Páginas

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Reis e Rainhas da Natureza – Volume 4 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📘 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Reis e Rainhas da Natureza

Volume 4 – Coletânea

Autor: Nhenety Kariri-Xocó





📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Todos os direitos reservados ao autor.

Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida sem autorização prévia do autor.

Obra registrada e protegida pelas leis brasileiras de direitos autorais.





📘 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Reis e Rainhas da Natureza – Volume 4


Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó – Porto Real do Colégio – AL

Edição Independente

Ano: 2025





📘 FICHA CATALOGRAFICA (MODELO TÉCNICO)



Kariri-Xocó, Nhenety.

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó: Os Reis e Rainhas da Natureza – Volume 4 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – Edição Independente, 2025.


Fábulas indígenas.


Literatura Kariri-Xocó.


Saberes ancestrais.


Mitologia indígena.


Cultura tradicional brasileira.


CDU: 398.2

CDD: 398





📘 DEDICATÓRIA



Dedico este livro aos meus ancestrais Kariri-Xocó,

que caminham comigo na força dos ventos,

no brilho das águas

e no coração vivo da floresta.


Dedico também às crianças de minha aldeia

e às futuras gerações que manterão acesa

a chama dos saberes antigos.





📘 AGRADECIMENTOS



Agradeço aos meus Mestres,

aos Encantados, aos Guardiões da Floresta

e aos mais velhos que preservaram as histórias.


Agradeço ao meu Povo Kariri-Xocó

pelas raízes profundas que sustentam minha palavra.


E agradeço a você, leitor,

que abre este livro para ouvir as vozes da Natureza.





📘 EPÍGRAFE



"Quem escuta o canto da floresta descobre que toda vida é sagrada."

— Tradição Kariri-Xocó





📘 SUMÁRIO



Prefácio

Apresentação

Introdução


Fábulas ( 01 a 10 )


01. Uiraçu Kuñã Moruíra, A Grande Rainha Chefe das Aves; 


02. Xõn-naɲe, O Urubu-Rei e a Limpeza do Mundo; 


03. Inhambu-açu, A Rainha de Todos os Inhambus; 


04. Takuara Ybytyrû Tyryvu, Festa na Floresta do Chefe das Aves; 


05. Canapuguaçu, O Mero-preto Senhor da Pedra Marinha; 


06. Kerí Moretsé, A Fábula dos Guardiões da Floresta; 


07. Crutiwiró Raddacrísã, Do Circo Para a Terra Natal; 


08. Gûyrá Pûra Porang, Aves de canto bonito;


09. Guyrá Koẽ, Aves Cantoras da Aurora.


10. Guaxinim Duboheríba, O Mestre da Sobrevivência; 


Apêndices

Glossário Indígena

Dados Biográficos do Autor

Orelha do Livro





📘 PREFÁCIO



A palavra que nasce do povo é raiz, é memória e é vida.

Nesta coletânea, apresento fábulas que atravessam o tempo, levando consigo a grandeza dos seres sagrados que habitam a terra, o céu e as águas. São histórias que caminham desde nossos ancestrais até o coração de cada criança que aprende a ouvir o mundo com respeito.


Cada fábula é uma reza, cada personagem é um ensinamento, e cada moral é uma semente de sabedoria. Este livro é um convite para retornar às origens, abrir os ouvidos para a floresta e lembrar que a Natureza é o primeiro livro da humanidade.





📘 APRESENTAÇÃO



Este volume reúne dez fábulas criadas a partir do olhar Kariri-Xocó sobre a vida. Cada uma delas nasce da relação profunda entre os povos indígenas e o ambiente natural. Aqui, os animais são mais que criaturas: são mestres, reis, rainhas, guardiões, mensageiros e espíritos que ensinam a viver.


As narrativas dialogam com o pensamento ancestral, com a espiritualidade e com a cultura viva de nosso povo. São histórias criadas para ensinar, alegrar, preservar e fortalecer a memória sagrada das nações indígenas.





📘 INTRODUÇÃO



O povo Kariri-Xocó carrega consigo uma tradição de oralidade e sabedoria milenar. Este livro registra parte dessa visão do mundo, traduzida em fábulas que unem mitologia, natureza e espírito.


Cada história reflete valores como respeito, equilíbrio, solidariedade, coragem e harmonia com a terra. Ao longo das páginas, você encontrará reis e rainhas da mata, aves que cantam verdades, guardiões que protegem a vida, e animais que revelam segredos antigos.


Este é um livro para todas as idades — para quem deseja aprender, relembrar e sentir a força da ancestralidade Kariri-Xocó.





