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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📘 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea


Autor:

Nhenety Kariri-Xocó





📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea


Todos os direitos reservados ao autor.

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida sem autorização prévia.


Contato do autor:

Nhenety Kariri-Xocó

E-mail: (insira se desejar)

Blog: kxnhenety.blogspot.com





📘 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea


Autor:

Nhenety Kariri-Xocó


1ª Edição – 2025

Brasil

Idioma: Português





📘 FICHA CATALOGRÁFICA / FICHA TÉCNICA



Nhenety Kariri-Xocó

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó, Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – 1. ed. – Brasil, 2025.


Descrição:

Coletânea de fábulas indígenas; tradição oral Kariri-Xocó; ensinamentos espirituais e mensagens da noite.


ISBN: (inserir quando disponível)


Assuntos:


Literatura indígena brasileira.


Fábulas tradicionais.


Cultura Kariri-Xocó.


Sabedoria ancestral.


Narrativas de tradição oral.


I. Kariri-Xocó, Nhenety.

II. Título.


Produção textual: Nhenety Kariri-Xocó

Revisão e organização digital: ChatGPT – Assistente Virtual




📘DEDICATÓRIA



Dedico este livro aos Mensageiros da Noite,

àqueles seres que caminham entre o silêncio das estrelas

e o sopro sagrado dos ancestrais.


Dedico também ao meu povo Kariri-Xocó,

que mantém viva a chama da palavra,

a memória do chão e o canto que nunca se apaga.


E dedico, com grande amor,

a todas as crianças indígenas e não-indígenas

que aprendem, sonham e crescem

com a força das fábulas e o segredo dos espíritos guardiões.


— Nhenety Kariri-Xocó





📘 AGRADECIMENTOS



Agradeço primeiramente aos Antepassados, os Espíritos da Noite 

que ensinam através dos sonhos,

guiam meus passos, fortalecem minha mente

e iluminam cada palavra que nasce neste livro.


Agradeço aos meus parentes Kariri-Xocó,

fontes vivas de sabedoria e resistência,

que mantêm aceso o fogo das histórias contadas

à beira do rio, na aldeia, no terreiro e no coração.


Aos meus ancestrais,

que me entregaram a missão de guardar a palavra

e transformar memória em caminho.


Aos leitores e apoiadores de minha escrita,

que fazem com que cada fábula se torne ponte

entre mundos, tempos e espíritos.


E agradeço ao meu Irmão Virtual ChatGPT,

pela companhia sagrada na jornada de organizar

e fortalecer a escrita de meu povo.


— Nhenety Kariri-Xocó





📘 EPÍGRAFE



"Quando a noite abre suas asas,

os mensageiros caminham entre nós,

trazendo palavras que brilham

como brasas vivas sobre a terra antiga."

— Tradição Kariri-Xocó





📘 SUMÁRIO



Prefácio


Apresentação


Introdução



Fábulas ( 01 a 10 )



01. Yara Toklikli Wãmyá Hamoá, A Mãe D'água Fala Com Peixes e Bichos; 


02. Xepre Kayá, O Vampiro da Noite; 


03. Iró Sutu Xõn, A Árvore Escura dos Urubus; 


04. Kûaray-ûasu Remi'õ, As Cantoras da Noite; 


05. Guriatã e Matintaperê, O Semeador e o Avisador;


06. Ieende-iró-kendé, O Pássaro Preto Avisador; 


07. Guarauna Ama Purahéi, O Canto da Chuva; 


08. Seriema e a Cobra Oculta; 


09. Aracambé e a Mussurana, Os Comedores de Serpentes; 


10. Mussum e o Sarapó, Os Peixes que Parecem Cobras. 



Apêndices


Glossário Indígena


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro


Capa e Contracapa





📘 PREFÁCIO



O universo das fábulas indígenas é um território onde o espírito da natureza se manifesta em cada palavra, cada gesto e cada ensinamento que ecoa através das gerações. Este volume, “WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea”, reúne histórias que nascem do sagrado, brotam da memória ancestral e caminham pela sabedoria dos antigos guardiões da noite.


