Quando os missionários chegaram às margens do Opará, não vieram apenas com cruzes e promessas. Trouxeram também o silêncio.
Levaram os Uanieá, indígenas para a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde escreveram o Tonranraná — livros de gramática e catecismo — para entender como nosso povo falava, como pensava, como nomeava o mundo.
Aprenderam nossa Nunú Antse, língua nativa para, depois, nos ensinar a esquecê-la.
Os Waréá passaram a ensinar a Samy Caraí, a cultura dos brancos, e proibiram nossos antepassados de falar a língua nativa. A ordem era clara: a partir dali, só o Nunú Peró, língua portuguesa deveria ser ouvida. A língua Kariri foi empurrada para dentro das casas, depois para dentro da memória, até quase desaparecer no fundo do silêncio.
O tempo seguiu seu caminho duro.
A antiga Natiá, aldeia virou Naticróraí, povoação dos brancos. As terras foram tomadas, os direitos negados, e já no Império do Brasil nosso povo foi declarado invisível. Mas o espírito Kariri-Xocó nunca aceitou o fim.
Quando chegou a República, chegou também o tempo de lutar outra vez pelo reconhecimento étnico.
Foi na Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, que um gesto pequeno reacendeu a chama. Ali, no Posto Indígena, o indígena Iraminõ reuniu o que ainda restava da língua: poucas palavras, sobreviventes, datilografadas em quatro folhas de papel, em letras vermelhas — como se o sangue da memória ainda pulsasse nelas.
O jovem Nhenety soube da existência daquele vocabulário. Procurou Iraminõ. Sentaram, conversaram, compartilharam palavras como quem partilha sementes raras. Já na Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo, algo começou a nascer: o Nhaehí Aiby Nunú — o Resgate da Língua.
Com um Cramycá Samyonhé, um simples gravador de voz, Nhenety passou a traduzir os Wonhé Torá, os cantos de Toré, para a língua Kariri. Depois criou um blog, onde espalhou cantos, frases e palavras, oferecendo aos jovens da aldeia aquilo que quase lhes havia sido roubado: a própria voz.
A tecnologia, antes instrumento de apagamento, virou ali ferramenta de resistência.
Com o apoio da Thydêwá, ONG cultural, e ao lado de Sebastian, seu amigo Caraí, Nhenety gravou CDs e DVDs de cantos de Toré. O som antigo ganhou novos caminhos, atravessando fios, telas e gerações.
A revitalização da língua ganhou novo fôlego com a criação do grupo de WhatsApp OKAX, reunindo cerca de cento e vinte participantes. Logo depois nasceu a Escolinha da Língua Subatekié Nunú, conduzida por Indiane Crudzá e Nhenety — professora e coordenador pedagógico — onde a língua deixou de ser lembrança e voltou a ser ensinada.
Vieram também os estudiosos. Thea, Daiane, Elizabete. Caminharam junto, acompanharam as atividades, escreveram artigos e teses, sempre com a participação ativa de Nhenety e Indiane. A língua Kariri-Xocó, antes calada, passou a existir também nos livros, nas universidades, sem perder o chão da aldeia.
E assim, palavra por palavra, canto por canto, a Nunú Antse voltou a respirar.
Porque uma língua não morre enquanto houver quem a pronuncie com o coração.
Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário