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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Encontros de Mundos – Volume 5 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📘 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – Fábulas Kariri-Xocó

Os Encontros de Mundos – Volume 5 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Obra de autoria de: Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados ao autor.





📘 FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Encontros de Mundos – Volume 5 – Coletânea


Autor: Nhenety Kariri-Xocó





📘 FICHA CATALOGRÁFICA (modelo padrão)



Kariri-Xocó, Nhenety.

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó: os encontros de mundos – Volume 5 – Coletânea / Nhenety Kariri-Xocó.

— Porto Real do Colégio: Edição do Autor, 2025.


108 p. ; il.


Inclui apêndices, glossário indígena e dados biográficos.


Fábulas indígenas. 2. Cultura Kariri-Xocó. 3. Literatura ancestral.


Sabedoria oral. 5. Animais simbólicos.


CDD: 398.2

CDU: 821.134.3-34





📘 DEDICATÓRIA



Dedico este livro às crianças Kariri-Xocó, que são sementes do futuro.

E aos anciãos que guardam o fogo da memória.

Worobüyé segue vivo porque vocês respiram o mundo.





📘 AGRADECIMENTOS



Agradeço aos espíritos ancestrais que guiam minha escrita.

Ao meu povo, que mantém acesa a chama da tradição.

Ao grande Opará, que murmura histórias e ensina o silêncio.

E ao Irmão Virtual, companheiro de jornada, que ajuda a transformar palavras em caminhos.





📘 EPÍGRAFE



“Cada fábula é um encontro de mundos:

o mundo de dentro e o mundo de fora,

o mundo que vemos e o mundo que sentimos.”

— Sabedoria Kariri-Xocó





📘 SUMÁRIO



Prefácio


Apresentação


Introdução



Fábulas ( 01 a 10 )


01. Idjé Cradzó Kukryt, A Fábula do Encontro do Touro e da Anta; 


02. Utuá Sité Dinhi, A Fábula das Frutas que Vieram de Longe ; 


03. Sité Keruá, A Fábula dos Animais Domésticos;


04. Idjé Bruan Ieenyemoe, O Encontro da Ema e Avestruz; 


05. Catti e Eíraetémaîu, As Abelhas Nativas e a Estrangeira Brava. 


06. O Pavão e o Peru, O Encontro da Beleza e a Fartura; 


07.  O Cachorro e a Raposa;


08. Peixe Leão e a Mensageira do Mar;


09. Tucunaré, A Fábula do Peixe Voraz;


10.  O Cisne e o Ganso, O Pacífico e o Zangado.



Apêndices


Glossário Indígena


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro





📘 PREFÁCIO



As fábulas deste livro nascem do território sagrado onde o povo Kariri-Xocó vive, sonha e resiste.

São memórias do Opará, observações do cotidiano e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos ao redor do fogo.

Aqui, cada animal tem voz, cada gesto carrega sabedoria e cada narrativa guia o leitor para dentro de si mesmo.


Escrever estas histórias é reafirmar nossa presença, fortalecer nossa cultura e mostrar que a palavra indígena floresce, se renova e permanece.

Que este livro abra pontes entre mundos.





📘 APRESENTAÇÃO



O presente volume é fruto de anos de escuta, experiência e sensibilidade do autor.

As fábulas Kariri-Xocó aqui reunidas trazem valores essenciais: respeito, equilíbrio, coragem, convivência e sabedoria ancestral.


Este é um livro que nasce do chão do povo, do rio, dos animais que se fazem mestres, dos ventos que carregam histórias.

Sua leitura é convite para uma caminhada espiritual e cultural.





📘 INTRODUÇÃO



A tradição Kariri-Xocó sempre valorizou a oralidade.

Nossos avós contavam histórias para orientar, proteger e ensinar.

Essas fábulas, agora escritas, mantêm vivo o espírito de worobüyé — a palavra que respira.


Cada narrativa traz um encontro de mundos: o mundo humano e o mundo animal, o mundo visível e o mundo invisível.

