FALSA FOLHA DE ROSTO
THYDEWÁ SAMYSÃ CORAM
NA CULTURA DIGITAL DA ESPERANÇA
VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO
Este livro reúne narrativas que nascem da experiência vivida nas aldeias indígenas do Nordeste brasileiro, especialmente entre o povo Kariri-Xocó, às margens do rio Opará.
Os contos apresentam momentos marcantes da caminhada indígena no encontro entre tradição ancestral e tecnologias digitais, destacando iniciativas culturais, educativas e comunicacionais que fortaleceram a identidade e a voz dos povos originários.
FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)
THYDEWÁ SAMYSÃ CORAM
NA CULTURA DIGITAL DA ESPERANÇA
Contos sobre memória, tecnologia e resistência cultural indígena.
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
Arapiraca – Alagoas
Brasil
FICHA CATALOGRÁFICA
(Modelo utilizado em bibliotecas e editoras)
Nhenety Kariri-Xocó
Thydewá Samysã Coram: na cultura digital da esperança /
Nhenety Kariri-Xocó. — Brasil, 2026.
Livro de contos que narram experiências culturais indígenas relacionadas à comunicação digital, memória coletiva, educação intercultural e fortalecimento das identidades indígenas no Nordeste brasileiro.
Inclui glossário.
ISBN: (a ser atribuído futuramente caso publicado oficialmente)
Assuntos:
Povos indígenas — Brasil
Cultura indígena — Nordeste brasileiro
Comunicação digital indígena
Literatura indígena contemporânea
Memória cultural indígena
Tradição oral indígena
CDD — 980.41 (História dos povos indígenas da América)
DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos anciãos e anciãs de meu povo Kariri-Xocó, guardiões da memória e da palavra antiga.
Dedico também às crianças indígenas, que hoje caminham entre dois mundos — o da tradição e o da tecnologia — levando adiante a esperança da continuidade cultural.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos parentes e amigos que caminharam juntos na construção dessas experiências coletivas.
À ONG Thydêwá, que acreditou na força da palavra indígena e ajudou a abrir caminhos para que nossas vozes atravessassem as aldeias e chegassem ao mundo.
Aos povos irmãos Pataxó Hãhãhãe, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá, Truká e Kiriri, que compartilharam saberes, cantos e histórias nessa jornada.
Aos professores, mestres da cultura, crianças e jovens que fizeram da tecnologia um instrumento de fortalecimento da identidade indígena.
EPÍGRAFE
"A tradição não morre quando encontra novos caminhos.
Ela apenas aprende novas formas de caminhar."
— Sabedoria das margens do Opará
SUMÁRIO
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Sumário
Prefácio
Apresentação
Introdução
Palavra do Autor
Contos ( 01 a 10 )
01 — Uanieá Ubi Uanieá — Índios na Visão dos Índios.
02 — Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line.
03 — Cunhenhéá Samy — Os Pontos de Cultura.
04 — Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas.
05 — Kaie Pitéibá — O Diário na Rede em Bordo.
06 — Wipokié Aindzu — Atravessando o Mar.
07 — Samyonhé Wonhéá Torá — Gravação dos Cantos de Toré.
08 — Tokliddaysã Uanieá — Celulares Indígenas.
09 — PUTOB — A Rede que Virou Risada.
10 — Buruhú Idzebae — Arte Eletrônica Indígena.
Apêndices
Mapa Cultural das Aldeias
Linha do Tempo da Cultura Digital Indígena
Manifesto da Cultura Digital Indígena
Glossário
Significado Histórico da Obra
Dados Biográficos do Autor
Sobre a Obra
Orelha do Livro
Canto Final do Opará
PREFÁCIO
Este livro nasce do encontro entre dois rios: o rio da tradição e o rio da tecnologia.
Durante muito tempo acreditou-se que os povos indígenas pertenciam apenas ao passado. Porém, ao longo das últimas décadas, comunidades indígenas demonstraram que tradição e modernidade não são caminhos opostos, mas trilhas que podem caminhar lado a lado.
Nas páginas desta obra, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que revelam como a cultura indígena encontrou novas formas de expressão por meio da escrita, da fotografia, da internet e da produção audiovisual.
Os contos reunidos aqui não são apenas histórias. São testemunhos de um tempo em que jovens indígenas passaram a contar suas próprias narrativas, registrar suas memórias e dialogar com o mundo digital sem abandonar suas raízes.
Mais do que um livro de contos, esta obra é um registro da esperança cultural indígena na era digital.
APRESENTAÇÃO
A cultura indígena brasileira sempre foi transmitida principalmente pela oralidade. As histórias eram contadas ao redor das fogueiras, nas margens dos rios e nas rodas de convivência das aldeias.
Com o passar do tempo, novas ferramentas surgiram: câmeras, computadores, redes digitais e plataformas de comunicação.
Essas tecnologias, quando apropriadas pelos próprios povos indígenas, tornaram-se instrumentos poderosos de preservação cultural e afirmação identitária.
Este livro apresenta alguns momentos dessa caminhada, narrados em forma de contos inspirados em experiências reais vividas nas comunidades indígenas do Nordeste brasileiro.
INTRODUÇÃO HISTÓRICA
A Cultura Digital Indígena no Brasil
Durante séculos, os povos indígenas foram retratados principalmente como parte do passado da história brasileira. Essa visão ignorava a vitalidade e a capacidade de transformação dessas culturas.
A partir das últimas décadas do século XX e do início do século XXI, um fenômeno importante começou a ganhar força: a apropriação das tecnologias digitais por comunidades indígenas.
Computadores, câmeras de vídeo, gravadores digitais, internet e telefones celulares passaram a ser utilizados como instrumentos de registro cultural, educação e comunicação.
Esse movimento ficou conhecido por alguns pesquisadores como cultura digital indígena.
Nesse contexto, diversos projetos surgiram em diferentes regiões do Brasil com o objetivo de estimular o protagonismo indígena na produção de conteúdos culturais e educativos.
Entre essas iniciativas destacam-se:
projetos de literatura indígena produzida por jovens e crianças,
redes de comunicação digital entre comunidades indígenas,
produção de vídeos e documentários realizados pelos próprios indígenas,
registros sonoros de cantos tradicionais,
criação de blogs e portais de comunicação indígena.
