Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.
— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?
Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.
— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.
E então começava a história.
No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.
— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água.
Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.
Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.
Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.
— Depois vieram os colonizadores.
As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.
A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.
Sãbuá apertava a terra com os dedos.
— E nós, vovô?
Teipó sorriu com tristeza e firmeza.
— Nós resistimos.
Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.
Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.
Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.
O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande".
— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.
Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:
algumas águas correm no rio,
outras correm na memória.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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