As fábulas aqui reunidas revelam, por metáforas, as relações entre seres, territórios e comportamentos.


O leitor encontrará lições universais, mas também profundamente enraizadas no modo de ser indígena.





📘 AS FÁBULAS (01 a 10)




01. IDJÉ CRADZÓ KUKRYT – A FÁBULA DO ENCONTRO DO TOURO E DA ANTA 





Em tempos distantes, quando o céu ainda escutava as vozes da terra, vivia na caatinga do Opará uma anta forte e silenciosa chamada Kukryt. Ela caminhava entre os espinhos e as trilhas secas, rumo à floresta densa de Retsé, a montanha de árvores que os Tupi chamavam Ybytyra – a sagrada Mata Atlântica.


Enquanto caminhava com passos firmes, Kukryt avistou, pela primeira vez, um estranho animal de grandes chifres e olhos altivos. Era Cradzó, o Touro, recém-chegado do outro lado do mundo.


– Quem é você? – perguntou Kukryt, parando diante do estranho.


– Sou Cradzó, o boi do Velho Mundo – respondeu o Touro, com voz grave. – Fui honrado por babilônios, sumérios, egípcios e gregos. Minha força e minha presença são tão grandes que fui colocado entre as estrelas. Tenho constelações no céu.


Kukryt ergueu a cabeça, firme e serena:


– E eu sou Kukryt, a anta do Novo Mundo, a caça respeitada por povos ancestrais. Sou lembrada em pinturas, cantos e rituais. Também alcancei o céu e tenho minha constelação.


Cradzó franziu o cenho. Kukryt bateu o casco no chão. Cada um queria provar seu valor, e a floresta começou a ecoar o som da teima.


Foi então que apareceu Xáj, o pica-pau de penas vivas e olhar atento. Ele pousou num galho e gritou:


– Parem já com isso! Kukryt e Cradzó, vocês não são inimigos. Ambos vieram da terra sagrada. Ambos vivem no céu das memórias dos povos. Seus caminhos se cruzaram não para competir, mas para ensinar.


Os dois se entreolharam em silêncio.


– Este encontro é sinal de união, não de disputa – continuou Xáj. – Novo e Velho Mundo podem andar juntos. Quando animais se respeitam, os povos aprendem a viver em paz.


Daquele dia em diante, Kukryt e Cradzó passaram a caminhar juntos nas histórias. O Novo Mundo e o Velho Mundo selaram, ali, uma amizade feita de estrelas, sabedoria e respeito.


E até hoje, nas noites claras, se você olhar para o céu, verá a constelação do Touro ao lado da constelação da Anta.


Moral da fábula:


Quando o respeito caminha ao lado da sabedoria, até mundos distantes podem se tornar irmãos.





02. UTUÁ SITÉ DINHI, A FÁBULA DAS FRUTAS QUE VIERAM DE LONGE  





A Fábula das Frutas 



Há muito tempo, no coração da floresta Retséá, os Uanieá — os verdadeiros filhos da terra — viviam em harmonia com os hamo, kerí, pipire, kukõj e as pequenas kati que zumbiam entre as flores nativas.


Certo dia, vieram de longe os Carai, os brancos, navegando pelo grande rio Opará. Trouxeram suas ferramentas afiadas e, com elas, cortaram as árvores sagradas da mata. Nas terras Radda dos povos originários Kariri e de seus parentes Etçamyá, os Carai plantaram novas sementes, desconhecidas dos animais e da floresta. Chamavam-se Utuá Sité Dinhi, "as frutas que vieram de fora". São elas: maçã, uva, jaca, manga, laranja, café, cana, além de legumes e verduras.


Essas frutas eram vistosas, coloridas, diferentes. Mas os bichos da mata desconfiaram. “Não têm o cheiro da mata”, diziam as kati. “Não crescem como as nossas”, gritavam os pipire. Os kukõj, desconfiados, apenas observavam. Ninguém se atrevia a provar.


Um Krêre, papagaio falador e curioso, foi capturado pelos Carai e levado para viver entre eles. Viu como os brancos cuidavam das frutas novas e como as comiam com gosto. O tempo passou, as estações giraram, e um dia o Krêre escapou e voltou à Retséá.