Essas experiências demonstraram que as tecnologias digitais não representam necessariamente uma ruptura com as tradições culturais. Pelo contrário, podem funcionar como ferramentas de preservação e transmissão de conhecimentos ancestrais.
Ao utilizar câmeras, celulares e redes digitais, muitos povos indígenas passaram a registrar seus próprios rituais, histórias, cantos e saberes, criando novos arquivos de memória coletiva.
Nesse processo, a comunicação digital tornou-se também um território cultural.
Assim como os povos indígenas defendem seus territórios físicos, passaram também a ocupar os territórios simbólicos da informação e da comunicação.
O livro “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança” insere-se nesse movimento histórico.
As narrativas reunidas nesta obra apresentam experiências vividas por comunidades indígenas que decidiram utilizar a tecnologia como instrumento de fortalecimento cultural.
Mais do que registrar acontecimentos, os contos mostram como tradição e inovação podem caminhar juntas.
Dessa forma, a obra torna-se também um documento importante da história recente da comunicação indígena no Brasil.
PALAVRA DO AUTOR
Eu nasci às margens do Opará, o rio que muitos conhecem como São Francisco.
Desde criança aprendi que as histórias são como água: quando param de correr, desaparecem.
Por isso sempre procurei contar o que ouvi dos mais velhos e o que vivi junto ao meu povo.
Com o tempo percebi que as histórias também poderiam viajar por novos caminhos: livros, fotografias, vídeos e, mais tarde, pela internet.
Foi assim que nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo, onde as palavras passaram a navegar pelo mundo digital.
Este livro reúne algumas dessas memórias transformadas em contos.
Não são apenas lembranças pessoais.
São pedaços da caminhada coletiva de muitos povos indígenas que decidiram ocupar também os territórios da comunicação e da tecnologia.
Se estas histórias chegarem a outras pessoas e ajudarem a compreender melhor a riqueza das culturas indígenas, então o arco digital terá cumprido seu caminho.
CONTOS ( 01 a 10 )
01. UANIEÁ UBI UANIEÁ, ÍNDIOS NA VISÃO DOS ÍNDIOS
No ano em que o mundo virou o número e chamou de dois mil, algo antigo voltou a respirar entre os povos. Não foi projeto apenas, nem livro apenas. Foi escuta.
A Thydêwá ONG que significa Esperança da Terra, no qual Sebastian, Nhenety são membros, chegou como quem acende uma fogueira no centro da aldeia e disse, sem impor:
— Agora são vocês que vão falar, escrever sua próprias histórias, fotografar. Assim nasceu Índios na Visão dos Índios.
Um nome que não veio pronto, mas brotou da como raiz que insiste em viver mesmo depois de tanta terra remexida.
As mãos que escreveram eram pequenas e jovens, mas carregavam histórias grandes. Crianças e jovens Pataxó Hâhãhãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká sentaram para contar o que sabiam, o que viam, o que sentiam. Escreveram sobre cidadania, direitos humanos, ecologia, diversidade cultural — mas, sem saber, escreviam também sobre dignidade.
Nós, mais velhos, caminhávamos junto.
Não como donos da palavra, mas como parentes que ajudam a segurar o papel, a organizar o caminho, a proteger a voz para que ela não fosse silenciada outra vez. A história era deles. Sempre foi.
Os livros ganharam pernas.
As palavras saíram das aldeias e foram visitar cidades, escolas, salas cheias de espanto. Sebastian, Nhenety, Limbo e tantos outros parentes acompanharam essas crianças e jovens, apresentando não uma cultura congelada, mas viva, falada por quem a vive.
Os Kariri-Xocó posteriormente na revitalização da língua dão o nome essa iniciativa anos depois segunda a tradução como Uanieá Ubi Uanieá "Índios na Visão dos Índios, não é apenas uma coleção de livros mas, muito mais. A aventura iniciou como uma colecao e foi crescendo como cresce uma floresta... foi se diversificando e dando frutos... Uma floresta que segue viva ate hoje.
Quem ouvia estranhava.
Quem escrevia se reconhecia.
Entre os Kariri-Xocó, cada palavra escrita ajudava a levantar a língua que o tempo tentou calar. Nomear o mundo novamente era um ato de retomada. Era dizer, com firmeza: ninguém mais falará por nós sem nos ouvir.
Na atualização poderíamos dizer: Uanieá Ubi Uanieá "Indígenas na Visão Indígena" porque são os nativos do Brasil não é da Índia país asiático.
Foi o primeiro passo de muitos escritores indígenas que ainda eram crianças, mas já sabiam que sua história merecia existir no papel.
Ali começou um tempo novo, a Thydêwá com Sebastian Gerlic apoia a Revitalização da Língua Kariri-Xocó junto a Escolinha Subatekié Nunú com amigos externos.
O tempo em que o nativo se vê com seus próprios olhos.
02. PITÉ UANIEÁ PITEIATEKIÉ, REDE ÍNDIOS ON-LINE
Naquele tempo em que o mundo ainda caminhava mais devagar nas aldeias, quando o canto do pássaro era o aviso da manhã e a palavra corria de boca em boca, algo novo começou a se anunciar no horizonte. Não veio pelo vento nem pelo rio, mas por fios finos, quase invisíveis, que atravessavam cidades, serras e sertões.
Foi assim que os povos Kariri-Xocó, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Pataxó-Hãhãhãe decidiram se encontrar — não num terreiro comum, mas num espaço ainda desconhecido. Um portal. Uma porta aberta para o diálogo entre etnias, saberes e sonhos. Era o ano de 2004, e a aliança nascia com o propósito de fortalecer culturas, trocar experiências e afirmar cidadania em tempos de mudança.
A semente dessa ideia foi plantada pela ONG Thydêwá, que deu nome ao sonho: Índios On-Line. Com apoio e parcerias que vinham de longe — ministérios, programas culturais e patrocinadores — o portal cresceu e foi reconhecido como Ponto de Cultura Viva, pulsando saber ancestral em linguagem digital.
Quando a Internet chegou às aldeias, não foi apenas uma máquina que entrou. Entrou o espanto, a curiosidade, o medo e a coragem. Entrou a possibilidade de falar com o mundo sem sair da terra. Entrou o desafio de manter viva a língua, agora também escrita em telas.
Anos depois, os Kariri-Xocó batizaram aquele caminho novo com palavras próprias, nascidas da língua e do pensamento ancestral: Pité Uanieá Piteiatekié, Rede Índios On-Line.
