quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DAS GRANDES PROPRIEDADES RURAIS DA ANTIGUIDADE AO BRASIL E SUA INFLUÊNCIA NA ESTRUTURAÇÃO DAS CIDADES






1 INTRODUÇÃO



A terra, enquanto espaço produtivo e simbólico, constituiu elemento central na organização das sociedades humanas. Desde a Antiguidade clássica até o Brasil, as grandes propriedades rurais moldaram estruturas econômicas e sociais. No caso brasileiro, sua consolidação esteve associada às contribuições indígenas e africanas, frequentemente invisibilizadas pela historiografia tradicional¹.



2 DESENVOLVIMENTO


2.1 Estruturas agrárias na Antiguidade


Na Grécia Antiga, a produção agrícola sustentava a pólis². Pequenas e médias propriedades garantiam a autonomia alimentar das cidades-estado.

Posteriormente, na Roma Antiga, consolidaram-se os latifundia³, grandes propriedades voltadas à produção comercial. Essas unidades abasteciam a cidade de Roma e dependiam amplamente do trabalho escravo⁴.



2.2 A reorganização fundiária medieval


Com a fragmentação do Império Romano, a terra tornou-se o principal elemento de poder político e econômico. O sistema feudal estruturou-se em torno dos feudos⁵, compostos por terras do senhor e parcelas cultivadas por servos.

Ao redor dessas unidades produtivas surgiram vilas e burgos⁶, embriões do renascimento urbano europeu.



2.3 A formação das fazendas no Brasil e a contribuição indígena


Quando os portugueses chegaram ao território americano, encontraram sociedades indígenas com sistemas agrícolas consolidados⁷. Técnicas como o cultivo da mandioca e o uso da coivara⁸ foram incorporadas à economia colonial.

Os povos originários também desempenharam papel fundamental na abertura de caminhos, na orientação geográfica e na adaptação da produção agrícola ao clima tropical.



2.4 A matriz africana na consolidação das fazendas


A economia açucareira, mineradora e cafeeira estruturou-se com base no trabalho de africanos escravizados⁹. Contudo, esses grupos trouxeram conhecimentos agrícolas, metalúrgicos e culturais que marcaram profundamente a formação da sociedade brasileira¹⁰.

As fazendas tornaram-se espaços de resistência cultural¹¹, onde práticas religiosas, musicais e alimentares africanas foram preservadas e transformadas.



2.5 A transição rural-urbana no Brasil


No século XIX, com a expansão cafeeira em regiões como São Paulo e Minas Gerais, consolidou-se o capital agrícola que financiaria ferrovias e núcleos urbanos¹².

A cidade brasileira formou-se como espaço multicultural, resultado da interação entre matrizes europeias, indígenas e africanas.



2.6 Povos do Nordeste e do Vale do São Francisco: territorialidade, fazendas e formação urbana


No Nordeste colonial, especialmente na região do Vale do Rio São Francisco, a formação das fazendas esteve diretamente relacionada aos processos de ocupação territorial, expansão pecuária e reorganização dos povos indígenas locais.


O Vale do São Francisco constituiu eixo estratégico de interiorização da colonização portuguesa, articulando o litoral açucareiro com o sertão pecuarista. A pecuária expandiu-se ao longo do rio como atividade complementar ao açúcar, fornecendo carne, couro e animais de tração para os engenhos.


Nesse contexto, a formação de fazendas no interior nordestino não ocorreu em território vazio, mas sobre espaços tradicionalmente ocupados por diversos povos indígenas¹³. Entre esses povos destacam-se os grupos Kariri, que habitavam extensas áreas do sertão e do baixo São Francisco.


2.6.1 A Fazenda Urubumirim e a formação de Porto Real do Colégio


Segundo MATA (1989; 2014), a colonização da região de Porto Real do Colégio, em Alagoas, está vinculada à formação da Fazenda Urubumirim, datada de 1675. Essa fazenda tornou-se núcleo estruturante da ocupação territorial na área, integrando-se ao movimento de expansão agropecuária no baixo São Francisco.


A implantação da fazenda articulava:


Exploração pecuária;


Controle territorial;


Catequese e política indigenista colonial;


Consolidação de estruturas administrativas.


