Páginas

terça-feira, 24 de junho de 2025

UCHÉ IBÁPOHDUÁ, O Tempo dos Automóveis






Naquela manhã quente de 1935, os ventos que sopravam da margem do rio São Francisco trouxeram consigo algo jamais visto por olhos Kariri-Xocó. Um barulho estranho, como um trovão enjaulado, ecoou na estrada de barro vermelho. As crianças correram, assustadas e curiosas, os velhos se levantaram de seus tamboretes de sombra, e os jovens guerreiros apertaram os olhos para enxergar melhor o que se aproximava.


Era um carro. Um automóvel com olhos que brilhavam como fogo em sua frente. "Ibápohdu!", gritou uma anciã — e assim foi batizado: "Carro Olho de Fogo". Era o veículo de Carlos Estevão, um homem branco que viera estudar os nativos da região, sem saber que traria também um novo tempo à aldeia.


Os anos passaram como passam os ventos pelas palmeiras. A cidade de Colégio cresceu, e com ela, os automóveis multiplicaram-se. Já não eram mais raridade; cortavam as ruas com seus motores roncando, seus pneus mastigando o barro. Mas o coração da aldeia ainda pulsava num ritmo mais antigo, até que o novo tempo chegasse de vez.


Foi em 1971, com o ronco de uma Willys azul e branca, que o Uché Ibápohduá, o "Tempo dos Automóveis", se instaurou de verdade entre os Kariri-Xocó. O condutor da mudança era Francisco Sampaio, da família Pahankó — o primeiro indígena da aldeia a possuir um carro. Sua Ford Rural Willys de 1967 virou símbolo, festa e encantamento.


O povo inteiro veio ver a máquina. Alguns encostavam nela com reverência, outros pediam para andar, como se fosse um bicho mágico, um cavalo de aço domesticado pelo espírito do tempo moderno. A Rua dos Índios, até então palco de passos descalços e conversas sob a lua, agora tinha um novo visitante: o automóvel.


Nos anos de 1990, a aldeia já contava com muitos deles. Carros de todas as cores, marcas e tamanhos. Alguns levavam famílias para a feira, outros conduziam curandeiros à floresta sagrada do Ouricuri, a seis quilômetros dali. O caminho que antes era feito em dias, agora era vencido em minutos.


Hoje, com mais de 3.750 habitantes e cerca de 1.200 famílias, a aldeia Kariri-Xocó respira tradição e modernidade. Quase toda casa tem ao menos um carro, mas cada motor que ronca nas estradas da aldeia carrega em sua lataria o eco daquele primeiro "Ibápohdu" — o carro com olhos de fogo.


E foi assim que começou o novo capítulo da aldeia. Não com o apagar das tradições, mas com o entrelaçar dos tempos. O Uché Ibápohduá não apagou o passado — apenas o carregou no banco de trás, como quem leva um velho sábio para ensinar os caminhos que ainda estão por vir.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







Nenhum comentário:

Postar um comentário