A Rede Índios On-Line.
Pité era rede.
Iabae, juntar.
Subatekié, conhecimento.
Crametekié, a caixa do saber — o computador.
Assim, a Internet ganhou alma indígena: a rede de juntar conhecimento.
Hoje, muita coisa mudou. O que antes era novidade virou costume. A conexão cabe no bolso, ilumina a sala, fala pela televisão. Mas aquele primeiro momento ficou marcado na memória das aldeias como um tempo de travessia — quando o saber antigo encontrou o novo caminho e decidiu caminhar junto, sem se perder de si.
Porque rede não é só fio.
Rede é gente.
Rede é palavra que circula.
Rede é cultura viva que não se cala.
03. CUNHENHÉÁ SAMY, OS PONTOS DE CULTURA
Quando o tempo ainda caminhava de mãos dadas com a memória, a comunidade Kariri-Xocó começou a perceber que a cultura também precisava de cuidado, como se cuida de uma roça antiga ou de um rio que ensina a pescar. Foi assim que surgiram os Pontos de Cultura — não como prédios ou papéis, mas como lugares vivos de encontro.
Ao longo dos anos a Thydêwá ONG atuou nos Pontos de Cultura Índios On-Line e o PCI - Ponto de Cultura Indígena e a Associação Comunitária Indígena Bom Sucesso Kariri-Xocó no Ponto de Cultura Horizonte Circular.
Os mais velhos diziam que cada Ponto era um fogo aceso no meio da aldeia. O primeiro clarão veio em 2005, quando a Rede Índios On-Line chegou como Pité Uanieá Piteiatekié, abrindo caminhos para que a palavra indígena atravessasse o mundo sem perder o chão. Depois, em 2009, o Horizonte Circular — Ubíniworó — ensinou que o saber não anda em linha reta, mas gira, volta, escuta e retorna mais forte. Em 2011, o coração bateu mais alto com o Ponto de Cultura Indígena Cunhenhéá Samy Uanie, Ponto de Cultura Indígena, onde a língua e a memória passaram a caminhar juntas.
Na Erátekié Uanie, a Escola Indígena, os saberes antigos entraram pela porta da frente. Vieram os Dubuheríá Samy, Mestres da Cultura, trazendo histórias guardadas no peito. O Duboheri Mydzé, Mestre da Pescaria, ensinava a ler o rio como quem lê um livro antigo. Os Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, moldavam a tradição com as mãos, enquanto a Duboheridé Ruñohú, Mestra da Cerâmica, conversava com o barro como quem conversa com um parente.
Os jovens recebiam Pohiesawa, a câmera de vídeo, e Waruaerã, a câmera fotográfica. Com elas, aprenderam que a tecnologia também pode ser parente da tradição. Registravam cantos, gestos, histórias e risos. À noite, na praça da comunidade, as imagens ganhavam vida no projetor, e o passado se sentava ao lado do presente para olhar o futuro.
Assim, os Pontos de Cultura aproximaram os anciãos dos alunos, os contadores de histórias dos professores, a aldeia da escola. Não deixaram apenas registros ou projetos concluídos, mas um legado de saberes, onde a língua Kariri-Xocó voltou a respirar nas palavras, nos olhos e na escuta das novas gerações.
E até hoje, quem caminha pela comunidade sabe: ali existem pontos invisíveis, marcados não no mapa, mas na memória viva do povo.
04. WONHÉ SAMYÁ UANIEÁ, CANTANDO AS CULTURAS INDÍGENAS
No Batti, ano de 2003, quando o vento soprava histórias antigas pelas margens do Opará, algo novo começou a nascer nas aldeias.
A ONG Thydêwá, com o patrocínio do BNDS através do Programa de Apoio a Crianças e Jovens em Situação de Risco Social, trouxe não apenas um projeto — trouxe um reencontro. Chamava-se Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas.
Não era apenas cantar. Era lembrar. Era acordar a memória adormecida nas vozes das Inghéá, as crianças que carregavam no peito a batida do maracá e o ritmo da terra.
Mais de três mil e quinhentas crianças das comunidades Pataxó HãHãHãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká reuniram-se em roda, cada povo trazendo seu canto, sua dança, sua história guardada no tempo.
As Duboheridéá — as professoras — e o Duboherí Nhenety, junto com Sebastian, conduziam as rodas como quem acende fogueiras. Mas quem fazia o fogo crescer eram as próprias crianças.
Nos ensaios, os pés marcavam o chão como quem escreve no barro.
As mãos batiam no compasso da ancestralidade.
As vozes ecoavam além das aldeias.
Não falavam apenas de música.
Falavam de Cidadania.
Falavam de Direitos Humanos.
Falavam de Ecologia.
Falavam da Diversidade Cultural que forma o verdadeiro Brasil.
O primeiro grande encontro aconteceu na aldeia Kariri-Xocó. Os Etçamyá — parentes de outros povos — chegaram trazendo pinturas no corpo e alegria no olhar. A Erátekié Uanie — Escola Indígena — tornou-se casa de todos.
Ali, os cantos se misturaram como rios que se encontram.
E daquele encontro nasceu algo que poderia atravessar o tempo:
o Tonranran — o livro Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas — e o Craiwonpiwon — o CD com os cantos que agora podiam viajar para além das aldeias.
Mas o maior fruto não estava no papel nem no disco.
Estava nas crianças que descobriram que sua cultura não era passado.
Era presente.
Era futuro.
Era força.
E assim, naquele Batti de 2003, as vozes indígenas cantaram juntas — não para pedir espaço — mas para lembrar ao Brasil que sempre estiveram aqui.
E continuam cantando.
05. KAIE PITÉIBÁ — O DIÁRIO NA REDE EM BORDO
Nas margens do sagrado Opará, o velho rio que os não indígenas chamam de São Francisco, a água não corre apenas — ela conversa.
O Opará lembra.
Ele viu passar gerações Kariri-Xocó. Viu crianças se tornarem anciãos. Viu histórias nascerem ao redor da fogueira. E foi ele quem primeiro ouviu a voz de Nhenety.
Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, vivia o Worobü Woroyá Toklikli — o Contador de Histórias Oral. Seu nome era Nhenety, que significa tradição, ser lembrado.
Desde cedo, os mais velhos diziam: — Esse menino carrega memória nos olhos.
