pescador de verdade planta sua roça. Milho e feijão, sempre. Porque é Yara quem faz nascer a primeira safra, e ela é quem decide se o pescador vai viver da pesca ou morrer na espera.


Na primeira colheita, quando a Lua Cheia subia no céu e dourava as águas do Velho Chico, Poitébo ia ao roçado. Escolhia as espigas mais verdes, os feijões ainda tenros, e descia até a margem. Era à meia-noite que ela aparecia, surgindo da água como bruma encantada.


Yara tinha cabelos como as ondas do rio, olhos fundamente tristes e sábios. Sentava-se na beira, comia o milho cru e o feijão verde com a serenidade de quem conhece todos os tempos. Poitébo respeitoso pedia:

— Minha Mãe D’Água, abençoe minha pesca.


Ela nada respondia, apenas olhava. Mas, dali em diante, nenhum anzol voltava vazio, nenhuma rede falhava.


Em tempos de escassez, Poitébo voltava ao rio com fé. Yara vinha nos sonhos e ensinava. Mandava cortar um galho de ingázeira, fincar na água, colocar mandioca nas moitas. “Manjuba”, ela sussurrava. Era isca viva, e logo os peixes vinham em cardumes, atraídos pela arte que só os iniciados conhecem.


As histórias de Yara correm pelo rio, cada comunidade tem a sua. Uns a viram criança, outros mulher encantada. Todos os velhos têm um caso, um segredo, um pacto. E Poitébo, agora ancião, repete aos netos:

— Se quiser pescar com fartura, trate bem a roça e agrade a Mãe do Rio.

E os meninos escutam, olhos brilhando, enquanto o vento sopra as águas e Yara, invisível, continua cuidando de quem respeita o rio.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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