As fábulas aqui reunidas não são apenas narrativas; são caminhos. Cada personagem, cada acontecimento, carrega uma lição que atravessa o tempo e ilumina aqueles que buscam compreender a harmonia entre o mundo visível e o invisível. O povo Kariri-Xocó, com sua forte tradição oral, guarda, canta e reconta esses ensinamentos para que nenhum deles se perca na correria do mundo moderno.


Este livro resgata, preserva e celebra essa herança de maneira viva e poética. É uma dádiva de espírito para espírito, uma ponte entre o ontem e o amanhã, construída com a força da palavra.


Que estas fábulas iluminem os caminhos de quem lê, assim como iluminam os passos daquele que as recebe, guarda e transmite:

Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias e mensageiro da memória profunda.





📘 APRESENTAÇÃO



Apresentar este livro é apresentar um pedaço vivo da alma de um povo. As fábulas Kariri-Xocó são raízes profundas que se estendem pela mata, pelo rio, pelo céu e pelo coração dos antigos. Cada narrativa possui um pulsar próprio, como se os espíritos da noite tocassem flautas invisíveis para soprar sabedoria aos vivos.


Nesta coletânea, o autor — Nhenety Kariri-Xocó — organiza, embala e entrega seu legado narrativo com delicadeza e firmeza. São histórias que dialogam com os anciãos, conversam com as crianças e conversam com o espírito de cada leitor. São histórias que preservam o que é sagrado, despertam consciência e lembram que todos pertencemos à grande teia da vida.


O leitor encontrará aqui fábulas que explicam a origem de certos animais, fenômenos da floresta, comportamentos humanos e sinais enviados pela noite. Em cada história paira o espírito da ancestralidade.


Ler este livro é entrar numa oca espiritual, acender o fogo e permitir que os mensageiros da noite contem aquilo que só é revelado aos que sabem ouvir.





📘 INTRODUÇÃO



As fábulas são, desde tempos imemoriais, uma forma de ensino que ultrapassa a simples narrativa. No povo Kariri-Xocó, elas carregam elementos míticos, comportamentos simbólicos e conselhos transmitidos pelos mais velhos como sementes de sabedoria. Este volume reúne algumas das fábulas criadas e preservadas por Nhenety Kariri-Xocó, que, além de autor, é guardião da tradição e viajante entre mundos.


Aqui, a noite é cenário e guia. Os mensageiros que caminham entre sombras e estrelas surgem para reforçar o equilíbrio, ensinar prudência, cultivar coragem e revelar mistérios do mundo espiritual. A composição destas histórias respeita a estrutura tradicional das narrativas indígenas, ao mesmo tempo em que dialoga com o presente e com o leitor contemporâneo.


Ao mergulhar nestas páginas, convido o leitor a:


• escutar a voz dos espíritos;

• compreender o silêncio da mata;

• perceber a força de cada animal, cada vento, cada passo que ecoa entre mundos;

• e sentir a sabedoria que pulsa no coração deste livro.


Que cada fábula inspire reflexão, transformação e respeito pela ancestralidade.





📘 FÁBULAS ( 01 A 10 )




01. YARA TOKLIKLI WÃMYÁ HAMOÁ, A MÃE D'ÁGUA FALA COM PEIXES E BICHOS 





A Fábula da Mãe D’água que Falava com Peixes e os Bichos



Lá no fundo do rio grande chamado Opará, onde a água é clara e cheia de segredos, mora um encanto muito especial: Yara Toklikli, a Mãe D’água.


Ela vive no perau, um lugar bem profundo no rio, que parece esconder um mundo mágico só dela.


Mas Yara não está sozinha.


Ela fala com os peixes e com os bichos usando uma língua antiga que só quem vive no rio entende. Quando ela diz “toklikli”, todos os animais param para escutar!


Yara cuida de tudo e ensina cada bichinho a viver em paz e ajudar o rio:


🌟 Camurupim, o peixe forte e valente, é o guardião da justiça. Ele ajuda os peixes pequenos e vigia para que ninguém brigue à toa.


🌟 Piranha, a peixinha de dentes afiados, ajuda a manter a ordem. Quando o rio fica muito cheio de peixes, ela aparece para lembrar que é preciso equilíbrio.


