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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

BATSOMYÁ BOHÉ WODERÁEHÓ, A VIDA CULTURAL E SOCIAL NA RUA






A Vida Cultural e Social na Rua

A antiga Natiá, a Aldeia dos Uanieá Kariri-Xocó, acordava todos os dias com o mesmo sopro da terra, ainda que seus olhos agora vissem mudanças. Onde antes só havia caminhos de barro e casas de palha, surgiram as Erácró, casas de pedra e alvenaria. Vieram também os Hinebakró, postes de luz elétrica, iluminando a noite e alterando o silêncio antigo. Assim, pouco a pouco, a aldeia virou Natierácró, uma cidade.


Mesmo com as transformações, o coração do povo não se afastou de suas raízes. Ao norte da cidade, os anciãos decidiram erguer uma nova Natianie, uma aldeia indígena que guardasse os Kenhéá, os costumes tradicionais, ainda que misturados aos elementos do mundo dos brancos. Ali, o passado e o presente aprenderam a caminhar juntos.


O Tseho, o povo, cresceu. As famílias aumentaram, novas casas surgiram, e foi preciso organizar as Woderáehó, as ruas da aldeia. Essas ruas não eram apenas caminhos: eram lugares de encontro, de troca, de vida cultural e social, onde a Batsomyá, vida cultural pulsava em cada gesto coletivo.

Em uma dessas ruas vivia Samany, ceramista de mãos firmes e olhar atento.


Desde cedo aprendera com as mais velhas a conversar com o barro. Na Ruñohú,  cerâmica ela moldava potes, panelas e figuras que carregavam histórias. Ao seu lado, sempre atentos, estavam os jovens Rayane e Tanauá, aprendizes curiosos, que observavam cada movimento, cada silêncio, cada ensinamento que não precisava de palavra.


Mais adiante, sob a sombra de um juazeiro antigo, trabalhava Akinoã, artesão respeitado. Seu Buruhúá, artesanatos nascia da madeira, da palha e da fibra retirada com cuidado da natureza. Ele ensinava que o artesanato não era só trabalho, mas respeito: à terra, aos espíritos e aos que viriam depois. Rayane e Tanauá também passavam horas ali, aprendendo a ouvir antes de fazer.


Durante o dia e à noite, o povo se reunia nas Okenerá, as portas das casas. Ali se conversava, se ria e se contavam Woroyá, histórias antigas que atravessavam gerações. As Inghéá, crianças da aldeia, enchiam as ruas com suas Benhekié, brincadeiras que misturavam Kaiworaí, cantigas de roda dos brancos, com as Kauanieá, cantigas indígenas que ecoavam como reza e alegria.


Entre uma casa e outra, os Keríerá, animais domésticos caminhavam livres: o Curé, porco; o Igaborou, cavalo; o Cradzó, boi; o Wathõ, bode; a Erintuca, ovelha; o Irerê, pato; e o Sabucá, galo. Eles faziam parte da aldeia tanto quanto as pessoas, cruzando as ruas sem pressa, como se também conhecessem o valor daquele lugar.


As mudanças traziam novos sons e imagens. Passavam pela aldeia a Ibákabaru, a carroça de burro; a Ibaworóbi, bicicleta; o Ibápohdu, automóvel; e a Ibaranú, moto. Eram sinais claros de que o mundo dos brancos estava cada vez mais próximo. Ainda assim, nas Woderáehó, permanecia viva a imagem das pessoas trabalhando, criando, ensinando.


Samany dizia aos aprendizes que o barro guarda memória. Akinoã ensinava que a madeira sente quando é respeitada. Rayane e Tanauá aprendiam que viver na rua da aldeia era mais do que ocupar espaço: era pertencer, cuidar e continuar.


E assim, entre luz elétrica e cantiga antiga, entre carro e carroça, entre cidade e aldeia, o povo Kariri-Xocó seguia vivendo. Porque enquanto houver rua com história, mãos que criam e jovens que aprendem, a Batsomyá Bohé Woderáehó — a vida cultural e social no Rua — jamais deixará de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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