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sábado, 21 de junho de 2025

WIRAPARARÃ, A Usina de Cana






Havia um tempo em que a cana crescia alta e espessa nas terras do Sul de Alagoas, embalando com seu cheiro adocicado as manhãs quentes e silenciosas. Mas antes mesmo das grandes usinas e dos apitos metálicos, havia o wirapararã — o engenhoca, um aparelho rudimentar que os antigos Kariri chamavam de “engenho”. Seu som era grave, compassado, como se a terra falasse por entre as moendas.


Naqueles dias antigos, a cana-de-açúcar era mais que um plantio; era um modo de vida imposto pelos colonizadores desde os tempos da Capitania de Pernambuco. Com o tempo, os antigos engenhos foram crescendo, tomando nova forma, novas máquinas, novos donos — até que o velho wirapararã virou o que hoje chamam de usina.


Décadas se passaram. A história da cana-de-açúcar no Brasil seguiu seu curso, atravessando impérios e repúblicas. Mas ali, nas terras dos Kariri-Xocó, essa história teve um outro sabor. Era a década de 1960 quando o verde da cana tomou conta dos campos de Alagoas. Sem muitas opções de trabalho dentro da aldeia, muitos indígenas deixaram os seus para se embrenhar nos canaviais.


Na década seguinte, os caminhões conhecidos como gaiolões se tornaram comuns. Tinham grades nas laterais e levavam os trabalhadores pelas estradas de terra ainda escuras antes do amanhecer. Os homens — e algumas mulheres também — subiam com os olhos cansados e as mãos já calejadas, prontos para cavar sucos e cortar cana. Partiam na segunda-feira e só voltavam na sexta. Eram os boias frias, nome bonito para um cotidiano duro.


Trabalhavam o dia inteiro sob o sol, com as mãos cortadas pelo facão e a alma sustentada pela esperança de voltar pra casa com algo para os filhos. Recebiam pouco. E às vezes, nada. Porque o barracão da usina — uma casinha onde se vendiam alimentos, ferramentas e dívidas — engolia o pouco que ganhavam.


Mas mesmo com a dureza, havia força. Mesmo com a injustiça, havia dignidade. Os Kariri-Xocó enfrentaram mais essa fase da história como enfrentaram tantas outras: juntos. A terra, o suor e a memória firmaram-se como herança para os que viriam depois.


Hoje, o som do wirapararã se foi, substituído pelo silêncio das lembranças e pelas palavras que resistem. Este é o nosso registro. Que ele ecoe nas gerações futuras como um chamado à memória e à luta.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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