Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.
Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.
Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.
Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.
— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.
— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.
O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.
Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.
— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.
As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.
Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.
Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.
E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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