📘 FÁBULAS ( 01 A 10  ) 



01. UIRAÇU KUÑÃ MORUÍRA, A GRANDE RAINHA CHEFE DAS AVES 





A Fábula da Rainha das Aves



Na imensidão verde da Ka'a Eté – a mata verdadeira – vivia Uiraçu Kuñã Moruíra, a Grande Ave Chefe das Aves.


Seus olhos penetravam as nuvens, suas asas eram como mantos de vento, e sua voz, um eco que atravessava as montanhas.


Uiraçu não era apenas a mais poderosa ave de rapina do mundo; era a guardiã das florestas tropicais, do canto dos rios e do sussurro das folhas.


Ela observava tudo do alto: a dança das araras, o salto dos macacos, o brilho das borboletas… e também a sombra que crescia, trazida pelos homens que derrubavam árvores e queimavam a terra.


Um dia, pousada no galho mais alto de um jequitibá centenário, a Rainha das Aves chamou o vento e disse:


— Vento irmão, leve meu lamento aos ouvidos dos homens. Diga-lhes que cada árvore derrubada é um ninho destruído, cada fogo aceso é um coração de floresta que deixa de bater.


O vento partiu e soprou em muitas aldeias e cidades. A maioria dos homens ignorou, mas alguns pararam para ouvir. Eram aqueles que ainda guardavam a semente do respeito no coração. Plantaram mudas, protegeram nascentes, ensinaram às crianças que a floresta é mãe.


Uiraçu sentiu a energia dessas ações. Seu coração, antes pesado, bateu mais leve. Ela sabia que, enquanto houver quem ame e proteja a mata, a Ka'a Eté continuará viva, e o céu sempre terá espaço para o voo da Rainha das Aves.


Moral da história: Quem cuida da floresta cuida da própria vida, pois o destino da mata e do homem é o mesmo voo.





02. XÕN-NAƝE, O URUBU-REI E A LIMPEZA DO MUNDO 





Uma fábula de sabedoria ancestral



Dizem os mais velhos que, quando os homens começaram a ferir a Mãe-Terra com suas máquinas, derrubadas e fogueiras, algo terrível começou a acontecer. As florestas choravam com os troncos tombando, os rios se engasgavam com a sujeira, e o céu se tornava pesado de fumaça.


Do alto, observando tudo com seus olhos profundos, estava Xõn-naɲe, o Urubu-Rei, o Chefe de todos os urubus. Ele morava nas alturas, onde os ventos são livres, mas seu coração batia forte por tudo que vive e respira.


Vendo tanta destruição, Xõn-naɲe bateu suas grandes asas e chamou uma assembleia nos céus.


— Irmãos de penas, o mundo está doente. Os homens esqueceram o respeito pela Terra. Mortes, doenças e podridão tomam conta dos campos e cidades. É hora de voarmos em união e limparmos o mundo, como nossos ancestrais sempre fizeram.


Atenderam ao chamado:


Xõn-tsebu-iró, o Urubu-de-cabeça-preta, forte e silencioso como as noites sem lua;


Xõn-tsebu-cutçu, o Urubu-de-cabeça-vermelha, veloz como o fogo que consome a mata;


Xõn-tsebu-erã, o Urubu-de-cabeça-amarela, sábio como o sol do entardecer;


Xõn-retsé, o Urubu-da-mata, guardião dos cantos escondidos da floresta.


Juntos, planaram sobre os lugares mais esquecidos, limparam os restos deixados pela guerra dos homens contra a natureza. Mas não foi fácil. Os céus estavam cheios de máquinas voadoras que não respeitavam o caminho das aves. Ainda assim, os urubus persistiram, pois sabiam que, se não fizessem sua parte, o mundo afundaria ainda mais na sujeira e na doença.


Ao final da grande missão, Xõn-naɲe pousou no topo da montanha mais alta e, com voz firme como o trovão, falou:


— Irmãos, vocês foram corajosos. Enquanto houver urubus no céu, ainda há esperança de limpeza, de renascimento. Somos feios aos olhos dos homens, mas somos guardiões do equilíbrio.


E assim, os urubus voltaram a seus voos sagrados, silenciosos e atentos, esperando o dia em que os homens voltem a ouvir o sussurro da Terra.


Moral da fábula:


Mesmo os seres mais desprezados podem ser os grandes guardiões da vida. Quem cuida da Terra com coragem e união, mantém o mundo vivo.





