O sol nascia por trás das serras quando o velho Kariri olhou, mais uma vez, o Rio Opará. A bruma ainda cobria parte da água, como se os espíritos antigos ali descansassem, protegendo aquele caminho que desde sempre unia os povos à vida. Ele caminhava devagar pela trilha de terra batida, que serpenteava entre cajueiros e a mata baixa. Seus pés sabiam o caminho sem que os olhos precisassem ver.
— Eyemé... — sussurrou ele, lembrando-se das primeiras embarcações de madeira, quando menino, via os carros descerem pela rampa, os cavalos assustados com o balanço do rio, as pessoas rindo nervosas ao entrar na balsa que os levaria até Propriá.
A balsa era mais que transporte. Era encontro. Era vida cruzando as águas.
Quando o Brasil já se dizia República e a estrada de terra cortava o sertão entre Alagoas e Sergipe, o povo de Porto Real do Colégio seguia até a beira do São Francisco para atravessar o rio. Primeiro eram carroças, depois automóveis, e por fim caminhões pesados que começaram a chegar no final dos anos 1960, quando a BR-101 abria seu caminho de norte a sul do país. Foi então que surgiu a Eyemé Merata, a Balsa de Ferro, nome dado pelos indígenas que viam naquela embarcação um novo tempo de travessias.
A balsa rugia com o peso dos caminhões e das máquinas de terraplanagem, mas seguia firme, de um lado ao outro. O Porto das Balsas virou um lugar de movimento e de festa. Ambulantes vendiam pamonhas, beiju, peixe frito e garapa aos caminhoneiros. Havia um grande palhoção onde, à noite, o povo dançava forró, bebia, contava causos e viajava sem sair do lugar.
— Um tempo bonito, sim... — dizia o velho Kariri, com o olhar perdido entre o vai-e-vem das lembranças.
Não era só a Eyemé Merata que cruzava o Opará. Também havia o Ferry-Boat, enorme embarcação que levava até o trem para o outro lado, como se o progresso tivesse pressa e força para carregar tudo.
Mas o progresso tinha também data marcada. Em 5 de dezembro de 1972, foi inaugurada a grande ponte sobre o Rio São Francisco. Com ela, a Eyemé Merata silenciou, o Porto das Balsas foi se esvaziando, e o palhoção ficou mudo. A festa cessou, e as histórias começaram a morar apenas na memória dos que viveram aquele tempo.
Hoje, quem passa pela ponte não imagina a vida que pulsava ali. Mas os mais velhos ainda guardam no peito o som da água contra o casco de ferro, o cheiro da lenha queimando nas barracas, o riso solto das crianças, o balançar suave da balsa em cada travessia.
E quando o velho Kariri fecha os olhos, ele ainda escuta...
Eyemé Merata cortando as águas do grande Opará.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário