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sexta-feira, 20 de junho de 2025

IDIBUNHÁ, O Coração de Barro






Conto inspirado na memória da olaria dos Kariri-Xocó



Na vastidão quente das margens do Rio São Francisco, o bunhá, o barro, tinha alma. Os mais velhos contavam que, muito antes das máquinas e do cimento, o barro era o idi — o coração da terra. Pulsava nas mãos de quem o moldava, respirava nos fornos que iluminavam as noites da aldeia.


Tudo começou há muito tempo, quando os portugueses chegaram com seus modos de levantar cidades e erguê-las ao ritmo de cal, pedra, madeira e telha. Entre tantos saberes estrangeiros, um se misturou ao espírito dos nativos: o serviço da olaria. Nas sombras da Capela e do Colégio de pedra da Missão de Nossa Senhora da Conceição, os jesuítas ensinaram aos Kariri-Xocó o segredo de transformar terra em abrigo, barro em teto.


Mesmo após os jesuítas partirem, por volta do século XVIII, a chama da olaria não se apagou. O barro seguiu vivo, entre as mãos firmes dos indígenas que, mesmo sem suas terras, sustentavam suas famílias fabricando tijolos e telhas para os brancos. Era o barro que lhes dava o pão. Era o barro que contava sua resistência.





Em 1978, quando os Kariri-Xocó retornaram à terra da Fazenda Modelo, na beira da Lagoa Comprida, uma nova era de barro começou. A aldeia não apenas reergueu suas raízes, como reacendeu os fornos. Ali, com suor, técnica ancestral e orgulho, surgiu a maior olaria do Baixo São Francisco. Por volta de 1981, o barro queimava forte: duzentos mil tijolos por dia brotavam como filhos do forno, vermelhos, vivos, úteis. Também foi nesse período que confeccionamos os tijolos para erguer nossa Nova Aldeia Kariri-Xocó para a construção das 110 casas e outras posteriores. 


A olaria era mais que trabalho — era história moldada, canto de resistência. Mas como as águas do Velho Chico que nunca param, o tempo também correu. Em 1996, surgiram as indústrias cerâmicas mecanizadas. O barulho das máquinas foi engolindo o som da pá e do molde de madeira. Aos poucos, a olaria silenciou.


Mas ali, entre os rastros das chamas antigas e os vestígios de barro endurecido, vive a memória de um povo. Uma tradição que chegou com os colonizadores, mas foi abraçada, moldada e eternizada pelos Kariri-Xocó. Porque o bunhá — ah, o barro! — ainda pulsa nos cantos da aldeia, lembrando que aquilo que se faz com as mãos também se faz com o idi, o coração.





Autor: Nhenety KX 



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