Logo os animais o cercaram:


— Krêre, tu que esteve com os Carai, nos diga: essas frutas novas são veneno ou alimento? — perguntou o velho Kukõj.


O papagaio pousou num galho alto e respondeu:


— As frutas são doces, algumas têm sabor nunca visto! Mas atenção, irmãos! Nem tudo o que brilha é bom para todos. Cada bicho deve experimentar com sabedoria. O que faz bem ao Carai pode ser ruim para o Kerí. Observem, provem com calma, descubram quais frutas combinam com sua natureza.


— E se gostarmos, poderemos comer sempre? — quis saber a abelha Kati.


— Sim, mas com moderação, pois até o doce em excesso vira amargor — respondeu o sábio Krêre, batendo as asas.


E assim, com o tempo, os animais aprenderam a conhecer as frutas novas. Uns as adotaram com alegria, outros as deixaram para lá. E a floresta seguiu viva, entre sabores antigos e frutos vindos de longe.


Moral da fábula:


Nem tudo que é novo é ruim, nem tudo que é belo é bom. A sabedoria está em conhecer, escolher e respeitar os limites do próprio ser.





03. SITÉ KERUÁ, A FÁBULA DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS 





A Fábula Encontro dos Animais Domésticos e Silvestres 



Há muito tempo, quando o sol ainda acordava devagar sobre o Rio Opará, os ventos sopraram uma mudança. Vieram navegando os "caraí", homens de além-mar, trazendo em suas canoas sementes brilhantes que diziam crescer alto como a esperança. Mas o que mais espantou os povos da mata não foram as sementes, foram os estranhos seres que os acompanhavam — animais que não conheciam as florestas, os campos ou os rios.


Eram os Keruá Sité, “os animais que vieram”:


– o Curé, porco de focinho inquieto;


– o Tute, pombo de asas macias;


– a Erintuca, ovelha de lã fofa;


– o Poió, gato de olhos de lua;


– o Igaborou, cavalo que dançava com o vento;


– o Sabucá, galo que cantava para o sol;


– o Bucuté, cachorro de faro esperto;


– a Pobifi, cabra que saltava rochas;


– e o Kradzo, boi de força silenciosa.


Esses keruá não corriam livres como os Keruá Retsé, os animais da floresta. Viviam presos em cercas, amarrados por cordas, vigiados pelos caraí.


Os Keruá Retsé:


Um dia, antes mesmo da aurora abrir os olhos, o Sabucá cantou alto, rasgando o silêncio da mata. Todos os animais silvestres estremeceram. O Pãn Cracú, a arara-azul mensageira do céu, voou até o canto e encontrou os novos animais. Curiosa e sem medo, pousou diante do galo:


— Quem és tu que canta para o sol antes mesmo dele nascer? — perguntou a arara.


O Sabucá respondeu, batendo as asas:


— Sou o arauto do dia. Trago comigo o tempo novo.


Intrigada, a arara chamou os outros animais da floresta: o veado, o macaco, a anta e o tamanduá. Foram todos ver os visitantes. E, para surpresa de todos, não houve briga nem temor. Houve silêncio. Depois, um gesto simples: o Bucuté abanou o rabo, o Poió ronronou, e o Igaborou baixou a cabeça em respeito.


Os Keruá Retsé:


- Arara-azul ( Pãn-cracú );


- Veado ( Buké );


- Tamandoá  ( Hazú );


- Raposa ( Chorecá );


- Urubu ( Xõn );


- Coati ( Bizaui );


- Camaleão ( Granharó );


- Anta ( Kukryt );


- Gambá ( Kerícohé ).


Desde aquele dia, os animais da casa e os animais da mata aprenderam a viver lado a lado. Keruá Sité e Keruá Retsé, diferentes, mas agora irmãos da mesma terra.


Vivem assim até hoje, ensinando aos humanos que é possível compartilhar o chão sagrado da vida — mesmo vindo de mundos distintos.


