Na aldeia Kariri-Xocó, às margens do velho Opará, havia um tempo em que o artesanato era silêncio e espera. As mãos sabiam fazer, mas o mundo ainda não sabia ver.
As mulheres trançavam fibras como quem tecia histórias antigas. Os homens entalhavam madeira como quem desenhava espíritos da mata. As crianças aprendiam observando, pois ali a arte não era ensinada — era herdada no sopro da convivência.
Foi então que chegou uma notícia trazida pelo vento da tecnologia.
A ONG Thydêwá anunciava um projeto que uniria povos distantes por um mesmo fio: Kariri-Xocó, Pankararu, Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá de Olivença. O nome soava leve e forte ao mesmo tempo: Rede Indígena Solidária de Arte e Artesanato.
RISADA.
Alguns sorriram ao ouvir.
— Se é RISADA, que traga alegria — disse um ancião.
E trouxe.
A rede não era feita de cipó, mas de conexões invisíveis. Não era armada entre árvores, mas estendida pela internet. Uma loja virtual nasceu como uma nova oca coletiva, onde os artesanatos não apenas eram vendidos, mas apresentados com dignidade, história e identidade.
Não era comércio comum.
Era troca.
Era articulação.
Era partilha de saberes.
Cada peça carregava mais do que matéria: carregava território, memória, luta e pertencimento.
Com o passar dos anos, o projeto deixou de ser apenas apoio externo e começou a se transformar em autonomia. As comunidades aprenderam a lidar com os novos meios tecnológicos como quem aprende um novo instrumento, sem abandonar o tambor antigo.
A rede cresceu, mas não perdeu sua raiz.
Falava-se então:
— Se RISADA é o nome em português, como seria em nossa língua?
Reuniram-se os guardiões da palavra. Pensaram. Traduziram não apenas letras, mas sentidos.
E nasceu PUTOB – Pité Uanieá Totsouka Buruhúá.
Pité — Rede.
Uanieá — Indígena.
Totsouka — Arte, gente que Inventa com amor
Buruhúá — Artesanato
Não era apenas tradução.
Era reafirmação.
Assim, a RISADA virou PUTOB.
E PUTOB não era só projeto.
Era declaração de que o povo que inventa, inventa junto.
A rede que antes era silêncio tornou-se voz.
A voz tornou-se venda justa.
A venda tornou-se valorização.
E no meio de tudo isso, havia algo maior que o lucro:
a permanência da cultura.
Hoje, quando alguém acessa aquela loja virtual, talvez veja apenas colares, cestarias, esculturas. Mas quem conhece a história sabe: ali não se compra apenas arte.
Compra-se continuidade.
E toda vez que uma peça encontra novo caminho, ecoa na aldeia uma certeza antiga:
A rede está viva.
A invenção continua.
E o povo segue criando — coletivamente.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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