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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

HEHÉ PAHAEMPÁ – ESCORREGAR NO BARRANCO MOLHADO






Quando vinham as Pehóá, as grandes enchentes do Opará, ainda não existia na Naticróraí, a cidade, o Oncródzu, o cais de pedra. Naquele tempo, o rio falava direto com a terra, e o Pahankó, o barranco de barro cru, era parte da nossa vida. Era ali que acontecia o Hehé Pahaempá — escorregar no barranco molhado.


Assim que as águas começavam a subir, a alegria também subia junto. Os Inghéá, os meninos, os Mynhekiá, os rapazes, e as Tibudinã, as moças, se reuniam naquele antigo Kenhé, um costume passado de geração em geração, como se o próprio rio ensinasse.


Primeiro vinha o preparo. Com o Dehebá, o cavador, moldávamos a rampa no barro vivo. Abríamos uma cavidade funda, depois malhávamos a superfície com os pés e com as mãos, alisando o caminho até ficar perfeito para Craraidyó, descer. O barranco ficava liso, escuro, brilhando de água, pronto para o Hehé — o escorregar ligeiro que terminava no abraço frio das Dzuá, as águas do Opará.


Era queda, riso e grito. A Curaempá, roupa toda molhada, e o Dimy Bunhá, o corpo sujo de barro, não eram problema — eram motivo de alegria. Aquele era o tempo da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro. Tempo bom para Buiempá, tomar banho no rio, lavar o corpo e também o espírito.


Para ter segurança de não ter ferimentos havia uma grande minúcia na verificação de pedras no barro, retirando detritos pedregosos ficando somente a argila macia umedecida com água,  assim a rampa estava pronta para a brincadeira. 


O Opará corria forte, largo, como se sorrisse com a nossa brincadeira. Cada escorregada era um desafio, cada mergulho uma vitória. O barro grudava na pele, o riso ecoava pelas margens, e a memória se escrevia sem papel, direto no coração.


Depois, o tempo mudou. Veio o prefeito, veio o Oncródzu, o cais de pedra. O barranco desapareceu, e com ele aquele lugar exato da brincadeira. Mas o Opará continuou grande. O rio não esquece seus filhos.


E quando as águas voltarem a subir, nós saberemos: acharemos outros barrancos, outros caminhos, outros lugares para viver de novo o Hehé Pahaempá — porque enquanto o rio existir, a memória não morre.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




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