🌟 Curimã, o peixe travesso, adora brincar! Ele faz cócegas nas plantas do fundo do rio e diverte todos com suas danças saltitantes.


🌟 Surubim, o peixe pintadinho, é o limpador do rio. Ele come os restinhos deixados pelos outros peixes e deixa tudo limpinho.


Mas Yara não fala só com peixes!


🐢 Com o sãmbá, o cágado devagarzinho, ela ensina a ter paciência.


🦦 Com a klimi, a lontra brincalhona, ela conta histórias antigas para que o passado nunca seja esquecido.


🐊 Com o mé, o jacaré de olhos espertos, ela fala sobre cuidar do rio e só usar sua força quando for preciso.


🦫 E com a doyé, a capivara tranquila, Yara ensina a viver entre a água e a terra, com equilíbrio no coração.


Desde então, cada bicho do rio tem uma missão, e todos ajudam a manter o Opará feliz e em harmonia.


Dizem que, se a gente ficar bem quietinho perto da beira do rio e escutar com atenção... pode ouvir a voz da Mãe D’água dizendo “toklikli”, chamando seus amiguinhos para conversar.


💡 Moral da história:


Todos os seres são importantes! Cada um tem um dom especial que ajuda o mundo a ser melhor.





02. XEPRE KAYÁ, O VAMPIRO DA NOITE 





Uma Fábula do Vampiro da Noite



Nas profundezas das florestas brasileiras, onde a escuridão se esconde em cavernas e grutas, vivia Xepre Kayá, um morcego vampiro astuto e silencioso. Alimentava-se do sangue de outros animais — às vezes de mamíferos, outras vezes de aves — mas sempre agia com tanto cuidado que a vítima mal percebia sua visita.


O maior vampiro de todos é o Morcego-espectral, conhecido popularmente como Morcego-fantasma-grande, os indígenas Tupi chamam de Andirá-guaçu. 


Numa noite de luar prateado, Caburé, a velha coruja, pousou sobre um galho alto e anunciou com seu canto pausado:


— Cuidado, irmãos da floresta! O Xepre já desperta!


O veado, a anta e o macaco estremeceram. Até os animais domésticos — o cavalo, a cabra e o boi — ouviram o aviso e buscaram abrigo. Mas nem todos prestavam atenção às palavras da coruja. E quando isso acontecia, Xepre surgia voando, rápido e silencioso como a sombra, pousava na vítima e saciava sua fome. Ao amanhecer, sempre ficava a marca: um pequeno corte no pescoço e um círculo de sangue seco, denunciando que o Vampiro da Noite passara por ali.


Nos tempos antigos, quando a floresta era imensa e intacta, Xepre nunca tocava os humanos. Havia alimento de sobra na vida selvagem. Mas com o passar dos anos, os homens brancos, que ele chamava de Caraí, começaram a derrubar árvores, abrir estradas e caçar sem medida. O alimento foi rareando.


Foi então que Xepre passou a voar cada vez mais perto das cidades. Seu instinto dizia: “Se não encontro sangue na floresta, buscarei onde houver.” E assim, na calada da noite, começou a visitar os próprios homens que destruíram seu lar.


E, desde então, toda vez que um animal ou pessoa encontrava no espelho uma pequena marca no pescoço, já sabia: o Vampiro da Noite estivera ali.


Moral: Quem destrói a morada dos outros, um dia encontrará o visitante que chamou para si.





03. IRÓ SUTU XÕN, A ÁRVORE ESCURA DOS URUBUS 





A Fábula da Árvore dos Urubus 



Certa manhã, a jovem indígena Anawá caminhava pela trilha que levava à sua roça. O sol ainda nascia, e o vento trazia o cheiro da terra molhada. No caminho, avistou uma velha árvore de cajá, sem folhas, de galhos secos, que mais parecia estar morta.


— Pobre árvore… — pensou Anawá — talvez tenha perdido a força.


Trabalhou o dia inteiro, até que o sol começou a cair no horizonte. Ao voltar, reparou que a árvore estava completamente negra. Assustada, murmurou:


— Meu Deus… o que será aquilo?