03. INHAMBU-AÇU, A RAINHA DE TODOS OS INHAMBUS 





A Fábula da Maior das Inhambus 



Era uma vez, entre as matas densas, as capoeiras, os campos, o cerrado e a caatinga, um reino alado chamado Pindorama dos Inhambus. Ali viviam aves de muitas cores e cantos: o Inhambu-chintã, o Inhambu-chororó, o Inhambu-pixuna, o Inhambu-guaçu e o Inhambu-galinha. Cada uma tinha sua beleza e seu papel, mas todas reconheciam uma soberana: Inhambu-açu, a Azulona, de plumagem brilhante e porte majestoso, conhecida como a Rainha de Todos os Inhambus.


Diziam os mais velhos que Inhambu-açu não voava para longe sem antes conversar com o vento e a terra. Era ela quem guardava o equilíbrio entre o céu e o chão, pois suas patas conheciam as trilhas secretas das florestas e suas asas tocavam o sopro dos espíritos que moravam no ar.


Entre os povos nativos, acreditava-se que os inhambus eram presentes das divindades, sinais de fartura e saúde. Antigamente, na vida de caça e pesca, as aves ocupavam lugar sagrado nas refeições. Caçar um inhambu não era simples ato de fome — era parte de um ritual, pedindo licença aos espíritos para que o corpo e a alma fossem purificados.


Mas os tempos mudaram. A mata ficou mais silenciosa, e Inhambu-açu percebeu que precisava proteger seu povo. Reuniu todos os inhambus e disse:


— Meus irmãos e irmãs, nosso canto precisa viver para sempre. As caçadas sem medida podem silenciar nossas vozes. Vamos nos esconder mais fundo na floresta, e assim preservaremos nossa história.


E assim fizeram. Desde então, o canto do Inhambu-açu ecoa menos nos ouvidos dos homens, mas permanece vivo na memória e no coração dos que respeitam a terra. Hoje, para muitos, os inhambus são símbolo de tradição e lembrança da fartura de outros tempos. E a Rainha de Todos os Inhambus ainda reina, invisível para os caçadores, mas presente nos sonhos dos que conhecem a verdadeira riqueza da natureza.


Moral da fábula: A verdadeira fartura não está em tirar tudo da terra, mas em aprender a preservar o que ela nos dá.





04. TAKUARA YBYTYRÛ TYRYVU, FESTA NA FLORESTA DO CHEFE DAS AVES 





A Fábula Festa de Acasalamento do Uirapuru 



Na imensidão verde da Amazônia, morava o Uirapuru, o “músico da floresta”, pequeno no corpo, mas imenso no coração. Seu canto era tão belo que até o vento parava para escutá-lo.


Chegava o tempo do Jasyporundy, a Lua da Florada, quando as árvores se enfeitavam de flores. Logo viria o Jasypa, a Lua da Renovação, em que a vida se transformava em novos começos. Era neste período sagrado que o Uirapuru se preparava para o acasalamento e, como todo ano, anunciava a grande festa na floresta.


De todos os cantos das três Américas, aves migratórias viajavam milhares de léguas para testemunhar o canto divino. Nenhuma criatura ousava interromper, pois todos sabiam: quando o Uirapuru canta, a floresta silencia para ouvir os deuses.


Do Nordeste do Brasil vieram muitos convidados:


Jamacaí, o Corrupião, com sua plumagem dourada e apetite por lagartas;


Caburé, o pequeno corujão da mata, que guardava os segredos da noite;


Guyrá Pepyryká, o Limpa-folhas, que vasculhava o chão da mata em busca de insetos;


Guiratirica, o Galo-de-campina, trazendo no alto da cabeça um topete vermelho como brasa;


e Arara’i yobi, a Ararinha-azul, que brilhava como um pedacinho de céu.


Todos se reuniram na clareira onde o Takuara Ybytyrû Tyryvu, o Chefe das Aves, havia convocado o encontro.


— Hoje celebramos o canto que une a floresta — disse o Uirapuru, humilde, mas firme. — Nosso som é vida, e nossa vida é semear a floresta.


E assim começou o espetáculo. O Uirapuru entoou sua melodia, tão pura que parecia abrir caminhos entre as árvores. As aves se encantaram, os rios suspiraram, e até os frutos amadureceram mais rápido ao som daquela voz.


Na tradição, dizia-se que quem ouvisse o Uirapuru teria sorte e poderia realizar desejos. E, naquela noite, cada ave desejou não para si, mas para a floresta: sementes férteis, chuvas suaves, árvores altas e frutos abundantes.


