Na beira da aldeia, quando a lua ainda caminhava devagar no céu e a terra soltava o cheiro da madrugada, o velho Tupanã já afia o cabo da enxada com uma pedra de rio. Era tempo de plantar. Os mais velhos diziam que a terra sussurra quando está pronta. E naquele ano, o Bechié, o roçado sagrado do povo Kariri-Xocó, estava vibrando em silêncio, pedindo o uahí – a lavoura.
Na manhã seguinte, os passos dos homens abriram caminhos na terra. Entre eles, Tupanã e seu neto Piragibe, que, com os olhos acesos de curiosidade, via pela primeira vez o ritual do plantio. As mulheres seguiam atrás, com as saias roçando o mato e as mãos firmes segurando as sementes do geɲe, o feijão que alimenta corpo e espírito. No ombro, levavam cabaças d’água e, sob a sombra generosa do juazeiro, acendiam o fogo, tiravam o cachimbo pawí e sopravam memórias no vento.
— Primeiro cava com o tasí, Piragibe — dizia Tupanã, enterrando a enxada como quem pede licença à terra. — Depois a mulher vem e planta. É assim que o mundo começa de novo.
O tempo passou, o sol correu e a chuva respondeu ao chamado da terra. Quando julho chegou, trazendo o cheiro de folhas secas e céu limpo, foi hora de colher. Tupanã, como manda o costume, chamou toda a família. O mutirão formou-se com passos, cantos e risos. A mulher de Tupanã, dona Iacira, preparava comida no mesmo juazeiro onde meses antes se fumava o cachimbo.
No terreiro arredondado, diante da roça, os feijões arrancados formavam pequenos montes. Ali, ao sol por três dias, os grãos secavam sob vigília das crianças que brincavam ao redor. E então, finalmente, chegou o dia do Pogeƞebe — bater colher feijão.
Os homens, com cacetes de madeira, começaram a bater as ramas secas. A cada pancada, a vagem se abria como uma boca de segredo, libertando as sementes que saltavam aos montes. Era como se o som ecoasse a voz dos antigos, ensinando a cada batida que o alimento é um dom, mas também é suor, comunidade e partilha.
Quando o sol beijou a linha do horizonte, os cestos já estavam cheios. Quem ajudou ganhou um punhado, sinal de gratidão. O restante foi ensacado com cuidado. No dia seguinte, a carroça puxada por burros seguia caminho rumo à casa de Tupanã, levando não apenas alimento, mas o fruto de um ciclo de tradição.
Alguns sacos seriam vendidos no comércio, mas a maior parte ficaria com a família. Era dali que viriam os pratos de sustança, as histórias ao redor do fogo, e os grãos que voltariam à terra no ano seguinte.
Assim, de geração em geração, o povo Kariri-Xocó mantém vivo o Pogeƞebe — não apenas como trabalho, mas como celebração do modo de viver.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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