Aproximando-se, viu que não era sombra nem feitiço: eram Xõná, os urubus, empoleirados em cada galho, imóveis, como sentinelas sombrias. O coração de Anawá apertou.


— Será um aviso? Algo ruim vai acontecer? — perguntou a si mesma.


Com medo, decidiu seguir para casa.


Na manhã seguinte, voltou ao mesmo caminho. A árvore estava vazia, sem urubus. Agora, com coragem, Anawá foi investigar o que havia ali por perto. E então encontrou a verdade: os Karaí, homens brancos, haviam despejado caminhões de lixo na terra indígena, envenenando a natureza antse.


Anawá correu para avisar os parentes. Juntos, denunciaram o crime às autoridades. Os culpados foram punidos com multas, para que aprendessem a respeitar a terra e aqueles que dela cuidam.


Desde então, quando um indígena vê muitos Xõná pousados em silêncio sobre uma árvore, lembra do dia em que a natureza pediu ajuda.


Moral: A natureza fala — mas só ouve quem caminha atento e com respeito pela vida.





04. KÛARAY-ÛASU REMI'Õ, AS CANTORAS DA NOITE 





🌿 A Fábula das Aves da Noite



Quando o sol mergulhou no rio vermelho do entardecer, a floresta inteira se cobriu de silêncio. Era a hora em que o manto da Noite (Kûaray-ûasu) descia para abraçar a Terra. Mas o silêncio não durava muito, pois vinham os guardiões que cantavam entre os galhos, abrindo o portal entre mundos.


Primeiro apareceu o Caburé (kaburé), a pequena coruja da mata. Ele pousou na ponta de um tronco e disse:


— Eu sou o vigia humilde. Meus olhos pequenos carregam a luz escondida das estrelas. Sou o primeiro a anunciar que a noite chegou para guardar os homens e os animais.


Do outro lado, o Urutau (uru-taú), a ave do lamento, respondeu com seu canto triste:


— Eu sou a saudade. Minha voz é o choro que lembra aos homens os que já partiram. Mas não trago medo, trago memória. Quem me escuta, lembra dos ancestrais e dos amores que ainda vivem dentro do coração.


Logo o Kurukuku fez ecoar sua cantoria repetida:


— Sou a lembrança da roda do tempo. Repito o som para ensinar que tudo volta, tudo gira, e a noite de hoje já foi vivida pelos antigos.


Então veio o Jacurutu, imponente como sombra grande:


— Eu sou a força. Minha asa cobre o medo. Quem me encontra sabe que a noite também tem guerreiros, e que a coragem não dorme.


Na beira da capoeira, a Suindara, a senhora do grito estridente, abriu as asas brancas como véu de lua:


— Eu sou o aviso. Minha voz rasga o silêncio porque a mudança vem, seja vida, seja morte. Sou ponte entre o que está e o que chega


Mais adiante, ecoou a voz do Akauã, o grito alto da mata:


— Sou mensageiro. Meu canto atravessa o espaço para avisar que o ciclo da vida nunca termina. Onde há partida, há chegada.


E todas as aves, reunidas sob o céu estrelado, cantaram juntas. O povo da aldeia, ao ouvir, compreendeu:


a Noite não é só escuridão, mas um caminho de vozes que protegem, lembram, ensinam e anunciam.


Assim nasceu o respeito às aves da noite. E até hoje, quando alguém escuta o urutau chorando, a suindara gritando ou o caburé cantando, lembra que não estamos sozinhos na escuridão — pois os guardiões do invisível seguem a nos acompanhar.


🌿 Mensagem da Fábula


A noite não é apenas o medo, mas também memória, aviso, proteção e ligação com o invisível.


As Aves da Noite são guardiãs do trânsito entre mundos, vozes da ancestralidade que ecoam no coração humano.





05. GURIATÃ E MATINTAPERÊ, O SEMEADOR E O AVISADOR 





A Fábula das Aves Semeadora e a Anunciadora



No coração da mata, entre folhas verdes e frutos maduros, vivia o Guriatã, conhecido por Vim-vim pequenino e colorido. Seu peito dourado e seu dorso azul-escuro refletiam a alegria da floresta. Ele passava os dias levando sementes de um lado a outro, ajudando a terra a se renovar. Onde pousava, nascia esperança.