Quando o último acorde ecoou, o silêncio sagrado pairou. Então o Takuara Ybytyrû Tyryvu proclamou:


— Que nunca nos esqueçamos: somos semeadores. Onde pousamos, deixamos vida. A floresta depende de nós, e nós dependemos dela.


E todas as aves, grandes e pequenas, bateram asas em concordância.


Desde então, conta-se que o canto do Uirapuru não é apenas um som, mas uma prece da floresta, lembrando que cada ser, por menor que seja, tem uma missão grandiosa no equilíbrio da vida.


📖 Moral da fábula:


Assim como o Uirapuru, cada um tem um dom que, quando partilhado, fortalece toda a comunidade. A verdadeira festa é aquela em que todos semeiam a vida.






05. CANAPUGUAÇU, O MERO-PRETO SENHOR DA PEDRA MARINHA 





A Fábula do Mero Senhor da Pedra



Há muito tempo, nas profundezas do Atlântico, vivia um peixe de tamanho colossal, com o corpo manchado como nuvens que flutuam sobre o céu. Seu nome era Canapuguaçu, e todos os habitantes do oceano sabiam: ele era o senhor das pedras, protetor das cavernas e recifes, o Epinephelus itajara, respeitado por sua força e sabedoria.


Enquanto os peixes menores nadavam apressados e inquietos, Canapuguaçu deslizava lentamente entre os corais e pedras, observando com atenção cada movimento. Sua presença inspirava respeito: os cardumes aprendiam a escolher abrigo e alimento com cuidado, pois aquele que comandava as pedras sabia onde o perigo espreitava.


Certa vez, os habitantes do mangue, nativos e pescadores, se aproximaram das águas para estudar o que viam. Eles se maravilharam com o tamanho imenso de Canapuguaçu, o peixe que parecia abraçar o oceano com seu corpo volumoso. Para os povos da floresta e do litoral, ele era símbolo de fartura e força, e ninguém se atrevia a capturá-lo sem respeito.


Um dia, uma jovem índia chamada Arani se aproximou das águas para observar o gigante. Ela sussurrou palavras antigas em tupi:


“Ô Canapuguaçu, senhor das pedras, ensina-nos a cuidar das águas que nos alimentam.”


O peixe, como se entendesse cada palavra, nadou até a borda da rocha mais alta e deixou que Arani visse seu ninho entre as pedras. Ali, ela compreendeu que a grandiosidade não está apenas no tamanho, mas no cuidado e proteção que Canapuguaçu oferecia a todos os seres do oceano.


Desde então, o mero-preto passou a ser mais do que alimento: tornou-se guia e guardião da cultura local, lembrando aos homens e mulheres que o respeito à natureza garante a fartura e a vida de todos. E assim, nas águas profundas, Canapuguaçu continua a ser o senhor das pedras, entre nuvens de água e de sabedoria, ensinando que a grandiosidade verdadeira vem do equilíbrio entre força e cuidado.





06. KERÍ MORETSÉ – A FÁBULA DOS GUARDIÕES DA FLORESTA 





Há muito tempo, bem antes dos homens caminharem pelas trilhas da terra, existia um reino profundo, verde e mágico chamado Moretsé, o Reino da Floresta. Ali, tudo era vida. Os ventos sussurravam entre as folhas, os rios cantavam canções antigas, e cada ser vivente tinha um papel sagrado.


No coração de Moretsé, viviam os Keríá, os animais da terra; os Wãmyá, os peixes dos rios; e as Ieende, as aves do céu. Cada um com um dom especial dado pela própria Mãe Natureza, chamada de Antse.


A Rainha da floresta era a poderosa Rõti, a Onça. Seu rugido fazia as árvores se curvarem, e seu olhar impunha respeito. Reinava com justiça, protegendo os mais frágeis e mantendo a harmonia.


Mas Rõti sabia que governar sozinha não bastava. Chamou então um Conselho dos Guardiões da Floresta. Vieram todos, cada um com sua virtude:


— Chorecá, a Raposa, trouxe sua astúcia e sabedoria nas decisões.


— Pocro, o Veado-do-Mato, chegou ligeiro, com olhos atentos e pés velozes.


— Kaplan, o Jabuti, andava devagar, mas pensava com profundidade e lembrava das histórias antigas.


— Bruan, a Ema, deslizava como o vento, exibindo a beleza simples da elegância.


— Granharó, o Camaleão, desaparecia aos olhos, mas observava tudo, ensinando o valor do silêncio.


— Kukryt, a Anta, forte como o tronco da gameleira, sempre insistente diante dos obstáculos.