Quando Nhenety narrava as histórias dos antigos, o vento parecia diminuir para escutar. As crianças sentavam ao seu redor. Jovens, pesquisadores e estudantes vinham de longe para ouvir sobre os Kariri-Xocó e os povos do Baixo São Francisco.
Mas um dia o próprio Opará percebeu algo diferente no ar.
No ano de 2004, chegaram à aldeia fios invisíveis. Chamavam-se Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line. Junto veio a Piteiatekié — Internet — e o Crametekié — Computador.
Alguns temeram que a máquina silenciasse a palavra.
Mas naquela noite, sentado à beira do rio, Nhenety escutou o sussurro das águas:
— A tradição não morre quando muda de forma. Ela apenas encontra novos caminhos.
Foi então que, em 2007, ele deu nome ao novo tempo: Seridsã — o Arco Digital.
Se antes o arco lançava flechas, agora lançaria palavras.
Se antes a canoa deslizava pelas águas do Opará, agora navegaria pelas águas invisíveis da rede.
Nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo.
Cada texto publicado era como uma oferenda ao rio. Cada conto era uma reza escrita. Cada cordel era uma flecha lançada para além das fronteiras.
O blog KX Nhenety tornou-se canoa digital.
KX de Kariri-Xocó.
Nhenety, o guardião da memória.
E o Opará sorriu.
Porque entendeu que agora as histórias não viajariam apenas pelo vento, mas também pela luz.
E assim, tradição e tecnologia passaram a caminhar juntas, como dois pés na mesma trilha.
Enquanto o rio correr, enquanto houver palavra, o Kaie Pitéibá continuará navegando.
06. WIPOKIÉ AINDZU — ATRAVESSANDO O MAR
No Tudenhé, no tempo antigo que mora na memória dos mais velhos, muitos Caraí, brancos cruzaram o Aindzu, grande mar e chegaram às nossas Radá, terra. Vieram em navios altos como montanhas flutuantes, trazendo bandeiras, mapas e promessas que o vento levou.
Mas o Radda Iworó, mundo gira como o Toré.
E chegou o Uché dos Uanieá, Tempo dos Indígenas.
Chegou o tempo em que os filhos da Radá, terra decidiram conhecer o Radda Saidzá — o mundo deles. Não para conquistar, não para tomar, mas para cantar, ensinar e lembrar que a terra tem espírito.
Assim começou Wipokié Aindzu Yeemerãkié — atravessando o mar de avião.
Quando o pássaro de ferro cortou as Arankedzoá, nuvens pela primeira vez, os corações bateram como maracás. Não era fuga. Era retorno de dignidade. Era intercâmbio de mundos.
No ano de 2003, e depois em 2005, a ONG Thydêwá abriu Woré Arankedzoá, caminhos do céu. Sete prefeituras, o CISA, o MDH e a RELACS ajudaram a tecer essa ponte invisível entre continentes. Cinco indígenas atravessaram o Aindzu, oceano e pousaram nas Mair Naticróraí da França.
A Turnê chamava-se Índios na França.
Levaram Buruhúá, artesanatos feitos com mãos que conhecem a madeira e a fibra como parentes.
Levaram Dakloná, adornos que brilhavam como o sol sobre o rio.
Levaram Wonhé — os Cantos do Toré — que ecoaram além-mar
Quando chegaram a Paris, olharam para o alto e viram a grande estrutura de ferro tocar o céu. O povo de lá a chamava de Torre Eiffel.
Mas eles sorriram.
— Yebewó Meratá — disseram.
O Grande Tronco de Ferro.
E naquele instante, a torre deixou de ser apenas monumento. Tornou-se árvore de outro território.
Os cantos do Toré dançaram sob o céu francês. O mar já não era distância. Era ponte.
Em 2018, novo voo rasgou as nuvens rumo à Radá Ingueré — a Terra dos Ingleses. Com apoio do Fundo de Cultura da Bahia e acolhimento da Universidade de Leeds, os Uanieá chegaram ao Reino Unido.
Lá, entre prédios antigos e ruas de pedra, ergue-se um relógio que marca as horas do mundo. O povo de lá o chama de Big Ben.
Mas os indígenas olharam para ele com outro entendimento.
— Yeiwouché — disseram.
O Grande Relógio, Roda do Tempo.
Enquanto o sino ecoava sobre Londres, marcando o tempo oficial dos impérios, os filhos da Radá sentiam outro tempo pulsar dentro de si — o tempo do Toré, o tempo da memória, o tempo da ancestralidade.
O Yeiwouché marcava horas.
Lá, na terra da névoa, o Toré também encontrou espaço.
Nas viagens participaram Tibiriçá, Ayrá, Atyá, Mayá, Tawanã, Xumalhá, Aranawí — filhos das etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pataxó-Hãhãhãe. Não iam como visitantes silenciosos. Iam como povos vivos.
Mostraram que o Nordeste brasileiro pulsa em canto, artesanato e memória.
Mostraram que a cultura não é passado — é presença.
No Tudenhé, os Caraí atravessaram o mar para chegar às nossas Radá.
Agora, no Uché dos Uanieá, somos nós que atravessamos.
Não como vencidos.
Mas como cantadores de mundos.
Porque Wipokié Aindzu não é apenas atravessar o mar.
É atravessar o tempo.
É transformar distância em diálogo.
É lembrar ao mundo que a cultura indígena não ficou na história — ela voa.
E quando o avião pousa, o Toré continua dançando dentro do peito.
07. SAMYONHÉ WONHÉÁ TORÁ, GRAVAÇÃO DOS CANTOS DE TORÉ
No Uché Tudenhé — o Tempo Passado — o Wonhéá Torá, cantos sagrados vivia guardado onde nenhum vento apaga e nenhuma chuva leva: na Samy Bohé, a Memória Social do povo.
Não existia Cramycá Bydimerakró, caixa com chip.
Não havia botão para apertar.
O som morava no peito.
A gravação era feita no coração das Atseá, pessoas,
Os Duboheâra, Mestres do Canto, ensinavam olhando nos olhos.
O ritmo nascia no chão batido.
O Toré ecoava nas noites claras, e cada criança aprendia ouvindo, repetindo, sentindo.
Mas o Barae Uché — o Novo Tempo — chegou como vento diferente.
Veio trazendo novidades que brilhavam como estrela moderna.