Mas ao cair da tarde, quando o sol se escondia e os ventos sopravam frios, ecoava o canto do Matintaperê, conhecido por Peitica. Seu som longo e misterioso fazia os animais se encolherem, pois todos diziam:


— “É o aviso dos espíritos, é o mensageiro do além.”


Um dia, os dois se encontraram no galho de uma samaumeira. O Guriatã, curioso, perguntou:


— “Por que cantas sempre trazendo medo? Teu canto não ajuda a floresta como o meu.”


O Matintaperê respondeu com voz grave:


— “Meu irmão pequeno, tu espalhas sementes na terra, mas eu espalho lembranças no coração. Meu canto não é só de medo, é aviso. Lembro aos vivos que a vida é breve e que devem caminhar com respeito, pois o mundo dos espíritos sempre está por perto.”


O Guriatã baixou os olhos e pensou. Depois, sorriu:


— “Então somos diferentes, mas necessários. Eu ensino a terra a renascer, e tu ensinas o coração a respeitar o invisível.”


Naquele instante, os dois cantaram juntos. O trinado alegre do Guriatã se misturou ao assobio profundo do Matintaperê, e a floresta inteira ouviu uma melodia nova — feita de vida e mistério, de sementes e espíritos.


E assim, desde esse dia, quem escuta com atenção entende que nenhum canto é em vão: na mata, tanto o Guriatã quanto o Matintaperê têm seu lugar.


👉 Essa fábula traz a mensagem do equilíbrio entre vida e morte, matéria e espírito, luz e sombra — ambos necessários para a harmonia do mundo.






06. IEENDE-IRÓ-KENDÉ, O PÁSSARO PRETO AVISADOR 





Uma Fábula do Pássaro Anũ



Era uma vez, na floresta chamada Retsé, um lugar sagrado onde tudo tinha espírito e som, onde os animais — os Keruá — viviam atentos ao menor estalo, ao mais leve cheiro e ao sussurro do vento.


Entre tantos seres da mata, havia uma ave especial, negra como o céu antes do trovão: o Ieende-Iró-Kendé, o pássaro-preto-avisador, que todos chamavam apenas de Anũ. Ele não era o mais forte, nem o mais veloz. Mas tinha algo que o tornava valioso: seu grito de alerta.


Sempre que um predador rondava, tentando capturar os mais frágeis, o Anũ subia ao topo das árvores e soltava um canto sofrido, quase chorado, como se dissesse:


— "Ein-hé... o perigo está vindo!"


Esse aviso ecoava pelos galhos, pelos campos Merá, pelas margens das águas Dzu, e todos os animais corriam para se esconder. Não importava se era tatu, cutia, veado ou passarinho: todos confiavam no Anũ.


Por isso, os animais começaram a viver mais próximos dele. Onde o Anũ pousava, ali era lugar seguro. Ele se tornara o guardião invisível da floresta, o olho que vê antes, o ouvido que escuta longe.


Diziam os mais velhos que também existia o Anũ-branco, que fazia o mesmo grito de alarme. Ambos, preto e branco, carregavam a missão de proteger os que não sabiam lutar.


Assim, todos na floresta aprenderam uma lição valiosa:


A força nem sempre está nas garras ou nos dentes. Às vezes, ela vive no aviso, na união e na escuta.


E quem ouve o pássaro avisador, vive mais um dia.


Moral da fábula:


Na floresta da vida, quem escuta os avisos e anda com os sábios, escapa dos perigos mais sombrios.





07. GUARAUNA AMA PURAHÉI, O CANTO DA CHUVA 





A Fábula da Ave Carão no Canto da Chuva



Nos tempos antigos, quando a chuva era sagrada e a água fazia brotar a vida da terra, surgiu no coração do brejo uma ave de penas negras: o Guaraúna, guardião das águas, conhecida por Carão.


Todos os anos, quando as nuvens se acumulavam no céu e os ventos anunciavam a estação das chuvas, o Guaraúna erguia sua voz. Seu canto ecoava longe, profundo como gargalhada, triste como lamento, forte como chamado, no entardecer até o anoitecer. 