— Kerícohé, o Gambá, cheirava mal aos inimigos, mas bom era em manter a paz por onde passava.


— Wewe, a Borboleta, voava leve entre as flores, ensinando que beleza e delicadeza também são força.


— Krêre, o Papagaio, era o mensageiro da palavra justa, voz do equilíbrio.


— Kukõj, o Macaco, subia nas alturas e descia com ideias novas, mostrando que a brincadeira pode ser sabedoria.


Juntos, decidiram que cada um protegeria a floresta à sua maneira. E assim, sem guerras nem gritos, o Reino de Moretsé se manteve vivo por gerações, em paz com a terra, o ar e a água.


Mas um dia, surgiram passos desconhecidos. O som de machados e fumaça pairou no ar. Os Guardiões se reuniram novamente. A Rainha Rõti disse:


— Só venceremos esse novo perigo se cada um usar sua virtude com coragem e união. A floresta é de todos, e todos devem lutar por ela.


E assim fizeram. Com astúcia, força, beleza, paciência e diplomacia, os animais enfrentaram os invasores. Alguns foram embora, outros aprenderam com os bichos e passaram a ouvir a voz da floresta.


Desde então, Moretsé ainda respira, pois seus guardiões nunca dormem. E se um dia você entrar no coração da mata e escutar um rugido, um canto ou um farfalhar entre os galhos, saiba: os Keríá ainda vivem lá — guardando o mundo da vida.


Moral da Fábula:


Cada ser tem sua importância. A força verdadeira nasce da união das diferenças, do respeito pela natureza e da sabedoria de viver em equilíbrio com a terra.






07. CRUTIWIRÓ RADDACRÍSÃ, DO CIRCO PARA A TERRA NATAL 





Uma Fábula de Liberdade dos Animais Silvestres



Nas vastas savanas africanas, a vida corria em paz. Povos e animais viviam em harmonia: leões rugiam sob o sol, zebras corriam como o vento, macacos brincavam entre as árvores e girafas colhiam as folhas mais altas.


Mas um dia, chegaram homens de terras distantes, trazendo redes e promessas enganosas. Muitos animais foram levados para longe, e alguns povos também sofreram. Entre esses destinos estava o Crutiwiró, o Círculo de Pano — um grande circo onde a vida era feita de luzes e aplausos, mas não de liberdade.


Ali, o leão era ensinado a saltar por arcos, a zebra a correr em círculos e o macaco a fazer piruetas para entreter o público. Eles eram admirados, mas sentiam falta do cheiro da terra molhada, do vento livre e da música natural da savana.


Com o tempo, o mundo começou a ouvir o clamor pela liberdade. Leis de proteção surgiram, e vozes se levantaram para libertar os animais cativos. Finalmente, chegou o dia em que o Crutiwiró se despediu deles, e uma longa viagem os levou de volta ao Raddacríçã — sua Terra Natal.


Quando chegaram, o sol parecia mais quente, o capim mais verde e o horizonte mais amplo. O povo os recebeu com alegria, e o vento trouxe o perfume da liberdade. O Rei Leão rugiu não para um público, mas para anunciar: “Estou em casa!”. A zebra correu sem cercas, e o macaco subiu na primeira árvore que encontrou, sentindo-se parte do céu.


Naquela noite, sob estrelas que só brilham para quem é livre, eles adormeceram com o coração cheio, certos de que a vida só é verdadeira quando vivida em harmonia com a terra que nos viu nascer.


Moral: A liberdade e a ligação com nossas origens valem mais que qualquer brilho passageiro.







08. GÛYRÁ PÛRA PORANG, AVES DE CANTO BONITO 





A Fábula das Aves de Cantos Bonitos



Conta-se que, em um tempo antigo, quando os homens ainda aprendiam a ouvir a voz da mata, os pássaros se reuniram para decidir qual seria o canto que guiaria o coração dos povos.


No alto de uma árvore de copa larga, pousou o Sabiá-laranjeira. Seu peito avermelhado brilhava ao sol, e sua voz ecoou doce e compassada:


— “Sou aquele que reza muito. Trago a melodia da esperança e da primavera. Quando canto, a terra floresce, e os homens se lembram de que o amor renasce a cada amanhecer.”


Os outros pássaros se emocionaram, pois seu canto parecia uma oração.


Logo depois, chegou o pequeno Curió, que se aproximou sem medo.


— “Sou amigo do homem, mensageiro da tradição. Minha voz é memória e sinal da natureza. Nas aldeias, sempre estive perto, lembrando aos povos que o espírito da floresta fala através de mim.”