Chegou a ONG Thydêwá, trazendo junto o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.
E disseram:
— Vamos registrar o que já vive há séculos.
— Vamos guardar no Iworó, disco, aquilo que já mora na alma.
Então a comunidade se reuniu.
Chamaram os Duboheâra e as Atseá, mestres e pessoas:
Seregé, Soyré, Nhenety, Wiriçá, Geriçá, Taréiçá, Kayanã, Eruanã, Wrwray, Anoráya, Ynoraya, Iraçá, Kayane, Suirana e Wyrayane.
Cada nome era um som.
Cada voz era uma raiz.
Gravaram o Craiwonpiwon — o CD Kariri-Xocó Canta Toré.
Gravaram também o Craiwopewa — o DVD Toré Som Sagrado.
Não era apenas tecnologia.
Era memória atravessando o tempo.
Na Bechiéá de Wiriçá, o parente generoso que abriu sua roça como quem abre o coração, levaram Amí, Uttihu e Riné, comida, carne e frutas.
Fizeram Buyê mó torá Toré — acenderam a fogueira.
E ali, sob o céu testemunha, o Toré foi dançado como sempre foi.
O fogo iluminava os corpos.
O canto iluminava o espírito.
A câmera registrava.
Mas o verdadeiro registro continuava sendo feito na Samy Bohé.
Foram dois mil Iworó espalhando o canto sagrado.
E quando o vídeo foi exibido na praça da aldeia, diante da comunidade reunida, não era apenas uma tela que brilhava —
Era o povo vendo a si mesmo.
Era o passado conversando com o futuro.
Era o Uché Tudenhé abraçando o Barae Uché.
E assim ficou gravado:
Não apenas no disco.
Não apenas na imagem.
Mas na eternidade da cultura.
O Wonhéá Torá continua.
Vive na memória.
Vive na tecnologia.
Vive no povo.
E enquanto houver fogueira acesa e voz que cante,
o Toré jamais se apagará.
08. TOKLIDDAYSÃ UANIEÁ, CELULARES INDÍGENAS
Na Woderáehó Uanieá “Rua dos Índios”, quando o vento ainda soprava histórias nas portas de madeira e as crianças corriam livres entre as casas simples, o mundo era outro.
Ali, na Atseuróché “Geração X”, o som que atravessava o tempo vinha do Benheokli — o “Telefone de disco, analógico”. Cada número girado parecia um pequeno ritual. O clique giratório era como um maracá mecânico chamando vozes distantes.
O Benheokli não era apenas um aparelho. Era ponte. Era espera. Era saudade que se escutava no fio.
Mas o tempo corre como o Opará, e as gerações mudam como as margens do rio.
Quando o povo já morava na Wanheré Uanhí “Fazenda Sementeira”, surgiu o Tokliddaysã — o “Telefone Celular”. Era a Atseuróché “Geração Y / Millennials”. O mundo já cabia na palma da mão. As mensagens viajavam invisíveis pelo ar, como espíritos leves cruzando o céu.
O que antes precisava de fio, agora voava.
E então, na Atseuróché “Geração Z”, algo ainda mais bonito floresceu.
No ano de 2009, a Thydêwá, formada por indígenas de diferentes etnias aliados a não indígenas, idealizou um projeto que unia tradição e tecnologia: Tokliddaysã Uanieá — “Celulares Indígenas”.
O objetivo não era apenas usar o aparelho.
Era contar histórias.
Era registrar memórias.
Era fortalecer identidades.
Nascia ali uma nova forma de oralidade: a imagem em movimento feita pela própria aldeia.
Sessenta indígenas foram formados na produção de celumetragens — curtas-metragens gravados pelo Tokliddaysã. Cada vídeo era uma flecha digital lançada ao mundo.
E tudo se conectava à Pité Uanieá Piteiatekié — “Rede Índios On-Line”, que expandia saberes pelo Brasil afora e criava presença no território virtual.
Assim surgiu também o canal Índios On-Line no YouTube, onde a palavra indígena ganhou tela, voz e autonomia.
A Aldeia Kariri-Xocó participou desse movimento com orgulho.
Os jovens Nhenety e Ayrá foram contemplados. Receberam seus Tokliddaysã como instrumentos de memória e futuro.
Outros parentes também caminharam juntos nesse projeto:
os Tupinambá,
os Pankararú,
os Pataxó-Hãhãhãe
e os Pataxó.
Não era apenas tecnologia.
Era retomada.
Se antes o Benheokli levava a voz pelo fio,
agora o Tokliddaysã levava a identidade pelo mundo.
A língua Kariri-Xocó, revitalizada, ganhou nova morada:
a tela iluminada.
O que era invisível passou a ser visto.
O que era silenciado passou a narrar.
O que era memória tornou-se arquivo vivo.
E assim, entre o som giratório do disco antigo
e o toque suave da tela sensível,
o povo Kariri-Xocó segue escrevendo sua história —
agora também em pixels.
Porque tradição não é passado.
É raiz que aprende a florescer em qualquer tempo.
09. PUTOB, A REDE QUE VIROU RISADA
Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do velho Opará, havia um tempo em que o artesanato era silêncio e espera. As mãos sabiam fazer, mas o mundo ainda não sabia ver.
As mulheres trançavam fibras como quem tecia histórias antigas. Os homens entalhavam madeira como quem desenhava espíritos da mata. As crianças aprendiam observando, pois ali a arte não era ensinada — era herdada no sopro da convivência.
Foi então que chegou uma notícia trazida pelo vento da tecnologia.
A ONG Thydêwá anunciava um projeto que uniria povos distantes por um mesmo fio: Kariri-Xocó, Pankararu, Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá de Olivença. O nome soava leve e forte ao mesmo tempo: Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato.
RISADA.
Alguns sorriram ao ouvir.
— Se é RISADA, que traga alegria — disse um ancião.
E trouxe.
A rede não era feita de cipó, mas de conexões invisíveis. Não era armada entre árvores, mas estendida pela internet. Uma loja virtual nasceu como uma nova oca coletiva, onde os artesanatos não apenas eram vendidos, mas apresentados com dignidade, história e identidade.
Não era comércio comum.
Era troca.
Era articulação.
Era partilha de saberes.
Cada peça carregava mais do que matéria: carregava território, memória, luta e pertencimento.