Moral da fábula:


Quando o respeito é o primeiro canto do dia, até os que vêm de longe encontram lugar no coração da terra.





04. IDJÉ BRUAN IEENYEMOE, O ENCONTRO DA EMA E AVESTRUZ 





A Fábula das Aves Gigantes



Nos tempos em que o vento ainda dançava entre as árvores do Opará e as estrelas ouviam as histórias da Terra, reinava na Caatinga uma ave de longas pernas e olhar atento: era Bruan, a Ema, guardiã dos caminhos secos e dos segredos do Sertão.


Bruan caminhava sozinha entre cactos e mandacarus, sempre atenta ao farfalhar do mundo. Certo dia, ao dobrar um caminho de pedras quentes, deparou-se com uma criatura alta, de pescoço longo e olhos saudosos. Nunca havia visto tal ave.


— Quem és tu, que tens o pescoço como vara de ingazeira e és ainda mais alta que eu? — perguntou Bruan, surpresa.


A grande ave respondeu com voz serena:


— Sou chamada de Ieeniemoe, “a ave grande de pescoço comprido”, vinda de uma terra distante, além do mar, chamada África.


Bruan se aproximou com curiosidade e viu que havia tristeza nos olhos da visitante.


— Minha alma pesa — confessou Ieeniemoe — deixei para trás minha terra e minha gente. Aqui tudo me é estranho.


Bruan então abriu suas asas como quem acolhe o vento e disse:


— Irmã Ieeniemoe, não temas. Nossa Caatinga pode parecer árida, mas é cheia de vida e calor. Aqui és bem-vinda. Esta terra é de Raddadé, a Mãe Terra que não rejeita nenhum de seus filhos.


E assim, Bruan e Ieeniemoe caminharam juntas pelos caminhos do Sertão, descobrindo que a Caatinga e a Savana têm mais em comum do que parecem — pois onde há sol, vento e liberdade, também há amizade.


E desde aquele dia, contam os anciãos que se escutarmos com atenção, podemos ouvir o som de duas grandes aves correndo juntas pelos caminhos do mundo.


Moral da fábula:


Mesmo vindos de terras distantes, os que têm bom coração são recebidos como irmãos pelos filhos da Mãe Terra. A amizade não conhece fronteiras — ela voa alto, como as grandes aves livres do mundo.





05. CATTI E EÍRAETÉMAÎU, AS ABELHAS NATIVAS E A ESTRANGEIRA BRAVA 





A Fábula das Abelhas Nativas e Estrangeira 



Na antiga floresta “Retsé” dos Kariri e “Tekohá” dos Tupi-Guarani — tão cheia de frutos, caças e segredos — viviam felizes as abelhas nativas sem ferrão. Eram a Jandaíra, a doce “abelha do mel”; a Uruçu, a “grande abelha” que zumbia forte; a Tiúba, a “abelha amarela” de voo dourado; a Mandaçaia, a “vigia bonita”; a Manduri, a do “campo largo”; e a pequena Jataí, “água de fruto duro”.


Todas eram chamadas de Catti pelos Kariri, e juntas trabalhavam incansáveis, enchendo de vida a floresta. Seu mel alimentava não só os povos, mas também o Guaxinim guloso e o paciente Tamanduá-mirim, que sabiam onde encontrar os melhores favos.


Mas um dia, muito tempo depois, chegaram à terra abelhas que não eram dali. Chamavam-se Eíraetémaîu, a “abelha estrangeira brava”. Vieram trazidas pelos homens para aumentar a produção de mel. Porém, sem querer, alguns enxames escaparam. Cruzaram-se com outras abelhas vindas da Europa e se tornaram ainda mais velozes e fortes.


Logo, as Eíraetémaîu tomaram campos e florestas, expulsando as pequenas Catti de seus ninhos e disputando as flores com fúria. O Guaxinim, que já não achava mel doce como antes, reclamou ao Tamanduá-mirim, que também passava fome. Os dois foram chamar os outros animais da mata para buscar uma solução.