Seu canto, breve e firme, parecia guardar segredos antigos.


Do outro lado, o Pitiguari interrompeu com sua voz insistente, repetindo como um tambor:


— “Gente-de-fora-vem! Gente-de-fora-vem!”


E completou:


— “Sou o guardião da mata. Aviso perigos, anuncio presenças. Onde estou, ninguém é pego de surpresa. Sou o vigia que não se cansa.”


Os pássaros concordaram que, sem ele, a floresta estaria vulnerável.


Quando o sol já se punha, o Azulão surgiu. Suas penas, da cor do céu profundo, fizeram silêncio entre todos.


— “Trago o vigor e a liberdade. Sou a alegria que voa e canta mesmo na prisão. Minha voz é a força que anuncia um novo começo, como o azul que desponta depois da tempestade.”


Seu canto encheu o ar de energia e esperança.


Por fim, com passos firmes e a cabeça coroada de vermelho, chegou o Cardeal-do-nordeste.


— “Sou a coragem e a bravura. Minha voz é como a de um líder que anima seu povo. Onde minha canção ecoa, o coração do guerreiro desperta.”


E sua melodia, forte e cadenciada, soou como o chamado para a luta e para a vida.


Os pássaros então perceberam que nenhum canto era maior que o outro. Cada voz trazia um dom: oração, memória, aviso, vigor e coragem. E assim decidiram:


— “A floresta será guiada por todos nós. Juntos, nossos cantos serão o coração do mundo.”


Desde então, quando o homem entra na mata e escuta a diversidade dos pássaros, aprende que cada voz carrega um ensinamento — esperança, tradição, vigilância, alegria e coragem.


E quem souber ouvir os cantos da floresta, jamais se perderá no caminho da vida.





09. GUYRÁ KOẼ, AVES CANTORAS DA AURORA 





A Fábula das Aves do Amanhecer 



No coração da floresta e dos campos do sertão, quando o sol ainda dormia atrás das serras, surgia o coro mágico das Guyrá Koẽ, as aves cantoras da aurora. Cada uma tinha um canto, uma cor, uma história, e todas se reuniam para celebrar a manhã.


O primeiro a acordar era o Bem-te-vi, chamado pelos antigos de pituã. Seu canto alegre, repetido como um eco pelo ar, lembrava os espinhos vermelhos do caroá que brotava na Caatinga. O pituã ensinava aos outros que, mesmo nas adversidades, a resistência e a beleza poderiam florescer.


Logo depois, dançando com a brisa, vinha o Papa-capim, ou Guyrá Kapîra, que cantava nas pontas do capim. Ele mostrava que a alegria também está nas coisas pequenas e simples: no balanço das folhas, na luz do sol que toca o campo e no sussurrar da natureza ao amanhecer.


O Coleirinho, ou Tuí-tuí, repetia seu canto com delicadeza, lembrando que a paciência e a atenção aos detalhes trazem harmonia à vida. Cada nota que saía de sua garganta era um lembrete de que todos os seres, grandes ou pequenos, têm um papel no mundo.


Saltitando entre galhos, aparecia o Tiziu, ou Ti’ýu, com seu canto curto e ritmado, que parecia brincar com o vento. Ele ensinava a leveza e a coragem de quem se lança ao mundo sem medo, confiando no próprio voo.


E, por fim, o Canário-da-terra, o Guirá-’ybyty, com sua plumagem dourada e olhar atento, lembrava a todos da luz do sol e da esperança. Seu canto anunciava o dia que nascia, convidando cada criatura a celebrar a vida.


Juntas, as Guyrá Koẽ formavam uma sinfonia, mostrando que o amanhecer não é apenas o nascer do sol, mas também a música, a união e a sabedoria da floresta. Cada canto guardava ensinamentos, cada cor contava histórias, e cada ave era um guardião da aurora.


E assim, cada manhã, o sertão acordava com alegria, aprendizado e respeito, pois quem ouve atentamente os cantos das Guyrá Koẽ aprende a ver o mundo com olhos de gratidão e coração aberto.






10. GUAXINIM DUBOHERÍBA, O MESTRE DA SOBREVIVÊNCIA 





A Fábula do Guaxinim e a Moça 



Na vasta floresta, havia alimento para todos: frutas suculentas, raízes saborosas, rios cheios de peixes e abrigo seguro. Animais e plantas viviam em harmonia, cada qual cumprindo seu papel no ciclo da vida.


