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sexta-feira, 20 de junho de 2025

UO AIBY NHENETÍ, O Caminho de Tradição






Nos tempos antigos, antes que os navios cruzassem o mar e trouxessem consigo a cruz e o ferro, existia, entre as árvores e os cantos do Opará, a aldeia sagrada de Natiá. Lá, os Kariri Dzubukuá dançavam com os pés na terra e os olhos no céu, entoando cantos que os velhos aprendiam com os espíritos e repassavam aos mais novos nas noites de lua cheia.


Natiá era mais que uma aldeia — era um coração pulsando no ventre da floresta. Seus caminhos se entrelaçavam com os passos dos encantos, seus fogos guardavam as histórias dos primeiros tempos. Em cada árvore, um ensinamento. Em cada pedra, uma memória.


Mas os ventos mudaram. Vieram os homens de além-mar com suas roupas escuras e vozes em línguas cortantes. Trouxeram livros, igrejas e escolas. Com eles, vieram os jesuítas, que conduziram os Kariri para o que chamaram de Missão do Colégio. Ali, fundaram uma nova aldeia: Natiacró, “a cidade de pedra”.


As casas foram construídas com blocos frios, alinhadas como se o espírito tivesse sido esquecido entre as frestas. Tudo era controlado, contado, medido. As rezas eram outras, e os cânticos dos pajés silenciados por sinos de ferro.


Mas o espírito Kariri é raiz funda e não morre.


À noite, quando o silêncio da missão repousava, os passos voltavam a ecoar pela mata. Homens, mulheres e crianças saíam em segredo de Natiacró, cruzando o velho caminho. Esse caminho era Uo Aiby Nhenetí, o Caminho da Tradição. Um trilho ancestral que unia o presente colonizado à memória viva dos encantos de Natiá.


Era um caminho estreito, de terra vermelha e alma antiga. As ladeiras lembravam as dificuldades de manter viva a cultura. As curvas, as surpresas e armadilhas do mundo dos brancos. As pedras, os obstáculos da luta cotidiana. Mas cada passo era também um reencontro com os avós, com os cantos antigos, com os rituais que o tempo não levou.


Em Natiá, os Kariri dançavam como antigamente. Os maracás cantavam novamente. Os rituais floresciam sob o céu estrelado. E antes do sol nascer, retornavam à aldeia urbana como se tivessem apenas sonhado. Mas era um sonho real, feito de verdade e resistência.


Muitas gerações passaram por esse caminho. Cada pegada deixada ali é uma lembrança de que somos feitos de resistência, de retorno, de memória.


Hoje, mesmo com a cidade de pedra ao redor, o povo Kariri-Xocó continua a trilhar o Uo Aiby Nhenetí. Pois enquanto houver caminho, haverá tradição. E enquanto houver tradição, haverá vida.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






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