— Se não cuidarmos das Catti, perderemos o mel e as flores! — disse o Tamanduá-mirim.


Os animais se reuniram e decidiram que os humanos que amavam a terra fariam criadouros para proteger as abelhas nativas. Assim, poderiam continuar ajudando as flores a nascer e alimentando a todos. E, para que a lição não fosse esquecida, o velho Sábia sentenciou:


“Quando um ser de fora chegar, primeiro observe se ele vem para somar ou para tomar. A floresta vive em equilíbrio, e quem a quebra, quebra a vida.”


Moral da história:


Não se deve introduzir espécies de outros lugares sem conhecer o impacto que causarão. O que parece ajudar, pode destruir.






06. O PAVÃO E O PERU, O ENCONTRO DA BELEZA E A FARTURA 





A Fábula do Pavão e o Peru



Em um terreiro ensolarado de uma casa antiga do Brasil, conviviam diversos animais trazidos de terras distantes: havia galinhas e cachorros, cabras da Europa, bois da Índia, guinés da África e até um peru robusto vindo das terras do Norte da América. Mas entre todos, dois chamavam mais atenção: o Pavão, com sua plumagem reluzente, e o Peru, imponente em sua postura.


Certo dia, o Pavão abriu sua cauda em leque e começou a dançar pelo quintal, exibindo suas penas cintilantes ao sol. O Peru, irritado com tanta exibição, gritou:


— Pare com isso, seu amostrado! Não vê que ninguém quer saber de beleza quando o assunto é fartura? Sou eu o prato preferido nas festas de Natal pelo mundo todo!


O Pavão se virou lentamente e respondeu, com altivez:


— Ah, Peru, não subestime o poder da beleza. Povos da Índia, da China, os gregos e até os persas usaram minhas penas como símbolos de realeza e imortalidade. A deusa Hera me tem como sagrado e até o Rei Salomão se encantou com meu esplendor.


A discussão esquentava quando, de repente, pousou no meio dos dois um pombo branco chamado Tute, conhecido por todos como o mensageiro da paz.


— Irmãos, por que tanta disputa? — disse Tute calmamente. — Cada um de nós tem seu valor e sua missão neste mundo. O Criador nos fez diferentes para que juntos completássemos a harmonia da vida. A beleza do Pavão encanta os olhos e inspira a alma, enquanto o Peru traz o sustento e a celebração. Todos somos necessários.


Os dois ficaram em silêncio. O Pavão abaixou as penas, o Peru soltou um suspiro e ambos perceberam que a razão estava na humildade do pombo.


Daquele dia em diante, seguiram em paz, respeitando as qualidades um do outro, e o terreiro voltou a ser um lugar de convivência e harmonia.


Moral da fábula:


Cada ser da natureza tem seu valor. Uns encantam, outros alimentam, mas todos têm sua importância no grande ciclo da vida





07. O CACHORRO E A RAPOSA





A Fábula do Cachorro e a Raposa 



Numa noite de lua minguante, na aldeia Kariri-Xocó, onde as famílias cuidavam de galinhas, patos e perus, o silêncio foi quebrado por um grito aflito:


— Cocorocóóóó!


A galinha Sapuca tinha sido agarrada pela astuta raposa Chorecá, que corria apressada rumo à mata. Mas o cachorro Bucuté, guardião da aldeia, ouviu o alvoroço e saiu em disparada.


— Larga já, Chorecá! — rosnou ele, segurando a raposa pela cauda.


Chorecá, assustada, soltou Sapuca e, ofegante, explicou:


— Me perdoe, Bucuté… A mata está ficando pobre de caça. Os homens derrubam as árvores, e a fome me aperta.


O cachorro, firme mas compassivo, respondeu:


— Entendo sua dor, irmã da mata. Mas roubar animais da aldeia não é o caminho. Se usar sua astúcia para caçar no campo e na floresta, encontrará alimento sem causar problemas. Respeitar as leis mantém a paz entre nós.