Mas um dia, o homem chegou, trazendo consigo a destruição. Árvores tombaram, rios secaram, e muitos animais perderam seu lar. A fome e o perigo espreitavam. Muitos não resistiram... mas havia um que se destacou: o Guaxinim Duboheríba, conhecido pela astúcia e incrível capacidade de adaptação.


Na aldeia, os indígenas guardavam seus alimentos com cuidado: peixe cozido em panelas de barro tampadas, mel em cabaças, frutas sobre as paredes de taipa. Certa noite, na casa de palha e barro chamada “erá”, uma jovem chamada Namara descansava em sua rede.


De repente, ouviu um barulho vindo da cozinha.


— Quem estará mexendo nas coisas a esta hora? — pensou.


Silenciosa, levantou-se e seguiu até lá. Ao acender a pequena lamparina, surpreendeu-se: era Duboheríba, o Guaxinim, saboreando o peixe cozido que estava escondido numa panela de barro, dentro de outro vasilhame, guardado num balaio chamado “bará”.


Namara, intrigada, disse:


— Ah, então é você! Agora acredito que és mesmo um mestre da sobrevivência. Outro animal não teria a inteligência de destampar uma panela assim.


O Guaxinim, limpando o focinho, respondeu:


— Diante da destruição da floresta, aprendi a sobreviver cobrando uma “taxa” de alimentos pelos impactos ambientais.


Namara caiu na gargalhada:


— Pode ir embora, Duboheríba. Sua taxa já está paga. Mas lembre-se: foram os Caraí — os brancos — que destruíram as florestas. Nós, indígenas, não!


E o Guaxinim partiu, com o olhar esperto e o estômago cheio, deixando para trás a lição de que, mesmo nas maiores dificuldades, a inteligência é a chave para sobreviver.


Moral: Quando a natureza é ferida, até os mais astutos precisam mudar para sobreviver. Mas nunca esqueça quem realmente causou o dano.





Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





📘 APÊNDICES


APÊNDICE A – CONTEXTO CULTURAL DAS FÁBULAS KARIRI-XOCÓ


As fábulas apresentadas neste livro fazem parte de um rico universo simbólico que integra a vida tradicional dos Kariri-Xocó. Antes de serem textos escritos, elas eram memórias orais, carregadas de significados espirituais e ensinamentos práticos para a vida comunitária.

Nelas convivem:


A força do Rio São Francisco (Opará), como eixo da existência;


O papel dos animais como mensageiros do mundo espiritual;


A presença dos encantamentos, agora compreendidos também como manifestações do espírito ancestral;


A importância da ética, da coragem e da esperteza;


A relação entre o humano e as forças da natureza.


Este conjunto narrativo forma um código cultural, transmitido pelos mais velhos, que ensina não apenas a viver, mas a viver bem — com respeito, reciprocidade e equilíbrio.


Assim, cada fábula aqui registrada não é apenas um conto; é uma tradição preservada, um elo com os tempos antigos e com a espiritualidade que sustenta a vida Kariri-Xocó.


APÊNDICE B – ORIGEM E FUNÇÃO SOCIAL DAS FÁBULAS INDÍGENAS


Entre os povos originários do Brasil, as fábulas têm funções diversas:


Educar as crianças sobre perigos, condutas e valores;


Registrar ensinamentos morais através de símbolos e metáforas;


Transmitir conhecimentos ecológicos, como hábitos de animais, ciclos do tempo e comportamentos da floresta;


Reforçar identidades espirituais ligadas aos animais e seres protetores;


Criar coesão social, pois os contadores de histórias fortalecem a memória coletiva.


Nos Kariri-Xocó, esses relatos são também instrumentos de afirmação cultural e de continuidade histórica, garantindo que cada nova geração compreenda sua origem, sua luta e seu lugar no mundo.


APÊNDICE C – A IMPORTÂNCIA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS (WOROY)


O Woroy — contador de histórias — é guardião do saber antigo. Sua função é manter vivas:


A palavra que cura;


A memória que fortalece;


A história que orienta;


O espírito que protege.


O papel do Woroy não é apenas narrar; é interpretar o mundo, manter a conexão entre os ancestrais e os vivos, e transmitir o conhecimento de forma acessível, sem deixar perder a essência espiritual.


No povo Kariri-Xocó, o Woroy também é responsável por:


Ensinar as crianças através de fábulas;


Manter vivas as tradições nas rodas de histórias;


Relacionar o presente com o passado;


Preservar o idioma e o modo de pensar do povo.


Este livro honra essa função, transformando histórias ancestrais em registro cultural para o futuro.