Com o passar dos anos, o projeto deixou de ser apenas apoio externo e começou a se transformar em autonomia. As comunidades aprenderam a lidar com os novos meios tecnológicos como quem aprende um novo instrumento, sem abandonar o tambor antigo.
A rede cresceu, mas não perdeu sua raiz.
Falava-se então:
— Se RISADA é o nome em português, como seria em nossa língua?
Reuniram-se os guardiões da palavra. Pensaram. Traduziram não apenas letras, mas sentidos.
E nasceu PUTOB – Pité Uanieá Totsouka Buruhúá.
Pité — Rede.
Uanieá — Indígena.
Totsouka — Arte, gente que Inventa com amor
Buruhúá — Artesanato
Não era apenas tradução.
Era reafirmação.
Assim, a RISADA virou PUTOB.
E PUTOB não era só projeto.
Era declaração de que o povo que inventa, inventa junto.
A rede que antes era silêncio tornou-se voz.
A voz tornou-se venda justa.
A venda tornou-se valorização.
E no meio de tudo isso, havia algo maior que o lucro:
a permanência da cultura.
Hoje, quando alguém acessa aquela loja virtual, talvez veja apenas colares, cestarias, esculturas. Mas quem conhece a história sabe: ali não se compra apenas arte.
Compra-se continuidade.
E toda vez que uma peça encontra novo caminho, ecoa na aldeia uma certeza antiga:
A rede está viva.
A invenção continua.
E o povo segue criando — coletivamente.
10. BURUHÚ IDZEBAE – ARTE ELETRÔNICA
Dizem os mais velhos que antes mesmo do Uché Caraí — o Tempo do Homem Branco — a Idzebae Antse já riscava o Aranke, céu.
A eletricidade natural não nasceu dos fios.
Ela nasceu do relâmpago.
Nas Arankedzoá, as nuvens dançavam pesadas sobre o mundo recém-criado. Quando o céu rasgava em clarão, os Uanieá, indígenas, sabiam: era o Radda, mundo, respirando luz. Aquele brilho atravessava o medo e iluminava o escuro das noites antigas. Era o primeiro anúncio de que a energia sempre esteve ali, pulsando entre o céu e a terra.
O tempo passou.
Veio o Uché Caraí, tempo do homem branco.
E com ele, outra luz — a Hinebakró, luz elétrica. Não mais caída do céu em trovão, mas conduzida por fios invisíveis que entraram na Natiá. A aldeia acendeu lâmpadas, e as sombras começaram a contar novas histórias.
Logo chegaram os Hineidzebae, eletrônicos.
Primeiro o Warudókli, televisor que trazia imagens de mundos distantes dentro de uma caixa brilhante. Depois o Pohiesawa, câmera de vídeo que capturava memórias. O Cramycá Samyonhé, gravador guardava vozes. O Craiwonpiwon, CD Player e o Craiwopewa, DVD Player cantavam músicas redondas. A Cramenunhí, geladeira conservava o alimento. O Crametekié, computador abriu portas para universos invisíveis.
E então surgiu a Nikiékliwahi — inteligência que parecia pensar.
Alguns estranharam. Outros temeram.
Mas os jovens observaram com olhos atentos.
Foi quando a ONG Thydêwá chegou trazendo algo diferente: não apenas máquinas, mas propósito.
Nascia o Projeto AEI — Arte Eletrônica Indígena.
Entre os Kariri-Xocó, o nome ganhou outro espírito:
BHU — Buruhú, Hineidzebae, Uanie.
Arte. Eletrônica. Indígena.
Não era tecnologia contra tradição.
Era tradição atravessando a tecnologia.
Nas aldeias Kariri-Xocó e Karapotó, em Alagoas; Pankararú, em Pernambuco; Xokó, em Sergipe; Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Pataxó, na Bahia, algo começou a despertar.
O Pité Mydzé — Rede de Pescar — virou pulsação digital.
O Niú Bydimerakró — Raiz do Chip — gravou o som do maracá, transformando o eco ancestral em onda sonora que viajava pelo mundo.
O Hé Neieta — Árvore dos Desejos — ensinou que o que vem da natureza também pode florescer na tela.
E entre os Kariri-Xocó ecoou a frase que atravessava os cabos invisíveis:
Su Pidéá Netçónu — Eles estão escutando.
Os jovens perceberam que a arte do povo não precisava ficar presa à memória do vento. Ela podia correr pelos fios, viajar pelos satélites, atravessar oceanos digitais.
O relâmpago que antes iluminava as nuvens agora brilhava nas telas.
Mas sua origem continuava a mesma.
A Idzebae Antse nunca deixou o Aranke.
Apenas encontrou novos caminhos para descer até a terra.
E assim, entre trovões antigos e cliques modernos, o povo seguiu criando.
Porque o Buruhú não depende do tempo.
Ele apenas se transforma.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
APÊNDICES
Apêndice A — Sobre a ONG Thydêwá
A Thydêwá é uma organização que atua junto a povos indígenas do Nordeste brasileiro, apoiando iniciativas culturais, educacionais e tecnológicas voltadas ao fortalecimento das identidades originárias.
Ao longo das últimas décadas, a organização colaborou com diversos projetos que estimularam o protagonismo indígena na comunicação, na produção cultural e na revitalização linguística.
Entre essas iniciativas destacam-se:
Índios na Visão dos Índios
Rede Índios On-Line
Pontos de Cultura Indígena
Celulares Indígenas
Arte Eletrônica Indígena
Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato
Esses projetos contribuíram para ampliar a presença dos povos indígenas no campo da comunicação digital e na produção de conhecimento a partir de suas próprias perspectivas.
MAPA CULTURAL DAS ALDEIAS MENCIONADAS NA OBRA
As narrativas reunidas neste livro refletem experiências vividas em diferentes territórios indígenas do Nordeste brasileiro. Ao longo dos projetos culturais e das iniciativas de comunicação digital, várias aldeias e povos participaram de encontros, oficinas e intercâmbios culturais.
Esses territórios formam uma rede de colaboração que ajudou a fortalecer a comunicação indígena e a preservação da memória cultural.
Entre os povos e territórios mencionados nas experiências narradas encontram-se:
Povo Kariri-Xocó
Localização: Porto Real do Colégio, Alagoas
Território situado às margens do rio Opará (São Francisco).
Nesse território ocorreram importantes registros de cantos tradicionais, projetos culturais e iniciativas de comunicação digital indígena.
