Na beira da mata, onde o silêncio é quebrado apenas pelo canto dos pássaros e o farfalhar das folhas secas, vivia um povo de sabedoria ancestral. Entre os Kariri-Xocó, havia um jovem caçador chamado Arumã. Desde cedo, aprendera com os mais velhos a arte de caçar o Uaplu, o bicho do mato, seja no cerrado, na caatinga ou nas matas espessas da serra. Usava com maestria o seredzé yaru — seu arco e flecha —, a zarabatana silenciosa, a borduna certeira e armadilhas feitas com galhos e cipós.
A caçada era mais que sustento. Era parte do viver, do ensinar, do sonhar.
Mas tudo mudou num tempo em que os ventos do sertão sopraram diferentes. Vieram homens de outras terras, com palavras estranhas e ferramentas de ferro. E entre suas novidades, trouxeram um ser que despertou curiosidade e encanto: o cão de caça.
— “Bucú Uaplu!” — assim foi chamado pelos anciãos da aldeia, que observaram sua habilidade de seguir pegadas, de sentir o cheiro da caça mesmo a léguas de distância. Logo, o cão tornou-se irmão do mato, adotado por todos como parte da comunidade.
Arumã e seu Bucú tornaram-se inseparáveis. O cão, de faro afiado, corria à frente do grupo, guiando os passos do caçador até o esconderijo do veado, da paca, do tatú ou do esquivo teiú. Era como se os espíritos da floresta sussurrassem aos seus ouvidos peludos.
Mas não era só na caçada que Bucú se mostrava valente. À noite, quando o silêncio reinava e a aldeia dormia sob o véu das estrelas, era ele quem latia primeiro, avisando se algo ou alguém rondava os caminhos sagrados do povo. Seu latido não era de medo. Era de aviso, de coragem, de amor ao território que agora também era seu.
O tempo passou, e em cada canto da aldeia, havia sempre um cão. Não mais como um estranho, mas como guardião da memória, como companheiro de caçadas, como defensor dos sonhos do povo.
Bucú Uaplu não era apenas um animal. Era um elo entre dois mundos: o da tradição e o da mudança. E em cada aldeia, em cada cultura nativa, em cada povo originário, sua presença continua sendo um sinal de que a vida em comunidade é mais forte quando se caminha — e se caça — juntos.
Autor: Nhenety KX

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