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segunda-feira, 23 de junho de 2025

BATIM PIEDI, A Pescaria de Arpão






Na beira do velho rio Opará, onde as águas corriam claras entre pedras e raízes, moravam histórias que só os mais velhos sabiam contar. Uma dessas histórias era a do Batim Piedi, o mergulho sagrado com o arpão na mão, herança antiga dos Kariri-Xocó, passada de geração em geração como um segredo debaixo d’água.


Diziam que quem pescava de batim não era apenas pescador, era parte do rio. Era preciso conhecer os redemoinhos, as sombras dos peixes e o silêncio do fundo. Era preciso coragem. E havia três nomes que ecoavam sempre que se falava dessa arte: Filinto Pirigipe, Jonas Ibá e Euclides Poité — lendas vivas da aldeia. Gente que mergulhava fundo e ficava tanto tempo lá embaixo que o rio parecia guardá-los como filhos prediletos.


Eu sou neto de Euclides. Cresci ouvindo as histórias do meu avô, vendo os peixes brilhando ao sol depois do mergulho certeiro, ouvindo o som do arpão cortando a água como trovão calado. E quando chegou a minha vez, também me lancei do alto das pedras, com o coração batendo mais forte que a correnteza.


Lembro das manhãs em que o sol ainda se espreguiçava no céu, e nós já estávamos no rio. Era uma dança: observar, prender a respiração, mirar, mergulhar… e o arpão encontrava seu caminho. O rio nos ensinava paciência, humildade, destreza.


Mas o tempo passou, e o rio mudou. As águas já não correm como antes. As barragens erguidas longe da aldeia prenderam o coração do Opará, e os peixes ficaram escassos. O silêncio agora é outro, um silêncio triste de ausência e de espera.


Ainda assim, quando olho para o rio, mesmo manso e parado, sinto a memória pulsando. Ouço o riso de meu avô, vejo Filinto sumindo sob as águas, e Jonas voltando à tona com um peixe brilhando entre os dedos. E meu coração deseja: quem sabe um dia tudo volte a ser como era antes? Quem sabe o Opará, com sua força de encantado, retome seu caminho e traga de volta a abundância e o brilho da vida?


Enquanto isso, guardo o Batim Piedi no peito como um tesouro. Não apenas como técnica, mas como lembrança viva de um povo que mergulha nas águas do tempo para resgatar sua história.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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