Páginas

domingo, 22 de junho de 2025

AREANTOÁ TIPUÁDY, Os Santos de Festas






Na aldeia do Opará Baixo São Francisco, os tempos se dividiam entre o correr das águas e o pulsar das rezas. Dizem os mais antigos que foi em 1661 que os jesuítas chegaram trazendo cruzes, hinos e imagens. Ao redor de uma pequena capela de Nossa Senhora da Conceição, fundaram a Missão do Colégio, e com ela semearam novas datas no coração do povo.


Desde então, o calendário da aldeia passou a dançar entre o sagrado ancestral e o sagrado trazido. Cada data se entrelaçou com a vida e o toré, com os cantos e a fé, fazendo das festas não só devoção, mas também resistência.


Todo 8 de dezembro, a comunidade se enfeita em azul e branco para celebrar Nossa Senhora da Conceição. As novenas começam dia 29 de novembro, e o povo caminha em procissão, com velas acesas, promessas feitas e o coração aberto ao sagrado. O Parque de Diversões de Jorginho chega e a praça se ilumina, virando tradição que mistura brinquedo e oração.


Em fevereiro, o último domingo é do Bom Jesus dos Navegantes. As águas do Velho Chico brilham com barcos enfeitados e rezas que ecoam entre margens e memórias. É festa de pedir proteção nas travessias da vida.


No dia 19 de março, o fogo de São José é aceso. Os mais velhos dizem que o milho cresce melhor depois da fumaça. É dia de plantar fé na terra: milho, feijão e esperança. A fogueira crepita como batida de tambor que conversa com o céu.


E chega junho, mês de santos e fogueiras. Dia 13 é de Santo Antônio. O povo se reúne no terreiro com toré, arroz doce e danças de roda. As cantigas ecoam como bênçãos passadas de geração em geração.


Depois, vem São João, dias 23 e 24. A aldeia se cobre de luz, bandeirinhas e cheiro de milho assado. O forró embala os passos dos mais jovens, enquanto os mais velhos contam histórias ao redor da fogueira. No meio da festa, o toré continua, firme como raiz antiga.


Por fim, São Pedro, no dia 29 de junho, fecha o ciclo das festas juninas com mais fogueira, cantos e alegria. É o tempo de agradecer pelos frutos que começam a brotar, e pelo tempo que não se esquece de voltar.


Em agosto, no dia 16, São Roque chega como padroeiro de Porto Real do Colégio. O povoado inteiro se junta em romaria e missa, misturando cidade e aldeia, fé e lembrança.


E quando dezembro vai terminando, o Natal chega com luzes, ceia e orações. É tempo de refletir e acolher, não só na aldeia, mas no mundo inteiro.


Assim seguem os dias no Opará Baixo São Francisco. Entre um santo e outro, entre uma fogueira e uma dança, o povo Kariri-Xocó segue firme, guardando com alegria e reverência a história que é sua – feita de fé, de festa e de memória.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



Nenhum comentário:

Postar um comentário