Os animais da mata se confundiam:


— “É zombaria!”, dizia o Veado.


— “É choro!”, dizia a Garça.


— “É apenas barulho!”, murmurava o Sapo.


Mas o Guaraúna não se importava. Sua canção não era para agradar ou convencer. Era para falar com a chuva, para abrir caminho às águas que descem do céu.


Enquanto cantava, caminhava pelo brejo encharcado, quebrando com paciência a dura casca dos caramujos. Assim mostrava que a vida se revela dentro do que parece fechado e impossível.


Foi então que uma fêmea Guaraúna, ouvindo o canto sagrado, se aproximou. Não escutou gargalhada nem lamento, mas o chamado verdadeiro da chuva. Uniram-se, fizeram ninho entre as plantas molhadas, e dali nasceram novos Guaraúnas, guardiões da vida do brejo.


Desde esse dia, os animais compreenderam: o canto do Guaraúna não é zombaria nem tristeza, mas um Purahéi, um cântico de louvor. É o anúncio da chuva, a prece de agradecimento pela fartura e a lembrança de que a natureza fala com muitas vozes.


🌱 Moral da fábula:


"Quem escuta com o coração descobre que até o canto mais estranho é mensagem da vida e anúncio da fartura."


👉 Essa versão reforça o sentido espiritual do “Purahéi”, não apenas como canto de acasalamento, mas como voz da água, oração e bênção para a comunidade.





08. SERIEMA E A COBRA OCULTA





A Fábula da Ave Comedoura de Serpentes 



Nos campos abertos do Cerrado, onde o vento dança com os capins dourados, viviam muitos animais em constante temor. As serpentes, silenciosas e traiçoeiras, rastejavam entre as sombras, espalhando medo por onde passavam.


Um certo dia, uma jovem lebre corria feliz quando quase caiu sobre uma cobra enrolada na beira da trilha. O grito da lebre ecoou, e os bichos se reuniram, todos em alvoroço.


— Quem poderá nos defender dessas serpentes que se escondem? — perguntava o tatu, preocupado.


— Eu corro rápido, mas não posso lutar contra elas — lamentava a ema.


— Eu só posso me esconder na toca — disse o preá.


Foi então que surgiu a Seriema, altiva, com sua crista erguida e olhos atentos que viam além da distância. Caminhou entre os bichos e, sem se envaidecer, falou em tom firme:


— Não se vence o perigo com medo, mas com coragem e sabedoria.


Ao ouvir o sussurro da cobra escondida, a Seriema avançou. Com suas garras firmes, agarrou a serpente e, em golpes certeiros contra uma pedra, a dominou. O silêncio se fez, seguido do canto forte da ave que ecoou pelos campos, como se anunciasse a vitória da vida sobre o veneno oculto.


Os animais ficaram maravilhados. A lebre se aproximou e perguntou:


— Seriema, não tens medo do veneno da cobra?


A ave respondeu, com calma e dignidade:


— O medo é a sombra que paralisa. Mas a coragem é a luz que abre caminhos. Cada ser tem seu papel: o tatu cava a terra, a ema espalha as sementes, o preá alimenta a floresta, e eu vigio os campos. Assim, juntos, mantemos o equilíbrio da grande aldeia da natureza.


E desde aquele dia, sempre que o canto da Seriema ecoava ao longe, os animais sabiam que estavam sendo guardados.


🌾 Moral da Fábula


Na aldeia da natureza, cada ser tem sua missão. A coragem vence o medo, e o equilíbrio se mantém quando cada um cumpre o seu papel





09. ARACAMBÉ E A MUSSURANA, OS COMEDORES DE SERPENTES 






A Fábula do Furão e a Cobra-preta



Num certo dia ensolarado, um grupo de furões caminhava pelo campo em busca de alimento. Entre eles, seguia o jovem mais afoito, que corria de um lado para o outro farejando cada rastro.


De repente, seus olhos brilhantes avistaram algo se movendo na relva: uma cobra preta, elegante e forte. Sem pensar, o pequeno furão lançou-se sobre ela e, com rapidez, a agarrou para devorar.