APÊNDICE D – SIMBOLOGIA DOS ANIMAIS NAS FÁBULAS


Muitos animais aparecem nas fábulas indígenas com significados próprios. Entre os Kariri-Xocó, alguns símbolos se destacam:


1. A Onça


Representa força, autoridade espiritual e capacidade de caminhar entre mundos.


2. O Pajé-Passarinho


Simboliza a comunicação entre o visível e o invisível, entre a aldeia e o mundo sobrenatural.


3. O Jabuti


Figura da sabedoria paciente e da construção lenta, porém firme.


4. O Gavião


Guardiã do alto, vigia do tempo e mensageiro dos ventos.


5. A Cobra


Guardadora dos mistérios da terra, ligada às energias subterrâneas e ao renascimento.


Estas simbologias ajudam a compreender o que cada personagem representa dentro das histórias e reforçam a profundidade pedagógica das fábulas.


APÊNDICE E – ELEMENTOS DA ESPIRITUALIDADE KARIRI-XOCÓ NAS NARRATIVAS


Nas fábulas, aparece a presença do Espírito Ancestral, que guia e protege.

Elementos comuns incluem:


A força dos Encantes transformada em Espírito, como o senhor pediu;


O diálogo entre humanos e natureza;


A visão cíclica do tempo;


O respeito às águas, pedras, árvores e animais;


O entendimento de que tudo tem vida e dignidade.


As histórias sempre buscam ensinar que o desequilíbrio entre humanos e natureza afeta toda a comunidade — espiritual e materialmente.


APÊNDICE F – O RIO OPARÁ COMO EIXO CULTURAL E SIMBÓLICO


O Rio São Francisco (Opará) é mais que território físico: é ancestral, guia e testemunha.

Nas fábulas, ele aparece:


Como provedor;


Como caminho;


Como força espiritual;


Como memória da própria origem Kariri-Xocó.


Opará é o centro de muitas histórias e continua sendo um oráculo vivo.


APÊNDICE G – O PROCESSO DE TRANSCRIÇÃO DAS HISTÓRIAS ORAIS


Para transformar as fábulas orais deste livro em texto escrito, seguiram-se princípios de respeito cultural:


Manter o ritmo da fala tradicional;


Preservar a essência espiritual das narrativas;


Evitar descaracterização cultural;


Utilizar termos indígenas respeitando sua grafia;


Registrar cada história como documento cultural.


Este apêndice assegura que o leitor compreenda que este livro não é ficção: é patrimônio vivo.





📘 GLOSSÁRIO INDÍGENA KARIRI-XOCÓ




Antse – Mãe Natureza.


Canapuguaçu – O Mero-preto 


Crutiwiró – Circo, círculo, roda, redondo.


Duboheríba – Mestre da Sobrevivência 


Guaxinim – O mamífero noturno, conhecido como "mão pelada".


Guyrá – Pássaro.


Ka’a Eté – Mata verdadeira.


Inhambu-açu – A maior de todas as  inhambus.


Ieende – Aves.


Jasypa / Jasyporundy – Luas do calendário tradicional.


Keríá – Animais da terra.


Koẽ – Aurora 


Moretsé – Reino da floresta.


Nhenety – Tradição, ser lembrado.


Porang – Bonito 


Pûra – Canto 


Raddacrísã – Terra Natal 


Uiraçu – Grande pássaro a maior de todas as aves voadoras.


Wãmyá – Peixes.


Worobüyé – As fábulas visão do mundo pelos animais. 


Xõn-naɲe – O Urubu-Rei





📘DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, pesquisador da cultura indígena, escritor e defensor da memória ancestral de seu povo. Nascido em Porto Real do Colégio – AL, dedica sua vida a preservar e fortalecer os saberes tradicionais Kariri-Xocó, levando ao mundo a força das narrativas orais, espirituais e culturais transmitidas pelos mais velhos.


Publica contos, fábulas, poemas e reflexões no blog:

kxnhenety.blogspot.com





📘 ORELHA DO LIVRO



Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó é um convite para entrar em um universo onde a natureza é soberana e cada ser possui um papel sagrado. As fábulas reunidas neste volume apresentam reis, rainhas, guardiões e mensageiros que revelam a profunda sabedoria indígena sobre equilíbrio, respeito e convivência com a Terra.


Nhenety Kariri-Xocó, com sua escrita viva e ancestral, traduz em palavras o espírito da floresta, preservando tradições e ensinamentos que ecoam há séculos. Uma obra para crianças, jovens, adultos e todos que buscam reencontrar a essência da vida.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



Nenhum comentário:

Postar um comentário