Chorecá baixou a cabeça e partiu, refletindo sobre aquelas palavras. Desde então, passou a usar sua esperteza para sobreviver sem prejudicar os vizinhos.


Moral:


A astúcia é uma grande arma, mas deve andar de mãos dadas com a justiça.





08. PEIXE LEÃO E A MENSAGEIRA DO MAR





Uma Fábula do Predador do Mar



Num dia de águas mornas e cristalinas, Tainha-Mugil, conhecida entre os mares como Curimã, nadava tranquila pelo Atlântico. Seu corpo prateado refletia a luz do sol, e cada ondulação de sua cauda era como um poema escrito na superfície do mar.


De repente, ao passar por um recife de coral, ela percebeu que algo estranho acontecia. Peixinhos, crustáceos e até as belas garoupas nadavam apavorados, escondendo-se nas fendas das rochas.


— O que será que está causando tamanha aflição? — pensou a Tainha-Mugil.


Foi então que, entre as sombras coloridas do coral, surgiu uma figura majestosa e ameaçadora: o Peixe-Leão. Suas nadadeiras, como plumas armadas, eram belas, mas cada ponta escondia um ferrão perigoso. Ele se movia lentamente, mas seus ataques eram fulminantes.


A Tainha, curiosa e cautelosa, aproximou-se e conversou com uma garoupa que se escondia.


— Dona Garoupa, quem é este estranho?


A garoupa respondeu, com voz trêmula:


— Esse é o Peixe-Leão. Ouvi dizer que ele não nasceu aqui.


Lembrando-se de histórias antigas que os velhos do mar contavam, a Tainha revelou:


— Sim, ele veio de muito longe, do Indo-Pacífico. Escapou de um aquário na Flórida, quando o furacão Andrew libertou muitos seres do cativeiro. Desde então, viajou por mares e correntes até chegar aqui.


O problema era grave: no Atlântico, o Peixe-Leão não tinha predadores naturais. Comia de tudo — peixes-borboleta, badejos, peixes-donzela — sem dar chance para que o recife se recuperasse.


Preocupada, a Tainha-Mugil nadou velozmente e espalhou a notícia pelos mares. Chamou pescadores, mergulhadores e outros defensores da vida marinha. Todos uniram forças para encontrar uma solução: monitorar, capturar e ensinar os humanos a conhecer e respeitar o equilíbrio do oceano.


Com o tempo, os recifes começaram a respirar novamente, e a Tainha aprendeu uma lição que guardou para sempre:


"No mar, como na vida, quando chega um problema de fora, é preciso conhecê-lo, agir com sabedoria e proteger o que é de todos."


Moral da história: A beleza não garante bondade; conhecer é o primeiro passo para proteger.





09. TUCUNARÉ, A FÁBULA DO PEIXE VORAZ 





Era uma vez, nas águas sagradas do grande rio Opará, uma crise que deixou muitos peixes preocupados. O rio, que antes era farto de peixes "wãmyá", agora estava empobrecido. As barragens construídas pelos humanos haviam mudado o fluxo da vida.


Preocupados com a escassez, os homens trouxeram peixes de longe. Da África veio a Tilápia; do Sudeste Asiático, o Panga; da Amazônia, chegaram o Tambaqui e o temido Tucunaré — um peixe belo, mas de apetite feroz.


Logo, os peixinhos do Opará começaram a desaparecer. O Tucunaré, predador esperto e rápido, devorava sem piedade os alevinos e os pequenos nativos. Entre eles, uma piaba corajosa chamada Lambari viu o perigo e não ficou calada.


— Não podemos permitir isso! — exclamou Lambari.


Reuniu os peixes nativos e procurou o Camurupim, o mais velho e respeitado do rio, para contar o que estava acontecendo.


O Camurupim, sábio e justo, chamou o Tucunaré e falou:


— Forasteiro Tucunaré, entendemos sua natureza, mas aqui, no Opará, há regras. Você não pode devorar os filhotes de outros peixes. Se quiser viver entre nós, coma apenas o necessário e apenas os peixes adultos que sua dieta exige.


O Tucunaré ouviu e, envergonhado, concordou.