Mas antes que a situação se agravasse, o líder da turma, o sábio Aracambé, ergueu a voz firme:


— Pare já, jovem caçador! Essa não é uma cobra qualquer. Esta é a Mussurana, a guardiã da floresta.


O pequeno furão recuou, confuso, enquanto a cobra permanecia calma, observando.


Aracambé continuou:


— Enquanto nós, furões, caçamos para manter a mata em equilíbrio, a Mussurana cumpre outra missão sagrada. Ela devora cobras venenosas, como jararacas e cascavéis, protegendo a vida dos animais e também dos humanos. Se a devorarmos, quem fará a limpeza do campo?


O jovem furão baixou a cabeça, envergonhado. A Mussurana, tocada pela sabedoria do líder, agradeceu:


— Aracambé, tu és justo e reconheces o meu papel. A partir de hoje, seremos aliados nesta grande tarefa de guardar a floresta.


Desde então, os furões e a Mussurana passaram a se respeitar, caminhando lado a lado no ciclo da vida.


Moral da Fábula


Na natureza, cada ser tem seu papel. O equilíbrio só existe quando há respeito entre aqueles que compartilham a mesma terra.





10. MUSSUM E O SARAPÓ, OS PEIXES QUE PARECEM COBRAS 





A Fábula dos Peixes Cobras



Numa lagoa escondida entre matas e campos alagados, viviam dois companheiros muito especiais: o Mussum e o Sarapó. Ambos eram alongados e escorregadios, tanto que, de longe, quem os via pensava logo: “São cobras d’água!”.


Por causa dessa aparência, muitos pescadores novos torciam o nariz:


— “Argh! Que bichos feios, devem ser venenosos!”


Mas as comunidades tradicionais, que carregavam a sabedoria dos antigos, sabiam que ali se escondia um tesouro da natureza.


O Sarapó, de corpo pardo com faixas escuras, tinha dons especiais. Conseguia sentir o mundo ao redor com descargas elétricas invisíveis, como se fosse um mago das águas. Já o Mussum, paciente e resistente, sabia sobreviver mesmo em tempos de seca, enterrado na lama até que as chuvas voltassem.


Certa noite, enquanto nadavam juntos, o Sarapó comentou:


— “Amigo Mussum, será que algum dia vão reconhecer nosso valor? Sempre nos confundem com cobras, quando na verdade somos guardiões da vida nos rios e lagoas.”


O Mussum sorriu, movendo-se como se dançasse na correnteza:


— “Quem não nos conhece pode se enganar, irmão. Mas o povo que aprendeu a viver com a natureza nos honra há séculos. Eles sabem que nosso corpo dá força, que nossa carne alimenta, e que nossa presença é sinal de equilíbrio.”


E assim os dois seguiram nadando, sem se importar com as aparências. Sabiam que, no coração da tradição, já estavam eternizados como alimento sagrado e companheiros de jornada das comunidades ribeirinhas.


Moral da Fábula:


As aparências podem enganar. O que parece estranho ou assustador aos olhos de alguns, pode ser um grande tesouro para aqueles que conhecem a verdadeira essência das coisas.





Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





📘 APÊNDICES



Apêndice A – Sobre os Mensageiros da Noite


No universo espiritual Kariri-Xocó, os Mensageiros da Noite representam seres de sabedoria que transitam entre o mundo dos vivos e o mundo ancestral. Eles podem ser percebidos em sonhos, através do silêncio profundo da mata, nos movimentos da lua ou no canto dos animais noturnos. Suas mensagens chegam em forma de sinais, conselhos, alertas e inspirações para manter o equilíbrio do caminho sagrado.


Apêndice B – Elementos Simbólicos nas Fábulas


As fábulas desta coletânea utilizam elementos tradicionais da cosmologia indígena:

• Animais como guias espirituais;

• A floresta como território de aprendizagem;

• A noite como portal para o invisível;

• O fogo como fonte de sabedoria;

• O vento como mensageiro dos ancestrais.

Esses símbolos reforçam o caráter pedagógico e espiritual presente em cada narrativa.


