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segunda-feira, 23 de junho de 2025

TORÁ ROCRUTÉ – O TORÉ COM ROUPA DE PANO







Houve um tempo — não tão distante nas lembranças do vento que passa sobre o rio São Francisco — em que as noites de fogueira traziam muito mais que calor. Elas traziam história. Histórias que dançavam no compasso dos maracás, no giro das crianças, na firmeza dos passos dos mais velhos.


Ali, sob o céu estrelado da aldeia Kariri-Xocó, vivia-se o Torá Rocruté — o Toré com roupa de pano.

Mas nem sempre foi assim.


Na memória dos mais antigos ainda ecoa o tempo em que os cocares, as tangas, os colares e a pintura corporal — símbolos vivos da alma nativa — eram vistos como pecado pelos homens de batina. Os jesuítas diziam que os cantos em língua ancestral eram feitiço, que os passos da dança eram heresia, que a beleza indígena era gentílica e, por isso, deveria ser escondida.


Para sobreviver, muitos esconderam suas cores e seus cantos, suas penas e seus sonhos.


O Toré não morreu. Apenas trocou de veste.


Veio o Cruté, o pano. Vieram as Rocruté Caraí, as roupas de pano dos brancos. E com elas nasceu uma nova forma de resistência. Os anciãos passaram a chamar esse novo modo de vestir de Rocruté — a roupa trazida pelos colonizadores. Assim, envolto em pano alheio, nasceu o Torá Rocruté.


Nas noites de Santo Antônio, São João e São Pedro, as fogueiras se acendiam, e a escola da aldeia se tornava o terreiro sagrado. Os mais velhos chamavam:


— Venham, filhos da memória! Hoje é noite de Toré!


E vinham todos — crianças, jovens e anciãos — com roupas simples: vestidos, camisas, chinelos ou pés descalços. Dançavam ao redor da fogueira com os olhos brilhando e os corações acesos. A noite inteira era de dança, canto, abraço e saudade.


Quando o dia amanhecia, o Toré não parava. Saía da escola em fila, como um rio de alegria que passava por todas as casas da aldeia, levando bênção e lembrança.


O Toré Rocruté fez-se tradição. Porque, mesmo vestido com pano alheio, guardava por dentro aquilo que nenhum sistema colonial conseguiu apagar: a alma de um povo.


A dança era o corpo contando o que os livros da escola esqueciam.

O canto era a língua ressoando a dor e a beleza dos antigos.

O maracá era o coração pulsando no tempo.


Ainda hoje, quando o fogo se acende e o Toré começa, sente-se que ali não há apenas dança.

Há presença.

Há resistência.

Há história.

E cada passo dado com roupa de pano é um grito silencioso que atravessa o tempo:

— Estamos aqui. E sempre estaremos.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó





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