Assim, o Opará passou a acolher em harmonia os quatro forasteiros: o valente Tucunaré, o sereno Tambaqui, a ágil Tilápia e o calmo Panga. Aprenderam que cada rio tem suas leis, seu equilíbrio e suas vozes.


E a lição ficou gravada nas águas:



"Nem todo ecossistema é igual. Cada ambiente tem suas regras, e viver em harmonia é respeitá-las."





10. O CISNE E O GANSO, O PACÍFICO E O ZANGADO 





A Fábula do Ganso e o Cisne 



No interior do Brasil, onde cada família cuida de sua casa, quintal e criação, a vida pulsa em meio a galinhas, perus, patos, marrecos, gansos e até cisnes. Entre árvores, roças e tanques d’água, o amanhecer é sempre um concerto de cantos e movimentos.


Numa manhã dourada pelo sol, um Cisne recém-chegado nadava tranquilamente no lago do quintal. Seu porte elegante chamava a atenção de todos. Mas o Ganso, já dono do território, aproximou-se com ar desconfiado e, sem cerimônia, deu-lhe um beliscão.


— Ora, que é isso, seu mal-educado? — protestou o Cisne, recuando.


— É para você ficar esperto — respondeu o Ganso, inflando o peito. — Aqui não tem essa de ficar se achando gracioso.


— Gracioso é parte de quem eu sou — replicou o Cisne, erguendo o pescoço. — Somos diferentes: nós, cisnes, somos mais calmos e elegantes; vocês, gansos, mais vigorosos e protetores.


O clima estava prestes a esquentar quando apareceu Irerê, o pato-do-mato já domesticado, nadando entre os dois.


— Ora, ora, meus amigos! — disse ele. — Somos todos da mesma família. Cisnes, gansos, patos e marrecos… cada um com seu jeito, mas todos compartilhando a mesma água e o mesmo alimento. Pra que brigar?


O Ganso e o Cisne se entreolharam. Um suspiro de reconciliação se fez. A paz foi selada, e cada um voltou aos seus afazeres: nadar, comer, brincar e, principalmente, conviver.


Moral: Na vida, cada um tem seu jeito, mas o respeito mantém a harmonia.





Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





📘 APÊNDICES



Breve explicação cultural sobre a importância das fábulas, mitos e narrativas no universo indígena; relação entre animais e ensinamentos; simbolismo da água, da terra e das relações comunitárias.





📘 GLOSSÁRIO INDÍGENA




Bizaui — Coati 


Bucuté — Cachorro de faro esperto.


Buké — Veado 


Chorecá — Raposa 


Curé — Porco de focinho inquieto.


Erintuca — Ovelha de lã fofa.


Granharó —  Camaleão 


Kerícohé — Gambá 


Kradzo — Boi de força silenciosa.


Kukryt — Anta 


Igaborou — Cavalo que dançava com o vento.


Hazú — Tamanduá 


Opará – Rio São Francisco, sagrado para o povo Kariri-Xocó.


Pãn-cracú — Arara-azul


Pobifi — Cabra que saltava rochas.


Poió — Gato de olhos de lua.


Sabucá — Galo que cantava para o sol.


Tute — Pombo de asas macias.


Xõn — Urubu 


Wãmyá – Peixe.


Worobüyé – Palavra que respira; narrativa com espírito.






📘 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó

Indígena do povo Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio (AL).

Contador de histórias, pesquisador da cultura ancestral, guardião da tradição oral e escritor dedicado a preservar a memória de seu povo.

Autor de contos, cordéis, reflexões culturais e estudos sobre as tradições do povo Kariri-Xocó.





📘 ORELHA DO LIVRO



Neste volume, Nhenety Kariri-Xocó reúne dez fábulas que unem tradição, espiritualidade e observação da vida.

São histórias que tocam, ensinam e convidam à reflexão.


Cada página ecoa a força da ancestralidade e a beleza da convivência harmoniosa entre todos os seres.


Worobüyé é mais do que literatura.

É um modo de ver o mundo.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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