Povo Xucuru-Kariri
Localização: Palmeira dos Índios, Alagoas
Comunidade conhecida por sua forte tradição cultural e participação em encontros de articulação indígena.
Povo Pankararú
Localização: Sertão de Pernambuco
Povo reconhecido por suas manifestações culturais e rituais tradicionais que também passaram a ser registrados em mídias digitais.
Povo Truká
Localização: Ilha de Assunção, Cabrobó, Pernambuco
Comunidade situada no rio São Francisco, participante de intercâmbios culturais e projetos de comunicação indígena.
Povo Kiriri
Localização: Norte da Bahia
Povo com forte tradição cultural e presença em iniciativas de educação e cultura indígena.
Povo Tupinambá
Localização: Sul da Bahia
Comunidade que participou de redes de articulação cultural indígena.
Povo Pataxó Hãhãhãe
Localização: Sul da Bahia
Importante presença em movimentos de fortalecimento da cultura indígena.
Povo Fulni-ô
Localização: Águas Belas, Pernambuco
Povo conhecido pela preservação de sua língua tradicional e forte identidade cultural.
Esses territórios, espalhados entre Alagoas, Pernambuco e Bahia, formam uma rede cultural que, ao longo dos anos, participou de projetos que uniram tradição, educação e tecnologia.
LINHA DO TEMPO DA CULTURA DIGITAL INDÍGENA
Séculos anteriores
Durante muitos séculos, a transmissão dos conhecimentos indígenas ocorreu principalmente por meio da oralidade, dos cantos rituais, das narrativas dos anciãos e das práticas comunitárias.
A memória cultural era preservada através das gerações.
Década de 1990
Com o avanço das tecnologias digitais no Brasil, algumas organizações e instituições começaram a desenvolver projetos voltados ao uso da tecnologia em contextos educativos e culturais.
Essas iniciativas abriram caminho para experiências envolvendo comunidades indígenas.
Início dos anos 2000
Projetos culturais começaram a levar computadores, câmeras digitais e gravadores de áudio para algumas aldeias indígenas.
Essas ferramentas passaram a ser utilizadas para:
registrar cantos tradicionais
produzir vídeos culturais
documentar rituais e festas
registrar narrativas dos anciãos
Surgimento das redes digitais indígenas
Com a expansão da internet no Brasil, surgiram iniciativas voltadas à criação de redes de comunicação indígena, permitindo a troca de informações entre diferentes comunidades.
Essas redes ajudaram a fortalecer a articulação cultural e política entre povos indígenas.
Projetos culturais indígenas digitais
Durante esse período, diversos projetos culturais passaram a incentivar jovens indígenas a utilizar tecnologias digitais para produzir conteúdos culturais.
Entre as atividades desenvolvidas estavam:
produção de vídeos
registros fotográficos
gravações de cantos tradicionais
criação de blogs e páginas na internet
comunicação digital entre aldeias
Cultura digital nas aldeias
Com a popularização dos telefones celulares e da internet móvel, a comunicação digital tornou-se cada vez mais presente nas comunidades indígenas.
Essas tecnologias passaram a ser utilizadas para:
divulgar manifestações culturais
registrar eventos e encontros indígenas
compartilhar experiências entre povos
fortalecer identidades culturais
Cultura digital indígena contemporânea
Hoje, muitos povos indígenas utilizam a tecnologia digital como instrumento de:
preservação cultural
comunicação intercultural
produção artística
registro histórico
educação indígena
Assim, a cultura digital tornou-se um novo território de expressão das identidades indígenas.
MANIFESTO DA CULTURA DIGITAL INDÍGENA
A Palavra Antiga nos Caminhos do Futuro
Durante muitos séculos, os povos indígenas guardaram sua memória por meio da palavra falada, dos cantos sagrados, das danças rituais e das histórias contadas pelos anciãos.
A tradição caminhou através da voz humana.
Ao redor das fogueiras, nas margens dos rios, nas casas comunitárias e nos caminhos da floresta, as histórias foram transmitidas de geração em geração.
Assim se preservou a memória dos povos.
Assim continuaram vivos os conhecimentos antigos.
Hoje, novos caminhos surgem diante de nós.
As tecnologias digitais, os computadores, as câmeras, os celulares e as redes de comunicação abriram novos territórios para a palavra indígena.
Essas ferramentas não substituem a tradição.
Elas ampliam os caminhos da memória.
Quando um canto tradicional é gravado, ele atravessa o tempo.
Quando uma história é escrita ou publicada, ela alcança outros povos e outros lugares.
Quando uma fotografia registra um momento da comunidade, ela guarda uma parte da vida coletiva.
Assim nasce a cultura digital indígena.
Não como abandono da tradição, mas como continuação dela.
Os povos indígenas sempre foram criadores de cultura.
Criaram cantos, grafismos, rituais, histórias e modos de viver em harmonia com a terra.
Agora também criam imagens, textos, vídeos e registros digitais.
A cultura continua viva.
A palavra antiga agora também caminha pelos caminhos da internet.
Este livro é parte dessa caminhada.
Ele registra momentos em que tradição e tecnologia se encontraram nas aldeias.
Momentos em que jovens e anciãos compartilharam saberes, utilizando novas ferramentas para preservar antigas memórias.
A cultura indígena não pertence apenas ao passado.
Ela continua presente e seguirá existindo no futuro.
Nos cantos de Toré.
Nas histórias contadas às crianças.
Nas danças que celebram a vida.
E também nos arquivos digitais, nas redes de comunicação e nas páginas escritas que guardam a memória dos povos.
Assim afirmamos:
A cultura indígena continua viva.
E agora também caminha pelos territórios da comunicação digital.
Pelos povos indígenas do Brasil
Pelas gerações que virão
Pela memória que continua viva
✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó
Povo Kariri-Xocó
Margens do rio Opará
GLOSSÁRIO
(termos presentes nos contos)
Aindzu – mar, oceano.
Arankedzoá – nuvens.
Aranke – céu.
Atseá – pessoas da comunidade.
Buruhú – arte.
Crametekié – computador.
Cramycá – caixa, aparelho.
Craiwonpiwon – CD.
Craiwopewa – DVD.
Dakloná – adornos indígenas.
Duboherí – mestre da cultura.
Hineidzebae – aparelhos eletrônicos.
Idzebae – eletricidade.