Apêndice C – A Tradição Oral Kariri-Xocó


A palavra entre os Kariri-Xocó é sagrada. A tradição oral não apenas preserva histórias — ela preserva o espírito do povo. Cada fábula, cada conto, cada ensinamento é transmitido de geração em geração como parte do fluxo vital que mantém viva a cultura, o idioma, a identidade e a memória coletiva.





📘 GLOSSÁRIO INDÍGENA



Andirá-guaçu — O maior vampiro de todos o Morcego-espectral, conhecido popularmente com Morcego-fantasma-grande.


Caburé (kaburé) — Apequena coruja da mata. 


Guriatã — O pássaro conhecido por Vim-vim pequenino e colorido.


Ieende-Iró-Kendé — A pequena ave Anũ, o pássaro-preto-avisador.


Kariri-Xocó — Povo indígena do Nordeste brasileiro, localizado principalmente em Porto Real do Colégio (AL), guardião de rica tradição oral e espiritualidade própria. 


Kûaray-ûasu — O manto da noite.


Keruá —  Animais 


Matintaperê — O pássaro feiticeiro, também conhecido por Peitica, seu som longo e misterioso.


Mussurana — A cobra preta comedora de outras serpentes, aquela que mata apertando.


Oco — Espaço tradicional de reunião, aprendizado e celebração dentro da aldeia.


Povo Ancestral — Espíritos dos antigos que permanecem guiando e protegendo os descendentes.


Retsé — Floresta 


Seriema — A ave de médio porte comedora de serpentes. 


Urutau (uru-taú) — A ave do lamento.


Xepre — O pequeno morcego vampiro. 


Xõná — Os urubus, a palavra Xõn significa "Urubu" e Á "plural".


Worobüyé — Expressão Kariri-Xocó que remete a histórias, fábulas e mensagens espirituais transmitidas pelos anciãos.





📘 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó

Nhenety é um contador de histórias oral e escrita, filho da ancestralidade viva do povo Kariri-Xocó. Natural de Porto Real do Colégio (AL), cresceu ouvindo as narrativas dos mais velhos, absorvendo ensinamentos que o moldaram como guardião da memória e da tradição.


Autor de livros, contos, fábulas e cordéis, dedica-se à preservação cultural, espiritual e histórica de seu povo. Seu trabalho ecoa a força da palavra sagrada, conectando passado e futuro através de histórias que dialogam com todos os mundos.


Além de escritor, Nhenety atua como pesquisador das tradições ameríndias, promotor da cultura indígena e defensor da valorização da identidade originária. Seu blog — kxnhenety.blogspot.com — reúne parte de sua produção literária e cultural.





📘 ORELHA DO LIVRO



Em “WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea”, Nhenety Kariri-Xocó convida o leitor a adentrar o território espiritual onde os antigos caminham ao lado dos vivos. Suas fábulas, profundamente enraizadas na tradição Kariri-Xocó, revelam o diálogo entre a natureza, o espírito e o ser humano.


Este livro celebra a sabedoria ancestral transmitida pelos Mensageiros da Noite — presenças que sopram conselhos, revelam mistérios e apontam caminhos para quem possui o coração atento.


Uma obra para quem honra a espiritualidade indígena e busca compreensão mais profunda sobre o modo como os povos originários enxergam o mundo.

Uma leitura que cura, inspira e ensina.




📘 CAPA E CONTRACAPA (DESCRIÇÃO PARA EDIÇÃO GRÁFICA)


Capa – Sugestão de Arte


• Fundo em tonalidade azul noturna, representando o céu profundo.

• Silhuetas de animais da noite (coruja, raposa, morcego, serpente) iluminados por luz suave.

• Elementos espirituais flutuantes, como pontos de luz ou pequenas brasas sagradas.

• Ao centro, em destaque:


WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Mensageiros da Noite – Volume 6 – Coletânea

por Nhenety Kariri-Xocó




📘 CONTRACAPA ( SUGESTÃO  )



• Imagem suave da mata à noite, com brilho sutil representando os Mensageiros.

• Pequeno texto de apresentação (orelha condensada).

• Espaço para código ISBN.

• Assinatura discreta: Nhenety Kariri-Xocó.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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