Naquele fim de tarde em que o sol já se escondia atrás das árvores do Opará, a jovem Namuãny sentou-se perto da fogueira, observando o velho Bidzamu, o Pajé, preparar seus remédios de folhas, raízes e palavras antigas. O cheiro da lenha queimando misturava-se ao silêncio respeitoso da aldeia.
Com o coração inquieto, Namuãny rompeu o silêncio:
— Bidzamu, é verdade que todas as Saicrã, as doenças, foram trazidas pelos Caraí, os brancos?
O velho Pajé ergueu os olhos devagar, como quem busca respostas no tempo antigo. Passou a mão enrugada sobre o rosto e respondeu com voz firme, porém serena:
— Não, Namuãny. Nem todas. Algumas Saicrã já moravam nesta terra antes dos Caraí chegarem. Outras, sim, foram as que aqui vieram, as Boighytéá.
Ele então começou a contar o que aprendeu com seus ancestrais, palavras guardadas como sementes.
Disse que os parentes Tupi da Aindzubé, da beira do mar, já conheciam certas doenças desde tempos imemoriais.
Falavam da Pereba, a ferida que não fecha; da Akubaby, as febres e a malária que enfraquecem o corpo; da Seba, os vermes que roubam a força das crianças; do Vupir, a doença silenciosa do coração; e da Poxi, que mancha o corpo e o destino.
— Essas — explicou Bidzamu — já caminhavam conosco antes do primeiro Caraí pisar nesta terra.
Mas o Pajé também falou das doenças que chegaram com os passos estrangeiros, trazidas nas roupas, na respiração e no contato forçado. Os Kariri do Opará logo perceberam sua presença cruel:
a Aba-póra, a peste que varria aldeias;
a Uhu, a gripe que derrubava fortes guerreiros;
os Borôrus, as bexigas que marcavam a pele e a memória;
a Tatapora, que atacava as crianças;
as Dsebudana, febres sem nome;
a Baekla, a tosse longa da tuberculose;
e a Wonghecri, a doença da mente, que confundia o espírito.
— Essas — disse o Pajé, abaixando a cabeça — chegaram com o mundo que mudou tudo.
Por muito tempo, as Saicrã levaram parentes, deixando aldeias em luto. Mas o tempo também trouxe caminhos de cura. Com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, surgiu uma enfermaria, remédios e novas formas de cuidado, somando-se ao saber antigo dos Pajés.
Hoje, contou Bidzamu com esperança, a Aldeia Kariri-Xocó tem um Polo Base de Saúde, com médico, dentista, enfermeira, técnicos e agentes de saúde. Um espaço inaugurado em 15 de maio de 2014, símbolo de resistência, sobrevivência e continuidade da vida.
O fogo da fogueira já virava brasa quando o Pajé concluiu:
— Enquanto houver memória, palavra e cuidado, nosso povo seguirá curando o corpo e o espírito.
Namuãny ficou em silêncio. Agora entendia que a história das doenças era também a história da luta e da permanência de seu povo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário