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sexta-feira, 20 de junho de 2025

MYDZÉ DZURIÓ, A Pescaria na Lagoa






Nas margens do grande Opará, onde as terras respiram fartura e se inundam com as bênçãos das águas, há lugares sagrados que os Kariri Dzubukuá chamam de dzurió — as lagoas, berçários do rio, onde os peixes nascem, crescem e engordam em silêncio.


Era janeiro. As chuvas caíam generosas, e os afluentes traziam a vida que corria como veias para alimentar o grande corpo do rio. Aos poucos, as lagoas enchiam, recebendo cardumes de pequenos peixes que ali ficavam para crescer sob a proteção dos aguapés em flor, com suas pétalas brancas flutuando como orações sobre a superfície.


Na aldeia Kariri-Xocó, todos já sabiam: era tempo de cuidar e esperar.


Os mais velhos olhavam o céu e os rastros da água com sabedoria ancestral. “O rio ainda vai subir”, diziam. Os jovens aprendiam com os anciãos a paciência da pesca e os nomes dos peixes: piau, crumatá, mandim, traíra, lambiá, sarapó, piranha... Cada um com seu jeito de nadar, com sua história na água.


Com o passar dos meses, o Opará começava a baixar. Era novembro. O sol voltava a brilhar mais forte, e os caminhos antes cobertos por correntezas agora revelavam margens de barro e lama. As lagoas, porém, ainda guardavam seus segredos.


Era hora.


A comunidade se reunia com alegria: era o tempo da grande pescaria.


Cada família levava consigo o que tinha: tarrafas, cuvus, anzóis, redes de malha, jererés, puçás... Os instrumentos eram muitos, mas o espírito era um só — o da partilha, da tradição e da fartura. As mulheres corriam pelos barrancos, os cantos ecoavam no ar, e o som das águas sendo cortadas pelos puçás fazia parte da melodia da vida.


As lagoas — Comprida, Grande, Coité, Itiúba, Capim, Sampaio — todas tinham nomes e histórias. Algumas diziam que eram habitadas por encantos. Outras guardavam memórias de pescarias antigas, quando os peixes pulavam quase que sozinhos nas canoas.


Hoje, porém, nem tudo é como antes.


As grandes hidrelétricas represaram o Opará, e as enchentes naturais tornaram-se mais raras. As lagoas, por vezes, secam antes do tempo, e o povo sente falta das águas que corriam livres.


Mas, como dizia o velho pajé Djumaré:

"Quando Deus quer, não há barragem que segure a força da enxurrada."


E assim, a esperança permanece viva. Quando as águas vencem os muros de concreto, quando as chuvas vêm como bênçãos do céu, o povo Kariri-Xocó retorna às lagoas — redes nas mãos, cantos na boca, e fé no coração.


Porque enquanto houver água e memória, haverá pescaria.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Título: Mydzé Dzurió – A Pescaria na Lagoa




Autor: Nhenety KX 



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