Iworó – disco.
Kaie Pitéibá – diário na rede.
Natiá – aldeia.
Opará – rio São Francisco.
Pité – rede.
Pité Uanieá Piteiatekié – Rede Índios On-Line.
Pohiesawa – câmera de vídeo.
PUTOB – Rede Indígena de Arte e Artesanato.
Radá – terra.
Radda Iworó – mundo.
Samy Bohé – memória social.
Tokliddaysã – telefone celular.
Toré – ritual sagrado indígena.
Uanieá – indígena.
Uché – tempo.
Wonhé – canto.
SIGNIFICADO HISTÓRICO DA OBRA
O livro “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança” registra uma etapa importante desse processo.
As narrativas reunidas na obra documentam experiências vividas por comunidades indígenas que participaram das primeiras iniciativas de comunicação digital nas aldeias.
Esses relatos mostram como tradição e tecnologia podem caminhar juntas, criando novas formas de preservar e compartilhar a memória cultural indígena.
DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da aldeia localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas, às margens do rio Opará (São Francisco).
Contador de histórias oral e escrita, Nhenety dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo e à divulgação das experiências indígenas relacionadas à educação, à comunicação e à cultura digital.
Participou de diversas iniciativas culturais e educativas voltadas à valorização das culturas indígenas, incluindo projetos ligados à produção literária, audiovisual e digital.
Seu trabalho busca fortalecer a tradição ancestral por meio de novas linguagens, mostrando que a cultura indígena continua viva e em constante transformação.
SOBRE A OBRA
Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança reúne dez contos inspirados em experiências reais vividas por comunidades indígenas do Nordeste brasileiro no início do século XXI.
As narrativas revelam momentos marcantes do encontro entre tradição ancestral e tecnologias contemporâneas, mostrando como povos indígenas passaram a utilizar ferramentas digitais para registrar suas histórias, fortalecer suas identidades e dialogar com o mundo.
Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho da presença indígena na construção de novas formas de comunicação e expressão cultural.
ORELHA DO LIVRO
Este livro apresenta histórias que nascem da memória viva das aldeias e atravessam os caminhos da tecnologia.
Entre fogueiras ancestrais e telas digitais, Nhenety Kariri-Xocó narra episódios que revelam como povos indígenas do Nordeste brasileiro passaram a ocupar também os territórios da comunicação contemporânea.
Projetos culturais, redes digitais, gravações de cantos tradicionais, produção audiovisual e iniciativas de intercâmbio cultural aparecem aqui transformados em contos que unem realidade e narrativa poética.
Cada página mostra que tradição e inovação não são opostas: caminham juntas.
Ao transformar experiências coletivas em literatura, o autor constrói uma obra que registra um momento importante da história recente das culturas indígenas no Brasil.
Um livro sobre memória, identidade e esperança.
CANTO FINAL DO OPARÁ
Quando o sol começa a se esconder atrás das serras e o vento da tarde toca as águas do Opará, o rio continua sua caminhada silenciosa.
Ele já viu muitas gerações passarem.
Viu povos antigos cantarem às suas margens.
Viu crianças correrem na areia branca.
Viu histórias nascerem nas rodas de conversa ao redor das fogueiras.
O Opará sempre escutou a palavra dos povos.
E guardou essas palavras em sua correnteza.
Hoje, novas vozes também atravessam o mundo.
São vozes que caminham pelas ondas invisíveis da comunicação.
Palavras que viajam por fios, sinais e redes.
Mas a essência continua a mesma.
A palavra que nasce da memória.
A história que nasce da experiência.
O canto que nasce do coração da comunidade.
Assim como o rio continua seu caminho até encontrar o mar, as histórias também continuam sua viagem.
Elas seguem pelas páginas dos livros.
Pelas telas iluminadas.
Pelos arquivos da memória.
E também pelos caminhos da tradição.
Este livro é como uma pequena canoa colocada nas águas do Opará.
Nele viajam histórias, cantos, memórias e sonhos.
Que essas palavras continuem navegando.
Que encontrem novos leitores.
Que cheguem às mãos das futuras gerações.
E que nunca deixem de lembrar:
A cultura indígena continua viva.
Assim como o rio.
Assim como a memória.
Assim como o canto que ecoa nas margens do Opará.
✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó
Povo Kariri-Xocó
Margens do rio Opará
ESTE LIVRO FOI ESCRITO ÀS MARGENS DO OPARÁ
Este livro foi escrito às margens do Opará, o grande rio que atravessa territórios e memórias.
Foi ali, entre as águas que correm antigas e as vozes que continuam vivas na comunidade, que nasceram muitas das histórias aqui reunidas.
Nas rodas de conversa, nos encontros entre parentes, nas viagens entre aldeias e nos momentos de observação da vida coletiva, surgiram as lembranças que deram origem a estas narrativas.
Algumas histórias foram vividas.
Outras foram escutadas dos anciãos.
Outras nasceram da convivência com os projetos culturais que aproximaram tradição e tecnologia nas aldeias.
Assim como o rio segue seu caminho levando águas para muitos lugares, estas histórias também seguem viagem.
Elas caminham agora pelas páginas deste livro, pela memória dos leitores e pelos caminhos da cultura digital.
Que estas palavras continuem navegando.
Que alcancem novas gerações.
E que nunca se esqueça que a cultura indígena continua viva, renovando-se a cada tempo.
✍🏽 Nhenety Kariri-Xocó
Povo Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio — Alagoas
Margens do Opará
Brasil
QUARTA CAPA
Entre as águas antigas do Opará e as redes invisíveis da internet, surgem histórias que revelam novos caminhos da cultura indígena.
Em “Thydewá Samysã Coram – Na Cultura Digital da Esperança”, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos inspirados em experiências reais vividas por comunidades indígenas do Nordeste brasileiro no início do século XXI.
Ao longo das narrativas, tradição e tecnologia caminham juntas.
Cantos rituais são registrados em gravações digitais.
Celulares tornam-se instrumentos de comunicação entre aldeias.
Projetos culturais conectam jovens indígenas a novos territórios de conhecimento.
Este livro mostra que a cultura indígena continua viva, reinventando-se e ocupando também os espaços da comunicação contemporânea.
Mais do que um livro de histórias, esta obra é um testemunho de memória, resistência cultural e esperança.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó












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