A região também foi marcada pela presença de missões religiosas, que atuaram na reorganização dos povos indígenas locais sob o modelo colonial¹⁴. A dinâmica entre fazenda, missão e aldeamento configurou uma nova organização territorial.


Contudo, conforme demonstra MATA (2014), o processo não significou desaparecimento cultural, mas transformação e resistência. O povo Kariri-Xocó manteve estratégias de afirmação identitária e continuidade territorial mesmo diante da integração forçada ao sistema colonial.



2.6.2 Estrutura social e econômica no Vale do São Francisco


As fazendas do Vale do São Francisco apresentavam características específicas:


Predominância da pecuária extensiva;


Uso de mão de obra indígena e posteriormente africana;


Formação de redes comerciais fluviais;


Surgimento de núcleos populacionais ao redor das propriedades.


O rio São Francisco funcionava como via de circulação econômica e cultural¹⁵, conectando diferentes regiões do Nordeste. Ao redor das fazendas surgiam capelas, armazéns e povoados que, gradualmente, evoluíam para vilas e municípios.


A formação de Porto Real do Colégio insere-se nesse contexto histórico, em que a fazenda não era apenas unidade produtiva, mas núcleo de reorganização territorial e social.



3 CONCLUSÃO



A evolução das grandes propriedades rurais demonstra continuidade estrutural desde a Antiguidade até o Brasil. Entretanto, no contexto brasileiro, a formação das cidades foi resultado de um processo multicultural e assimétrico.


Reconhecer as contribuições indígenas e africanas permite compreender a urbanização brasileira não apenas como fenômeno econômico, mas como construção histórica marcada por resistência, adaptação e síntese cultural.


A análise histórica evidencia que as grandes propriedades rurais exerceram papel central na formação das cidades desde a Antiguidade. No entanto, no Brasil — e particularmente no Nordeste e no Vale do São Francisco — esse processo esteve profundamente vinculado à territorialidade indígena e à presença africana.


A Fazenda Urubumirim, fundada em 1675, representa exemplo concreto da transformação do espaço indígena em unidade produtiva colonial, ao mesmo tempo em que revela processos de resistência e continuidade cultural do povo Kariri-Xocó.


Dessa forma, compreender a formação urbana de Porto Real do Colégio e de outras localidades nordestinas implica reconhecer a fazenda como espaço de disputa, adaptação e permanência histórica.



NOTAS DE RODAPÉ



¹ A historiografia tradicional priorizou a perspectiva europeia, reduzindo o protagonismo indígena e africano.

² Pólis: cidade-estado grega caracterizada por autonomia política e econômica.

³ Latifundia: grandes propriedades rurais romanas destinadas à produção comercial em larga escala.

⁴ O trabalho escravo em Roma era resultado, sobretudo, das guerras de expansão territorial.

⁵ Feudo: unidade territorial da sociedade medieval baseada na posse senhorial da terra.

⁶ Burgos: núcleos urbanos que surgiram próximos a castelos ou rotas comerciais medievais.

⁷ Antes da colonização, povos indígenas já praticavam agricultura diversificada e manejo ambiental sustentável.

⁸ Coivara: técnica agrícola indígena baseada na queima controlada da vegetação para fertilização do solo.

⁹ O tráfico atlântico trouxe milhões de africanos para o Brasil entre os séculos XVI e XIX.

¹⁰ Muitos saberes agrícolas africanos foram fundamentais para o sucesso da produção açucareira e cafeeira.

¹¹ Resistência cultural refere-se à preservação de práticas religiosas, linguísticas e comunitárias mesmo sob regime de opressão.

¹² A expansão ferroviária brasileira esteve diretamente ligada à economia cafeeira do século XIX.

¹³ O sertão nordestino era habitado por diversos grupos indígenas antes da expansão colonial portuguesa.

¹⁴ As missões religiosas tinham como objetivo catequizar e integrar os povos indígenas ao sistema colonial.

¹⁵ O Rio São Francisco foi importante eixo econômico, cultural e estratégico na interiorização do Brasil colonial.




REFERÊNCIAS




FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FINLEY, Moses I. A economia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1990.


FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.


MATA, Vera Lúcia Calheiros da. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. 2014. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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