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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

KAYÁUCHÉ BATTI – O TEMPO QUE CAMINHA COM A LUA






Inamarú aprendeu cedo que o tempo não se conta com números, mas com sinais. Foi Inamarú, o mais velho da aldeia, quem lhe ensinou a ouvir o céu e a terra, a perceber quando a lua fala e quando o rio responde. Sentados à beira do Opará, sob o canto distante das cigarras, o velho iniciou mais uma vez o ensinamento do Kayáuché Batti, o Calendário do Tempo Lunar do povo Kariri-Xocó.


— Escuta, Tanoãny, disse Inamarú, apontando para o céu ainda pálido. — Nosso Radda Uanie, o Mundo Indígena, não nasce dos meses do homem branco. Ele nasce da lua, do vento, da chuva e do alimento.


Na Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, o povo se reúne. É tempo do Akryte, o caju maduro, e dos Tidzebæ, os relâmpagos que riscam o céu como mensagens dos antepassados. Inamarú lembrava-se das danças, do cheiro da mata e do silêncio respeitoso antes do ritual.


Quando chega a Mydzé Kayaku, a Lua dos Peixes, o rio se agita. É a piracema, a subida dos peixes, e também o tempo do Buruhúá, quando as mãos dos artesãos trabalham sem descanso. Inamarú sorria ao ver Tanoãny observando as redes sendo lançadas e os cestos sendo trançados.


Na Uanhí Kayaku, a Lua da Lavoura, a terra é aberta com cuidado. Planta-se Masiche, o milho, e Ghinhé, o feijão. Já na Içá Kayaku, a Lua das Tanajuras, as formigas alçam voo para formar novos mundos sob a terra, ensinando que recomeçar é parte da vida.


A Siné Kayaku, a Lua Escura, traz respeito e atenção. As cobras aparecem, e com elas o aviso de que mudanças caminham. Logo depois vem a Dzó Kayaku, a Lua da Chuva. O som das Dzóá cai sobre a aldeia, e o milho verde alimenta corpos e histórias.


Na Curuté Kayaku, Lua da Colheita, o milho e o feijão secaram. É tempo de colher, comer e trocar. A Cunhí Kayaku, Lua do Frio, cobre a terra de neblina e prepara o solo para descansar sob o sol que retorna.

Quando o calor chega com a Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, inicia-se o Naté Ruñohú, o trabalho cerâmico. As mãos moldam o barro, como os antigos ensinaram. Na Puruá Kayaku, Lua das Flores, os ventos correm livres e as Cattiá, as abelhas, fazem o mel entre as árvores em flor.


Na Bunhawí Kayaku, a Lua da Cerâmica, na Ubacródzu, a Canoa do Porto, os potes e panelas são queimados no fogo certo, prontos para ganhar o mundo. Por fim, chega a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. O Opará sobe, trazendo força e lembrança, fechando o ciclo do tempo.


Inamarú silenciou. Tanoãny olhou para o céu e compreendeu: o tempo não termina, apenas se transforma. Enquanto houver lua, rio e palavra, o Kayáuché Batti continuará caminhando com o povo Kariri-Xocó.


E assim, o ensinamento seguiu, de ouvido a ouvido, de geração a geração.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 








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